La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

2.26.2007

Lição de biologia

A vida é rosa de lava
Pétala incandescente.

Mas é a ternura quem a incandesce
Nela sobe e desce
Gemina e cresce
Como nas veias da gente.
Porquanto nunca esquece
Que quem se merece
Além de flor
E fruto do amor,
É também semente!

Álgebra sentimental

Qual o peso do beijo na ternura?...
Se as tuas mãos tocassem as minhas
E sentissem meus lábios nesta altura,
Teriam colinas em vez de linhas
E nelas minas… de lava pura!

2.21.2007

adivinha

Se ao lusco-fusco foi encontrada,
Então, como se chama a moura encantada?

Conta-se que noutros tempos, em que ainda o sal era a moeda de troca corrente, com o qual se pagavam todos os bens comprados ou serviços prestados, de onde derivou o termo salário, tão em voga hoje pela sua escassez, quando estas terras hermínias e interiores da foz do Rio Guadiana até ao Cabo Finisterra, actual La Coruña, eram governadas por iberos, frígios e hititas, comummente conhecidos por celtiberos e mais tarde denominados lusitanos, seria senhor e rei da Aramenha o pai de uma linda rapariga, a princesa Amahya, ditosa e afamada mil léguas em redor tanto pela ímpar beleza como pela sua generosa bondade, afabilidade no trato e nobreza de carácter, aliás facilmente testemunhados por quantos, súbditos, estrangeiros e escravos, consigo tiveram a honra de privar e conviver.
Ora, atribuíra-lhe seu pai como dote, no dia em que fizera dezasseis anos, o senhorio e posse de todas as terras e povoados sitos entre a nascente do Sver e o desaguar do G'bora, cujo castro principal veio depois de romanizado a ser conhecido por Portus Alacer, importante entreposto de passagem das caravanas do sal para o continente europeu de aquém e além Pirinéus, extraído das salinas exploradas, no litoral sadino, por fenícios e gregos, sede do território que governou exemplarmente durante oito anos, até à idade de vinte e quatro, altura em o pai fora morto, à traição, pelo rico e próspero mercador estrangeiro que desposara no dia do seu 23º aniversário, sábado, 23 de Maio de 101, da era de César, e se veio a confirmar posteriormente ser um capitão romano, espião infiltrado nos seus domínios com a missão específica de preparar a tomada do reino de Aramenha pelas hostes da Roma imperial. Que se albergara em seu coração para lhe assassinar quem lhe dera o ser e o sangue. Que cativara, escravizara e possuíra o que de mais de sagrado em si havia, lho incendiara com o fogo da paixão e da entrega, mas também o destruíra fazendo correr nele o veneno da morte e da traição. Estilhaçara cruelmente com a dor, o desespero e loucura da desilusão, por fidelidade ao império. Que destruíra o amor trocando-o por Roma, num só golpe de adaga.
E nesse mesmo dia, domingo, 24 de Maio do ano 102, em que sentira o maior desgosto que à alma humana pode afluir, o de saber-se traída e amaldiçoada por aquele a quem se rendera e confiara em votos eternos, recolhera numa trouxa quanto ouro tinha e carregar pode, salvas de prata e pedrarias preciosas, diademas, brocados, braceletes, colares, correntes e canas de estáteres, lídias, dracmas e cestércios, e correu a refugiar-se na charneca com Mnemósine, sua aia e madrinha, depois de terem passado a vau a ribeira onde puderam, sem serem avistadas do castro nem pelos guardas da portagem, escondendo-se na Gruta dos Ladrões até que outra melhor forma de sobreviver se lhe oferecesse. Porém, o choro e soluços de Amahya eram tão violentos e incontroláveis, angustiados e desesperante, tão infinitamente coitados, que Mnemósine temendo serem denunciadas por eles, postas ao perigo dos lobos, como dos facínoras e salteadores, guardas romanos e avantesmas da noite, usou de seus poderes mágicos fechando a gruta quase totalmente, deixando-lhe apenas no alto larga clarabóia de respiração e luz, para que no seu interior permanecesse o perpétuo lusco-fusco do ocaso, encantando nela a sua princesa e assim lhe sossegasse o coração, o sono purificador o restaurasse e, num futuro longínquo para lá do lá e dos séculos dos séculos, viesse a nascer nele novamente a luz da entrega e da paixão, do puro prazer e do amor secreto, infinito e universal, que lhe acalentara a vontade e alegria de viver, até ao momento em que soubera da morte de seu pai, quem o matara e em que circunstâncias tal acontecera. Onde ainda hoje está, embora diversas vezes tenha dela saído se alguma alma pura e fiel ao seu amor lhe passa perto, numa saudosa necessidade de o confirmar com seus olhos, a fim de beberem a esperança que é a única energia que lhe alimenta o corpo e a psique, para que estes se não diluam no nada e esquecimento de si, que é de todas as mortes a mais definitiva e ímpia.
Como o sei eu? Não, não é invenção minha... Foi minha avó que me contou que a bisavó dela soubera de sua trisavó, que um pastor dos Fortios, de dezassete anos, seu familiar e com quem muito privara na mocidade, a vira por essa hora, em que no céu surge Vésper a pontificar a tarde, iluminado o espectro translúcido do lusco-fusco, quando regressava num sábado de folga, igualmente 23 de Maio, mas do ano 1500 da era cristã, em que se demorara além do costume junto de sua conversada, mais nova que ele um aninho e a servir em casa nobre do burgo, namorando até depois do sol se pôr, e que ao passar junto do local agora chamado Cova da Moura, precisamente a meio caminho entre a ermida e a cruz, na Serra da Penha, pelo único carreiro que ligava então as duas povoações, encontrara aí sentada num tamborete bordando, uma linda rapariga vestida de tules, sedas e brocados, de longos e anelados cabelos negros, sob o véu carmesim que o diadema cingia à fronte alva, sorriso de ninfa e olhar amendoado, em tudo mais linda que as princesas das iluminuras dos contos de fadas, que tinha a seus pés uma salva de prata com figos em passa, e o sorrindo celestialmente o saudou, oferecendo-lhe os apetitosos frutos secos. Milagre nem visão seria, pensou o moço, que bem a via e ouvia dizendo «toma, serve-te de quantas te aprouver, para comeres no caminho», mas o certo é que a muita sorte e inesperada beleza também assusta os humildes, e ele da bandeja, em precipitação e receio, apenas tirou três passas, que meteu no bolso sob o intento de as atirar fora antes de chegar a casa e longe da visão da senhora que lhas ofertara, pois comê-las nem o pensara sequer, por temor de mesinha ou feitiço. E pernas para que vos quero, que se bastante pressa tinha com redobrada ficou, deitando a correr lesto e ligeiro pela vereda, olhando diversas vezes para trás a confirmar se seguido não seria. Não era. Por isso, mal avistou o seu lar, eis que meteu a mão ao bolso para aventar as ditas, mas nela encontrou em vez de passas três libras de ouro, a refulgir como estrelas sobre a palma da mão... Deu-lhe o coração um baque e ia jogá-las nos silvados, quando a razão lhe ditou que seriam suficientes para fazer a sua casa e casar, trazer a namorada para junto de si, libertando-a de servir os demais que a exploravam e oprimiam. O que, em verdade, veio imediatamente a acontecer!
E confirma que nem toda a lenda é apenas fantasia, pois como me disse minha avó, que era sábia e conhecida dos mistérios da serranias e florestas, Mnemósine ali escondera, naquela gruta de ladrões, Amahya que fugia do assassino traidor, obstruindo-lhe a entrada num ocaso, à hora de vésperas do dia 24 de Maio, do ano 102, da era de César, por sinal um domingo, primeiro dia da semana, habitando desde então o lusco-fusco das galerias subterrâneas do ser, onde cada portalegrense a acalenta e rejuvenesce sempre que a paixão o arrebata. E a minha avó jamais me mentiria, pois era tradição da família, que remontava ainda de muito antes de ter nascido a bisavó da trisavó dela, nunca enganar as crianças, nunca lhes mentir, nem conspurcar a sua inocência ou atrofiar a sua liberdade e imaginação, porque delas é a roda em que giram e dançam, vestidas de sonho, feito verbo em tecido branco, e esperança, com que geralmente se coroam de flores de giesta, representando o diadema nupcial de casar as vésperas com o amanhã, o futuro, a aurora, vontade e alegria de viver. Como lhe aconteceu também a ela, criando nos netos uma prova sua. Portanto, qual é o seu nome? Quem o sabe dizer?

2.17.2007

A SARDANISCA

No granítico muro que delimita o canteiro
Das rosas mais mal afamadas da minha aldeia
Costuma estender-se ao comprido do dia soalheiro
Uma lagartixa sarapintada, por sinal nada feia.


Dá-me até a entender, pela sua atitude pensativa
Que medita em êxtase profundo
Sobre os pecados do mundo.


Ou então que me escuta sem cerimónia restritiva
Enquanto declamo por supetão
Alguma estrofe mais exclamativa.


Sendo como é, infiel aos suplícios da estética,
Da rima com rima em forma atlética,
Sucede-lhe por vezes, porém, inclinar a cabeça
Logo que no recital tropece ou a voz da emoção
Me estremeça.


Atenta, arisca, feminil
Esta réptil figura tem ainda
Aquele retoque especial e primaveril
Que São Martinho ao Outono ensina.


Tem trejeitos inteligentes de gente animada
E, se se coça por mor de alguma areia
Palhiço ou delével teia,
Como quem se enfeita ensimesmada
Mirando-se provavelmente em imaginários vitrais,
Quase parece uma tal outra qu’eu conheço
Cujo nomear tão-pouco mereço
E que mora noutros quintais.


Nas tuas faces jovens e malandrecas
Que quando sorriem são traquinas
Matreiras, ladinas
Mas se serenas... imitam a cera das bonecas.

As Pequenas Memórias e Vinte Quatro Horas na Vida de uma Mulher

As Pequenas Memórias
José Saramago

Quaisquer memórias que sejam, minúsculas ou enormes, claras ou obscuras, espontâneas ou intencionais, realistas ou mágicas e fantasiosas, serão sempre pergaminhos, uns bem conservados, outros menos, mas sem dúvida registos ambos duma existência, posto que remota, podendo embora o não ser, por recém-nascida como tida, e actualizadas em diferente suporte; primeiro, o seu tempo dentro do tempo todo, depois apenas deste, enquanto olhar que se debruça sobre o outro, o inicial enfim. E nisso o título de José Saramago em nada nos espanta, nem impõe valores acrescentados pela escolha. Agora, que elas sejam pequenas é que já é mais suspeitoso, pois algo só pode ser grande ou pequeno em relação a outro algo, que não pode comparar-se o quer que seja relativamente a si próprio, sobretudo no tamanho e importância, sem espelho especialmente, visto uma coisa ser o si em si mesmo e outra, ainda que imagem fidedigna nunca será a própria coisa, mas a sua (in)confundível representação, uma vez que a primeira é sempre obrigada e irreversível, quando a segunda, além de optada, apetecível, como em condições de comunicada. E até gerida. Porque tudo aquilo que um autor viva, toque, leia, pense, bem assim os locais por que passou, podem transformar-se em literatura a qualquer momento, sendo o mínimo que lhes pode acontecer, de uma elevada gama de acontecências e hipóteses, além do que a pior delas, das sucedâncias consequentemente, será a de tornarem-se exemplares ou irrefutáveis, fazerem-se fascículos de credo, porta-vozes facciosas e modelo de encíclica interpretação.
Retomando a parábola dos estorninhos como dos sonhos de alguns deles, será que este mago do deserto, também dito Saara da planície, das dunas como da feminilidade bíblica, ou dessa Sara alentejana, incertamente distante dessa outra princesa dominadora hebraica, Sara da Conceição (ou da concepção) de mulher como de mãe, preenchida em ressonâncias judaicas como célticas, pagãs como cristãs, esposa fiel e incansável, de fraco reconhecimento e pior vida, habitante do chão levantado, que só é figura principal do processo de criação quando o homem se ausenta, esse pássaro gregário, negro e voraz, estorninho que seja, animal de bando e voo arruaceiro, barulhento, estridente, mas que teme tanto perder-se deste viver entre e com os demais, que sonha ser a ave solitária que resiste, mas do qual acorda quando o solitário voo em pesadelo se transforma? Ou essa inquietação ancestral em desperceber porque insiste em brilhar a luz num mundo onde raros a vêem, de quase nunca como quase únicos? Ou porque havendo mortos e vivos lhes separam os mundos, se jamais uns poderão ser uns sem terem sido outros, nem serem estes senão o fim último dos demais, dando-lhes presentes diferentes quando tiveram iguais passados para idênticos futuros? Para que há-de arrumar o universo pela tômbola do tempo se a sua principal característica é precisamente desarrumá-lo?
Porque estas memórias do nobel português, não são simplesmente umas memórias pessoais, ainda que suportadas nelas, inspiradas pela infância e adolescência do autor, época em que lhe teria sido inculcada a tendência para reconhecer o quanto de fabuloso e fantástico e inaudito a vida encerra, o despertar para essa coisa maravilhosa que é reconhecer que a sabedoria não é uma só e absoluta, mas diversa e miraculosa, pois surge inesperadamente naqueles que tiveram menos recursos para a adquirir, não tiveram outra formação além da conseguida pelo facto de serem humanos, terem de resolver os problemas do seu quotidiano recorrendo apenas ao seu coração e raciocínio, inseparáveis um e outro, sempre reconhecendo que o pensamento é inconcebível sem o afecto, mesmo se firmado na linguagem fria e dura dos números, ou que sentir sem calcular o valor desses sentimentos é tonteira obscena e imoral, dado que amar sem o pensar para melhor saber fazê-lo é tara de egoísmo criancista, já que ninguém em seu perfeito juízo pode alhear-se do significado cognitivo de gestos primaciais como resguardar no seu próprio leito os porquinhos que lhe garantem o pão ou despedir-se, antes de morrer, de cada árvore do quintal como se de familiares, que em verdade foram, deveras se tratassem, o que faz delas, destas memórias, uma, mais uma diremos nós, novela de ajuste de factos para restabelecer o pacto com a narrativa alegórica, usando a técnica do labirinto e respectivo fio de Ariane, a reiteração, para desvendar, percorrendo-o, um espaço-quando precioso ao realismo mágico ibérico que é o tempo da infância bucólica, residente nas lembranças dos meninos e moços, independentemente de serem ou não as do autor, ou seus autores. Porque o leitor também é autor dessas memórias, na medida em que as recria confrontando-as com as suas, ou, se acaso possui imaginação e conhecimentos que lho permitam, retira delas ensinamentos para si comparando essas com outras memórias, semelhantes como diferentes, do mesmo ou de outros tempos.
Dito isto, quando nos referimos a memórias diremos novela, que por tal as podemos ler, pois assim lendo-a reconhecemos mais facilmente que esta relata aquele momento, porventura único na obra total de um escritor, universal ao caso, convém não esquecer, em que as personagens se tornaram mestres e o autor seu dedicado aprendiz, podendo legitimamente concluir-se dela, nela, por ela, quanto a literatura transforma a pessoa, não só ao ponto de lhe modificar o presente, alterar a intenção de futuro, mas igualmente de sublimar-lhe o passado, sobretudo naquelas situações em que a memória menos viva deixou em aberto um espaço para preenchimento com a teoria da vida, que por remotas careceram de atenção pertinaz, associações tão livres quanto controversas e subjectivas, e, por isso mesmo, essencialmente nucleares ou homem em que se tornou, se fez, se teceu e reinventou, no imbricado da escrita, poeta que seja, ou ficcionista – mas sempre, e indubitavelmente, Saramago, ou também planta para esparregado de pobre e expatriado, alimento de animais de criação, coelhos e porcos, por mealheiros apelidados nos canhenhos lexicais campesinos, cuja flor de quatro pétalas foi, é, elemento substancial na dieta do pensamento mediterrânico e peninsular. Que por duas vezes tida pode achar-se nela a rosácea, como em José primeiro nome comum a Dinis, seu homónimo parceiro das pescarias no Almonda, lavador das Azinhagas do mundo, ruelas com foral desde o décimo terceiro século, alagador de lezírias ladeado por choupos, que fazem um todo verde e sonoro, pois de ramo em ramo acorda o canto das aves que lhe moram e pipilam o curso sinuoso, o cheiro a limos, a macieza quente do lodo vivo, caldo de vida, onde nadam os peixes como em lava de sangue, oscilando entre duas águas que nem apelos imprecisos da memória, ou enfim, digamos antes, da narrativa ao aquele que anteriormente ele fora. E a propósito convém recordar, como também as de Garrett foram e não grandes, porém precisas e de mestria, embora contrárias por que rio acima, tidas onde estas desaguam, exactamente por isso pertencentes ao mesmo caudal onde se fizeram as navegações interiores românticas, oriundas dos afluentes que ao Tejo engrossaram e fizeram maior, mas respigadores ambos de tormentos, significados e sentimentos, idos no fandango dos dias, qual leiva de coragem escorrente nos esteiros com que irrigaram o cultivo de sonhos, soeiras redolentes de caçar maias enquanto se guardavam rebanhos de metáforas no plantio dos seres convexos à lusitanidade da fala...
Houve quem afirmasse, ou mais precisamente, escrevesse, que este livro de Saramago consta única e exclusivamente de memórias, "memórias sem plano rigorosamente concebido, cronológico ou outro, antes acorrendo às páginas de forma casual, um facto lembrando outro, uma figura chamando outra", como se um escritor, qualquer escritor pudesse fazer isso depois de ter escrito cinco livrinhos somente, demais a mais tratando-se de um laureado com o Nobel e dezenas deles, como factualmente é, evidenciado claro está, quem tal afirmou, que muito pouco tem escrito, quer criando como avaliando escritos alheios, e da escrita ou seus modelos narrativos, semiótica ou interpretação analítica, esclarecimento dos efeitos da psicanálise na literatura, bem como nesta se revelam a introspecção e o método das associações livres, pouquíssimo o preocupem, uma vez que estas noções deveras circunscritas pelos glossários técnicos e científicos, raramente são exercidas ou exemplificadas pelos autores, que reservam esse mister aos seus personagens se caracterizados estão dentro de tal universo, o que são duas coisas assaz distintas e diferentes, pese embora partes integrantes e complementares do mesmo processo: a ficção narrativa. Ou relato em prosa que jamais se poderá enquadrar na biografia, na história ou no jornalismo.
Provavelmente por as não associar – às memórias – a outros textos onde terão inicialmente vindo a lume, como discursos, entrevistas, crónicas, recensões, onde essas memórias já teriam sido reproduzidas, estampadas, fixadas, retorcidas ou adaptadas aos enunciados pretendidos, enquadradas, coladas e adaptadas, e a que posteriormente, não sem de novo terem sido trabalhadas, foram retiradas para depois serem alinhadas segundo o espectro de memórias, perspectivadas de acordo com o modelo homérico, circunscritas num esquema e simbologia mnemónico, que embora parecendo desfiadas sem preocupações estruturais, formam um amplo painel de quadros bem precisos e reunidos segundo determinada ordem: a de quem navega à bolina, sem forçar a memória a poder de remos ou demais recursos mecânicos, além das correntes e marés. Enfim, da naturalidade (dis)cursiva. Principalmente, porque a criança que o autor foi não viu as paisagens nem as pessoas que lhe estavam associadas, da mesma forma que o adulto que ele é, e em que se tornou por mor dessas "visões", os vê a fim de os relatar, pois a criança estava nessas paisagens, convivia com essas pessoas, vivia-as realmente sem as interpretar para as transcrever. "Estava simplesmente na paisagem, fazia parte dela, não a interrogava, não dizia nem pensava", como o próprio afirma na página 15, se trepava ao topo do freixo distinguia coisas, mas agora quando se imagina a fazê-lo essas coisas viram significantes e seus significados, distintos daqueles outros que então vislumbrava. Até um cheiro é diferente da recordação desse cheiro, e ao odor de outrora o sujeito, ainda que sem o querer, lhe empresta alguma saudade de si. As figuras do passado seriam, nas tintas, no traço, nos vincos de personalidade, mutáveis conforme o ânimo ou situação a que foram acopladas; mas as descritas, incluindo as situações ou cenas que as integram, estão todas elas pelo propósito que se tem ao fazê-lo, metamorfoseando-se à semelhança do que sucedeu, por exemplo, com os avós maternos, Jerónimo e Josefa se chamavam, analfabetos ambos, mas acerca dos quais terá reconhecido imensos e incomuns sabedorias, a quem fez viajar até à Suécia através do discurso aí pronunciado na academia, que começa precisamente por esse reconhecimento ao proferir que "o homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto meia dúzia da porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. (...) No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto da água dos cântaros gelar dentro de casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salva-os de uma morte certa." Mas esta não é, sem dúvida alguma, dentro das memórias em livro, a única repetição, o único dizer acerca do que já anteriormente terá sido dito, sob vários motivos e diversos ângulos, que podemos constatar na obra, aliás metamorfose de passados escritos e memórias. E isso é ficção. É conjectura sobre conjecturas ainda que elevado grau de fidelidade as sustente. Sempre. Excepto nas excepções que confirmam a regra, o que este livrinho não é, ainda que excepcional!

Vinte e quatro horas da vida de uma mulher
Stefan Sweig


Não é pelo facto de alguns livros serem relativamente pequenos que serão menores obras, mas antes pelo contrário, que se um homem tem algo para dizer ao seu semelhante, di-lo, sem fosquices nem maneirismos, afectações ou impertinências, envieses ou maus-olhados, complicados de sabujo ou papagaiice de cocote, pois que importante seja, isso se faz com pouca lambança e menos artifício, diz-se de uma só vez e está dito, fica seguro e firmado entre emissor e receptor, assegurado e de olhos nos olhos, como um aperto de mão, um beijo, um abraço, um soco, um pontapé, sem o mínimo equívoco, salamaleque ou astuciosa manigância, engenhosa mentira de subalterno ou complexa aritmética da artimanha nas rasteiras da fala. Fica ali de pronto, exposto como um brado, um marco geodésico, um rio que corre entre montanhas, uma cruz no alto do outeiro, um uivo de lobo ao luar, de pé e hirto na paisagem da noite, a interromper as passadas ou a rasgar as nuvens, estabelecendo ligação imediata entre o céu, a alma dos homens, e a terra negra de cultivo, o chão estercado e fértil, ou entre os ossos de pedra cinzenta e vulcânica dos esqueletos maternos e os seios ancestrais que nos abocanham a fome de pecar, de comer o fruto das paradisíacas frondes. Não carece de enfeites nem de néons suplementares, de carnavalidades natalícias nem de pisca-piscas de sedução e convencimento alheio, mas joeira o grão da rabeira como se fora uma acesa vela no breu da madrugada, uma fresta de luar na clarabóia do telhado, uma árvore milenar no relevo da planície, uma bica de água cristalina a jorrar dos confins da contramina na serra do tempo. Porque nele, normalmente, pode e é dito tudo quanto deve ser dito e havia para dizer, sem remorsos nem escusas de falsa e hipócrita virgem.
É o caso de Vinte e quatro horas da vida de uma mulher, de Stefan Zweig, coisa de 160 páginas em formato de bolso e tipo médio, publicado pela Livraria Civilização – Editora, na tradução de Alice Ogando, antiga senhora das adaptações radiofónicas dos clássicos portugueses como estrangeiros, pelo menos dos não censurados clássicos, dos regimentais e incontroversos individualistas, todavia etiquetas pouco aderentes à pele do autor, pacifista, cosmopolita dos sete costados, deveras dado ao convívio e amizade, sustentáculos do Mundo de Ontem mas igualmente renovados no Brasil, país do futuro, cuja panóplia de companheiros vai desde Freud, Dalí, Romain Rolland, Jules Romains, onde estabelece definitivamente que ler nunca é, nem pode ser, um acto falho de imaginação, mas ao invés, antes exige o exercício acuidado da descodificação de numeroso rol de símbolos, números, figuras geométricas, designações alfabéticas, cabalas, sem as quais os pequenos livros não sobreviveriam para lá de suas ralas páginas, e que balizam a mensagem que inspirou a sua criação e escrita. Porque ela está lá e indicava, ao tempo, o único caminho possível para o povo judaico da Alemanha nazi, se se quisesse subtrair ao genocídio hitleriano, que seria, conforme o próprio fez, o caminho do mar até ao novo mundo ou país do futuro, e cuja inobservância pelos seus compatriotas esteve na génese do suicídio a dois, dele e da mulher, aliás também este à imagem e imitando aqueloutro de Kleist e Henricheta, seus biografados, repetindo-o, sendo-lhe analogia, tal como nesta novela Henricheta repete Mrs. C, reflexo intencional desse jogo de alegorias e seu espelhamento, processo de repetições em catadupa, de imagens que se multiplicam noutras suas derivadas, transformações apenas possíveis pela actividade heurística da metáfora, alegorias que se desdobram em analogias que, por sua vez, outras figuras alegóricas geram e espelham, a que afinal é a ficção romanesca, o discurso narrativo apoiado na metamorfose e inquietude do (dis)curso da história.

Porque, confesso, aquilo a que assisti sobretudo na leitura, não foi tanto as 24 horas na vida de uma mulher, mas sim 24 anos (por exemplo, entre 1918 e 1942) na vida da Europa, esse continente entre guerras, ditos assim dez anos antes do seu terrífico apogeu, em 1932, numa reunião, tão suspeita quanto ocasional, de sete pessoas numa pequena pensão da Riviera, de onde, porque lateral e paralela, era possível bisbilhotar a alta burguesia da época, enquanto mediática clientela do excelso, e em moda, Hotel Palace. Ou cada passo dos ponteiros no mostruário de um relógio de estação, símbolo de uma época que tem por núcleo fundamental a revolução industrial, simultaneamente imagem emblemática do cosmos, do tempo mitológico ou Cronos, mas igualmente do tempo anual das quatro estações, cruz cardeal global sobre o espaço-quando absoluto, para (re)desenhar nele os oito pontos cardeais da Rosa dos Ventos, fazer renascer nela, ou por ela, O Cavaleiro da Rosa, estrangeiro à cruz grega, mais tarde de malta, como se fora um Santo André, cuja crucificação em X, acoplada ao cristianismo, traduz o preciosismo barroco da Rosa Cruz, significando ela mesma um ciclo de renovação, indicativo da urgência de fuga ao povo judaico, caso este não queira lhe venha a suceder o que outrora aconteceu a essas duas ordens (Hospitalar de S. João e Santo André) sob o jugo beneditino, decisão que carecia de imediatez, de pressa, pois corria-se contra o tempo, aumentando-lhe o risco, pois quanto mais tardia, mais se tornaria arriscada essa fuga, como enfim se veio a demonstrar mesmo impossível e mortífera para milhões de pessoas, chacinadas nos campos de concentração nazis.

Principalmente porque nela, nesta novela, tão iniciática quanto fantástica, está lá tudo isso dito mas calado, visto que carece de ser entendido usando a imaginação, estabelecendo relações entre termos anteriormente pouco relacionáveis, dito e sublinhado em diferentes e repetidas formas alegóricas, em analogias transformadas, incluindo essa quase pleonástica fórmula cabalística, derivada do modo de interpretação e análise do Antigo Testamento, cujo trajecto consiste em repetir as repetições, muito didacticamente traduzindo o alfabeto na sua expressão numérica, para assim ganhar a certeza de vir a ser compreendido por todos, entendido pelo maior número de pessoas, ou de leitores envolvidos e interessados, como se fosse necessário explicar tão exaustivamente uma coisa, um cenário, um enredo, uma situação, uma chamada de urgência a alguém incapacitado de ver com os olhos, mas sobretudo incapaz de imaginar tudo aquilo que vá para além daquilo que as fere e impressiona. Isso, a urgência de partir mar fora sem receio de perder tudo o que ficara, antes se conseguira com engenhoso sacrifício e a tenacidade de povos eleitos na provação divina.

Porque escrever é transferir segredos, forjar cumplicidades anteriormente tidas por impossíveis e somenos recomendáveis, revelar inconfessáveis sentimentos, prospectivas e opiniões, transgredir os limites do racional através do inaudito, estabelecer ligações entre diferentes identidades, rasgar absolutos, renovar e multiplicar as possibilidades de ser quando em sendo se esculpem verbo, tanto o do seu criativo como do leitor, que assim se insurgem para lá das fronteiras restritas da significação e soletrações ordinárias. É iniciar humanidades onde antes apenas havia percepções e sentimentos através da transfusão de metáforas, acalentar a liberdade pela expressão máxima da sua capacidade de disseminação e sobrevivência, anexá-la à teoria de vida de cada indivíduo tornando-a tão multifacetada quão diversa, e, por isso mesmo, não somente diversa e diferente como geradora de diversidade, rasgando não um mas tantos caminhos para a eternidade quantos os leitores, criadores e demais intervenientes que a interiorizam ou a expõem, assimilam como divulgam, e dispostos estão a reproduzi-la, recriá-la, aspergi-la em cada outro, semelhante, familiar, estranho ou simples "espectador esporádico e momentâneo" com quem contactem no seu dia a dia.

Pelo que se pode afirmar que a verdadeira tragédia de Stefan Zweig foi essencialmente fruto da sua humanidade, da sua crença no ser humano e sua inteligência, por quem acreditou ser suficientemente lúcido paras ver além do visível e capaz de querer acima do seu egoísmo, necessidade de desenrasque adjuvante ao salve-se quem puder da sobrevivência animal, instinto e sentido de defesa particulares à visão antropocênctrica, narcísica, niilista, ortodoxa aos cânones bíblicos do mundo e da existência, pois uma vez desiludido se aniquilou, rendeu ao suicídio, transformando a morte num acto público de denúncia, um grito de alerta como de revolta, chamando a atenção para a incontinência xenófoba e fazer retroceder a marcha aos nacionalismos, inverter as directivas burguesas, corporativistas e industriais que os geraram, a todos eles, bem como a sua vontade de poder na tentativa de domesticar a liberdade, servindo-se dela para oprimir outras nações e povos, e instituir a consciência colectiva como seu principal refém para obstruí-la ou amputá-la a quem se lhe opusesse, afinal tão comum ao século passado como ao actual, ao abrigo dos conceitos e convenções de defesa contra os terrorismos utilizando práticas terroristas, legitimadas no quorum das nações pelo medo e prevenção deles.

Visto que só um louco desumano, ou ser perverso de baixíssima índole, seria capaz de assistir à captura, humilhação e morte dos seus amigos, sem tentar contrariar positivamente isso, sem lutar por eles, alertando-os dez anos antes, e muito antes de todos os mais, naquele jeito de ir sempre à frente expondo-se exemplarmente, indicando o caminho do futuro sob a imperiosidade da fuga, usando a suas principais armas, a ficção romanesca e língua, como gesto de denúncia e brado de incitamento, deveras ansioso conforme lhe caprichou a vida e é comum a quem, até na morte, se quis demasiadamente impaciente: fazendo desta obra a sua carta para os conhecidos e amigos, também eles possíveis vítimas dum amok europeu que germinou do obscurantismo para contaminar toda a intelectualidade vienense, naquela indiscritível loucura que é a guerra – mundial para quem lhe assistiu de fora, mas efectivamente pessoal e cruel para quantos nela, ou por ela, pereceram. E que nem a sua criação literária poupou!...

Oh, que bezana!

(Memórias de um alcoólico arrependido)

Sempre que me embebedo a valer, daquelas de caixão à cova, fico dois ou três dias a remoer sobre os destroços em que restei. Além dos remorsos pelo dinheiro que gastei, acrescento-lhe invariavelmente as “vergonhosas” figuras (de estilo) que hipoteticamente terei cometido, contado com as “fabulosas” quedas dadas. Sou, assim de caída em recaída, massacrado sem contemplações por mim mesmo, precisamente na altura em que eu próprio menos necessitava de críticas. Quer dos outros, quanto mais das auto-infligidas!
É, portanto, este o principal defeito que encontro à fragilização alcoólica; a fragilidade natural acrescentada pela fraqueza tida. Eis o ponto consequente duma redundância permitida. E, mais ainda, a constatação objectiva duma autodestruição gradual, em crescendo acelerado, cujo fim em clímax é a morte, primeiro de todas as capacidades intelectuais, ao que se lhe seguem as físicas, para que nos quedemos finalmente com um corpo sem alma e no qual a cadeia de DNA é supervisionada pela repetida sequência do erro.
Só o alcoolismo dos outros não é um problema de hoje. Porque o nosso, o de cada um, é irremediavelmente premente e actual. Inclusive actuante. Ao escrever este romance, faço-o como uma explícita exigência terapêutica, na tentativa de assim me precaver e evitar outros desmandos e abusos. Conseguir acabá-lo com êxito, corresponderá a não ter bebido mais uma gota sequer desde que o comecei. O que sem dúvida pode ser a primeira vitória, matriz e génese em perspectiva das outras que lhe poderão suceder. A original utilidade do acto criativo, o princípio básico da arte, que é, afinal, o de ajudar o homem a resolver os seus problemas essenciais, reside na busca de uma vida de qualidade que além da sobrevivência lhe facilite também a valência. De onde a reabilitação, a reconquista da dignidade e da valorização pessoal deixarão de ser palavras de apenas som, para passarem a ser condóminos do significado.
Para melhor me caracterizar direi que sou a ovelha ronhosa, o verdadeiro espécime porra-louca de uma família preconceituosa, tribal e benquista de Casal Parado. A mancha negra no pano púrpura do embandeirado orgulho duma prole bem sucedida. Pobre, feio, solitário, sem interesse físico notável, nem hipocrisia social ou sentido das (in)conveniências que facilitem a aproximação dos demais, e muito menos dos familiares. Estúpido e cruel, visto mal, não tenho maneiras, arroto veneno (quando escrevo), vingativo nos dizeres e medíocre nas contemplações, jamais consegui corresponder às expectativas dos pais, dos professores, dos amigos, dos leitores, dos políticos, dos editores, das personalidades públicas e, acima de tudo, das mulheres. Enfim, sem préstimo, carácter nem temperamento, transformei-me pouco a pouco num indivíduo sem pessoa dentro. Aliás único motivo de celebridade por que fui reconhecido. E sou. Conhecido – digo. Eu!
Duma forma ou de outra estive-me continuamente a borrifar para as circunstâncias, ao que os circunstantes me pagaram com moeda idêntica. Nascido sem graça nem motivo, abusei da desgraça abichando o prémio duma poliomielite aos três anos, condecoração e fatalidade com que consecutivamente traí a sacrossanta esperança na evolução genética da espécie. Erro imperdoável que secundarizou o plano cromossomático, estando no local errado à espera do “caminho” errado, quando nunca lá devia ter estado e, acima de tudo, disponível para o que desse e viesse, ou sequer respirar como qualquer mortal. Pelo menos supõe-se que tal era previsto e devia ter sido evitado por mim em benefício da humanidade. Por conseguinte, falho de cálculo e sentido de oportunidade. Ou não fora eu mais um de quem a eternidade se arreceia!
Enfim, posta assim de sobreaviso – se Deus o castigou é porque algum defeito lhe encontrou – a sublimidade social condoeu-se permitindo que crescesse, que crescesse sim, mas afastado, lá num Monte de ostracismo e indiferença, onde pouco e somente quase só familiares me vissem e nenhuns me causassem mal, ou fundamentalmente bem, tive o primeiro livro sem ser de estudo quando já ia a caminho da rega da horta. Que, pronto!, não foi comprado. Mas também não foi dado com esclarecidas intenções, abone-se.
Do destino, à falta de outro nome para reconhecer o valor duma sentença da vida, houve apenas os esgares da predestinação. Má rês, péssimo de ouvido e refractário nos olhares, abstive-me de argumentar, lutando em ser outro senão aquele com que me havia condecorado. E, aferrado nisso, exagerei. Tanto em dose como em convicção. Sobretudo concretizando-o. Feito de propósito, ou por encomenda do despeito, ele vingou-se, aplicando-me sobrecarga na inutilidade e pardacenta agrura, e em consequência pôs-me a brincar sozinho às pessoas, imaginando vidas alheias, situações impossíveis nas rotas do devaneio – tornou-me em algo com queda para a poesia (de pé quebrado). Literalmente, e ao dispor de V. Exas. Ponto.
Nomearam-me ao notário... Não queria acreditar! Flamínio Eleutério, como é que se escrevia?!... Foram a folhas, e lá estava. Desenhou-se no livro o evento. Dos registos, isso. E, provavelmente, foi essa a nomenclatura para a exasperação divina. Tem-te não caias para os primeiros passos, derrapei logo no gatinhar: pais separados, porrada e grito de três em pipa, peido colateral de avivar o ambiente e um aborto, pela parte materna, mal engolido, digerido e desovado, deram eflúvios douramentos à meninice confrontada.
Outra nomeação que veio a somar obstinação aos olímpicos desígnios, foi a dos anexos da Luz Diabinho. Iluminação pouco credível, como é evidente. Maternidade pouco abençoada, foi um ver se te avias no despacho da encomenda. Portanto, grosseiro e rubicundo. O escrivão da conservatória notou-o. A primária confirmou-o. A maledicência da vizinhança sublinhou-o. A sorte não o desdisse.
Nas aparas do acontecimento trocaram-se as datas ao aparamento. Nado e aparecido a nove firmaram-no a sete – de setembro, para ridículo da parra. A uva ressentiu-se, castigando-me no mosto depois... Vício a que não opus resistência, nem aliviei como fardo. Um bêbado a mais ou a menos, quem se viria importar com tal? Foi, e deu capítulo.
Consumada a encrenca, faltava dar-lhe o porém do prestígio. Más notas. Péssimo comportamento. Irregularidade na presença. Fraca disciplinaridade e compreensão. Leitura distorcida. Matemática fracassada. Solfejo sem acuidade. Pronúncia atabalhoada. Soluções copiadas. Cábulas apanhadas. E, com atribulada observância, companheirismo inexistente. Arrogante e quezilento, desconfiado e inseguro, revoltado e incapacitado para o desporto depressa optei por ficar de fora mal pressentia que era a isso que se aprestavam para votar-me. Nunca mo perdoaram. Nem eu. Um exemplo gritante e rigoroso do que é a acomodação: a inacção.
No jogo de cartas aprendi primeiro a fazer batota do que as regras e a jogar correctamente e sob os postulados do desportivismo. Na poesia, também. Na comunicação social, idem. E na postura existencial recapitulei pelas duas, ind’assim! Pudera. Se a única regra que aprendera fora a de três (simples) puros e cheios... Por preguiça no traçar e falta de talento para outras mais complicadas (e exigentes).
Discurso elementar tive-o desde a infância montesina, onde os linguajares se resumiam à faina agrícola e apreciações sobre o tempo. De folguedo só o rádio, somente a horas certas, para as notícias e folhetim. Serão, pouquíssimo e nem para trabalhadores, que as pilhas custavam um dinheirão, aliás coisa rara na freguesia, e com que se não podia desbundar, sendo ninharias absorventes. E distractivas da seriedade austera e real.
Feitos quatro livros não consegui publicar nenhum. Eram (e são) péssimos, embora um deles tenha tido o primeiro lugar num concurso concelhio de prosa e poesia. Tendo laborado em diversos jornais regionais jamais auferi qualquer remuneração pecuniária ou simpatia pelos linguados. A contas com a má virtude e a falta de jeito para a coisa pública em letra de forma, a teimosia valeu-me só pelo prazer de contrariar. De provocar. De rezingar. De aspergir o ego com uma composta e fingida literatice intelectualóide. E de pseudo intelectual. Então, adveio a desilusão costumeira, e foram outras tantas litradas para me desculpar do falhanço.
Se tal não tivesse acontecido, atribuiria a causa à falta de sucesso com o sexo oposto. O primado da desconexa vitimização estavam-me no sangue. A autocompadecida culpabilização inclusive. Daí que tenha desperdiçado os melhores anos da minha vida a pensar em ti. E tu eras ninguém. Foste aquela a quem persegui nos meus sonhos e fantasias. Foi para te conquistar que tentei tornar-me um escritor, um jornalista, um funcionário público, um empresário empreendedor, ou um arrivista político. E quase o ia conseguindo, a todas essas promissoras e aliciantes carreiras, não fora o facto de não existires, o vácuo que deixavas quando reconhecia que não eras, e que de entre todas a que menos merecia o meu sacrifício. Sacrifício!... Pois era assim que entendia o amor; o que deu no que deu (e se viu) – e ainda me admirei!...
Somos egocêntricos por natureza. E por necessidade de crescimento. Depois ultrapassamos a fase e tornamo-nos outros, dispersos e absorventes do mundo em redor. Eu continuei concentrado em mim egoistamente, mas fiz-me esponjoso de ser. Aliás embebido em alucinação alcoólica, prenhe de narcisismo frustrado, em espiritismo absolutista e absurdo.
Nunca fui quem deveras era. Pretendi ser sempre outro qualquer que não eu, para poder ser ainda mais eu, em perfeccionismo e desfaçatez por tudo aquilo por todos aqueles que não eram eu e me suplantavam. De onde, portanto, queria à viva força ser amada só pelo que era, quando não absolutamente nada, nem eu mesmo, ou sequer o reconhecia. O que por si enquadrada a pior atitude que se pode tomar. Porque nada resolvia, agravando contudo o estádio de insensatez, capacitando-a de crónica.
Não vejo precisão de repetir nomes de pessoas ou personagens que comigo se cruzaram, e a par caminharam nesta trágica trajectória de procurar os limites da vida. Mas se o quisesse fazer, de bem poucos me lembraria com exactidão e objectividade, por quanto os não via, antes os observava à luz dos meus escondidos e subterrâneos interesses. Utilizava-os segundos as proposições momentâneas, e largava-os de seguida e imediatamente. A alguns, melhor intencionados, isso magoou-os, pesou-lhes e suscitou óbvios ressentimentos. Então reagiram conforme os meus anseios, e puseram-me no lugar, proporcionando-me a vaga de vítima, atribuindo-lhes a totalidade da culpa na separação ou processo de degradação das nossas relações. Aparentemente incompreendido revulsionava. Entrava em convulsão estéril e gratuita, levando as ofensas para o mútuo sentido, dando aos seus motivos razões palpáveis para manterem os seus comportamentos de afastamento. Era um Maquiavel elevado ao caricato do dia a dia. O jogo armadilhado num tabuleiro que unicamente eu via – e assim jogava, comandando-o a meu bel-prazer.
Aprendi a chorar por compaixão desde os tenros anos, com infinita peninha de mim, quando vivia com meus avós paternos, num Monte próximo de Casal Parado, depois das visitas dominicais de meus afortunados primos, e por inveja ao tratamento de excepção que estes lhes concediam. Jamais tive a certeza de haver real fundamento para esse sentimento, mas estava verdadeiramente empenhado em que assim fosse. Servia positivamente a negatividade da minha opção de excluído e desintegrado, reforçando o sentimento de inferioridade com um comportamento lógico quão imaturo. É que eu vivia diariamente com eles, partilhava deles durante toda a semana, enquanto que os primos, igualmente netos, só estavam na sua companhia um dia e de oito em oito, quando era. O sentido de justiça levava consequentemente

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