La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

4.30.2008

Grupo de Leitura READCOM, lerá Paul Auster

"Quando larga a caneta, há uma palavra que começa a ressoar na sua cabeça, e, durante vários momentos depois disso, enquanto a palavra continua a ecoar dentro dele, Mr. Blank sente que está a um passo de uma importante descoberta, de um ponto de viragem crucial que ajudará a clarificar, pelo menos em parte, aquilo que o futuro lhe reserva. A palavra é «parque». Lembra-se agora de que, pouco depois de ter entrado no quarto, Flood sugeriu que fosse conversar para o «parque, do outro lado da rua». Esta indicação parece ao menos contrariar a prévia asserção de Mr. Blank segundo a qual se encontraria cativo, confinado ao espaço limitado por estas quatro paredes, impedido, para todo o sempre, de se fazer ao mundo. Sente-se algo encorajado por este pensamento, mas sabe também que, mesmo que o autorizem a visitar o parque, isso não prova necessariamente que seja um homem livre. " (Excerto)
A próxima sessão do Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre, a realizar no dia 20 de Maio, incidirá sobre Viagens no Scriptorium, de Paul Auster.
Aqueles que já tiverem lido a obra e andarem pelas redondezas, podem dar o seu lamiré pr' àqui ou aparecer. Ou melhor, não se evitem de partilhar as opiniões que vos suscitou, que a luz quando nasce é para todos.

4.22.2008

Dizer a Liberdade


Dizer
"Aqui
reina a liberdade"
é sempre
um erro
ou então
mentira:

A liberdade
não reina
Erich Fried

4.17.2008

Palestra de Sebastião Morão Correia

Capa da Palestra aos alunos do Liceu Nacional de Portalegre, proferida por Sebastião Morão Correia, na sessão de abertura do ano lectivo de 1959-60. Brochura composta e impressa na Gráfica S. José, em Castelo Branco.



"E, Todavia, o Homem
só vale pela sua Vontade..."

Eça de Queirós, in Ilustre Casa de Ramires

Nunca, como nos dias de hoje, em que a deletéria passividade existencialista está causando no espírito da Juventude tão perniciosos efeitos, esta afirmação do genial romancista Eça de Queirós, teve uma aplicação tão necessária, de indiscutível interesse e flagrante actualidade.
Quando Gonçalo Mendes Ramires, personagem tão palpitante de simbolismo, se queixava amargamente dos seus desaires, se não das suas derrotas, atribuindo ao Destino a teimosa infelicidade que inexoràvelmente o perseguia, nem sequer se dava conta de que estava nas suas próprias mãos mudar o rumo daquela vida sem acção e sem sentido, que era a existência que ele arrastava inglòriamente enclausurado na Torre dos Ramires – mais velha que o próprio reino.
Esta terrível falta de confiança em si próprio, consequência directa da abulia que se apossara do seu pobre espírito sem força para reagir com eficácia ao medo impertinente da "carne espantadiça e cobarde", tinha feito daquela vergôntea, débil e quebradiça, engastada na rija cepa dos antigos Ramires, um carácter amorfo, anémico, aguado, sem têmpera e sem viço, exposto aos caprichos do Destino que nunca perdoa aos fracos.
E assim vamos acompanhando o drama desse fidalgo, cuja principal ambição era um lugar de deputado, não olhando aos meios para alcançar esse fim.
Mas Gonçalo, enterrado na sua velha Torre, era um abúlico, falho de vontade, cedendo constantemente à lei da inércia.
Por isso atribuia ao seu negro destino todas as fatalidades que lhe sucediam.
Eça aproveita também o ensejo de dar a esse tipo de pessoas esta eficacíssima receita:
"E, todavia o Homem só vale pela Vontade – só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Porque, se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão – então é delícia do domínio sereno; se encontra em torno resistência, – então é a delícia maior da luta interessante."
E, como corolário de tal postulado – que é a tese principal da Ilustre Casa de Ramires – o fidalgo da Torre, ao compenetrar-se que a verdadeira honra reside no trabalho ordenado, fruto de uma vontade firme e reflectida, abandona a sebenta cadeira de S. Bento, alcançada por meios tão torpes e degradantes, e lança-se, livre de influências e com orgulho próprio, nas explorações das terras africanas.
[1]
Surge-nos, então, um homem que procura que procura dar plena realização à sua personalidade já temperada por um Querer, forte e decidido, e por uma Vontade, consciente e reflectida.

Minhas meninas e meus rapazes:

Gonçalo é mais que um simples personagem de romance.
Gonçalo é um símbolo.
Eis a razão por que resolvi aproveitar este magnífico exemplo que sobre o valor da Vontade nos apresenta o insigne autor da Ilustre Casa de Ramires, para me servir de tema à palestra da abertura solene das aulas do ano escolar de 1959/1960.
Não conheço, nem creio que em tão breves palavras se tenha cantado um hino tão admirável ao valor da Vontade.
Depois de uma análise ao drama de Gonçalo, vítima da terrível abulia que lhe entibiara o carácter e debilitara a personalidade, a tese surge clara e convincente, numa síntese bem expressiva e sem enfeites ou aparatos pretenciosos, como era próprio do estilo do incomparável artista.
Com efeito, o autêntico valor do Homem cifra-se no poder da Vontade inteligentemente exercida.
E, sem dúvida, o maior prazer da Vida reside no exercício de um Querer, forte e consciente, mercê do qual o nosso eu actuante possa ganhar plena consciência do seu valor, verificando que pela prática bem orientada dos seus actos voluntários é possível alcançar a inteira satisfação das suas aspirações.
E, se no exercício da Vontade as circunstâncias se conjugam num sentido favorável de docilidade e submissão, permitindo-nos realizar os nossos desejos sem obstáculos nem esforços, gozaremos a delícia do domínio sereno. Se, porém, encontrarmos em torno resistência, quero dizer, se para a efectivação das nossas aspirações tivermos de enfrentar e remover as pesadas dificuldades, ao atingirmos o nosso fim, gozaremos, então, vitoriosamente, a delícia maior da luta interessante.

***

A Vontade é um factor imprescindível na têmpera do carácter. E só pode considerar-se homem de carácter aquele que, removendo todos os obstáculos de ordem psicológica ou material, consegue atingir o fim digno que se propõe alcançar.
É, em suma, o homem que sabe querer.
O inconstante, o indeciso e o fraco – esses falham inevitavelmente na vida, porque não se esforçaram para aprender a querer.
E o que é curioso é que, na maior parte dos casos, os fracos, os desiludidos e os abúlicos guardam também no mais íntimo do seu ser um cabedal de forças intelectuais e morais capazes de lhes permitir as vitórias que os outros – aqueles que sabem querer – conseguem alcançar.
Têm também ao seu dispor a força da Vontade. Não souberam, porém, aproveitá-la num sentido conveniente, pondo em conjugação harmónica e disciplinada todas as energias disponíveis.
Mas eu não quero, nem devo, esquecer-me de que estas recomendações, singelas e despretenciosas, se dirigem, principalmente aos jovens, àqueles que estão na idade própria dos impulsos instintivos, do domínio tirânico das primeiras impressões, da embriaguez da Fantasia e da força estimulante, mas indisciplinada, da Imaginação.
Mais que em qualquer outra fase da vida humana, o jovem tem de aprender a querer, para poder temperar convenientemente o seu carácter.
Ora, querer não é obedecer cegamente ao mandato imperioso dos instintos, nem ceder inconscientemente às primeiras impressões quase sempre arrebatadas e falazes.
Não é também construir castelos no ar em plano muito distante das possibilidades reais, nem fixarmo-nos obstinadamente numa opinião ou decisão que só nós consideramos a non plus ultra...
O querer metódico, sistemático, é um acto voluntário que implica necessàriamente, reflexão e, para ser cumprido, tem de assentar na deliberação, na determinação e, finalmente, na execução.
O homem de carácter bem formado, antes de agir, tem de examinar bem a situação, ponderando as vantagens e inconvenientes do acto que pretende realizar; tem de escolher os meios mais aptos para alcançar o fim almejado; e, só depois de efectuar bem todas estas operações e de elaborar calmamente um juizo de valor sobre o assunto, então, sim, há-de tomar a decisão que julgar mais conveniente.
O acto voluntário será, pois, fruto de uma reflexão bem amadurecida e calculada, em que o espírito, isento de qualquer influência dos impulsos insofridos e das primeiras impressões fogosas, mas raramente exactas e quase sempre deformantes da Verdade, possa actuar de harmonia com a Razão, faculdade intelectual que permite julgar do Bem e do Mal existentes nas nossas acções.
Por isso a Razão deve ser activamente consultada na execução do acto voluntário.
Quantas vezes somos traídos pelas tais primeiras impressões que levianamente seguimos, e aceitamos como sendo as mais convenientes!
Não podemos também, é claro, executar os nossos actos exclusivamente ao sabor da imaginação exaltada, nem de harmonia com os nossos sonhos que, principalmente na quadra da adolescência, são fagueiros, mas ilusórios.
Isto não quer dizer, porém, que à Imaginação não seja dado um lugar bem destacado e merecido na nossa vida activa, como também não quer dizer que excluamos de todo o Sonho da nossa actividade volitiva, pelo eficiente contributo que qualquer deles pode dar à realização das nossas aspirações.
A Imaginação, por exageradas que sejam as dimensões daquilo que criamos em espírito, é uma faculdade que tem também o seu valor estimulante e que, expurgada do aparato que a Fantasia lhe empresta, pode fazer reverter para o campo prático a sua contribuição prestante.
Por outro lado, o Sonho, a despeito das visões quiméricas que produz, narcotizantes do espírito, não é um acto exclusivamente passivo.
A ardência do desejo, que lhe deu origem, imprime-lhe um estímulo que, em certa medida, o transforma numa força activa e útil.
Imaginar e Sonhar são actos característicos da Juventude, tão próprios e naturais, que não se pode conceber um adolescente sem Imaginação e sem Sonho.
Isso seria trair a Natureza, e a Natureza não admite traições...
Para que se realize integralmente é, pois, necessário ao jovem imaginar e sonhar.
Tal como a criança constroi o seu mundo maravilhoso de Fantasia, assim o adolescente arquitecta o seu mundo ideal de Sonho, à imagem e semelhança dos seus ardentes desejos.
A noção exacta da Realidade, na sua forte nudez, sem o "manto diáfano da Fantasia" e sem o efeito aliciante do caleidoscópio do Sonho, aparece, depois, normalmente, quando o jovem começa a ter contacto com a vida prática.
Mas, concomitantemente com a percepção da Realidade, em toda a sua nudez e crueza, – porque a Vida é luta – surge também a desilusão que acabrunha e deprime.
É nesta altura que o jovem precisa muito de nós: pais e professores.
E, no entanto, tem-me ensinado a experiência que é essa a quadra em que o jovem é menos compreendido.
A adolescência é a idade característica da audácia e da rebeldia.
E os pais e os professores, dum modo geral, é claro, em vez de aceitarem naturalmente essa realidade psicológica tal qual ela é, buscando uma solução conveniente aos problemas dessa idade crítica, procuram, antes, ladear a questão, fugindo a tais impertinências, e limitando-se a dizer: "Isso passa com a idade..."
Mas... às vezes não passa... e eis a causa por que o mundo está vivendo momentos tão apreensivos no que tange ao aberrante comportamento da mocidade de hoje.
Teimo em afirmar que a falta de uma orientação racional da Juventude tem sido, sob o ponto de vista educacional, o nosso maior pecado.
É certo que muito se tem escrito em teoria sobre esta matéria. Mas onde está a aplicação prática? É nula ou quase nula. E, se algum educador mais ousado e mais sensato pretende por em prática essas teorias, seja para cumprir o que os tratados e compêndios de Pedagogia determinam, seja para satisfazer o imperativo da sua maneira de ser psicológica, logo os Velhos do Restelo se unem alarmados, fazendo cair sobre esse educador, que ousou quebrar os cânones da sua pedagogia balofa e bolorenta, postiça e contra Naturam, uma chuva de incompreensões e uma tempestade de críticas demolidoras!
É urgente que a Família e a Escola, numa eficiente e indispensável colaboração, encarem abertamente este grave problema sob todos os aspectos e em todas as suas dimensões, evitando que nessa fase de transição o jovem caia num rumo sem sentido e até no desespero...
O ideal será conseguir-se, uma fórmula que permita o aproveitamento da força estimulante do Sonho e da Imaginação aplicada às realidades úteis que a Vida necessàriamente implica e implacàvelmente nos impõe.
Ora, é nessa fórmula ideal que a Vontade tem de actuar como um factor indispensável e de primordial importância.
Com a Vontade firme, desenvolvida e habituada a refrear os instintos e os impulsos, e pronta a superar os desânimos, estaremos convenientemente preparados para encarar as adversidades que a Vida a cada instante nos dispara, enquanto o Homem que não sabe querer, amarrado ao drama dos seus complexos de inferioridade, será sempre situado em plano secundário, consumindo a existência a ruminar amargamente as suas derrotas e os seus desaires.


***

É certo que o exercício da Vontade implica muito esforço, muito trabalho, muita renúncia, muita luta contra as solicitações das nossas tendências psíquicas, que nos convidam insistentemente à situação cómoda, mas inglória, do laisser faire e laisser passer.
Filho da desobediência ao Deus criador e consequência da maldição do mesmo Deus, não há dúvida que o Trabalho é penoso.
Mas também não há dúvida de que é inerente à condição humana.
Depois de ouvir a sentença fatal que o condenava a comer o pão com o suor do rosto, o Homem nunca mais pôde libertar-se do Trabalho. Vive por ele e para ele, e assim viverá eternamente, enquanto a condição humana se mantiver.
E não vá supor-se que a plena felicidade do Homem reside na total ausência do Trabalho... Pelo contrário... O homem normal não dispensa a actividade. As próprias preocupações são o condimento da existência. E as mesmas dificuldades, seguidas pela ânsia de as vencer, actuam como o sal da Vida.
Sem Trabalho a existência seria insuportável.
Que o diga aquele homem que, tendo levado uma vida cheia de actividade, morreu e foi transportado para um mundo diferente. Conduzido a um rico palácio, logo aparece solícito, um mordomo que com ar solene lhe mostra um quarto sumptuoso, dizendo: «É aqui que o Senhor vai morar. Qualquer coisa que deseje, basta premir o botão desta campainha, e terá imediatamente tudo o que lhe apetecer».
Daí a algum tempo estava o feliz ocioso sentado numa cómoda poltrona, tendo ao lado charutos, whisky, várias revistas, um rádio, televisão... Num compartimento ao lado viam-se espingardas para caçar, canas de pesca tudo, enfim, que pudesse proporcionar ao mais exigente mortal um passatempo agradável.
Mas o nosso homem não estava satisfeito! Premindo o botão da campainha, surgiu novamente solícito o mordomo, a quem disse, em tom nervoso:
– Venha cá, rapaz. Eu quero alguma coisa para fazer. Quero Trabalho!
– Sinto muito, mas Trabalho é coisa que não há por cá...
– Se não posso trabalhar aqui, nesse caso prefiro ir para o Inferno!
– Mas – respondeu o mordomo entre surpreso e admirado – onde é que o Senhor pensa que está?!
O exemplo que acabo de expor foi respigado de uma breve leitura de uma revista que me passou pelas mãos há bem uns quinze ou dezasseis anos.
Mas esta anedota, tão pitorescamente expressiva, guardei-a na memória pelo conteúdo moral que encerra, pois não conheço em tão breve síntese, nem em prosa, nem em verso, hino mais laudatório dedicado ao Trabalho.
Meus queridos alunos:
Foi para compreenderdes o valor da Vontade e a necessidade indispensável do Trabalho como factores principais da vida humana, que eu, nesta sessão solene de abertura das aulas, bordei as breves considerações que vos dedico.
À míngua de outros méritos, possam elas, ao menos, acautelar-vos dos perigos desta 25ª hora turva e enigmática, tumultuosa e inquietante.
E possam ainda contribuir para uma conveniente formação do vosso carácter, de modo que nele caiba, em perfeita harmonia, a aliança da Realidade com os lampejos do Ideal em que a vossa alma é fértil.




(Coitadinhas das crianças... Agora, sim, percebo por que é que continuamos na cauda da Europa: há traumas de que jamais se recupera!)


Não abdique dos seus direitos fundamentais. E não perca na próxima edição tudo sobre o mais importante e elementar dos seus direitos: O ...
[1] Conforme com o opúsculo do autor "Traços característicos da Ironia Queirosiana – Sua finalidade social."

4.16.2008

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

O livro que ora se apresenta, das edições ITAU, custou 7$50, com oito páginas, algumas em branco é claro, que para cinco sonetos não eram precisas tantas, ainda que do tamanho de uma cautela da lotaria nacional: 10 x 14,5 cm (sem gralhas). Ou pouco maior, mas são sonetos, carago, e isso doura sobremaneira a coisa, mesmo para aqueles que não gostam de poesia, e preferem versos. Pois.


FLORBELA ESPANCA

"... Pelo seu apurado instinto de beleza formal, tão raro em mulheres até boas escritoras; pelo seu excepcional temperamento e vibrante sensibilidade; pela profundeza da sua alma revolta e ardente; pelo poder de comunicação com que, nos seus versos, se exprime o seu drama pessoal e o da paisagem que tão bem sentiu – Florbela Espanca é a maior poetisa portuguesa de qualquer tempo e um dos grandes nomes da nossa poesia moderna.
Ninguém pode honrar Florbela Espanca; – ela é que nos honra. Ela é que honra as letras portuguesas."

JOSÉ RÉGIO

1.

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira

E eu, que era neste mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

2.

Meu amor, meu amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tom de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mão são fontes de água clara
A cantar sobre a sede d'um jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sòzinho,
Passando junto a mim sem me encontrares? –

3.

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Ouço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou p'ra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra?– Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
És tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

4.

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

5.

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é sòmente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se pousaram.

São mortos os que nunca alevantaram
Dentre os escombros a Torre de Mensagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o país da luz,
A sombra calma dum entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

O "enredo" desta brochura não o sei, mas desconfio que se alguma história tem, mais a circunda do que a circunscreve, e se deva ela simplesmente à iniciativa da editora (ITAU, por sinal) em celebrar – honrar ou homenagear que seja –, qualquer data importante como aniversário da autora, se de nascimento, se de morte, não se precisa ao certo, embora não reconheça de grande valia para ninguém o andar-lhe a gente a celebrar o dia em que se foi, alguns dirão sentenciosos "desta para melhor", todavia afianço "uma porra: se é assim tão boa porque não foram vocês!?", nem proveito descubro em andarem-se a servir da desgraça derradeira de alguém, festejando, por assim dizer, a data do seu falecimento, a não ser que mórbido instinto financeiro se adivinhe, ou outro qualquer de igual calibre, sobretudo se ele recair sobre um poeta, ou poetisa, espécie de pessoas que sempre tão pobres e parcamente viveram em Portugal, por demais carecidos de pão como de afecto, falhos daquelas coisecas elementares com que a vida se governa, mas invariavelmente sujeitos à chacota e ironia da mediocridade popularucha, como quem sublinha aquilo que o burguesismo pacóvio e serôdio salientara acerca de outros, igualmente felizardos na sorte de poetar, declarando que qualquer poeta, mesmo poetisa, só é bom quando morto, e principalmente nesse instante, a partir do qual todos o podem enterrar a seu bel-prazer, depositando-lhe por cima uma boa camada de anos e esquecimento, para que nunca mais daí se alevante, aliás, garantia absoluta que diminua o risco de ressuscitar.
Portanto, não desviemos o sentido à prédica, não nos distraiamos daquilo a que viemos, que se apenas cinco são os sonetos, eles foram magistralmente esgalhados, embora reclusos daquela euforia depressiva, ou ciclotímica, que empresta ao amor tanto e doloroso prazer, tanto contentamento descontente, como diria o ancestral Luís, Vaz que não vás, tente que não caias, que nisso de ser triste por mais triste que se seja, ninguém o consegue a tempo inteiro e toda a vida, e nela, mesmo quando se não queira, ainda que "folha ao abandono / Num parque solitário, pelo Outono, / Sobre um lago onde vogam nenúfares", de vez em quando há-de sobrevir a paixão, o seu fulgor eufórico e maravilhoso, o arrebatamento único que a transforma em febre brava e impulsiva que antecede as maiores infecções, incluindo as da alma, por muito contemplativa e atormentada que ande, onde amar por amar se faz sempre perdidamente, pois nos obriga a deixar de ser os tristes e deprimidos que antes éramos, ou vice-versa, os alegres e joviais em melancolia taciturna apoderados, possessos e prostrados, que nisso de perder-se a gente tanto pode dar para um lado como para o outro, e salvar-se seja quem for quando a tensão febril acontece é um bico-de-obra de alto lá com ele, visto as mais vezes ser essa tensão o caminho recto e mais curto para a excitação realizável e, realizada ela, fonte de calma e meditativa tranquilidade, que ainda é o melhor tónico revigorante da tensão, para elaborá-la a preceito tal que exigirá realizar-se, repetidamente, inequivocamente imperiosa e urgente, e para, enfim, consumir-nos na justa medida em que a consumarmos. Em nós, exactamente nós, que sempre estaremos prontos e ansiosos para provocá-la. Nem que para isso nos tenhamos que socorrer de Deus, ou o consideremos um forte e determinado aliado para justificá-lo, exigi-lo e consegui-lo. Até no amor ilícito, se é que haverá algum que o seja...

Até porque, como diz José Régio no prelúdio, ninguém pode honrar os poetas, pois são eles essencialmente quem nos honra com a sua obra, os seus poemas, os seus versos, pelo que se lhe quisermos manifestar algo, por recompensa, por gratidão, então não nos resta outra maneira de o fazer senão lendo-os, recitá-los, compartindo-os e partilhando-os com aqueles a quem prezamos, por quem nutrimos afecto, sempre que possamos, e onde quer que o possamos fazer.

4.15.2008

DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS -- 18 de ABRIL


PATRIMÓNIO RELIGIOSO E ESPAÇOS SAGRADOS


A Assembleia da República associa-se às comemorações deste dia promovendo um conjunto de actividades organizadas pelo Museu:

17 de Abril, quinta-feira - Recital pelo Coro Gregoriano do Porto na Sala do Senado, às 19h

18 de Abril, sexta-feira – Visitas guiadas ao Palácio de S. Bento às 10h-11h-15h e 16h.
No final de cada visita haverá Prova de Licor de Singeverga e Pão de Ló de S. Bento


- Exposição sobre os espaços monásticos do Palácio de S. Bento, integrada nas visitas

- Serviço de doçaria conventual no restaurante dos Deputados e refeitório dos Funcionários como sobremesa


Inscrição prévia ,indispensável, para assistir ao Recital e participar nas visitas para os telefones - 213919347 —213919370—213919408

O “NASCIMENTO” DA CÉLULA – Por Helder Maiato

Hélder Maiato é Professor Auxiliar Convidado no Departamento de Biologia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Investigador Auxiliar e Responsável pelo Laboratório de Dinâmica e Instabilidade Cromossómica no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto. Natural de Matosinhos, nasceu em 29 de Fevereiro de 1976, licenciou-se em Bioquímica na Universidade do Porto e fez parte do sexto Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, o que o levou a passar pela Universidade de Edimburgo no Reino Unido para estudar a divisão celular e a doutorar-se em Ciências Biomédicas pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), Porto. Foi investigador afiliado no Wadsworth Center, Divison of Molecular Medicine, New York State Department of Health, USA (2003). Publicou inúmeros artigos científicos em revistas internacionais de excelência como o EMBO Journal, o Journal of Cell Biology, Cell e o Nature Cell Biology. Foram-lhe atribuídos prémios e distinções nacionais e internacionais – Prémio da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (2004); Prémio Jacinto Magalhães (2005); distinção do Programa Gulbenkian de Estímulo à Investigação da Fundação Calouste Gulbenkian (2005); Prémio Crioestaminal (2006); Prémio Gulbenkian de Apoio à Investigação na Fronteira das Ciências da Vida (2007), entre outros. E proferirá a conferência O “NASCIMENTO” DA CÉLULA :UMA VISITA GUIADA ATRAVÉS DO MICROSCÓPIO, (acerca de como o universo do infinitamente pequeno tem fascinado várias gerações de cientistas desde o século XVII, em que o maior desafio tem sido conseguir vencer as limitações físicas impostas pelo uso do microscópio, o que tem vindo a ser ultrapassado através de equipamento e de tecnologia cada vez mais sofisticados), onde se dará uma pequena viagem pelo tempo e ilustração dos avanços tecnológicos desde o aparecimento do primeiro microscópio até aos dias de hoje, assistindo àquilo que pode chamar-se o “nascimento” da célula, o momento em que uma célula “nasce” a partir de outra pré-existente, e tentar perceber como o progresso na fronteira das ciências da vida permitiu ao Homem ver como a “maquinaria” celular executa todo este processo na perfeição.

Esta é organizada pelo Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com a Ciência Viva, terá lugar no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), dia 16 de Abril, às 18h00, a qual, para os que tiverem dificuldade em aí se deslocar, poderá ser vista em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ , podendo enviar-se questões para fronteiradaciencia@gulbenkian.pt, a que o orador responderá no final da sessão.

4.11.2008

Alternam Engenharias Fraticidas, por aí...

(Ilustração: Contracapa da Revista Antítese, nº 2, de Março de 1985)
Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.

De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.

E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...

Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!

4.09.2008

Expiação, de Ian McEwan, no GLReadcom, de Portalegre

Aprazada para o dia 29 deste mês, no local e às horas do costume, o Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre (GLP–IPP), fará a sua próxima sessão à volta do romance de Ian McEwan, intitulado Expiação, e que recentemente foi alvo de adaptação cinematográfica, estreada há pouco tempo entre nós. Com edição portuguesa em 2002, de quem José Prata, na revista Os Meus Livros, nº 7 – onde consta também uma curiosa autobiografia do autor –, e a propósito, terá afirmado ser ela uma obra em que, "epílogo à parte" serem "três histórias: a de uma menina cuja imaginação conduz um homem à queda; a desse homem, que atravessa uma guerra com uma carta no bolso; a daquela menina, quando adulta, escreve um livro para expiar o seu crime." Mais adianta José, que nesses três momentos ficamos na presença da "Inglaterra ociosa do pré-guerra, a demência da retirada de Dunquerque, e de novo a Inglaterra" debaixo dos bombardeamentos alemães (blitz), realçando a transfusão do sentimento épico que a intertextualidade com Jane Austen nele aflora.

Daí que, ainda reportando-nos às palavras do crítico, embora na tradução literal da Gradiva se tenha perdido grande parte da poesia que Expiação respira, "é um romance total, de arquitectura antiga, psicologia moderna [e] montagem cinematográfica." Extraordinariamente reflectido na "cena de amor na biblioteca ou no drama de Cecília a escolher um vestido, [que] têm o peso de uma guerra; e a memória do soldado debaixo de fogo é uma casa solarenga no campo."


Portanto, aqui fica o convite a todos quantos queiram partilhar as suas impressões sobre a obra, admitir que há outras opininiões igualmente válidas sobre ela, sem estigmatizar nos "pântanos" da certeza, ainda que ela veicule a melhor e mais paternalista (ou protectora) das intenções... Digo eu!

4.08.2008

A Ortografia e os Desacordos à Portuguesa


Concomitante a uma longa história, iniciada em 1911, quando Portugal, mas sem a anuência brasileira, estipulou a primeira reforma ortográfica no sentido de alterar as grafias correntes, modernizando-as rumo à sua unificação continental e ultramarina, polémica com reacendimentos vários, nomeadamente em 1931 e 1943, que culminou no assentamento (e praça) do Acordo Ortográfico de 1945, que durou ainda muito para lá da ditadura e primavera (outonal) marcelista da mesma,

Gentilezas e Galhardias de Outros Géneros


"A desconfiança é o pior inimigo do bom senso"
Honoré de Balzac

Que há efetivamente de comum entre o primeiro número da coleção Aventuras de Arséne Lupin, da Editorial Notícias, intitulado Arséne Lupin: Gentleman Gatuno, de 1966, o nº 15 da coleção Grandes Mistérios / Grandes Aventuras, das Edições Romano Torres, denominado O Ladrão Voltou de Madrugada, autoria de Marcel Damar, de 1945, e o nº 16 da coleção Escaravelho de Ouro, com chancela da Empresa Editorial Édipo, Lda., sob o título A Lenda do Pântano, de 1951, de Conan Doyle, naquele tempo ainda mal referenciado por Sir Arthur Conan Doyle? Nada. Absolutamente nada de importante, se excetuarmos quatro pormenores insignificantes: são três exemplares antigos do romance de cordel, editados sob os auspícios do Acordo Ortográfico de 1943/45, todos foram adaptados ao cinema em mais que uma versão, bem como em nenhum deles a filosofia dos amigos do alheio argumenta mais forte que a moral escorada na legitimidade da propriedade privada. Mas tem outra: o autor de cada um deles foi pioneiro do modelo em que se desenvolve: Maurice Leblanc é o progenitor do romance policial, propriamente dito, com ou sem polícia; Sir Arthur o fundador do género fantástico; e Marcel Damar, o cultivador maior da novela de suspense.

1. A Lenda do Pântano

A tradução é de Baptista de Carvalho, igualmente, ao tempo, também director da Colecção O Escaravelho de Ouro. Após esta seguiram-se inúmeras edições, mas todas sob o título de O Cão dos Baskervilles, tradução literal do título original: The Hound of the Baskervilles. A última que me lembre é a do Diário de Notícias / Europa-América, com tradução de Jorge Vítor Carvalho, já sem c atrás do t, conforme mandam as regras da unificação ortográfica, embora o Baptista da outra versão o mantenha, pois já não há nada a fazer, e o que não tem remédio, remediado está. Ora acerca delas, tanto de uma como de outra, que no fundo são a mesma coisa, muito foi dito, sobretudo depois da fama que as adaptações cinematográficas e televisivas lhe deram, a ela obra, e a ele, Sir Arthur Conan Doyle seu autor e inventor do celebérrimo Sherlock Holmes que, desconfio, deve ser muito mais famoso do que quem o criou. São coisas da literatura, alvitram; são mistérios, dizem; paradoxos, afirmo eu, que sou dos que não percebem por que motivo os pseudónimos hão-de ter maior significado do que os nomes próprios, nem as personagens mais prestígio do que quem as traduziu em letra de forma ou lhe deu voz, tal e qual como o que sucedeu entre Platão e Sócrates, ou o Dr. Watson e Sherlock Holmes, ou, ainda, entre o último e Conan Doyle. E muito haverá por dizer, será dito, mesmo calado, acrescentado por silêncio, que é outra das formas de dizer muito praticadas nos subentendidos da polissemia. Bom.
Mas o que é verdade, ou não o sendo totalmente se lhe aproxima muito, é que o autor se serviu exemplarmente do Watson para exibir a sua riqueza vocabular, satisfazendo nele, e por ele, o apetite pelos rendilhados do discurso narrativo, os ramalhetes descritivos, as tiradas de perícia no linguajar, a frase desenvolta e harmoniosa, capazes de transcrever e reunir, num só romance, diversos estilos da arqueologia dos géneros, embora todos eles considerados populares, sim, mas menores: o terror, o gótico, o passional, o científico, o exótico, o policial, o de aventura, o paranormal ou supersticioso, o romântico moderno, o retórico. E tudo isso vendável em qualquer tabacaria da época, quiosque de hoje, como foi o caso do volume cuja capa se reproduz acima, que foi comprado na Tabacaria Continental, sita na Rua Augusta, 57 e 59, em Lisboa, onde eram comerciadas as demais brochuras ou folhetins de cordel, jornais, revistas ligth e bombásticas do Jet Sete, da sociedade, artes e espectáculos. Não seria barato, é claro, que vinte paus (20$00) era um ror, uma pipa de massa, mas era acessível a todos quantos, que seriam bastante menos do que agora são, sabiam ler, além de contar e assinar o nome. Dura apenas 183 páginas, de papel barato, em tipo miúdo, redondo, pequeno formato, de bolso (15x11 cm), capa mole e desenhada por Rosa Duarte, que é delícia para os olhos e uma enorme satisfação para a polpa dos dedos de quem o manuseia. Pegar-lhe, devorar de golpe parágrafos inteiros, é reconfortante, e ajuda-nos a compreender como é que a literatura se tornou uma arte de massas, antes de as massas serem devoradas pelos mass media. Deambularmos pelos pormenores das paisagens, pelas características dos edifícios e das ruas, pelos perfis psicológicos e físicos dos personagens, pelos compêndios de biologia e enciclopédias do crime, como então eram condimentados, é uma recompensa inigualável para quem, para além dos enredos outros enredos tece à volta do livro. E uma benção, pois durou de 1951 até hoje, sem perder qualquer das suas qualidades!

















(Continua)

4.07.2008

Sol na Eira e Água no Nabal....

É extraordinariamente engraçado como a maior parte das medidas que, noutros países, talvez com mais vocação para a cultura do que para a trambiquice, servem para proteger os criadores, em Portugal, sirvam apenas para os prejudicar, para os isolar superlativamente, impedir a divulgação, promoção e venda das suas obras, e, no caso da literatura, amputar-lhes os benefícios da crítica, sobretudo da honesta, ou daquela que pode ser feita com tempo, peso e medida, de acordo com as regras deontológicas ou da ética e companheirismo que partilham quantos em vez de roubar, criam, em vez de plagiar, interpretam, em vez de denegrir, analisam, e se pautam pelo respeito à relação criador-criado, do autor com o texto, do texto com a época, o ambiente e demais textos que o reflectem, ou nele são reflectidos, bem como acreditam que tudo quanto nos melhora individualmente contribui, determinada e inequivocamente, para nos qualificar, aumentar em qualidade, também como povo, como língua, como nação, apura a identidade portuguesa, lhe encorpa o teor civilizacional e assegura, no presente como no futuro, uma maior dignidade entre os restantes países europeus ou lhe empresta acrescida credibilidade e estatuto, quando e se convocado para assumir os protagonismos e estratégias de desenvolvimento imprescindíveis à consolidação de uma Europa, cada vez mais mundial, cada vez mais actuante e interferente na conjuntura da modernidade.
Tomemos agora de assalto um livro que nada tenha para nos dizer, do qual não haja qualquer conhecimento anterior acerca do autor, menos da obra, nem de anteriores trabalhos, ou géneros sobre que incidiu, e que nem sequer tenhamos comprado por ter uma capa atraente, título apelativo ou estivesse nos escaparates da actualidade, mas sim por ser o mais barato da estante de literatura de uma grande superfície comercial do sítio, falho em literacia por sinal, localizado num bairro social da periferia de uma cidade periférica, outros dirão interior, embora signifique exactamente o mesmo.
Temos sorte, pensei eu ao encontrá-lo, porquanto me ficaria pelo preço de um jornal diário um livro de poesia, ainda por cima premiado com o Prémio Revelação da APE/IPLB-1995, década cuja safra não foi muito afamada. Aqui "sorte" era já uma conjectura, como simples constatação momentânea de pouca valência, para apreciar uma compra de objecto cultural, qualquer que seja, livro, disco, quadro, documento, peça de escultura, de artesanato, onde figure, enfim, um conteúdo analisável e passível de veicular conhecimento. Poder-se-á, por conseguinte, dizer que não foi uma escolha totalmente aleatória mas pouco faltou para sê-lo, por que já intencional, mais precisamente motivada pela necessidade de executar, ou experimentar nela uma teoria, a ver se dela resultava a confirmação ou negação das teses em si enunciadas.
Nas orelhas, tem algumas indicações sobre o autor e a colecção onde a Difel, que é a editora, o insere, mas não serão lidas nem achadas. Tem prefácio? Tem. Saltemo-lho, pois.
Distribuídos por 70 páginas, os títulos de cada poema são de natureza numérica, de 1 a 30 apenas, pelo que nem por aí se poderá fazer ideia do que conste, embora se saiba já que esse foi o número de moedas com que Judas vendeu, traiu, Jesus, coisa de que dificilmente podemos abstrair-nos sem fazer primeiro uma interpretação dos textos assim intitulados, pois é impossível apagar uma convenção desta natureza sem haver outra que a substitua de imediato.
No primeiro poema a autora reproduz uma partida para o infinito, que vai desde aqui a lado nenhum, mas dando a volta por fora, depois de hesitante e indecisa caminhar pelo Cais de Alcântara, constatar o seu degradado e conspurcado estado, podendo daí concluir que os marinheiros se olham os rios procuram as moedas de prata da sua traição às amantes, tanto aquelas apenas mulheres como as com quem assumiram algum compromisso ou namoro. No segundo já está "bandeirante" na Amazónia, no terceiro e quarto e quinto viaja nas veias do corpo, até entrar, no sétimo, em Santa Cruz onde se começa a trajectória pela infância de alguém.
E dito isto assim, parece que estou a relatar um jogo de carica entre dois imberbes que não sabem, não querem, nem gostam de tal jogo, mas não há outra maneira de falar num livro – de poesia – que tem como rodapé da ficha técnica a indicação de que é "Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do Editor", pelo que me é dado compreender como Fernando Pessoa teve uma sorte danada em ter vivido noutro tempo, e ter muito pouca coisa publicada, quando os rapazes da Presença lhe começaram a criticar os poemas, divulgando-o e promovendo-os, pois caso vivesse e escrevesse actualmente apenas chegaria ao papelão mais próximo, onde, por descargo de consciência e imperativos ambientais e de cidadania, iriam parar os seus livros depois de lidos frugalmente, em diagonal ou ziguezague, uma vez que quem se atrever a repetir, ainda que por motivos de apreciação, de interpretação, de análise e avaliação, os poemas ou parte deles só o poderá fazer com autorização dos editores, o que obrigaria a escrever-lhes uma carta (ou e-mail) para pedir-lha, que, se considerada a contagem dos caracteres por defeito, se sujeitava a ser maior que o livro todo.
Bom... Anda toda a gente a dizer que se lê pouco, os autores queixam-se do fraco sustento que a literatura lhes rende, os editores e livreiros lamentam a comunicação social que os não noticia, os planos de leitura são para "europeu" ver e o acordo ortográfico é uma pedra no sapato da indústria da publicação, que vai, de só uma assentada, desactualizar a fornada de edições (invendidas) que atravancam os stocks das editoras e livrarias, e lhes atulham os armazéns. Pois saiba-se que sol na eira e água no nabal, embora continue a ser tempo cobiçado, nem com as alterações climáticas é alcançado. E das duas, uma: ou querem crítica séria ou recato de virgem sem dote e vaginismo inflamado. Agora, ao mesmo tempo, as duas coisas, apenas as encontram na prateleira esquecida de algum hipermercado!

4.02.2008

capas de primeiros números de colecção

A capa em baixo é de Abílio Santos, para as Edições Surpresa, em 1956, e o texto foi revisto para português por Maria Julieta C. Viana, que não faço a mínima ideia de quem foi, mas pelo tratamento e relevo dado pelo editor, tudo indica ter sido uma personalidade de respeito na área.


E em cima, o nº 1 da Colecção Policial da Editorial Notícias, sem data, com tradução de Maria Antonieta da Silva Telo, e ilustrações de Júlio Gil.

4.01.2008

Arthur Schnitzler regressa ao READCOM

A próxima sessão do Grupo de Leitura Readcom – IPP, de Portalegre, a realizar no dia 8 de Abril, no sítio e horas usuais, recairá sobre a obra Casanova Regressa a Veneza, de Arthur Schnitzler, autor austríaco de origem judaica, médico, amigo de Freud e elemento do grupo de artistas Jungen Wien. Autor, aliás, do qual já, em sessão de ano anterior, se leu e discutiu A História de Um Sonho, na tradução de Maria Paula Couto, e sobre a que há registos de óptimas recordações, quer pelo conteúdo e análises suscitadas, quer pela dinâmica com que impregnou o GLP-IPP da altura.
Portanto, quem tiver lido o livro e queira participar nas actividades, não perca a oportnidade...

Olivença e Juromenha – uma história por contar


As Edições Colibri e a Livraria Dom Pepe apresentarão no dia 5 de Abril, pelas 16.30 horas, o livro


Olivença e Juromenha – uma história por contar

da autoria de Ana Paula Fitas

Intervenções de Moisés Espírito Santo, Professor (Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas); António Teixeira Marques, Jurista, (Presidente dos Grupos dos Amigos de Olivença); Lina Jan, Geógrafa (Cooperação Transfronteiriça – CCDR Alentejo).

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