La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.28.2008

Superstições Populares Portuguesas


Superstições Populares Portuguesas
Benedita Araújo
152 Páginas

"Aquelle que se põe da banda do fuso
Ou é tolo, ou não tem uso."


Como contribuição para o estudo do nosso inconsciente colectivo, este livro arrola e intenta interpretar a maneira como o povo português foi transformando as suas suspeitas infundadas e crenças em valores bioculturais herdados da ancestralidade, manifestada mais concretamente, quer no plano tradicional, quer ao nível religioso e das instituições, quer no biológico, sanitário e sexual, face a certas atitudes e práticas, rezas, pensamentos rituais, a que é comum atribuir forte carga mística e poder mágico, mas sob uma perspectiva etnográfica, ou dos costumes que se consideram relevantes enquanto vivências culturais presentes, testemunhos continuamente (re)actualizados do nascer e do morrer, do trabalhar e do folgar, do cuidar e do desfrutar, das diferentes formas de encarar a relação do homem com as entidades míticas superiores, de reagir perante as oscilações pendulares dos ritmos de vida, conforme elas foram válidas e apreendidas pela nossa sociedade no decorrer dos itens de evolução desta, nomeadamente da agrícola e de produção, da de consumo e da de comunicação, que antecederam a de conhecimento, na qual ele, o livro, é um indubitável aliviar da carga supersticiosa residual ainda existente nos meios menos atreitos ao cosmopolitismo e globalização. Onde, aliás, parece persistir nos nossos dias, embora em alguns casos apoiada pela tecnologia de ponta e divulgada através da comunicação social ou no marketing territorial com influência directa na receita turística das economias regionais e da interioridade.
Para tanto, parte do indivíduo enquanto unidade biopsico– que raio de palavrão! –sociocultural complexa, qualquer que seja a cultura que o integrou ou a época em que decorreu a sua vida, a sua inteligibilidade, o conhecimento do sujeito em situação, a sua (metafórica) maneira de ser árvore entre as demais árvores da mesma floresta, as nuanças de que se revestem, visto ninguém desconhecer como ainda hoje há milhares de pessoas que vão benzer o carro a Fátima, atletas que não entram em competição sem antes fazerem o sinal da cruz, beijarem o amuleto ou estudantes que entram com o pé direito na sala de exames, enfim, no seu aqui e agora convencional, independentemente da formação e habilitações que tenha. Passa pelas prescrições de âmbito familiar, aflora as preambulares motivações e calendário/agenda do corpo social, roça a rotineira magia do ritual quotidiano na protecção das benesses e afastamento de invejas ou maus olhados, bruxas e bruxedos – Tosca mosca / Mosca tosca, / Ferradura no teu pé / Mordaça na tua boca, / Não Venhas à minha casa / Nem a esta comarca toda –, enuncia alguns dos preceitos essenciais às medicinas ingénuas, das mesinhas caseiras e populares, como das naturais e alternativas, para cerzir um ponto final em algumas das nossas conjecturas sobre o sobrenatural, os deuses, a morte e as almas, que não escapam à sua típica Encomendação...

«As almas dos fiéis defuntos
Me mandaram aqui vir,
Que venham dar uma esmola
Para do fogo sair.
»

Ao traçar este mapa nacional do absurdo, ou de como o sem sentido de alguns sentires, pensares e agires perduram, a autora abre um leque de temáticas bastante extenso, no qual se reflectem as superstições portuguesas respeitantes aos nascimentos, baptismos, adolescência, namoro, iniciação sexual, casamento, virgindade feminina, prenhez, parto, aleitamento, cuidados maternais, vizinhança e consanguinidade, enigma do futuro, domínio das vontades, práticas agro-pecuárias e piscícolas, enfermidades, de perecimentos, funerais, santos e relíquias, culto dos mortos, dores, fiéis e infiéis, Deus e demónio, isto é, da existência e existires em seu todo ou de cabo a rabo, entre usos e preceitos de bem conseguir as realizações dos anseios, por mais secretos e retorcidos que sejam. Desde o cozer do pão (S. Vicente te acrescente, / S. Mamede te levede, / S. João te faça pão, / Pela Graça de Deus e da Virgem Maria / Padre Nosso Ave Maria) até aos aconchegos de apaixonados:

"Amo-te lôc’apáxonado
Ôtr’amor igual é raro;
Oh, me fujas, menina,
N’ã arrecuses est’emparo. "

E elucida-nos de forma singela e sem afectações de como atribuímos uma confiança e importância excessiva, ou quase religiosa, a determinadas coisas, palavras e lugares, que nada justifica terem, enfim os nossos modos de crendice, fortemente eivada e cultivada pelo espírito do “Melhoral”, uma vez que se não nos fizerem declaradamente bem, também nos não farão mal, com que se vão transmitindo e veiculando de geração em geração. De maneira bastante lúcida, objectiva e exemplar, num livro de que aprazivelmente salientaremos dois pontos: a) a ausência de apêndice bibliográfico, contrária ao costume nos opúsculos de natureza academizante, onde se estabeleceu ser “praxe” elaborar um infindável rol de artigos e obras (supostamente) consultadas mas que raramente foram folheadas, ou sequer abertas, além da página referida, comummente consideradas como elevada fonte de sapiência; e b) a frequência e oportunidade das notas de rodapé, que efectuam assim a entrosagem eficaz no enquadramento das “ilustrações de conteúdo” que facilitam a compreensão de quaisquer textos.
(Ilustrações: Fotos de pedro Alcobia da Cruz -Bosque dos Amores Perdidos e Estrelinha Saltitona)

11.26.2008

A Primeira Esposa, de Françoise Chandernagor



A Primeira Esposa
Françoise Chandernagor
Trad. Clarisse Tavares


Este livro é uma extensa carta de amor, escrita no feminino e eterno sofredor de coita, qual diário de bordo de um casamento desfeito, e enquanto deriva da navegação solitária num mar escabroso, pejado de infidelidades e traições múltiplas, cometidas por um D. Juan da actualidade, como indicativo daquilo que outrora terá sido regra dificilmente deixa de participar no presente, qualquer que ele seja e independentemente dos graus de civilidade que o circunscrevam. Sopro remanescente do amor submisso e feudal, a um senhor neofilista, bígamo constante, embora que nem sempre com as mesmas, narra a luta controversa de uma mulher que balança entre a sofrida presença do marido e a dor da sua ausência, entregando-se e forma convexa, convergindo alternadamente quer no amor, quer no ódio, no comodismo como na revolta, na solidão ou no mundanismo, no desespero como na esperança, mas a quem não faltou, contudo, a lucidez, objectividade, disponibilidade e imaginação para registar cada momento desses estádios de ânimo, erigindo assim uma bóia de salvação que a sustentasse à tona desse mar de escolhos, fortalecendo-a tanto interiormente como aos olhos do mundo, permitindo-lhe reconquistar a auto-estima e dignidade perdidas, provando com exemplaridade o que já desconfiávamos e se vê reflectido sobremaneira no ditado chinês que nos aconselha que “quando se cai ao chão devemos levantar-nos com o auxílio dele”.
De salientar todavia, no que diz respeito à esfera das intertextualidades, que não obstante esta seja uma obra marcada pela “essencialidade existencialista”, cujo pano de fundo é o cosmopolitismo francês e contemporâneo, se revela nela, com extraordinária frequência, o espírito e o discurso passional característico daqueles outros romances aristocráticos e militaristas, como o foram tipologicamente identificados pelas Cartas de Soror Mariana Alcoforado, a freira de Beja, que perdidamente se apaixonara por um oficial francês, lá nos da História que, veio a saber-se mais tarde – o que sempre é melhor do que nunca – afinal seria um homem, e militar ainda por cima, com patente oficial, guerreiros e valentes como soem ser, engalanado pelas divisas e dragões típicas dos lugares de tenência, pondo a nu pormenores cabais subscritos pelo coração que, alvíssaras lhe sejam dadas, não comunga das fatalidades do género.
(Françoise Chandernagor estudou no Instituto de Estudos Políticos de Paris, é graduada em Direito Público. Foi a primeira mulher a obter o título de "major", da Escola Nacional de Administração da França. Muitos de seus romances foram traduzidos para outros idiomas e dois deles foram adaptados para a televisão.)

11.24.2008

E vai mais uma!

Lamentavelmente os números apresentados na crónica Proibido Olhar, de quinta-feira passada, logo na madrugada de sexta-feira foram inequivocamente alterados pois, conforme noticiaram diversos diários, às 5:30 h em S. João da Talha (Loures), um homem de 28 anos, conduzindo o seu prendado Mercedes, parou a viatura junto à bomba para bater na namorada, Cátia Sofia, de 22 anos, arremessando-a de seguida para a faixa de rodagem em que, precisamente nessa altura, circulava a carrinha duma pastelaria, talvez de transporte de bolos, que a atropelou, provocando-lhe a morte imediata.
Mas não só: outros casos de maus tratos vieram a lume, de onde se depreende que num período de tempo relativamente curto tenham aumentado para quase 70, e isto não contando com aquelas que "comeram e calaram", porquanto são reféns da sua condição económica e dependem integralmente das gentilezas monetárias dos agressores.
Todavia, as autoridades portuguesas, a justiça portuguesa e a comunicação social vigente, continuam a contabilizar estatisticamente as ocorrências, a apoquentar-se com as acções e palavras da UMAR, a sociedade a socializar com os agressores premiando-os pelas suas boas acções, sentenciando sobre as vítimas que "se tal destino Deus lhe deu, é que por alguma coisa o mereceu" tal com disseram anteriormente acerca dos afectados por incapacidades motoras, na popularidade dos ditos que viraram provérbio como no famoso "se Deus o coxeou, é porque algum mal lhe encontrou", coisa de somenos se comentará, já que o que importa para os políticos nacionais é criar obra, pontuar para a pegada ecológica desta geração que se está absolutamente borrifando para as noções cidadania democrática, como para os direitos, liberdade e garantias (constitucionais por acrescento), desde que elas não digam respeito à sua vida, mas à de outrem, por quaisquer que esses outréns sejam, desde que não sejam eles e elas, que ganham bem, têm estatuto de primeira e papel de exemplares mentores da moralidade patriótica.
Ou seja, apetece perguntar com igual cinismo, que importância terá morrerem aquelas que já não eram ninguém para os seus concidadãos e autoridades? É a isto que Pessoa se referia quando afirmou que faltava cumprir-se Portugal? Bem'era a mim, que devia ser!
Por outro lado, as medidas de reforço ao criancismo político aprestam-se para tratar do problema como o faria qualquer ignorante encarregado de educação quando o seu rebento piora nas notas e sobe o número das faltas, aumentando-lhe a mesada, inventando campanhas que sublinhem a sazonalidade da questão, como se elas fossem eficazes na cultura do pepino, à semelhança do que vai sucedendo para o ambiente ou selecção do lixo, que já lá vão mais de um porradão de anos após a DEDS e a maioria da população ainda não sabe em que lugar do ecoponto há-de enfiar a carica, distribuindo uns dinheirinhos pelas sempiternas "paróquias" do faz-de-conta, para organizarem mais uns seminários com certificado de presença em que estarão unicamente aqueles e aquelas que raramente fazem alguma coisa e aproveitam a oportunidade para fazer ainda menos sem desconto no ordenado, para lançarem spots publicitários e televisivos com efeito directo nas carreiras dos filhos família que se formaram em design, audiovisuais e multimédia mas não conseguem emprego, ou para reforçar a verba nesta e aquela autarquia que se tem esquecido das suas responsabilidades em termos de cidadania e igualdade de género, mas não se incomoda nada em praticar a transferência de recursos para actividades que lhe venham a dar mais votos nas próximas eleições, promovendo actividades para inglês ver. Mas não só, adiante vem também o Governo e Conselho de Ministros que garante a prisão preventiva sem o flagrante delito, como se isso fosse o supra-sumo das medidas impeditivas de violência doméstica, e impedissem de morrer quem é vítima de homicídio, ou de levar porrada quem é agredido... Isto é, mais dinheiro e trancas na porta depois da casa assaltada, continuam a ser as medidas geniais para quem quer parecer mudar alguma coisa para não mudar absolutamente nada, tudo ficar na mesma, que esta coisa do governar só dá governo se puder sustentar a clientela do costume, e a gente política não sabe o dia de amanhã, que a necessidade calha a todos e uma mão lava a outra, mas com as duas se lava a cara. É a democracia e seus democratas!

Leslie Charteris, e O Santo

O Santo em Miami
Leslie Charteris
Trad. Fernanda Pinto Rodrigues


Nos romances de Leslie Charteris, que não são propriamente policiais, ou apenas policiais, mas antes imergem e mergulham no universo da aventura/espionagem/acção, os cenários são invariavelmente idílicos, poéticos, de comédia musical e glamourosos, o discurso quase barroco pelos floreados, e o sentido de humor recambia-nos para a gargalhada solta do enquanto a página se vira ao dedinho molhado. Na série O Santo, estas características acentuam-se. E aqui, fá-lo deambular pela exótica Miami, com garotas bonitas e manhosas à perna, qual Robin dos Bosques em ida a banhos, aldrabando os aldrabões, saqueando os gatunos, metendo os maus na linha e cortando as voltas à polícia – "o nosso destino estaria errado se não travássemos discussão com a autoridade", como ele diz a páginas tantas –, fazendo justiça à sua maneira e sob uma lei que inventou exclusivamente para o seu (templário) jeito de operar.
Porque Simon Templar não é somente uma personagem pícara. É também um herói sobrevivente de A Odisseia, qual Ulisses que navega de ilha em ilha, de hotel em hotel, de cidade em cidade, gorando as misteriosas artimanhas da malandragem organizada, esse Cíclope de um só cifrão que está disseminado por toda a economia, como o da ganância e do poder, abarcando a "globalidade do globo" e seus arredores. É inclusive um sobrevivente da mitologia do Preto & Branco, dos áureos anos do maniqueísmo universal, das grandes ideologias e cortinas de ferro por dá cá aquela palha, mas também das teologias da libertação, das revoluções pela liberdade – uma coisa que devia ser retirada a todo aquele que não a usasse, por medo das consequências e ausência de consciência cívica –, ainda que não se esclareça que tipo de liberdade defende, nem o seu grau ético, comum ao desabrochar das democracias modernas, por sinal bastante mais burocratas do que democratas, em vassalagem aos desígnios corporativistas, como igualmente a Era da instituição dos direitos e valorização do Homem, dos grandes ideais onde todos os meios se justificavam perante a (hipotética) nobreza dos fins objectivados, mesmo quando desses fins se não viam quaisquer fins esclarecidos além das carreiras ou fortunas pessoais, ou essa visão fosse assistida por uma justiça cega por autismo, nunca por imparcialidade e isenção, mas para garantir-se titular e detentora do direito de ter dois pesos e duas medidas sempre à mão (de semear, como de colher).
E desta vez O Santo aposta-se em responder a um SOS tão intrigante que resvala numa curiosa aventura, onde o menos criminoso dos factos em que se envolve é o rapto. Assassínio, jogo clandestino e ilegal, álcool ilícito, contrabando, roubo, especulação financeira e tráfico, serão as demais ondas sobre que balouça o meteoro em que se desloca. No entanto, não fosse a ajuda símia e terrena e etílica do Mr. Hoppy Uniatz, um nome extraordinariamente feio, mas que mesmo assim não retratará fielmente a fealdade do seu possuidor, o caso teria sido ainda muito mais complicado... O que, no fundo, vem confirmar (corroborar) aquilo que já inúmeros de nós suspeitávamos: Que neste reino onde nem toda a beleza brilha, há bastante fealdade que, se bem vista, até parece maravilha!
Não é, Penélopes?

Cuerpo de Mujer..., poema de Pablo Neruda


Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
Te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvage te socava
Y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fuí solo como un túnel. De mi huían los pájaros,
Y en mi la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como una arma,
Como una flecha em mi arco, como una piedra em mi honda.

Pablo Neruda

11.20.2008

Unidos Pela Guerra

Unidos Pela Guerra
Peter Cave
Trad. Pedro Lopes d'Azevedo e Clarisse Tavares
304 Páginas


A narrativa transcreve aquele período de eclosão da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente desde o Outono de 1939 até ao Verão de 1940, em que o dia a dia estava fortemente carregado pelas influências das propagandas e ideologias, e relata o quotidiano de duas famílias inglesas durante esse tempo, socialmente opostas e diferentes, uma burguesa e a outra plebeia, que se vêem obrigadas a conviver, incontingências da sobrevivência, e assim convergindo, não obstante todas as suas divergências no modus vivendi como de valores e filosofia de vida, ao se verem unidas pelo "santo laço do matrimónio" entre dois dos seus descendentes, numa altura de crise e falência das condutas e clivagens tradicionais britânicas, certamente de risco e incerteza pelo amanhã, em que a mínima relação interpessoal dos géneros pode ser o rastilho incendiário para uma afectividade passional.
Nesta reconstituição de época, é de salientar o mapa de sentimentos e esboço relacional de duas famílias conservadoras, resistentes, orgulhosamente conscientes das suas dessemelhanças, todavia capazes de as superarem e acatarem uma abertura estratégica de sobrevivência, mas não definitiva, como também o croquis sociológico, onde se nos pinta e apresenta uma sociedade rigidamente demarcada e estruturada, em que a aproximação e inter-relacionamento dos indivíduos das suas díspares classes só é possível porque imposta pelas circunstâncias conjunturais, na então imperiosidade do amor como da guerra. E, neste caso, terão sido os dois. O que é deveras gratificante e nos leva a pensar em como a arte, para ser útil à comunidade e espiritualmente enriquecedora da pessoa humana, logo humanitária, não precisa de grandes enredos e complicadas tramas, de personagens com atitudes e jogos transcendentais, nem dos preciosismos barrocos tão queridos e clericais quão afidalgados, mas muito bem pode optar pela simplicidade, singeleza e despretensiosismo intelectual, além da concreta subscrição factual no verosímil, em vez do rigor fundamental cinzentão e sorumbático, unicamente apoiada pelo discurso jornalístico, escarnado, preciso mas flexível, objectivo mas polissémico, que assiste às grandes reportagens, numa evidente economia de termos, como é apanágio de Peter Cave e a que, suponho, os tradutores souberam manter a traça original não obstante as peculiaridades das línguas inglesa e portuguesa.
Ao contrário de Expiação, de Ian McEwan, mas igualmente adstrito aos estilos de Jane Asten e irmãs Brontë, em que os protagonistas são separados pelas guerras, a das famílias, a das classes sociais e a outra, a das nações, o retoque de esperança que alivia a ansiedade sentimental nasce (ou sustenta-se e mantém-se) precisamente das dificuldades comuns perante um inimigo exterior, porquanto é invariavelmente esse o leitmotiv que assiste, sublinha ou justifica, além de ser permitido ou tolerado, o princípio de mudança na atitude social das famílias mais conservadoras, tradicionais, ortodoxas, cujos pergaminhos genealógicos remetem até à fundação das nações, sobretudo se essa nação é a pátria de um povo frio, calculista, racial, tão rígido quanto provinciano, adverso a miscegenações ou misturas, quer elas sejam de índole cultural, como de natureza apenas genética.
Aliás, deveras elucidativo de como à civilização britânica não escapou, espelhando-a, pois teve honras cinematográficas e televisivas, nomeadamente numa série homónima e com a chancela da BBC – salvo erro!

Poibido Olhar



Algumas pessoas são contra mim. E depois, qual é a estranheza?... A maior parte delas, até contra elas próprias são!
É característico do step social no deslavado sobe-e-desce das formas, formaturas e formatações arrivistas, para que aquilo que se olhe se não veja, aquilo que se escuta se não ouça, aquilo que se fala se não diga, aquilo que se sonha se não pense e aquilo que se quer seja silenciado, que se esconda no que há de pior das nomenclaturas, sobretudo os oxímoros que encerram, as leis que ultrajam e a transparência que aniquilam, que se entendermos certos termos e denominações por aquilo que são e significam, que invariavelmente nos sentiremos o mais miserável dos desgraçados povos existentes à face da terra, principalmente se começarmos pelo sentido exacto de algumas das suas instituições fundamentais como o são, ou o é, por exemplo, o de Justiça Portuguesa, clamorosamente contraditória uma vez que de justa não tem quase nada, como o atestam os 700 (mil ou milhões, perdoe-se-me a falta de memória e imprecisão do número, já que mesmo que fossem unicamente setenta ou sete, seriam igualmente excedentários, abusivos e inegavelmente pouco éticos além de menos profissionais; e que nunca espelharão o conjunto daqueles que tendo sido condenados mas sendo pobres não puderam recorrer das sentenças, nem foram aconselhados com rigor e exactidão pelos advogados que oficiosamente lhes couberam em sorte, que nunca os representaram, e atribuíram a regalia aos piores estagiários do seu harém legislativo) e abundantes € pagos pelo Estado a particulares como indemnização por erros judiciários, e de ainda muito menos portuguesa, visto que se tutela pela jurisprudência positivista (logo, de Hume e Comte, ou tão vienense como anglo-saxónica) e direito romanos, uma vez que o direito consuetudinário tem mais expressão e força de lei, do que as leis cujo mister e consequência deviam ser o de alterar condutas interpessoais e modificar a opinião dos grupos vigentes nos vectores sociais da Igualdade e da Cidadania.
Ou seja, por exemplo, Espanha e Portugal têm as mesmas leis, aliás derivadas da aplicação/adequação/adaptação nacional de directivas comunitárias, mas o seu uso, reconhecimento e aplicação é bestialmente díspar, porquanto nos podemos aperceber em relação à violência doméstica, que nos ditam como face aos números divulgados o país dos nuestros irmanos é uma real democracia ou democracia com rei, mas o nosso pauta a sua lusitanidade por um baronato marialva e republicano, onde as leis só têm consequência se não houver um costume, uma prática ou uma convenção social que as contradiga, normalmente transmitida por via dos ditados ou dos provérbios populares, que se podem resumir num só: entre marido e mulher, ninguém mete a colher.
Senão vejamos: no último ano, em Portugal, verificaram-se 43 homicídios de mulheres, vítimas de violência doméstica, e mais de sessenta apresentaram queixa por maus tratos, mas as autoridades oficiais, desde as autarquias ao governo e demais órgãos de soberania, passando pelas religiosíssimas ONG, nada fizeram para obstruir a que estes números se repitam no ano vindouro, números que são só números nem apenas dados, mas pessoas, carne e osso, sangue do nosso sangue, e muito menos mexeram uma palha para implementar A Carta da Igualdade de Género, não obstante esta ter sido subscrita e aprovada por todas as Câmaras Municipais por influência da ANM (Associação Nacional de Municípios), chegando nós ao cúmulo de a nossa comunicação social se servir dessas mortes apenas como notícia capaz de aumentar os seus escores de audiência ou tiragem, alimentar-se monetariamente do facto sem disseminar a desumanidade que representa. Ora, aqui em Espanha, não muito longe de nós, ou na Europa aqui ao lado, tão distante ao centro como a praia, verificaram-se 52 assassínios consequência das mesmas "razões", todavia o Estado promoveu acções de formação complementar para jornalistas, com carácter vinculativo e de progressão na carreira, afim de os apetrechar e instruir no sentido de sensibilizar a opinião pública e a população, para o flagelo da violência doméstica, promover o debate, esmiuçar as causas e meios, divulgar as leis e os recursos de evitação, nomeadamente o de consciencializar os espanhóis e espanholas quanto aos efeitos do pensamento sexista.
Para um país, a Espanha, com aproximadamente 40 milhões de habitantes e uma superfície de 504 782 km2, logo quase seis vezes maior que o nosso, e com mais 30 milhões de habitantes, o facto de terem ocorrido 52 mortes, traduziu-se num escândalo nacional que originou a tomada de medidas eficazes como reforçamento negativo, no entanto cá, onde ocorreram 43 para dez milhões de habitantes, na conversa como nas tertúlias literárias, atirar o tema para o ar, é pueril e indesejável, porque não se deve falar de coisas tristes nem de moléstias que nos atacam, havendo até quem ache que elas mereciam o que lhes aconteceu, e que a nossa pátria (de justos, rectos, pedantes e imaculados) se viu assim saneada de outras tantas "pestilências" que nos envergonhavam, desde Fátima a S. Bento.
Nós os bons, os vencedores de Aljubarrota, os dignos herdeiros da gesta lusitana, os defensores dos mais altos valores que se "alevantam", pioneiros na extinção da pena de morte e fim da escravatura, consideramo-nos tão sadios e íntegros, que nem notamos quanto esse número, que é mais que um número, é grande e horrendo, ou nos desonra, mas em vez disso, damos "beijinhos" políticos uns aos outros, fazemos a política do pão com queijo nas autarquias – um emprestimosinho para acabar as obras seguido de mais umas obrinhas para acabar o empréstimo,e assim por diante, até à eternidade – , votamos ao ostracismo, pomos de quarentena cultural que fala nessas barbaridades, além do que os proibimos até de olhar, de ouvir e falar, desde que não sejam as bestialidades de sempre sobre os sempre mesmos futebóis, mesmas bandeirinhas, mesmos trapos de vestir, mesmos santos, santinhos e romarias no catecismo do boca aberta ao «que-bonito!», mesmas arruaças corporativistas, mesmas invejas pelos êxitos de alguém, sobretudo se eles estiverem ligados à cultura e à literatura, que não sejam mais uma versão camuflada de propaganda, e demais avenças à burocracia do politicamente correcto do bem-feita para não andar a piar. Porque para estas pessoas é proibido olhar e ver, pensar e dizer, ouvir e não calar, mas nunca proibido fazer mal ou seviciar os mais fracos, porque elas são fortes, e ricas, e prósperas, e afamadas, e benquistas, e diplomadas, e têm direito a fazê-lo, na razão directa das suas vantagens competitivas que, afinal, são os únicos lucros que usufruem por serem tão afortunados e sexys. E justo. (Vai lá vai, vai... Até a barraca abana!)
(Fotos: Caminho Medieval e Pescoço Feminino, de Pedro Alcobia da Cruz)

11.19.2008

Remédio Fatal, de Catherine Aird



Remédio Fatal
Catherine Aird
Trad. Eduardo Saló
224 Páginas

A acção desenrola-se num ambiente sócio-profissional circunscrito aos cuidados de saúde bem como à investigação científica, e a narrativa gira à volta da problemática dos testes, ou experiências efectuadas pelo corpo clínico de novas "drogas" em pacientes seus, que assim funcionam como cobaias humanas. Extraordinariamente inquietante, a questão desperta um sem-número de reacções dentro do leque convencional, quer do foro ético e deontológico, como ao âmbito filosófico e científico. Então, uma doente supostamente inscrita nesse programa de pesquisa (Protocolo Cardigan) morre. É o princípio casual para uma longa e exaustiva expedição dos policiais (Sloan, Crosby e Leeys) à velada e maneirista atmosfera do crime. Sempre misteriosa, sempre obscura, sempre perigosa, sempre labiríntica, mas também sempre tão explicitamente ligada aos seus interesses e motivos, que basta desvendá-los para que o novelo se desenleie totalmente.
No enquadramento narrativo está subjacente a moldura do labirinto. Todavia, à medida que as autoridades se vão aproximando do núcleo nevrálgico da problemática, os cadáveres proliferam, numa proporção de resultado futebolístico, ensaiando uma espécie de desafio do macabro: Pacientes 3 – Médicos 2.
Assim, imbuída do espírito metodológico, Catherine Aird, aliás pseudónimo de Kim Hamilton McIntosh, faz igualmente a sua experiência colocando um observador privilegiado no camarote das operações, um artista plástico, qual Deus ex machina encavalitado acima dos demais por um andaime, em que pinta mural simbólico no átrio de um dos hospitais do cenário afecto ao enredo. Como árbitro é um fiasco; como filósofo, uma nulidade; como guia-detective iluminado, uma escória. Mas ajuda sobremaneira a decoração e, no final, auxilia os justos a atar as pontas soltas. Enfim, dá à autora a originalidade de ter criado uma personagem placebo, a condizer com a temática e indumentária dos homicidas, para elucidar o tipo de navegação possível entre os escombros, reminescentes do sério naufrágio registado pelo discurso, tão característico, onde os salvados podem bem não passar do acervo de elementos da terminologia médica, farmacêutica, laboratorial e sanitária, em risco de virarem linguagem comum. O que, se poderá indicar, como óptima leitura para quem não se importa de alargar os horizontes do seu vocabulário – pelo menos!

11.17.2008

Em Busca das Bandejas de Oiro, de Jacques Futrelle




Em Busca das Bandejas de Oiro
Jacques Futrelle
Trad. J. Lima da Costa
190 Páginas

Quem de vinte(,) cinco tira, quantos ficam?
Num baile de máscaras um indivíduo disfarçado de ladrão abafa, bifa, gama, as 11 (onze) bandejas de oiro ao anfitrião (e de fugida leva consigo a cowboy de serviço que o supusera seu namorado, e julgara reconhecer não obstante desconhecer o mascarado – porque isso das máscaras funciona mesmo em ficção, embora quase nunca suceda em realidade, onde o jogo de faz-de-conta). Então, um jornalista armado ao pingarelho aventura-se na peugada do engenhoso artífice amigo do alheio, sensivelmente dois passos à frente da polícia, aliás, orquestrada e dirigida pelo Génio Supremo. Todavia este jornalista, não passa de um peão de brega na faena do verdadeiro artista, a Máquina Pensante, cientista por método, diploma e profissão, e aí aquilo que eram somente dois passinhos vira quatro. O que era um ladrão desdobra-se noutro. E entramos graciosamente no jogo dos espelhos...
Porém, uma ressalva. O "cenário" labiríntico está pejado de fantasmagorias no metafórico, de aparências que são, escorado em alegorias que deveras alegam, de palavras que se revelam desdobráveis e se multiplicam para além dos seus simples e usuais significados, encruzilhada de sentidos, armadilhando o jogo e desafiando o leitor a sublinhar de entre as evidências a mais lógica e evidente. No fim, é esta formalidade dedutiva que prevalece, mas órfã e abandonada pelas "obviosidades óbvias", indo ao desconhecido buscar um criminoso antigo que nunca entrara na história. Se nos surpreende?... Convenhamos que sim, contudo pela surrealidade naïf, porquanto nos tira da cartola um coelho quando nem sequer sabíamos da existência dessa cartola, ou tanto quanto nos surpreenderia uma rosa vermelha no puré da sopa. É bonita, fica-lhe bem, pode estar repleta de subentendidos, provoca um bom arranjo cromático, simplesmente não devia lá estar. Desembronca a fotografia, mas desvirtualiza o género, degenera-o, transformando em handicap aquilo que, tão-somente, poderia ser uma particularidade de estilo.
Quaisquer outros, igualmente deterministas, dirão: impossível. Mas Jacques Futrelle, ainda que hipoteticamente o possa ter pensado, não se resumiu a dizê-lo... (Credo quia absurdum) Fê-lo!

As Aranhas Douradas, de Rex Stout

As Aranhas Douradas
(The Golden Spiders)
Rex Stout
Trad. Manuel Cordeiro




Nas novelas de Rex Stout, das quais conhecemos pelo menos dez tradutores (Eduardo Saló, Catarina Rocha Lima, Mascarenhas Barreto, Maria Luísa Santos, Lucinda S.Silva, Maria Emília Ferros Moura, Manuel Cordeiro, etc., etc.) as variações sequenciais, no seguimento ou sucessão dos trechos, para delineamento dos quadros ou dísticos que, depois de encadeados, formam o painel da narrativa, as diferenças entre elas ou eles, são sempre subtilíssimas e deléveis, sem bruscas tiradas, esticões de conteúdo, nem rompantes e repentinos impulsos geniais, mas antes com a pertinaz harmonia de quem ensaia o decalque sobre o esboço, nele insiste por diversos prismas, para melhor vincar os contornos das figuras numa aguarela esbatida pelo tempo. E daí o sentimento de familiaridade, a entrosagem, o reconhecido entrosamento que o leitor experimenta sempre que pega num novo volume, sentindo-se como em casa, não só pela fluência e entretecimento do discurso narrativo, mas também pelo "efeito de estufa" ou debate doméstico no qual (subentendidamente) ecoa. A não ser que algo de invulgar surja no contexto, como sucede no caso deste caso onde nos deparamos com subalternos a tratar por tu o grande e recheado Nero Wolfe, o fauno da estufa das orquídeas, o dificilmente enganável, porquanto é dos raros que sabe que as «vandas» não dão flores em Maio.
Ora isto, este anúncio, é só por si um desafio, cujo resultado pode ser o mesmo (no tratamento formal e consequências) que o do slogan pessoano para a Coca-Cola, em que somente depois de entranhado o sabor se deixa de estranhar o gosto, admitindo variedade apenas se ela lhe acarretar nova tonalidade, mas tão leve e imprecisa, que nunca lhe altere ou adultere o paladar; e isso, se comparado, trará as dificuldades comuns entre o verosímil e a verdade, porque é do apuramento dela que se fala sempre, quando se fala em romance policial. E este exige excelência na denominação!


(Vandas – Orquídeas epífitas com caules de onde nascem frequentemente raízes carnudas e aéreas e folhas verde-claras, geralmente ensiformes, surgindo nas extremidades os pedúnculos que suportam várias flores aromáticas e douradas, sendo das quais algumas espécies cultivadas como ornamentais. Umas são anãs, outras elevadas e ramificadas e trepadoras, com folhas dísticas, flores em cachos axilares, labelo esporado e trilobado, com lóbulos laterais pequenos, polinídias e caudículo comum.)

11.13.2008

Dilema em Biarritz


Dilema em Biarritz
Nicolas Freeling
Trad. Eduardo Saló
Thriller – 224 Páginas


Pianinho e empoado, que é para parecer banquete, romance travesti e parodiante, na textura dos tapetes voadores, com entrançado onde se cruzam e entretecem, além dos nebulosos cenários do cinema hollywoodesco (ou cowboyana fantasia USA biblicamente assistida) com os de expressão neo-realista continental, também os "(i)magos" discursos de Boris Vian (Vernon Sullivan), Georges Simenon e de A. Christie, estabelecendo aquele background de notória surrealidade ao enredo, ou mesmo de absurdez existencial, em que tudo é possível, por mais indizível e inaudito que seja, desde a cooperação das forças terroristas bascas com um PJ aposentado, na recuperação da neta deste último, raptada por elementos do milieu capitalista, mafioso e político de Biarritz, até ao desenvolvimento de teorias interpretativas da psicologia comparada, este livro vem esclarecer muito satisfatoriamente o nível de fusões possíveis no jazz multidisciplinar da literatura, da qual todos os géneros podem vir a ganhar substancialmente, e não apenas o de cordel, ou o policial. Aliás, simbiose essa atraiçoada pela mãe da bebé, que demonstrado a peculiar cegueira taurina e animal e egoísta da maternidade protectora da cria, sobrepondo surpreendentemente a impetuosidade sanguínea sobre o peso da gratidão racional, provando uma vez mais que em ficção, espelhando a realidade ignara e saloia de uma Europa hodierna, os idealistas e lamechas quixotescos, apologistas da justiça da paixão, porque são as duas cegas, e vêem, continuam a ser os mesmo ingénuos asnos de sempre, predispostos a confundir meios com fins desde que isso lhes traga vantagem competitiva, à semelhança de quem abomina pipocas mas não passa uma sessão cinematográfica sem as comprar, porquanto elas proporcionam fazer um barulho que incomoda os demais espectadores, e está convencido de que é In fazê-lo.
Tragédia de vingança no essencial, é contudo uma narrativa brumosa e swingada dos nossos tempos, aflorando a circunstancialíssima Comunidade Europeia onde proliferam a miscegenação étnica e civilizacional, no delinear, quer dos perfis dos protagonistas, quer nos dos figurantes, mas igualmente nos géneros e, dentro destes, nos estilos. Enfim, um policial que tanto pode sê-lo quanto menos pretenda parecê-lo, o que apenas deve ser outro dos reflexos "condicionados" pavlovianos ao espaço-quando cultural em que foi inspirado e transpirado: o eixo Bruxelas-Paris-Berlim – ou fulcro intriguista centralizador de um continente em vias de virar federação política, sob a égide tirânica de um triunvirato territorial e administrativo macrocéfalo. E ao que suponho reflectindo sobremaneira a semelhança do modus vivendi de Nicolas Freeling com o de Gerge Orwell (Na Miséria em Paris), efectuando aquela espécie de empatia e unicidade de pensamento gerados nas vivências comuns, ou mais precisamente da circunstância dos dois terem passado por aquele Grand Hotel francês, como lavadores de pratos e ajudantes de cozinha, bem demonstrativa de como em criação artística, estética, filosófica e literária, nenhuma coincidência é impune (e imune).
Mas que ninguém acredite nesta tendenciosa apresentação, antes o leia, releia e tresleia, me rebata a crítica e desanque nos critérios, pois só quem mergulha na leitura é que sabe o que lá vai por dentro, tal e qual como apenas a colher é que sabe a quentura da panela (quando se mexe o caldo), conforme indica a sabedoria popular que indabenão saboreia por conta própria aquilo que somente a confecção mental vai fornecendo à ementa literária da gastronomia universal, num tolle, lege (toma, lê) de quem receita mesinha amarga prà tosse (catarro) intelectual de (abonados) certos e determinados meios que, vivendo à custa da literatura, são declaradamente contra ela e seus autores, uma vez que não se confinam ao bater de palminhas à sua acção política, ou dar labéus aos seus adversários e inimigos, nem sempiterna difusão e propagar a ignorância mal contida que os caracteriza.

(Dilema: situação que obriga a optar por uma de duas alternativas, sendo ambas indesejáveis, também denominado por conflito de repulsão-repulsão, que sucede quando uma personagem literária enfrenta uma situação semelhante ao do shakespeariano Hamlet, por querer vingar a morte do pai e cobrir de vergonha a mãe mas não o poder fazer, sem cometer ele próprio, um pecado mortal...)
(Fotos: Chão de Casa Romana, de Pedro Alcobia da Cruz; e Moinho da Pinhoa, de Mariana Lino)


11.12.2008

Veneno Para Um Detective

Hartley Howard
Trad. Mascarenhas Barreto
192 Páginas


"Sum, ergo bibo; bibo, ergo sum."

A arte é um canhão apontado à paisagem.
Em literatura, que é coisa muito diferente da realidade – pese embora existirem bastas realidades cujo realismo, objectividade, exactidão, rigor factual, respeito pelo concreto sensitivo como pelo conteúdo ou percepção das sensações, sejam sumária e notoriamente menos inverosímeis do quaisquer criações literárias, porque motivadas nos "escondidos" desvios éticos, religiosos, políticos, territoriais, económicos e corporativismos deontológicos –, porquanto na ficção só acontece na narrativa aquilo que o autor quer que aconteça (Deus ex-machine, se diz no latinório da cagança), ainda que ninguém o note à vista "desarmada", o que é certo, aunque la mona se vista de seda, mona se queda, é que um criminoso tem sempre aspecto de criminoso, mesmo quando se esforça em demonstrar o contrário, se torna exímio actor de papéis angélicos, se distancia intencionalmente do ambiente e moral dos desfavorecidos, como marca de distinção e credibilidade, dando-se aqueles ares de (suspeita) superioridade que os indivíduos de natureza e cultura inferiores tanto gostam de exibir. Só que a Glen Bowman não escapa "absolutamente" – em relativa medida, é claro – nada, uma vez que é um detective de elevados valor valores e brios profissionais, que quando se põe a detectar, detecta; a fazer, faz; a dizer, diz; e a ganhar muito dinheiro, ganha, porque enfim, tem enorme predilecção pelo metal sonante, é um tio patinhas por moedas e notas, sobretudo se merecidamente ganhas.
E isso exige movimentos, acção, deslocações. Desta feita é deslocado da Grande Maçã / Nova Iorque, N.I., para a pacóvia interioridade provinciana da Santa Anita, na Califórnia, terra de pastos, vendedores e cowboys, em busca do tresmalhado filho de um VIP à porta de eleições, o que lhe requer para além das costumeiras perícia e eficácia (na condução dos casos), também a necessária e conveniente discrição, condimentos nada fáceis para quem almeja e se pauta pela verdade, como não lhe facilitam nada a tarefa. Pelo contrário, antes lha tornam deveras difícil. Mas ele sabe-o e não se importa. E vai... Porque Bowman, desde que desconfie que algo é caprichosamente complicado, não descansa enquanto o não descomplica.
Contudo, e é essencialmente esta a residual magia que sustenta olimpicamente a literatura, o leitor pode fazê-lo como ele, não só acompanhá-lo, pois fica irremediavelmente envolvido pelo discurso irónico e brincalhão, o sentido de humor e a sagacidade de um Hartley Howard, no seu pico maior, que nem as diferentes adaptações cinematográficas em pb conseguiu apagar, e vem como exemplo do apogeu narrativo desse poeta da prosa policial que, com galhardia, consegue levar qualquer insignificante novela ao rubro. Porque ainda que à literatura de cordel seja amputada, retirada, a mínima hipótese de maestria, o que ninguém pode é apagar e anular, em certos dos seus autores, a qualidade de mestres!
(Foto Marvão, de Mariana Lino)

11.10.2008

Um poema de Manuel Canijo


Doente de ser português
Boca a sangrar de morder as estrelas
E a tristeza de barriga ao sol
Neste desgraçado clima temperado

(A mista cumplicidade
Das consciências opacas
A inteireza traída
Nas fissuras da memória)

Deitados à portuguesa
No apodrecer da história

Porto, 1954 – 1964

Manuel Canijo
Foto: Pedro Alcobia da Cruz

11.07.2008

O Escafandro e a Borboleta

Jean-Dominique Bauby
Trad. Clarisse Tavares
152 Páginas


No silêncio precioso que faculta ouvir borboletas a voarem-lhe dentro da cabeça, enclausurado num escafandro, para onde fora remetido o seu corpo inerte, após um acidente vascular que o fechou no interior de si mesmo – dito tecnicamente de locked-in syndrome –, Jean-Dominique Bauby, redactor-chefe da cosmopolita revista ELLE, elabora mentalmente a sua derradeira reportagem, qual diário de bordo para uma viagem sem retorno possível, porquanto a morte breve se avizinha ser a sua única certeza. Vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro cerrado, terão sido o prelúdio ao período de lucidez, qual canto do cisne, que antecedeu o seu falecimento, no qual respirar, mas também amar e admirar, lhe foram tão urgentes como necessários, essenciais quão derradeiros, imprescindíveis quanto irrecuperáveis, cuja sofreguidão consome a uma velocidade meteorítica, precisamente por estarem os minutos contados, serem aquela gota de vida que se escoa na clepsidra dos sentidos, comum ao fim incontornável, no balanço de uma conta-corrente com prazo de termo certo, prestes a expirar, e necessariamente esgotante, seja qual for a humanidade que nos ampare ou a receita que nos apliquem.
E talvez exactamente por isso, tenha sentido que não pode, nem deve partir, sem comunicar/partilhar essa experiência ímpar (e empírica) apenas vivida pelos que resistem, até às últimas consequências, ao seu anunciado destino. Então, com o auxílio de enorme alfabeto fixo na sua frente, sobre o qual as pessoas vão apontando, uma a uma, as letras que compõem as palavras que quer "pronunciar", e com elas construir depois a frase que enuncia o seu sentido pensamento, que ele indica apenas com uma piscadela de olho, que é, de todo o seu corpo, o único órgão que funciona minimamente, dando a quem o secretaria e regista a noção exacta do que quer dizer, para assim transmitir o conteúdo deste livro, onde passa em "revista", muito mais que o seu abatimento perante a morte, a sua luta em prol da vida que lhe ia escapando, pingando gota a gota, escorrendo e engrossando numa cadeia de significados com a foz à vista. Logo, em quadros precisos, austeros e rigorosos, com a economia de termos exigível, enunciando aquela objectividade exemplar a que as circunstâncias naturalmente obrigaram, estabelecendo, sem o recurso, nem dispêndio, de grandes efeitos especiais ou alindamentos de estilo, o roteiro de uma caprichosa aventura, aliás aproveitada por Steven Spilelperg, que atempadamente a adaptou ao cinema, no cumprimento do epílogo de uma existência breve (1952-1997) mas imorredoira, sustentada até ao final, pelo preenchimento subjacente à profissão de comunicador, de que não se conhece limite nem horário determinado, embora o convívio familiar seja agitado e envolvente, ou o universo afectivo esteja recheado de arrebatadoras amizades que o dia a dia é pródigo em fornecer.
Pelo que, ainda se mais nada houvesse nele que nos merecesse atenção, a motivação que lhe assistiu, seria já uma excelente razão para a sua leitura... (digo eu!)

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