La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

5.29.2009

Famílias!

“Os quatro cunhados saem com frequência e vão até ao vale, aos viveiros de cravos, onde vivem as irmãs suas esposas. Por lá travam duelos misteriosos com as brigadas negras, fazem emboscadas e vendette como se levassem a cabo uma guerra por conta própria, por antigas rivalidades de família.”
Ítalo Calvino, In O Atalho dos Ninhos de Aranha
(D. Quixote, p. 131, tradução de Maria do Carmo Abreu)

Embora tenha terminado o prazo de validade ao celebérrimo modelo das ordenanças para toda a vida, cuja suprema sabedoria consistia em tirar o curso, ser admitido na Ordem para depois fazer o que lhe desse na gana, típico do com que máfia aqui, máfia ali, cá vamos subtraindo e roendo o colectivo, o que parece é que a coisa continua activa por aí, dando nas vistas, descaradamente e retouçando nas barbas das chefias, caso estas intentem alterar o status quo.
A família, se transfigurada em modelo de grupo, deixa de ser família e passa a ser a célula primária do corporativismo. Transforma as relações humanas em relações mafiosas de marca, interesse, conveniência, defesa de honra, prestígio e autoridade, principalmente se estas se desenrolarem nos meandros dos poderes, quer sejam institucionais, periféricos, locais, regionais, como centrais; basta ao mafioso de Estado repetir (a senha) que a sua empresa, a sua corporação, a sua secretaria, a sua igreja, a sua congregação, o seu grémio, a sua confraria, a sua tuna, a sua tertúlia, o seu departamento, a sua escola é, ou funciona como uma grande família, para ficar de imediato subscrito no universo dos subentendimentos que sustenta o corporativismo para, enfim, participar de facto no espírito e da unidade que essa rede de organismos congrega, fingindo assim ignorar que há nela, no organismo ou corporação que tutela qualquer divisão de interesses entre chefes e subalternos, tal e qual como na Idade Média sucedia acerca dos escravos das grandes casas senhoriais, que teriam um estatuto de superiores até dos homens livres das pequenas casas.
Digamos que a efabulação profana do poder cria estatutos e escalas e graduações hierárquicas, mas que essas e esses apenas são válidos no interior do corpo, na definição das relações internas, pois que para o exterior cada um que tem a marca ou a chancela (na lapela) é um representante desse todo, a que os demais membros honram com solidariedade absoluta, faça o que fizer, cometa o crime que cometer, o desvio, o roubo, o abuso de poder, o abandono de cliente, atropele Os Direitos Humanos, contra-aconselhe em vez de defender o seu constituinte, tenha uma atitude mercenária e de empenho na causa conforme aquilo que o cliente lhe possa pagar, não observe as normas éticas e/ou deontológicas da classe profissional, incentive ao crime os seus representados e aja socialmente na mira de sabotar a democracia e o Estado de Direito que na Constituição se nos instituiu, pactue com outras corporações ao abrigo do sigilo profissional retirando benefícios disso além da comum e ortodoxo troca de favores e tráfico de influências que lhes costumam estar associadas e são complementares, que o ditado popular do "uma mão lava a outra e as duas limpam a cara" tão magnificamente traduz e significa.
Portanto, quando alguém diz "falar em nome de", ou representar determinada agremiação sindical, política, religiosa, étnica, territorial, classe, grupo, corrente estética, linha de pensamento ou teoria de vida, não está só a pregar-nos uma peta do tamanho da légua da Póvoa, mas também a camuflar a sua falta de argumento sobre o item em causa, a tentar crescer para além da sua (in)significância através do degrau da diferença que a pertença a uma organização ilusoriamente lhe confere. A cada momento de presença no colectivo ninguém representa mais ninguém a não ser a si mesmo, e é pelo seus actos, palavras, atitudes e pensamentos que responde, que é responsável, pois que sendo maior e emancipado e consciente é igualmente livre, ainda que esteja a representar um papel que o palco social lhe conferiu no teatro das acções colectivas, porque o indivíduo é uno e único na sua entidade jurídica, e não se pode considerar esta como um prolongamento oportuno e interessado da identidade social que lhe é própria.
Se há alguém que, por temor, receio e perda de estatuto, anda a tentar impressionar e manipular a opinião pública de que o chefe de uma corporação ou Ordem não defende os interesses dos seus "ordenados", dos seus membros e companheiros de confraria, porque este pactua com ilegalidades dentro de um Estado de Direito, então a grande falta não está no presidente dessa Ordem que cumpre o pressuposto de ninguém haver acima da Lei, exigindo que os seus membros também a cumpram, mas sim em quem tenta fazer malabarismos retóricos de iludir as perspectivas de realidade e adaptá-las aos seus códigos de honra, omitindo e tripudiando no código de ética que deviam professar e respeitar, seguir e afirmar. Porque isso sim, fazer de uma corporação profissional uma família, onde qualquer criminoso detém o mesmo grau de consanguinidade, direito a/efectivo em igualdade e respeito hierárquico, é extrapolar os limites e competências da corporação para o âmbito da máfia siciliana, de associação de associais, enfim, dar-lhe o estatuto de grupo de gangsters em vez de organização que agrupa, da base ao topo, todos os membros de uma mesma profissão, porquanto membro de uma profissão só o é, de facto, se agir em conformidade com o código de ética e deontológico aprovado democraticamente pelos membros dela. E isto é válido também para os jornalistas, mesmo para os ditos das televisões igualmente ditas independentes.
Marinho Pinto não precisa do meu apoio e solidariedade nesta sua demanda pela liberdade, democracia e Direitos Humanos, mas eu como homem livre só me sentirei verdadeiramente livre enquanto mantiver acesa a esperança que a advocacia é o primeiro passo da minha Liberdade, quer para mantê-la, como para sustentá-la. E, de fora, cada vez sinto mais que a cada palavra sua essa esperança me cresce.

5.28.2009

LANÇAMENTO DO LIVRO:

LIVRO DE LINHAGENS DA VILA DE NISA – Um Mapa de Identidades, de Filipe Manuel Louro Carita e João Maria Melato Carita





Apresentação: Dr. José Dinis Murta


Data: 31 de Maio às 17.00 horas
Local: Biblioteca Municipal de Nisa


5.27.2009

Lançamento de Livro




Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher



Data e Local: 27 de Maio às 18.00 horas
Fundação Calouste Gulbenkian – Auditório 3
Av. de Berna, 45A, Lisboa

5.26.2009

Cláudia e Rafael





Soneto a duas tartarugas (que eu conheço)

















Desexilado sou agora que me nomeaste aqui
Entroncamento de sentidos alerta na esquina
Adorno andrino no dorso da cidade imo de si
Estatueta breve em marfim ao Sol de Arina.

Da água a seiva húmida de coligir a pele senti
Sede sob a concha o corpo aos membros ensina
Que no frio é casa ou no estio o meio que escolhi
De guardar a asa do lento voo pelos rios acima.

Até à nascente do inclinado sol, o raio, a luz, a seta
Que a estrela que busco entra pela janel@ abert@
E torna cada segundo contigo mais que a hora certa.

Porém, o melhor da desibernação é este asterisco
Por cuja mão cresce o astro ou se clarifica a meta
E sacia o vício dando-me na boca precioso marisco!

5.15.2009

Um poema de Al-Mutamid


Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena no papel escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.

Al-Mutamid (Beja, século XI)

LIBERDADE


Liberdade, que estás no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão nosso de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem se ouvia.

Liberdade, que estás na terra
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei outro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
LIBERDADE, QUE ESTÁS EM MIM;
SANTIFICADO SEJA O TEU NOME.


Miguel Torga

Player before Birth, por Louis Macneice

Súplica Antes de Nascer
(Player before Birth)

Ainda não nasci; escutem-me!
Não deixem nunca o morcego sanguissedento ou a ratazana ou a doninha ou o vampiro de pés aleijados chegarem ao pé de mim.

Ainda não nasci; consolem-me.
Temo que a raça humana com altas paredes me emparede, com drogas fortes venha a drogar-me, com enganos sábios enganar-me, em negras prateleiras e em banhos de sangue ensopar-me.

Ainda não nasci; dêem-me
Água para embalar-me, erva a crescer para mim, árvores que falem comigo, céu que cante para mim, pássaros e uma luz viva atrás do meu espírito, para me guiarem.

Ainda não nasci; desculpem-me
Os pecados que o mundo em mim vai cometer, as minhas falas quando me falarem, meus pensamentos quando me pensarem, minha traição engendrada por traidores atrás de mim, minha vida quando assassinarem por meio de minhas mãos, minha morte quando vivam por mim.

Ainda não nasci; contem-me
Os papéis que hei-de desempenhar, as minhas deixas quando os velhos me admoestem, burocratas me maltratem, os montes me façam má cara, amantes se riam de mim, as brancas ondas queiram entontecer-me, quando o deserto me chame para condenar, o mendigo recuse a minha esmola e os filhos me maldigam.

Ainda não nasci; oh! escutem-me,
Não deixem que se aproxime de mim o homem brutal ou o que se julga Deus.

Ainda não nasci; encham-me
De força contra aqueles que queiram congelar a minha humanidade, constranger-me a ser autómato letal, que queiram fazer de mim dente de uma engrenagem, uma coisa com face, uma coisa, e contra aqueles que queiram dissipar o meu todo, queiram assoprar-me como lã de cardo, para cá, para lá, ou pra cá pra lá, como água apanhada nas mãos, queiram entornar-me.

Não deixem que façam de mim uma pedra ou me entornem.
Caso contrário, matem-me.


Louis Macneice – 1907-

Payton Geldi, por Zara




Payton Geldi

Payton geldi meyhaneye dayandi
Siyah gömlek al kantara boyandi
Garip annen oy buna nasil dayandi

Aglama çakirim alir alir giderin seni
Arar isen yar gönlünde bul beni

Gide gide gitmez oldu dizlerim
Aglamaklan görmez oldu gözlerim


Nazli yare geçmez oldu sözlerim

5.14.2009

Os Remakes e a Posteridade

Remakes e posteridades: a
TV e a cultura – eis mais uma contradição perfeita


“A televisão é o único soporífero que se toma pelos olhos.”

Vittorio de Sica


Muitos são os hábitos que a humanidade tem perdido ultimamente: entre eles, o de conversar, o de conviver pensando, criticando, apreciando, estabelecendo laços para além das conveniências, para além do bota-abaixismo do narcismo frustrado e da peste emocional, da rigidez caracterial e dos fundamentalismos vários com que os terroristas da cultura e da religiosidade tentam cumprir o seu medo e desconfiança pelo outro, por menos que o conheçam, sobretudo se ele não bate palminhas a toda a porcaria que geram, gerem e propalam, a confirmar o pressuposto do antigo ditado, antigo é claro mas jamais desactualizado, que "quem se mistura com merda fica sempre cagado". Aquele conversar entre amigos, no café, ainda que muitos o não sejam e não passem de inimigos com problemas de motivação, de que falavam o Aquilino ou o Raul Brandão no auge da nossa republicanidade e a propósito dos despropósitos das monarquiazinhas imperialistas que os egos deste e daquele regimental sistemático ia tentando implantar nesta ou naquela repartição. O de conversar entre colegas, no trabalho. Mas sobretudo, o de conversar em família sem parecer nem copiar as afamadas marcelistas (ou marceladas) Conversas em Família sobre o estado do Estado corporativista, que anteciparam e inspiraram os tempos de antena dos partidos do Bloco Central na televisão oficial portuguesa (RTP 1), dos domingos e segundas-feiras como sobremesa estragada para os telejornais cozinhados às três pancadas do "isto vai ou racha" nacional.
Bom: rachou... Tempos houve em que os serões se passavam à lareira, os novos embevecidos pelas histórias, peripécias, magicações, pilhérias, anedotas, fantasias, casos da vida real ou invenções dos espíritos menos atreitos no terra a terra, escutavam os mais velhos e experientes tentando com eles compreender-lhes a vida, mas também as práticas, ou reprogramando o seu software para gasto no futuro, tentando encontrar razão e absolvência por aquilo que nunca tivera justificação alguma, no entanto aconteceram de pleno e convictamente. Todavia, hoje isso é raro, penoso, pouco in e altamente condenável ou suspeito, se não houverem umas gajas a despirem-se enroladas ao varão ou uns musculosos labregos a darem à nalga de tanga. E será cada vez mais raro porque cada vez mais haverá mais televisão nas nossas vidas, remetendo para incomunicabilidade as horas de almoço ou jantar em família, cuja sopa se sorve entre um beijo lânguido da telenovela e um chuto patriótico do Cristiano Ronaldo, ou o bacalhau que derrapa no azeite da discórdia política acerca do preço das portagens, dos casos de polícia, das desavenças entre cristãos e mouros, meninos e meninas, Belas Vistas e burgos amuralhados de novo com ou sem Fórum Comercial, doutores e futricas de copinho de plástico e charro em riste. Trocou-se o quentinho do borralho pelo conforto do ar condicionado, assim como se trocaram as palavras caprichadas e subtis, pelos arrazoados da notícia brejeira ou a volúpia das galas do glamour, de mostrar a cuequinha aos marialvas da trapalhice no desfile das cornucópias e cornicópios em rodopio musical de karaoke e agência de espectáculos, aliás sumariamente contratada para os efeitos secundários e genéricos do receituário de Pedro e Paulo a dar as usuais Papas e bolos ao povo, com que se enganam os tolos.
A família, espaço de convívio e consanguinidade, de afecto e partilha, deixou portanto de ser uma unidade solidária para passar a ser um conjunto de pessoas indiferentes umas perante as outras, e destas perante todas as demais, mas apenas dependuradas pelos olhos do mesmo canal, ou talvez simplesmente agrupadas no mesmo apartamento, fechadas nos seus quartos a absorver a sua droga preferida, satisfazendo o seu apetite de televiciados incorrigíveis. Segundo alguns pensadores, como por exemplo John Condry, que afirma, no livro que fez em parceria com Karl Popper sobre o assunto, intitulado Televisão: um perigo para a democracia, editado entre nós pela Gradiva, em 1995, que a perturbação das crianças de hoje se deve “em parte ao passarem demasiado tempo em frente da televisão. Todo esse tempo é tempo roubado; a televisão rouba às crianças um tempo precioso para aprenderem a conhecer o mundo em que vivem e o lugar que nele ocupam” – como a escola rouba a capacidade que cada um tem de saber ser e saber estar, para melhor saber fazer e saber obedecer sem refilar ou pensar nos porquês que os sustentam e motivam.
É, por conseguinte, lógica esta preocupação crescente da cultura com os efeitos da TV, visto que ao assistirmos à descaracterização da família e dos seus hábitos, estamos consequentemente a assistir ao seu resultado, que é o da descaracterização da sociedade, porém a dita cultura é cada vez menos culta, menos artística e mais monástica, mística e terapêutica, tipo de ajudar velhinhos e velhinhas a manterem a forma psicológica à custa daqueles que tradicionalmente e toda a vida prejudicaram, acrescentado que a sociedade é também cada vez menos sociedade e mais seita gerontológica em que a supragenialidade assenta no gagaísmo dos seus conceituados membros. O que é preciso é estar gá-gá e cagar postas de pescada acerca dos bons velhos tempos, tal e qual como estou a fazer agora, para ser considerado genial e nobelizado, pois que o que é bom, sempre bom, para lá de óptimo como dizem nas novelas brasileiras, é aquilo e são aqueles que não prestam para mais nada, a não ser para serem bons, embora se desconheça para quê e, principalmente, em quê!
E vós, irmãos e irmãs, já vistes que bom que eu sou?!... Então não percam a oportunidade e informem-me de como podem (e até conseguem...) ser ainda melhores do que eu, em absolutamente tudo, que por assim dizer, só terá um lógico e equivalente significado, que é o mesmo e exactamente em nada. Quem diria!

5.13.2009

Poema de Natália Correia


(De) SETE MOTIVOS DO CORPO
por Natália Correia

6.

Quando em halo de fêmea húmida e quente
São íntimas ao fogo as ancas sábias,
Está o corpo maduro no seu tempo
Aromático de rosas esmagadas.

São as Circes: fogueiras reclinadas
Como panteras em nuvens de magnólias;
Coxas versadas em abrir às lavas
Do desejo confins de lassas glórias.

Do amor, lúcida e plena anatomia;
Magníficas mulheres com flor e fruto;
Corpos de vagarosa fantasia
Que a febre afunda em estrelas de veludo.

Num esplendor de poentes envolvidas,
Sentadas têm pálpebras de violetas;
Mas erguem-se abrasadas; e despidas
São um verão a sair de meias pretas.

Capelines que lendas insinuam,
De segredos os olhos lhes sombreiam.
Dos ombros pendem-lhes mantos de volúpias
São fábulas que os moços estonteiam.


E aos seus leitos de prata e tílias altas
Ébrios de lua sobem os mancebos.
Elas enterram-se nuas como espadas
Nas suas virilhas e armam-nos cavaleiros.


Ó sazonada carne que circunda
De asas, abismos e suados cumes
O mistério do ovo, dando sombra
Ao pénis que procura o fim do mundo.

5.12.2009

Natal de Junho

Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo euromilhões e totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações: Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incóginto. Disseram-no de seguida ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara Bendita em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso, da ordem, da família e de São Tinto, e de como ele iria condicionar a posteridade delas, num futuro senão próximo, pelo menos com prazo certo ou ainda em vida de ambas.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas) muito para além da mercearia na esquina da rua.
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se acertava como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.
Ao princípio magoara-lhe a sina tida, doeram-lhe assim por dentro as entranhas, todavia com o correr das cortinas conformou-se, habituou-se ao costume de arrear o hábito, abriu-se de escancaras às benfeitorias do rancho untado na tulha farta da patroa, montou esteira com horário nobre (das 15 às 23:50 horas - excepto aos domingos, que eram dias santos) no quarto dos fundos, entre os fardos de bacalhau e sacos de arroz, e abotoou-se com as gorjetas dos que achavam que ela merecia mais do que os 20 paus que a taberneira apreçara por cada visita. Alguns foram tão bem servidos que lhe puseram outro tanto em mãos, só para darem uma marca de marxismo ao lenocinismo explorador da proprietária do estabelecimento. Gratos. E revolucionários.
Outros, depois da coisa feita ainda regateavam a carestia do serviço, atidos pela semelhança na função, público da reserva pública era o que era, que só mostrava bons modos quando precisava que lhe aprovassem os orçamentos para a engenharia dos dias, mas a quem, logo que obras em vias, cortava nos materiais para ajustes e garantia dos respectivos complementos profissionais...
Só que, é claro, o nascimento soou-se na freguesia, e os hipotéticos ou possíveis pais, organizaram visitas de estudo ao rebentinho a ver se era seu descendente. Uns que sim; outros, que não. Instalou-se a dúvida e confusão em muitas consciências, para as quais o peso, nem sempre era contrabalançado pelo tamanho dos cornos das esposas, umas mais sentidas que outras, quer católicas e bragantinas como devassas desde o berço amuralhado nos vímaros henriquinos do condado. Então fizeram-se apostas, sondagens e, finalmente, foi-se a votos, para definir em definitivo o provisório direito da paternidade. Restaram três, de quantos por experiência no ir às gajas, aparentavam melhor nas feições e tiques no mamar, que é conduta com que se acondutam as promessas de futuro que, embora se aperfeiçoam no colo da amamentação, tem as suas origens nos códigos e livros brancos da pré-natalidade. Ora, como terceiro, não era arde nem reich, puseram-no de fora por falha do sistema, restaram dois candidatos de peso.
De coimbrã académica salteou-se a parlamentária alfacinha, que de futrica aproveitara há muito o f... em legislaturas várias. Porém, a mãe e avó insatisfeitas, avaliaram as expectativas, abonos, contas-correntes, vantagens competitivas, facilidades na educação, oportunidades formativas, directivas póstumas na controvérsia dos planos e tratados, estratégias e estratagemas missionários, e a mãe optou por conceder o voto de qualidade à descendente e herdeira detentora do cargo em título, sem quarentena para qualquer gripe, e única com registo incontestável no xarope da verdade: «Diz tu filha, tu é que sabes, tu é que viste o desempenho que cada um teve, nesse dia...»
Então ela disse «foram os dois mãezinha, foram os dois a meias», como todos puderam ouvir, enfim testemunhar, que aqui não se mente, «sim mãezinha, foram os dois, foram os dois, que naquele dia não trabalhei para mais ninguém, e mesmo assim não 'tive um bocadinho parada».
Era a vitória do bloco central. E os demais montaram-se nos seus lindos carrinhos para desfilar em voltas e voltas aos burgos, buzinando embandeirados cantando o hino e gritando Viva República!

TRÊS POEMAS JAPONESES

1.

Eis que hoje estou pensado:
Valho menos que qualquer.
Para o que vá perdoando
Comprarei
E levarei
Flores a minha mulher.

– Ishikana Takuboku

2.

É manhã de Verão. Mas já as folhas
Da figueira que seca se enferrujam
E murmuram no vento
E nos ramos que lhe tremem que lhes fujam.
Dormir ou não dormir? Os fios eléctricos,
Neles cigarras cantam, vão pelo céu acima;
Murchas, as folhas tremem e os ramos temem
O fim que se aproxima.
Dormir ou não dormir? Quieto e escuro o céu,
O céu que os fios cortam,
Nuvens cobrindo o sol com seu véu.
Cigarras tão distantes a meus ouvidos.
E os que eu amo – perdidos.

Mamayara Chuya

3.

As costas da mulher no espelho se espelhando
Brilho macio de cera. Castanha, a cabeleira,
No dorso seu tão liso luz de fosforescência.
Borla de pó caída no lençol que, formando
Com rugas de seu pano a carta marinheira
De águas mediterrâneas, a Abril representa
Em sua ausente essência.
E o transe da mulher. Como cantava
Com as linhas do corpo ruas de sua aldeia
E a ladeira do porto e o vinho que espumava
E a concertina
E até a chuva sobre o polido corpo se passeia.
Pela janela atira a borla. Da janela atirada
Lá vai como flor que o sol espera
E é luar mediterrâneo e perfume no ar a Primavera.

– Kondo Azuma

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