La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

6.27.2009

Dum Vivimus, Vivamos

Enquanto Vivemos, Vivamos

"Cada tres minutos, una mujer es golpeada.
Cada dez minutos, una muchacita es acosada...
Cada día aparecen en callejones,
En sus lechos,
En el rellano de la escalera, cuerpos de mujer."
– Ntozake Shange

Moderação, inteligência, partilha, são mais que slogans políticos da actualidade, ideias base ou valores da nova ética, democrática por assim dizer, desde que ousemos ser radicais, e se não quisermos sucumbir ao fado afonsino do vira o disco e toca o mesmo dos bailaricos saloios nas caves do provincianismo serôdio que já foi moderno, sim, no tempo da mola na calça para não nos sujarmos na corrente e dos Nicolaus-Trindades que pedalaram, entre perigos e guerras esforçados, mais do que permitia a razão humana, para triunfo dos botas de elástico e consequentes comensais da lusofonia, em acérrimo leilão da portugalidade. Porque são enfim, deste tempo, outrossim, a marca de qualidade com que cada um pode cunhar a moeda de troca ao câmbio da sustentabilidade imediata, sem mediatismos, mas profundamente arreigada aos que preferem viver enquanto vivermos.
Num carrão enorme, p.e., topo de lama do gamar enquanto dá, onde caberiam à vontadinha, pelo menos cinco pessoas, vai só uma e é de muito suspeita humanidade. Eis o principal fotograma, o frame típico e característico, retirado da película do nosso dia-a-dia, como uma das fundamentais atitudes industriais/transformativas (produzir monóxido de carbono unicamente a partir de dióxido de carbono, espécie de descoberta da pólvora prò fósforo) com que o Homo Popas nos vais corroendo a Rua Sésamo, até já esta não abrir para tesouro nenhum mas antes, salvo seja, desembocar num Rossio urbano, qual fórum constituinte onde mil e um ladrões arengam ser os legítimos eleitos Alibabás da política nacional. Mas anda acurar-se – diz-se, à boca pequena, em novas oportunidades de boca grande, na devoração do erário público–, porquanto frequenta os banhos quentes à propina numa estância (filial) de Bolonha e fermentação de leveduras rápidas, que ainda hão-de levar os hip-hip hurras à memória da pátria e seus egrégios cós, cãs e cá-cás para as foz e ribeiras, com firmes e tesas intenções de gramar com o canudo fita e laçarote de preceito, coisa que com sorte até pode ser habilitação suficiente para ingressar na carreira de caixa em qualquer hipermercado que mantenha a tradição de empregar por cunha e fazer concurso por aparência física, tipo miss de experimentar e deitar fora, como a pastilha elástica dos Taxi. E Gigélia Hirondina foi uma das afortunadas... Consegui-o!
Filha de Abril, gerada por geraldina em manif do MFA sob a palavra de ordem que garantia que as vacas são do povo, deram-lhe duro os pais para que nunca nada a ela faltasse, sobretudo das coisas que se vissem, e de inveja no uso comum lá na terra dos confins da (se)gregação, para escalas em socalcos vinhateiros de culto a Baco, sob as frondes mais viçosas e destemidas dos chorões açambarcadores e pedintes das gotas de água ao céu, do florbelino espancamento, para gáudio dos mocetões e arrelia da mulheraça. Só que ao cair do berço d'oiro aterrissou mal e saiu pencuda, que mais parecia descendente directa do Bocage, olhos desmedidos no sopé da cuja-dita, e dentes que, ao crescerem apertados, encavalitados em hora de fala impetuosa e incendiária, em hora de ponta empurrados prà saída da boca, à laia de lebre mal amanhada e com muita carqueja para não saber a gato, a quem o lábio inferior não se desenvolvera com desenvoltura e à-vontade, plantara-lhe o trejeito de Santa Bárbara bendita a rogar por melhores trovoadas, para raios e tridentes no bulício de trincar tubérculos e raízes várias, com receita Doc em Vale de Perdizes.
Vai daí que um dia, cansada de apanhar no trombil, queixou-se à republicana do seu Xico, mas eles riram-se que nem uns perdigueiros, pois desconfiavam que ela gostava dos carinhos, andava é com modernices por ouvir às demais que os seus também lhe davam pra tabaco, mas tinham mão frouxa no enrolar da mortalha. «Pode lá ser», repetia Gigélia ao ouvir as vizinhas, sobre a cobardia e senilidade de seus machos já com as hastes a meia haste. «O meu zurze-me valentemente, mas ainda é home» garantia, quando elas vaconsigo no café, ou tasca da esquina, a moderação dos costumes caseiros, e de como elas inteligentemente reivindicavam os seus direitos, nomeadamente o de apanhar com vigor, nada dessas mariquices de votar ao centro, que as incitava à cantoria do ele bate, bate, mas o jeep é meu, e aplaudir Tonho das Veredas nos arraiais e romarias dos santos pó-pulares.
E com razão, esclareça-se como seu esclarecido argumento, que a elas ninguém pinta a manta, muito menos se «vierem para cá com latinórios e espanholices. Até porque se isso fosse importante prà gente», acrescentavam elas, «então porque é que o não dizem em língua que se perceba!?...»
O que me leva a concluir que a violência doméstica só é violenta conforme o dialecto em que se pratica. Que se for moderada, usada com inteligência e partilhada, outra coisa nunca será além de tradição, cultura e costume secular, que deve ser respeitado por antigo, ensinado por devoção e partilhado para regalo de quem se não esquece, nem permite, que de um momento para outro se apaguem mais de oitocentos anos de História. Nem mais. Ora, Eça!

6.22.2009

Lançamento de Livro

S. Tomé e PríncipeProblemas e perspectivas para o seu desenvolvimento


Data e Local: 23 de Junho às 18.30 horas
Auditório Víctor de Sá
Universidade Lusófona
Av. do Campo Grande, 380-B, Lisboa

6.12.2009

Erro de Cidadania

"Tudo quanto é necessário para o triunfo do mal,
é que os homens bons não façam nada."
E.Burke

Pode a alguns parecer que isto é uma questão de somenos, uma bagatela para entreter moleskines, um preciosismo intelectualóide, um comentário sobre insignificâncias, só que não o é, não é não, senhora, que é um alto lá de se lhe tirar o chapéu, desbarretar a careca, a coroa, porquanto é a ténue linha divisória entre a democracia representativa corporativista e democracia participativa da cidadania, confusão negligenciada a que se deve a maior fatia do nosso atraso, daquele que já temos mai-lo o outro que há-de vir, quer com as crises como endossado directamente das catacumbas e calabouços da insustentabilidade; ora, dizia eu, isto de se ser democrata não é para todos, não é nenhuma pêra doce, tem muito que se lhe diga, não nasce com a gente, ao contrário da bestialidade egocêntrica e hiperautoritária, microcéfala e criancista, que essa sim nos manda prà cova tal e qual viemos ao mundo, medíocres e lamechas, o que torna o facto grave, muito grave, deveras grave, mas tão grave, que nos põe nas "mãos" um problema agudo, acutilante e aglutinador do bem-estar futuro, do desenvolvimento do amanhã, quero eu salientar, porquanto ninguém pode ser responsabilizado pelas más governações e piores políticas, nacionais, locais ou europeias, péssimas acções legislativas e parlamentares, sensaboronas presidências e catastróficas gestões autárquicas, visto que cada um que vota e elegeu os elementos, ou partidos que usufruem os respectivos poderes, fê-lo e fá-lo sempre de forma irresponsável, dado estar momentaneamente privado de consciência cívica, subtraído da sua identidade, falho de qualquer sentido ou juízo ético e de entidade, incapaz de responder por si e muito menos capaz de convocar a consciência dos que vai eleger, face à incontestável alienação da cidadania que é o facto de ter entregado, passado para as mãos de outrem, neste caso os componentes da mesa de voto, o seu (BI) Bilhete de Identidade, coisa que suponho deve estar à margem da lei, uma vez que o BI de qualquer pessoa é pessoal e intransmissível, tem que acompanhar sempre a indivíduo para onde quer que este vá, e não podendo ficar à mercê de estranhos, por maior que seja a credibilidade e honesta fama entre os demais cidadãos da urbe.
Aliás, quem está nas mesas de voto pode aproveitar para pôr a sua coscuvilhice em dia, tirar dívidas acerca dos dados pessoais deste ou daquele eleitor, nomeadamente quanto à sua filiação, naturalidade, estado civil, idade, servir-se dessas informações no dia-a-dia futuro, quer para usufruir vantagens competitivas entre os congéneres da praça pública ou comercial, quer para ganhar protagonismo nos salões de cabeleireiro, cafés de afiar a língua, redutos de quadrilhice generalizada, incluindo os locais de trabalho da sua função de nada fazer além de trocar figurinhas e tricas com os colegas de sua igualha, sobre quem passa ou se detém fazendo algo onde lhe interrompem os ócios, impedem desfrute da mordomia e ameaçam tomar conhecimento e (até) contar alguns atentados às leis ou sensatez.
Portanto, onde está a estranheza pela elevada abstenção que em quaisquer eleições, não somente nas europeias, se verifica e ocorre? Que tipo de democracia é esta que põe a pessoa refém de uma mesa de voto, mesa essa que lhe confiscou momentaneamente a cidadania? Vivemos ainda no terceiro mundo ou aquilo que se apregoa na Constituição da República, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, não passa de mais uma demonstração da propaganda e
publicidade da banha-da-cobra de outros tempos? É prática comum e recomendada pela Comissão Nacional de Eleições ou só acontece nas mesas de voto que cada um de nós frequenta, essa coisa maravilhosa e fantástica de apreenderem a identidade e cidadania dos eleitores? Isto vai continuar assim ou esperam por alterar a coisa só quando votarem os políticos e empregados partidários do establishment gerontocrático? E escusam de se desculparem com o facto de mais ninguém se sentir melindrado com a usurpação de identidade, pois que, tal como W. Lippman, terá afirmado um dia, "quando todos pensam o mesmo, é sinal de que ninguém pensa [muito]."

6.06.2009

O Rosto e as Máscaras



“O poder é o domínio sobre outrem; ao poder sobre si próprio chama-se liberdade.”
Denis Rougemont

“Todas as histórias são autobiográficas. Só que umas começam por EU NASCI EM BUENOS AIRES, e outras começam por ERA UMA VEZ UMA RAINHA.”
Jorge Luís Borges



«Anda a monte. Dói-lhe a careca por dentro», garantiu Ludomila a Barnabiças e Ruffino, quando estes lhe perguntaram pelo sabichão das caligrafias, narrador dos sete entrecostados fritos, migas de pão e tintol sempre alumiado. «Se calhar, carregou a gorpelha, ontem?!?...», cepticou Ruffino, a quem as ausências do literato faziam transtorno na agenda. «Ele desconhece os limites, e depois... estranha!»
Companheiros e amigos, eu fiquei estupefacto, ou de facto feito estúpido, com o que acabava de ouvir, entrementes abri a porta da sala. Mais uma vez as minhas personagens «senhores, sim» sim, as minhas personagens estavam a trair-me, a criar enredos, a tecer imbróglios, a quadrilhar enfim, nas minhas costas. É como digo: não se pode confiar em ninguém. Nem na tinta da nossa tinta, gema do nosso ovo, clara da nossa santa intenção (transparente).
É óbvio que Ludomila sabe coisas sobre mim que nem eu próprio sei, ou desconfio saber. Além do que reconhece que só as mulheres muito bem vestidas merecem ser bem despidas e que há uma grande diferença (institucional ou não), entre ser-se uma menina boa e uma boa menina. Como igualmente sabe que eu desconheço a dissemelhança entre umas e outras e tomo muitas (bebidas). Mas isso não lhe dá o direito (ou esquerdo) de me boatar ao digníssimo esposo nem ao desnobre alimentador, apenas porque me demorei um tantinho superior na casa de banho, em abluções essenciais matutinas, orando pràs mecas, não!...Uma pessoa precisa de tempo para obrar se quer que o best-seller saia com cagança, apurado e perfeito!... Pois. Não pode andar por aí, com ideias de caca, a alardear-se em herói!... Não pode abastecer-se de fluxo comercial e querer qualidade! Nem ser culturalmente imberbe e exigir que os demais lhe prestem vassalagem.
Portanto – confesso... – quando me sentei à mesa de trabalho, de tão enfurecido e irado após a revelação, estava disposto a matar os três (mas especialmente a ela), e com mais do que uma morte torturadora e cruel para cada um, com pelo menos quatro garantidas para esta, a mila dos ludos, a ver se aprendia a não fazer bluffs com quem tanto lhe quer!... Todavia, recalcitrei, respirei fundo, ingeri a poeirada da 1º de Maio, assumi a postura de buda da felicidade, esbajeei um paivante de enrola caseira, e optei por mantê-la debaixo de olho em banho-barnabiças. Isso mesmo, ali, a mamar nos nabos do costume. Havia de engolir a sopinha toda, desse por onde desse, sem poder cuspir uma gotinha, sequer.
Por conseguinte disse-lhes, nas ventas «já é a segunda vez, que vocês me armam a ratoeira para apanhar o gato em contragarra. É bom que se compenetrem que somos uma equipa e não uma telenovela tipo ‘Dallas’, senão levam-nas. Uma equipa coesa, interessada no enredo e fortemente empenhada na narrativa. Ninguém recebe ordens lá de fora nem cá de dentro, como não são permitidas insurgências contra a estrutura romanesca actual. Quem se quiser amotinar ou frequentar outro formato deve sair da história e não levantar palha. Se querem guerrear entre vós quem mais pode, nunca se esqueçam do ditado chinês que diz que entre aquele que na batalha venceu milhares de milhares de homens e aquele que se venceu a si mesmo, este último é o grande vencedor, mas apresentem trabalho e façam a sopinha conforme a trama exige, e não segundo interesses exteriores estabelecidos partidariamente. Aqui não há vedetas nem discriminações de sedimentar e segmentar a colectividade. Deixem-se de panelinhas amaricadas e cumpram a vossa missão. Ok?!?»
O recado estava dado. Os restantes figurantes da tramóia foram entrando um a um, disfarçando o ar de caso que a grossura da atmosfera impunha. Pessoa não veio por andar com os heterónimos constipados (e contundidos); contudo, o era uma vez não se sentiu minimamente prejudicado, indo em frente, na sua determinação de dar de contar. A postos finalmente, entreolharam-se. Das suas entranhas adivinhava-se, dando à tona, o «bué de esquizo» usual em situações que tais, mas não me comovi. Às vezes é preciso ser duro, género Jorge Luís Borges de irredutível sombra, se se quer ditar as regras da história. Sobretudo porque brincadeira não é arte, antes treino, e deviam provar que estavam prontos prò que der e vier da acção literária, capazes de engendrar e assumir as maiores metáforas. Maduros para pertencer à grande família dos que não existem e sem-abrigo. É que senão, isto espalha-se... E depois? Moleza tem nome. E a ela se devem as maiores alcunhas, tantas e afamadas, que muitas chegaram inclusive a ter assento e assinatura nos anais da urbe, entre as demais nobrezas do registo civil. Porque entre a máscara e a pele vai uma distância tão curta que ninguém consegue discernir exactamente onde uma começa e acaba a outra, que chega a haver olhos que até do que vêem desconfiam, e em frente de si mesmos ao espelho jamais souberam se fitam ou são fitados. Se pertencem a uma máscara ou a um rosto... E mais não sabem da vida do que a solidão do ser!

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