La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

10.27.2009

Dos Seguidores da Estrela


Ismail Kadaré


"É preciso esconder a profundidade[JC1] ",
escreveu Hofmannsthal. "Onde? À superfície."
[JC2]


O albanês Ismail Kadaré, batendo na recta final a sua mais directa e colossal concorrência (Milan Kundera, Ian McEwan e AntonioTabucchi), venceu – quer dizer: ganhou – o Prémio de Letras Príncipe das Astúrias, laureado esse, precisamente, que depois do Nobel é o mais importante galardão literário no actual universo das línguas românicas, trazendo para a ribalta o subgénero da literatura política e pondo na ordem do dia aquela faceta da ficção que mais se preocupa – e até intervém nela! – com a realidade sócio-económica, religiosa e institucional, das pátrias, das regiões ou dos continentes, com uma trintena de novelas escritas, maioritariamente (ainda) na Albânia e sobre o sistema político albanês que era tão comunista, mas tão comunista, que levou a República Popular da Albânia a abandonar o Pacto de Varsóvia, numa época em que seria impensável e imprevisível o desfalecimento deste, que aliás culminou consequentemente com a derradeira queda do Muro de Berlim, que vinculava a divisão europeia conforme os postulados da Guerra Fria, porque – como terá afirmado o camarada Mehemet Shehu, [JC3] no seu discurso à Assembleia Popular, no dia 12 de Setembro de 1968, denunciando o conluio sovieto-americano e as ignóbeis manobras do social-imperialismo russo – «a União Soviética se convertera na principal força da contra-revolução internacional[JC4]
Isto é,
[1] não obstante referirem-se à literatura como uma arte em vias de extinção, excepto quando dela se pode partir para produções multimédia, o que ninguém pode duvidar é que ainda há alguns prémios que a põem na ordem do dia e nos noticiários, não por aquilo que ela é, senão veja-se o exemplo de Caim, de José Saramago, e da polémica e melindres religiosos que suscitou, e Ismail com o seu O Acidente revelou a fragilidade da crise, somando à apetência literária dos escaparates a qualidade de uma escrita da qual nos arredámos desde Ferreira de Castro[JC5] , que teve a virtude de escrever sobre política, sem fazer política, que é um dos tais abacaxis que suscita enredos maiores que o enredo da narrativa propriamente dita, a que não se pode fugir (impunemente), embora tenha exercido o cargo de deputado da Assembleia Popular de Tirana, entre 1970 e 1982, exactamente oito anos antes de ter obtido o asilo político em Paris, em Outubro de 1990, onde vive desde então em vizinhança com a Sorbone e o Jardim do Luxemburgo, resistindo assim até aos 54 anos a uma dose excessiva de ditadura, que fulminaria qualquer intelectual por mais light que fosse, mas não só, acrescentando-lhe mais 20 anos de resistência à democracia que, como todos sabemos, também não nenhuma pêra doce, sobretudo para quem pretende usar algum do tutano que lhe preenche a caixa dos pirolitos.
Com fama de taciturno insociável, trajando a sempiterna gabardina castanha, é, porém, um tímido sobrevivente à desilusão e motivo de esperança ante o mistério repressivo do estalinismo de segunda geração, incansável revisor da sua própria obra, que revisita e altera regularmente, sobretudo nas edições de língua albanesa, revendo continuamente as suas novelas sob a exigente bitola de um critério literário, para quem a literatura se convertera numa segunda pátria, jamais se isolou e despojou do contexto sócio-político nem do mundo que o rodeia, mas a quem democracia francesa nem a ditadura albanesa modificaram a sua maneira de escrever,
de escritor de pedra que cinzela as palavras[JC6] , e que afirma de a sua arte ser uma arte mágica[JC7] , conscien­te das suas inequívocas origens ou proveniência balcânica, sabe contudo e por isso mesmo que nunca deixarão de descortinar conotações políticas em cada uma das suas palavras, novelas ou obra, por mais que insista em glosar outras demandas que vão para lá do confronto ideológico, bem como da rotulagem que lhe aplicaram antes e depois do seu exílio em Paris.
Expatriado dessa Albânia que em pouco tempo sofreu três períodos históricos totalitários de graves consequências no inconsciente colectivo (:o império otomano, a ocupação nazi-mussoliniana e o regime comunista de Enver Hoxha), e desenraizado, senão suspeito de ligações "subterrâneas" à ditadura que o expulsara,
nessa França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, [JC8] que também sabe ser madrasta e apenas mãe para quem, a fala sem sotaque, e fluentemente a escreve, é porém a sua criação a prova incontestável do que ele mesmo afirma, reiterando em entrevista a Ruben Amón[JC9] , que «não há boa literatura que provenha da felicidade e bonomia. É a dor, o sofrimento e até o drama que nos inspiram e atraem. Não para nos deleitarmos com o mal e o pranto, mas sim para superá-los através da palavra compartilhada», como decorrerá noutras artes, e com outros criadores, nos quais se não verifica uma sublimação do mal mas antes uma exorcização superadora, coisa quiçá diferentérrima, que nos impõe a evidência de não haver no mundo, desde a inovação da escrita, qualquer grande obra literária com final simplesmente feliz sem cheirar/tresandar a lamechismo hipócrita.
Participou e fez parte das principais instituições políticas albanesas, tendo até sido deputado, e esteve à frente da União de Escritores, assim como beneficiou – pelo menos da fama ninguém o livra, consequência da sua ligação e amizade com o
escritor Bashkim Shehu [JC10] – da protecção pessoal do ditador, sem nunca deixar de ser um escritor não alinhado com as directrizes do Partido, que não era dissidente nem porta-voz do regime, um tipo em que se não podia confiar, porque escrevia e pensava livremente, coisa perigosa!, sem se ater à cartilha do realismo socialista, nem às necessidades de propaganda do Partido do Trabalho, esfumando-se e diluindo-se sorrateiramente entre ódios e campanhas difamatórias, deveras profícuas e eficazes, na cosmopolita Tirana, estabelecendo uma relação de amor-ódio tanto com os seus conterrâneos comunistas como com a burguesia albanesa exilada, agradando e desagradando a gregos e troianos por igual medida, numa devastação sintomática do exacerbado corporativismo do século passado.
Muçulmano que bebe álcool e como carne de porco, sensível e adepto do aconchego familiar, admirador de Esquilo, Cervantes, Dante e Shakespeare, como a quase totalidade dos intelectuais europeus ou ocidentais, sofisticado e perfeccionista, detentor de um estilo depurado, ruminante, que intenta a cada revisão lapidar os seus textos sem, contudo, deixar perder qualquer particularidade essencial da sua “profunda originalidade” anterior, margens intertextuais muito próximas do veio de Joyce com características falkinianas (mas sem remorsos), cinéfilo e cuja imagética raia, não raramente, embora seja mais notória em alguns títulos que noutros, a tecitura do argumento fílmico, tanto que, aliás, inspirou diversas adaptações cinematográficas, como O General do Exército Morto (
filme de Luciano Tovoli, com Marcello Mastroianni e Anouk Aimée), Abril Quebrado (filme de Walter Salles, com conversão da trama para ambiente brasileiro) e Uma Questão de Loucura (aguasdeceniza.blogspot.com/2009_03_01_archive...) é, porém, indubitável que a alma da sua escrita – ou dinâmica, para quem sente pejo em atribuir alma a criações não viventes, no sentido restrito do termo –, porque toda a sua obra gira à volta da fascinante e terrível história do seu país, sendo de natureza política, onde palpita a constante aspiração a um outro mundo melhor em condições e respeito pelos Direitos Humanos, está enraizada na ancestralidade hermética da sua cidade natal – a misteriosa Gjirokastrta.
Precisamente a mesma em que Enver Hoxha nascera, e exactamente na mesma rua, embora em datas díspares, berço comum a Ismail, plano de fundo que terá influenciado a que um dos personagens (negras) marcantes de várias novelas fosse o ditador, como no caso de
O Sucessor[L11] , O Concerto [L12] e O Grande Inverno[L13] , onde, como nos demais livros reflecte sobre as dificuldades com que um escritor se depara dentro de uma prisão livre semelhante a qualquer país do género da Albânia desde 1940 a 1990, pelo menos.

O PALÁCIO DOS SONHOS

Narrativa alegórica de inspiração kafkiana, em que o poder ditatorial, não satisfeito por controlar ferreamente as mentes e mentalidades dos súbditos do império, destina e tem um palácio, composto por diversas oficinas, departamentos e arquivos, para investigar os sonhos desses súbditos, último reduto da liberdade individual, a fim de catalogá-los conforme a sua carga contestária e grau de perigosidade.
"Permaneceu assim uns momentos, dubitativo, enquanto a caneta lhe ia pesando na mão, até que já baixada, ela pousou no papel e, em vez da palavra Albânia, inscreveu: Lá longe." – página 179.

TRÊS CANTOS FÚNEBRES

Pequena narrativa que incide sobre os paradoxos de uma região reclamada por sérvios e albaneses, e que foi conquistada pelos turcos no século XIV.

A PIRÂMIDE

(Primeiro parágrafo de A Pirâmide:)
«Quando numa manhã de fim de Outono, o novo faraó, Quéops, que subira ao trono apenas há alguns meses, fez saber que renunciaria a mandar construir a sua pirâmide, os que o ouviram, o astrólogo do palácio, alguns ministros mais próximos, o velho conselheiro Ouserkaf e o grande sacerdote Hemiounou, que desempenhava também o papel de arquitecto-mor do Egipto, sentiram-se perplexos como lhes tivessem anunciado uma catástrofe.»
Todavia, a pirâmide, que cabia a cada faraó, como era tradição, subiu até ao céu, cheia de segredos e labirintos, como se supunha, e os operários (sobreviventes) que nela trabalharam e congeminaram as laboriosas passagens intransponíveis às forças do mal, diligentes e compenetrados da grandeza maior da sua missão, e a que foram chamados, assim que dela saíram, por terminada estar, encontraram então a (merecida?) recompensa na ponta das armas dos soldados que os esperavam no exterior. Do que aliás, curiosidades regimentais se dirá serem, se imagina ser o fim almejado para quem suspeita que a justiça divina assenta de luva e tem o seu veículo de excelência naquele que possui o ceptro do poder faraónico…


O Acidente, do albanês Kadaré sob inspiração albigense, provençal e cavalheiresca: http://www.elcultural.es/version_papel/LETRAS/26021/El_accidente

Este Acidente é o registo de uma, mais uma, etapa na trajectória histórica desse país periférico, denominado pelo autor como o marco de linda ou limítrofe desse outro "grande país que dá pelo nome de Europa", que é a Albânia, terra sofrida e tiranizada, que após séculos de romanização (pouco contemplativa) foi ocupada pelo império otomano até 1912, data da sua independência, que afinal pouco veio a durar, dado ter sofrido a patada protectora, paternalista, do Pacto de Varsóvia em 1955, sob a égide da Lei número 2063, de 28 de Maio de 1955, consequente à ratificação do pacto de amizade, colaboração e ajuda mútua, firmado em 14 de Maio desse ano, em Varsóvia, entre a República Popular da Bulgária, a República Popular da Hungria, a República Democrata Alemã, a República Popular da Polónia, a República Popular da Roménia, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a República Socialista Checoslovaca.
Nessa diatribe histórica de um povo em luta constante, de séculos e séculos, eis que na contemporaneidade vai ter que continuar a travá-la, primeiro contra a URSS e depois contra a China, e finalmente, contra si mesma, contra o seu próprio regime, encarnado no ditador Enver Hoxha, o momento preciso em que se situa o fulcro de toda a acção deste romance, aquele acidente invulgar que vai alterar o curso da História, é certo, que é quando Besfort Y e Romena St., ele e ela albaneses a viverem na Europa Central, se apaixonam, provocando o impensável, senão trágico desfecho, de um processo cívico na dialéctica do cronos, o embate brutal do amor, que não tem nada de épico nem heróico, mas antes pelo contrario envereda pela ternura e afectos domésticos do comezinho quotidiano. Eis o travo quixotesco desta grande novela de cavalaria que é a História (de uma nação por exemplo). "O curioso impertinente" que vai sufragar o amor para lá do erotismo, seja ele em versão lesbiana – com Liza Bloom –, seja ele conforme a natureza dos géneros e índole guerreira, dominadora, de um(a) sobre o/a outro(a), pleno de capitulações e vitórias, as mais delas com enormes doses de perversidade tirânica, em multifacetados registos, desde a narração omnisciente às elipses incendiárias (insights), ao relato fragmentado ou ao discorrer introspectivo e filosófico, pois tudo vale para a reconstrução dessa fatalidade trágica que é o amor, num mundo que apenas conhece a guerra, o detonar do afecto e ternura entre personagens que deviam ser acérrimos oponentes e inimigos fatais.

(Abril Despedaçado
Os tambores da chuva
[O castelo])
[1] Ilustrações: Capa dos livros O Acidente, O Palácio dos Sonhos e A Pirâmide, cartão O Leitor e fotografia de Kadaré

[JC1] Enquanto oximoro, ou oximóron, resulta plenamente e até nos esquecemos que uma das características essenciais daquilo que é profundo é estar já de si inacessível à vista, oculto nos altos fundos.

[JC2] A citação reporta-me a Oscar Wild, embora não me lembre bem em que livro a encontrei, se no prefácio de O Declínio da Mentira, se no de O Crime de Lord Arthur Savile, se no De Profundis, ou outro qualquer, posto que certo é não ser dele mas lhe andar ligada por motivos mais ou menos obscuros.

[JC3] Mão direita do ditador Enver Hoxha.

[JC4] Cadernos Horizonte Vermelho nº 6, A Albânia Abandona o Pacto de Varsóvia, edição de Isabel Barreira, em Lisboa, Outubro de 1976.

[JC5] Por exemplo, A Curva da Estrada

[JC6] Como terão sido diversos escritores portugueses, entre os quais podemos sem sombra de dúvida mencionar Aquilino Ribeiro, Miguel Torga ou, mais recentemente, Eugénio de Andrade.

[JC7] «La literatura es mágica. (...) Mi literatura es mágica, essencialmente mágica», in El Cultural, de 23.10.2009.

[JC8] Valores ideais da Revolução Francesa.

[JC9] www.elcultural.es

[JC10] Filho de Enver Hoxha.

[L11]Reportagem sobre a morte, nomeadamente o suicídio, que foi o que sucedeu a Mehmet Shehu

[L12]Tema demarcadamente ligado à coreografia política

[L13]Cujo tema principal assenta na ruptura da Albânia com a União Soviética (1961), com a Yoguslávia (1948) e com a China (1978).

10.21.2009

Sopa de ainda-não-já

"Os nomes penetram-nos até aos ossos"
Ernest Hemingway, in The Garden of Eden
Histeron Proteron*

Disse, salvo erro, Claudio Magris, no seu Um Outro Mar, que "quem palreia de direitos são os escravos, [pois] quem é livre tem deveres", e embora já me não lembre a propósito do quê ele terá proferido tal boutade, com que finalidade e acerca de que assunto, o que é certo é que o lamiré, ao caso, traz à baila os desmandos e convulsões consignados à atitude social de determinados grupos profissionais e económicos, reivindicativos se acrescentará, tão característicos do período que ora atravessamos, deste caldo pós-eleitoral em que engrossa a nossa democracia e a torna numa espécie de sopa de ainda-não-já que é o conduto típico de quem não sabe muito bem o que quer, como e porque o quer, além de desconhecer absolutamente que fazer para o conseguir. Ou seja, se antes das eleições estávamos mal, não melhorámos nada depois delas, mas pelo contrário, a crise agudizou-se e ficámos com menos meios para a combater, agravámos a senilidade do modelo político e económico, porquanto se tornou também mais incomportável e frágil a capacidade de resposta neoliberal perante as adversidades do quotidiano de um país já por si atreito a um sem-número de handicaps inerentes ao seu processo de desenvolvimento.
Se inicialmente não havia qualquer oposição ao governo, agora é o governo que faz oposição à oposição, isto é, há um partido por cujo programa foi votado nas últimas legislativas, que não pode executar esse programa porque precisa do voto favorável de grande parte da dita oposição, que foi precisamente votada (mandatada) para cumprir os seus programas, e não o do partido a quem cabe formar governo, pondo o devido ênfase no debate negocial do "ora agora mandas tu, ora agora mando eu, ora agora mandas tu mais eu" que era uma modinha que se ouvia no tempo da outra senhora, e se depurou mais tarde com "o vira das cadeiras", provando sobremaneira que Portugal mantém a tradição de ser ingovernável desde os tempos do hermínio Viriato, que deu água pela barba aos romanos quando quiseram governar este quadradinho de terra à beira-mar plantado, e os levou a garantir que somos "um punhado de gente que não se governa, nem se deixa governar", logo, sem remédio nem conserto para as (in)congruências do Tratado (também ele eivado desta peculiar deformidade) de Lisboa. Bem-feita: Arranjassem-lhe outro nome!



* Histeron Proteron – Expressão grega composta por duas palavras que significam «posterior» e «anterior», servindo isso precisamente para designar, numa figura de linguagem em que se diz primeiro aquilo que, logicamente, se deveria dizer de depois (p.e. criado e nascido, o trovão e o relâmpago), que vai a carreta à frente dos bois, que é forma proverbial que o povo português encontrou de dizer que anda ao contrário quem não sabe para onde quer ir.

10.13.2009

Ágora, filme de Amenábar




A Régua de Lesbos:
Hipatia de Alexandria já é filme de Alexandro!

"Se o Direito não pode ser maniqueu, pintando o mundo a preto e
branco sem qualquer matiz intermédio, também não pode ser meias-
-tintas, baralhando o bem e o mal lavando as mãos do sangue dos justos,
vítimas dos bandidos ou vítimas de uma justiça injusta. Se o Direito não
pode ser mole e céptico, também não pode esquecer a clemência, a suavidade, a inteligência. (...) ora, como nada é rigorosamente igual, há
sempre que adaptar a justiça, que torná-la como a régua de Lesbos, afeiçoável ao objecto a medir. Nada repugna mais à justiça que o metro-­
-padrão de Sèvres, rígido, de platina, feito pelo totalitarismo do Terror
para impor ao mundo a sua medida – ainda por cima geometricamente
errada –,"
como disse Paulo Ferreira da Cunha, in Princípios de Direito.

Hipatia, filósofa grega (370-415), ensinou, depois de aí se ter "formado", na Escola Neoplatónica de Alexandria, que está aqui ortografada com maiúsculas iniciais não por ter sido um estabelecimento de ensino mas sim uma modalidade de ensinança, onde teve também os seus discípulos, de entre os quais Sinésio de Cirene (370-413) foi o mais popular e reconhecido, enquanto ela morreu lapidada (apedrejada publicamente, coisa que Jesus Cristo impediu de ser feito a Maria Madalena por razões de conduta indesejável, nomeadamente a de exercício da prostituição, melhor referido no actual dialecto do politicamente correcto, no desempenho obreiro e profissional da indústria do sexo) por cristãos fanáticos que, não contentes e satisfeitos como o seu gesto hediondo, lhe queimaram igualmente, de seguida, toda a obra. Deste seu contemporâneo, Sinésio de Cirene (n. em Cirene – 370; f. em Ptolemaida – 413), e que foram colegas na "Escola Neoplatónicade Alexandria", oriundo de uma família pagã mas que se terá convertido ao cristianismo em 410, do que beneficiou consequentemente ter sido nomeado bispo de Ptolemaida, precisamente nesse ano, restam porém inúmeros textos e obras (hinos religiosos-filosóficos, epístolas, prédicas,etc.) que estão eivadas das suas ideias e tomadas de posição, incluindo diversas citações e incontáveis, embora que subtis, nomeios, ou referências, que não foram destruídos porquanto constituem uma reconhecida síntese do neoplatonismo cristão perdurantes na medieva e secular vaticanidade vigente desde as catacumbas romanas até aos nossos dias nos underground do poder cultural com alicerces fundados no totalitarismo e na tirania histórica.
Hipatia simboliza, de forma inequívoca e cristalina, a razão e a tolerância, e inevitavelmente o seu martírio, significará o contrário delas, o fenecido perecer destes valores, ou o que de mais desprezível podemos constatar no antropocentrismo monoteísta, enquanto expoentes máximos da loucura que sempre se abrigou no seio da "bem-intencionada e Santa Madre Igreja": o fanatismo e ignorância – o que, aliás, encontra o seu apogeu e supremo exemplo na destruição (queima das tabuinhas, pedras e fitas de papiro ou pergaminho?) da Biblioteca de Alexandria, essa mesma e acercada qual Carl Sagan terá afirmado se ela, a Biblioteca de Alexandria, "tivesse sobrevivido já teríamos [agora]colónias em Marte".


Ora, no filme Ágora (cujo trailer e demais informações estão disponíveis em http://www.elcultural.es/ ),de Alejandro Amenábar, que sem sombra de dúvida será outro Mar Adentro, enquanto filme de tese com vocação didáctica, traz a lume a pedagogia da sociabilidade harmoniosa, coisa tão grata a António Sérgio e à sua Educação Democrática como a João dos Santos na sua anti-hiperdirectividade, e institui, mais uma vez, depois de Popper, a sociedade aberta como item incontornável para a democratização do mundo, onde a sua governação tem que ser imperativamente feita pelos mais inteligentes e capazes, independentemente do seu credo, língua, género, cor ou aparência física, e enfim se denuncia como é fácil destruir algo que levou esforços e empenho milenares a construir, como se pode consumir e derreter pelo fogo, qualquer que ele seja, de artilharia como energia comburente, quer da paixão ardente e delirante dos antípodas, como da opressão preventiva a maiores males, e na evitação destes, apagando assim da face da Terra o trabalho de séculos e séculos, numa fracção de horas, e como na suposição de tentar o bem, pela parte de uns quantos, se acoitam os maiores crimes e criminosos, permitindo-lhes a prática do maior mal possível, que indubitavelmente é o de decepar-lhes a vida.
Astrónoma, geómetra, matemática, melómena, cientista, pensadora, poetae pedagoga, cuja cerne de sua essencialidade reside na miscegenação ontológica, que tem «en su escuela a personas de todas las religiones», e fez da vida, curta mas intensa, se dirá, uma constante e incansável busca intelectual, não obstante os seus dotes físicos, beleza, sensualidade e capacidade de sedução, e da sua riqueza pessoal, não viu porém que ao semear o seu brilho estava igualmente a incendiar as invejas, os sentimentos recalcados que se transmudariam em ressentimentos agressivos, e sofreu, por estar mais à mão da (in)justiça humana sob tutela da apropriação do divino, tudo aquilo que almejaram infligir à divindade pagã Vénus, a Arina solar (do feminismo heliocêntrico), com quem os talibans de outrora ainda não tinham saldado as contas nem satisfeito todas as vinganças obscurantistas, tal e qual como hoje em dia grande parte dos papistas mais papistas que o próprio Papa ainda não satisfizeram, e por se entretêm a infernizar e desdenhar quantos não lhe devotem culto, nem propagandeiem a ignorância e mediocridade como supra-sumo da cultura em que exercem seus misteres
.
Pelo que dele digo, não só que é um filme a não perder, mas também que é um tema que nos faltava há muito revelar, embora já estivesse de há muito referenciado no meu discurso, conforme o testemunha o poema constante em http://escribalista.blogspot.com/ intitulado Ângulos de Soprar as Areias Raras

10.02.2009

Onde param os Nulos?

Espionagem Científica...

Eis uma tradução de Alfredo Barroso, que reporta e traz "à tela do debate um dos aspectos mais importantes da espionagem contemporânea: a espionagem científica. É esse o assunto que Jacques Bergier nos vem expor numa obra solidamente documentada e de leitura apaixonante", e que, pese embora a persistente intenção de inúmeros, bastos e recomendados auspícios da nossa asfixiante provincianidade, jamais lhe serão reconhecidos demais méritos do que aqueles que cabem à mera ficção.
Há questões pertinentes entre os impertinentes da política que não passam com manobras de diversão presidenciais nem fait-divers entre órgãos de soberania... Principalmente porque é preciso cuidar do silêncio dos desafortunados políticos como se este fosse a sua maior fortuna; isto é, como disse alguém acerca de outrem, nos idos anais dos desaguisados entre Pessoa e Almada, o génio se revela de superior talento quando sobretudo reside em se não manifestar. É pela sua genial não-manifestação que encontra o grau superlativo nos subentendidos que lhe dão forma e justificam existência "superior". Como a liberdade na democracia madeirense, cujo élan e vigor expressivo se nota e regista acima de tudo nas evidências da sua amputação. Ou a libertação das mulheres que fugiam à opressão patriarcal casando, tão cedo quanto lhes permitisse a biologia, com um senhor mais velho e endinheirado que as sustentasse, controlasse até ao ínfimo pormenor, e no detalhe dos estilos, evitando que frequentassem leituras perigosas, que lhe endemonhiassem a alma e afogueassem o corpo, que por conseguinte sem censura eram banidas de suas casas e convívio, por medíocres e de cordel serem, popularuchas e intriguistas de vedado acesso, pelo menos, a acreditar na ficção romanesca de antes e depois de Camilo Castelo Branco.
Anteriormente à Lei da Paridade havia mais uma mulher que hoje em dia há, de acordo com os resultados eleitorais vigentes, na Assembleia da República, pelo que mais uma vez demonstrada fica a genialidade desta lei, cuja eficácia se revela categoricamente pela sua não-verificação, tal-qualmente o talento do Almada e o génio do Pessoa, que melhor se revelavam quanto pior se notavam. Ou seja, estamos quase lá, porquanto só falta mesmo, é bater a bota com a perdigota!
Por outro lado, tal como o boémio tunante que retorna a casa tanto mais cedo quanto mais tarde o faz, para quem o "de manhãzinha" não é hora de levantar mas de deitar, também nesta democracia maior é o democrata quanto maior for o número daqueles que impedir de o serem – democratas, digo eu!
Logo, se impedir que demais forças políticas disseminem a sua mensagem, propalem a sua Boa Nova, ainda que esta seja tão trotskista como a chuva que caiu há cem anos; se impedir que os eleitores sejam informados das propostas que os opositores reiteram; se produzir tantas incompreensões e equívocos que a nata das virtualidades ofusque totalmente a liquidez da realidade; se posar de boa figura entre os figurões e figurantes do alardeio fácil e insubstantivo; então, vencê-las-á inevitavelmente, na prontidão das urnas que se alentam no fúnebre encanto da pluralidade e tolerância, que são coisas que ficam muito bem ditas mas devem ser evitadas a todo o custo, não vá a democracia entretecê-las com as linhas do quotidiano. E principalmente, se além disso as denegrir com convicção e vigor melhor será a sua vitória e retumbante o êxito da operação "assalto ao poder", que é o supra-sumo da razoabilidade democrática, independentemente da agudização da crise e multiplicação de insustentabilidades várias, no agravamento das nossas condições e qualidade de vida.
Dirão daí que também estas são "suspeições absurdas e infundadas"? Então onde param as percentagens e o número de votos anulados? Porque se não disponibilizam eles para poderem ser analisados por quem quiser fazê-lo? Que ansiedade é que leva a esconder o rabo do gato esquecendo que o bichano vai todo à mostra? Sinceramente, não percebo, custa-me deveras a entender, como é que trinta e tal por cento dos votantes se deslocou aos locais de voto, precisamente para não votar, ou se enganarem inutilizando o seu voto, invalidando o seu gesto, num assinar de cruz um cheque que lhes há-de sair certamente da conta? Há assim tantos disléxicos políticos em Portugal que dêem para formar três partidos com direito a subvenção? Ou, por outra, há tantos eleitores disfuncionais que carece de aplicar Viagra político como vacina prà estirpe?
Ou não será esta polémica entre Sua Excelência, o presidente da República, e o pseudo-extinto governo socrático mais uma manobra de diversão ensaiada por ambos para desviar as atenções daquilo que é realmente sério, enfim, o elevado número de votos nulos, de entre os quais se adivinham figurar inúmeros propositadamente/intencionalmente/criativamente transformados de válidos em nulos à última hora, na “boca” das contagens?... Bom: se se chegar a saber isto, sem que ninguém o venha a dizer, comunicar, informar o pagante, não se acanhem… E depois, por exemplo, chamem-lhe espionagem!

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