La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

12.23.2010

A Maldição de Petrarca (conto)

“O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura – foram os Sonetos.
- Eça de Queirós, in Cartas d’Amor / Correspondência de Fradique Mendes

A falta de algo é apenas um reconhecimento de quanto “esse alguma coisa” é deveras importante para quem assim sente a dita ausência, quase imperiosa ou momentaneamente fundamental, que o carecido encarece, se afoita no universo dos não-seres como se tanto fosse uma primazia assaz valorizada. Se for pessoa, posto que todas são além de seres indiscutíveis, também indivíduos com direitos e identidade inalienáveis, a carência mistura-se com outros sentimentos de diferente motivação, significado e afectividade, indo desde a saudade à impotência fatal, a que nunca serão alheios a ética e a biologia, a formação e a natureza, ou a personalidade dos sujeitos que tomaram a nomeada consciência como circunstância evidente e, quiçá, incontornável.

Ao fenecer do dia, se escurece, quando o lusco-fusco se volatiliza em negritude, aquilo que registamos não é a invasão do negrume mas a falta de claridade. (Pelo menos, comigo é o que sucede!...) Antes víamos mais ou menos nitidamente, porém deixámos de o conseguir, e os contornos facilmente definíveis das coisas ou a intensidade das cores, dos brilhos e das formas aparentes, prescreveu, esgotou-se e esvaiu-se como um prazo a que expirou a autenticidade, notando nós que o demais que vier, se de igual intensidade ou semelhante, então pertencerá ao reino do fantasmagórico, que é condomínio da fantasia e da alucinação, patim comum às escaladas do sonho. Impreterivelmente. Porque a nossa contabilidade pessoal e especial está imbuída do lucro na aquisição do novo sem prescindirmos da conservação do velho, no cumprimento imediato duma mudança racionalizada, e que subscreva igualmente a imutabilidade do anteriormente adquirido, que ganha foros de definitivo. É a herança da primazia do herdado sobre o conseguido, do inato sobre o aprendido. Somos isto ou aquilo, de entre tudo o que alguns de nós podemos pensar ser, não só sociais e gregários, mas também atreitos a hábitos, e ao menor esforço consequente, que pouparmo-nos na existência tida, muito melhor é que sacrificarmo-nos continuamente por uma identidade e essência vindoura, ainda do hemisfério do desconhecido, por muito que seja ansiada e preferida.
Tecemo-nos no entretecimento das teias do destino, da conjectura sobrenatural para que fomos convocados mas não ouvidos, crendo sempre que do quanto nos coube em sorte, nem metade é daquilo que merecemos, sobrevalorizando o passado do esfarelado barro que nos constitui, mesmo quando o presente – e o futuro! – se avizinham a um El Dourado insofismável. Nada se compara ao que fomos, havendo até quem justifique a felicidade da insuficiência da infância como o suprassumo da existência, se comparada com a fortuna de uma reforma sem preocupações substanciais, nem qualquer tipo de necessidades por satisfazer. Ou seja, ainda que tenha-mos vivido no limiar da sobrevivência até ao dia anterior, só pelo facto dessa circunstância difícil já ter sido ultrapassada com êxito e relativo sucesso, então tudo tem de superiormente apetecível se o comparamos às facilidades antevistas para os dias de hoje ou de amanhã.
Enfim, o realmente ideal é o inconseguível e inalcançável, seja utopia ou sentido prático no terra-a-terra semeado e colhido, e isto porque já passou, pois tudo o que foi jamais se repetirá ou voltará a ser, que essa é a suprema evidência para quem se atém a ver a História como um processo de evolução, e não como um estado de estagnada criação através dos tempos e do tempo, dos homens e do universo, no contínuo afiar o bico à alma para escrever a biografia de cada qual.
Portanto, quando me sentei à espera que regressasses da escola, a que foras apresentar um trabalho, conjuntamente com os restantes membros do grupo que te calhou, por acaso ou velhacaria do prof., como me veio posteriormente à ideia, ironicamente, estava muito longe de imaginar o que me havias de propor, confirmando que «está na hora de alterar isto», conforme determinaste, aclarando a voz, para que não tivesse a mínima dúvida de que estava a ouvir precisamente aquilo que dizias, e não outra coisa qualquer, pondo a ênfase no fato de ser mais que tempo de «vivermos na mesma casa, dormirmos na mesma cama, e ter apenas por amigos os que forem do agrado de ambos», uma vez que «está cada vez mais difícil estar seja onde for, sabendo que podes estar ou não estar à minha espera». «Pronto», disseste rematando como um «disse» de quem acabou o discurso na confraria da urbanidade próxima. «Mas eu estou» retorqui, na esperança de que invertesses caminho, retrocedesses na intentona de alterar a nossa condição de celibatários sob mútua ajuda e consentimento, porém atiraste um «porque queres, ou não tens mais nada para fazer, como se eu fosse um comprimido para matar o tédio, não por compromisso e garantida maturidade» complementaste, ao que empederni ressentido, mas não adiantou nada, já que aperraste os dentes e me olhaste de esguelha nas horas que se seguiram, talvez atirando-me facas pelas fisgas das pestanas, faiscando irritação e contrariedade.
Voltaras decidida a mudar-me a vida, e a mudar-me com ela. Achavas que era um privilegiado ímpar, o que era inadmissível à luz das leis e do destino, das criaturas celestes e dos desígnios humanos. Inesperadamente. E para meu desconsolo e inquietação adiantaste que «amanhã falo com os meus pais para me disponibilizarem a casa na Serra, já que raramente é ocupada, nem em férias lá vamos, apenas nos dias de faxina, anualmente, limpando-a para que os bichos-de-conta não se sintam totalmente desprezados na sua fé de cerzir os murmúrios das noites invernais», como se eu não pudesse reclamar outra hipótese, apelar para a lógica e sensatez do diálogo negocial (e democrático), ou sugerir uma solução menos radical.
O semblante carregado e circunspecto dos momentos de dúvida e incerteza, coisa frequente de há meses a esta parte, dava-te aquela ténue sombra de frieza que acompanha o mármore nas tardes chuvosas e nebuladas, em que as paredes ficam baças gemendo humidade na brancura polida dos entes deslocados, subtraídos ao seu habitat natural, no subterrâneo filão das escarpas abruptas e rectas a que foram extraídas. Receei a irascibilidade adivinhada, tentando adiar uma discussão que não poderíamos evitar, nem esconder na roupagem camuflada do isto passa depois de uma noite de sono profundo e reparador. Fiquei na esquina entre o não saber que fazer nem pensar, balançando como um soldadinho de chumbo em versão de sempre-em-pé, dlim-dlam, dlim-dlam, de um lado para o outro, agora penso, agora faço, agora sinto, agora ajo, porém não saía dali nem tomava qualquer decisão, calado e calando, que o mesmo é dizer, consentindo, se o ditado ainda estiver em vigor no dicionário das expressões idiomáticas ou das frases feitas.
Tenho a certeza que, embora arreliada, sabias exatamente o que se passava na minha cabeça, vias as faíscas que me estralejavam nos píncaros dos tutanos a que vulgarmente chamamos cérebro, uns, os armados com a bagagem das experiências científicas ou posologias das farmacopeias compendiadas, e alma, outros, decididos a en-contrar a fé em todo o lado, sobretudo no corpo humano, mesmo nos sítios onde essa busca mais difícil se torna, por fora como por dentro, a que por única via de acessibilidade é a venosa, e o venenoso impulso da imaginação sob os auspícios de Delfos no descobre-te a ti próprio.
«Tá; se é o que queres, então vai ser isso que faremos», ouvi-me eu dizer, como se a voz não fosse minha mas com a certeza absoluta de que era ela. «Com calma, sem pressas ou afogadilhos, que o tirar o pai da forca já está fora de prazo» entre os desesperados afrontamentos duma andropausa precoce. Não via como é que uma felicidade se pronunciava pela unilateralidade das decisões, contudo, porque a vontade me entrara naquele fim de lusco-fusco onde a obscuridade se mede pela falta de clareza e frontalidade, lucidez e objectividade. «Estou disposto a correr qualquer risco para não te ver desiludida e acabrunhada» sentenciei, crendo-me sincero, e discreto, sem no entanto perder o sorriso de gentil afeição que ela me inspirava, nem temer que viesse a usar a confissão futuramente, como argumento, noutras demandas.
Satisfeita com o rumo (e a anuência) da “negociação” (ausente), Shara resumiu e rematou com um «então, vamos jantar a minha casa, que minha mãe disse que hoje ia fazer uma miolada com rins, daquelas que tu tanto gostas», o que me levou a concluir que a história tinha alicerces antigos e fundeados no logradoiro da família. Opor-me estava fora de questão, que quando os familiares se unem em torno de uma decisão do tipo “é o melhor para os filhos”, entra em vigor o estado do vale tudo, e o escolher fica a ser apenas um anexo sem importância no capítulo do tem-que-ser, e por conseguinte, se passa de imediato à modalidade do escolher obrigatório, ou do voluntariado à força. E adormeci os olhos no seu rosto, que me embalavam pestanejando subtilmente, onde ressuscitava o brilho dos instantes áureos, de quando inventávamos pretextos para nos encontrarmos, infiltrando-nos nas atividades um do outro ou desenfiando-nos das obrigações a que particularmente tínhamos sido convocados. Descansei-os com o alívio de uma inquietação pressentida que se acoitou na perspectiva de ser infundada, revendo as ordens como simples apreciações sobre fatos, talvez opiniões similares ao estado do tempo, como se não tivessem demais consequências do que confirmar estar um lindo dia, ainda que nada visível corrobore tal constatação.
Provavelmente estaria a acatar as determinações de um hábito antigo, nascido e reforçado pelas repetições de outras esperas, sobremaneira frequentes e justificadas pelas diretivas dos adultos que nos forçavam a acompanhá-los para onde quer que fossem, sabendo muito bem que isso era a última coisa que desejávamos na vida. Contrariedade lógica, como é óbvio, porquanto se queríamos aprender a viver, devíamo-lo fazer conforme as expectativas do futuro e não conforme os ditames e emaranhações ancestrais, que para nós não possuíam uma ancestralidade muito remota, pois redundavam apenas à pré-história (infância) dos nossos progenitores e avós.

Conhecia-a quando fez, em Maio, seis anos, e agora já tem vinte e quatro, que é o produto da multiplicação por quatro da idade do primeiro dia. Longo currículo de esperas e desencontros, por sinal, em abono dos comportamentos adquiridos através da repetição que viram hábitos. Suponho que não serei o único a quem isso aconteceu, todavia não me serve de consolo nenhum reconhecer que outros andaram – ou andam – também nesta barca, atravessando o purgatório sem minimamente se questionarem acerca da justiça e legitimidade quanto ao percurso. E à navegação. É-lhes inerente, é-me incluído (acoplado, embutido) na própria vida e faz parte integrante da motivação e vontade de viver. Escutá-la, através do silêncio e da espera é tão-só uma versão diferente da fala – da sua fala –, da música – da sua música –, daquela que ela escolhe para ouvir e dar-me a ouvir, dos filmes – dos seus filmes –, precisamente aqueles que decide ver comigo e depois discutimos ambos, livros, cozinhados, fotografias, quadros, paisagens, e por aí fora, numa longa lista de usufrutos comuns.
Se há cumplicidade não se manifesta de nenhuma forma específica, tão-só praticamos a comunhão e a partilha, de uma maneira espontânea, senão automática, naturalmente, por não haver outra maneira de estarmos e convivermos, ou desconhecemo-las, e sem pensar nela, pô-la em causa, verificá-la ou fazê-lo propositadamente. Esporadicamente, se precisamos de interferir em defesa um do outro, perante terceiros, no convívio diário ou em família, não nos evitamos de concretizar essa peleja de imediato, sem qualquer pedido de autorização nem toque a rebate, ostentar ou exibir qualquer espécie de procuração especial, uma vez que a ninguém passa pela cabeça haver alternativa ou outra modalidade plausível. É categórico protegermo-nos das investidas exteriores, considerando que sempre assim foi desde que nos lembramos de quem somos, seja numa memória recente como remota, de há duas dúzias de anos. Supor que haja diferente modo de agir é já de si uma blasfémia impensável. Acreditar que nem todos os casais, civis ou oficiais, casados ou simplesmente unidos de fato, uma fantasia excêntrica, uma imaginação de inconcretizada hipótese, superlativamente hipotética além de profundamente remota.
Mas, retórica à parte, deposta a teoria, vamos ao que aqui me trouxe: a comunicação das intenções de Shara aos pais confrontando-os com o meu assentimento. E fizeste-o logo que entrámos em casa, como se precisasses de justificar a minha presença ali, nesse momento e no seguinte, durante o jantar.
«O Quim janta cá, para conversarmos sobre o que fazer quanto ao nosso futuro», avisaste a tua mãe, ainda com os casacos por pendurar no cabide, atrás da porta. O Quim sou eu! – Restos da infância que, afinal, foi prolongada com afinco e cultivada por ti, que insistes em tratar-me pelo nome do primeiro encontro.
«Futuro… Que futuro?», conjecturei de mim para comigo, a pensar «que tipo de futuro pode haver numa vida em que até hoje ainda não fiz outra coisa, a não ser estar disponível e tão perto quanto possível de ti?», porém, se bem o pensei, melhor o calei, e recalquei pressionando para o fundo dos fundos, temendo que tu, Shara, o adivinhasses, coisa que sucede frequentemente, sobretudo quando notas haver no meu semblante aquela sombra de receio e dúvida a que comummente chamamos, talvez confundidos, de circunspecção.
O jantar, é o costume: tu vais para a cozinha, conversar e acabar a confecção dos acepipes, eu fico a ver televisão com o teu pai, a fazer sala, entabulando uns reparos de ocasião sobre política e futebol, sobre o comércio local e a carestia de vida, que nos vão espremendo os cobres – e os cromados. Às vezes D. Catarina – eis como se chama a mãe de Shara, não sei porquê, nem por que influências, embora desconfie que tem a ver com uma gravura da monarquia que havia em casa dos avós – deita a cabeça à porta da sala, perguntando-nos se queremos isto ou aquilo, deste ou doutro jeito. A cozinha sempre foi o seu império. Costuma dizer que «é a melhor dependência da casa», e desconfio bem que sim, principalmente no Inverno. Quente, acolhedora, repleta de aromas e motivos campestres: as cebolas e alhos em réstias assépticas e decorativas, sobre o friso da chaminé alguns utensílios de cobre, de concavidade ampla e larga, de lume de chão, raramente aceso, é certo, dava à vontade para oito pessoas ao borralho, uma bancada para preparar os ingredientes e uma mesa redonda, firme, pesada e robusta, com saia e cobertura grossa e fofa, sob as quais pode ser aposta uma braseira – de picão! – para conforto na tomada do caldo, nas refeições sem visitas. Um guarda-prata em madeira maciça de castanheiros, escura e rústica. O sofá virado para a estante, onde fica também a televisão. É o sítio ideal para ler e escrever, trocar impressões acerca do quotidiano e vizinhança, porquanto transpira cumplicidade por todos os cantos e móveis.
Foi aí, assim que a tua mãe foi para a sala de jantar, pôr a mesa e nela a refeição, que tu, ela, me chamou à cozinha e me questionou se estava de acordo e se era realmente o que queria e pretendia da vida. Eu disse imediatamente «claro, como podes pensar que me passou, sequer, pela cabeça alguma coisa diferente disso? Olha, até te fiz um soneto», e retirei-o do bolso, onde o poema estava, para ler-to. Ficaste concentrada ao ouvi-lo, atenta e contrita, enquanto disparava os versos numa rajada, quase violenta, e incontida. Achaste-o bom. «A sério, foi o melhor poema que escreveste até hoje…» e senti-me nas nuvens, finalmente compreendido e aceite.
Porém, remataste: «Ok, então estamos de acordo, e vamos em frente. Mas uma coisa – a partir de hoje, acabaram-se os sonetos. Tá?»
Fiquei sem palavras. Também não eram precisas, que os silêncios às vezes são mais construtivos que a melhor argamassa.

12.22.2010


Idílio (1)



Praias que banha o Tejo caudaloso,
Ondas que sobre a areia estais quebrando,
Ninfas que ides escumas levantando,
Escutai os suspiros de um saudoso.


E vós também, ó côncavos rochedos,
Que dos ventos em vão sois combatidos,
Ouvi o triste som dos meus gemidos,
Já que de amor calais tantos segredos.

Ai, amada Tirceia, se eu pudera
Os teus formosos olhos ver agora,
Que depressa o pesar, que esta alma chora,
No gosto mais feliz se convertera!


Oh, como então ficaras conhecendo
Quanto te amo, se visses a violência
Com que estão dos meus olhos, nesta ausência,
As saudosas lágrimas correndo!


Tanto neste pesar, que estou sentindo,
O triste coração se desfalece,
E tanto me atormenta, que parece,
Que ao sofrimento a alma vai fugindo!


Mas oh! Qual há de ser a crueldade
Deste terrível mal em que ando envolto,
Se a qualquer parte, enfim, que os olhos volto
Imagens estou vendo de saudade!


Uma serena tarde, já sol-posto,
Te vi sobre esta penha estar sentada;
Ali naquela fonte prateada (2)
Estiveste banhando o alvo rosto.


Dali de quando em quando os olhos belos
Movidos com tal gesto me voltavas,
Que em cada movimento asseguravas
Uma nova esperança a meus desvelos.


Ali na branca areia se estão vendo
Ainda, doce bem, tuas pisadas,
Que entre outras, que vejo assinaladas,
Estou distintamente conhecendo.


Vê como vivamente andas impressa
Nesta alma, que por ti se abrasa, amante!
Mas nem amor ao meu há semelhante,
Nem outra que contigo se pareça.


Por ti sempre dos olhos desatando
As lágrimas estou nestes retiros;
Entre soluços mil e mil suspiros
Em vão ando o teu nome derramando.


Nesta praia não há, nem pelo prado,
Rústica penha ou árvore sombria,
Tenra flor, duro tronco, a fronte fria,
A quem por ti não tenha perguntado.


Talvez se visses quanto sinto, ausente,
Tivesses dó de ver-me em tal tormento;
Mas que importa que vejas meu lamento (3),
Se já teu peito ingrato amor não sente?


Vem colher deste prado as belas flores,
Vem gozar destas sombras a frescura;
Mostra-me ao menos tua formosura,
Inda que armada de cruéis rigores.


Qual a confusa névoa, que escurece
Na luz da madrugada os horizontes (4)
Que logo dos floridos e altos montes
Com a vista do sol desaparece,


Assim eu, neste mísero desgosto,
O pranto que desato pela terra
De meus saudosos olhos se desterra,
Quando o sol aparece de teu rosto.


Ah! Se pudesses ver, doce inimiga (5),
O estrago que me causa esta saudade,
Pode ser que o impulso da piedade
Te obrigasse ao que o amor te não obriga!


(1) O presente Idílio, independentemente da “desgraça” que acarreta, foi endereçado por Domingos dos reis Quita à sua Tirceia, nome poético pelo qual ficou identificada Teresa Teodora de Aloim, admirável mulher que, não obstante, casada, viúva, e seguidamente recasada, protegeu e recolheu o poeta, na miséria como na doença (tuberculose), até ao dia em que finalmente faleceu. Quanto à ausência enunciada, supõe-se derivar da distância que ia de Lisboa à Quinta de Santo António, na Moita, onde morava Tirceia durante o tempo de (ainda) solteira.
(2) Conforme anotação de Rodrigues Lapa, a fonte prateada é um cliché clássico, a cujos modelos (do classismo) o autor terá recorrido “servilmente”, mas sem trazer qualquer novidade para a poesia, além de alguma brandura, certa melancolia, próprias das almas e corpos fragilizados ou combalidos.
(3) Neste vejas meu lamento está patente que o ver inclui também o ouvir porquanto o autor se refere à leitura em voz alta dos seus lamentos escritos.
(4) Nítido tributo – mais um! – ao classicismo.
(5) Oximoro igualmente “herdado” dos inimitáveis clássicos…



Domingos dos Reis Quita – Nasceu em Lisboa em 1728, filho de um comerciante arruinado viu-se forçado a seguir no ofício de cabeleireiro, aos 13 anos, para ajudar a sustentar a família. Nos ócios da oficina, tomou-se de amores pelas letras, lendo com entusiasmo, principalmente Rodrigues Lobo. Começou por experimentar a poesia, adquirindo alguma popularidade, fazendo passar essas primeiras composições como sendo da autoria de um frade que habitava nas Ilhas. Como poeta cabeleireiro frequentava a casa de um amigo, por cuja filha, de seu nome, Teresa Teodora de Aloim, se apaixonou, fez dela a sua musa, dirigindo-se-lhe sob o nome poético de Tirceia. Esta porém casou com outro, e o pobre Quita desfez-se em lamentações.
O terramoto de 1755 deixou-o sem recursos. Então, Tirceia, já viúva, recolheu-o em sua casa, pondo-o ao abrigo da mendicidade. O conde de S. Lourenço, que se interessava igualmente por ele, recomendou-o a Pedro António Correia Garção, tutelar da Arcádia, para onde entrou sob o pseudónimo de Alcino Micénio.
Em 1761 contraiu tuberculose, mas Tirceia, que terá casado novamente, com um médico, intercedeu junto do marido, fazendo-o interessar-se pelo seu caso, promovendo a cura. Essa obra de piedade durou mais nove anos, ao fim dos quais, em 1770 sucumbiu, correndo o rumor (boato mais ou menos infundado) que fora o marido, desvairado pelo ciúme, quem o envenenara, pondo termo à excentricidade caridosa da mulher. A obra de Quita, vertida nos moldes clássicos, não tem energia nem originalidade, e é falha de cultura; todavia, nota-se nela, por vezes, um tom brando, langoroso e melancólico, que anuncia a nova disposição das almas. Sendo, dos árcades, o menos classificado para tal, ensaiou-se também na tragédia e no drama pastoril, compondo Hermione, A Castro e Licore, que resultaram frouxas e sem vincado delineamento de caracteres.

12.14.2010

Cantata de Dido

Já no roxo ambiente branqueado,
As prenhes velas da troiana frota
Entre as vagas azuis do mar dourado
Sobre as asas dos ventos se escondiam.
A misérrima Dido
Pelos paços reais vaga ululando (1)
C’os turvos olhos inda em vão procura
O fugitivo Eneas.
Só ermas as ruas, só desertas praças
A recente Cartago lhe apresenta.
Com medonho fragor, na praia nua,
Fremem de noite as solitárias ondas;
E nas douradas grimpas (2)
Das cúpulas soberbas
Piam noturnas, agoureiras aves.
Do marmóreo sepulcro,
Atónita imagina
Que mil vezes ouviu as frias cinzas
Do defunto Siqueu, com débeis vozes,
Suspirando chamar: -- Elisa! Elisa! (3)
D’Orco (4) aos tremendos numens
Sacrifícios prepara;
Mas viu, esmorecida,
Em torno dos turícremos (5) altares
Negra escuma ferver nas ricas taças,
E o derramado vinho
Em pélagos de sangue converter-se.
Frenética delira,
Pálido o rosto lindo,
A madeixa subtil desentrançada;
Já com trémulo pé entra sem tino
No ditoso aposento,
Onde do infido amante
Ouviu, enternecida,
Magoados suspiros, brandas queixas.
Ali cruéis Parcas lhe mostraram
As ilíacas roupas que, pendentes
Do tálamo dourado, descobriam (6)
O lustro pavês, a teucra (7) espada.
Com a convulsa mão, súbito, arranca
A lâmina fulgente da bainha,
E sobre o duro ferro penetrante
Arroja tenro, cristalino peito;
E em borbotões de espuma murmurando,
O quente sangue da ferida salta:
De roxas espanadas rociadas,
Tremem (8) da sala as dóricas colunas.
Três vezes tenta erguer-se,
Três vezes desmaiada, sobre o leito
O corpo revolvendo, ao céu levanta
Os macerados olhos.
Depois, atenta (9) na lustrosa malha
Do prófugo dardânico (10),
Estas últimas vozes repetia,
E os lastimosos, lúgubres acentos,
Pelas áureas abóbadas voando,
Longo tempo depois gemer se ouviam:

«Doces despojos
Tão bem logrados
Dos olhos meus,
Enquanto os fados,
Enquanto Deus
O consentirem,
Da triste Dido
A alma aceitai,
Destes cuidados
Me libertai.

«Dido infelice (11)
Assaz viveu;
Da alta Cartago
O muro ergueu;
Agora, nua,
Já da Caronte (12),
A sombra sua
Na barca feia,
De Flegetonte
A negra veia
Surcando (13) vai.

Pedro António Correia Garção, in Obras Poéticas, pp 259-261; Lisboa: 1778.




(1) Ululando, soberba expressão que traduz admiravelmente o que a paixão de Dido tem de frenético e de selvagem.
(2) Também Virgílio fala no canto agoureiro do bufo, mas Garção acrescenta-lhe uma pincelada de cor com aquelas «douradas grimpas».
(3) Elisa era o primeiro nome da rainha. Dido foi o cognome que lhe puseram depois da fundação de Cartago. Significava «errante», alusão aos trabalhos que passou, ao vir de Tiro para Cartago.
(4) Orco era o deus dos infernos.
(5) Turícremos: onde se queimava o incenso quando se depunha as oferendas nos altares.
(6) Descobriam – faziam realçar.
(7) Teucra – troiana.
(8) Tremem: o sentido é duvidoso – ou este tremer representa qualquer sinal misterioso da di-vindade, ou alude aos gritos que se levantaram no palácio e por toda a cidade, mal se soube do suicídio de Dido. Virgílio insiste nesse clamor desesperado: It clamor ad alta / atria – «o clamor sobe até aos altos pórticos».
(9) Atenta – com os olhos pregados.
(10) Dardânico – troiano.
(11) Infelice – infeliz, termo literário muito corrente em toda a época clássica.
(12) Caronte – o barqueiro do Inferno que conduzia as sombras dos mortos.
(13) Surcando – sulcando, na sua forma clássica.

11.19.2010

Entre Bocas e Bocanas, assim passam as semanas


Entre Semanas, Bocas e Bocanas

"Estava-se nessas desconformidades quando surgiu em nossa frente um cabrito malhado. O bicho destoava das solenidades. O administrador arreganhou em surdina:
– Quem é esse cabrito?
– De quem é... – o secretário corrigiu, discreto.
– Sim, de quem é essa merda?
– Esse cabrito não será dos seus, Excelência?"
In O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

bocanas e bocanas. E se cada um é como cada qual, sendo no todo ou em parte diferente do outro, seu semelhante, posto que ímpar e sem igual, no feitio como nas atitudes, o que é certo, é que são todos uma cambada de sacanas. Incapazes de sentir empatia, abespinham os demais, desde que em algo eles sobressaiam daquilo com que os rotularam, ou a ideia que deles fizeram, cultivaram, difundiram e admiraram. Insistiram e determinaram. Atribuíram como única possível, concebível e lógica.
Por exemplo, quando desgostam de uma pessoa, mas gostam/simpatizam com outra, que é sua familiar ou irmã, e se esta, a quem atribuem sempre tudo o que é mal feito ou indesejável no seio de uma família, faz algo de apreciável mérito e notório, então, para lhe retirarem o talento e os louros do feito, justificam a feitura às qualidades do outro, que nunca lhe pertencerão a não ser por cópia ou imitação, afirmando que o fulano, nessa etiqueta ou quadrante, «sai ao irmão», como se isso fosse possível, uma vez que a herança dos genes jamais será transversal e fraterna, mas de linha directa por descendência, como sucede de avós para pais e destes para os filhos. Se um cabrito nasce no seio de uma família branca tudo quanto faz de mal é herança do sangue negro que há nele, e se, pelo contrário, algo de louvável pratica, então foi a sua quota-parte de brancura que veio ao de cima. Ao invés, desde que nascido numa família predominantemente negra, tudo quanto é indesejável no seu comportamento será consequência directa do sangue branco que lhe ainda corre nas veias, e de bom, se algum houver, resquícios emergentes da sua negritude. Quando para uns casos é pessoa (cabrito de cor), para outros é animal(cabrito, filhote de cabra).
Em Tizangara, ambiente social e lugar onde se desenrola a ação, no livro acima citado, de Mia Couto, a situação, aliás comum às famílias e meios provincianos do interior português, essa clareza tem nome para as entidades oficiais, chamando-lhes merda, para evitar subsequentes equívocos. A crueldade criancista de nomear as coisas pelo nome, assim o exige, exorcizando a tendência civilizada para os eufemismos, contudo, não podemos negar que as nomeações nada acrescentam nem retiram aos seres e pareceres sociais, já que não é por este ou aquele indivíduo desafetar a carga pejorativa a alguns rótulos que o veneno das discriminações deixa de produzir os seus efeitos, e muito menos, se considerarmos que até podemos dizer que um fulano é um "querido" quando pretendemos chamar-lhe "filho da puta", ou que é engraçado se nos apetecer denominá-lo de bobo e bocana. A fluência das significações é muito superior à estirpe lexical que as sustenta, considerando que cada língua, cada vocabulário, particulariza apenas parte daquilo que a expressão generaliza, o sentimento humano, a emoção, a racionalidade, a sublimação, e a espiritualidade universalizam. Ter raiva a, ou sentir inveja de alguém, existe no seio de diversas culturas em diferentes modos, com significados normalmente aspergidos numa panóplia semântica que apelidamos facilmente de polissemia, pondo na esfera polissémica de um termo, numa língua, termos e significados que pertencem à esfera de outro ou outros, independentemente da linearidade, e correspondência literal, das traduções. "Um pai galinha" em português é um pai extremoso, atencioso, dedicado aos filhos, porém se o interpretarmos de acordo com o universo de significação brasileiro, é um indivíduo mulherengo, um D. Juan, e que se preocupa mais com o fornicar muitas mulheres do que ajudar-lhes a criar, proteger e educar os filhos, por exemplo.
Mas a minha televisão já tomou providências e começou a tratar do assunto, pondo nova ordem no aferir significativo das cores, confirmando quanto importa aos multimédia tomar decisões que visem concertar, dissolver e harmonizar os conflitos que a sociedade gerou para evoluir, mas que impreterivelmente tem que ultrapassar se quiser continuar essa evolução: alterou automaticamente, e sem qualquer possibilidade de retorno ou reparação, a paleta de cores, dando a ver verde, naquilo que era – e é – vermelho, azul no que antes foi verde, lilás no amarelo, rosa-choque no que antes fora azul, o castanho virou creme, e assim por diante, com tal magnificência e pertinácia, que eu passei também a ver a realidade conforme esta matriz de tons, uma vez que passo mais tempo a ver televisão do que a andar na rua, e a achar que a realidade, as paisagens e quadros vivos do quotidiano, andam mal pintados ou debaixo uma luz deveras sinestésica - e suspeita. A princípio tive dúvidas de que a máquina tivesse uma propositada intenção na baralhação das cores, julgando tratar-se de avaria, comentando de mim para mim «esta, está a dar o badagaio!...», não obstante, depois do contato com o técnico local de TVs, testes com aparelhómetros vários, o diagnóstico foi o sem espinhas «não tem qualquer problema, e está em melhor forma do que muitas das novas que ali tenho para venda ao público», vi-me na incontingência de aceitar o fato como capricho consumado de um ente que reivindicava participar na formação – e formatação – do mundo que espelhava, reproduzia e muito ajudara a criar. Ver os telhados das casas verdes quando cobertas do canelado mourisco, inicialmente, foi confuso e digno de tenaz resistência, repetindo a mim mesmo, oral e mentalmente, que eles, os telhados, eram sim, mas vermelhos, desde que não fossem de vidro ou de placas de “lusalite” com amianta memória. Depois, porque isto não é tempo de andar a mudar constantemente de electrodomésticos, engoli a mudança nos cambiantes por ela impostos, como quem assobia prò lado perante uma contrariedade corriqueira, e deixei de inculcar a memória cromática mal me apercebia de que a bandeira portuguesa tinha ganho outras cores e humores, flanando com verde, azul e lilás com o igual empertigamento de antanho onde o vermelho e o amarelo tinham notória presença. E idem para o estandarte da UE, a quem o rosinha com estrelas lilases dava um requinte feminino, porquanto primeiro foi estranho depois se entranhou, e afinal, mais consentâneo e conforme à felicidade do lar num casamento a vinte e sete... E agora, que fazer?
Nada. Conformei-me. Já não admito que a realidade queira pintar o real realmente de outras cores que não aquelas que aprendi a ver como reais. As árvores são azuis. Os telhados verdes. Os pretos são brancos, e vice-versa. Os mulatos são cremes. E os cabritos, se alguns vejo, cor de tijolo quando cai, que os muros e paredes se foram criados levaram caiação moderna com mestiçagem às avessas, deixaram de ser biombos de resguardo das espécies e raças, e passaram a ser elos de ligação e unidade entre gentes separadas, que cultivavam a simetria como perfeição.
Portanto, quando ouço dizer que fulano ou sicrano são uns merdas, ninguém me tira da ideia que são preciosos e ricos, de genial talento como os que em vez de saírem a seus pais saem aos seus irmãos, pois sei que, de certeza, quem assim os classifica por húmus fértil, tem a televisão avariada. Até porque não há filhos do pai quando estão com a mãe, nem filhos da mãe quando estão com o pai. Há seres humanos, na totalidade dos seus direitos e responsabilidades, e isso ninguém lhes pode negar, ainda que os bastonetes e cones lhes soneguem as cores originais, na mensagem que distorcendo veiculam ao cérebro de quem os toma por objectivos. Pintar o mundo sem ouvir as bocas de alguns bocanas, é uma tarefa para máquinas inteligentes que não se envergonham do que querem e são. Digam o que disserem, as cores são um privilégio de quem vê, não de quem crê ver.
Então, onde está o problema de se verem outras bandeiras em nações que se tornaram mais justas e soberanas, civilizadas e cultas, modernas e atuais, solidárias e conscientes, responsáveis e livres?

11.15.2010

Cultura e Civilização, o que são?

A Generosa Perfeição da Dúvida


"Ó deusa Sol de Arina, rainha de todos os países!
No país hitita, tens o nome da deusa Sol de Arina,
Mas no país que tu fizeste país dos cedros,
Tens o nome de Hegat!"

da Tabuinha de Puduhepa

Se até quanto à denominação dos mesmos deuses nos sucede às vezes adorar um sob o nome de outro, ou outro com igual nome daquele que invocamos, então, a mínima dúvida há de ser sempre preferível à maior, absoluta e mais preciosa e pura das certezas, no X de um voto sobre o quadrado da existência.
Desconheço quais sejam, efetivamente, os motivos e argumentos que levam alguns pensadores da atualidade a separar o conceito de cultura do seu congénere, o conceito de civilização, posto ser impercetível a fronteira entre ambas, cujas funções e estrutura se igualam e identificam, como igualmente se aplicam ao quotidiano, na sua crítica à natureza, principalmente à natureza humana, se no universo da ética navegamos, afastando cada vez mais o indivíduo das suas origens, ou o homem do animal que deriva e o suporta fundamentalmente.
Entre muitos que assim fazem, conheço eu um, que não nomeio, pois como os demais desta fornada, é dos que gostam de interpretar cada crítica às suas afirmações como um ataque pessoal, uma ofensa, uma injúria, não obstante número de diplomas e certificados académicos que tem em carteira, que o faz, fazendo-o como muitos antes e provavelmente outros tantos depois dele o farão, garantindo que «um indivíduo culto é o que possui abundantes bens de espírito; [e] um indivíduo civilizado é o que faz uso desses bens no decorrer do seu viver diário», tal como nós costumamos separar os portugueses (provincianos) pela sua opção religiosa, dizendo que todos são católicos, embora apenas alguns sejam praticantes, querendo com a especificação sublinhar que do total dos batizados como tal, só uma pequena porção cumpre os preceitos da hóstia, assistindo aos cultos e participando nos rituais.
E fá-lo sem o mínimo pejo ou qualquer receio de estar menos correto, quiçá, errado mesmo, uma vez que ao fazê-lo também o afirma, oralmente e por escrito, sem temer o risco que corre quem se habituou há muito a ter razão, ser incontestado, que quando a não tendo, supondo essa remota como remotíssima hipótese, então sabe que lhe advirá o consequente apoio de Deus e da Fé, que a tornam elástica e extensível a tudo e todos quantos sob o Sol se erguem desde há, pelo menos, dois mil anos, que é a idade do antropocentrismo cristão à face da Terra. Trigo limpo, farinha Amparo.
Todavia, o busílis não residiria em haver alguém superiormente formado dizer "tamanha verdade", senão em haver uma longa prol de bem formados e melhor pensantes que o subscrevem, citam, repetem, ou até defendem e propalam, seus discípulos, por considerarem que assim estão a fazer (e dar) o seu melhor na formação dos futuros quadros da portugalidade, reivindicando não só estarem a ajudar a edificar o espírito e clarificar as vontades daquelas gerações sobre as quais, sem a menor dúvida, recairá o ónus da responsabilidade dos desígnios nacionais, da gestão da riqueza e do bem da nação, da sustentabilidade cultural de um povo com oito séculos de história – e civilização –, como também a contribuir para a qualidade mental e psicológica da lusofonia, cujo período de validade expirou nos meados do século passado, em virtude da hegemonia global do inglês e pensamento anglossaxónico, com fortes indícios já espelhados na queda da Bastilha e o ressurgir do humanismo existencialista, nem sempre atreito à transmissão/disseminação de valores seculares de incontestável primazia como a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade, tão queridos aos patrícios do quarto império (romano) quão prezados pelos conquistados e vencidos do terceiro império, em Atenas sediado, e na retórica da ironia/mauêutica celebrados, pela verve socrática e platónica difundidos, refinados, apurados, e multiplicados na sua heurística (pro)criadora.
Portanto, a gravidade, nesta problemática, como noutras similares, não está no facto de alguém pensar assim, ser aplaudido, publicado e publicitado por isso, etc., etc., mas exactamente na constatação circunstancial de ninguém ousar vir a terreiro "denunciá-lo" como inconcebível e prejudicial, socialmente negativo e antidemocrático, lamentar a sua lucubração na noite provinciana do subdesenvolvimento nacional, e alertar para as consequências nefastas da proliferação deste tipo de clichés na edificação basilar de uma sociedade, por medo de retaliação censória e inquisitorial, ou sujeitos à acusação de heresia, escondendo, ou desconhecendo, que as ideias – e sentenças –, por mais toscas e tacanhas, desde que se não discutam e não suscitarem o dialéctico confronto, tendem a perder a sua principal razão de ser, motivo de génese, que é a faculdade de espevitar a luz, gerar conhecimento que nunca poderá ser passivo nem de cómoda aceitação, porquanto os conceitos de civilização – "conjunto complexo de fenómenos sociais, de natureza transmissível, apresentando um carácter religioso, moral, estético, técnico ou científico e comuns a todas as partes de uma vasta sociedade ou a várias sociedades relacionadas entre si", conforme avisa o Dictionnaire de Philosophie, de Lalande –, e cultura – "a totalidade dos comportamentos e artefactos de uma sociedade, na medida em que esses comportamentos e produtos podem ser apreendidos e partilhados", segundo a opinião de Ralph Linton, por exemplo –, acarretam em si uma responsabilidade formativa bastante superior a qualquer outro conceito que esteja associado às normas e atitudes de socialização sustentável, contínua, positiva e eficaz, uma vez que lhe é inerente a qualificação da arte, da tecnologia, da ciência e do pensamento que estruturam o desenvolvimento de um povo ou de uma região. A guilhotina ou as SS nazistas de Hitler, são elementos de uma civilização, é claro e inegável, porém a cultura que os gerou e valorizou é a da morte e da opressão, que de todas as conhecidas é a menos desejável em termos sociais, nacionais, europeus ou globais.
Um indivíduo civilizado e culto não é somente aquele que tem bastos conhecimentos e os utiliza no dia-a-dia, mas sim aqueloutro que tendo-os igualmente escolhe entre eles os que sendo-lhe úteis a si, não prejudicam, e antes beneficiam os demais, o ecossistema, o habitat, o seu nicho como a totalidade da humanidade e ecosfera.
Confundir, propositadamente (!), cultura com propriedade, e civilização com a exploração dela, não se me avizinha serem as melhores formas de demonstrar o grau, ou nível, de maturidade e consciência ética com que se está em ambas, outrossim expressam quanto elas têm sido confundidas com o amanho das terras atreito ao mediavelismo bucólico e selecionista deserticador das mentes e tutanos lusófonos, que nos atiraram para a mediocridade vigente, posto que se há produtos culturais e conteúdos como produto de cultura, pelo menos todos aqueles que sendo matéria o não sejam exclusivamente, sendo também espirituais, alguns de elevado teor civilizacional, o que é certo, embora sempre entendidos como plataforma de intercâmbio, de transbordo, de navegação, de interface, entre o mundo físico e o mundo ideal, eles jamais serão propriedade alguma, seja de quem for, a não ser do entendimento, da compreensão, e nunca uma propriedade palpável, rotulável, atestável, com cadastro e diploma, passível de ser arroteada e explorada, como filão aurífero ou poço de crude, e sim veículo de aproximação entre o conhecimento do sujeito e o objecto cognoscível, sem outra deriva civilizacional além da curiosidade metódica e cientificamente condicionada, que assistem a quem esclarecidamente está disponível para contribuir para o bem-estar e felicidade geral, porquanto deles dependem impreterivelmente os seus. E isso é tão velho como a Lei dos Profetas, já pré-bíblica e anterior ao (Grande) Dilúvio!

11.10.2010

Mudam-se os tempos mas a crise é sempre a mesma

Os Amigos da Dívida


"Tu estás tão acorrentado
À sombra que tens ao lado
Não consegues apagar
As marcas desse passado
(...)
Mas se isso acontecer
És mais um a flipar
Mas se tu queres acabar
Ó que tu queres é drunfar

Toma um comprimido
Toma um comprimido
Toma um comprimido que isso passa"

António Variações, in Toma o Comprimido

A China produz, os chineses vendem. E compram. E negoceiam. E até endossam ou emprestam, se nisso perspectivarem benefícios chorudos.
Ainda sou do tempo, apetece dizer, para melhor o registar, como memória futura (???), em que se acreditava que os japoneses, a potência da sua economia, os seus elevados desenvolvimento, crescimento e situação financeira, seriam os "chineses" que nos salvariam das profundas agruras de uma crise (exaustivamen¬te) anunciada. Confirmada. Útil. E continuamente sujeita a novos ajustes e actualizações, agravamentos ou dificuldades, que afinal são o idílico sonho de qualquer político, para camuflar (ou disfarçar) a sua incompetência e inaptidão para as estratégias do desenvolvimento e da sustentabilidade, sobretudo desde que essas exijam ação e discernimento, que aliás muito diferentes são, em resultados, eficácia e elucubração, dos da retórica do bom, do mau e do assim-assim inerentes às marceladas das marias e dos manéis oportunamente televisionadas e sucintamente difundidas.
Fui dos que acompanharam as comitivas de altas individualidades governamentais e financeiras nipónicas por esse Portugal adiante, comendo e bebendo do bom e do melhor, tudo a expensas do erário português complementado pelas verbas do FSE e do FEDER. Em ação. Nomeadamente a dos núcleos empresariais e associações comerciais. Lembro, inclusive, que também estiveram aqui, em Portalegre, no Governo Civil, na Estalagem da Serra e na Fábrica da Rolha, quer dizer, na Robinson, que lhes foi mostrada de alto a baixo, de fio a pavio, da rolha ao granulado, com salamaleques e Porto de Honra, negócio garantido com compra afiançada e injecção de capital para marketing e modernização. Eram a salvação dela, e de uns quantos postos de trabalho, im-pres-ciiiiin-díííí-veis. Tudo parra, que uva nem vê-la. Águas de bacalhau e algumas verbas que voaram, como as pombinhas da Catarina, de mão em mão. Anéis de pouca dura, como se veio a confirmar.
Porém, de vez em quando, ei-los – os salvadores, dando à costa para gáudio da vilanagem política e eleitoral. Tudo favas contadas. As eleições consumam-se e nunca mais ninguém ouve falar dos beneméritos das pátrias amigas... da onça, se nos deixarmos enrolar na fumaça da ocasião. Sejam chineses ou venezuelanos, os meridianos podem ser diferentes que a conversa é igual. «A gente ajuda a diminuir o buraco», prometem, ao que os políticos presentes, esfregando as mãos de contentes, adiantam (mentalmente): «Boa, que nós fazemos outro, ainda maior... Vamos a ver quem ganha!» – «É a política!», esclarecem os analistas e opinion makers, «estamos todos do mesmo lado, de Portugal. O barco há de virar», para cumprir o acordo ortográfico pondo o hífen de molho, molhando a sopa. Acondutada com a certeza e confiança partidária, nos seus quadros e líderes, que garantirá o engenho e arte de inventar uma crise, o buraco, não irreversível, uma vez que isto do nem o pai morre nem a gente almoça também cansar, e ou bem que é, ou bem que não é, já chega de crises em picotado, a esgarrar-nos os tutanos e fé na nacionalidade, a esfarelar-nos a resiliência, façam essa crise durar, porra, o tempo suficiente para nos habituarmos, que isto do vai acima e vai abaixo das flexões pode inspirar músculo sim senhora, mas também exige muito feijão com couve! E osso da suã.
Todavia o mais surpreendente, é que só agora quando atravessamos o medo e a fraqueza, a informação se vai tornando franca, real e informativa, ao contrário da costumeira declaradamente deformativa, e passa ainda além da retórica conjugável no cagativo do diz-que-disse, pondo o enfoque – termo de que sinceramente desconheço a significação portuguesa, visto ser mais um estrangeirismo aportado ao oceano do nosso léxico pela via do politiquês jornalístico –, ou ênfase, nos tabus de gestão da rés que é coisa, como dívida, leilões de dívida pública, défice público, défice externo, mercado e mercados (primário, secundário, ... e superior!?), despesa intermédia, despesa corrente, investimento de risco, sustentabilidade enganosa, efeitos incontornáveis da ignorância e diminuída formação cívica, conduta democrática das autoridades e órgãos colegiais, desígnio nacional, interesse e solidariedade social vigente, corrupção e egoísmo corporativista, sentido de oportunidade e abuso de poder, prémios e luvas indevidas, etc., etc., como se eles pudessem ser simplesmente destabulizados e a partir daí, perdessem como por artes mágicas de um exorcismo excomungável, irradiados das nossas preocupações da grande família lusófona que tem por lar este erm(íni)o torrão viriatejo. É ousado, isso, convém salientar, mas se não for para manter, acaba num exercício de estilo vulgar, demonstrativo de quanto conseguimos ser verdadeiros e imunes ao espírito mercenário dos que fazem mal por bem, batem para educar, proíbem para extinguir, aumentam a mesada para não dar chatices na escola, quer dizer, no Parlamento Europeu, nos centros de decisão internacional, no melhor pano que a nódoa invariavelmente cobiça. Porque adultera, desacredita, cria a impressão geral de andar tudo e andarem todos a brincar ao faz de conta.
Ora, é de supor que tal não apareça por acaso, o que já de si é bastante grave e pejorativo, mas seja o resultado, a consequência, o efeito directo da entrada no mercado de trabalho dos "profissionais" oriundos das novas oportunidades, quiçá em período de estágio (não remunerado), que ainda não aprenderam a respeitar "a cartilha do há coisas que não se dizem" que as administrações e/ou gabinetes de publicidade costumam fazer circular nas redações do Natal ao dia S. Cristóvão, de cada ano, sob o formato e bitola da simplicidade conciliadora dos leads de encher chouriços numa paginação avisada... Ou, então, o rescrever dos livros de estilo, por exigência da entrada em vigor do Acordo Ortográfico, sabendo nós, que o ler, falar e escrever são um resultado do pensar, e que nisso do pensamento só quem é livre o faz condignamente, e em contiguidade, o que leva desde logo a pensar que alguém anda a usar a crise para melhorar de dívida, leiloando-a ao desbarato até que os "japoneses" de agora lhe peguem, a transformem, e no-la vendam como produto de sua genuína autoria e fabricação.
Dando, enfim, a entender que a dívida que eles nos compram, há de ser a pílula indicada para a nossa retoma económica. Se fosse! Mas não é, que do juro à mais-valia, os únicos bolsos em alta vão ser as bolsas com reflexos em Pequim. E basta de comprimidos para amenizar mercados, pois o que deveras precisamos é de uma operação radical que extraia os maus políticos e gestores deste nação doente, que de crise em crise, vem atravessando a História aos solavancos do exterior, desde o berço ao catratumba, pumba, pim, paz, catrapaz da palhaçada que se avizinha, para dito e feito do Acordo. Pois. E exactamente. Sem espinhas, nem pontinhas queimadas no sussurro dos ministérios. Tomando comprimidos, para deixar passar o passado, como dizia o António.

10.15.2010

Quando se casquina não se assobia!



As Hienas Riem Por Despeito

«O cérebro de Fradique está admiravelmente construído e mobilado. Só lhe falta uma ideia que o alugue, para viver e governar lá dentro. Fradique é um génio com escritos!» (...) O extenso saber de Fradique também não o impressionava. «As noções desse guapo erudito (escrevia

ele em 1879) são bocados do Larousse diluídos em água-de-colónia.»

José Maria Eça de Queiroz, in A Correspondência de Fradique Mendes

É enternecedor ver como as hienas se lambuzam e enfartam com as sobras do vomitado dos homens, e como se põem aos magotes a destilar peçonha, ou a debandar batendo os cascos com estrondo no soalho, abanando o traseiro como cadelas saídas, desertas de um macho que se lhes empine e as cubra com dotes de Alter Real. E enternecedor, sobretudo, porque se acham mal recompensadas para tanto, uma vez que não fazem absolutamente mais nada e é daí que têm lamber o seu sustento. A Geografia Nacional dá conta disso num dos seus documentários acerca da vida selvagem nas periferias dos grandes centros urbanos, porém eu, adepto da vida natural, da biodiversidade, desconfiei bastante da forma como eram abordadas (e tratadas) as atitudes e comportamentos "selvagens" – de salientar notoriamente o significado destas aspas! – desses necrófagos que habitam as redondezas da humanidade... A não ser que estivessem contagiados pela peste emocional e venenosa que o narcisismo frustrado, a ignorância (crónica), a má formação cívica e a obtusidade abjecta de certas pessoas, não só lhes impusesse isso ao quotidiano, emprestando-lhes o nojo e pestilência em que coabitam, como as desenraizasse da matriz genética que durante biliões de anos lhes estruturou o DNA – e a espécie... Era uma hipótese!

Todavia, porque o grasnar de avantesma também se fazia ouvir como pano de fundo ao dentado rir das hienas, o famoso casquinar, não duvidei minimamente, por questões de evidência lógica, que ali havia uma intenção bíblica de profanar os canudos e pergaminhos da ciência natural, e deteriorar os cimentados conhecimentos da biologia, através da metáfora cinematográfica ou da alegoria com virtudes de boato maledicente. Como podiam esses nojentos animais alimentarem-se, física e espiritualmente, do vómito nauseabundo de um ser humano? Que glória podiam sentir em abocanhar e lamber do chão relvado a pasta laivosa que outro ser vivo lançara fora, por imprópria e indigesta? Ora bem: custa-me a crer que haja algum mamífero, algum animal, no seu estado primitivo e selvagem, que aja com tamanha e conspurcada índole, a não ser que o obriguem a isso ou tenha tanto medo de procurar alimento saudável, para que assim se empanturre com as "fezes" dos outros...

É claro que já assisti a muito nesta vida, e que pouco me espantam, ou surpreendem, as dietas alimentares que circunscrevem a coprofagia, necrofagia e necrofilia. E muitos foram os romances em que personagens, com essas taras ou de similar proveito, se me apresentaram. Até houve quem, por motivos de sobrevivência (moralmente justificados ), se repastasse com os restos mortais dos precoces nascituros, ou abortos, os sobejados corpos de recentes interrupções voluntárias da gravidez, num estado de loucura e alienação que apenas o obscurantismo medieval estimulou, produziu e obrigou. Mas aproveitar o vómito humano, a indisposição gástrica de um sujeito, para alimentar o ego, nos dias de hoje, parece-me, realmente, enternecedor... E bonito! Aliás, sobremaneira digno de (do)comentários artísticos, feitos a preceito, com qualidade de som e imagem BBC, porquanto só eles são comparáveis ao estilo desse guapo erudito, o célebre Fradique da fluorescente e fleumática verve dos Vencidos da Vida, que bem se espelham como "bocados do Larousse diluídos em água-de-colónia", a que humildemente assistimos, agradecendo a Deus e à tecnologia vigente, o ainda não permitir a transmissão dos cheiros característicos desses ambientes nauseabundos, no "senserowdy" das emissões. Reiterando, é óbvio, que os factos enternecedores perderiam muito da sua ternura e enternecimento, se essa capacidade técnica da imagem fosse estendida ao olfacto, o que faria, sem dúvida, com que a maioria das passerelles para o desfile da moda, incluindo a intelectual, não passassem de lixeiras a céu (aberto/fechado) estrelado dos subúrbios de Joanesburgo ou Cidade do Cabo. O que é uma sorte...

(A bem dizer!)

10.12.2010

O Ninho


Ele é respigador;
Ela, é cantadeira.
Quiseram uma casa maior,
Fizeram-no à minha beira.

Vida Breve






Ó rugas de tanto rir
Neste mundo de sofrimento,
Se o pior está pra vir,
O melhor é a falta de tempo!

9.29.2010

Ah, Fado!!...



Diz-se que este tempo não é para risadas e chalaças
Posto nele andar meio mundo a cornear o outro meio,
E bem sabemos em muitos as virtudes serem desgraças Dos que pelas cornadas foram apanhados em cheio.

8.07.2010

A Lição de Burke



Da Teoria Missionária e Expansionista dos Rústicos e Campónios...

"Eles defendem os seus erros como se
estivessem a defender uma herança."
E. Burke

É bastante comum depararmos com gente que parece regular mas, passados momentos, como às maçãs vistosas em cujo interior mina a lagarta da fruta, notamos que estão estragados, ou estragadas, por dentro, precisamente naquele pomo que mais importa à (com)textura da alma, que é a mentalidade. Merecem a nossa compaixão, é certo, a nossa pena e dó, é indubitável, todavia deve ter-se cuidado quando nos aproximamos, não por isso ser contagioso, ou veicular pessonha, antes sim para os não levarmos a sério nem termos em conta quanto dizem ou fazem, pois se o fizermos estaremos indiscutivelmente em sarilhos, sobretudo com eles e elas, porquanto ouvir e respeitar uma pessoa que não se ouve e muito menos se respeita é acto perigoso do qual pode resultar dano grave, a quem não se precaver atempadamente. Porque não aprenderam a estar e a ser, em termos normais de sociabilidade, uma vez que não sabem ouvir os demais, ficando assim amputados/entupidos no principal canal de fluência de comunicação e intercâmbio com o exterior, e criaram um dicionário particular em que raramente o significado das palavras que nele coleccionaram corresponde ao sentido que convencionalmente lhe foi atribuído. Aquilo que serve para aproximar umas pessoas das outras, a fala, neles servem exclusivamente para afastar ainda mais quem dificilmente se tocava e percebia. Enfim, estão gravemente doentes, enfermos duma moléstia incurável que a ignorância alimenta e faz evoluir, e que à medida que a sua resiliência vai prescrevendo mais se nota e agrava: crise de identidade, com vertentes fabulatórias e confusionistas.
Missionários expansionistas da quezília e confusão, distorcem a realidade conforme as suas necessidades de entendimento, e onde os demais, por exemplo, subscrevem partilha lêem (ou ouvem) exibição, por conversar entendem discutir, por observar, criticar, e por criticar, depreciar. E por compromisso sob o anteriormente acordado, identificam invariavelmente arrependimento.
Mas todavia, contudo e sinceramente, num tripartido genesíaco sob a trindade da adversidade, não deixa de custar-me a perceber como é que pessoas que, além de incompetentes e autênticas fraudes "profissionais", são eticamente tão imaculadas que nem uma carrada de esterco de porco, e mentalmente ordinárias que nem uma vala de esgoto a céu aberto, se podem outorgar modelos a seguir seja no que for, e muito menos nas práticas, procedimentos e operação de computadores, quando tudo quanto fizeram até hoje, nesse capítulo, mais não foi que disseminar a sua falta de cultura, espalhar a sua ignorância e arregimentar a sua mediocridade numa mediocridade maior, mais abrangente e correligionária ao corporativismo. E que obstinadamente insistem em exigir que se tome por bom e útil tudo quanto fazem quando inconfundivelmente apenas resvalam no lodo da sua perversão e incompetência. Atrevendo-se ainda a acharem-se mal pagas por isso, logo, que não lhe podem pedir melhor desempenho... O que não só é logro, como igualmente um roubo à colectividade que paga impostos dos quais são retirados os seus salários, bolsas ou abonos.
Não percebo. E provavelmente ninguém perceberá, mas para essas pessoas não há mistério nenhum, além de se considerarem meritórias de parasitar a sociedade por direito "quase divino", quiçá herdado de geração em geração por via familiar, também devem achar-se o supra-sumo da beleza, perfeição e inteligência, considerando que se posicionam sempre num patamar superior ao comum dos mortais para quem errar, por mais pernicioso e abominável, é incontestavelmente sinónimo de preocupada inovação. Nada importa que seja funcional e útil desde que lhe não possam aplicar o seu toque de génio, que é, afinal, torná-lo imprestável para todos mais, mostrando quanto lhes apraz mas condenando por abuso e ingerência na sua privacidade os que olharem e virem. Num golpe de asa e em voo certo na admiração dos seus congéneres... Porque a imitação é, entre os medíocres, a nota exemplar com que se pode atingir a mediocridade suprema, o reconhecimento da corporação e da generalidade dos seus elementos.
Ora, vem a prédica a propósito, depois de terem vindo a lume algumas notícias sobre o caso Freeport... Os procuradores (Vitor Magalhães e Paes de Faria) tinham vinte sete (noves fora nada) perguntas a fazer ao primeiro-ministro e, se calhar, outras tantas ao ministro da Presidência, mas como o pedido não chegou a tempo para o prazo de conclusão do inquérito (25 de Julho), ficaram assim inviabilizadas todas as diligências que se necessitassem para esclarecer melhor e mais justamente se fazer justiça. O Procurador Geral da República escreve num comunicado de nove pontos (noves fora nada) que vai ordenar a curto prazo um inquérito para o integral esclarecimento das questões de índole processual e deontológica. Os prazos vão-se esgotando desde 2006 para isto e para aquilo, os sete milhões que deram de frosques continuam a monte, a lei do empurra continua a fazer o seu jogo, espera-se pela aproximação do prazo para a conclusão da fase de inquérito a fim de se pedir para serem ouvidos este ou aquele, que chega fora de tempo, a fim de se realizarem diligências complementares, etc., etc., repetindo e imitando o modus operandi dos burocratas kafkinianos da outra senhora, enrolando, empurrando de Herodes para Pôncio Pilatos (lavar as mãos – e as verbas), até que finalmente já ninguém saiba o que é que está realmente em questão, resolvendo por cansaço das partes um processo onde todos tinham fortes probabilidades de sair mal na fotografia, como no ditado do que vai à vinha e do outro que fica à porta.
E porquê? Porque, como afirmou Burke, e foi "afixado" em epígrafe, há quem considere o erro (ou a corrupção) uma herança de enorme mais-valia cultural em todos os sectores do Estado, e que por tal deve ser defendida, pois precisa que se continuem a ganhar causas com truques de secretaria, precisa de ver garantida a sua sobrevivência, ter assento na administração das tutelas, onde possa continuar a tecer os seus enredos retóricos e semânticos para adiar a transparência necessária à justiça, uma vez que só assim poderá continuar a exigir aos demais o cumprimento duma lei que não segue.
Ou seja, o Freeport é apenas mais um monumento nacional, património cultural de um povo que continua a ser lusitano, e como tal, independentemente de ter uma tecnologia avançada e um sem-número de universidades continua a ser o mesmo lusitano, a roubar pelos mesmos motivos e igual êxito, a matar pelas mesmas razões, a violar e espancar o género oposto com a mesma acuidade e orgulho, a contornar a lei com a idêntica heroicidade e defraudar o desenvolvimento com igual desenvoltura e sucesso com que os Viriatos distorciam e destroçavam as ordens romanas, emboscados nos recôncavos e ermitérios (herméticos e hermínios) da rústica e campónia soberania. Bem ajam, então por isso, que cá estamos nós para levar bordoada na ética e competência profissional sempre que nos atrevamos erguer a voz no estrangeiro: afinal, aquilo que se herda nunca se muda, e deve defender-se como um bem imprescindível, imperdível, pese embora seja a maior porcaria que existe à face da terra, como cultura... – É tradição!

7.12.2010

O Condão dos Mírdeas!

"– E isto, conheces? Conhecer apenas metade é perigoso. Bebe até não poderes mais ou não bebas da fonte das Musas. Aí, as águas de superfície intoxicam o cérebro, mas se bebes à saciedade, receberás a lucidez. Pope, no mesmo ensaio. Então, como te sentes, depois disto?
Montag mordeu o lábio. "
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Agora que a Espanha é campeã mundial, não restam dúvidas nenhumas: eles, os espanhóis, até quando estão mal são muito melhores do que nós, em tudo, da economia ao desporto, da cultura à democracia, uma vez que não se deixam intimidar por quaisquer laranjinhas bichadas que andem a abrir sites de conteúdo pornográfico nas bibliotecas, escolas e locais públicos de Internet, só para terem o prazer de carregar de vírus os attaches de quem mais frequente esses organismos ou instituições, cujo fim, último e primeiro, é o de partilhar facultando aceder ao conhecimento, propiciando a sociedade para todos e a participação democrática, em igualdade e enraizado envolvimento cívico, e tudo isso porque os responsáveis pelo funcionamento dessas ferramentas civilizacionais preferem o silêncio melindrado corporativista, à comunicação adulta e racional, prejudicando as suas instituições sob o pretexto que lhe estão a proteger a imagem. Se há algo errado, e alguém o diz, aqui d'el rei, cai o Carmo e a Trindade, porque a verdade soou em vez do silêncio compungido dos penitentes, alterando a ordem dos canalhas que até ali se têm lambuzado com as iguarias da corte, tentando fazer passar a mensagem que o indecoroso e prevaricador não é quem prevarica e comete as faltas, mas sim quem as nomeia e propala, pondo acento tónico na transparência, debate, avaliação e correcção das medidas ante os resultados. Se dois ou três matulões preferem estragar aquilo que é de todos, porque assim sendo também é deles, e com aquilo que é seu eles fazem o que muito bem lhes der na gana, conseguem-no e ainda se ficam a gabar do heróico feito, porquanto os responsáveis optaram há muito insistir no erro monumental, desde que vindo de dentro, dos seus cúmplices de profissão e confrades cooperativos, a admitir discutir sequer os processamentos e actos profissionais. Seria uma humilhação. Séria. Grave. E um admitir que há melhores maneiras de fazer as coisas do que aquela que praticam e executam, o que lhes provocaria um curto-circuito terrível na consciência e narcisismo.
Não, essas instituições e organismos públicos não servem para satisfazermos a nossa gula expansionista e missionária, nem a partidarite aguda de que padecemos, sejamos simples utilizadores, técnicos ou profissionais do ramo, gestores ou dirigentes, mas sim para consolidar a sociedade do conhecimento e da informação que no-los patrocinam, no-los criaram e pagam a sua manutenção, funcionamento e divulgação, esclarecendo e formando cidadãos capazes de responder às exigências do seu tempo, não para que eles imponham a sua bizarria australopiteca aos demais contemporâneos e concidadãos.
Há um blogue que trata de relações e sentimentos, afectos e poesia, e eis que logo aparece quem seja lampeiro em classificá-lo de aberração, manigância de interesses sexuais obscuros, de clube de apanhados ou manifestação de exibicionismo cultural, com vincada pretensão à propaganda "idiológica" (lógica do idiota), que deve ser perseguido por quem coisifica os géneros, protege os sexismos e especismos, e se serve da democracia como um fim de alcançar o poder para depois fazer o que lhe apetecer, uma vez que é quem manda e sabe o que é bom para todos. Há um escritor que retrata a sociedade do seu tempo, como lhe compete, considerando que a cultura é sempre crítica da natureza, e a arte crítica da cultura, porém como também há alguém que não se sente beneficiado pelo retrato, eis que tenta sujá-lo por todos os meios ao seu alcance, dando-lhe o famoso e famigerado toque de Mírdeas que, ao contrário do de Midas, que transformava em ouro tudo em que tocasse, transforma em merda tudo o que aflora, seja pelos olhos, como a leitura, seja pelo apanhar e agarrar às mãos-cheias.
Em vez de interpretar e analisar, mete na boca, como qualquer esfomeado símio faria a uma peça de lego, e depois cospe porque é plástico, e não concebe que alguém produza mais do que bananas, já que é disso que ele gosta, e a arte deve ser uma questão de gosto: se gosta é boa, se não gosta não presta. E quem foi o Galileu que o elegeu centro do mundo? O papá e a mamã?... Então, eles que o aturem!

7.10.2010

Todas as Revoluções Começam com Flores...

No jardim da Celeste: Giroflé-giroflá

"Também é dos livros, que todos os comandantes em chefe, entre as lutas que sempre perdem, ganham e planeiam."
– Lídia Jorge, in O Cais das Merendas

Conforme o fait-divers do Público 2, de sexta-feira passada, ontem, dia 9 do mês de Júlio César, do ano da (des)graça PEC, os jasmins, essas odorosas gardénias galegas hermafroditas de flores brancas ou purpurescentes – ai credo, cruzes-canhoto!... –, além de vistosas podem pôr um homem a dormir só com o efeito de uma lufada, porquanto são senhoras de um mecanismo molecular de acção sobre o cérebro humano igual ao dos barbitúricos e ansiolíticos mais correntes, cujo efeito é tão forte como o dessas drogas, proclama o dito jornal, por assim o ter constatado no Journal of Biological Chemistry, e na sequência da descoberta de duas fragrâncias nesta flor, pela equipa de Hanns Hatt, da Universidade de Ruhr, na Alemanha. A notícia por si só é já um portento, agora o maior impacto deve-se sobretudo ao receio das farmácias e indústria farmacêutica europeia, uma vez que a sua mais volumosa e cimentada fonte de receita está precisamente na venda dos placebos anti-stress, com aplicação em sedação, redução da ansiedade, excitação e agressividade, bem como na indução do sono, coisa que vai faltando a muitos, com tendência crescente acentuada, na maré de crise em que naufragámos (desde o século XIV).
Talvez isto seja mais um sinal da vingança Alemã sobre as Espanha, que ultimamente não tem descoberto nada de jeito, quiçá ainda sob os efeitos traumatizantes dos maus negócios que Madrid tem efectuado, nomeadamente a compra do Cristiano Ronaldo e a OPA sobre a PT com a Vivo debaixo d'olho, que redundou numa golden share com perniciosas consequências Ibéricas, sobretudo ao Estado português que se sujeita a ser apalpado no OE pelo Tribunal Europeu, para quem as decisões meramente declarativas costumam ser locomotivas de um conjunto de outras não declaradas, mas surpreendentemente eficazes na surdez institucional dos países membros. Estas coisas moem muito, e às vezes até matam. Uma nação, mesmo que a ETA ande em sossego, também tem os seus achaques e inquietações, demasiado graves para se curarem com qualquer pensinho vermelhusco. Essa é que é Eça!
Porém, a suspeita de jogo sujo por parte da Holanda não está posta de parte... Aqui há marosca laranja! Pla certa! Habituada aos eflúvios gaseamentos e exalações das tulipas, jacintos, gladíolos, rosas e crisântemos, por país baixo que é, e que de pé, nem chega a bater pela cintura de qualquer pirinéu, por muito basco que seja, terá movimentado os apetites sexuais das plantas continentais e adjacentes, no sentido de intoxicarem os canais ibéricos, entupindo-os, recorrendo mesmo à infiltrada presença e actuação de uma flor abundante nas rusticidades galaico-castelhanas: o jasmim. E pela sua mais-valia, que é das virtudes medicinais e feiticeiras, havendo já quem defenda que, de futuro, aquela rosa sedutora que enfeitiçou o inocente cabo da guardia civil, atirada ao seus pés por uma fatal gitana mal intencionada, seja substituída em próximas/imediatas encenações da Carmen por uma gardénia, pelo menos, se bem que alguns radicais exijam mesmo um jasmim. Creio que neste mundo nada sucede por acaso, principalmente nos jornais. Nas universidades. E nos ministérios ou relvados sul-africanos. Portanto, meus amigos e amigas, estejam alerta e preparem-se que aí vem borrasca da grossa, e desta vez, não haverá golden share que nos salve: os espanhóis, doídos e açulados pelos alemães, vão plantar gardénias em todos os terrenos que já compraram nas redondezas do Alqueva. O odor e perfume destas plantas há-de alastrar de norte a sul, de este a oeste, adormecendo-nos, e quando, enfim, vier o próximo Verão, e acordarmos, O Primeiro de Dezembro mais não será que uma remota comichão no alzheimer de uma marsans que nos aconteceu com registo nas calendas gregas. Mas só nessas, nas gregas, que a Grécia nestas coisas é incapaz de nos deixar sozinhos, solidariedade de quem partilha as sortes de forcado, e sabe muito bem o que é isso de andar nos cornos do minotauro...E depois abufem-lhe nas vuvuzelas e batam-lhe palmas, que é manifestação de valentia e coragem para quem está já a pensar nos resultados das próximas eleições autárquicas ou legislativas: lugar certo e obra acabada. Participação incontornável e incontestável para os programas e planos do próximo quinquénio estratégico de Lisboa a Bruxelas, com apeadeiros em Badajoz e Cruz de Pau.

6.24.2010

Para Esse Peditório Já Dei

E Viva a República!

"Quando vi a víbora cegui os olhos. Alavanti a saia, brandi a cana, uma, duas, três, sete e vinte vezes, sobre a cabeça da bicha. Ela era azul, castanha e delgada. Assim. (...) Parecia um pensamento. Ali no chão. Di-lhe bem umas trinta canadas sobre a espinha e cabeça."
In O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge.

É significativamente lamentável que aquelas pessoas que tão veementemente se insurgiram contra os teores e conteúdos das minhas Crónicas (In)Divisas, saídas então no jornal portalegrense Fonte Nova, sobretudo quando nelas me referia a actos de gestão da coisa pública, em que salientava a necessidade de se estabelecerem voluntariamente medidas e políticas concretas com vista a objectivar a sustentabilidade, a contemplá-la, garanti-la e reforçá-la, porquanto corríamos o risco de num futuro próximo virmos a fazê-lo obrigatoriamente, pela pertinácia pouco esclarecida e forçosa do tem-que-ser que, como todos muito bem sabemos, tem muita força, não venham agora com igual veemência e empenho vociferar para os mesmos cafés e esquinas dos Rossios, confirmando que já sabiam que isto ia acontecer pois tinham-no lido nelas, nessas excomungadas crónicas, cujo único defeito que lhe encontraram, como basto motivo para a dor de corno que lhes provocou a tamanha comichão nos tutanos da consciência, era ou foi, o de estarem com alguma lógica e sensata razão. E é pena, porque essa atitude seria interpretada como um rebate de consciência, um remorso adulto e avisado, demonstrativo da capacidade cívica e educada que gerações alfabetizadas ganharam com a escolaridade (obrigatória?) tida, ou pelo tempo que passaram a puir os fundilhos nas carteiras da Corredora, da Fontedeira, da Estrada da Serra e do Magistério, como sob os demais "edificados" telhados na alçada dos Duarte Pacheco, deste e anterior tempo, tecendo e remendando os palimpsestos da Cartilha herdados ao serôdio de um João de Deus que lhes acordou as mentes para as manufacturas do odiar com facilidade, e respeitar com despeito ou exagerada e precavida moderação, ainda assim o respeitado não lhe dê uso e se convença ser isso sinal do considerá-lo alguém.
Todavia, é um lamento pouco pronunciado e de menos lamentado, uma vez que mais se assemelha àquele "cochicho murmurado" no escuro da plateia durante uma sessão de dejá vu como as que habitualmente se exibem nos actuais palcos da originalidade, entre velhos Marretas do mesmo ofício, alicerçado no contrabando platónico entre o ideal e o real à mercê do vice-versa, que é câmbio para todo e qualquer talento. É antes um chorinho sob a batuta do não-te-disse-agora-aguenta-te que é para ficares a saber o que é bom prà tosse, com que sacudir a água do capote, e determinar a forma de colaboração regimental disponível sob a bitola do vamos ver o que se pode arranjar, mas desde já te digo que não mereces nem um quinto de quanto possa vir a fazer por ti. Murmúrio assaz legítimo, considerando que o não-fazer me é um direito consagrado agora, como o foi o teu igual não-fazer nem deixar que alguém faça quando estavas sentado na burra. Porque, caro (e)leitor, não é por teres tido toda a vida uma fértil sorte e caganeira, que se conquista a cátedra de passar atestados de tacanhez & vilanagem a toda a gente, apenas porque ela – essa gente – é diferente e a falta de cuidados paternos/maternos a incapacitou (p.ex, com 71%) para toda a vida. Porque, até podes ter direito à ignorância e indiferença, até podes achar que é um bem voltar à terra tal e qual como caíste do sobreiro, agora do que não te assiste qualquer direito é o de impedir o acesso ao conhecimento e cultura a quem não bate palminhas aos teus arrazoados, requiens pindéricos, discursos de homenagem e suserania, elegíacos epitáfios, com a respeitável e diplomática inteligência do burro coça o burro, porque se aqui nada foi dito acerca do passamento de José Saramago, não foi por ressaibo, negligência nem má vontade, mas sim porque nada há a dizer quando uma vida se cumpre, seja ela a de um escritor Prémio Nobel, seja a de uma couvinha tronchuda ou galega, posto que a vida, isso que se supõe ser uma linha continua entre o nascer, crescer, procriar e morrer, é igual para todos, e não é agora que morreu que lhe vou ler a obra, uma vez que o li e divulguei em basta suficiência, mesmo sabendo que as susceptibilidades feridas, ao fazê-lo, podiam exercer o seu direito de afronta, ressentindo-se com a ousadia, e retaliarem com a respectiva excomunhão. Que, aliás, de nada lhes valeu, uma vez que continuei a escrever e, ao contrário deles, a ser lido, considerando que as suas publicações e pasquins encerraram a loja com a crise, em consequência de uma outra anterior que era a de valores humanos e éticos, que é coisa que não vinha de brinde, como as cartas de condução, nas farinhas Amparo, Predilecta e Trinta e Três.
Portanto, convinha que se deixassem de queixinhas e lamechices, que para esse peditório já dei!
Porque só há uma maneira de celebrar/homenagear legitimamente um autor, que é lendo-lhe a obra, e isso eu fiz de fio a pavio, como se estivesse a ler o Pentateuco dos pequeninos.

5.15.2010

As Tentações do Je Ne Sais Quoi


As Tentações do Je ne sais quoi!


Esse escorreito e rudimentar, senão atalho malévolo, esse não-sei-quê com que se pretende reduzir (na qualidade) as obras de arte à banalidade de um mistério, ou (in)definição de (in)suspeitável gosto, espécie de "se não percebo então é porque deve ser bom", que muitos exibem como pedra-de-toque para avaliar as demais por essas, atirando para o redil do surrealismo quantas se imbriquem na associação livre da imagética e da sinestesia, pondo de um lado as que têm esse não-sei-quê que nos arrebata pela incompreensão delas, e do outro, as estruturadas mas simples, por acaso consideradas menores, uma vez que explicam ao contrário das primeiras, que confundem, complicam, expressando fusões inconcebíveis entre parafraseados inconfundíveis, que desde o jazz ao Kusturica foram expulsos pela ecolália Dada, dos paraísos dos direitos de autor, bem como do das parangonas multimédias e escaparates maiores, como quem assenta os alfabetos com o tijolo e cimento da moda (de opinião), tem provocado quase tantas baixas de vulto na criação literária como o maneirismo teológico provocou na pintura (arte) europeia e/ou mundial de séculos recuados, tenebrosos, escuros e medievos com certeza, pondo o ver com os paninhos quentes do quero-posso-e-mando sob a tutelar batuta de Deus, e Este, a servir os mais instintivos e encarniçados desígnios dos papistas poderosos, que chegaram mesmo a exigir – e conseguir! – que os artistas fossem apenas os executantes das suas ideias de beleza, ditando-lhes o que deviam pintar (fotografar ou escrever, filmar ou esculpir, musicar ou coreografar, à semelhança do que hoje fazem...), posto que se a composição seria sempre deles embora a interpretação/execução, enfim a técnica (a arte), fosse de quem possuía o dom, a mestria, o talento, a habilidade para criar, produzir com génio, pintar ou escrever, vulgarmente conhecido por artista (ou artífice), pintor, poeta, músico, etc., contorcionista mesmo, pois que muita manobra e jogo de cintura tem que fazer para viver quem apenas souber fazer seja o que seja, mas não tiver bons padrinhos na confraria dos ai-não-me-toques-que-me-desmanchas e demais paróquias censórias (e congéneres).
Pois bem, se é certo que esse não-sei-quê que assenta como uma luva no ar enigmático das Giocondas desta urbe, o copy-past perfeito no equívoco soslaio da Rapariga com Brinco de Pérola de Vermeer, ou da multiplicação de pontos de vista em As Meninas, de Velasquez, ou ainda essa perseguição ao coelhinho branco pela toca do inconsciente (fantástico) segurando a mão (escrita) de Lewis Carrol, na Alice no País das Maravilhas, e se manifesta impróprio para consumo à luz de qualquer cassandre (acrónimo da expressão francesa "language pour la conception aidée et la simulation des systèmes logiques, leur analyse, description et réalisation" – que é como quem diz, linguagem para o projecto assistido e para a simulação de sistemas lógicos, sua análise, descrição e implementação, descrição lógica, estrutural e funcional de sistemas semânticos com vista a detectarem-se erros de alcance significativo, incongruências internas e anacronismos vários, incluindo as (inter)ligações (conexões) entre componentes dos constructos frásicos, e destes no discurso), pode muito exemplarmente ser aquele atestado de burrice e deslumbramento perante os palácios da complexidade, mas não é, de forma alguma, e por mais torções que apliquem ao bom gosto e bom senso tão apaniguados nas lides e inventivas da retórica (escolástica), sinónimo de qualidade estética e exímia técnica. Porque esse não-sei-quê é um calhou que assistiu em sorte àquele que querendo desenhar um periquito lhe saiu um melro, todavia assume o produto final como intenção inicial, logo, objectivo definido do seu gesto criativo. É um tanto foi o cântaro à fonte até que se partiu, e finalmente, assim viu recriado como um vitral, depois de coladas todas as suas partes (cacos), com a cola translúcida que apenas o pensamento empresta à análise que jorra, sem receio nem inibição castrativa, da interpretação sagaz e objectiva de cada um dos seus componentes.
Ou seja, se aplicarmos o zoom da eficácia significativa sobre esse não-sei-quê que tanto reclama a atenção do observador (leitor) da obra de arte, vemos que o resultado excedeu a competência técnica, normalmente porque algo lhe falta, formando elipse, metáfora, hipérbole, alegoria, eco, refrão, metonímia, sinédoque, sinestesia, hiato, provocando o salto no vazio ou vertigem de constatação que, além de arrebatar significativamente, também nos transportou para o ver claramente visto que os olhos nunca alcançarão, pois não estão apetrechados dos cones e bastonetes virtuais e suficientes para discernir os pormenores da alma.
Porém, digam aquilo que disserem, sejam tão fundamentalistas quão obtusos, o constante ar enigmático que o Papa denunciou/apresentou durante os actos públicos da sua estadia em Portugal, se a alguns pareceu sintoma de santidade e acutilância de espírito, isso foi porque viram mal, uma vez que era mais adequado interpretar a sua reserva, outros dirão timidez, e desconfiança perante o que via, como um ora-a-porra-onde-eu-me-vim-meter que estes gajos são malucos, tão malucos que até são capazes de andar a pé centenas de quilómetros – em peregrinação –, mas vão de pó-pó para ir beber café à tasca do fundo da rua onde moram, além de nem sequer separarem/seleccionarem o lixo doméstico porque isso lhes exigirá depois metê-lo em recipientes distintos de difícil avaliação e escolha. Enfim, um sorriso com aquele não-sei-quê que costuma acompanhar as grandes dúvidas e suspeições, tão conhecido das mulheres no Verão das poucas roupas, e se afastam, quando ao olhar por cimo do ombro, reconhecem que o amigo de fé, e familiar, lhe aprecia outros atributos traseiros, que não a simplicidade do andar, que as põe a pensar na necessidade de rever os conceitos, os suportes, os significados e os coloridos da amizade que os une... esse não-sei-quê que estremece, tanto quanto tenta e arrepia: não, não foi ele – o homem vestido de branco – que nos surpreendeu: nós é que não evoluímos nada, e continuamos os mesmos Viriatos a correr atrás das cabras, capazes de ter visões sob efeito de qualquer zurrapa.
Que dura pouco, mas que marca, capaz de traduzir toda a vida num momento, essa precipitação do tempo que (es)corre, em catadupa, à procura da sua própria cristalização, o instante, e se fixa num fotograma (frame) sem precedentes, sem studium, história ou preâmbulo, e contudo se torna síntese, punctum, sinal, luz, insight nos modos de ver peculiares com que cada um se diluirá na eternidade. Todavia, como todos os pormenores e adereços, importa saber que eles apenas são vistos porque alguém os colocou lá, precisamente para que os notássemos. Em arte, em coreografias, sejam elas quaisquer que sejam, os não-sei-quês funcionam sempre de acordo com os porquês para que foram criados. E alguns deles, deixam muito a desejar... Ou não!

Arquivo do blog

A pessoa entre as sombras de ser