La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

1.30.2010

As Sombras e os Números




“Uma cerveja e um sonho;
Eis tudo que tenho.
De mim, do inconstante real,
Mais nada – nem bem, nem mal...”



O excitómetro ainda continua a ser o mais antigo e eficaz instrumento de medir te(n)sões, desentendimentos e medos de incompetência, também conhecidos por disfunções sexuais (além das outras que complicam igualmente a vida às pessoas com pouca prática no darem-se a volta a si mesmas, quer o façam por baixo como por cima – as que apenas se supõem ser).
Eram três da manhã. O quarto parecia vazio e, embora tivesse ficado nele anteriormente, algumas outras vezes, estranho. Da mala de viagem aberta, as camisas impávidas e impessoais transbordavam, vivificando em seu desalinho uma estrutura inabitável. Descobria-se dentro delas, adivinhava-se exibindo o clamor do seu sedentarismo frustrado. Cosia-as mais a si. Lembravam-lhe corpos semidecepados – os seus outros heterónimos, à data adormecidos na clandestinidade, empedernidos pela estatuária de qualquer Pessoa no desemprego ou mal instruído pelas manobras da crítica.
Fora ao cinema. Um filme divertido, por acaso. Uma comédia, ou coisa que o valha. Rira-se a bom rir. Depois, regressara àquela redoma de quatro paredes no terceiro andar de um prédio majestoso, entalado entre congéneres. Na avenida paralela ao rio, esse misterioso tesouro onde se situa o museu, e em que tinha decidido pernoitar. E no início desta fica a Ponte, em sua exclusiva personalidade de pedra, cimento e ferro, que nem uma "escultura arquitectónica" mansamente válida e útil na consciência colectiva das políticas corporativistas, na caracterização e identidade de Casal Parado. O que certamente lhe agradaria, quando pela manhã acordasse – pensou.
Mas os planos haviam-lhe falhado. Apenas se tinha deitado há duas horas e já acordara pelo menos quatro vezes. E de todas elas viu precisamente o mesmo: o guarda-fato, a cadeira onde pusera as vestes dobradas pelos vincos, a banca de cabeceira, a janela transparecendo o néon duma loja próxima, e a mala meio desarrumada.
Amedrontadamente imaginou-se, enquanto se esforçava por adormecer, unindo as pálpebras, a rever o irremediavelmente mesmo mobiliário. Viu-se a acordar novamente. Quanto mais se prendia ao pensamento de que era conveniente adormecer, mais essa visão se tornava poderosa. Masturbou-se, e voltou a masturbar-se – esporadicamente isso dava resultado, justificava-se, talvez na expectativa do efeito calmante da exaustão provocada.
Intimamente desejou que algo acontecesse de anormal, qualquer coisa que juntasse pessoas e acendesse a discussão, ou outra actividade barulhenta. Assim, que lhe desse a hipótese de crer que não era noite: um incêndio, uma manifestação, uma corrida de bicicletas, um terramoto, até.
Mas nada. Nada sucedia...
Num ápice levou as mãos à testa; fervia, "fervia ao ponto de fritar um ovo". Içou-se sobre os membros superiores, meditou durante segundos e saltou da cama, aflitivamente quase. Abriu a porta sem ruído e encaminhou-se para a casa de banho. Entrou, acendeu a luz, remodelou o formato da torneira com os dedos trementes e suados, deixou que o líquido escorresse retinente, e viu-se ao espelho.
A feminil ideia que fazia de si sacudiu-o. No prateado do vidro, a face polida e reflectora estava riscada de sabonete, daqueles sabonetes pequenos e duros, difusos, sem cheiro nem tonalidade certos, vulgares e habituais das pensões baratas, e ficou surpreso. Aproximou mais a vista do espelho e apercebeu-se de quatro estenogramas: “Eu preciso de ti”, decifrou ele. Em baixo, ao canto esquerdo do mesmo, um número: 17. Relavou a cara e concentrou-se no facto recém-descoberto. Ou por outra, tentou concentrar-se e raciocinar. Mas impossível!... O número 17 batia-lhe no córtex como vergasta carcereira.
Antes de sair encostou-se ao lavatório, na esperança de que o contacto com a louça fria o descongestionasse. Fez pressão, ansiosamente e até sentir dor. Teve, contudo, que abandonar a posição sem melhoria no seu estado. E o 17 perdeu toda a significação usual, passando a ser um apelo a que não sabia resistir.
No corredor procurou o quarto 17. Era o do canto esquerdo, ao fundo. Sem hesitar experimentou o trinco, e notou que se não encontrava fechado à chave. Entrou.
«Sabia que virias...», murmurou uma voz arrastada, entrecortada, feminina, jovem, cautelosa, sincopada, consumida e soluçada, oriunda da penumbra interior da "caverna" de quatro paredes que cada quarto parece sempre ser, desde que não seja o nosso de cada dia, impressão tão-só adubada pela familiaridade circunstancial dos objectos (significados) quotidianos.
«Tranco a porta?» Perguntou. E no mesmo instante, o número extinguia-se da sua mente... Apagava-se em definitivo.

* * *

De imediato, através da janela, o jorro intermitente da publicidade emprestava ao quarto um salpicado rubro, vermelhão, e lançava na parede da cabeceira, apenas desnivelada pela presença da porta, as sombras dos dois corpos sobre si próprios, em nítido frente a frente. Entre a sombra de cada um formava-se uma pirâmide de luz vermelha, que aparecia e desaparecia tão velozmente como um piscar de olhos. Pouco a pouco, silenciosamente, a figura geométrica foi perdendo os contornos iniciais, e transmutou-se numa agulha gótica, tendo por base os joelhos de ambos. Ao lado das sombras, outra sombra: o abat-jour que, embora bastante desviado, parecia seguir-se-lhes imediatamente.
Depois o candeeiro ficou afastado, definitiva e sombriamente afastado, e entre os seus corpos verticalmente unidos sobre o plano da cama, que marcava a fronteira entre a penumbra e a claridade inconstante, a luz quedava-se impossibilitada de penetrar, liquefazia-se na procura de uma brecha, de um vértice não suturado em que pudesse escoar-se.
Uma das sombras tinha cabelos curtos. A outra, cabelos pelos ombros.
A sombra de cabelos compridos, aglutinadamente ofegante, salivante, febril como a claridade do quarto, de pulsar descontroladamente acelerado, sentiu o cheiro suado da sombra de cabelos curtos, assim como os volumosos contornos do seu espectro. Sentiu o cheiro e o calor. Sentiu a derme e o término neuro-vegetativo afrontadamente electrificados. Sentiu o seu ser encher-se energética e psiquicamente, desejando-se a explodir num caótico grito do profano, até à imensidão da calma divina, ondasuprema do tubo prestes a eclodir para esvair-se no areal das costas.
Os braços e os lábios dos dois fantasmas percorriam-se mutuamente e reconquistavam-se em atropelo, descobrindo ao longo de cada um a certeza de serem o mundo todo. Porque, em declarado egoísmo pretendiam assimilar-se... E usufruíam-se nessa posse insubordinada.
Os seus ventres juntos fundiam a força espiral dos sexos, trocando informação sobre os seus pulsares, numa avareza despótica e cruelmente real. O ritmo de seus contactos assumia gradação ascendente, à medida que com maior frequência eram recebidas e emitidas descargas libidinosas reforçadoras da actividade. Contagiavam-se e incendiavam-se. Reprimiam-se e amachucavam-se. Libertavam-se e submetiam-se. Devoravam-se e ofereciam-se, inesperadamente sôfregos, na acumulada urgência da rebentação.
Meticulosamente os lábios vaginais da sombra de cabelos pelos ombros surpreenderam o vigoroso pénis da sombra de cabelos curtos, que teimosamente insistia em contrair-se, não obstante o extraordinário fluxo sanguíneo que afluía à glande, tentando fugir ao íman que o obrigava a vibrar mais pungentemente. E, enquanto que a boca genética da primeira sombra se armava contrita e espamódica, e dirigia o controlo táctil do musculado apêndice da segunda, formando uma díade pulsante inseparável, buscando a periferia do molho de fibras, os seus membros superiores deslizavam (reciprocamente) no seus dorsos, nas colunas vertebrais, deixando à passagem aquele formigar incandescente característico do despertar vegetal de romper as cascas.
A incansável vagina sugava o febril láscio irresistivelmente, ganhando território a cada entrega, afoitando-se delirante na absorção contínua, num terrível e imperioso desvendar da magia da posse, até que impossível se tornou aumentar o acto por completa a penetração. O contacto do clitóris com o tronco e os pêlos pélvicos conduziam o prazer exterior da sombra, distribuindo-o pelo resto dela, repartindo-o ao lóbulos das orelhas, pelos seios, pela boca, pelos músculos que circundam as clavículas, reavivando a nudez selvática da penumbra. As nádegas contorciam-se, contraíam-se, crispavam-se, e alteravam ligeiramente a pressão sedimentada da vagina sobre o pénis.
O universo estava dentro das sombras, porque era noite e a publicidade invadia o quarto, num arremesso quixotesco de quem quer vingar sobre o brumático torpor da arquitectura dos séculos passados, esporeando os flancos do receio, do recato, da defesa inusitada, almocreve do cavalo do medo que, como freio nos dentes, a toda a brida, à desfilada se disparava para lá do lá, para além do inimaginável na exploração do caos dos verbos sobreaquecidos com ternura solta, intensa mas brava e descomprometida.
Então, o quarto e o silêncio foram as únicas testemunhas, as obtusas testemunhas que se recusavam a retirar, do prazer das sombras que continuaram unidas, a esfumarem-se imperceptivelmente na languidez dos tempos.
A sombra comum e vertical tomou a obliquidade. Desceu aos 180 graus e pairou breves instantes num ballet imagético e soturno, quase fantasmagórico. Mas a luz apagou-se e, quando se reacendeu, a sombra havia-se sumido acompanhada de um baque seco. Depois silêncio... Um silêncio penetrante e duradouro. E persistente.
(.................................................................)
Amanhecia quando um grito inumano e gutural rompeu o quarto e atravessou a madrugada e o sol e o nevoeiro. Um grito vindo do chão. Um penhasco de voz cortante e hirto que queria esconder-se no infinito.
O ciciar dos motores dos primeiros camiões e transportes públicos que se eriçavam pela avenida, deu com-pa-ssa-da-men-te o seu acréscimo num reivindicativo sinal de existência. Homens de olhos vermelhos, raiados de sangue e toxinas, fitavam o pavimento em desafio à vida, à agrura do dia a dia.
Como sombras que eram, saíram de seus quartos e desceram as escadas. Na rua, ao seu lado direito, um empregado de balcão devidamente enfarpelado, abria a porta de um bar para motoristas e viajantes.
«Bom dia. Vai abrir, não é?» Inquiriu ele.
«Sim, sim. Desta vez venho um pouco... Já devia...» Respondeu o indivíduo tentando justificar-se por uma falta que ninguém vira.
«Não faz diferença. Podemos entrar?» Insistiu ele, dado que o empregado na tentativa de se desculpar esquecia-se de se arredar da porta.
«Às ordens...»
Entraram. O serviçal seguiu-os, deu a volta ao balcão e...
«Que tomam, então?»
«Uma cerveja e dois copos» pediu ela, a sombra mulher, já despida de espectro, em seu traje florido de violeta em tecido indiano, a flanar. Neles verteram o líquido cor de sol e mel, que ganhou a espuma das marés sobre as quais navegou Vénus na aurora dos tempos, que ambos sorveram meigamente até ao caramelo da cor, deixando-o escorrer pela língua sábia ainda no agitar das mais profundas e lusas preces.

1.23.2010

Uma História da Estória



Os condicionalismos teóricos e comunitários dominam-nos. A arte toma validade por não desviar os cidadãos da sua rotina, das subidas e descidas dos transportes públicos, do cinema das noites de sábado, das sextas-feiras de pulo na discoteca da berra, da praia ao domingo, e dos serões de Inverno com boa cozinha e excelente vinho, bem como do contagioso frenesim noticioso dos "jornais" multimédia, expondo a escancaradas janelas a sua miopia prò perto, quiçá a principal razão pela enorme falta de leitura que evidenciam, que à semelhança do greguíssimo Tales de Mileto, exímio em ver longe, para lá das estrelas, não enxergou o poço que havia sob os seus pés, no qual se encharcou até à medula, depois de nele ter caído. Uma estória não leva ninguém a perder o comboio! Porquê tanto barulho? Amofinam-se aos milhares pelos bares e cafés. Iludem-se e dão-se por realizados com mais uma aventura turístico amorosa? Contudo, acham o dinheiro mal empregado se o gastam em algo que tenha mais conteúdo que um galão de gasolina e produza menos CO2. Porquê? Porquê? Porquê esse "pensamento sentido" de que estão a ser comidos e levados quando pagam meia dúzia de folhas impressas pelo preço de uma Cuba Libre? Quem não quer ser estúpido não lhe usa os costumes. Se considerarmos o efeito de uma droga leve, sem mortais consequências a curto prazo, e o compararmos com o de uma ideia expressa cuidadosamente, vemos incontestavelmente, ou apercebemo-nos de várias semelhanças, quer pela frugalidade com que as ingerimos e as caracterizam, quer pela culpa e medo de ressaca que nos restam depois do "pecado" cometido. Portanto, desnecessário é afirmar que o nosso Rum é bebido letra a letra...
«Querem com, ou sem mistura?»


Primeira Parte


ACIDENTE INCOMPLETO

Por: José Luís Cebola


Havia quase duas horas que tinham partido de Casal Parado. Tinham-se cruza e encontrado bastante gente pela estrada, alguns até pedindo boleia; porém, esses outros pediam... eles queriam dar boleia... mas no instante de parar, esqueciam-se de o fazer, ou que o iam fazer, e continuavam viagem. Para trás ficavam jovens furiosos, aos berros e a atirar pedras ao carro, a distanciar-se consideravelmente lesto e expedito, ligeiro e conspirando com os donos na plenitude prazenteira do ronronar da sua cilindrada.
Aqueles dois, homem e mulher, marido e esposa, senhor e senhora, cidadã e cidadão, europeia e europeu, eram uns indivíduos deveras estranhos. Tudo quanto faziam sem pensar terminavam, agora, o pior era quando pensavam em fazer alguma coisa... Então, tornavam-se escravos compulsivos dos seus pensamentos e logo de seguida mudavam de ideias. Lá se ia tudo por água abaixo: faziam pirueta com mortal e encetavam novo rumo à versão anterior, não só diversa dela, senão inversa a ela.
Lena “acendeu” o rádio em FM, mas o marido não gostou da música e numa aceleradela brusca, com o joelho direito desligou o aparelho. E o que era apenas mais um gesto gratuito e machista, de imposição e resposta, de reacção a uma acção feminina, sem aviso nem sondagem ao companheiro (de viagem), transformou-se em prenúncio de tragédia na tirania mútua da relação entre ambos.
«Hoje vens de mau humor...», observou ela. «Começo a sentir saudades dos nossos primeiros dias de casados. Tudo estava bem!... tudo quanto fazias estava bem!... tudo quanto eu fazia estava igualmente bem!... o que dizíamos soava bem. Mas agora?... Sentas-te ao volante, calado, abstracto, só!... E eu para aqui abandonada, a teu lado, à espera que te dignes a dirigir-me palavra. É boa, não é? Parece que estás cansado de viver comigo! E que eu é sou o pomo e causa do teu mau feitio! E não ele o principal motivo das nossas desavenças!»
«Olha, queres uma ideia?» Perguntou-lhe ele desagravando-se e como resposta. «E se cantasses qualquer coisa, como nos bons velhos tempos, uma daquelas canções que tu...
o meu cabelo solto
o meu olhar oblíquo
e o meu vestido roto
voam na tua imaginação
... Sim, sim... Canta. Eras outra!»
Ela também tinha começado a trautear, a cantarolar, e cantou e voltou a cantar enquanto ele a acompanhava ao assobio; e os quilómetros pareceram-lhe curtos, pois estavam como que anestesiados por aquela cançoneta que lhes falava de seus corpos a viajar na imaginação um do outro. Era uma canção que reconfortava os seus cérebros cansados de derrotas; fazia-os esquecerem a vida insatisfeita que levavam juntos. Por isso, foi com alegria que saíram do carro, em Porto Perdido (PP), para beber qualquer coisa fresca e comer umas sanduíches manhosas. Só que aquela alegria por pouco tempo iria durar, como aliás, toda a felicidade que nasce da ilusão, e se deitara por hábito entre eles. Que foi quando veio o empregado, a estender-lhes a conta exorbitante, o que pôs novamente a sua (in)disposição a ferver. Ele pelo montante, ela pela avareza dele e contrariedade manifestada em pagar uma refeição, um momento que tinha agradado a ambos, evidenciando essa tenebrosa faceta do prazer, que só é autêntico prazer, quando somente uma das partes do casal goza.
Então voltaram para o carro a fugir, escapulindo-se e a largar palavrões pelo caminho. Ela fazendo atroar os tacões dos saltos altos no empedrado do passeio, ele resmungando entredentes palavrões e impropérios, gesticulando, esbracejando enfurecido.
Depois...
Ignição, primeira, segunda, terceira, quarta e prego a fundo – a partir daí só fariam o que era costume fazerem naquela viagem... Fariam unicamente o mesmo que das outras vezes que fizeram aquele percurso. Tão-só. E simplesmente.
«Quando chegarmos a Vale de Riba... Um bom banho, umas bebidas frescas, e depois cama», alvitrou ela. «Ah, como vai ser bom!...»
«A chave?»
«Não a tens no bolso?!»
«Não.»
«Então, deve estar na mala. Vou ver...»
«Está?»
«Não.»
«Vê no porta-luvas... Também não?»
«Pronto: achei. Olha! Cá está ela!»
«Logo vi. Merda para as tuas ideias! És sempre assim.»
Continuaram na rota e durante onze quilómetros conservaram-se amuados, vingativamente circunspectos, mudos e calados. Por fim, é ela quem irá romper o silêncio, aliás, coisa pouco original entre os dois, considerando que quase tradição e ponto assente, costume, ser invariavelmente ela quem tenta amenizar o clima e a quem mais afecta a natureza ressentida do amuo, porque também é ela, enfim, a mais inconformada com a ansiedade pesarosa remoída do mutismo comum.
«Sabes?! Não se deve pensar; traz sempre maus resultados.»
«Porquê?»
«Não sei. Talvez...»
«Talvez o quê?...»
«Isso. Vês, já me está a doer a cabeça outra vez», lamentou-se Lena. «Foi por tua causa. Única e exclusivamente por tua culpa. Anda, faz qualquer coisa. Vá!... Pára!!»
«Dói-te menos?» E estancou a viatura.
«Arranca!... Pára! Arranca. Pára. Arranca!... Oh, meu Deus: Pára», berrava ela, com as mãos na cabeça, enquanto Augusto obedecia atabalhoado.
Finalmente a dor de cabeça terminou, com o igualmente inesperado da eclosão: “era dor de mulher...”, como pensava o marido, que bem conhecia esse género de achaques. “As tais dores femininas!!...” – E sublinhava mentalmente o tais das dores, por puro gozo próprio. Privado. E secreto. E vingativamente inconfessável.
A conversa, após o tempo necessário para se reconstruírem um espírito obscuro e uma cabeça doída, tornou-se animadora e um tanto fértil em matéria de pensamento e reflexão. Fizeram análise à sua vida em comum. Perderam momentaneamente o medo de pensar, e tal, levara a que se sentissem tão bem, tão limpos, tão... como eles gostariam de ser sempre. “Maravilhoso! Maravilhoso!”, era uma das frases esguichosas e esganiçadas de euforia, que com maior frequência ouviria qualquer presente “desafortunado” mesmo que desatento.
«Já há um bocado que vivemos como num sonho», opinou Lena, realçando o milagre. «Sempre é bom sonhar!... Se na realidade o que pensamos é quase sempre impossível... Contentamo-nos sonhando. Já é qualquer coisa! Traz-nos esperança!»
«Tens razão... Mas acontece que para um homem o sonho não basta. Tem que existir mais do que isso. A ti, o sonho satisfaz-te? Plenamente...»
«Bem, não é bem assim. Não vivo só de sonhos. Temos carro. Temos um cão e um gato. Temos uma casa, uma casa onde ninguém nos incomoda. E temos uns pais que nos adoram, à sua maneira... Não nos falta nada! Ou isso são só sonhos!?... São?»
«Materialmente, não nos falta nada. Mas não só de pão vive o homem. E o amor dos nossos pais e animais não é suficiente. Isto é muito importante! Agora diz-me: desde que vivemos juntos quantas vezes te sucedeu pensar uma coisa e, logo a seguir, antes que esse pensamento fique registado na tua memória, o renuncies, e comeces a pensar precisamente o contrário? O inverso?! Não têm conto! O mesmo se passa comigo inúmeras vezes ao dia!...»
«Mas que posso eu fazer? Acaso serei eu a culpada de que isso aconteça? Sou?...»
«Quem disse tal coisa?! Apenas queria dizer-te que não podemos continuar assim!...»
«O quê?!! O divórcio...?»
«Não... Isso nunca. Temos é que fazer qualquer coisa. Ou nos crucificamos... Ou atiramos esta cruz para o lado. Agora!, a carregá-la durante o resto dos anos que vivermos é que não pode ser! Percebes? É demais para um homem! Não achas que já chega?!» Ela moveu a cabeça em sinal de anuência. «Então, hoje é o melhor dia para acabarmos com tudo», sentenciou ele, por fim.
Por momentos, ambos parecem reflectir. Planeiam a actuação... Lá adiante, à sua frente, estava uma parede com cerca de dois metros de altura. Servia... Ou...
Acelerado ao máximo, progredindo, o carro aumentava de velocidade. Ela, de olhos fechados, apertava firmemente a cabeça com as duas mãos. Ele, de dentes cerrados, com veias e tendões do pescoço em avantajado volume, mãos aperradas no volante, deixava transparecer um sorriso selvagem.
Ela grita palavras sem nexo. Ele petrifica na determinação. Mas não são um quadro; são um gesto, uma atitude, e acima de tudo, uma decisão. A 160 quilómetros por hora, o utilitário de baixa cilindrada em que se conduziam, embateu no muro sem uma única quebra de andamento por desaceleração, travagem ou redução, produzindo um estrondo superior ao que faria a queda de qualquer arranha-céus californiano. Os seus dois corpos saíram voando por entre os estilhaços do pára-brisas, indo cair num campo de trigo, a dezenas de metros, no outro lado do muro.
Curiosamente, deste acidente, somente o carro ficou sem conserto.
Então, Augusto e Lena levantam-se, sacodem-se e caminham, sorridentes, auxiliando-se na tarefa de se livrarem das raras palhas e sarugas que se agarram aos fatos.
E feito é, que quem os quiser encontrar, quem os quiser ver, quem não acreditar na veracidade desta reportagem, vá ao local de embate, ao quilómetro 270 da estrada entre Casal Parado e Vale de Riba, onde seguidamente eles mandaram edificar uma solarenga vivenda – um monumento à vitória das suas vontades – e donde raramente saem.
Apenas com um senão... é que só ainda não têm dois rebentos rechonchudos e reboliços, porque no acidente, Augusto foi amputado dos testículos. Mas pensam seriamente em adoptar um casal de filhos duma família pobre das redondezas.


Segunda Parte


OS TESTEMUNHOS


Primeiro Testemunho

Conheci o Autor precisamente na mesma data que ao Augusto e à Lena. Penso, sinceramente, que o A. foi cruel, demasiado pessimista e insolente em relação à vida do casal. O que se passava, na verdade, nada tinha assim de tão catastrófico. Eles eram somente mais um par em que nem ele, nem ela, se assumiam como marido e mulher, o que suscitava situações conflituosas de pouca monta. Nós discutíamos amiúde os porquês das suas atitudes, e fomos sempre divergentes. O A. considerava a problemática de uma forma extravagante e atribuía à determinante social e económica a total responsabilidade pelos seus comportamentos. O facto de eles serem filhos únicos de burgueses provincianos, de não precisarem de lutar para sobreviver, dizia o A., é que os levava a inventar barreiras no quotidiano que os impossibilitava de alcançar gozo com o prazer, ou angústia com a dor. Nunca vi com bons olhos essa suposição... Para mais sabia que a educação do A. não fora religiosa (nunca assistiu a qualquer missa, jamais se confessara e nem o Pai Nosso sabia!) o que, como é óbvio, o induzia a desprezar o aspecto estritamente humanitário e moral do ocorrido. Do que Augusto e Lena mais careciam era de paciência! Fé e compreensão! Dias houve em que os encontrei extraordinariamente, repito: ex-tra-ór-dii-nná-ria-mente!, felizes. A Lena era nervosíssima. Imenso. O Augusto também, é claro. Só apareciam quando não havia achaque de maior, mas eu fui imensas vezes à casa deles, e, à Lena principalmente, foram inúmeras as alturas em que lhe servi de confidente. É por isso que estou mais à vontade! Ela sempre teve problemas de ovários e durante o período menstrual sofria dores horríveis, hó-rrí-véis!, ficando inclusive com a pele, a facial era mais!, lacerada e cheia de borbulhas. A. dizia que a ocorrência não tinha significado e em pouco isso podia alterar as suas maneiras de ser. Mas não! Não é assim! A Lena possuía um sentimento de culpa bastante vincado pelo mau humor do Augusto, tendo por base esse facto. Achava-a insuficiente sexualmente, ou qualquer coisa no género, e embora não precisasse de vestir bem para seduzir qualquer homem, porque era muitíssimo bonita, fazia-o. E de forma ex-tra-or-di-ná-ri-a-mente agradável! Já se vê que no mundo actual, uma pessoa como ela, de imensamente grandes olhos castanhos, cabelos fortes, ondulados de preto asa de corvo, lábios grossos, dentes certos e favudos, entre o metro e cinquenta e o metro e sessenta de altura, musculada, rosto oval, com boas maneiras e suficientemente inteligente para manter uma conversação simpática e culta, jamais precisaria de tais apetrechos. Aliás, só os nervos podiam justificar os seus medos, e medos que considero incoerentes, absolutamente infundados!... Hoje, francamente, vejo-os assim. Na época apenas o entendia como absurdos e complicados! Ao Augusto não faltou bom gosto... Achei-o divertido, com sentido prático, espírito de observação, saudável e imaginativo – enfim, atraente. Atlético latino! Conhece, não é? Mas à excepção do futebol e uma patuscada de quando em vez, muito caseiro e agarrado. Esporadicamente autoritário e embirrento; nunca teimoso e bastante sentimental. Até romântico. Tinham bons empregos e raramente faltavam. Eram bem considerados, e influentes social e profissionalmente. A Lena trabalhava numa repartição de finanças, e ele como funcionário administrativo dos CTT. Têm o sétimo ano. Ambos. E foram colegas antes de casar... A casa onde viviam tem boas comodidades, e várias noites lá dormi. Passava-se o serão conversando, se havia artigo de jeito na TV, que até era digital-plus e tudo – e também tinham vídeo! –, ou vendo filmes. Ouvíamos música, bebia-se para desinibir, e nunca depois das duas da manhã, sossegava-se. O ritmo quotidiano não era mauzinho... Regras? Algumas! Mas no que estavam mais selectivos, era na escolha de companhias e amigos. Nem toda a gente lhes servia... Não gostavam nada de excêntricos, e, tanto os intelectuais como os demasiado estúpidos, não eram lá muito do seu agrado. Mas adoravam-me! Até me arranjaram emprego! Cuido que para além dos pais, era eu a sua preferida!... Talvez imerecidamente, claro. Nunca se sabe... Mas retribuí! Possivelmente, não de acordo com as suas expectativas, mas de uma forma compreensível para as minhas possibilidades. Dei-lhes um quadro autêntico, au-tên-ti-co!, repito: au-tên-ti-co!, do Abel Salazar, que foi mais tarde avaliado em 150 contos – e que era da minha tia Alice, que falecera pouco antes de os conhecer... Uma solteirona recatada e fina que nem uma raposa!...

Segundo Testemunho

Sou amigo do José Luís Cebola (JL) desde a escola primária. Costumávamos fazer os trabalhos de casa juntos, e após eles, íamos prà retouça os dois. Jantávamos igualmente juntos; umas vezes na minha casa, outras na dele, e se um estava em aflições, o outro também. Éramos uma espécie de gémeos não naturais (nem biológicos). Depois do secundário, quando começámos a namorar a sério, é que se tornou mais ocasional a nossa companhia. Lembro que quando fiz o exame da quarta classe o meu pai deu-me uma viola por prenda; cantámos então muitos poemas dele, sendo meus os arranjos musicais. Era uma boa parelha! Não conheci pessoalmente o Augusto e Lena de quem ele fala, e desconfio que nunca existiram – é tudo invenção dele! Aliás, para quem o conhece como eu é fácil depreender tal... Tem uma filosofia de vida danadinha! Diz ele que a existência de uma pessoa se encontra resumida num globo, em que, sendo um hemisfério o espelho do outro, se entra de acordo com o grau de verdade ou autenticidade de que somos capazes. E por Verdade entende ele o resultado da função cujos termos são a Lucidez, Objectividade, Disponibilidade e Apoio-Exterior: V=f(L,O,D,A-E). Pensa que os principais valores humanos são a liberdade, o bem-estar e o amor, a segurança, a imaginação e o amor, o poder físico, a saúde e o amor, o trabalho, a sabedoria e o amor. É uma porra, porque mete o amor em tudo! E na dele considera que quanto maior for grau de Verdade, maior será o grau de amor conseguido, que é o capital essencial, suficiente e necessário, para produzir tudo o resto. À parte isso, dessa teoria chata, tinha alguns acessos de ironia e fazia escritos interessantes. Passo a ler um, que encontrei há dias num dos livros do ciclo, no de geografia.
“O homem que andava a correr atrás da memória e tudo registava num bloco notas virou-se para o burguês, e disse (no fim de reflectir três vezes):
«Ora amola-te, que és pífio!»
Sim: que lhe importavam os feitos de um sacana que gostava de seduzir mulheres para se masturbar na frente delas, isolado na sua Ilha dos Amores, deixando-as amarradas e nuas até que ejaculasse o esperma nos dedos suados e peganhentos? Hãn, que lhe importava?!...”
Se lia?... Também. Líamos os dois. Tínhamos até uma técnica para nos ficar mais barato, isto além de usarmos a Gulbenkian, que era a de comprarmos os livros a meias, e que vendíamos, para com a receita voltar a comprar outros. Recordo que o livro que mais nos encantou, porque era estúpido e sem interesse nenhum, foi o DE BATA BRANCA, do Dr. Sem Pio. Era por demais fascissizante e ridículo. E fumámos droga, sim senhora. Liamba e haxixe. Às primeiras passas só os dois, mas, não sei bem por que carga de diabos!, simpatizou com uma fulaninha de nome Fátima – um nome que tem tanto de santo como de rafeiro, já que é árabe, e tem um culto celta com ritual católico – ou Fatinha, como ele lhe chamava, uma tipinha pequenininha, lourinha de olhos azuis, grandes de água e céu, e muito vivos, que depois de ele lhe ter feito um poema meio roskov, também alinhou. Ainda tenho esse soneto palerma, de pés quebrados, a que costumávamos chamar fodeto, dado a tantas F... que a ambos proporcionou.
Anda! Vamos fumar este porro

Anda! Vamos fumar deste cigarro a meias...
Há-de ter a doçura de um sonho todo vivo!
Há-de ser pequeno, castanho-alourado, cativo,
E lábios gostosos, num mundo de luas cheias.

Anda! Hoje o trabalho não vai ter velhas feias...
Faremos o mundo à nossa medida... no diminutivo!
E com esses grandes e lindos olhos de amor inventivo
Viveremos num jardim verde de fumo sem peias,
Como se vêem nos teatros ambulantes de marionetas
Dos vagabundos que nos encantam pelas tardinhas
Em que se regressa a casa por ruas ao carinho despertas.
E assim... silenciosos, enquanto o sol declina,
Camisa de xadrez e calças de ganga apertadinhas,
Este porro vai saber-nos a amor de boneco com menina!...


E tem piada como nesse tempo nos achávamos magestosos conhecedores das profundezas humanas e boémias! Os copos, as farras de grupo, as discussões académicas, ou pseudo-académicas, como lhe queiram chamar!, absorviam-nos grande parte do dia a dia; e assim, onde houvesse debate aguerrido, a penada da sapiência exibicionista, era dito e feito nosso. Que nem ginjas! Gostávamos de criar a confusão, e depois, ala que se faz tarde! Ridiculizávamos pessoas e situações, autoconvencidamente, claro está!, mas quem estava a ser ridículo, não haja dúvida, éramos nós. Há alguma coisa mais parva do que a competição mesquinha sem frutos monetários? À viva força, não era ao jeito, nós tínhamos que ter sempre razão. Para modelo de bons portugueses, cá estávamos nós pelos ajustes! Pelintras, mas felizes!... Má fé, gozões e egoístas; eis as tábuas. (Pouco mais que rasas!) Curtidos? Também. Filiações partidárias? Três: PCP, PS e PPD/PSD. Jogávamos de tripla num emprego! Ementa preferida? Pudim. Horas de retornar a casa? Quatro horas da matina, como ideal. Saída das aulas: 9 e 15 t.m.g., da madrugada quero dizer, se pudéssemos – um quarto de hora, como q. b. de cozedura, e aprendíamos tudo. De afianço!!


Terceiro Testemunho
(Augusto Cera Preta)

Sou um homem de bem. De bem, ouviu?! Esse gajo nunca teve boas ideias. Parvo fui eu em o admitir à nossa mesa! Metediço! E gingão, farejando a Inês. Percebi-o desde o primeiro dia. E cortei-lhe as voltas!... Dela, não levou nada! Isso lhe garanto eu! Adivinhei-lhe o pensamento, mas nunca esperei que fizesse o que fez. Tratámo-lo como é hábito a toda a gente, educadamente. Emprestámos-lhe dinheiro quase todos os meses, no fim, porque não ganhava e a mesada era curta. Conheceu bastantes pessoas através de nós, e nunca lhe demos o mínimo de trabalho. Acha que merecíamos ser assim tratados?!... Festas a que íamos, desde que pudéssemos, convite também para ele. Boleias que lhe arranjávamos, não têm conto. E o besta é assim que nos agradece?! Nos retribui?! Foi mais uma lição: pronto, há pessoas a quem se não pode dar confiança. Vê-los?!, só pelas costas!... Ainda se precisássemos dele... Pois. Mas não! Era ao contrário; ele é que precisava de nós. Depois, toma! Parece-me que até se drogou, e tudo. Se calhar veio daí a baixa moral... Quem sabe! Esses fulanos não têm a mínima consideração por ninguém; nem pelos próprios pais, lhe digo eu!... Olhe, posso contar-lhe o que se passou no dia em que fizemos a festa dos dez anos de casados. Foi há cinco anos, se me não engano... Foram comprados frangos, lagosta, camarão, carne de porco prò churrasco, doces, um bolo, e, depois de tudo preparado, fomos buscar a Inês, o José Luís, a Antónia – amiga deste último – e o Alberto, que é meu primo. Às sete horas, mais coisa menos coisa, estávamos à mesa, bebendo vinho vermute e trincando outros aperitivos. Enquanto se não embededou ninguém o ambiente foi de graçolas, alegre e sem (a)tropelias. Mas logo que o José Luís se enfrascou?... Bom. Diz o povo que se queres conhecer o coração do teu vizinho, dá-lhe pouco pão e muito vinho, e é bem certo!... Primeiro, começou por vomitar os cortinados; depois foi com a António para a minha cama, onde fizeram o que lhes apeteceu, e com o lápis de sombras de Lena escreveram as paredes do quarto com frases do tipo: “Antónia! Antónia! Este quarto está surpreendido!; Viva a masturbação de dez anos! Punheta a dois e jura de Bíblia!; Que é melhor? Maricas com lagosta ou lagosta de maricas?; Casamento e Estado – impotência bonificada!” A sorte foi eu não ter visto aquilo, a não ser no dia seguinte... nunca mais lhe falei. Que faziam vocês se convidassem para vossa casa um fulano e ele vos fizesse o mesmo? Sim: que fariam, hãn?!... O tipo é asqueroso, e o que escreve tem que sê-lo como ele. É obtuso, pedante e complexado. Debaixo daqueles olhos de marrã mal morta, castanho postiços, cabelo cerdoso de barrasco de montado, luzidio, viscoso, sempre aprumado, como quem engoliu um espeto, e preocupado com o vestuário, vaidoso, rosto de fuinha bicuda e corpo franzino, está um verme indesejável. Era bom que todos o soubessem... Compreende? Era mesmo muitíssimo bom... Para se precaverem!!...


Quarto Testemunho
(José Luís Cebola)


Aquilo não foi uma questão de inveja, nem de ciúme. O que se passava era isto: eu andava bestialmente apaixonado pela Inês, e eles, na sua ingenuidade e mesquinhez, porque de burgueses não lhes faltava nada!, davam-lhe uma protecção que ameaçava o êxito da conquista. Seria para mim mais uma mulher ou não? Não sei... Mas que eu tinha que os deitar abaixo, e levá-la a perder a confiança e suposta amizade “desinteressada” do Augusto e da Lena, lá isso tinha! Andava exaltado e inseguro, e via-os a ganhar terreno. Ia hesitar?! Qual quê! Se os fins são de valor, os meios não precisam de justificação. Honestidade, amizade, pudor, moralidade e outras que tais, são tudo balelas! Por outro lado, tinha uma necessidade imperiosa de vingar sobre o pessoal com quem convivia e discutia literatura, arte e assim por diante. Eles falavam, mas eu faria. Eles falavam, muitas vezes com mais senso do que eu, confesso, mas eu queria rematar a conversa com um simples “afinal, quem é que é aqui o escritor?!”, de lhes barrar o diletantismo com uma autoridade. Queria impor-me, arranjar uma posição de destaque, e ficar com um campo próprio de actuação. A ocasião pareceu-me propícia, e fi-lo sem mais nem aquelas. Em relação à Inês, quis que fosse ela a tomar a iniciativa de considerar o casamento um estado enfadonho e tedioso, rotineiro, somente interessante e atraente nos primeiros dias e meses. Havia medo em mim, pois havia! Ainda hoje o tenho. A queda do amor, o deixar de gostar de alguém ou o deixar de ser amado, é um facto que me assusta brutalmente. Talvez este medo seja só meuinho e de mais ninguém, ou até tenha muito de doentio; mas o que é certo, é que ainda agora o sinto. Um contrato é um contrato: então, porque é que o casamento há-de fugir à regra? O idealismo, o amor eterno, o platonismo, impuseram esta faceta; estava na hora de alguém pensar e agir pelo modo contrário! Foi o que fiz. E não estou arrependido, embora não tenha conseguido engatar, vá lá, porque não este termo?, a Inês. Aliás, Estórias... Quem as não faz? A imaginação das crianças prova que ninguém precisa de diploma para inventar pequenos universos onde alguém ou algo se move e actua, fala e pensa, cria, procria e morre. Defendia eu à data. E se em primeira mão o fazia para atacar os compinchas mais intelectualizados, em segundo plano dizia-o para encontrar uma vulgarização que desse uma margem de erro onde pudesse evoluir, sem ficar bloqueado pelo medo de errar. Inês idolatrou escritores modernos, acatou e interiorizou muitos conceitos deles, e tentou sempre sobrepô-los à estimativa popular (e nossa). Não gostei. Foi uma provocação... Daí, que a posição tomada não passou de uma defesa. Uma defesa avançada, como se diz no futebol. E dei livre curso aos meus impulsos. Apoiei-os com o pensamento. E esta táctica nada teve de maquiavélico. Se todos fazem o que querem, um estoriador também não tem que submeter-se a padrões limitativos. Desde que historie a dor! A literatura é aquilo que os homens de letras quiseram que ela fosse. Para mais, pouco me importava que os leitores gostassem ou não, compreendessem ou criticassem, usufruíssem ou aniquilassem, a conclusão ou tese tentada. A certeza de que Inês não iria ficar indiferente, saciava-me. A busca de um querer-sem-querer, para futura desculpa, conduziu-me ao género. O propósito era claro; urgia que o meio o fosse igualmente. Augusto e Lena eram nossos conhecidos, e, como o processo descritivo é moroso, sendo unicamente perfeito após apresentar uma panorâmica pormenorizada, facilitavam-me a tarefa. Foram peças fundamentais no tabuleiro onde jogava – o romantismo prosaico. O sonho de todo o artista é produzir uma bela mentira rodeada de verdades eternas, e delas suspensa (quase). Que sirva de medida na qual a verdade se iguala, por comparação. É falso pensar-se que já foi escrito tudo quanto era possível narrar-se – e equivale à morte da arte. Faria dela um lago estagnado na imaginação do homem. Quem não consegue imaginar o suficiente para voltar a amar de novo, está acabado! E era isso que eu queria... Voltar a amar, a render-me, a sentir que pertencia a Inês; consegui-lo, perdoava-me de tudo, absolvia-me das atrocidades cometidas. Foi o que foi.


Quinto Testemunho
(Lena Garbo Greta)


Desculpe, mas não me apetece falar disso – foi um grande susto – estou chateada – fui violada – mas agora o que me preocupa são os meus pais – por nada deste mundo eles podem ler a escabrosa estória – não sei o que hei-de fazer – sabe de algum bom cardiologista? Não há médicos de jeito em Portugal! – Gosta de cinema? E flores? Já conhece esta variedade? São goivos. O meu único gáudio. Temporões. – Mas o que é que quer? Bolas!! Julga que vou pôr-me prà’qui a falar, falar, falar, falar, enquanto você exibe esse sorriso idiota de quem está aqui a assistir a uma representação de fantoches?... Pois está enganado. E muito! ISTO É ESTÚPIDO. Onde já se viu um quadro tão imbecil? Vá... Diga. Apetece-me bater-lhe. Dão-me ganas de esbofeteá-lo até ficar cansada. Sabe?, você está a irritar-me. Pensa que vai ficar mais gordo depois de o conseguir? Vá à fava, homem! À fava! Vá-à-fá-va!! Ouviu? – Bem, não quero que fique com má impressão minha. Mas estou ofendida, sabe? Fui violentada na minha dignidade!... – Mas pronto: Desculpe. Desculpe, pois estava a ser pateta. Vamos lá, então! O Zé?... Ora! É um asténico. Um indivíduo que quando se lhe mete uma coisa no caco, não há quem lha tire. É uma personalidade orgulhosa, desprezível, mas submisso e subserviente quando lhe interessa, e muito virado para as coisas da alma. Ou daquilo que ele pensa que ela é. E quando queria até conversava ou desenvolvia ameno contacto. Gostava que a malta lançasse louros às suas tiradas intelectualóides. Bastante oportunista... Não deixava escapar uma oportunidade de se autopromover e publicitar. Talvez vá longe! Só as pessoas boas é que nunca têm sorte. Essa é que é essa! Não tenho diploma para o poder afirmar que às vezes se comportava de forma patológica, mas posso dizer que representava muito bem o papel de agressivo catatónico e doentio. Mantinha uma agressividade constante, e mesmo quando não lhe frustassem os desejos. Molestava-nos, espicaçava-nos, fazia-nos sentir mal propositada e gratuitamente. A ironia não lhe era alheia. Nem o sarcasmo e o vilipêndio. Discutia com as pessoas, sem mais nem menos, só por discutir, e quando as via exaltadas, deixava-as, sorrindo presunçoso, apresentando um ar de satisfação de quem tem o dever cumprido. É lógico que sendo assim como é, quis foi rir-se à nossa custa. Mas exagerou... Não haja dúvida. É inconcebível, depois de quanto por ele fizemos. Não só pelo apoio material, como também pela consideração que lhe emprestámos. A credibilidade. E que ele mais tarde destruiu. As influências perniciosas... As más companhias com que andava contribuíram razoavelmente para agir dessa forma, vil e egoísta como agiu. Andava com toda a espécie de marginais: ciganos, drogados, prostitutas, traficantes, rafeiros de rua, rockeiros e sabichões. Acompanhava com os campónios, de tasca em tasca, gente sem escrúpulos, e políticos radicais que servem exclusivamente para lançar a confusão. E isso nunca poderia dar em nada de bom. O que se viu! Pois deu no que deu...











Post Scriptum





Guião de reportagem, exploração exaustiva de uma notícia sensacionalista, story-board para prancha de vanguarda, documentário sobre uma infelicidade travestida, jogo de espelhos (entrevistas) para uma experiência psico-sociológica de reflexão sobre os (des)afectos interiores evidentes no desenvolvimento da (re)ligação entre as duas metades de uma alma controversa, qual composição em art deco para a geometria do stress, enciclopédia habitável de nós todos, condomínio fechado do existencialismo actual, tão prudente quanto senil numa humanidade esgotada de soluções de desagravo e desculpa perante a Vida, que está aqui propositadamente com inicial maiúscula, porque mais que mais que substantivo é substância, mais que verbo é símbolo, mais que palavra é valor; perante a urgência capital de converter a humanidade desempregada, ou mal empregada, desperdiçada, que merece melhores arrelias que essas inventadas por pessoas compulsivas que até para respirar precisam de tomar balanço, e mesmo assim saltam de olhos fechados por terem medo do que vai suceder a seguir. Pessoas que se servem daquilo que a sociedade põe ao seu dispor, não para criar ou usufruir, mas para impedir que outros criem e sejam felizes exactamente por isso, que fizeram das suas vidas um inferno pegado de que apenas sentem alívio quando estão a infernizar a vida dos demais, que por terem o quanto esses outros não têm, em termos materiais, incluindo um trabalho útil o efectuam somente quando podem vingar-se e recompensar dos seus ressentimentos por alguém, fazendo o bem se com isso puderem fazer mal a alguém, comunicando com este e aquele para marcar a diferença, acentuar o desprezo por aquestes e aqueloutros, dando a uns se puderem roubar a outros, emprestando o que nunca foi deles e investindo para benefício próprio aquilo, o recurso, que todos produziram mas lhe deram a guardar, a fim de melhor o administrar e rentabilizar.
Poderá ser um capital valioso esse, o da cultura e do entendimento entre os géneros, se não for travado como uma batalha, um trampolim sexista para voar rumo a idealismos castrativos, que nada de belo manifestam se exceptuarmos deles o fotograma imediato desse filme onde se armazenam todas as frustrações e incapacidades humanas, facturadas no quotidiano com que aspiram subir na vida amarfanhando e destruindo o labor, empenho e qualidade dos seus semelhantes. Colmatar a sua insuficiência para o amor, tiranizando os que se aventuram a considerá-los dignos de respeito e afecto, de ternura desinteressada e comovida. E que, mais que tudo isso, tentam desesperadamente dominar, submeter, aprisionar, censurar, escravizar quem diga livremente aquilo que eles não autorizaram que fosse dito, quanto denuncie o seu inferno, o muito que se apostaram evitar e calar toda a vida: que só deixarão de sentir claustrofobia mental quando encerrarem todas as Ágoras no mesmo bunker de peste emocional que construíram para si e para o seu medo de Viver.
Na história da estória entre Lena Garbo Greta e Augusto Cera Preta, há o fluxo e o tabu da história popular feminina, sobretudo desses meios supersticiosos consentâneos ao realismo mágico, onde as mulheres são o produto da maldição a que os homens as votaram, que as levou a esconder a sua menstruação na metáfora, dizendo que estão com a história quando querem dizer que estão com a menstruação, pois é crime grave estar indiferente aos efeitos da fertilidade viril, não se ter rendido a sua feminilidade perante o sedutor poder do espermatozóide valente que amarfanhou, venceu, derrotou e aniquilou a vontade e êxito dos seus gémeos, ejaculados pelo mesmo orgasmo. O mesmo embate contra o muro a alta velocidade, o mesmo clímax resultante desse acelerado movimento rumo à morte, o mesmo acidente incontornável de que potencialmente eclodirá uma nova vida, ou uma nova ilusão dela, outra teórica ficção dela, tal como se costuma chamar ao conto, a propósito do qual muitos já disseram, entre os o quais me incluo, serem as duas únicas coisas que lhe são superiores – a teoria, e o conto. A motivação e a fantasia. Enfim, a ideia e a sua concretização.

1.05.2010

Romance Estilhaçado

RUI E IRENE – FRAGMENTOS DE UM ROMANCE ESTILHAÇADO

Quando mudei, recentemente, de casa precisei de comprar alguns móveis. Entre eles, uma escrivaninha, que era coisa que não tinha, nem cabia na "mansão" antiga. As novas, eram modelos que não se coadunavam com a decoração da casa, e as que descobri nos antiquários ou eram demasiado caras para o meu go$to, sumptuosas, de época, ou estavam em "péssimo mau estado" – e perdoe-se-me o pleonasmo pela exactidão da imagem que nos fornece quanto ao estado de conservação das mesmas... –, carecendo de oneroso restauro, o que igualmente fazia com que as rejeitasse, embora com sério pesar, para o fim em vista. Todavia, tive conhecimento que um amigo de longa data, a quem haviam falecido os velhos progenitores há pouco tempo, com breve intervalo entre a morte da mãe e a do pai, cujo falecimento deste último se assemelhara antes a uma desistência de viver, iria desfazer-se dos trastes que herdara e remodelar o imóvel, que sabendo da minha necessidade, me questionou acerca de querer ou não, a escrivaninha que lhe deixaram. Prometi ir vê-la de imediato, o que cumpri sem demoras, é certo, pois já estava entre outras bugigangas no patim das escadas aguardando sumiço, e foi tiro e queda, porquanto me agradou em simultâneo. Não era antiga, nem moderna. Era firme, rija, austera e apresentava-se em óptimo estado de conservação, tal e qual como eu a queria.
Esvaziou-se de quanto havia no interior e, num ápice, arranjei quem ma transportasse até casa. E ainda nesse mesmo dia foi pernoitar no meu escritório, salvo seja!, se assim pudermos chamar ao quarto vago a que destinei os livros, CDs, DVDs e quadros que amigos me ofereceram, quando souberam que abominava os seus autores, pelos aniversários e na presença de respeitosas e idóneas testemunhas, para assim evitar que me desfizesse deles nos dias seguintes. Segundo eles, as oferendas seriam pedagógicas, para me ensinarem a gostar daquilo que não gostava e perder a arrogância de crítico naïf que emprenhava com as primeiras impressões que uma obra me "inspirava", transformando-as em definitivas e assertivas, não fruto do questionamento amadurecido, mas do preconceito assumido e corroborado pela lei do menor esforço. De facto, jamais o conseguiram, convém esclarecer, mas se de arte se trata, habituamo-nos ao feio e horrível com idêntico apego e fervor com que o fazemos ao belo e maravilhoso, e dá-nos exaltado prurido desfazermo-nos dela, chegando a sentir uma espécie de amputação, mutilação física e essencial, somente com o assomo da ideia de a deitar fora.
Ora, diversos meses depois de a ter recolhido, descobri nela, o fundo falso de uma das gavetas superiores, precisamente na segunda do lado superior esquerdo, a que menos nos lembramos de usar para guardar as minudências de utilização diária, e nele as oito cartas, que passo a transcrever, na esperança de vos propiciar o mesmo misterioso deleite romanesco que me suscitou. Os carimbos dos CTT rondavam os anos oitenta do século passado, sem precisarem ou consumarem um período exacto de tempo, nem se espaçarem nele de forma regular, e os selos não tinham qualquer valor de troca ou a mínima valia (estética ou gráfica) como coleccionáveis.

Carta 1
“ Rui!
As minhas primeiras palavras são de agradecimento pelo conforto das tuas cartas. É na verdade uma maravilha, depois de um dia de trabalho, recebendo constantemente vibrações negativas e palavras de desilusão da pessoa de quem gostamos, especificamente o tipo com quem ando, e chegar a casa, e ler as tuas linhas que nos traduzem algo de belo e de positivo, que nos traz compensação em relação ao dia vivido.
Nem sempre tudo é tão negativo, é verdade, mas hoje que aconteceu isso mesmo, mais que nunca a tua carta me soube a estrelas.
Desculpa não dizer mais nada, mas a partir daqui tudo serão baboseiras em relação ao que sinto
Um beijinho
Irene

* * *
Carta 2
“Rui: Viva! Viva!

Foi assim que descobri o meu Eu...
Para lá de uma janela.

Dois versos da poesia da Tatiana. É belo encontrar o Eu aos 17 anos.

Eu, com muito mais idade, ainda não consegui encontrar o meu EU. Por vezes julgo tê-lo encontrado, mas rapidamente se esvai e desaparece no ar deslizando por entre os dedos, tal como as espirais de fumo do meu cigarro.
Isto talvez porque ainda não penso – preguiça mental –, e estou assim demasiado alienada. Tento elevar-me, é certo, da socialização, mas apenas consigo subir alguns degraus e logo sinto a escada desmoronar, porque a sua construção não é 100% verdadeira, e volto outra vez ao sítio donde quero fugir.
Será que alguma vez o vou conseguir?
Por vezes, demasiadas, penso que não, que estarei sempre entre cá e lá, mesmo com a ajuda de pessoas como tu. Por isso sei até que ponto mereço a tua amizade, pois que passo demasiadas vezes no jardim obedecendo às tabuletas “PROIBIDO”, mesmo sabendo que elas são a negação dum direito

Um beijinho
Irene

* * *
Carta 3
“Olá Rui:


Em primeiro lugar vou pedir-te uma coisa: é que não confundas o meu silêncio com o não querer a tua ajuda. Pensei que isso tivesse ficado claro na nossa conversa aí, em Casal Parado?...
Muitas vezes se não escrevo é porque além da preguiça de o fazer, que não é constante, as ideias estão mal arrumadas e sai uma confusão desgraçada, onde digo e contradigo. Mas preciso e quero a tua ajuda, e vou estar empenhada na nossa (tua) obra de arte. Digo nossa (tua) porque eu apenas poderei dar uma centésima parte da colaboração; mas mesmo nessa eu, neste momento, estou fortemente empenhada.
Disseste numa carta que irias fazer algo, não sei o quê, pa’ possibilitar; pois força Rui. Só tenho é de fazer uma coisa: é avisar-te que eu não sou mais um mínimo sequer da personificação do amor. Levei muita porrada, e água mole em pedra dura, tanto dá até que fura. Acabei por levar o suficiente para pôr os ideais de parte e entrar apenas na luta.

Um grande abraço
Irene

* * *
Carta 4

“Olá Rui!

Os meus parabéns! Acho óptimo essa de redactor do jornal. Acho mesmo muito bom. Assim tens hipótese de transmitir um pouco aos outros a tua imaginação.
O pior é que assim já não podemos passar férias, não? Eu tinha pensado irmos em Agosto, porque eu talvez conseguisse arranjar tenda, mas já agora não faço nada sem saber se tu podes – e diz logo se em Setembro achas ser mais fácil, ou não...
Olha, quanto ao teu livro, estou morta por saber mais coisas, quais os poemas que realmente vais pôr, etc., etc., mas eu ainda nem sequer pensei no motivo para a capa. Penso que para isso seria necessário o teu esboço, que então eu poderia pôr em prática, pois eu aqui estou completamente alienada, vivo apenas para o trabalho, a cabeça fica de tal maneira cheia daquela merda que não consigo pensar em nada absolutamente nada, sai de lá e só dá para fazer coisas que não interessam, por exemplo neste momento estou quase com os copos, talvez por isso me perca, nem imaginas do que me apetecia falar-te...
Em tudo aquilo que me apetecia dizer, resumindo, acho que a vida era muito boa se a soubéssemos viver, mas eu não sei, sou demasiado fraca para viver como deve ser e deixo-me levar pela vida que me rodeia e que sei que a nada me conduz.
Escreve para o endereço do envelope

Um beijinho
Irene

P.S.: gostei muito do poema.”

* * *

Carta 5
“Hôi Rui!

Não sei bem por onde começar... é que estou tentada a pedir-te desculpa. Mas, o que é que isso adianta? E o que é isso para o que tenho feito? Tenho sido aquilo a que se chama uma ingratatona. Tu tens sido extraordinário, com as tuas cartas que transmitem a tua força, tens-me dado alento, e eu nem uma palavra em troca. O eu ir aí sem dizer nada, isso não estranhes, porque eu resolvo sempre à última da hora, não dá para avisar ninguém. Agora quanto a escrever, claro que o podia fazer, mas se o não faço é porque não me sinto à altura de o fazer. Tu dizes que te sentes oco, vazio agora, mas eu Rui, tenho essa doença há um tempo indeterminado; eu quero ser, eu quero fazer, mas não consigo fazer nada, dizer nada. Eu já tentei escrever-te vezes sem conta mas depois chego sempre à conclusão de que não dizia nada e não vale a pena meter uma carta que não diz nada. Rui acredita que sonhei tremendamente com as nossas férias, com o fazer a capa do livro do qual tu eras o autor e ir por esse Portugal que para mim seria por esse mundo fora, vendendo aquilo que tinha sido criado, mas o serviço, o trabalho que eu não gosto, impediu-mo, e eu não senti forças para saltar a barreira. Tens razão: tudo ficou agarrado a uma mesa de café, a um sítio qualquer não importa, importa sim que não consegui ultrapassar as coisas para uma realização e não te ajudei a ajudar-me a ultrapassar isso e é difícil ajudar alguém que não aceita a ajuda que lhe dão.
Desculpa, estou completamente vazia, estou completamente aquilo que não queria estar, estar aquilo que sou, e sou mesmo isto, nada. Mas se sou nada, não posso iludir-me a mim nem a ninguém que sou mais do que isto e é aí que me condeno, acho que te fiz crer que era mais do que sou.
Não consigo dizer mais.
Xau, um beijo


Irene

: põe a direcção completa; a última carta, só a recebi por mero acaso.”


* * *
Carta 6
“Viva Rui! Viva!
Que bom podermos encontrar-nos novamente. Se podes vir é óptimo. Eu estou de férias e tenho andado a saltitar, mas vou estar em Lisboa a partir do dia 1 de Outubro.
Não sei se queres escrever ou telefonar, no segundo caso o telefone de casa é 212746956 e do serviço 217653857/8, extensão 228.
Não vou dizer mais nada agora, vamos marcar encontro à esquina, não é? Bom...
Então, pela nova crença mais perto da vida

Um a b r a ç ã o

Irene

* * *
Carta 7

“Rui: Olá!

Que o novo ano te traga as maiores venturas e a realização das tuas aspirações, é uma frase gasta, corriqueira e estúpida inclusive, se pensarmos que em cada dia nasce e termina um ano e quem sabe, um ciclo de vida. Mesmo assim apetece-me desejar-te que o período de tempo marcado num simples calendário feito pelos homens e cujo início tem como marco 1/1/19..., seja também para ti um marco do início de realizações pessoais.
Talvez este meu apetite tenha por fundamento o eu ter sentido pela primeira vez a coincidência do virar duma página, a última do calendário e mais uma da minha vida, pura coincidência.
Mas é apenas o virar de uma página, não é mudança, eu não mudei, e sobre isto queria pedir desculpa pois te enchi os ouvidos com esta palavra: MUDEI, MUDEI, MUDEI. Claro que te apercebeste que não tinha mudado não é? Se tivesse mudado não precisaria de gritá-lo aos sete ventos como o fiz, creio que o fazia para me convencer a mim própria, mas não é um facto, é apenas uma hipótese.
Queria agradecer-te as Boas Festas, és maravilhoso, tens sempre algo bonito a dizer, mas apesar de tudo Rui, queria pedir-te que quando escrevesses para mim, escrevesses mesmo para mim.
Eu sei, tu já disseste, que não levasse as tuas cartas à letra, pois que sou neste caso o endereço personalizado das tuas fantasias literárias. Eu sinto-me feliz e honrada pelo facto, mas devo confessar-te que também por vezes confusa, tentando discernir uma palavra para mim.
Rui, manda-me porque eu adoro, a tua literatura nata, mas por favor, a par disso manda de vez em quando um bilhetinho para mim própria, se não é pedir-te muito, e neste momento peço-to porque preciso de facto de uma palavrinha pa mim mesma.

U m grande G R A N D E a b r a ç o

Irene

* * *
Carta 8

“Olá Rui – Boa Noite!

Talvez seja um pouco tarde para responder às tuas cartas há tanto tempo enviadas, especialmente da última que foi uma maravilha porque foste franco, nem sempre é fácil ser-se sincero, mas tu foste-o comigo e eu te agradeço.
Notei nela, contudo, que algo chega ao fim. O fim do nosso relacionamento (da minha parte tão egoísta), o fim da imagem que criaste para mim e talvez eu mesma de mim própria, mas por vezes é preciso algo morrer para algo de novo nascer. Não respondi a muitas das tuas cartas, porque mereciam mais do que eu na altura podia dar, e a esta última demorou porque tinha de amadurecer primeiro em mim.
Sim, Rui eu não existo, eu Irene imaginada e imaginária não existe mais; essa Irene morreu, mas morreu porque existiu, e existiu graças a ti e a acontecimentos excitantes, mas de facto nada resta dela. Agora existe uma Irene que embora não passe de mais uma peça do xadrez canibal, maquinal, folhetinesco, do carrasco Estado, sendo nada (e é isso exactamente), quero saber mais do que fazer ofícios, mapas, preencher documentos, reescrever minutas, relacionar contas de entradas e saídas, beber copos, vestir convenientemente, ter boa figura e conversas simpáticas ou a propósito, saber jogar pequenas cartadas sociais e manter um ar seguro e determinado, também quero ser eu. Serei eu-nada, mas eu.
No teu Cônscio de que me fiz compreender
Os melhores cumprimentos entendi que puseste fim ao que de facto terminou, e é de cá, deste lado do eu-nada que te agradeço por tudo o que me deste e me ajudou a ser eu-nada; acredita que nunca esquecerei a desinteressada contribuição.
Acredito que irás em frente, de qualquer forma. Do que tenho, o melhor para ti. Um grande abraço, e que a tua fogueira perdure

Irene


Epílogo







Rui e Irene, quem quer que um ou outra tenham sido, ou uma e outro tenham sido, para não beneficiar o género do narrador, que sem dúvida é masculino, e melhor estabelecerá uma empatia com a personagem oculta, esse de quem não sabemos nada, nenhum detalhe da existência a não ser aqueles que Irene, ao dirigir-se-lhe, nos fornece, dando-nos o seu ponto de vista e respectivamente facilitando-nos o ponto de vista sobre ela, e que ele tem dela, pintando-o de forma fugaz e impressionista, proporcionando-nos uma imagem deveras nebulosa, espectral, do tipo de pessoa que ele é, ou imaginamos que seja, segundo a paleta feminina e sob os traços de Irene, mas que são ambos reminiscências desse passado século dos grandes ideais e das grandes utopias, como das grandes guerras e dos grandes festivais de música, das grandes paradas bélicas como dos grandes inventos e "alunagens", dos acicatados saberes-fazer, dos especialismos e vanguardas às pontualidades minuciosas, que teriam testemunhado como tantos milhões de portugueses também o fizeram, mas que nunca aprenderam a ser, e todavia foram, nem nunca aprenderam a estar, e contudo estiveram, ou por amor entenderam um serviço prestado por vassalagem e suserania, um não-sei-quê em forma de assim, para ludibriar as carências de formação e os defeitos de civilização numa sociedade em constante mudança, esse amor mais propício à abdicação do que à realização, qual almofada de choque para superar o embate com a realidade, em que quase sempre um arrisca tudo, nomeadamente a vida, e ao outro não cabe mais que providenciar a sobrevivência e "despesas" de manutenção dessa relação, superlativamente próprias de uma empresa, sociedade de apelido masculino cuja principal razão de sustentabilidade assiste à transmissão genética de uma família, embora a eternidade (biológica) almejada seja a da mulher quanto a do homem, através dos filhos. E isso, pensaram, lhes bastaria para superarem as incongruências de toda a vida, satisfazendo-os biologicamente e, talvez, dando-lhe a saciedade cultural e criativa consequente ao equilíbrio derivado das relações humanas não equitativas, tão economicamente humanas, que não se realizavam mas antes nelas se investia, sendo uma inequívoca perda ou ganho de tempo, de onde se saiu sempre com a irremediável compensação característica e comum a algo que seria efectivamente bom apenas enquanto durasse. Enganaram-se, é certo, pois que enquanto durou não foi lá grande coisa e, quando acabou, somente deixou um enorme e traumático vazio em seu lugar, um tenebroso buraco negro castrativo quanto ao mister de tentar melhor, procurar uma saída sem dor para o mistério da existência, deixando cada qual à mercê do medo de encetar novas relações e sem a mínima vontade, ou aptidão, para a reciclagem das antigas.
Irene e Rui não têm rostos, faltam-lhes os corpos, são culturalmente omissos, sem medidas, formatos, personalidades, usos e costumes, trajes e tiques, obsessões e residências fixas, indefinidos na época e marginais quanto à vocação. Pouco ou nada se sabe deles, excepto aquele de um intercepta o universo de outro, o que nela cimenta a esperança e ele faz para alimentar as expectativas, que todavia explodem numa nuvem de irrealidade, depositando escolhos de missões por cumprir num mar, invulgarmente, coalhado pelos sargaços da incompatibilidade, mútua ao que parece, uma vez que tanto ele, como ela, preferem iludir o querer sem elucidar e criar o projecto onde esse querer se possa consolidar, sonhar "a coisa" em vez estudar a estratégia para a implementar, desabafar em vez de negociar, afirmar em vez de trocar e/ou partilhar impressões ou pareceres, dizer em vez de dialogar, definir, traçar, gizar caminhos em vez de estudar alternativas, optar por vias, ensaiar consensos.
Ou seja, se adivinhamos estarem ambos em trânsito, desistindo de um caminho falhado e encetando outro igual, logo também propenso ao fracasso, considerando que nenhum analisou a experiência anterior, mas antes cada um se serviu do outro para lhe fugir, sem dificuldade caímos na evidência de que neste rio, além das margens, a água perdura a mesma sob as mesmas pontes, que não ligam "bandas" nenhumas, não tocam a mesma ária, embora se sintam vocacionados para desafinar com idêntico esmero nos mesmos acordes, desacordando, adormecendo em vez de despertar. Ajuizar do quanto estariam errados, ou certos, pouco nos adianta e favorece na actualidade, se não escamotearmos os porquês dessa derrota, como o são todas as relações que, ao estabelecerem-se, mais pródigas se demonstram em ressentimentos do que em afectos genuínos, sentimentos de urgência do que em investimentos e acções de uma empresa de serviços prestáveis, com bónus por perícias várias e prémios por descaramentos ou mentiras não desmascaradas. E, tal como num bom policial, a identidade do criminoso esteve legível desde a primeira linha... Porque o afecto, aquele sal que tempera as relações mais íntimas e profundas, nunca se agradece, retribui-se, e muito menos é confortável – pois desacomoda, inquieta, excita, corta definitivamente com tudo aquilo que tenhamos vivido antes, emprestando nova intensidade a gestos, sentidos e desejos anteriormente bastante suportáveis. É uma companhia cuja ausência nos fica insuportavelmente cara...
Nunca ninguém salvou de nada quem quer que fosse pela via do sentimento de posse, pelo direito de amar, e muito menos se salvarão a si mesmos aqueles, ou aquelas, que se servem de outrem como bóia de salvação para a sua solidão, abandono e incompreensão perante o mundo, considerando que a inequívoca validade do sentir, é nós perdermo-nos mutuamente do quanto éramos, ou supúnhamos ser, e se alguma aflição existencial nos restava por nos desconhecermos, a única que deveras perdurará será a de finalmente nos havermos encontrado reduzidos à felicidade que alguém produz em nós, pelo simples facto de existir, razão que coloca qualquer mérito exterior a essa felicidade e fora de nós. E isso é tudo, pode ser muito bem tudo quanto quisermos que seja, agora o que jamais será é um confortável consolo.
Enfim, no amor como no ser, só amamos e apenas somos, quanto mais nos esquecemos de ser e amar; e exactamente assim é a arte, a literatura: um conto é quanto mais conto, quanto mais se assemelha a outra coisa qualquer, epístola que seja até, da mesma forma que o homem é muito mais Homem, quanto mais se aproxima da mulher.

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A pessoa entre as sombras de ser