La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

2.24.2011

Conto da Semana - Nem Vale a Pena Contar

Nem Vale a Pena Contar!...


“Era a noite da loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder. “

In Aquela Noite, de Folhas Caídas, por Almeida Garrett

O s olhos faiscantes de Shara acompanharam-me e perduraram na noite enquanto me dirigia para casa, atravessando a única rua que precisava de ser atravessada para o efeito. E pese embora, em Casal Parado, elas não sejam assim tão largas como avenidas, creio que essa passagem durou muito mais do que seria plausível, esticando cada minuto além da sua extensão própria de sessenta segundos, quase pude assistir (intacto) a um autêntico concerto de estrelas despencando dos alto cimos do breu, como uma chuva de fogo-de-artifício, que somente findou quando a luz se acendeu, de repente, no quarto da vizinha sob a moldura encortinada da janela, cujo reposteiro de tule e seda azul-turquesa, bordados com motivos geométricos em dourado e prateado, partindo do centro superior descia afastando-se dele, até à base, no parapeito, formando um triângulo – ou delta luminoso – mais iluminado dentro do quadrado da caixilharia. Então nele, no preciso momento em que metia a chave na fechadura da minha porta de casa, surgiu, apareceu nele, a minha vizinha casualmente perscrutante e perscrutando a rua antes de correr as persianas.
Não me recordo agora do nome dela, mas ninguém me tira da ideia de que ela é uma aliada tua, uma personagem do quotidiano de forte afinidade com os teus desejos e estratégias, invariavelmente inoportuna como uma súbdita que me vigia e põe à prova entre as tuas ausências assaz pertinazes. Algo se repetia, pois é inquestionável a impressionante semelhança entre esta rapariga e a outra da história que me contaste, para me convenceres a acompanhar a tua mãe ao médico, com êxito, e a propósito, o que me pôs de sobreaviso, já que quando as circunstâncias se replicam ou duplicam é lógico concluir que os mesmos resultados se verifiquem. O que não tem a mínima prestidigitação ou ilusionismo, antes advém do determinismo positivista como qualquer sociologia. É pragmático e protocolar.
Digamos que essa que aparecia à janela, não sendo visão ou espectro, alucinação nem Maia, coincidia com uma pessoa real mas que esta, por sua vez, se colava em autenticidade a uma outra que tu criaras para figurar numa alegoria expressamente dirigida aos meus sentidos, através da tua narrativa. Seja. Difícil de engolir, e de fraca substância além da metafórica, sobejamente refutável, mas enfim, credível, se não nos afundarmos – aprofundando – excessivamente na factualidade lógica e racional. Todavia, o pior ainda estava para vir… Porque ao infinito, à suprema felicidade, à máxima ventura, como à Utopia, nunca se chegará, pois uma vez aí chegados então elas deixarão de o ser, que todo o brilho se lhe oculta e a atração perdem, pelo que tudo quanto sofremos e penámos para as alcançar vão se tornará, ganhando foros de ninharia.
Por conseguinte, e atalhando, depois de ter aberto a porta, entrado, feito o que é comum fazer antes de me deitar, tomado um Red Q de rooibos, petiscado umas bolachinhas com Mel de Elvas e dois bombons de figo com chocolate, anotado os itens de assunto para a palimpsestura do dia seguinte, lido mais um capítulo do livro combinado no Grupo de Leitura, tomado banho, lavagem dentária, etc., eis que a campainha tocou, num trrrim! breve de picada subtil, um quer-não-quer que soa, não obstante convicto quanto à eficácia para o efeito, que resumido era o de ter-se feito ouvir por mim. Estremeci. Não era hábito ter visitas àquela hora nem o toque me era familiar. Nem tu nem Shara assim tocaram alguma vez e, de resto, além dos vendedores disto & daquilo, durante o dia, raramente me visitavam ali, na minha casa, que era simultaneamente biblioteca, escritório, cozinha e dormitório de comedidos cómodos. Um trrrim! seco e rápido, agudo, afiado, acutilante e estridente, apenas.
Abri a porta de casa em roupão, desci as escadas até à porta do prédio, e sem surpresa alguma deparei com a minha vizinha, exatamente aquela que surgira na janela e em quem reparara a perscrutar a rua enquanto entrava no patim do rés-do-chão prédio de casa. «Boa noite, desculpa incomodar-te a horas tão tardias…» atalhou. «Mas soube hoje que escrevias poemas de devoção a Arina, e estou em pulgas para os conhecer. Podes emprestar-me alguns?»
Sorri vaidoso e radiante. Que coincidência! Precisamente há três dias atrás fizera uma brochura de um livro de poemas, intitulado Nova Razão: Velha Aliança, uma edição caseira de dez exemplares, sem qualquer motivo especial para isso, nem que alguém mo tenha sugerido, e que julguei ser um desperdício de dinheiro e tempo, e agora deparava com a hipótese de o mostrar, na calada da noite a uma conhecida quase desconhecida, e com quem não trocara mais que raríssimos bons-dias ou boas-tardes, que as circunstâncias dos vaivéns diários propiciaram… Porém, não estranhei nada, e além de me rejubilar com a oportunidade, respondi de imediato «tenho sim, e um livro mais ou menos acabado, que te dou, e de que serás o primeiro leitor, quer dizer, leitora. Queres entrar ou preferes que o vá buscar?»
«Não. Eu fico aqui, à espera» ouvi enquanto me virava com galhardia para retornar a casa e trazer-lho.
Voltei num ápice, como um Camões de braço erguido salvando o manuscrito do naufrágio, gravura que parece ter sido peta do marketing e da propaganda, embora desta vez traga algo de verdade e autêntico, porquanto o estava eu a salvar, não como manuscrito mas como edição impressa por meios electrónicos, não das águas frias e obscuras do temeroso mar, mas sim das turbulentas e maviosas angústias do ostracismo e anonimato, da solidão e incompreendida saga que acompanha, inevitavelmente, qualquer primeira obra de um autor sobejamente desconhecido – até da família. E entreguei-lho sublinhando que «não é emprestado, é dado. Será uma prova da empatia que existe entre nós, ok?», coisa bizarra que me saiu sem o mínimo sentido, mas de que só me dei conta depois de ela ter agradecido num «certo. Obrigada. Depois digo-te o que achei dele, se tiver achado alguma coisa, como deves entender… Boa noite!»
E este boa-noite misturou-se no até amanhã de Shara quando me despedi de ti. Vida complicada a minha!... Nada me acontece por menos, refleti, entrementes, ao subir lentamente os degraus de regresso ao quarto, numa escalada de sobressalto em sobressalto, como se girasse num torvelinho de sensações contraditórias e reconhecidas contradições de náufrago ao-deus-dará.
A vida, e o mundo nela, é mesmo um entroncamento de surpresas e variáveis inesperadas, onde basta um clic, um trrrrim!, um olhar, um ato, um gesto, uma palavra, para que tudo quanto era verdade e certo se tornar ilusão e engano, ou vice-versa, ou o monótono e melancólico, fatídico e previsível, se mostrar inconcebível e turbulento. Se adormecemos, sonhamos. Se ficamos acordados, alguém nos desperta e amplifica os sentidos para além do suportável…
Podia contar-vos o desassossego que foi a minha noite. Mas nem tento: ninguém acreditaria!

2.19.2011

Conto da Semana

Nos Condomínios do Cálice Único

“Mais tarde estenderam se sobre a cama amigavelmente com o calor da tarde lá fora, ele a ler e ela com os auscultadores do seu minigravador (o teu diadema; chamava lhe ele) enterrado no cabelo húmido e puxado para trás como gavinhas de videira à volta dos dedos dele que giravam distraidamente. De vez em quando, sem falar, ela tirava de repente os auscultadores e encostava um ao ouvido dele, fechando os olhos e cerrando a sua boca macia, arrebatada pelo que estava a ouvir.”

In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer

“Rosas sem fim. Flores caídas
Num chão amassado por rodas,
Sem outras forças para lidas
Que não as que nos restam, tidas
Como perdidas, quase todas.”

In http://escribalista.blogspot.com/, de Joaquim Castanho

Pressinto que nunca conseguirei trair-te. Até quando o faço contigo mesma, quando me dirijo a ti para dizer coisas a Shara, ou vice-versa, quando lhe digo algo que te é exclusivamente dirigido, toma-me um mal-estar insuportável que apenas consigo superar porque me convenço, de forma determinada, incontestável e incontroversa, que se assim o não fizer, então jamais o escutarás, uma vez que esses conteúdos não estão na tua linha de prioridades e só a curiosidade de saberes como Shara lhe reage te leva a atendê-los e considera-los, o que é igualmente verdade da parte dela, pois dificilmente os escutaria se lhos dissesse diretamente.
Creio que os casais que buscam ajuda exterior para se manterem casados, recorrendo a amantes ou encontros fortuitos, as chamadas escapadelas ou facadinhas no matrimónio, se servem de idêntico artifício embora aquilo que lucram em flexibilidade e comunicação o percam, em grau agravado, com o acrescido sentimento de culpa daí advindo e notório rombo na autoestima. É inevitável. Sobretudo quando a manobra acarreta prazer, onde a culpabilidade lhe resulta inversamente proporcional, no típico contentamento descontente que a poesia camoniana traduz (exemplarmente).
Todavia, nesse falar à tua imagem para que só tu ouças, às vezes o jogo vai muito para além do racional e plausível. Porque o descobriste, e te fazes passar amiúde por ela, ou leva-la a substituir-te e representar-te, iludindo-me. Assim, não raro dirijo-me à fantasia e é a realidade quem me responde. Shara atua em teu nome, veste-se no rigor da modernidade, vai para o teu trabalho em teu lugar, assume e faz tudo quanto só a ti diz respeito e ninguém nota, principalmente eu, que sou quem melhor conhece as diferenças entre ambas. As Maias celebradas na cidade também se acotovelam para encarnar nas raparigas que as representam, mas findos os festejos regressam ao seu mundo onírico e fantástico do qual se ausentaram por invocação humana, com intensidade e durabilidade marcada. Tu, não. Tu insurgiste-te ativa e depois permaneces nesse universo conforme a performance que determinaste manter.
Foste tu quem nos deixou no consultório médico, a tua mãe e a mim, mas foi Shara quem depois do serviço nos veio buscar e lanchou connosco, na pastelaria em frente do consultório, antes de regressarmos a casa – tenho a certeza. Suponho que foi por temeres a verdade acerca dos resultados das análises, caso eles tivessem confirmado o pior. Mandaste-a à frente como tua batedora pessoal, a ver o que encontrarias e como deverias preparar-te para lhe responderes a contento. Reconheci-a porque não trazias os óculos de sol, que sempre usas, resguardando-te da luminosidade do dia como do nosso olhar inquiridor, tão comum aos dois, e sob o mesmo propósito de espiolhar o teu estado de espírito, ou o ânimo que o habita. «Então, que novidades?», perguntaste ainda antes de te sentares à mesa, sem a manifesta ansiedade que acompanha os casos iguais.
«Tudo normal» respondi, carregando maior ênfase no «mas tem que voltar ao médico mensalmente, renovar os exames e análise de três em três meses, e estar com atenção redobrada quanto a nódulos e erupções de pele», o que não é propriamente novidade nenhuma, já que têm sido esses os comportamentos estipulados do último ano. Ela fitou-me; quer dizer, tu contraíste as pálpebras numa fita fina de concentrada acuidade, medindo e avaliando o meu envolvimento emocional e afetivo na declaração, confirmando as expectativas depositadas, pelo menos a considerar pelo sorriso que esboçaste de seguida, acentuando com o «isso vai ser fácil, e não te estorvará os afazeres minimamente» que o decreto continuava em vigor, e que a minha missão só expiraria consoante as melhoras definitivas de D. Catarina, o que me fez desejá-las mais intensamente, não só por a considerar uma pessoa extraordinária que merecia tudo do melhor que a vida reserva aos afortunados, mas também porque assim me veria liberto da função de acompanhante privilegiado. Mas contendo-me em manifestar essa vertente, pois caso ela a adivinhasse me concederia (indubitavelmente, e por consequência) reprimenda requintada. Homem avisado tem o êxito reservado!
«E tu?» quis saber. «Conseguiste trabalhar bem?»
«Claro. Acho que rendeu muito mais do que se tivesse ficado fechado em casa. Menos concentrado e com algumas interrupções, mas deveras proveitoso e sem stress. Com prazer, até…» O que não pode ser visto como uma capitulação, mas como uma nova experiência que resultou positivamente. Pensar, ler, escrever, criar, é mais produtivo e reflete melhor a vida quando quem o faz está envolvido e misturado também nela. A clausura intelectual é redundante e viciosa. Custa mais enveredar pelo disparate, todavia uma vez entrados nos seus condomínios, estes tornam-se labirínticos, e dificilmente de lá sairemos – ilesos. Resolutos. E inspirados. A boa companhia humana é higiénica e asséptica se queremos evoluir na qualidade da criação artística. Não há génios literários onde a comunicação apenas se alimenta da desértica solidão do amor-próprio e do narcisismo niilista. É essencial viver-se em sociedade quando nos queremos dirigir à sociedade e criar mais-valia socializadora, aprofundar da natureza humana e ser prazenteiramente útil a quem nos paga as facturas da sobrevivência, aperfeiçoamento, modernização técnica e valorização pessoal.
Portanto, reconhecer benefício e gratidão para com Shara e a mãe dela, não era uma derrota minha, antes um favor que me fizeram permitindo-se partilhar um momento difícil comigo, um voto de confiança e de aceitação em suas vidas. O caminho mais eficaz, rápido e sustentável, para o filho da mulher é o reconhecimento aprazível da sua mãe, e da maternidade que ambas (com)partilham; eis o segredo ancestral que originou a humanidade.
Depois de nos banquetearmos com as iguarias conventuais típicas do nosso interior provinciano, decidimos passar o resto do dia em casa, na cozinha tagarelando sobre tudo e nada, discutindo os pormenores sempre intrigantes e inerentes ao fazer coisa nenhuma, excepto o estarmos juntos pelo gosto que isso nos dá. O teu pai juntou-se-nos pouco antes do jantar, trazendo uma dose reforçada de novidades sobre o quotidiano das redondezas. Do café, o futebol, a política e os desmandos matrimoniais ou extramatrimoniais deste e daquela. Do trabalho, a crise económica e os seus efeitos diretos e indiretos. Tu, regressaras entretanto, afastando Shara do meio doméstico a que não está tão habituada como tu, e que a deixa circunspecta e expectante, indecisa mesmo, de arredia espontaneidade e propensa a frequentes hesitações.
Não podia queixar-me. A vida corria-me de feição, e às vezes ainda me recompensava com umas lasquinhas da tua afeição. Toques subtis, afagos naturais e desintencionados, o cheiro do teu cabelo, pequenos beijos nos olhares que se encontram (afloram) casualmente, o calor das tuas coxas que se demora quando nos aproximamos nisto e naquilo que o periquitar familiar nos exige, as tarefas propõem e a atenção mútua e redobrada sublinham. Nada de sobrenatural nem exorbitante, porém recheado de detalhes ínfimos ultrassignificativos. Apenas latência e atração num desejo que se prolonga até às fronteiras do (in)suportável.
E quando enfim os teus pais me desejaram boas-noites, despedindo-se e despedindo-me (muito diplomaticamente, como é óbvio e costume), sugerindo-me a retirada, vieste comigo à porta. Seguraste-me contra ti, fixando-me no fundo dos olhos, retendo-me numa distância suficientemente discernível para a transformação que ia acontecer, sem receios nem excentricidades. Primeiro reconheci a incandescência do teu olhar e vi que já não era o teu, mas o dela. Depois, a voz que me segredou «até amanhã» como se viesse das entranhas inquestionáveis da alma. Em seguida, o sentido imortal que transpareceu nos lábios ao beijar-te, como se aflorasse pétalas de aveludada sofreguidão. E finalmente o terno e doce aroma que se soltou do teu corpo num estremecido e morno abraço, deram-me provas irrefutáveis que tu eras ela nesse momento. Que Shara tinha voltado, e a sua recordação me acompanharia até casa, me habitaria o sonho durante o tempo que nos separava do novo dia. Jamais duvidei dessa hipótese, sobretudo porque todo o meu ser e consciência estavam despertos e acesos nessa inequívoca certeza.
Indesmentível. Mesmo que a minha fé se vertesse por outros cálices!

2.14.2011

Conto da Semana - e do dia 14!

Petrarca Reincidente II

E nas noites a terra pesada cai
De todas as estrelas para a solidão.

Todos caímos. Esta mão cai
E olha os outros: está em todos.

E contudo há Alguém que detém,
Infinitamente suave, este cair nas suas mãos.

(Excerto de um poema de Rainer Maria Rilke, incluído por Nadine Gordimer, no seu romance Um Mundo de Estranhos)


É nas alturas menos convenientes, quando a solidão rasga seus sulcos entre os minutos da espera, e ecoam as últimas palavras que nos dissemos, que os olhos se perdem no infinito como se este fosse a sua primeira casa, o estado de origem a que a matriz nos reporta na impaciência do reencontro. Quando demoras a passar sou eu quem fica sem jeito, aquele que te trai com Shara, e que trai Shara contigo, embora tu e ela a mesma pessoa sejam. O acaso me dita que medite nesta constatação irrevogável… Contudo, tenho que reconhecer, que as duas muitas vezes se unem contra mim, fazendo-me sentir a dolorosa mão pesada de uma solidão duplamente solitária!
Reconheço igualmente que sou egoísta, extremamente egoísta contigo, e que me roo de inveja das pessoas com quem convives diariamente, deixando-me isso acabrunhado, sorumbático, aflito, inseguro e danado por seres capaz de me trocar – sim “trocar” é o termo exato e preciso na medida do que sinto – por quem não te adora e admira como só eu sei que faço e acho que mais ninguém é digno de fazer, não raro deixando-me abalado e remoendo despeitos vários, que somente não explodem em desaforos e pedidos de reparação porque, enfim, temo que não haja depois soneto que me salve e recupere da emenda. Tanto mais que nos dias seguintes sublinharás o deslize repetindo-o até à exaustão, exatamente com essas pessoas, reiterando quanto és vítima das minhas monstruosidades solicitando-lhes razão no «mas que mal é que tem eu querer-me relacionar também com gente civilizada e não só com mentecaptos como ele, para quem tudo tem faltas e todos são indesejáveis, ninguém está à altura do seu nível de sensatez e boas-intenções», ao que as pessoas em causa aproveitam para retribuir o favor que ela lhes faz, acentuando que sou mil vezes pior do que supõe, já que se antes de casar me considero um ditador intolerante, então depois é que vão ser elas, dando-lhe a adivinhar o inferno que lhe está reservado, exclusivamente pelo meu feitio, aptidões malfazejas e possessivas, ou agressividade perante a frustração.
Ela anui. Satisfeitíssima com os resultados sorris, rejubilas no contentamento altamente científico de quem vê confirmadas todas as suas mais pertinazes, inconcebíveis e incongruentes hipóteses, e pondo em evidência quanto azar te cabe como recompensa em teres afeto e respeito por quem é ingrato e não reconhece o bem que lhe querem. Noutras alturas essas desavenças seriam motivo e conteúdo de belos e exemplares sonetos, se não me tivessem sido proibidos… Sonetos de amor feito com ganas, na raiva doce das diástoles, prolongando as sílabas breves até ao infinito da voz, esticando a urgência e imperiosidade da fala até ao insustentável da respiração, ao esgotamento do fôlego num único verso. Encurtando as longas até ao subtil pormenor de um clic, de um insight sonoro, fonema seco e sem eco. Todavia, impotente, calo-me na expectativa da borrasca anunciada e ansiando pela oportunidade de dar-te o troco numa recusa de olhar, virar-te as costas sem responder às perguntas que me faças, fazer orelhas moucas ao que disseres acerca de quaisquer assuntos que sejam, importante ou triviais, que em tempo de “guerra” não se limpam armas.
Que surge sempre. Sempre, desde que estejamos atentos. Suficientemente lúcidos e objetivos para a descortinarmos entre a espontaneidade de quem não se preocupa nem teme seja o que for da nossa parte, cujo atração, ternura e entrega é aquela garantia de segurança que jamais se dissolverá esmorecendo.
Mas que ocorre irremediavelmente num relacionamento se para tanto nos assistir a paciência da espera, coisa em que estou supimpamente treinado, graças àquelas intermináveis horas dos longos dias, meses e anos em que esperei por ti, primeiro por ela é claro, pois Shara suponho terá nascido (primeiro e) comigo, não ao mesmo tempo, mas assim que reconheci que não era o único ser que habitava o centro do mundo, e depois por ti, logo que te conheci, por considerar – não, o termo próprio é mais acreditar – que eras ela, não ideal e ancestral como Shara, mas real e presente, atual e em carne e osso como viva atualização dela. Incarnada e igualmente soberana.
Portanto, esse momento chegou de seguida, sem rogo nem demoras, sob o apelo inequívoco dos necessitados que penam no desespero de uma reparação. Quase em simultâneo com a saída de casa, exatamente essa que me deixou em carne viva, me arrancou quanta pele tinha e me defendia no contacto com o exterior, pondo-me a alma a nu e insuflando todos os sentidos até à sua insuportável constatação, esquartejando-a para a mergulhar no álcool puro da tua voz, quando te sentaste ao volante do carro e mencionaste que a tua mãe, D. Catarina, a ilustre senhora com quem simpatizo excecionalmente e por quem nutro aquele autêntico carinho e empatia típicos de alguém que se sente como se seu próprio filho fosse, ia nessa tarde ao médico, para consulta e saber o resultado dos exames que fizera na semana anterior, logo, na semana passada, e preferias que eu ficasse com ela, a fazer-lhe companhia, enquanto aguardava a consulta e depois, até que saísses do serviço, porque ficavas mais descansada comigo junto dela, pois os resultados poderiam inquietá-la ou assustá-la, conforme o grau de gravidade que declarassem.
Porém, eu tinha os “fones” nos ouvidos e não manifestei ter-te ouvido, o que te irritou notoriamente exigindo «tira essas coisas das orelhas quando falo contigo, por favor, ok? Afinal já não és nenhum teenager com necessidade de afirmação, para quem tudo aquilo que as pessoas, os adultos e responsáveis, dizem, é uma seca» inoportuna, é óbvio, a representação da surdez, uma vez que nem estava o som ligado, embora tenha sido suficientemente expressivo no atendimento dando ênfase à desatenção num «o quê? Que estás a dizer?» em voz bem alta de quem veio de outros decibéis e está nem aí para o que lhe disseram.
Notei o consequente rilhar de dentes e os pés jogaram de raiva no acelerar e travar com rispidez, indo a puxar até às curvas para depois refrear mesmo em cima delas, numa gáspea inusitada. «Fera à solta: cuidado», apeteceu-me avisar os transeuntes, mas disfarcei assobiando As Pombinhas da Cat’rina a ver se ela saía fora de mão, dando-me motivo para uma reprimenda exemplar. Porém, e ao contrário do que supunha, Shara abrandou, encostou à direita numa box de estacionamento livre, e desenrolou os pergaminhos que lhe dão jus ao nome, contando-me uma história, sem ponta por onde se lhe pegue, é evidentíssimo, mas a que o indicativo não permitia quaisquer dúvidas acerca do enredo que arrastaria consigo no «era uma vez um menino que se considerava muito esperto. Tinha alguma inteligência, pelo menos a suficiente para discernir que sem trabalho, preparação, estudo e planeamento nada se consegue. E vai daí, esmerou-se na aplicação, tornou-se objetivo e direto, perspicaz e sucinto. Um belo dia, com o sol a despontar entre o esfiapado encastelamento das raras nuvens, a temperatura de uma primavera morna e bucólica, ao sair de sua casa, reparou que aquela rapariga que ele todos os dias via e o observava intrigada, ainda que apenas estranhamente curioso, na janela da casa fronteira à sua, tinha um penteado diferente do habitual, e na sobre a fronte, jungindo as madeixas castanho-escuras dos cabelos ondeados, um diadema de prata com a lua em quarto crescente, do qual pendia um diminuto rubi em forma de gota, talvez lágrima, quiçá cristal sanguíneo, cujos reflexos pareciam disparar em todas as direções, num leque luminoso de concha marinha. Estes emaranhavam-se quase com os cabelos, dando a impressão de se prolongarem como raízes ou trama de teia assimétrica» e eu tentei descortinar isso nela, mirando-lhe o penteado que lhe emoldurava o rosto miúdo onde o seu olhar acutilante, incisivo, impertinente, no castanho-escuro ainda mais escurecido do que o habitual, me fisgava medindo as reações. Avaliando o interesse, a atenção, a sede, enfim, o efeito direto da sua narrativa.
E continuou «surpreendido e intrigado sobre visão proporcionada, uma vez que desde há muito a conhecia e via, quase diariamente, por sinal, mas nunca lhe tinha notado qualquer encanto, enquanto caminhava, descendo a rua, esforçando-se por mantê-la ao alcance da vista, inclinando a cabeça, até deixar de a ver, consequência da dobra da esquina com a rua transversal por onde seguiu adiante. Todavia, desaparecida que lhe foi da vista o mesmo não aconteceu do coração, deixando-o ensimesmado e a vê-la na sua frente, numa imagem vivaz e duradoura que insistia em não apagar-se com o distanciamento. Que perdurava para além do sensato e racional, sensível e fatual. Quis desfazer-se da imagem, escorraçar a lembrança, diminuir a intensidade da alucinação positiva com que se debatia, contudo sem o menor êxito, porquanto se viu frente a frente com ela nas vidraças das montras, nos vidros dos autocarros, nos espelhos por que passou. Então, corroído pelo prazer que esta lhe causava, mas contrariado e aflito pela falta de controlo que a ela o ligava, decidiu fechar os olhos com todas as forças e concentração que lhe foram possíveis, durante o resto do trajeto que faltava para o fim da viagem no autocarro que apanhara para a Estrada da Ponte, e com destino preciso na ponte desta estrada. E tanta força fez, tão intensa concentração auferiu, que quase conseguiu “matar” essa aparição incontrolável. Foi então que ouviu uma voz, inconfundível e que identificou com a da dita vizinha, que lhe dizia: nenhuma estrela se apagará com o sopro humano, e nem mesmo as candentes, param de brilhar quando passam para o outro lado da terra.»
Depois calou-se e pôs a viatura em andamento, sem demonstrar que a história terminara. Não obstante eu, que intentara vingar-me, fitei-a com manifesta timidez e receio, confirmando «está bem. Nos consultórios médicos também se pode ler, e hoje não tenho mais nada para fazer. Quando ela estiver despachada mando-te uma mensagem com os resultados. Gostava que lanchássemos todos juntos. De acordo?»
«Ótimo. Tentarei chegar o mais cedo possível.»
E foi tudo. Nada ficara por esclarecer. Apenas a leve sensação que faltavam algumas notas à música que vinha de fora, quando parámos nos semáforos junto à Fonte do Rossio… Mas não parecia ser nada grave!

Os Liliputianos e o Fado: Ai, Mouraria!

Os Liliputianos das Grandezas

“E entretanto, deixe-se que a polícia e a tropa negoceiem, de um modo mais eficaz, com os grevistas e os manifestantes, com os eloquentes agitadores, pretos e brancos, dentro do país. E se não conseguirem, há porém outra maneira de negociar: nunca apanhar aqueles que eliminam os agitadores, matando por detrás de rostos tapados e disparando de carros em andamento.”
In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, pág. 244.


Nem tudo o que se diz é luz. Embora o silêncio cúmplice e tácito acerca de todas as matérias que incomodam o status quo, seja ainda mais negro que o ignaro breu, mais escuro que toda a ignorância oriunda das trevas do Hades da Antiguidade Clássica, precisamente aquela que gerou e foi causa direta do obscurantismo (escolástico) medieval. Naquele tempo ainda só havia bons e maus, e o grande desígnio nacional – ou patriótico! – residia em conseguir agremiar os bons num clube, ginásio, partido, associação, escola, castelo, convento, quartel, repartição, café, corrente de estética, comissão, directório ou bairro, para, todos juntos, numa data estudamente marcada, os bons armados do que houvesse ou a lei deixasse passar, irem fazer mal aos maus. Os maus eram sempre – e nisso o tempo não mudou! – notoriamente mais frágeis, mais pobres, mais feios, mais dependentes e mais desprevenidos, não obstante que em menor número, menos corporativistas e até muito mais trabalhadores, expeditos, objetivos, lúcidos, responsáveis, conscientes, francos, transparentes e insistentes. Porém, tal não os desculpabilizava de nada, nem os redimia da herança genética, por cuja a má índole lhes coubera por completo, uma vez que já os seus trisavôs, bisavós, avós e pais foram, eram e são igualmente maus. E é desse tempo que sentem saudades os bons, pois podiam ser maus por uma boa causa, tentando continuamente restaurar a ordem e a lei e o progresso plantando as suas bandeiras onde o chão ainda o permitisse, sabendo demasiado bem que o melhor solo para esse plantio era a educação, o sistema de ensino, quintal onde florescia menina e menino, criando colégios de excelência em que o cultivo melhor rentabilidade oferecia.
Portanto desiludam-se aqueles e aquela gente que pensou que iria ler uma crónica da actualidade, porque não é sobre os dias de hoje que aqui se vai tergiversar, mas acerca daquele tempo em que havia bons e maus, bons com distinção e medíocres, muito bons e muito maus – e eram todos santificadamente felizes no assim-assim que a vida lhes oferecia, Deus dava, o Destino lhes reservara e as Igrejas prometiam. Desse tempo em que não era deveras hilariante verificar como é que pessoas que nem um livro liam por mês – quando liam! Que não raro passavam-se anos e anos sem tocar em book, a não ser para vender, impingir ou queimar… – eram as primeiras a saber como os outros, aqueles que liam dois ou três livros por semana, deviam ler, interpretar e analisar o que liam, bem como o que era aconselhável e desejável lerem. «Mistérios!» exclamará quem daquele tempo não for, talvez proclamando a rogo de Hefesto que em casa de ferreiro espeto de pau, coisa que nem ele nem Afrodite mereciam, quer pelo exemplo de Eros, o seu primeiro filho, quer pelas maneiras de Antero, que se lhe seguiu, dando ênfase à atitude desse tipo de gente que tudo sabe, tudo tem ou tudo tem de sobra, e a quem não incomoda nem estorva o mínimo resquício de consciência, civismo e consideração pelos demais, enfim, como dizem do outro lado do oceano, gente que não se manca nem quando a maka (mentira) é grande.
Elemento dessa Mocidade a que se chamou Portuguesa, não obstante a descarada metonímia da parte pelo todo transpire em cada sílaba, Liliputo Sonso foi uma dessas afortunadas crianças a quem os calções cor de café com leite assentaram que nem luva por medida em mão pródiga de ilusionista em part-time. Prodígio insuspeitável, conseguia as melhores notas da turma sem pegar num livro, jamais estudou para um ponto, dispensou a todos os exames, nunca copiou e se o fez, foi por algum colega tendo nota superior à dele, coisa que considerou deveras justa uma vez que lhe passara a limpo, revira e corrigira o saber. Faltas e futebol foram feitos de honra na finta aos tutores e encarregados de educação, porquanto se umas eram renovadas no outro eram repetidas (vitórias). E Fátima renovou-lhe a esperança e carregou-lhe as baterias da fé se, coisa muito pouco provável, alguma vez ousou duvidar pondo em causa a supremacia da espécie e a superioridade do género.

Portanto, este Liliputo, da família dos Sonsos à portuguesa, na baixa tensão das artérias do progresso e do desenvolvimento, passou a vida profissional à espera da reforma, que foi o objetivo primeiro da sua existência, do seu curso e de todos os sacrifícios inscritos no típico deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, com preocupação fundamental no aposentar-se ainda em bom estado e com perspetivas de duração, garantindo o total reembolso de quanto descontara, mês após mês para a segurança Social, com o juro na devida correção monetária, durante o tempo de exercício da profissão. Todavia, um dia acordou assustado, sob as expectativas badaladas da falência e insustentabilidade do sistema… Um sistema que, tal como a velha senhora terá falecido sem que ninguém lhe notasse a falta ou tivesse agido de forma a saber o que lhe sucedera, e só depois de 8/9 anos da sua morte, 13 insistentes visitas/participações à Justiça por parte de um familiar, inúmeras diligências promovidas por diversas pessoas junto das autoridades de segurança civil (PSP) e paramilitar (GNR), e que apenas viera a ser encontrada morta porque lhe venderam os tarecos ou bens, sem a sua autorização, nomeadamente o imóvel que não tinham permissão legal para abrir mas da qual não precisaram a fim de a leiloar. Um sistema que está moribundo a ponto de já não ser capaz de reconhecer o seu estado de saúde. Que comete crimes inacreditáveis, inauditos e hediondos mas que já nem se envergonha disso, e onde a culpa morrerá inevitavelmente solteira, porque as corporações envolvidas na situação precisam de defender o seu bom nome e o dos membros diretamente responsáveis pela omissão de segurança, caprichando no branqueamento e no esquecimento da ocorrência.
A notícia abalou-o e viu-se numa fona para recuperar o apetite. Esmiuçou-se, emagreceu, encarquilhou-se na pele e no ânimo. Sofreu cólicas terríveis em diversos órgãos, ardeu-lhe a bexiga de tanto urinar-se, e esvaiu-se numa diarreia abundante e contínua. A tez antes esbelta e altiva, luzidia e imaculada, ficou-lhe de dia para dia parda e enrugada com propensões para a de tartaruga velha a que nenhum creme gorduroso ofereceu perspetivas de melhoria. De bilioso azedou, tornou-se avarento, vingativo e picuinhas. De ressentido inventou defeitos e vícios nos demais, sobretudo nos vizinhos, colegas e familiares que não lhe viraram as costas com descaro e ostensivamente, respeitando-o na esperança de que pagasse na mesma moeda, a debalde claro está, que quanto maior foi o défice maior se tornou a ofensa e ressentimento por crédito. Assim como se de tão evidente lhe sentira a frustração, melhor evidenciara a agressividade da resposta que lhe dava, odiando tudo e todos, fazendo de cada minuto uma guerra fria e de cada hora um resgate de espoliado.

Então, empunhou a bandeira do patriotismo e aspergiu com os santos óleos o chão fronteiro às Necessidades e a S. Bento, gritou ser uma condenação e uma hipoteca sobre o futuro não contribuir para o privilégio de uns com o desmérito dos demais, principalmente dos que depois hão de competir com eles na busca de emprego e melhores condições de vida, configurando a justiça social sob a bitola da injustiça, argumentando com o costumeiro se sempre assim foi por que não há de continuar a ser, porquanto os radicalismos demoníacos são agentes de mudança que nenhum liberal tem por benfazejos. E o que cria a ordem, gera o progresso, alimenta o status quo é precisamente o tudo na mesma como dantes no quartel de Abrantes, onde qualquer pátria resguarda a sua elite e propala a fé desengonçada em pulos e cantares, palha e outros manjares, nas capas das gaiatas e dos tunantes. Ora pois. Que se já não tem a farda da Mocidade (à portuguesa) muito lhe sobra noutras iguarias do trajar desde que queira contra os iguais marchar, marchar.
E a pergunta que se põe, para remate de conversa sobre o tempo de outros tempos, é, com certeza, saber se no presente vamos ter de pagar a educação e o instruir daqueles que com os nossos filhos vão competir? Se sim, está encontrada a resolução, para quê atrás desses tempos outros tempos hão de vir, uma vez que a condição dos nascidos sem condição não muda por mais que façam para dela querer sair? E ser pequeno em Liliput é que é ser normal, tendo sonhos de grandeza para que nunca seque esta vontade de regar a realeza: façam os bons mal aos maus, que o ataque é a melhor defesa!

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A pessoa entre as sombras de ser