La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.28.2011

Muito Pode Quem Não cala


O Poder da Fala

"É preciso um espírito muito especial para analisar o que é óbvio."

– A. N. Whitehead

Entre o provérbio e o verbo pró (ou contra), não há apenas o conceito de espaço-quando, nem sequer a manifesta intenção de acondicionar o saber de experiência feito numa embalagem linguística passível de ser acatada pelo maior número possível de utilizadores – ou falantes –, mas antes a noção ética que reflecte na íntegra o inconsciente colectivo que o gerou, nas mais profundas e arreigadas inspirações da criação engajada numa civilização, demonstrando assim a qualidade semântica de uma tese que, por si só, não obstante os registos "literários" em que eclodiu, detonou também a antítese que lhe corresponde e a síntese que é o produto de ambas. Logo, ao analisar os provérbios de um povo, de uma língua, de uma cultura, de uma região, de uma espiritualidade, nós não obtemos somente o espelho vivo desse povo, dessa cultura, dessa mentalidade, dessa língua, desse território ou desse universo de sentidos e conteúdos, como igualmente a sua capacidade de gerar modelos de pensamento, lições de vida e constructos mentais úteis no futuro, garantindo consequentemente a sustentabilidade da civilização que comporta.

Quem ateia fogo à noite, de manhã respira-lhe as cinzas. E ninguém está fora dos provérbios por mais cursos que tenha e não obstante as áreas curriculares que estes abranjam. Podem tergiversar, argumentar em contrário quanto lhes aprouver, e ainda que esporadicamente a mentira dita, possa ser tão bem arquitectada, em estilo nobre, cimentado, lógico e convincente, que por assim mesmo a consideremos merecer ser verdade, não há de ser por isso que em tal se tornará. Pois não é pelo facto de a sabedoria ser popular que deixa de ser sabedoria, nem um qualquer provérbio que nasceu das práticas e observações milenares por obsoleto fique, e isto aconteça simplesmente porque a nossa modernidade e falta de experiência o não reconhece, nem valor lhe atribua.

Os homens e as mulheres sabem-no, independentemente de lhe ter acontecido, ou não. Principalmente as mulheres, a quem as consequências dos seus actos, lhe ficam vincadas no corpo como na alma, apesar de quantos avisos e contracepções a que tenham recorrido. Ou a Lua as omita da vigilância natural com que lhes ferve as hormonas ao lume brando do mistério na congeminação da vida. Bem como os adultos de todos os continentes que devem aquilo que verdadeiramente são às crianças que foram e educação que receberam, cuja qualidade enquanto seres humanos reflecte o saber fazer e o saber aprender que os habilitou para as suas profissões, é inegável, ou o saber ser e saber estar que lhes providenciou o estatuto social que actualmente estão a usufruir – e desempenhar. E muito mais que uma sentença, uma determinação do destino, uma conclusão inevitável, eis que essa sabedoria geral se lucubra* na multidisciplinariedade (curricular ou envolvente) que lhe dirige o sentido comum, como cliché ou frase feita, é óbvio, não porque o uso a desgaste e o abuso a esvazie de acutilância crítica, porventura diminuindo-lhe a sagacidade, pertinácia e agudeza de espírito, senão porque o seu peso significativo é tão grande que passou a ser aplicada por tudo e por nada, conforme as necessidades de cada um e em resultado do seu limitado conhecimento, ou desconhecimento, já que as pessoas lhe recorrem e a aplicam em lugar de outras e outros de que não se "lembram" ao momento.

Até pode ser consequência directa das derivas polissémicas que fomenta e inspira, uma espécie de boomerang sofrido por almejar estender o seu significado (extensão) muito para além do reduto sémico em que eclodiu (intenção). Caprichou; lixou-se! Todavia, ao prestar-se como metáfora – aquela palavra ou frase que mete o seu significado fora de si, no ainda além da Taprobana da lusofonia –, enxertando a raiz com um garfo que lhe é estranho, embora não lhe seja adverso, explícita exemplarmente a sua riqueza lexical, denuncia o ensejo colonial e expansionista de uma cultura, que reside inequivocamente na tentativa de monopolizar tudo quanto se possa dizer acerca de um assunto, recorrendo-lhe. Obrigando ao reconhecimento geral de que a totalidade das coisas ditas e enunciados sobre aquilo que está em causa, somente o corroboram – e sublinham. Pelo que, imbuirá de idêntico poder ao que detém, o falante que o emprega, transportando para essa pessoa o seu poder, força que lhe advém dos resultados estatísticos, originando com que aquele que fala diga o que um sem-número de pessoas pensa. Porque esse é o mister da democracia, ou quando a vontade de todos é expressa pela boca de um – o seu líder. Em resumo, um provérbio que ecoa repetindo as mentalidades da generalidade pela fala de cada um. E quando cada qual emite o seu parecer, está a partilhar e participar simultaneamente, contribuindo com o seu voto para melhorar as decisões do seu povo ou da sua pátria. Que o mesmo é afirmar, muito pode quem não cala!

*Lucubrar: 1 – trabalhar ou estudar de noite; 2 – meditar profundamente; 3 – dedicar-se a longos trabalhos intelectuais

3.21.2011

Conto do Dia da (falta de) Poesia


Negócios Corruptos “O melhor favor é o que se faz o mais depressa possível.” Provérbio egípcio Não há justiça nenhuma neste mundo… Um soneto tão bem esgalhado, e aquela criatura só me pagou 0,50€ por ele, dinheiro esse que afinal era meu, que eu tinha investido no sector dos transportes, camionagem e obras lúdicas, em que só não conto quanto não me diverti nelas por vergonha e pudor, e ela, essa abominável carantonha da franja em onda para surfistas mal instruídos, ainda teve o descaramento de tripudiar em cima do meu desalento e infortúnio, acrescentando-lhe como juros uns míseros 0,03€ ao investimento, juros esses que nem chegam aos calcanhares daqueles que a portugalidade vai ter que pagar pela dívida a quem lha comprou. Francamente! Se isto não é martírio, o que é que vamos chamar à Páscoa? Pois. Sobretudo porque entre o culto da água e a água do (o)culto, existe uma enorme diferença que nada tem a ver com questões de liquidez – nem igual grau de pureza ou salubridade: é nela que germina a vida, sendo assim os bastidores e staff operacional da Primavera. Para nos renovarmos como povo e língua, bebê-la é apenas o primeiro passo para uma recuperação (dolorosa) prolongada mas duradoura. Portanto quando recuperei do desastre sofrido na mesa redonda do ajuste de contas, tentei manifestar o meu pesar, outorgando-me vítima magoada das suas ocultas mas destiladas suspeitas. Armei em melindrado, pus nas ventas aquele semblante de poucos amigos que acompanha as tragédias mais tenebrosas do narcisismo molestado, e disse-lhe confrangido que «foste demasiado dura comigo. Aquele sonetinho não tinha mais que catorze versos de cavalheirismo bem-intencionado, de elogio à alegria e beleza, e tu inventaste uma ameaça nele, incluindo um romper de compromissos assumidos em diversas circunstâncias» como se advogasse, não uma defesa da dignidade ofendida, mas antes um direito à inocência e ao usufruir de uma liberdade garantida – e inalienável. Só que tu eriçaste-te, reagiste de supetão com o verbo afiado reclamando que «essa coisinha dos sonetos é mais grave do que parece, meu menino. Não me venhas cá com arrevesadas de vitimização, pois não colam comigo – e já devias sabe-lo. O soneto é apenas a parte superior visível do icebergue das tuas intenções e tendências, submersas no inconsciente, contudo refletidas nas tuas atitudes e comportamentos dos últimos dias. Quando estás à rasca, frágil, a precisar de colo e com a identidade nublosa, eis que vens simpático e prestativo, com prendas e recompensas, solícito, meigo, amistoso, que é uma ternura ver-te nos modos e sensibilidade, palavras e sorrisos. Todavia, mal recuperas do abalo e o ânimo regressa, o equilíbrio recuperado, ficando capaz do prazer e da alegria, então é um regalo ver-te a cirandar de flor em flor, na galhofa, a arreganhares-te para tudo quanto veste saias, ou mesmo não as vestido, evidencia sob as calças os dotes do belo género, como se tudo em ti tivesse nascido precisamente para tal, fosse gentileza donjuanina, expedita e sedutora, oferta generosa de sexo e prazer, maravilha e sonho, realização plausível de todas as fantasias, incluindo as mais ousadas, inauditas, exóticas e recônditas. Em resumo, para te reerguer o ego e reconstruir a confiança, a autoestima e espírito de iniciativa, recorres a mim e à minha ajuda; agora, para usufruir dos prazeres que essa boa-disposição proporciona, preferes recorrer a qualquer gaja, qualquer uma, menos a mim. A mim evitas-me, até no olhar, mostras as trombas características de que toda gente te deve e ninguém paga, fazes-te caro, fino e quezilento, e isso quando não evidencias enorme enfado ou desgosto ao ver-me, mal me aproximo de ti, seja pelo que for. Para te ajudar, sirvo e cá estou; mas para foder e gozar, dispensas bem, e seria a última pessoa de que te lembrarias para o efeito. Quem não cuida e preza aquilo que tem, arrisca-se a perdê-lo, mais tarde ou mais cedo, como tu sabes muito bem. E esta é uma das poucas certezas que este mundo de incertezas tem, como constante. Ok?» Fiquei sem pinga de sangue. Onde é que ela ia buscar aquelas conclusões? Um soneto, um simples e alegre sonetinho, podia sugerir isso tudo! Shara não podia socorrer-me ali, disso tinha noção, sobretudo porque desconfiava que ela te estava a guiar ditando-te as palavras e inspirando-te nas conclusões… Enfim, estava entre a espada e a parede, e se uma tinha a lâmina afiada, a outra era feita de espinhos bicudos e inquebráveis. Para ganhar tempo fui fazer dois cafezinhos, não daqueles intensos e apaladados, antes suaves, de sabor adocicado e subtil, delicado, dois deliQatus da Delta Q, período durante o qual me lembrei do sermão que tua mãe me dera a propósito da sua escolha e variedade sublinhada, onde demorei aquela parte da eternidade que à eternidade ainda falta, e nos faz ansiar para que o tempo voe, o que é um contrassenso, considerando que quanto mais depressa ele passar mais depressa também a nossa durabilidade expirará, quando fui salvo – é exatamente esse o termo apropriado! – pela entrada em casa de teu pai, que nesse sexta-feira saíra do serviço mais cedo precisamente por ser o Dia do Pai, e reparou no meu ar macambúzio se solidarizou imediatamente comigo, prontificando-se a levar os dois cafés para ti e tua mãe, e propondo-me acompanhá-lo numa cervejola preta, fresquinha e saborosa, como nunca tinha bebido até àquele momento. Aceitei com alívio na alma. Porém desconfio que quando ele as foi buscar à cozinha, levando na ida o café de tua mãe, ela deve tê-lo alertado para a gravidade das circunstâncias, visto que voltou de lá com um sorriso de quem estava a par das novidades, dizendo depois, enquanto erguíamos as bejeckas num brinde de empáticas condolências, «meu rapaz, agora tiveste a honra de reconhecer, e padecer, que aquilo que eu digo sobre o ir com elas às compras não é mentira nenhuma. Quando me calha a mim, perco em duas ou três horas muitos anos de vida, e tenho a certeza que grande parte destes cabelos brancos foi ganha nessas idas. Por cada vez que isso sucedeu, a vida nunca mais me foi o que antes fora. Como eu te compreendo…» Tu ouviste tudo mas nem pestanejaste com a confidência. Sequer lhe respondeste, defendo-te ou defendendo-a, a tua mãe, que por retirada na despensa não ouvira o que ele dissera. Eu fixei-te à Benfica, sobretudo quando lhe chamam glorioso depois de sofrida substancial derrota, com vontade de te aplicar o típico «vês, escuta aqui a voz da razão, ou toma lá esta que é de borla», a sondar os efeitos da solidariedade numa refrega de dois contra um, que, como minha avó costumava afirmar, metem-lhe uma palha no cu. Porque fora essa a vantagem que auferiras na viatura, e logo de seguida, em casa, quando me chacinaste com as divagações sobre o género poético em formato de soneto. Jamais o esquecerei. Então, a minha surpresa aumentou descomunalmente, pela reação do teu pai, que insistiu em abraçar-me reparando «venham para cá esses ossos, companheiro. A partir de hoje sei que testemunhaste o meu martírio de mais de 32 dois anos, e que não lhe és indiferente» para, ao mesmo tempo que me jungia segredar-me «preciso de um favor teu. Que vás ao café, e digas lá ao meu pessoal que não contem comigo no petisco desta noite, pois elas as duas com a história do Dia do Pai, armaram-me a arapuca. Vais?» E eu anui, abanando a cabeça no sim-sim do costume com que as mulas comem a ração. E fui, dando por desculpa, ir meter o Euromilhões. Uma mão lava a outra, e com as duas lavamos a cara, como é apanágio do sentimento mafioso mais antigo que a Serra de Ossa, e que devia ter vindo para cá precisamente na altura em que essa montanha era uma mina romana de extração de metais. Tinha sido corrompido, não havia a mínima dúvida, e fechado negócio por uma cervejinha, à semelhança da cumplicidade tasqueira entre dasafortunados do mesmo destino, pagando o favor que ele me fizera, com o cumprimento imediato de outro favor que em troca me pedira. Era a política à portuguesa a ajeitar os laços familiares e matrimoniais… E ainda antes de irmos viver para S. Mamede, homónimo local ao que tivera a batalha que determinou a nossa origem, e foi o princípio de quase nove séculos de História. Seria isso um prenúncio, ou uma repetição das tragédias familiares que, de crise em crise, temos vindo a assistir, numa novela muito mal contada, onde as Xarazades se revezam a contá-la. À História, claro. Até quando estão com ela!

3.17.2011

Conto da Semana - Os Cêntimos Contados

Tudo Por Uns Trocos

“A ocupação de poeta
É nobre por natureza;
Mas todo o ofício tem ossos,
E os deste são a pobreza.”

Nicolau Tolentino, 1740-1811
Arrumadas as compras no porta-bagagem, apressei-me a sentar-me no lugar do morto, de copiloto na navegação em melhores horas, do pendura ou daquele que à boleia se aventura, mas que ao instante, a primeira função assentava na perfeição, dado que me sentia, à vontade e por defeito no arredondamento, dez furos abaixo de jumento em vias de virar cadáver putrefacto.
«Estás tão macambúzio, porquê… O que é que se passa?», quiseste saber mal nos instalámos no carro, enquanto tua mãe foi estacionar o carrinho das compras entre as baias para o efeito, e recuperar os 0,50€ com que eu entrara para o respetivo frete.
«Não se passa absolutamente nada.»
«Nada?!?», estranhou Shara através do teu sorriso matreiro de gozada expressão ou de circunspecta diversão.
«Pronto» consenti eu, elucidando a jovem inquisidora em que te transformaras momentaneamente. «É que ali a senhora», e apontei para tua mãe que vinha na nossa direção, «também já ganhou a mania, de me chamar de Joaquim Maria!»
«Eh, pá! Então, a coisa foi grave: mas o que é que tu fizeste desta vez??»
«Nada, já disse» uma vez que a tua teimosia é um baluarte, sobretudo quando se trata de arrancar-me respostas indizíveis sobre questões inconfessáveis, e volto agora a repeti-lo para que conste publicamente a natureza do meu martírio e os contornos de tortura pidesca que o enquadram. «Absolutamente nada», mas tu não ficaste pelos ajustes, e logo que D. Catarina se acomodou no banco traseiro, eis que a inquiriste sobre as modalidades de convívio com ela na tua ausência.
«Vá minha mãe, conte lá, que tal lhe decorreu a tarde pelo estabelecimento da sua predileção… Aqui o freguês, portou-se bem?»
«Oh, claro, claro. Aí o pendura, portou-se à altura.»
«À altura?!?», indignei-me defendendo a geração, porém à rasca verifiquei, que a maioria vigente não ligou a mínima atenção à manifestação de protesto com que as brindei.
«Sim, à altura… Das funções. Fez-me muito boa companhia, como qualquer Joaquim Maria»
«Faria», aproveitaste tu, para reforçar a rima, ainda assim não caísse ela em soneto mal escondido e com as sílabas ao léu.
Eu suei, nesse entrementes, que nem um Cristo na subida ao Calvário da Paixão e da Agonia, qual Senhor dos Passos com afrontamentos de andropausa, procurando a todo o custo outro rumo prà conversa que tinha enveredado pelo pior dos piores atalhos nas azinhagas existenciais. Até fiz ouvidos de mercador. Colei os mirantes à risca do centro da estrada e contei carros amarelos, azuis e vermelhos, todavia sem nenhum resultado na abstração, considerando que passavam em vertigem e dado me esquecer da cor de cada um no imediato à sua passagem, cruzando-se connosco nesta viagem de ida (e volta atormentada) ao hipermercado das conduções entre o labirinto das iguarias e demais substâncias nutritivas, calóricas e com 10% de desconto, consumindo-me os tutanos e a paciência, coisa que não afectou minimamente as duas, mãe e filha, que se conheciam há tanto tempo que uma nem precisava de dizer mata para a outra esfolar imediatamente e sem quaisquer contemplações.
Entretanto arquitetei um plano de recuperar a autoestima e galhardia. Não trazia grandes garantias de sucesso, porém estava à mão e, se não me facilitasse um ascendente racional sobre elas, pelo menos, oferecia uma hipótese de ganhar tempo para melhores estratégias na luta pela recompostura face à descompostura sofrida. «Ah, D. Catarina… Não se está a esquecer de nada, pois não? A moedinha do carrinho quem a investiu fui eu… Pode ficar com os juros, mas devolva-me o investimento, se faz favor. Ou será que anda a treinar para administradora do BPN?»
«Não, não esqueci. Só que esta moeda faz-me falta. E ela» apontou para a condutora, «lá em casa, dá-te os cinquenta cêntimos. E os juros!»
«Ai, pois dou. Está descansado. Temos que pôr as contas em dia…»
Mau! A minha alma encarquilhou-se de consternado temor e mau-pressentimento. Apalpei a testa e pareceu-me deveras quente, com sintomas de febre. Estaria a chocar alguma gripinha manhosa? O povo inventou essa de um mal nunca vir só, mas sendo eu povo como sou, desconfio das invenções por defeito, pois que, desde manhã até ao fim da tarde unicamente me aconteceram desgraças.
Portanto, assolapei-me. O trânsito, pelas horas que eram, demonstrava o frenesim típico do fim de um dia de trabalho, embora o tráfego fluísse com desenvoltura e sem contratempos, nem precisão de manobras perigosas ou desvios suplementares. E como a distância entre a casa de Shara e o hipermercado rondava o par de quilómetros, a viagem resumiu-se apenas a alguns minutos de cu tremido, sobretudo na Estrada da Ponte, onde os paralelos formam socalcos notórios e uma trepidação constante. Mas finalmente aportámos, termo aliás exato, uma vez que tu estacionaste precisamente em frente à portas de casa, isto é, no nº 32 da Rua da Igreja, paredes meias com o Tonel Bar, que é a melhor tasca de Casal Parado, terra de tradição tasqueira, e localidade onde tudo acontece daquilo que não sucede em nenhum outro lugar (nacional ou estrangeiro). Porque não querem, ou porque não podem, essa será outra questão que não é prà’qui chamada.
No transporte dos produtos do carro para casa cruzámo-nos os três diversas vezes com o vaivém, sem que nenhum pormenor de monta mereça ser contado, excepto quando me lamentei acerca do fato, de quer uma, como a outra, deixarem sempre os sacos mais pesados para mim, lamento esse que D. Catarina ouviu muito bem, aproveitando a ocasião para renovar as suas suspeitas quanto à maneira com que costumas tratar-me das frescuras, aconselhando-me «’tá com essas lamúrias, ‘tá, que se ela ouve, arranjas a fresca!», o que resultou de pleno, porquanto durante o resto do acarreto jamais abri o bico, nem sequer para bafejar as mãos que esfriaram no balanço.
Porém, o petisco já estava ao lume de há muito, brandamente congeminado pela tua cabecinha maquiavélica e maléfica, e não tive que esperar “demasiado” para que me fosse servido com esmero e requintadamente.
«Mãezinha, arrume isto como só você sabe, que aqui apenas atrapalhamos, e nós vamos para a sala conferir as faturas, ok?»
«Vai lá, vai lá, que isto agora, até ao jantar, ainda demora na arrumação. Esta vida é mesmo um tirar e pôr… Foi primeiro das prateleiras prò carrinho, do carrinho prò carro, do carro prà cozinha, e agora da cozinha para os armários e estantes. Nestes dias pareço uma fiel… de armazém!»
Fomos. Quer dizer, ela foi para a sala, e levou-me a reboque. Ainda tentei resistir, mas para não agravar o contencioso, fi-lo com pouco convicção e sem empenho na refrega. Sentámo-nos à mesa redonda, tu puseste o porta-moedas entre os dois, com a mão direita sobre ele, como se estivesses a jurar sobre a Bíblia, e começaste a prédica mais arrevesada que alguma vez te ouvi: «Meu menino», conforme a tua fórmula habitual para os puxões de orelhas, «meu menino, a minha amiga X9», e aqui confesso ter retirado ao discurso dela o nome próprio que mencionou, apenas para salvaguarda dessa pessoa, diga-se a propósito «veio contar-me, que uma amiga dela lhe contou que lhe enviaste um soneto, por sinal muito expedito, escorreito e galhardo, onde lhe retratavas excelentemente o sorriso e as covinhas das faces – entre outros dotes “espirituais”. Foi obradura de qualidade e preceito a que ninguém pode botar defeito. Porém, uma coisa tinha já sido esclarecida e definida entre nós: que tinham findado os sonetos. O que tu prometeste fazer, com evidente relutância, é óbvio, mas que te comprometeste a cumprir em nome da harmonia, salutar e agradável convivência entre nós. Esse conto que a minha amiga me contou, é só fantasia ou tem algum fundamento verídico?»
De sístole em diástole o meu sistema circulatório convulsionou-se confusamente, dando àquilo a que chamamos vulgarmente por ritmo de pulsação, uma espécie de tempestade sob controversos e contraditórios movimentos dos elementos naturais, com suores frios e quentes, que me invadiam avassaladoramente, e que me atirou num mar de aflições que nunca julguei possível existir, nem mesmo nas minhas deambulações literárias pelo géneros fantásticos do suspense e do terror, da aventura e do misticismo paranormal. Portanto, de tanto querer fugir dali o corpo colou-se à cadeira, a língua colou-se ao céu-da-boca e a vermelhidão facial, característica de uma pele em brasa, latiu que nem mil cães infernais num ardor demoníaco. E, claro, não respondi.
«Sim, que dizes?», insististe. E eu continuei de bico fechado.
«Ora, é verdade, não é? Quem cala consente.»
Filosofias!
E reiterou: «Mas considerando que foi uma obra bem esgalhada, vou abrir a exceção que se impõe. Em vez do castigo que mereces, vou antes brindar-te com um pequeno tesouro, que não duvido estimarás, amealhando-o para piores dias. Aqui tens – e porque é de um soneto que falamos, passo a especificar o valor de estrofe na estrutura: pela primeira quadra, 15 cêntimos, em moedinhas de um cêntimo cada; pela segunda quadra, outros 15 cêntimos, sendo seis moedinhas de dois cêntimos, e as restantes três de um cêntimo cada; pelo primeiro terceto, quatro moedas de dois cêntimos e duas de um; e finalmente, porque a melhor das estrofes é indubitavelmente o segundo terceto, como que a fechar com chave de ouro, que neste caso é níquel de primeiríssima qualidade, cinco moedas de dois cêntimos. No todo, perfaz exatamente os 50 cêntimos que a minha mãe te devia. E agora, mais estes três cêntimos de juros pelo investimento que fizestes. Satisfeito com o conto das contas? Hum?!?»
A contabilidade tinha água no bico, disso não me restava a menor dúvida. Peguei nas moedas sem levantar ondas, e enfiei-as no bolso. Punhada a punhada, a farpela ficava-me cada vez mais pesada. A minha faceta petrarquiana tinha sofrido forte abalo, e reconheci como é dolorosa a incompreensão da arte e dos artistas. Até as pessoas mais chegadas a tratam com desprezo. Todavia, o pior mesmo, foi o ter consciência, que catorze versos não valiam mais que 6% de €, o que vistas as condições e os juros sobre a venda da dívida portuguesa, ainda lhe ficam muito aquém. É como um fado camoniano – nenhum engenho e arte vai além da Taprobana por mais esforçados que os poetas da portugalidade sejam, ou perigos e guerras que atravessem. E a história repetia-se, enfim…
Tanto mar, tantos mundos ao mundo, ao desbarato de três tostões. O que equivale a dizer, tanta sílaba soletrada, tanta métrica perfeita, tanta música perdida… e tudo, só por uns trocados!

3.12.2011

Conto de Amanhã, dia 13, dia da Estrela

A Pequena Estrela (cor-de-rosa)

“Em nada à verdade falto,
A dor me aviva a memória;
E, por não entrar de salto,
Deixai, Senhor, que esta história
Tome o fio de mais alto.”

In Memorial a Sua Alteza, de Nicolau Tolentino

“A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.”

In Voz e Aroma, Folhas Caídas, de Almeida Garrett


Estamos disponíveis para nós mesmos se aos demais convocamos como desejáveis, preferidos e imprescindíveis. Até insubstituíveis. Nenhuma pessoa é como outra pessoa. Há algo que identifica aquela pessoa como favorita se lhe conhecemos o pormenor ínfimo que a diferencia da multidão de aqueloutras iguais a si, sem destrinça de cor ou feitio, fala ou cultura, costumes e trajes, princípios e atitude social, pessoal ou ideológica. A preferência dissolve-se e multiplica-nos depois como desejados e… inevitáveis à vida de quem assim nos rotulou. Marcou. Inventou. Assumiu. E acolheu.
Mas não é fácil sê-lo. Principalmente quando nos nomeiam soletrando o nome de alto a baixo, vincando cada sílaba como se estivessem a bater sola de ruim defunto. E D. Catarina fê-lo pelo menos quatro vezes, que foram as que mais “doeram”. A primeira, foi na sequência de me ter incumbido de escolher os pimentos. Fi-lo com galhardia e desenvoltura. Alegre e contente, cantando e rindo. Três exemplares escorreitos, imaculados de um verde não muito carregado, elegantes no porte e esguios no formato. E foi um queres vê-la a matraquear-me o juízo com «mas que é isto, Joaquim Maria?! Pedi-te pimentos e tu trazes-me palmilhas de pantufa quase transparentes que nem um cortinado de pilheira? Anda cá, a ver se aprendes!»
Eu fui, sob protesto mas fui, que era para tanto que ali estava e a acompanhava. Afinal, D. Catarina era o general em campo da filha. E quando chegámos aos frescos enxuguei calado na audição da mestra.
«Vê bem: pega num pimento dos que escolheste, e agora neste. Qual a diferença?»
«No peso, na cor, até na forma… Este parece um cepo de vide, contorcido e atarracado. Pelo peso, como é maior, e isto paga-se a peso, também será mais caro. Pois» argumentei eu, para ela ficar ciente de que nisso do saber rústico e rural não me faltavam estudos – nem sentenças. Mas ela engalfinhou-se no «errado valdevinos! Este pimento está feito, está formado, logo tem todas as qualidades desenvolvidas, sabor, textura, sementes, odor, e começa a ganhar aquela pigmentação vermelha que lhe atesta a maturidade. Por conseguinte, dará o respetivo aroma e sabor
aos cozinhados, conforme se espera que faça. Compreendido?»
«Claro. Tem razão, eu precipitei-me na escolha, foi o que foi.»
«Ótimo. Então, agora traz aí umas laranjas.»
Fui-me a elas. Havia-as em barda, avulso e em caixas, daqui e dali, em sacos de rede, umas grandes e outras pequenas, com o laranja mais desbotado ou carregado, mas todas, sem exceção, que nisso primavam pela unanimidade, todas cor-de-laranja, ainda que algumas se aparentassem na vestimenta com limões azedos. Calculei que as mais em conta seriam umas, rechonchudas, redondas de fazer inveja ao pôr-do-sol, casca encorpada e volumosa, e meti no saco de plástico, à vontade, quatro/cinco quilitos delas, rumando depois à viatura das mercadorias, na qual tinha investido 0,50€ só para armar em cavalheiro perante a mãe da dama dos meus celtiberos enredos. E foi com notório júbilo que as empunhei no ar, antes de as acomodar no carrinho, exibindo-as à generalíssima pessoa, tentando recuperar o amor-próprio abalado na anterior demanda. E aí a coisa deu-se. Dona Catarina dos meus tormentos, pôs as mãos na cabeça como quem se aflige por algum flagelo incontornável e lamentou-se num rogo condoído às criaturas divinas mais propícias ao lugar:
«Meu Deus; mas o que é isso, Joaquim Maria? Isso são lá laranjas! Achas que vamos comer cascabulho à sobremesa? Achas?»
Era óbvio que não achava, porém se lho confessasse que adiantaria? Quando ela se põe a rogar às alturas que intercedam em compaixão e dó para lhe melhorar a sua vida nesta terra, não há como ficarmos desatendidos e desadmirados ou des-surpreendidos com a tamanha fé e devoção que ela coloca nas suas preces. A minha cara de orgulho, antes, desceu num ápice às profundidades da vergonha, cujo semblante ensombreceu como se uma nuvem negra e tempestuosa tivesse cruzado os tetos da grande superfície e ofuscado as lâmpadas fosforescentes que os habitam. Ainda atalhei «mas D. Catarina, que mal pode haver em frutinhas tão vistosas e desempenadas…?», contudo ela cortou-me o pio com «não há mas, nem meio mas. Isto não presta, e não vou permitir que se leve para casa, fruta inchada que passou sede na sua criação, tal e qual como a barriga dos meninos do terceiro mundo, que se tornam barrigudos à força da fome que sofreram. Percebido?»
Amuei, e nem respondi. Responder o quê? Ainda não tinha enxugado a cara da última
ensaboadela, ia logo de seguida arriscar-me a levar outra, por causa da resposta… Vai lá, vai!
Todavia, ela nem sequer notou o cuidado com que evitava demais agruras, e adiantou-se para as pedagogias levando-me a reboque que nem charrueco empanado. «Olha só: estas laranjas, têm muita casca, são airosas, mas não têm sumo nenhum. Já estas, vês, de casca fininha, pouco enrugada, como camisas agarradas ao corpo, são pesadas e, se forem doces, como suponho que sejam, serão bastante sumarentas, dando para comer gomo a gomo, como em sumo, para acompanhar as refeições… Vês a diferença?»
Vocês viram? Assim vi eu! Porém, não tugi nem mugi, que as sondagens não andavam lá muito abonatórias prò meu lado, ultimamente. Ainda me passou pela cabeça sublinhar o momento de carinho (idílio) familiar com o típico «obrigado, mamã» dos famosos óscares da cinefilia, contudo meti a viola no saco, temendo ser mal compreendido na gratidão e reconhecimento invocados. Deambulámos em par por entre estantes e prateleiras, na estiva da transferências de garrafas e enlatados prò veículo, ela fazendo reparos, eu ouvindo atento e compenetrado, sem novidade significativa.
Não obstante, a terceira nomeação não se fez rogada na demora. E foi dura. «Enquanto vou ali à carne, vai tu buscar o café, senão ela há de sair do serviço e nós com metade das compras por fazer. Ok?»
Fui. Escolhi seis embalagens do Delta Q, que é a máquina de serviço, tanto na casa dela como na minha, três Qalidus, intensidade máxima, e três Qharacter, com intensidade 9, imediatamente inferior à do Qalidus, e acondicionei-as junto às restantes mercearias. E quase recuperei o ânimo quando D. Catarina voltou, depositando os sacos com as carnes em sus sítio, como seria lógico que fizesse. Fomos ambos aos queijos, ovos e restantes lacticínios, sem a mínima altercação. Contudo, quando ela me explicava precisamente porque convinha levar mais latas de tomate cortado aos cubinhos do que em polpa ou somente pelados, eis que reparou nos cafés e pronto, deflagrou outro aceso discurso sobre o benefício da diversidade. «Joaquim Maria, para que é que queremos seis embalagens só de dois lotes e sabores? Não respondas, que eu sei bem porque é: porque é só desses que tu costumas beber. Esqueces, meu menino, que lá em casa não és só tu que bebes café, além do que nem somente bebemos café depois das refeições, e que durante a tarde ou as manhãs, com um biscoito ou bolachas, também molhamos o bico com este estimulante, sobretudo quando precisamos de arejar um pouco do que se está a fazer. E que nessas alturas, o conveniente, é baixarmos a intensidade à beberagem, nomeadamente para um aQtivus, Qonvictus, Qonvivium, e até um deQafeinatus, se preferirmos abster-nos de excitações contraproducentes. Se a grande vantagem deste tipo de máquinas está em podermos variar nas preferências porque é que vamos usar sempre o mesmo sabor, intensidade e aroma? Para isso tínhamos comprado uma máquina daquelas em que seja qual for o café que se mete no cachimbo sai sempre igual. Ou não?»
Não faço a mínima ideia da cara com que fiquei… Mas suponho que a terei contorcido numas quantas caretas de dor e sofrimento, consternação e angústia, bem esclarecedoras do tormento que se abatera sobre mim, porquanto a tua mãe se condoeu a pontos de me perguntar «estás bem? Estás doente? O que é que se passa contigo?» que me obrigou a descansá-la com o tradicional «não é nada. São só umas cólicas intestinais, se calhar causadas pelo almoço, em que abusei um pouquinho do tintol», fato plausível se atendermos às migas engolidas à pressão de copo repetidamente cheio pelos 14,5º de volume na velocidade do enquanto o diabo esfrega um olho.
E a coisa não tinha sido grave se não tivéssemos entrado no capítulo da portugalidade gastronómica. Coisa tradicional, o bacalhau, havia de me dar – finalmente – hipótese de brilhar. Havia mas não haveu, porque não deu! Eu conto: saído a salvo pelas ventas, salvo-seja: pelas expressões faciais, foi a vez de irmos ao peixe, incumbindo-me a excelsa senhora de entrar na fila do fiel amigo para nos aprovisionarmos do mesmo. Calhou-me, e eu esmerei-me. Fui-me ao mais caro, mais alto e de maior “copa”. Branquinho de pureza e salgadinho de quase fresco, ainda húmido. Estava já com ele na mão para entregar à empregada prò pesar e cortar em postas, quando D. Catarina me abordou com o «deixa ver, se vale a pena», e então o tsunami aconteceu. A pena virou vergasta e acertou-me no ego na máxima pujança. «Joaquim Maria, Joaquim Maria, então tu foste escolher a pior coisa que havia na banca? Tu não vês que vais pagar água e sal ao preço do bacalhau, e que este depois de cozido se esfiará como estopa para atacar cartuchos de bacamarte? Não vês que além de não estar curado é alto e depois leva dois dias, pelo menos, a dessalar cada posta? O bacalhau quer-se creme, seco, daquele que depois de cozido a posta se separará em lascas de gomosa espessura, saborosas e sem sal de assoprar nas tensões arteriais… Ok?»
Eu okezei de anuimento, disse que sim que entendia, mas tinha-me distraído com qualquer coiseca, fora o que fora, todavia ela suspirou um «ora, ´ta-se mesmo a ver que foi isso» de quem não acreditou nadinha nas desculpas, o que reiterou o combalimento de que ainda não recuperara. E implorei para que Shara aparecesse. Não ajoelhei implorando, mas pouco faltou. Até que as preces foram ouvidas e tu entraste no meu ângulo de visão, equipada a preceito com o teu gabão cor-de-rosa, a mala a tiracolo, as chaves do carro na mão esquerda, o dedo indicador direito sobre os lábios,
num gesto pensativo, reflexivo, atenteando entre as fileiras de produtos à nossa procura. Não resisti. Chamei-te a plenos pulmões. Era como se no firmamento das minhas preocupações tivesse surgido uma estrela anunciadora, uma Boa Nova de libertação entre os enlatados e a bruma que evoluía dos congelados.
«Olha, olha, estamos aqui!»
E estávamos. Pelo menos eu estava, reconhecido e grato pela aparição. Podias ser um cometa, algo que aparece e desaparece seguidamente, mas não eras. Eras um raio luminoso na minha esperança fortemente vergastada pelas circunstâncias intempestivas da experiência consumidora que se tornou saber.
Calado agradeci às profundidades da alma ter-te por perto. E ao beijar-te, na saudação de boas-vindas, demorei a respirar o odor do teu cabelo e o “aroma” do teu olhar de alegria. Em verdade, o ramo (familiar) agitado que tanto, durante toda a tarde, cantara era o de tua mãe, mas a felicidade que me preenchera no fim dela, esse, sim, era totalmente teu, e por mais que tivesse a ver com o seu canto, nunca perderia o encanto que há em reencontrar-te.
E essa seria a singela novidade que Shara haveria de ter em conta quando te contasse a partida que me pregara – através das tuas ordens e chefia. Porque, pese embora, eu estranhar quando me tratas por Joaquim Maria, tu tinhas dias que nunca o fazias, e semanas até sem recorreres ao citado nomeamento. O que já não se podia dizer de tua mãe, que numa só tarde, quer dizer: duas horitas dela, por tal me nomeara pelo menos quatro vezes, e de forma bem sublinhada na soletração.

3.10.2011

Conto para os dias úteis


Quando a Razão nos Observa

“E daí? – Daí, a história
Não deixou outra memória
Dessa noite de loucura,
De sedução, de prazer…
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.”

In Aquela Noite!, Folhas Caídas, de Almeida Garrett

13.
"Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
E vejo o que não vi nunca, nem cri
Que houvesse cá, recolhe-se a alma a si,
E vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho
E me quero afirmar se foi assi,
Pasmado e duvidoso do que vi,
M’espanto às vezes, outras m’envergonho;

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m’era mister tant’outr’ajuda,
De que me valerei, se a alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
E não me acode, e está cuidando em al,
Afronta o coração, a língua é muda."

Sá de Miranda – Coimbra, 1481 – S. Martinho de Carrazedo, 1558


A cada qual o seu suplício, mas não há ninguém a quem seja alheio (e desconhecido) o meu martírio: não tenho vontade, que não seja influência sua; sou falho de sentir felicidade, desde que não seja ela a contribuir e determinar a sua existência; e de onde quer que seja que Shara se omita, se desinteresse, eu aí, simplesmente, torno-me nulo e insignificante. Sem o mínimo brio ou talento para o mister em causa, falho de capacidades e competências nessa área (e funcionalidades). Se sofre, sofro; se alegre e contente, rejubilo de satisfação e contentamento. Uns, podem chamar-lhe vício e dependência, outros, até obsessão; contudo, reclamo e pergunto: se viver não é isto, então o que é? Há outra maneira de viver que melhor se coadune com a natureza (humana) e a vida? Vá, digam lá: há? Pois. Era o que eu pensava!
Quando sorris assim reconheço-a em ti, aberta e espontânea, sem enigmas nem cuidados supérfluos. As aspas laterais aos lábios, a alegria espelhada como um desafio que não queres ocultar, os olhos a romperem o castanho das lentes dos óculos de sol, como se estas não fossem capazes de conter e filtrar a intencionalidade brilhante das pupilas pertinazes e cintilantes. A testa marmorínea e ogival sob a franja de onda a enformar tubo, o pescoço esguio mas forte, confiante e de porcelana, onde a sombra dos cabelos caídos de corda húmida, rasgam o outeiro da paisagem alentejana amputando-lhe a solidão rupestre e ancestral. Era eu quem queria estar sempre do outro lado da objetiva a registar cada segundo, cada instante, em que ambas vivem numa só pessoa. E nisso, até dela sinto ciúmes, por poder ser-te como se em si mesma ela fosse tu própria. O segredo, todavia, é esta espera de vê-la assomar, emergir num insight, espreitar a realidade através das tuas ações, esgares, gestos, atitudes, e capturá-la se para tanto me permitirdes no abraço a sofreguidão imperiosa do indizível e inaudito, a vencer, a diluir a indiferença do socialmente correto. É a ventura e o milagre da síntese, ante a eclosão da circunstância ocasional. Diária. Desatenta. Frugal. Desprevenida. Sem pose estudada nem jogada intencional. Clic de detalhe que tudo altera, que apaga a escuridão dos momentos de tédio e os ilumina transformando-os no incontornável cintilar que suspende na surpresa que nos faz esquecermo-nos de nós, de agir, de respirar, de falar, de pestanejar, enfim, de ouvir o tempo a marcar-nos o ritmo da pulsação à desfilada. Scherzando sobre as páginas vertida e convertida em melaço com significado translúcido dos fios das linhas (e dos cabelos castanho-escuros) escritas em sinapses que crepitam (e faíscam) arrebatamento. Como sinais. E como hinos de condão.
Foi dessa forma que sorriste quando cheguei ao teu serviço. “Exatamente assim”, precisamente com a desentupida manifestação de quem vê confirmadas as expectativas criadas. E desmentidas quaisquer suspeitas ou contrariedades.
Por conseguinte, sob o descaramento inerente aos vitoriosos, declaraste que «sempre soube do prazer que sentes em cumprir o que te ordeno. Mas hoje caprichaste» também em sublinhá-lo, fazê-lo notado, pondo-o em relevo de comprovada verificação perante as tuas colegas de trabalho, para que registassem quiçá que o quanto afirmaras antes era apenas metade do que à realidade calhava verdadeiro. Os seus modos denunciaram-no, porém eu fiz-lhes vista grossa, e não afetei a mínima mossa, pelo contrário, ajudei à festa sentenciando mais uma palissada(1) de incontestável efeito nos humores gerais: «pudera. Tu também só me impões tarefas e obrigações que sugeri com manifesto entusiasmo, e sabes serem do meu agrado. Assim qualquer chefe é sempre obedecido, pois sabe escutar o coração dos seus súbditos, os mais profundos anseios dos seus vassalos. Voilá
Houve gargalhada geral. O êxito e reconhecido sucesso do relacionamento entre nós contagiou quantos e quantas estavam. Contagia sempre e inevitavelmente, porque somos capazes de brincar com o que nos é superiormente profundo e íntimo sem nunca nos trairmos ou condenarmos. Sabemos os defeitos – mentira: as particularidades sensíveis de cada um –, mas não os usamos como argumento de persuasão ou cavalo de batalha para garantir qualquer tipo de ascensão sobre o outro. Não jogamos os segredos como trunfos no relacionamento mútuo. Nem pomos na cara o quer que seja que tenhamos feito a pedido do outro. Fazemos o que fazemos pelo que é feito, não como estratégia de conseguir seja mais o que for.
«Então, e o Magalhães… Deixaste-o em casa? Parece mentira! Logo agora que estava a pensar em romper o noivado por adultério com ele, eis que preferiste a minha companhia à dele. Sinto-me defraudada», registaste tu, como rodapé copulativo à risada de todos os presentes, o que lhes renovou os ânimos e a chacota. A alfinetada deveu-se sobretudo ao fato de levar incondicionalmente comigo o portátil minorca a onde quer que me desloque, como se ele fosse – e que efetivamente é – uma extensão complementar do meu cérebro e braço. Porque é nele que escrevo e leio, ouço música e vejo filmes, crio e navego, pesquiso e comunico, via correio electrónico (e-mail) com os meus conterrâneos de afinidades comuns.
«Pois deves sentir, e com razão. Porque quando estou com a tua mãe, ao contrário de quando estou só contigo, nem lhe sinto a falta. É uma senhora com quem dá extraordinário prazer privar e conviver!»
«Ai, é!? Então ‘bora: vou-te acoplar a ela toda tarde, para saberes o que é bom prà tosse!»
«E eu ralado! Creio mesmo que é bem melhor do que ficar arrumado entre quatro paredes no convívio com uns quantos chatos que só falam no trabalho…»
Não obstante, fiquei por ali na contenda, já que a hora podia estar a requentar os tutanos, que estariam em fritura lenta desde as duas horas da tarde, somando portanto, 120 minutos de esturricação lenta, o que acarreta danos em qualquer córtex por mais inanimado que estivera. Logo, desandei a trote à tua frente, a romper caminho, antes que o caldo entornasse.
Normalmente a conjuntura é-me favorável quando cumpro a tarefa de substituir-te junto de D. Catarina. É uma situação cómoda, confortável, admito, não só por estar a fazer o que determinaras que eu devia fazer, como igualmente por ser algo que consolida o espírito de família que deve cimentar as relações entre pessoas que têm um projeto de vida em comum, e se veem como estratégia de uma ordem superior, a da vida, que nos escolhera para alcançar a eternidade. Ou podia ter escolhido, quem sabe!, independentemente da nossa apetência para tal.
Consequentemente, preparei-me para desfrutar ao máximo da companhia de tua mãe. E empenhei-me em proporcionar-lhe momentos agradáveis, se é que alguns podem existir, numa simples e ordinária ida ao hipermercado do burgo, empurrando um carrinho rangente e aramado entre filas e estantes carregadas com embalagens, cujos rótulos, se estivessem escritos em chinês, não significariam positivamente mais nada para mim. D. Catarina estava à porta, esperando, pelo que não perdemos tempo, dirigindo-nos à superfície comercial. Foi também a primeira a descer do carro, ficando nós a sós por escassos segundos, mas os suficientes para aconselhares: «acompanha-a e aprende, que há coisas que não vêm nos livros. Como saber discernir entre um peixe fresco e outro menos fresco, por exemplo. Um queijo apaladado, ainda que tenha um aspecto [menos] atrativo. E um cheiro incomum. E isso também nos vai fazer falta, quando ela cá não estiver, para o fazer por nós. Ok?»
«Certo», respondi, pese embora me tenha ficado a língua muda, perante uma razão que o coração nem sempre entende como suficiente, mas que nos observa diletante. E ela que além de nos ver, igualmente nos conserva… Como uma folha que nos defende da própria boca!

(1) Dito do género o morto estava outrora vivo, ainda não acontecido antes de acontecer, etc., coisa que derivou do facto deste general (Jaques de Chabanes, Senhor de La Palice) ter sido contemplado com uma canção de caserna depois de ter morrido gloriosamente na batalha de Pavia, na qual foi feito prisioneiro o rei Francisco I pelo imperador Carlos V: “Monsieur de La Palice est mort / Mort devant Pavie / Un quart d’heure avant / Il etait encore en vie.”

3.05.2011

Conto da Semana -- Entre os Rios, a Memória

Entressonhando nos Mundos Paralelos

“Teu nome, só para mim,
Sabendo-o conhecido de toda a gente […]


Sei-o de trás para diante
Anterior ou partindo do meio,
Repetido como refrão constante
Atreito ao brilho do diamante
Como às espigas do trigo e do centeio. “
In Joaquim Castanho, Nova Razão: Velha Aliança



Temos sete sentidos e não apenas cinco, como nos admoestaram no ensinamento da escolástica. Além da empatia e propriocepção, há os comuns cinco das sebentas: visão, tato, gosto, audição e cheiro. Normalmente, esquecemo-nos dos dois primeiros porque os temos como garantidos ou incómodos. A propriocepção que faculta levarmos o garfo à boca quando comemos um bom bife, em vez de o metermos nas orelhas ou nos olhos, por exemplo, que tal como o equilíbrio e o ar, só lhe notamos a existência quando lhes sentimos a falta, se os perdemos; e a empatia, ou reconhecimento do outro, apenas se o outro demonstra não nos reconhecer (como devia), pela via sinuosa do melindre e narcisismo frustrado ou, então, quando nos sucede algo cujo efeito minorámos aos demais, no trajeto natural de um arrependimento fora de prazo. Todavia, porque fiquei com umas contas pendentes contigo, alterei a ementa do almoço, dando-lhe aquele toque provinciano que te havia de torturar na digestão: prato único – migas de pão com costado e linguiça fritos, cenouras cozidas cortadas às rodelas em vinagre e sal, azeitonas retalhadas e cebolinhas em vinagre, vinho tinto (e aí o esmero agudizou-se, porque na parte da tarde irias trabalhar e darias pela pertinácia da graduação…) com 14,5 º, marca Monte Maior; por fruta, uma manga madura, bem cheirosa, de polpa aveludada e sumarenta; o café, imprescindível nestes momentos de vitória, de máxima intensidade, um Qalidus fumegante e vulcânico da Delta Q, a rematar com dois Bombons de Figo com Chocolate, para te contorcer de remorsos pela afronta que me dispensaras de manhã e a frieza com que te despediras na saída. E tudo isto a provar que nem sempre a melhor vingança se serve fria!
Shara havia de rubescer irada quando reconhecesse o valor calórico do almocinho, e de como ele se propunha a derrubar pela base a dieta de emagrecimento que se impusera para adelgaçar a silhueta. (Hhhuuuau!, cá se fazem, cá se pagam.)
Portanto aprimorei-me nos detalhes, pus a mesa com a simetria perfeita, para um tete-à-tete de que não queria perder pitada, com apenas uma jarrinha ao centro, onde coloquei três rosas rubras cujos debruns nas pétalas raivam o negro, a fim de não interferir minimamente no frente-a-frente coreografado: só nós dois, ante uma refeição altamente reconstansubstancializadora. (Pimba: vai buscar!!)
Sei que nunca é difícil, quer a Shara como a ti, “adivinhar” o que penso nem quais são as minhas intenções, a propósito seja do que for. Conheces-me demasiado bem e nestes últimos nove anos apuraste a técnica, tornando-te numa exímia mestra da antecipação acerca de mim. Reconheço que facilitei bastante nesse sentido, pese embora, ainda que tardiamente, tenha treinado exercícios de escapar-te às infiltrações e invasões de "espionagem" existencial. E consigo-o de forma sofrível, principalmente quando andas ocupada com algo absorvente e fundamental, como a saúde da tua mãe, as questões laborais, as exigências do curso. Contei com esses aliados para dissolver a tua acutilância…
Quando chegaste acabara de descascar as mangas, guardando-as no frigorífico para não oxidarem. A conversa andou pelo blá-blá circunstancial e servi-te as migas, fumegantes e aromáticas, numa mescla de alho, loureiro, azeite e pão. Depois de umas garfadas, verti o vinho com subtileza, pondo menos no teu copo do que no meu, dando-te oportunidade de notar a ocorrência. Tu, caíste no visco da encenação, ingerindo-o de um só trago, e renovaste a dose, desta vez ao nível daquilo que tinha deitado no meu copo. E entraste no assunto da celeuma.
«Quim, está na hora de saber porque sonhei contigo ontem, a tentar dobrar aquela esquina entre as palavras ditas e as por dizer. O que se passou realmente ontem, antes de te deitares? Vá!»
«Ora, nada. Foi assim: tocou a campainha, fui ver quem era, pediu-me emprestados poemas sobre Arina e na devoção À Deus, e eu voltei a casa, tirei um exemplar dos dez que imprimi anteontem e dei-lho. Quando acabar a leitura dar-me-á a sua opinião sobre o que leu, o que duvido que faça, como é costume com toda a gente. Podia ter debatido a possibilidade de o oferecer a alguém, mas suponho que isso estava subentendido no fato de ter imprimido mais que dois, um para mim, outro para ti, conforme seria se estivesse estipulado que o livro não era acessível a terceiros. E pronto, foi tudo. A seguir deitei-me, dormindo até pouco antes de teres chegado.»
«Isso sei eu, pateta. O que quero saber agora, é o que sonhaste!»
Prontifiquei-me a renovar o vinho nos copos de ambos. Mastigando, mas sem tirar os meus olhos dos teus, avaliando-te o grau de concentração e contrariedade. Mantinhas-te serena e confiante…
Repetiste a pergunta salientando a pessoa inquirida pelo «que sonhaste Joaquim Maria?», o que me pôs alerta quanto à gravidade da inculca.
«Hum… Mal me lembro! Umas fantasias quaisquer sobre ambientes exóticos, meio árabes, meio ciganos, meio espanhóis, sei lá! Estava escuro, e era de noite!»
«Graçolas, não, meu menino. O humor é despropositado neste enredo. Humor deriva do latim, e significa humidade no olho. Portanto, revela esse filme.»
Engasguei-me. A coreografia desmoronou como um castelo feito com baralhos de cartas. Ela sabia. O meu esforço tinha sido em vão, e esconder-lho uma ousadia inglória. Arrefinfei-lhe o copo duma assentada, sem sequer me preocupar em reencher o dela. Planeara com sofisticado empenho a evasiva, a manobra de diversão, contudo a debalde, ela – ou Shara, vá-se lá saber! – atalhara e cortar-me a retirada. Porém contar-lhe o que sucedera estava fora de questão. Morreria no campo de batalha mas jamais lhe entregaria a bandeira. O estandarte. A divisa indivisível. Nunca!
«Diz.»
«Diz.»
Garfada a garfada as migas e o costado sumiram-se. A garrafa do vinho evaporou-se – por minha resumida influência, confesso. A fruta deslizou pelo palato imergindo na garganta. Mas ela não arredou pé da intenção, reiterando com intervalos regulares o «diz» que não admitia qualquer tergiversão.
«Diz.»
E eu disse.
De uma só vez.
Como se disparasse de rajada.
E estivesse numa esquina sem tempo a perder.
«Sonhei que estava no palácio de Entre-os-Rios (Mesopotâmia) onde decorria um baile de letras, todas trajadas com sedas e tules, com adereços de ouro e prata, pulseiras, coroas, colares, diademas, contorcendo-se como mulheres em ritmo indo-iraniano, persa, turco, de feiticeiras muito antigas, de cujas, as principais eram quatro letras minhas conhecidas, muito minhas conhecidas, que estão no pórtico da eduba de Uruk, alinhadas aleatoriamente formando étimos a que desconheço a significação, na minha frente, hipnotizando-me, encantando-me quase, distorcendo-me os sentidos, ouvindo com olhos e vendo com a língua, nada era comum ao que acontece no dia-a-dia, nada estava no seu lugar reservado, próprio e determinada, convecional, até que essas letras entraram num frenesim descomunal e me arrastaram para o meio de si, nessa babel incandescente, e fizeram comigo quanto nem a própria brisa consegue. Voei. Voei. Voei. E perdi o sentido da mortalidade, do tempo, da consciência de mim. Fui para lá do lá e voltei numa só noite. Que mais posso dizer?...»
«Vês, não doeu nada. Porque estavas com tantas fintas e esquivas? Depois do café, hoje vou querer três figuinhos achocolatados. Ainda há que cheguem?»
«Claro. Guardei dois para cada um, mas bebi tanto vinho, que dispenso um.»
«Ok. Depois de lavares a louça vai ter comigo ao serviço, para irmos buscar a minha mãe, para ires ao hipermercado com ela. Fazes-lhe companhia e ajuda-la nas compras. Passamos o serão com ela, que o meu pai regressa tarde. De Lisboa a Casal Parado ainda é um esticão, e ele só sairá de lá depois das dez.»
Nem retruquei. Sair de fininho destes enredos destorce as inquietações e põe-nos fora de outras aflições. Principalmente comigo, a quem as letras perderam todo o respeito e às vezes se insurgem criando palavras, sobretudo nomes, a dançar, a gingar, a despirem-me da névoa loquaz da realidade. Correr mais riscos, para quê?
«Tá», respondi. Só enfim, quando a acompanhei ao carro, reparei que a janela estava com as persianas corridas. Tu acompanhaste o meu olhar, reparaste no que reparei, e resumiste: «põe-te a pau, que estamos atentas ao que fazes e sentes. Eu, e elas
Então vi, tive a certeza, que [não] tinhas sido tu quem almoçara comigo, mas ela. E ela que, por sinal, durante a noite disfarçara seu nome numa dança de letras maravilhosamente inebriante. Ao que os meus sete sentidos, de sobreaviso e com intensa acuidade, bastaram para reconhecer,como excecionalmente reais e autênticos, superiormente reais do que foram a própria realidade.
Somos tão pequenos e distraídos neste mundo de lugares, que não raramente esquecemos a importância dos não-lugares. Mas a lição marcara-me…

3.02.2011

O Êxito e as Promessas

As Cortes da Galhofa

"O êxito está cheio de promessas até que os homens o alcançam: e então verifica-se que é um ninho do ano passado que os pássaros abandonaram."
– H. Beecher

Quase toda a gente diz disparates. Bom... exagero: das pessoas que eu conheço, muita delas, fazem-no. Incluindo eu!
O disparate é inerente à comunicação entre indivíduos de manifesta e declarada intenção social. E ele até não faz grande mal ao mundo, não atrofia a vida de ninguém, não avoluma a densidade e a estatísticas do errare humanum est (errar é próprio do homem), não destrói a natureza nem esgota os recursos naturais, e se polui o ambiente, é apenas nocivo a quem falhou o filtro de barbaridades, a que comummente chamamos sentido crítico, enquanto genuíno antivírus de prevenção contra as canalhices da governação, da vizinhança e da coleguia profissional, que é outra espécie de máfia na panelinha do safe-se quem puder. Porém, não reconhecer os próprios disparates ou branquear os dos demais, devido a qualquer sentimento de preferência, isso já se afigura deveras grave e prejudicial ao presente de cada um e futuro de todos nós.
A oratória da Assembleia da República, neste capítulo, é o suprassumo dos exemplos nocivos ao in/consciente coletivos da portugalidade vigente, enquanto pontapé de saída para o jogo do desenvolvimento no pano verde da sustentabilidade, alvitrando que no futuro nos espera um dominó enlouquecido com o qual teremos que dançar (cair/tombar) no dia-a-dia das lides do bem-estar, harmonia e sobrevivência. Uns dizem disparates, para os outros se rirem; e os que se riram, dizem depois outros disparates, em amena competição e faire play, para aqueles que antes os disseram, também se poderem rirem. É uma galhofa pegada, o que já sabíamos, pois desde há muito desconfiávamos que o deleite desses senhores e senhoras era, e é, o prejuízo que vão provocando em cada qual daqueles que os elegeu. As marafonas fazem teatrinhos, e os pinóquios capricham no donjuanismo consequente. Anima-se o regabofe do salão com os cantares e descantes da corte, anunciando uns para desanunciar outros, apresentando como decretos-lei os projetos-lei que jamais foram, atirando ao mar de seguida a pescada que nunca o foi. Mas a plateia ri-se, e o povo paga-lhes o divertimento, que é para isso mesmo que serve o orçamento!
Recapitulemos.
A cada qual a parte de ridículo que lhe cabe, por direito e conquista; que o saber de experiência feito, cabe sempre num ponto de vista. Contudo suspeito, que de entre todos os deputados que representam a nação, não haja um único sequer, que possa pôr sobre o peito a sua própria mão – sem se queimar de culpa (antes de um ato de contrição). Aliás, perguntamo-nos de que mais será capaz, aquele que não sente pudor nem vergonha por enganar um pobre?
Foi implantado e implementado – com pompa e circunstância – o célebre Plano Tecnológico, que se supunha vir a ser a vanguarda administrativa do progresso e desenvolvimento. Ninguém esquece o apanágio dessa "reforma" de excelentíssima expectativa e significado. Porém... Nas últimas eleições, milhares quiseram votar, mas não puderam exercer o seu direito que a constituição consagra também como dever de cidadão, porquanto o plano cumpriu a sua meta na complicadex expressão da cidadania democrática, porque o novo número estava lá mas não estava, não sendo omisso do cartão era todavia oculto, isto é, de consequências mágicas na subtração da identidade ao cidadão.
Por outro lado, empunhando o mesmo cartão, se tivermos isenção de taxas moderadoras e nos deslocarmos, por exemplo, a um hospital distrital (!!! – pasme-se...), temos que levar uma carta do Centro de Saúde a confirmar que somos quem somos e estamos isentos, pois no hospitalzinho não há uma máquina que descodifique/leia as informações configuradas no dito Cartão de Cidadão, que ao que parece a cuja cidadania ninguém passa cartão. Tem lá tudo: NID, NIF, NSS, NUS e de Eleitor – mas é o mesmo que não ter, pois ninguém o pode testemunhar, testar ou ler. Mas quando foi tirado pagámos 12 € por ele. É caso de Defesa do Consumidor (DECO), porquanto nos venderam um produto infuncional sob publicidade enganosa. De que mais será capaz quem engana um pobre?
Fácil resposta. Esse pobre que adoeça e vai ver como elas lhe mordem, desde que não seja a sorte favorece-lo no azar que teve e a coisa lhe passe com umas aspirinas... Porque se não for, então morre, de desespero, de desilusão e de falta de cuidados. E mais uma vez é do plano: está tramado. Se precisar de ir a um Centro de Saúde, então pode recorrer à Internet, e lá encontrará o site/portal do Centro que procura. O design é magnífico, as cores (re)laxantes, o letring magistral, as imagens bastante asséticas. As informações é que não são fiáveis pois, por exemplo, se quisermos saber a que horas terminam as consultas de recurso no fim-de-semana, seja ao sábado, então, estamparam lá que é às 20:00 horas mas se lá formos depois das 14:00 horas batemos com o nariz no portal. Isto é, tiveram verba para cumprir o plano mas depois esqueceram-se de actualizar os conteúdos num "reino" onde a única coisa que não muda nunca é a constante mudança, a elevada dose de incerteza e entropia que alimenta a governaça e nos destrói a segurança.
Mas tem uma vantagem de inegável valor calórico que nos agasalha o ânimo: as promessas que o Plano nos trouxeram foram um êxito estrondoso e imorredoiro. Continuam ativas. Continuam atuantes. Continuam promessas. E isso também está em qualquer plano. Sobretudo naqueles que não contemplam a respetiva e inerente avaliação. Posto que é esta a mais-valia dos planos. Então se não é aquilo que é porque lhe chamam plano?
Quem é capaz de enganar um pobre, o que não fará às outras pessoas?
Garante-lhe um ninho – mas das eleições passadas. Que os passarões abandonaram, por estar fora de prazo e vencida validade, como dirá H. Beecher. Ou como diria, se assistisse à galhofeira nacional da casa da portugalidade, onde parecem todos estar muito satisfeitos e bem servidos sem nada que fazer. E todos equipados com a tecnológica dignidade do plano... Então, porque não a aproveitam, e aos cómodos climatizados, modernos, reparados, para atualizar os simples conteúdos das instituições a que o aplicaram. Aí está, até podiam manter o mesmo número que não baixavam na qualidade (cortesã). Continuariam muitos, mas a fazer qualquer coisa útil a quem os elegeu, para que lhe não caísse a cruz em democracia rota de cidadania vã!

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A pessoa entre as sombras de ser