La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.17.2012


A TRAGÉDIA DUM DRAMA (SOCIAL)


"Lopo Alves tirou o relógio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos pela sala, tornou a sentar-se e disse:
– Dou-lhe uma notícia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama.
– Um drama! – exclamou o bacharel.
– Que quer? Desde criança padeci destes achaques literários. O serviço militar não foi remédio que me curasse, foi um paliativo. A doença regressou com força dos primeiros tempos. Já agora não há outro remédio senão deixá-la e ir simplesmente ajudando a natureza."
In JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS, A Chinela Turca

É mentira que a democracia em Portugal foi arrumada e enlatada pela direita. Eram poucos, estavam arredados dos meandros do poder e da finança, e não tinham a mínima credibilidade pública. Durante as duas décadas posteriores ao 25 A, a direita não passou de uma anedota que se contava nas tascas do populacho, andando de Ponço para Pilatos com as calças na mão e na mira dos variados subsídios detonados por inúmeros programas político-económicos em promoção. E, enquanto isso, a esquerda das ocupações foi-se capitalizando, enriquecendo, substituindo-a. Mas não só, porquanto uma e outra, a direita de direita e a direita de esquerda, para garantir a sua sustentabilidade, movimentaram-se no sentido de se instalarem nos corredores do poder, tornando-se exímios na técnica do puxar dos cordelinhos, fazendo disso profissão e credo: consumando o suprassumo do funcionalismo público.
Foi bom enquanto durou, contudo está nas vascas da agonia...     
Alguns dos funcionários das secções de higiene e ambiente das municipalidades ainda vigentes são de esquerda, e destes, não raros são até comunistas, e bastantes os envolvidos nas lides sindicais. Outros são de direita, com os afetos políticos determinados pelos oradores dos púlpitos paroquiais, que não ligam à política nem se querem comprometer com nenhum partido, embora votem sempre naquele que está mais próximo dos ideias do Caetano que ouviu as trindades lá pràs bandas do Carmo. Parecem opostos, contrários, todavia entre uns e outros não há a mínima diferença, pois que tanto os revolucionários como conservadores, fazem exatamente o mesmo com os lixos: depositam o papel e os plásticos no lixo geral, sempre e ostensivamente, e apenas o vidro vai prò vidrão, não porque a reciclagem do vidro lhes fale à consciência e responsabilidade quanto à melhoria do futuro, mas sim porque o vidro pode ser aproveitado para fazer mais garrafas onde meter o líquido de sua eleição – a boa pinga nacional. Não mexem um dedo sem lucrarem com isso, porém quando lhes acenam com o copo cheio nunca dizem que não. São devotos, por votos, convictos e concordados, e sempre capazes de votar em qualquer promessa que lhes encha o vasilhame. Que é igual a dizer que também eles nasceram prò drama, mas o seu negócio é a tragédia!
A par deles, a fina flor de Portalegre virou, de um momento para o outro, maioritariamente, senão na totalidade, revolucionária: eram fãs do fado e das sevilhanas, sobretudo nas noitadas de regabofe, mas agora dão o cu e dez tostões pelas novas versões das cantigas do Zeca, do Adriano Correia de Oliveira, Padre Fanhais e António Variações. E as guitarradas do Paredes! Não há nenhum que não trauteie Os Vampiros, o Maria Albertina Como Foste Nessa, o Somos Filhos da Madrugada, e etc., com sublinhada legenda do «isto sim, que é música!» que acompanha as grandes epopeias e inolvidáveis momentos épicos. Enfim, ao verem-se metidos no mesmo saco dos sacrifícios e apertadas medidas de austeridade – logo eles, que tão bem se deram com a velha como com a nova senhora! –, e subtraídos em mordomias que tinham por seguras e vitalícias, tentam açular as hostes plebeias para os confrontos com o poder governamental, na esperança de que este retroceda na poda do aparelho de Estado e seus galhos funcionais, voltando a admiti-los na lista das despesas e gastos desnecessários à nação.
Os amanuenses do regime, tal como o personagem  do conto de Joaquim Maria Machado de Assis, Lopo Alves, sempre lhes correu no sangue essa dramática febre de viver à custa do esforço alheio, e nem mesmo quando tiveram que andar de mãos dadas com o Movimento das Forças Armadas servindo no PREC, lhes passou totalmente. Pelo contrário, se tornou aguda e crónica. Contudo, agora, com a reforma à vista, estão prontos para tudo, incluindo agravar o drama de suas e demais existências, preferindo a este género manso o seu descendente direto para assustar as gentes: a tragédia.
Estão por tudo, e não temem nada, que nunca haverá TROIKA que os tolha e intimide... E que outra coisa seria de esperar dos hermínios destemidos e bravos lusitanos?   

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