La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.23.2013

DO VERBO ANDARILHO NAS FADAS DE PORTUS ALACER


"A obra de Luzia lê-se alto diante de toda a gente sem se ter que saltar linhas."
In FELICIANO SOARES, Luzia – Espectadora das Comédias do Mundo, inédito, Instituto de Coimbra.

Quando recebeu a notícia do falecimento de sua amiga Luísa Grande, escritora portalegrense (1875-1945) que cultivou as letras e a língua portuguesa sob o pseudónimo de Luzia, terá escrito Fernanda de Castro (in FERNANDA DE CASTRO, Ao Fim da Memória, II Volume: 1936-1987, Editorial Verbo. Novembro de 1987, páginas 49-50), “pode a razão dizer-me: «Luzia morreu», que o coração não acredita. A morte é o desaparecimento total, e, para mim, a morte de Luísa Grande é apenas ausência”, mal sabia ela que essa outra viagem e ausência haviam de ter tais efeitos de sumiço de todas as suas “presenças” literárias sobre o universo cultural português, que muito pouca gente “ouviria” falar dela.
Dela disse mais: que “falava das coisas da Natureza, do céu, da cor de um crepúsculo, da chuva a bater nas vidraças, das pétalas molhadas de uma violeta… com uma compreensão que só [encontrara] em Katherine Mansfield – com quem, aliás, tinha parecenças de irmã”. E a sua interrogação – “quem há de agora falar, por exemplo, do mistério das flores por abrir, dos pássaros por nascer, da água da rocha, fina como um diamante, das árvores pesadas de folhas de nevoeiro, da penugem cor-de-rosa do amanhecer?” – mantém-se atual, pois com propriedade podemos hoje inquirir o destino pelo mesmo motivo, visto que depois dela ninguém mais falou da matiz prateada dos olivais, nem da vitalidade dos carvalhos da Ribeira Formosa (Ribeira de Nisa), dos magustos de S. Martinho ou do jardim do Convento de Santo António, o Monte de S. Tomé,  o Castelo dos Mouros, como ela o fez assim, num meigo reparo de um coração indulgente, porque “o coração a que falta indulgência é como a boca que não sabe sorrir”.



Adiantarei que foi uma mulher muito além do seu tempo, que influenciou outros escritores mais aclamados que por aqui passaram passeando, se calhar aos domingos, quem sabe!, mas não lhe deram valor, antes pelo contrário, tentaram mesmo silenciar-lhe a escrita, discriminando-lhe a obra e diminuindo-lhe o valor pessoal. Luzia foi um pseudónimo construído de infância, porventura nascido nas brincadeiras pelos jardins de fadas, na Rua dos Canastreiros como na Quinta das Assomadas, nas leituras compenetradas sobre Quixotes e Haruns Al-Rachides, à braseira dos serões invernais como nas caminhadas de retouça entre pinheiros e sobreiros por estas serranias encantadas do seu amargo lar. Mas “o mundo não perdoa aos que repelem a sua escravidão”, como muito bem referiu na sua novela Última Rosa de Verão (pág. 129).
Tenho para mim que a sua escrita, marcada por uma forte oralidade como por uma intensa teatralidade, se consolidou muito antes de ir para o Colégio das Salesas, aos 15 anos, em Lisboa, mais precisamente quando de uma das janelas da casa de seus tios, via sair e entrar as pessoas no Teatro Portalegrense, que lhe ficava defronte, e mesmo por algumas peças que aí terá assistido, apetrechando-a daquele olhar crítico mas enternecido, sofrido mas igualmente divertido sobre os outros e si mesma com que efabulou as comédias do mundo. José Martins dos Santos Conde, que lhe terçou a única biografia editada por estas bandas, subintitulando-a de Eça [de Queiroz] de Saias, teve porventura presente o que sobre ela terá escrito Augusto de Castro, no Diário de Notícias, onde assim a epitetou, mas que reconheço estar muito aquém do que uma análise aprofundada do seu discurso nos sugere. Aliás, por melhores que tenham sido as suas intenções, esta classificação está eivada de uma subtil afronta, quiçá frequente entre a intelectualidade de descendência antropocêntrica, com um discurso declaradamente masculinizado, comparando uma mulher com um homem, ainda que ele fosse considerado – e talvez ainda o seja atualmente, e de fato – o expoente máximo das letras nacionais, hoje um clássico quase em vias de descrédito, e a intenção fosse elogiá-la. Justamente porque Luzia desde sempre tentou traduzir a feminilidade numa língua com tradições enraizadas na narrativa dos aventureiros descobridores, todos eles homens, onde a mulher aparecia sempre como objeto, alvo, inspiração, ilha de amores e prazeres, e raramente como protagonista da verve, ou sendo-o, nunca em seu nome mas sob pseudónimo, mais ou menos impessoal. Tentou sempre escrever no feminino – e conseguiu-o. Custou-lhe caro, é óbvio, mas jamais o travestiu e masculinizou, mesmo quando em cartas ou sketchs relatou acontecimentos que fizeram História, retratando a época, fazendo-o com a fluidez dos pormenores numa perspetiva maiêutica que evidencia os disparates da rapaziada achando-lhe graça, sublinhando-os como rosetas pitorescas e motivos cómicos de um tricot que se estendeu para outros tempos, repetindo-se noutras circunstâncias e conjunturas, como o ilustra em Cartas do Campo e da Cidade (Portugália Editora. Lisboa, 1923), por exemplo, na carta (endereçada) do Bonfim – 12 de Novembro: «Quando entrámos na cidade uma manifestação ruidosa atroava no Rossio. Toda a garotada do Bonfim batia em latas, gritando: – Viva a República! – Mais adiante, na velha Rua dos Canastreiros, um bando de patriotas esganiçados, cantava: – Heróis do Mar… Numa vitrine de sapateiro surgiu o retrato de Afonso Costa, símbolo de triunfo das democracias, mas interveio a autoridade e o sapateiro demagogo substituiu a efigie do seu herói, por um soberbo par de botas, de cano alto, à militar…»
   Não tinha em muito boa conta essas coisas que os homens levavam tão a peito como participar da história, fazer as revoluções, celebrar vitórias ou tirar proveitos económicos das notícias do dia-a-dia. E isso paga-se. Ademais a mais, a família Grande tinha o seu tronco genealógico num dos filhos de D. Afonso V, um irmão de D. João II, de seu nome Fernandes, que fora desterrado prà Madeira e aí constituíra família, exatamente essa que mais tarde adotara o apelido de Grande (in Feliciano Soares, LuziaEspetadora das Comédias do Mundo, pág. 41), coisa grave ao período conturbado que Portugal atravessava, que apanhou Luísa Grande com 35 anos pela implantação da República, entrando no Estado Novo como uma espécie de suspeitas índoles e princípios. Logo, sujeita ao de um lado chove e do outro faz vento. Depois era mulher-mulher, não uma mulher masculinizada que defende a causa viril metendo na linha as irrequietas das trincheiras domésticas e donas de casa da mocidade feminina.
A sua escrita, enquanto modo de expressão elegantemente senhoril, de motivos escolhidos a preceito e palavras perfumadas, encantou muitos intelectuais da época como Eugénio de Castro (Cinco Laranjas Douradas), João de Barros (Minerva), Afonso Lopes Vieira (Ó Portugal, Florida Alpendurada), Alfredo Pimenta (Duas Pérolas de um Colar Que se Partiu), Fernanda de Castro (Comunhão), Florbela Espanca, António Ferro, etc., etc., mas sobretudo António Cândido que sobre ela afirmou primar o seu grande talento literário “pela narração descritiva, descritiva das rápidas comédias da sala” que conseguia “como raros, comunicar a quem lê, as sensações que experimenta, passando-as pela verve de espírito e polvilhando-as do sal de uma inocente malícia verdadeiramente encantadora”, porém de pouco lhe valeram para evitar a discriminação de género que então se cultivava, atirando com os seus livros para os fundos dos escaparates e bibliotecas, como, aliás, terá sucedido a muitos autores do século passado que não conseguiram vingar sob as investidas do PREC de após 25 de Abril de 1974.
Atualmente para os que entendem que a literatura é uma arte que deve chocar, ferir tímpanos e consciências, ser vanguarda das ideologias, também pode não dizer grande coisa. Nem ela o teria desejado alguma vez… Contudo, o seu registo continua observável, os motivos que lhe inspiraram e deliciaram nesta terra de tão singulares lilases pores-de-sol, pitorescos magustos e paisagens pejadas de oliveiras e pinheiros, ribeiras formosas, fontes encantadas e a “cisterna da Samaritana, onde é velho uso os namorados irem beber água”, as rosas de maio ou a voz do rouxinol dos recantos ajardinados, a flor de xara, o toucinho-do-céu de Santa Clara, os rebuçados de ovos da Joana, continuam vivos e a lembrar-nos que muito antes de nós os apreciarmos já faziam as delicias de quem por esta terra mais a viu a ela do que se viu nela, e a explorou para proveito próprio ou corporativo.
Nunca soube o que realmente era o amor de mãe e o de pai durou pouco, mas a sua orfandade múltipla (de mãe, pai, ideologia, terra, saúde e corrente literária, o parnasianismo de Anatole France) não a prostraram definitivamente, ao invés do reconhecimento público dos seus conterrâneos que a sepultaram na vala do esquecimento para salvaguardar os mausoléus tumulares de outros que lhe ficaram muito aquém, até quando foram (sublimes) cantados além-fronteiras.
Sabia muitas línguas mas foi em português que se aventurou mundo fora dando voz aos locais e almas por que passou. Chegou mesmo a aperfeiçoar o seu inglês, com lições de mestre, para poder ler Shakespeare no original. Peregrinou a França, desde Lourdes a Paris, e Pau, como calcorreou o continente e ilhas, de hotel em hotel ou seus itinerários literários. Sofreu como uma Senhora e encantou como uma fada. Mas perdeu-se dos compêndios da lusofonia e afundou-se na solidão das multidões e modas.
E é legítimo que assim continue sendo? Que continue a pagar caro o único erro que cometeu: o de ter nascido numa altura em que era muito nova pra ser monárquica e demasiada velha para ser republicana? Bem… Como na terra do bom viver se faz o que se vê fazer, então se amanhã “os intelectuais” portalegrenses vierem a ser esquecidos, é apenas porque estão colhendo o que hoje semearam.       
  


Bibliografia:

A obra de Luzia, posto que a obra é criação do autor mas este é também uma criação de outra pessoa, Luísa Grande neste caso, fala-nos da fauna social urbana da época, porém igualmente da natureza, da fantasia e da magia da vida, que nunca será obrigatória e exclusivamente uma estância de veraneio e felicidade. Tendo como “orientadores espirituais e críticos” Anatole France e Lemaître, Jane Cals, Marguerite Burnat-Provins e Gérarde d’Houville, pseudónimo masculinizado dessa encantadora feiticeira que além de ser filha de José Maria Herédia era também esposa de Henry Régnier, todos de expressão francófona, não se coibiu, contudo, de enveredar igualmente pelos universos imagéticos do mistério anglo-saxónico, o misticismo indo-europeu, a narrativa shariana, nem o idealismo sonhador e lunático celtibero. Viajou entre D. Quixote e As Mil e Uma Noites sobre um tapete de realidades quotidianas, qual manta de retalhos de floridas cores do seu dia-a-dia. Enterneceu e entreteceu os serões provincianos com fadas e génios, declaradamente autênticos, mentores de uma alquimia que lhe transformasse a rotina diária em algo de maravilhoso, encantado e inaudito sob o olor das violetas e iluminada pelos conselhos dos mais antigos sábios. E distribuiu tudo isso pelos seus volumes de prosa escorreita e límpida como quem rega os alegretes de flores de uma clareira isolada.
Teve êxito nisso; tanto, que quem ousar experimentá-lo apenas precisa de se sentar a ler os seus livros, um por um, devagarinho, com pespontos meticulosos, voltando atrás para retomar o fio à meada, sem atropelos nem ansiedades que assustem as almas fadadas que habitam as sombras do reino das entrelinhas. É que algumas são tímidas e ariscas como Maias à solta dançando de roda no remanso das serranias, das florestas, da charneca, dos jardins e ruelas (de buxo) das cidades e ilhas contemporâneas. E isso foi, é ou será alguma vez considerado crime? Então porque a baniram e irradiaram da vida cultural desta cidade? Não era de cá, porventura? Ou cometeu alguma abominável traição por ter falecido fora?          
Dos seus livros, pela ordem de chegada ao meu conhecimento, que nunca é a ordem de edição ou sequer corresponde frequentes e bastas vezes à sua ordem de congeminação e feitura, contam-se títulos como Os Que se Divertem, Rindo e Chorando, Cartas do Campo e da Cidade, Cartas de Uma Vagabunda, Sobre a Vida Sobre a Morte, Almas e Terras Onde eu Passei, Última Rosa de Verão, Lições da Vida - Impressões e Comentários, Dias Que já lá Vão, e Jornal (:Diário, este inédito e, ao que soa, a monte). Ora, se a quantidade e volume de uma obra literária tivesse relação direta com a qualidade dela, adiantaria que há dezenas, centenas, senão milhares de escritores por esse mundo fora bastante superiores; porém, na grande maioria deles muitos títulos repetem por outras palavras, completam, respondem ou contracenam com outros anteriormente feitos, pelo que na maior parte dos casos metade de uma obra foi de busca de um determinado livro, culminando na sua execução, e outra metade na justificação dele, polindo os ditames que o superintenderam; então, acerca da obra de Luzia, sobre cuja podemos afirmar, que mesmo quando retoma o modelo narrativo já anteriormente utilizado, é sempre diferente, ainda que se iguale nisto e naquilo, acrescentando em cada pesponto o subtil cunho da novidade e diferença, que continuamente nos sensibiliza e… surpreende! 



   Resenha biográfica

Natural de Portalegre (nascida no nº 6 da Rua da Cancela, atual 1º de Maio, a 15 de fevereiro de 1875, e batizada a 14 de abril, na paróquia de S. Lourenço), parte para a Madeira em tenra idade, após o falecimento de sua mãe. A esta cidade voltará depois aos nove anos, consequência direta da morte do pai, vivendo aqui até aos quinze, altura em que vai para Lisboa, para o Colégio das Salesas, onde termina a sua formação e começa a atividade literária, ainda apenas com 19 anos, em concursos literários e colaboração nos jornais, sobretudo no Correio da Manhã, aí se iniciando, em 8 de janeiro de 1894, com o conto A Lenda das Estrelas. Sob o pseudónimo de Sónia. Mais tarde colabora num periódico madeirense com o pseudónimo de Lady Butterfly, dando continuidade ao lúmen que surgiu em Lisboa mas o Novidades tentou – quase o conseguindo! – extinguir com suas acérrimas críticas sexistas.

Embora herdeira de considerável fortuna a vida nunca lhe foi fácil e, casando-se em 04.04.1896 é obrigada a divorciar-se 18 anos mais tarde, em 14.12.1914, com o património lapidado, é certo, mas não tanto, que a impossibilite de deixar em testamento consideráveis bens patrimoniais aos seus empregados, amizades e instituições benfeitoras, incluindo a Associação de Defesa dos Animais, da qual foi uma das primeiras sócias, isto somente para ilustrar a sua natureza de filantropa empenhada. Frequentou a alta-roda mas também a profunda solidão da enfermidade. Os círculos clericais como os salões da aristocracia com libré. A euforia dos comércios do Chiado como igualmente os sanatórios e estâncias de repouso para doentes do foro psicológico. Apadrinhou estropiados da I Guerra Mundial como simultaneamente habitou em hotéis de luxo. Visitou o estrangeiro para recolher informação e conhecimento, como para alimentar a fé e a devoção à rosa mística de Nossa Senhora de Lourdes. E sofreu. Muito. Infinitamente, é claro, mas sem nunca ter perdido a pose e postura de uma Excelente Senhora, amante da espiritualidade requintada dos eleitos e perseguidos, cultivando o talento e o amor às artes, à língua portuguesa, ao peculiar povo português, à beleza feminina, ao amor (ao próximo) e à vida. E nisso ela não foi grande, porque já o era de nome, mas enorme e imensa como a planície por sobre a qual um dia, muitos crepúsculos antes de se instalar no número 3 da Rua do Jasmineiro, no Funchal, estendeu o olhar e encheu o peito, revigorando-o, para as lutas que lhe estavam destinadas. Expirou na Madeira, a 10.12.1945, “como adormece a noite pelo outono” (Florbela Espanca), talvez não acreditando na entrada num hipotético Paraíso, mas com a certeza de que seja lá qual for o reino a que se ascenda através da morte, muito melhor havia de ser do que fora o desta vida.       

(Nota fundamental: este texto foi primeiramente publicado pela Revista PLÁTANO, nº 5, de 2012. Porém, por estar essa edição esgotada e sem perspetivas de reedição, e por haver algumas pessoas que mo pediram, aqui fica à disposição de todos e todas que dele venham a precisar. O autor: Joaquim Castanho)

11.12.2013

“Estando Galwyn de Arthgyl ajoelhado toda a noite num chão empedrado esperando o dia, sonha que está num local deserto, olhando para um rio escuro, perto do qual lhe acontece ser feito cavaleiro; e ele monta e cavalga com dois recém-conhecidos numa floresta, onde encontra alguém com quem conversam sobre vários assuntos obscuros e metafísicos, embora educados.
Sir Galwyn está cético, e, ao ser informado de alguns fatos surpreendentes, Sir Galwyn descobre que está no meio de loucos: Continuam a ser metafísicos e corteses, embora não tão educados. Sir Galwyn fica impaciente perante os conselhos e, despedindo-se do eremita, afastam-se daquele lugar.
Sir Galwyn encontra alguém perto de um rio, mata-o, e encontra mais alguém que igualmente mata, num combate leal também; também encontra alguém numa situação íntima que faz corar Sir Galwyn, mas é perdoado por ele.
Começa a sua educação sentimental: retira ilações morais da primeira lição.
Sir Galwyn continua a sua educação sentimental, prossegue a sua pesquisa biológica em lugares elevados conhecendo, por experiência própria, que uma língua que não se refreia se desembaraça tão bem como uma cabeça oca ou uma perna bem torneada; e que só os mortos podem perder tempo com elas impunemente – Sir Galwyn joeira seu trigo e a Fome conta-lhe os grãos.
Prosseguem seu caminho e alcançam um lugar que lhes é familiar, onde encontra um estranho. Durante uma conversa é-lhe proposta uma escolha: Desta escolha e daquele que a propõe, e de um vento soprando…
Encontra alguém que vira num sonho, e entra de novo no seu sonho.”


Texto e Ilustração de WILLIAM FAULKNER, constantes do seu manuscrito MAYDAY, que ele terá feito e encadernado para oferecer a Helen Baird, em Oxford, Mississípi, a 27 de janeiro de 1926

6.02.2013

GENTE INFELIZ SEM LÁGRIMAS

Ao contrário do que possa parecer, todos nós nos separamos da razão que nos assiste diversas vezes ao dia, o que fará um número incontável ao ano, sem que nenhuma delas esteja relacionada com o merecido descanso, no sono, no sonho, na alienação, no delírio, na bebedeira, na lua, no que se lixe e no desligar para pôr as baterias à carga: é sobretudo quando pomos os nossos interesses pessoais e narcisismo à frente de tudo o mais, quando deixamos de olhar a meios para nos valorizarmos, que aí desconsideramos quantos se encontrem na trajetória prossecutiva do amor-próprio, seja quem for, principalmente os mais desvalidos. Até mesmo quando contamos inofensivas e inocentes anedotas para fazer sala ou desopilar a família, que incidem sobre alguém de todos conhecido, tipo social ou estado de ânimo que os carateriza.

Por exemplo, é comum pelas festividades, no Natal ou Páscoa, nos serões das (melhores) famílias, haver sempre alguém que conta uma historieta aos mais novos, jocosa mas não indecente, como convém, e sucede ser quase sempre a mesma – a dos puns. Tenho a certeza que já todos e todas a ouviram, pelo menos uma vez…

É assim: “Naqueles tempos a vida não era o que é hoje, não havia internet, cinema, televisão, e as pessoas entretinham-se conforme podiam. Quer dizer, rádio e televisão havia, que nós tivemos logo que apareceu, tanto ele como ela. Mas as famílias com menos posses, vai lá vai!
Ora, a seguir às férias de Natal, no primeiro dia de aulas, o professor Tadinho, que foi aqui mestre-escola um rol de anos, prà’i uns 40, perguntava-nos invariavelmente como tínhamos passado a noite da Consoada. De entre nós, uns diziam que tinham ceado, ido à missa do galo, desembrulhado os presentes, e que tinha recebido isto ou aquilo, brinquedos, vestuário, material prà escola, etc., etc. Outros, que tinham ceado, dado graças a Deus, jogado às cartas e ouvido música. Diversos que tinham ficado à lareira a comerem filhós, azevias e rabanadas, feito freiras de milho, a que hoje chamam pipocas, etc. Aqueloutros que assado, e que frito e cozido. Até que o stôr Tadinho, vendo que o Lelinho não tinha participado da aula, quis entrosá-lo no convívio, inquirindo-o: – E tu, Lelinho, também festejaste o Natal?
– Festejei sim, stôr. Lá em casa somos todos cristãos…  – respondeu ele.
– Então, o que é que fizeste, home?
– Ora, jantámos, e ficámos todos à braseira.
– Só, isso? Não fizeram mais nada? Não viram televisão? Não trocaram prendas?
– Não, stôr. Só isso, mas também nos divertimos…
– Sim… Como?
– O meu pai dava puns, e a gente ria-se e batia palmas.”
Suponho que a anedota tem séculos e desconfio que vai ser repetida milénios fora, com as devidas atualizações e enquadramentos históricos regenerados, onde os mais pobres hão de servir para alegrar o são convívio das “imaculadas” famílias.  

É por isso que penso que o romance de João de Mello intitulado Gente Feliz Com Lágrimas não carateriza minimamente a maneira de ser anexa à portugalidade. Porque quer os que têm motivos para rir, quer os que não têm razões para festejar, todos e todas o fazem mesmo jeito, todos o celebram de igual modo, dando risadas, fazendo foguetórios, arruadas, caravanas, por dá cá aquela vitória ou reivindicação. E que os que o fazem são bastante infelizes, como as universidades e institutos que lhes terçaram o retrato ou levaram a exame – quer dizer, fizeram os questionários –, tornando por demais evidente que a personalidade típica portuguesa, não é a dessa gente feliz mas chorona, e sim antes a da gente infeliz sem verter uma lágrima, uma lamentação, um arreganho de renúncia e contrariedade. Até nos lamentos e manifestações, que é onde mais gritam e esbracejam, nomeadamente slogans políticos e palavras de ordem… Mas chorar, nunca; exceto no fado, é claro. Que aí sim, é um mar delas… de lágrimas, digo eu!

5.26.2013

SÓ OS ANIMAIS É QUE NÃO PODEM ERRAR
Ou
ASSIM HAJA BILHAR QUE TACOS TRAZEMOS NÓS




“Este grande e verdadeiro anfíbio cuja natureza lhe permite viver não só em diversos elementos, como as outras criaturas, mas também em mundos divididos e distintos” (in Sir Thomas Browne, Religio Medici), tem quinhentos que não dá pra trocar por miúdos, em duas ou três larachas e parábolas.   

No dia em que Tracy Chapman e Carlos Paredes atuaram no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, eu não estava lá. Não assisti, não vi, nem ouvi, mas reconheço que ter Tracy escolhido Paredes para tocar na primeira parte do seu concerto na capital portuga, depois de ter atuado no ano anterior (1988) em Paris, Roma, Barcelona e Londres com Sting, Peter Gabriel, Youssou N’Dour e Bruce Springsteen, a favor da Amnistia Internacional, ter-me-ia valorizado muito, e subido a fasquia no reconhecimento (público) pelo meu bom gosto, mas principalmente na autoestima. Lamento, lamento, contudo a vida é assim mesmo, e lamento-o com bastos «mea culpa», «mea culpa», de arrefinfar punhadas na peitaça. Não fui, baldei-me, recusei a mim próprio tamanha prenda – o que faz de mim um sujeito muito menos prendado do que podia, de fato, ser. E com todos os realmente que lhe vêm anexados!

A marmelada maior, foi ter sido obrigado a ouvir os dois durante todos os santos dias desse (longo e frio) inverno no café das minhas assiduidades e carraspanas, uma vez que o empregado de balcão, com (legítimas) pretensões DJ, tinha ido, e, pasme-se, não só ficara deliciado e contente com a epopeia, como comprara as gravações em cassete áudio e vídeo, para recordar exaustivamente, repetindo a dose várias vezes ao dia (e da noite), primeiro por ela, de quem era fã ferranho, pela voz, essencialmente, que lhe enchia os tutanos de um formigueiro gostoso, eufórico e ufano, e depois, por ele, por afinidades ideológicas, políticas e partidárias. Era um tempo danado e não havia nada a fazer, que quem mandava na grelha era a classe operária, não obstante o Camilo José Cela ter abichado o Prémio Nobel da Literatura, e os outros galegos que moravam nas redondezas também o terem celebrado orgulhosamente, alguns até com foguetório e bivaques ao ar.
 
Ora, como estais gregos de saber, estas arrelias traumatizam qualquer um, sobretudo se ele é estudante aficionado, daqueles que faz do café mais próximo da escola (em que está matriculado) a sua sala de convívio, de estudo, refeitório e, inequivocamente, também de sala de aula, as mais das vezes, e onde reconhece in loco e com conhecimento de causa, que para quem quer ser alguém nesta vida não basta estudar e ter ótimas notas, pois para alcançar os mínimos para ir ao concurso ele devia já ter sido muitas outras bagatelas antes, tudo coisas que ele nunca poderia ter sido, pela idade e adolescência, a não ser criança, o que, à época não era lá grande “carta de recomendação”, uma vez que as ditas (crianças) não tinha demais direitos, além do de falar, mas só depois da mulher da limpeza (que por sinal abundavam com carteirinha e habilitações mais que suficientes para tal). E desse currículo, o presente vivo e atualizado era exatamente o dito Camilo laureado, nesse ano da graça de 1989, posto que seria escritor, é óbvio, mas também fora antes soldado profissional, toureiro amador (porém com carteira do sindicato), funcionário público, pintor, periodista, crítico, opinion maker e ator de cinema.

Acham pouco? Até para ser músico só o seria quem tocasse no mínimo sete instrumentos, ou na falta, só um mas que valesse por sete. E nisso nada mudou, nem mudaram os tempos com o tempo, que hoje é exatamente a mesma coisa. Só vai para televisão, revistas, certames, semanas pedagógicas, fóruns e jornais, quem já foi muitas coisas exceto aquela pela qual lá vai dar o seu contributo à rés pública… Todavia, essas sumidades de (in)notória excelência, nas anteriores atividades eram (invariavelmente) profissionais, assertivos e rigorosos, que naquela para que foram eleitos (convocados) podem dar-se ao luxo de serem apenas amadores – e humanos, para poderem errar à vontade, já que errare humanum est. E para isso, já não precisam de ser ou ter sido outras coisas? Isto é, para tudo, em Portugal, para ser-se seja o que for, é necessário ter-se sido outra coisa ou muitas outras, mas nunca aquela que quer e está a ser… Grande universidade é o bilhar às três tabelas!
  


“Dir-se-ia que não há agente mais eficaz que outrem para nos fazer dar vida ao nosso universo ou para, com um olhar, um gesto ou uma observação, demolir a realidade de que nos tínhamos cercado”, como salientou Erving Goffman. 

5.25.2013

RETALHOS DE OUTRAS OUTRAS ÉPOCAS, OUTROS MOTIVOS


ÉCLOGA DE JANO E FRANCO
(extrato)

Dizem que havia um pastor
Entre Tejo e Odiana,
Que era perdido de amor
Per ûa moça Joana.
Joana patas guardava
Pela ribeira do Tejo,
Seu pai acerca morava,
E o pastor, de Alentejo
Era e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram,
Que Alentejo foi perdido,
Da aldeia que chamam o Torrão
Foi esse pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
Que lhe ficou doutro muito
Que lhe morreu de cansado:
Que Alentejo era enxuito
D’água e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida;
No campo do Tejo só
Achava o gado guarida:
Ver Alentejo era um dó!
E jano, para salvar
O gado que lhe ficou
Foi esta terra buscar;
E um cuidado levou,
Outro foi além achar.

BERNARDIM RIBEIRO


(Bernardim Ribeiro, considerado por muitos o patriarca da ficção portuguesa, nasceu na vila do Torrão, em 1482. Passou a infância em Castela, onde o seu pai se exilara devido à perseguição política que D. João II lhe fez, e que aí o mandou assassinar, mas a debalde. Mais tarde, porém, depois de regressar de Itália, que percorreu na companhia de seu amigo Sá de Miranda, D. João III concedeu-lhe diversas distinções, tal como ao seu patrício Cristóvão Falcão, de Portalegre. Publicou o célebre romance Menina e Moça, uma obra que foi excomungada pela Inquisição em 1581, mas que Carolina Michaelis disse ser «tão expressiva da alma nacional que os primeiros capítulos equivalem a uma elegia soluçada, que, mesmo traduzida em língua germânica, produz o efeito de desoladora melancolia.»)

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