La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

2.28.2015

FLOR D'ENTARDECER



FLOR D’ENTARDECER

Pernoita-me o ser
Num leito fulgente,
Onde a lava a correr
É saudade de gente…

E ainda mais além
Dessa profunda cor
Aí me ateio também
Por tua sede em flor.

Pernoita-me o ser
Aceso docemente
Na flor d’entardecer
Como se fosse gente!

J Maria Castanho




2.25.2015

O QUARTO CIGARRO



O QUARTO CIGARRO

                                     Por:
                                     Joaquim Castanho



Por hábito, ou por vício – que o quotidiano é composto de rotinas –, a hora da bica tornou-se uma referência quase mítica à minha maneira de estar em cada dia. Tanto pelo que novo, às vezes conseguia acrescentar; como pela ausência de novidades. E, porque aquilo que ontem foi variante à força de repetir-se se transformou em constante, saciando a neofilia, “assimilar desconhecidos”, pela frequência dos encontros, em conhecidos, tornou-se irrelevante quanto ao facto de estar presente.
Dito e feito.
Assim, o silencioso mistério que o aparecimento de Inês provocou, desvaneceu-se, e deixou em seu lugar a tranquilidade duma presença inequívoca e familiar. O rosto angular miúdo esquadrilhado pelo negro cabelo curto, arrapazado, servindo de suporte ao olhar sereno das pupilas pretas, acutilantes e inteligentes, transmitindo passividade observativa, veio ganhando desnitidez para operar-se em mais um rosto irrelevante entre outros tantos de igual e indiferente relevância. Quando presente era legendado em off de consciência pelo ecoar interior de um “cá está”; e, se ausente, por um outro a que se apunha um laçarote negativo de “não está cá”, alterando a ordem dos significados e significantes para produzir a diferença, pois que é isso acima de tudo que está em causa sempre que pensamos em alguém, ou que alguém nos começa a transmitir algo mais com a sua presença ou ausência do que a noção exacta e factual do que elas significam. É quando começamos a ouvir ecos e vozes sinistras, em off. O off do desejo; ou o off da atracção. O off da prudência; ou o off da aventura. O off da esperança; ou o off do medo.
Falar da personalidade de Inês é falar dum corpo de menina com a mentalidade de uma mulher de trinta anos. De estatura baixa, entre o metro e cinquenta e o metro e sessenta, sem ser magra nem gorda, mas polida de arestas, movimenta-se assentando meticulosamente primeiro o calcanhar no chão, aparentando mais um deslizar do que um caminhar a dois pés. E no vestuário, sempre de calças, em ganga ou bombazina castanha ou cinza, inconfundível e alternadamente castanhas ou cinza, a preocupação de resguardar o corpo da sevícia dos olhares, principalmente o tronco e os seios pequenos e gomosos, por uma sequência de camisolas ou camisas abotoadas até ao pescoço, em cores discretas, mas sempre a condizer com a demais indumentária.
Bonita? Se não achasse que sim, nem estaria a falar nela.
Contudo, não nos dispersemos.
Ao sentar-me diariamente à mesa do café, entre a bica e a terceira página de leitura do livro que incondicionalmente me acompanha, ela chegava. Sentava-se sozinha, fumando um cigarro antes do café, outro depois dele, e, passado pouco tempo, após duas ou três goladas no copo de água, um terceiro – e último. Todos os dias. Invariavelmente. Exceto aos sábados, em que não vinha à noite, mas sim à tarde, logo a seguir ao almoço e até um nadinha antes do jantar.
Falar... Tão-só o essencial. “Boa tarde” ou “boa noite” à empregada, que, devido à constância da receita nem sequer lhe perguntava o que queria; ou algum “com licença” se entrando para sentar-se ou levantando-se para sair, acontecia invadir o espaço de outro cliente. Nunca a vi rir; apenas sorrir, e raramente. Uma única vez, quase, que não cabe dizer agora aqui. Mas também me não lembro de a ter visto triste e melancólica. Ou aparentemente triste. O seu semblante era o desenho, a máscara perfeita, numa plástica de serenidade completa e satisfeita.
A vida é um off infinito interrompido milhentas vezes, até à perpetuidade.
E nós, exímios ases do disfarce e simulação, da camuflagem, nem sempre conseguimos a contenção suficiente para não deixar transparecer nos nossos rostos e comportamentos, os sentimentos e ideias que no imo evoluem, os offs ditados e sublinhados por esse constante e secreto diálogo interior, que mais não é do que a apólice de garantia por estarmos vivos. Daí que, durante esse ano e tal de presença assídua, em diária e subtil insinuação, tímida, silenciosa, impercetível, mas inequívoca, Inês tenha sido o polo aferente, o núcleo duro, à volta do qual giraram, umas vezes mais tranquilos, outras mais sobressaltados, uma miríade de offs satelitizados.



Tanto assim que, ao chegar, ou logo que chegasse, antes mesmo que a tivesse visto ou ouvido, ainda que o café estivesse a abarrotar e o som da televisão num volume fora do comum, cujos ruídos se impusessem e me solicitassem a atenção, eu aperceber-me-ia e saberia da sua entrada, numa constatação indubitável, e tão vincadamente certa, ou até mais certa do que se a estivesse realmente a ver e ouvir, quando nem estivesse nesse momento a fixar a porta.
Não digo que o desejar vê-la funcionasse como um chamamento para a sua aparição, como se fosse a efetiva materialização duma invocação, nem que a coincidência do espaço-quando entre o aperceber-me da sua chegada e o ela chegar, tivesse relevância ou fosse sintomático de tendências para o misticismo, para o reconhecimento mágico, da minha parte. Mas acontecia. Fatal e irremediavelmente. Sem que ao menos tivesse consciência disso. O “cá está” em off soava, e eu levantava os olhos do livro, em soslaio para a porta, e lá estava ela a entrar. Sempre. Sempre. Sempre. Sempre.
É esse diálogo em off que nos mantém ímpares, expectantes e sobreviventes. Sem ele, a solidão nada teria de aventureiro e fantástico, mas sim de mortífero e doentio. Senão de desumano, até. De monstruoso. Reconhecer que Inês tinha aparecido nesse dia dois minutos mais cedo do que o habitual, era uma vitória proustiana; dois minutos mais tarde, uma catástrofe e uma calamidade. Dois minutos que podiam ter o efeito de um obus. Ou de um fogo-de-artifício maravilhoso e sublime. E, afinal, dois minutos que em vinte e quatro horas, nada mais são do que a milésima parte do dia. Mas que eram sem sombra de dúvida, um reconhecimento intensamente sentido por essa brecha da alma em carne viva, que é a certeza de resistirmos sempre muito para além dos limites.
Adriana, provavelmente, não veria as coisas de idêntica forma... (Ou será que via?...) E paradoxalmente, na sua passividade, era a cavilha, a espoleta, o fulminante, o rastilho, para o fogo e atividade em que me ardia a existência, numa cozedura de furna vulcânica. Num consumir impercetível.
Eu lia. Mas que ninguém me inquira sobre o que estava escrito nessas três ou quatro páginas que duravam a sua presença. Ainda que tivessem sido sempre as mesmas. Repetidas quinhentas e tal vezes. Que eu não saberia honesta e sinceramente responder; a não ser que inventasse. Ou se no café também estavam fulano ou sicrano. Seria igual. Branco sobre branco.
Até que um dia, faz hoje precisamente dois anos, não dei por mim a reconhecer a sua entrada; todavia, ao erguer os olhos do livro, para a frente, ela estava a puxar a cadeira da minha mesa, e a sentar-se nela. Fronteira a mim, à exata distância de um tampo de mármore, de uma mesa, qual tumba branca e fria, a separar-nos. E senti que dentro de mim se rebentara um saco de águas, uma borbulha de soro vital, que se alastrava por todo o corpo, até ao mais ínfimo e recôndito pormenor, exalando, transpirando, emitindo, uma profusa sensação de calma e tranquilidade. Que, aliás, se repetiu, embora perdendo gradualmente a intensidade, nos dois ou três meses que se lhe seguiram. E em que a sua presença à minha mesa ganhou foros de dado adquirido e conquista irrevogável.
E assim foi, até ao ano passado, todos os dias. Todos. Todos. Todos. Todos.
Sentava-se. Fumava um cigarro. Chegava o café, e adoçava-o; então, bebia-o serenamente, em três goladas precisas e rigorosas. Fumava novo cigarro. Dava dois ou três golos no copo de água (não tão precisos, mas não menos exatos). Fumava outro cigarro; e partia.
Todos os dias o mesmo ritual. Inconfundível e inalterável.
Entretanto, eu lia. Mas não lia. Mentalmente perseguia-lhe cada gesto, adivinhando-o antes de acontecer.
“Sentava-se. Fumava um cigarro. Adoçava o café e bebia-o. Fumava outro cigarro. Dessedentava-se. O terceiro cigarro; e saía.”
Na minha frente os gestos aconteciam imediatos e reais. Mas eu revia-os em replay, saboreando-os gulosamente. E se calhava levantar os olhos do papel era para fazer a sobreposição do fotograma sobre o instante real, e reconhecer que não havia qualquer disjunção, qualquer desvio, qualquer assimetria. Que a cópia e o original se encaixavam perfeitamente. O que sempre sucedeu durante um ano, como já afirmei.
Em dois anos consecutivos somente houve uma alteração, com um ano de antes e outro de depois dela: O quarto cigarro. Após um ano ininterrupto a sentar-se, fumar o primeiro cigarro, beber o café, fumar o segundo cigarro, beber água e fumar o terceiro cigarro, para seguidamente se levantar e sair, passou a sentar-se, fumar o primeiro cigarro, beber o café, fumar o segundo, beber água, fumar o terceiro, beber novamente água e fumar o quarto cigarro, para partir consumido este, no decurso do ano seguinte. Nem mais. Ou menos. Exata e exemplarmente assim.



Mas essa alteração, menor, como afinal o foram antes desse ano os dois minutos de antecipação ou de atraso, arrastou-me para um turbilhão de sentimentos e ideias e dúvidas e contradições, inconcebível. Para uma tempestade interior de onde tinha que sair a nado e a pulso, sem qualquer suporte ou auxílio, em solidão total, esforçada e exaustivamente conseguida. Respirar era uma batalha. Perceber que continuava vivo depois dela ter partido, uma vitória. Nunca a minha vida valeu tanto, nem tão pouco!
Talvez seja a este prazer de torturado que alguns autores aludem, em suas obras de personagens ou temáticas sadomasoquistas; ou esse contentamento descontente dos poetas. Não sei. Contudo, se cada dia tivesse mais um ou dois segundos dessa parca meia hora em que ela permanecia na minha mesa, tenho a certeza de que morreria. Sucumbiria, fulminado. Naufragaria. Indubitavelmente, sem esperança nem recurso. O Inferno de Dante parece uma piada ridícula e idiota face àqueles trinta e tal minutos. Acreditem.
Há pessoas que são capazes de se matar pelos outros. Há mortes e suicídios por amor. Nem era estritamente necessário que alguns shakespearianos no-lo tivessem lembrado em literatura, para que o soubéssemos e reconhecêssemos. Outros, de morrer. E eu, convencido que estava, e estou!, que se Inês ficasse alguma vez mais esses fatídicos minutos, por cada dia, eu morreria... Mesmo assim, chegava a desejá-los. Não percebem?... Não importa; eu também não – embora seja a mais pura das verdades.
Todos os dias, ela vinha e sentava-se; e eu restava ali, abatido, prostrado, naufragando sem debate, nesse remoinho tempestuoso de milhares de offs e pesadelos alucinados, aflições, letargias e expetativas. Irremediavelmente só, até aos infinitos limites de eu próprio, invocando religiosamente a pírrica frase por cada vitória de cada dia a que sobrevivia. Trezentos e sessenta e seis dias escritos por extenso e em brasa na página mais secreta do meu ser.
Mas valeu a pena, meus amigos. Porque hoje, inconfundivelmente hoje, precisamente um pouco antes, um nadinha quase nada, da primeira página destas linhas, ela concedeu-me esse minuto em que residia o limiar da minha resistência. O derradeiro. O fatal. O fatalíssimo, em érrimo grau.
           E eu, em desespero, ansioso, febril, seguramente convicto de que iria morrer na sequência dele, consequentemente, ergui os olhos para os dela, implorante e grato, acabado, vencido, a fim de lhe ouvir dizer, sorrindo em condescendência e num lamentoso oscilar de cabeça:
«Tonto!... Claro que te amo. Ou achas que se não te amasse eu teria fumado mais um cigarro, por cada dia e durante um ano?! Por cada bica?... Aumentando assim as minhas possibilidades de cancro, hãn?!... Tonto!»

           E saiu. Reportando-me a existência para uma arte bastante estranha de entender as coisas e a vida. Mas ficara convencido: ninguém, em seu perfeito juízo, se destrói por nós, se nos não ama verdadeiramente, seja lá o que isso for da verdade e do amor... Ninguém!                     

2.24.2015

DA INSEGURA SEGURANÇA DO AMOR




DA INSEGURA SEGURANÇA DO AMOR

Amar não é fácil para ninguém,
E, muito menos, coisa para amadores;
Que após ausência, a saudade vem
Plantar incertezas, ânsias e dores.
Amar é difícil, e se o fazemos bem,
Ou com jeito cuidamos de nossas flores,
Não raro vem a falta de jeito de alguém
Fazer (re)florir novas plantas e cores.

Amar é um (des)andar na corda bamba
Contínuo, ou por tudo, e até por nada;
Que mesmo que se a alma ginga e samba
Logo o corpo entra em outra roubada.
Amar dá arrepios, securas, rubores,
E exige engenho e arte aos amadores.  


J Maria Castanho

2.23.2015

ORAÇÃO




ORAÇÃO

Hoje, sobre ti a Lua-Nova abre
O seu cálice de ouro e sigilo,
Quase copo de adaga ou sabre
Afiado gume e gélido brilho.
É cálice de renascida intenção
A transbordar sombra de lado,
Onde cabe humana condição
Tecida esperança e tido eito
Do verbo quer ser conjugado.
Nada me digo. Ponho as mãos
E cerro os olhos com respeito
Ante teu sonho assim desejado,
E à noite abro todo meu peito
Pra que nele seja enfim tatuado.
Ponho as mãos, mas o coração
Esse, fica sempre do teu lado.


J Maria Castanho   

2.20.2015

A TRAGÉDIA


 
 
A  TRAGÉDIA
Por
JOAQUIM MARIA CASTANHO
 

 

Juvêncio Pernas nunca foi homem de falas desperdiçadas, nem palavras sabidas em ró-có-cós e caganeirices. Mas deu-lhe a vida, por mor de muita andança e surpresas várias, aquele semblante desconfiado e o cenho franzido de olhar os outros sob a pala do boné de bombazina castanha, que só tirava para dormir, e as mais das vezes nem para isso, pondo-o sobre a fronte, se de alguma sesta à sombra de árvore mais frondosa o calor e cansaço lhe impunham. As pressas o não impediam. E à companha dava jeito.

Nado e curtido nas charnecas de outrora, nunca se adaptara solidamente às sociedades que a longevidade lhe fez atravessar: na de produção negou-se à prisão condicional dum emprego fixo e horário rígido; à de consumo, recusou a corrida sem tempo de olhar os campos, as aves, os riachos e os arvoredos; e tão-só da de comunicação quis aproveitar mais do que alguma musiquinha brejeira nas noites de sábado em rádio portátil. E ao mundo, queria-o pequeno, para que lhe pudesse dar a volta num dia, de cão coelheiro preso ao eixo da carroça puxada pela arisca e finória “Boneca”, uma mula e tanto, picaça, que ainda prometia muitos e aturados anos de atafais. Em toda a vida tivera quatro para a lida, mas aquela era de todas a que mais lhe enchera as medidas, pelo porte fino, esguio, nervoso temperamento e maneiras de madame exigente nos mimos e no trato. Altiva, que nem uma soberana; folgazona e lesta, que nem uma alvéloa. Assustadiça, porém, se não se tivesse mão nela e uma palavra de acalmia. 

Por ganha-pão agarrara-se vida fora ao ferro-velho. Essas azinhagas e carreteiras foram-lhe o chão da casa, e por piores que estivessem os seus pisos, desde que lhe cheirasse a ferrugem nalgum casal ou monte de confins, nunca lhe impossibilitaram de fechar negócio. Um faro danado que detectava os oxidados a milhas, e nos olhos de medir a disposição do vendedor, sem dúvidas nem lambanças, uma acuidade e concentração que assustaria os psicólogos mais expeditos, forjaram-lhe sério e avultado pecúlio, que deixou a forrar juros de ano para ano, sem precisão de mexidas por doenças e desafortunas.

O casamento durara-lhe e tivera na vida dele o mesmo desassombro de uma trovoada de Abril, morrendo-lhe a companheira na primeira prenhez, levando com ela a cria, que nem do tempo era. Coisas que um homem não desmisterializa, nem a natureza concede desvendação. Bastando-lhe a experiência, não sem antes afogar as mágoas, frequentando intervaladamente algumas casas menos religiosas, mas mais iniciáticas, embora que doutros credos e catecismos.

Foi à tropa quando devia ter ido e não ganhou nem perdeu nada com isso. Se anteriormente, por trabalhar, era mal pago e pior considerado, quando lá, continuaram a pagar-lhe mal, trabalhou de igual modo e a consideração também não subiu. Infantaria, escolhera ele, por ser um nome pomposo e de realeza, que deveras o fascinou e o seduziu: meteram-no a limpar cavalariças e tratar de cavalos.

Aprendeu o negócio com um tio que o explorou de sol a sol, e que o empregou por extraordinário favor familiar, materno, por imploração da mãe, e a quem haviam nascido os dentes no ofício. Três anos, foi quanto durou o idílio!... Um dia, pelo S. Martinho, atirou com os aparelhos ao ar e mandou os favores do tio pràs urtigas, que era de onde nunca deviam ter saído! Estabeleceu-se com três contos de réis, a que foi acrescentando outros, somando aos três de cada vez, até que, ao casar possuía de seu o albergue e a viatura. O primeiro muar foi a meias com um comerciante de gado, que lhe aproveitou as voltas para fazer propaganda à mercadoria. Não fora grande coiseca, mas vendeu-se com lucro para os dois, a um vinicultor a quem dava bastante jeito, pela moleza e obediência, únicas qualidades que evidenciara em dois anos de trato.

Quis o destino que, na sexta-feira santa de l990, às seis da tarde, lhe fosse a sorte arredia na desfeitura do produto de sessenta e dois anos, bem conservados e nutridos, sem moléstia de maior, num molho de ossos quebrados, além de umas dores danadas, que por certo, nem às parideiras era dado ter, se não, nem no mundo haveria geração.


Andara durante o dia pelas bandas de A-dos-Tansos, zona encarapelada de morros e vales, alguns a pique, deixando ravinas de alto lá com elas!... E ao fundo das quais, o Rio Tramóia, que na sua terra, Casal Parado, mal passava dum ribeirote, mas que para os sítios, engrossado por uns quantos riachos e ribeiras, de fracos recursos em pleno Verão, corriam à data sem descaro nem licença para dentro dele. E, em determinados locais, se o declive o propiciava, em cascatas espumosas de água pardacenta dos esgotos e pecuárias que lhe desaguavam.

O caso dera-se sem apelo, não obstante as suas destras mãos na exímia condução da Boneca, tivessem recorrido a toda a mestria acumulada nos ininterruptos e idos anos de domar os ânimos e desquites às alimárias do seu sustento. A estrada serpenteava encaracolando-se à volta do morro, dando-lhe pela esquerda frondosa mas pedregosa fasquia, e pela direita, inclinado precipício, esgalhado à mão podoa, de piornos, xaras, carapetos e zambujeiros, entremeados de morouços de pedras e menires naturais que aos celtas da zona não ofereceram qualquer utilidade. 

«Ah, mundo cangalheiro!...» Responsava consigo próprio, num resmungo de medir-lhe os cômoros e declives, contabilizando os espécimes da flora até ao rio, no fundo, a borbulhar cachões. «Arre, que até arrepias!!...»

E impressionava mesmo. Dava vertigem, a quem se debruçasse da estrada para lhe espiar o leito, sumido as mais das vezes, encoberto pela vegetação.

De santa a sexta-feira não tinha tido nada, prò negócio. Umas aduelas, relhas partidas, duas camas de ferro carcomidas de ferrugem e uns quilos de arames vários, fora quanto abichara. Mas pronto!, para a broa sempre havia de dar... Sem conduto, é claro, que as carnes não se mercam com ninharias!...

Cogitava nas contas do que reunira semana fora, em termos de remessa, visto que no dia seguinte, sábado, era dia do camião da metalúrgica, que lhe ficava com os pesos, passar pelo estaleiro a carregar. Feitas por alto, não excediam as três toneladas – o que era pouquíssimo!... Noutros tempos, chegara a juntar sessenta e setenta de sábado a sábado. Mas os costumes mudaram-se, e o ferro da lavoura, que fora do que mais lhe viera parar ao lastro da carroça, sucedera substituído nos tratores e demais alfaias sem propensão para metal, ainda velho que fosse.

A estrada é apertada, mal permitindo passagem, no cruzar-se, a dois carros. E nas ultrapassagens via-se obrigado a entrar com o rodado no piso de chão da valeta, a facilitar a manobra aos outros viaturantes. Apercebeu-se perfeitamente da natureza e porte do veículo que se aproximava pela retaguarda. “Um pesado de grande curso”, pensara ele.

E era. Nada mais que um TIR, transporte longo e de manobra difícil, de assustadora envergadura, no seu comprimento de doze rodados. Mas o motorista, cruelmente brincalhão, sobremaneira o quis ultrapassar, fazendo da buzina de ar um instrumento de tortura para os serôdios do progresso, mandando-lhe duas estrondosas bufadelas no cachaço, ecoantes de estrépito civilizacional nos orelhões do muar. Bbbrrrhhhuuummm!!... Bbbrrrhhhuuummm!!...

Resultado: o bicho embraviscou-se, deu dois cangotes, entrando em pânico pelo alvoroço, desobedecendo ao arreatar do freio e serrilha, investindo-se de teimosia bárbara e diabólica, levando o rodado da carroça a saltar a valeta, que, num ápice se resvalou – zás, pás, catrapás, pás, zás – precipício abaixo aos trancos e tamancos, de cangalhas às avessas, num pandemónio que dificilmente ao sarraceno lembraria. E o energúmeno nem parou, ainda assim o não chamassem a contas pela brincadeira!...

Porém, não eram decorridos dez minutos após o desacato, quando um residente daqueles ermos, dirigindo-se a casa, vindo do trabalho, na sua motorizada de 50 cc, apercebendo-se do desastre parou a traquitana e constatou nada poder fazer além de ir a casa telefonar para a GNR e Bombeiros Voluntários de Casal Parado. Que foi o que fez, à ligeireza do enquanto o diabo esfrega um olho imposto na distância.

Os primeiros a acorrer ao local foram os Gê Nê Rê, nas pessoas do cabo e dois praças, que, pé ante pé, e à custa do pretexto da demora dos soldados da machadinha, desceram a ravina.

O tio Juvêncio Pernas fora o que caíra mais longe, esgalhando piornos e xaras, até se quedar, de braço direito e clavícula esquerda partidos, as costelas a multiplicarem-se em duas por cada uma, tíbia e perónio esquerdos em fratura exposta, e duas brechas no toutiço em que cabiam à vontadinha dois patacos de Euro, no arejar-lhe do cérebro por um par de vinténs. Antes dele ficara a besta – salvo seja, que se no desaguisado alguma houvera, fora outrossim o fitipaldi dos camiões –, de espinha partida em dois lados, escoriações na cabeça, e a pata dianteira esquerda quebrada em duas secções. E na superior da superfície, acamarotado de primeira, o canzote coelheiro, que inúmeros laparotos lhe havia trazido à mão, se acaso o soltava onde visse que era chão deles e sem perigar de ser autuado pela venatória, com o pescoço traçado pelo cordel que o prendia ao eixo da carroça, sustendo a cabeça ao corpo por um fio de carne e pele, patas traseiras partidas ambas e outras feridas menores. O resto da carroçaria e carga, foram parar espalhadas encosta adiante, conforme o peso e os obstáculos.

Ao GNR, o cabo Sabino quanto apurei, deparou-se primeiro com o cão. Meteu-lhe dó o animal, naquele estado, ganindo e gemendo de cortar a alma às postas de meio arrátel. Sacou da pistola, e não esteve com demasias: assestou-lhe um tiro de misericórdia, acabando-lhe de vez com o sofrimento.

Encontrou seguidamente a mula Boneca, cujo estado de graça não era para menos, e processou-lhe igual tratamento. Pum!!, mesmo de cano enfiado no interior da orelha do bicho.

Finalmente deparou com o tio Juvêncio Pernas, escarranchado num carapeteiro, que crescera aprumado sobre um desabrido morouço de calhaus, ainda com a arma em mãos das anteriores utilizações. Este visionou o guarda, o cinzento pardo da farda a aproximar-se, e logo que o teve perto de si, esboçou um sorriso de quem estava num dos melhores sofás do salão de chá, e afiançou-lhe:

«Oh, Sr. guarda: tal foi a tragédia!... E eu, nem um arranhãozinho apanhei!!?»

2.19.2015

É URGENTE (inventar) O AMOR


É URGENTE (inventar) O AMOR

 

Querer fazer parte da tua vida

Não me dá o direito de mandar nela,

Que o amor tem por certa a medida

De não cerzir sedas com cerol e sovela.

 

Nem obriga a respeitar só por obrigação,

Ou a transformar em meio qualquer fim;

É antes ouvir NÃO quando dizes «não»,

E ouvir TAMBÉM quando dizes «sim».

 

Joaquim Maria Castanho

ƸӜƷ Ϡ₡ @ ♫♪♫♪Ϡ₡ @ ♫♪ Ϡ₡♫♪Ÿ♫♪ ♫♪♫♣Ϡ₡ƸӜƷ 


 


(Ilustração: telas de ESTHER SILVA, pintora maranhense)

2.11.2015

QUE DETALHES E PORMENORES, HÁ-OS PARA TODOS OS GOSTOS, DESDE OS MAIS PEQUENOS AOS MAIORES

QUE DETALHES E PORMENORES, HÁ-OS PARA TODOS OS GOSTOS, DESDE OS MAIS PEQUENOS AOS MAIORES

«Grandes poderes, trazem grandes responsabilidades», disse o tio Ben a Peter Parker.

In O HOMEM ARANHA I


A única diferença plausível e observável entre cultura e propaganda, é que a primeira admite, integra e inclui a segunda, mas a propaganda exclui, estigmatiza e instrumentaliza a cultura. Sobretudo e por isso mesmo, se é já de si difícil perceber como funciona uma mente, ainda que das mais normais e pacatas, então avizinha-se hercúlea tarefa perceber a dum povo, mesmo que recheado de paz-d ’almas como é nosso, que é o conjunto – somatório e produto – de cada uma delas e o entrosamento de todas elas, formando essa amalgama de diversidade multicultural, que devia também ser integracionista mas prefere ser anárquica, a que chamam povo lusitano ou português. Contudo, não é: é simples: não funciona. Porque se funcionasse não estaríamos como estamos, não devíamos o que devemos, não haveria a corrupção que há; teríamos políticos honestos, frontais e competentes – e não temos. Nem resistiríamos às pequenas mudanças conforme resistimos, esperando ansiosamente uma grande e derradeira que nos salve ou nos atire definitivamente de pantanas, como sucedeu com D. Sebastião, o Encoberto, e Alcácer Quibir. Não nos oporíamos a repensar continuamente as nossas prioridades, nem faríamos orelhas moucas às sugestões e palpites do conhecimento universal acerca das alterações que temos de efetuar para melhorar a acuidade observativa, lucidez técnica e objetiva, disponibilidade mental e sentido prático, espontaneidade e eficácia de conduta. Ou seja, estaríamos dispostos e disponíveis para contribuir eficazmente para o desenvolvimento coletivo, aumento da qualidade de vida, garantir razoável sustentabilidade socioeconómica e máximo bem-estar, e não estamos. O que denota que essa resistência não é apenas resistência, mas incapacidade de nos adaptarmos a uma sociedade moderna e aberta, democrática e emancipada, consciente e responsável, insistindo teimosamente no modus operandi da teimosia infantil e explicitado sentimento de inferioridade caraterísticos da mentalidade provinciana e pacóvia que grassou, e grassa, de norte a sul, desde o tempo dos santacombadões do está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira. Emperrou. Está atravancada de monos e trastes como estaria qualquer sótão arrumado por dez milhões de macacos à solta. Coisa que se nota principalmente nas periferias das cidades periféricas (ou do interior), onde a economia paralela floresce e prolifera, de forma escorreita e destemida, à vista de toda a gente, e sob o beneplácito e agradado olhar das autoridades, que se estão literalmente nas tintas prò assunto…

Fiscalização? Nem vê-la. Que estão escalmorrados contra o governo que lhe cortou nas mordomias e horas extraordinárias. E os populares? Bhhhaaa!... “Na terra do bom viver faz-se o que se vê fazer”, justificam-se, atirando o olhar para os exemplos que vêm de cima.

O governo que temos foi o governo que escolhemos (ter), e a esta altura do campeonato não vale a pena rabiar, uma vez que ele entrou na descida que antecede a reta da meta, e não é agora que se vai conseguir aquilo que não se conseguiu no apogeu do mandato, que é deitá-lo a baixo, ou fazer com que melhore o seu programa e a execução dele, pelo que falar contra a ação governativa e sua composição só lhe dará força, motivação e renovação de ideias, dando subscrição plena à sentença de que aquilo que não tem remédio, remediado está. Até porque se lhe esgotou a criatividade e imaginação, coisa que também tem limites mesmo para quem é perverso e maléfico, quer o reconheço, quer não, inclusive por se lhe haver secado a fonte de inspiração típica dos navegadores à vista da costa, que é a oposição, que entrou igualmente em crise de gestação e se encontra prestes a sentir as dores de parto, pela ameaça dos movimentos e novos alinhamentos políticos que se aprestam a abalroar o establishment ocidental (e ocidentalizado). Tanto por influências históricas judaico-cristãs, como pelas anglo-saxónicas do novo-mundo: via UEA, UE, China, India, Brasil, Canadá ou Austrália. E até da Islândia, que deu um pontapé no seu desregrado estado para rumar em direção à sustentabilidade, ao desenvolvimento e ao são convívio com a natureza, por mais vulcânica, ameaçadora, fria, agreste e exigente que ela seja.

Vai daí, contentamo-nos em prolongar o carnaval para além dos cinco dias que dita o entrudo, e assobiamos prò lado, alegrando-nos por saber que há ainda quem esteja pior do que nós, indo buscar felicidade à infelicidade alheia. Vemos no que deu o CHARLIE e não arriscamos. Vemos uns filmes. Assistimos em direto à entrega dos óscares. Desabafamos no futebol. Temos um fado sempre na grafonola digital. E um de cante alentejano próximo da máquina, que nos pode apetecer uma sesta. Fazemos zapping amiúde, e guardamos a genuína apreensão sobre o futuro para os analistas da meteorologia, que o pintam com avisos de curto prazo, desde o vermelho ao verde com amarelo das rosas repolhudas e amistosas. Podíamos tomar as rédeas ao destino, mas não tomamos, que isso dava-nos um grande poder. E um grande poder é um grande encargo, uma enorme responsabilidade, como dita o herói da pequenada a quem a teia teceu a segurança, o voo mas também o medo e o criancismo. A superstição. A vida tramada. E acomodamo-nos amuados.  

Bom… Mas AINDA temos a liberdade de expressão, se dirá. Não, não temos. Usufruímo-la, executamo-la porque veio/vem de fora, com a Internet. Senão andaríamos todos e todas a comer o pão por conta, ganho com a boca pequena, que é como reza quem se ajoelha por necessidade. E será que ela, a necessidade, depois de nos aguçar o engenho, começou também a burilar-nos o gosto? É caso para começar a ficar preocupados… É que para quem teme a mínima alteração ou mudança nos detalhes, com uma inversão tão radical, dava-lhe alguma coisa ruim. Oh, se dava!        


Joaquim Castanho

2.08.2015

EXIGIR FATURA É COMBATER A CRISE E AJUDAR A PAGAR A DÍVIDA

O que os alemães sabem acerca de nós e a troika não desconhece, é que se os portugueses quiserem saldar a dívida e cumprir com as suas obrigações podem fazê-lo, sem recorrer a austeridade excessiva nem aos atos sobre-humanos de que falou o Luís Vaz (de Camões), mais do que permite a força humana: basta que não contornem o fisco, se abstenham do mercado paralelo e instituam a honestidade e o civismo como normas de conduta diária. Que implementem a cultura da cidadania e da responsabilidade cívica. É pedir muito? Sobretudo depois de ter passado duas ou três décadas a fazer asneiras com o dinheiro “nacional”, a esbanjar por motivos eleitoralistas, a ser refém dum economicismo atávico e obreiro de inutilidades megalómanas? Penso que não. E todos e todas reconhecerão facilmente como de fato assim é. Ou, para evitar mal-entendidos gerados pelo acordo ortográfico, a que insistem resistir como se dum teste à próstata se tratasse, reiterarei que «todos e todas facilmente reconhecerão que de facto assim é.»

E as nossas “faturinhas” têm que entrar para o nosso processo fiscal, logo identificadas com o nosso número de contribuinte, e estar registadas no site e-fatura do Portal das Finanças, que deve ser atualizado continuamente, tendo cada qual a obrigação de verificar lá a sua presença e de chamar a atenção da autoridade tributária, num prazo razoável, coisa de dois ou três mezinhos, de que a empresa X ou Y, a quem nós comprámos isto ou aquilo, “ainda” não lhes enviou as ditas. Custa muito ajudar para que o nosso país nos ajude a melhorar de vida e estabelecer um crescimento sustentável? Melhore a sua performance fiscal e tributária? Custa muito não só fazer meninos e meninas mas também preparar-lhes um mundo coeso, seguro, honesto e saudável em que se possam também reproduzir? Claro que não custa, nem para os mais vadios, “subeficientes” e adoentados. Portanto… Acabem lá com as modas, que ser humano, participativo, democrático, simultaneamente europeu e português, exercer uma cidadania ativa e envolvida, não é nenhuma excentricidade nem handicap.

Gostar ou não dos partidos que estão no governo, não é desculpa para nada, principalmente para prejudicar os demais que, como nós mesmos e os nossos vizinhos e vizinhas, todos os dias dão no duro para garantir a sua independência e sustento. A responsabilidade cívica não é um dever só para os outros e outras. E a liberdade sem ela, sem a responsabilidade cívica, não é nenhuma modernice intelectualóide nem um radicalismo esquerdista ou acrático: é uma sacanagem simiesca. Além do que as despesas gerais familiares, de saúde, na educação, os encargos com imóveis e despesas com lares de 3.ª idade, bem como as faturas relativas às aquisições nos setores de atividade de alojamento e restauração, cabeleireiros e reparação automóvel e de motociclos e da habilitação ao sorteio Fatura da Sorte, são benefícios consagrados pela recentemente entrada em vigor informatização da fiscalidade e atividade económica.

E o fato de recebermos pouco, idem. Quem aufere um rendimento inferior, não significa que deve ficar à margem da ética e do civismo, mas antes demonstrar que está preparado para receber mais, e que se o recebesse cumpriria as suas obrigações fiscais com aprumo e galhardia, no respeito pelos demais e as regras da sociedade. As pessoas não se medem pelo que têm mas pelas atitudes que tomam. Nem pela aparência física, mas sim pelo comportamento e prática quotidiana na consideração e empatia de que são capazes pelos seus semelhantes. Estamos todos no mesmo barco, e todos podem fazer a sua parte para continuar a navegação. Quem tem muito contribui com muito, e quem tem pouco contribui com pouco ou mesmo com nada. E, como diz o povo, quem dá o que tem, a mais não é obrigado.

Estamos a mudar de era, e a do chicoespertismo trapaceiro do biscate e manhosice egoísta já se foi.


Joaquim Castanho          

2.06.2015

A CULTURA NUNCA PODE SER SECUNDÁRIA

A CULTURA NUNCA PODE SER SECUNDÁRIA


Na Grécia do Tsipras (Alex, pròs amigos!), o organograma governamental apresenta quatro superministérios: A Educação, A Saúde, A Economia e A Cultura. Quatro aaaa como o óleo da Pima (já crescidinho). Essencialmente porque no entendimento grosseiro da coisa pública, o que ninguém conseguirá ignorar, uma economia de sucesso nunca poderá prescindir duma educação vigorosa e dinâmica, duma saúde musculada e flexível, nem duma cultura apta e abrangente, inovadora e ativa. Imaginativa e observativa. Sem o olhar crítico e envolvido desta última quaisquer outras valências ministeriais baterão com os burrinhos na lama, afundar-se-ão no tédio, no marasmo, na hipocrisia e na insustentabilidade, uma vez que foi sempre e em todo o lado – desde os impérios persa, egípcio, grego e romano (pelo menos) que recorreram à receita pra vingar e pereceram mal a abandonaram –, a única estratégia política plausível ante as contrariedades forjadas pela ausência de estabilidade orçamental, crescimento económico, oscilação dos mercados e capitais, fragilidade social. Mas sobretudo, se queremos que a economia não desperdice oportunidades de rendimento, a saúde não contraia agastes novos, a educação não se transforme num sorvedouro de talentos e mais-valias, mas sim, e antes, se implante como um veículo de excelência para conteúdos atuais e atualizados, interessantes e atraentes, ou capazes de se transformarem em agentes de progresso e desenvolvimento. E sustentabilidade.

Mas os gregos são antigos, muito mais antigos (coisa de três ou quatro mil anos) do que nós, que só nascemos há 900 anos e uns trocos. Somos uns gaiatos face a eles, e, por isso mesmo, não pensamos e metemos a cultura num desvão, com secretaria lá para os fundos do organograma governamental. E quem lucrou e lucra com isso? Os ingleses, os norte-americanos, os alemães, os franceses, os nórdicos e o mercado paralelo em geral. Porque não havendo cultura ninguém precisa de educação nem sabe prò que serve, pode haver saúde física mas a mental fica pelas ruas da amargura, e a economia é um calvário que todos e todas temos que subir com a Autoridade Tributária às costas.

Porque quando o processo de evolução de uma sociedade conservadora e gerontocrática, como a nossa, e também a europeia, principalmente na parte mais desenvolvida dela, é notoriamente lento, a mínima centelha de motivação, a mais pequena mudança nele, torna-se, evidentemente radical. Num lago parado a queda duma larada de passarinho provoca uma cadeia de pequenas ondas que se assemelha a um movimento tempestivo. Alterar as rotinas, como pedir fatura com número de contribuinte em todas as compras (e vendas), pode ser tão doloroso na atitude cultural dum povo, como a extração de um dente cariado num indivíduo: sabemos que não presta para nada, só nos causa dissabores e fealdade, é duma inutilidade inegável, podemos arrancá-lo sem a mínima dor, porém, deixará sempre um buraco no maxilar de onde o tirámos. E sentir-lhe-emos a falta durante algum tempo. Todavia, nenhum povo, nenhuma nação digna desse título, perde 45 mil milhões de euros em impostos num ano por acaso… E Portugal perdeu-os. Perdeu-os para a economia paralela, quando essa maquia, esse buraco, essa falta, era suficiente para saldarmos a nossa dívida à troika, e assim deixarmos de andar com uma das mãos à frente e outra atrás para tapar as misérias sociais que nos caraterizam. E porquê? Por falta de cultura. De cultura democrática. De cultura tributária. De cultura política. De cultura sanitária. De cultura social. De cultura educativa. De cultura económica e empresarial. De cultura financeira. De cultura cosmopolita. De cultura literária. E a saúde orçamental do próximo ano dar-nos-á notícia dela. E de como uma simples enfermidade se transformou num quisto cancerígeno para o qual ainda não foi inventada qualquer cura, antídoto ou vacina…

Portanto deixemos de cegarregas e de atirar areia pròs olhos do Zé-Povinho, que os gregos, não obstante terem uma dívida infindavelmente maior que a nossa, o que os obriga a pagar mais de 10 mil milhões de euros de juros anuais, e que monta a 315 mil milhões de euros ou 175 % do PIB, estão atualmente em melhores condições para saírem do aperto do que nós, a quem falta além das culturas enunciadas a do bom senso político e honestidade, que é coisa rara por cá, pelo menos desde os hermínios viriatos, tão apreciados pelos santacombadões do nosso contentamento e do tudo está bem assim. Mas tão bem, que até achamos normal ter uma cultura que mal chega a secretaria de Estado… Pudera!  

Joaquim Castanho     

2.05.2015

PRA QUEM É BACALHAU BASTA

PRA QUEM É BACALHAU BASTA

A maioria dos cidadãos e cidadãs da portugalidade bem-formados/as fala e escreve exemplarmente quando se dirige aos estrangeiros, mas dão erros em barda, uns e umas atrás de outros e outras, sempre que o fazem com os seus conterrâneos e conterrâneas, concidadãs e concidadãos do linguajar lusitano, talvez por considerarem que estes, os portugueses e portuguesas da língua materna, mais não merecem, nem sequer os usuais cuidados que dispensam a qualquer dialeto dos demais idiomas do mundo (dito) civilizado. Nisso, realmente, são bons, são ótimos, são excelentes. Que nas 250 palavrinhas a que qualquer prova obriga não dão uma prà caixa, e conseguem fazer uma média de três erros ortográficos (e de pronúncia) por cada dez palavrinhas, incluindo as monossilábicas, assim na boa, sem fazer o mínimo esforço nem pisar no acelerador a fim de cumprir limites de tempo. E até acham que os dirigentes nacionais que se expressam em português quando se pronunciam em atos oficiais onde se exige a sua presença, tanto na Europa como nos restantes continentes deste globo à babugem do sistema solar plantado, é porque não sabem inglês, francês, russo, alemão, mandarim, etc., etc., evidenciando não estarem à altura das funções para as quais foram eleitos/nomeados, sendo isso prova consumada e incontestável de acentuado défice no seu desempenho. Como e porque é que isto acontece? E onde nos levará? Pergunta-se.

O porquê sabe-se e é inequívoco pela evidência que traduz. Porque os portugueses e portuguesas dão o cu e dez tostões para agradar a quem invejam, e (desconfia-se, de acordo com os resultados obtidos ultimamente) têm razão para invejar todos os povos e nações do planeta, exceto os espanhóis, gregos e irlandeses, que têm andado igualmente com as calças na mão e navegam nas mesmas águas da mandriice, da corrupção, do chico-espertismo, do favor e por conta, do corporativismo, da subsidiodependência, do miserabilismo cultural e económico, da tentativa de ludibriar e contornar o Estado de Direito e os credores que emprestaram dinheiro para governar a casa, do lamechismo arrivista e da inconsciência social, que nós. E que insistem em viver acima das suas posses e atirar as culpas do seu fraco desenvolvimento à crise, aos mercados, à alta finança, aos bancos e à Sra. Merkel, expurgando o elevado défice, e dívida, de qualquer dano que a má-gestão, interesse obscuro e ignorância caraterísticas do provincianismo atávico tradicional lhe tenha originado.

Já o como fia mais fino, e aparenta não ser assim tão fácil de discernir… O governo salienta que é por sermos bons alunos, habilidosos no biscate, mezinha e remedeio, por fazermos todos os exercícios (TPC) e distintos cumpridores dos ditames troikanos. A oposição faz notar que estamos a investir no futuro, entendendo por futuro “essa utopia” de atingir os mesmos resultados e escores que tivemos no passado: dar as costas ao Mar da Palha. E os partidos/movimentos novos, como precisamos de mudar para voltarmos a ser o que já éramos e nunca deixámos de ser (oportunistas que navegam ao sabor das marés), estamos a ensaiar, a treinar, a ganhar estaleca, para melhorar a performance de pedintes e arruaceiros que representamos desde o 25 A.

O onde é que isso nos levará? Ao que se vê. Ouve. E lê. Quem escreve e fala com desenvoltura e galhardia, correção e atendimento das regras (de dicção, ortografia, coerência, lógica, conjugação, fluência, flexibilidade vocabular, sintaxe e síntese) do português bebido em Bernardim, Camões, Gil Vicente, Garrett, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Florbela Espanca, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, Cecília Meireles, Miguel Torga, etc., etc., é suspeito. E de tudo! Principalmente de ser arrogante, vaidoso, sabichão, e de ter a mania. De gostar de se armar. E até de não ter carro… ou de andar a pé! (“Sabe muito mas anda a pé”, como ciciam as mentes puras da trogalheira quotidiana…)

Nos jornais e telemóveis o “aceite” e “entregue” sem serem imperativos imperam como prova de bom gosto e guarda-avançada da modernidade; nos noticiários e filmes o “despoletar” emprega-se quando se quer dizer “espoletar”, “detonar”, “provocar”, a toda hora; nos discursos de “empreendorismo” os enfoques proliferam que nem ginjas à beira dos “cristalinos” regatos de know-how dos politécnicos e formações profissionais portugas; e as grafites, ementas e preçários esgrimem com cagança e desenvoltura ou sã concorrência a ver quem consegue mais entradas tipo “Portugal no seu melhor” no Facebook e abicha mais Kkkkkkkkkkkkk e likes por postagem e/ou partilha.

Porém somos, todos e todas, gente fina e de pura casta. E fornecemos a educação ao menino e à menina, como sempre ditou a tradição do pra quem é bacalhau basta. Ou seja, estamo-nos literalmente nas tintas uns para os outros, e umas para as outras, e tanto se nos dá como se nos deu que aqueles e aquelas a quem nos dirigimos nos entendam como não. Principalmente porque desconhecemos com exatidão o que queremos dizer, mas também porque consideramos que ninguém que seja como nós e fale a mesma língua merece o mínimo respeito, consideração, esforço de compreensão e atenção. Tal e qual como os demais (povos ou adultos) fizeram connosco quando éramos pequenos. E que faz com que ainda o sejamos. Senão menores, de geração para geração. E menos capazes de vencer os obstáculos que naturalmente o mundo livre e a livre evolução nos colocam, ao almejar os patamares de consciência socioeconómica, identidade cultural, emancipação e sustentabilidade a que temos direito… Ou não temos, e quem está enganado sou eu.


Joaquim Castanho  

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