La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

2.25.2016

NO APERTO DA LEI




NO APERTO DA LEI 

Adoeceu-me a dor. 
Deu-lhe de repente. 
Ontem 'tava boa, 
Mas hoje 'tá doente. 

Adoeceu-me a dor... 
E num instante,
Não há que me doa 
Daqui em diante.

Milagre? Não sei... 
Remédio... Quem sabe! 
Se o amor é Lei,
A dor não lhe cabe.

Joaquim Castanho  

2.23.2016

DOCE FAINA




DOCE FAINA 

Na solidão de tuas correntes
Meu aconchego, meu naufrágio
Nos sentires por que sentes
Sou teu argonauta, e contágio.
Que a rima me trouxe à vela
Quando rumei só, sem medida, 
E pouco a pouco plas marés dela
Me ancorou à própria vida 
– Com gestos de rosa à bolina
Pleno vogar de espinho manso,
Abranda o ser que me inclina,
Alcança o ritmo no balanço. 


E assim, encantado por sereia
A cujos suspiros estremeço, 
Aliso teus cabelos de areia 
– Acúmulo os beijos que te peço. 

Joaquim Castanho 


2.20.2016

SONHO AZUL




SONHO AZUL 

Me desbasta a vida pouco a pouco
Como um respirar de brandura, 
Que percorrer o sonho é de louco 
– Tal água mole em pedra dura.
Intenso, por vezes, áspero até
Acelera o pensar se o penso
Carrega-me o desespero de fé. 

A sua estirpe torceu o mundo
Conduzindo-o bem para lá do lá, 
E deu-lhe um céu tão profundo
Que, se o chamarmos, ele virá. 
Forjou o voo imortal e ufano, 
Com que o mais simples animal
Se tornou racional – e humano. 

E assinou o espaço infinito
Com laivos de angelicais penas, 
No sussurro azul desse grito
De onde nascem todos os poemas. 

Joaquim Castanho 

2.19.2016

A GENICA DO POEMA




A GENICA DO POEMA 

Entre a pré-compreensão e a compreensão
Há um número infinito de poemas
Que escapam à nossa interpretação, 
Ocultos em subtemas de seus temas.
Uns, são oriundos do vocabulário; 
Outros, têm origem no inconsciente. 
Porém, todos são também seu contrário
Mesmo que o não tenhamos pertinente. 
Se lidos, as mais das vezes, tão-só são
Lineares encadeamentos de palavras; 
Mas ao ouvi-los mudam sempre a questão
E acrescentam à nossa vista outra visão, 
De que as metáforas também são escravas. 

Que na vida, nenhuma sílaba é serena... 
Este mesmo poema me disse a mim, hoje
Que o seu significado só vale a pena
Se ao temo-lo ao mesmo tempo nos foge!

Joaquim Castanho

2.08.2016




FÉ 

A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.

E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição). 

Creio que era um lírio, uma açucena... 

Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou  murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.» 

Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir. 

Joaquim Castanho 

REMANSO MATINAL por Joaquim Castanho




REMANSO MATINAL 

Espécie de silêncio, na fala
O vento murmura à água, 
Quanto a nossa luz exala
Doçura e plácida trégua. 
É a fidelidade eterna
Numa canção que mal se ouve;
Mas, como raiz viva, moderna
Só nossa sombra a promove. 

Porém, da manhã, um cicio
Sem lamento que a estorve, 
Pede ao momento seu brio  
De instante que a renove... 
que a renove... que a renove...
que a renove... que a renove...

E ele escuta. A água escreve.

Joaquim Castanho 

2.05.2016

POR QUE AMANHÃ É SÁBADO




POR QUE AMANHÃ É SÁBADO


Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais. 

Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia. 

Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida. 

Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto. 
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização. 

E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!  

Joaquim Castanho 

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