La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

2.15.2008

Álvaro de Campos: apenas mais um heterónimo de Fernando Pessoa?



Álvaro de Campos: apenas mais um heterónimo de Fernando Pessoa?

"Os poetas não inventam os poemas
O poema está algures lá atrás
Há muito tempo que lá está
O poeta não fez senão descobri-lo."

Jan Skacel

Introdução

A poesia de Álvaro de Campos, enquanto elemento cénico-dramático da família pessoana, deve ser encarada paradigmaticamente como um produto de quatro vectores importantes, e a saber: a) no sentido estético-filosófico – o sensacionismo; b) enquanto espelho social do seu tempo – ou retrato da sociedade de produção; c) na perspectiva do "eu" e sua natureza confessional – ou reflexo da formação inglesa; e d) pela postura imagética na tradição oceânica portuguesa, seus motivos e argumentos poéticos. Não só porque Álvaro de Campos foi aquele heterónimo mais próximo do alter ego de Pessoa, como também foi, sem dúvida, o seu principal companheiro (imaginário) e confidente, o que o tornou no mais original, atrevido e mistificar de todos eles. Há até quem pretenda que Fernando Pessoa ele-mesmo mais não teria sido que o pseudónimo de Álvaro de Campos... Daí a grande dificuldade de analisarmos um sem nos conseguirmos abstrair do outro!
"Álvaro de Campos, embora tenha ido para Lisboa muito novo, nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890", afiança Fernando Pessoa numa carta a Adolfo Casais Monteiro, incluída na Presença, número 48. E adianta: "Como se sabe, é engenheiro naval (formado em Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa, em inactividade. (...) É alto (1,75 m de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo porém liso, normalmente apartado ao lado, e usa monóculo. Teve uma educação vulgar de liceu; mas depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez uma viagem ao Oriente, de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre." E além de discípulo de Caeiro, era também drogado, maricas e iniciado da maçonaria.
Por outras palavras: a biografia de Álvaro de Campos, à excepção da camoniana viagem ao Oriente, que Pessoa nunca fez, confunde-se simetricamente com a deste último, se invertermos o Globo e atribuirmos à Escócia a localização correspondente à colónia inglesa, a província do Cabo da Boa Esperança, ou, a Tavira, a igualmente correspondente beira-mar lisboeta. Até o ano da morte de um, 1935, é o mesmo que da morte do outro, pois que a 21 de Outubro desse ano, ainda Álvaro de Campos assinava poesia, o que é a mais evidente das provas para a existência de um poeta, independentemente de qual seja ele a que queiramos referir-nos. Aliás, também Álvaro de Campos foi prosador e crítico literário: Notas ao Acaso, in Sudoeste; Notas Para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, no número 30 da Presença; O Que é a Metafísica e Apontamentos Para Uma Estética Não Aristotélica, na revista Athena (1924); e, ainda, os manifestos Aviso Por Causa da Moral e Ultimatum. Mesmo o sensacionismo de "Álvaro de Campos (AC) era um vinco fundo cavado na alma, a expressão trágica de uma consciência que, de cabriola em cabriola, fizera chegar Fernando Pessoa àquele estado abissal, sem fé, sem esperança, sem caridade, estirado ao comprido na valeta que era a sua cama, lá nesse quarto desalinhado da Rua Coelho da Rocha, onde a maior parte das vezes, completamente só, principiava a sentir a intoxicação física que as permanentes bebedeiras lhe iam provocando na constituição débil, ainda mais debilitada por anos e anos de mau passadio, de deambulação boémia de tasco em tasco, comendo conforme o dinheiro que havia de momento e dormindo onde o acaso lhe proporcionava nova cama", como subscreveu João Gaspar Simões, que foi tanto um conhecedor do homem, quanto da sua vida e obra.
Neste trabalho vai-se, por conseguinte, estabelecer que há uma linha de criação estética que, não só foge aos cânones de beleza comummente aceites como épicos e líricos, o que os traslada em "euépicos", mas que também executa a linguagem enquanto proposta de ligação entre correntes de pensamento, ou teórico-literárias, anteriormente apenas concebidas em separado: o romantismo, o realismo, o simbolismo esotérico e introspectivo, e o sentimento épico nacional. Porque a subjectividade do eu poético é tão circunstancial quanto os poetas, quer em seu nome, quer como expressão de alguém em si, quando estão limitados e influenciados pelo espaço-quando que os enquadra e emoldura. Incluindo mesmo, e principalmente, os maiores, que se anteciparam no tempo, no modo, no verbo e no acto de representar a sua imagética. E originalidade.

a) O SENSACIONISMO

Este primeiro item é o cerne fundamental de toda a temática de AC. É da experimentação subjectiva modificada e reflectida acerca dos mais variados estímulos sensitivos que parte toda a sua poesia. O "eu" sensacionista é um ego experimental. O sensacionismo é baseado na teoria segundo a qual a única realidade da vida é a sensação; e que, grosso modo, a única realidade da arte é a consciência dessa sensação – "porque a melhor maneira de viajar é sentir".
Os mais efectivos, factuais e prementes exemplos disso são: E o Esplendor dos Mapas, Casa Branca Nau Preta, Insónia, Aniversário, Trapo, Bicarbonato de Soda, Dai-me Rosas e Lírios, Lembro-me do Teu Olhar, Vilegiatura, Até Que Enfim ..., Perfeitamente, Símbolos? Eu Estou farto de Símbolos, O Que Há Em Mim é Sobretudo Cansaço, Esta Velha Angústia, Hoje, Se Calhar, Está o Quê?, Mestre, Meu Mestre Querido!, Na Noite Terrível, No Lugar dos Palácios Desertos, Não Sei. Falta-me um Sentido, Afinal, a Melhor Maneira de Viajar é Sentir e Passagem das Horas.

Apontamento

A minha alma parti-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia de loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre o capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçaram-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que eu era um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes eles.


Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.


(In Presença, nº 20 – Abril/Maio, de 1929)


A analogia "a minha alma partiu-se como um vaso vazio", com que começa este poema, em que a imagem de movimento reflexivo "partiu-se" coisifica a alma de AC, assemelhando-a metaforicamente a um vaso vazio, é gradativamente intensificada, em crescendo, pela anáfora
Caiu pelas escadas
Caiu das mãos
Caiu

com o objectivo de nos dar um esboço pictórico, um croquis, um apontamento de rascunho para a tela fundamental, uma impressão sensitiva avivada de aguarela nebulosa – e não é o impressionismo um sensacionismo?... –, imaginada até se tonar mais realidade, ou tão real como a realidade sentida, forte, violenta e intransigente, em que o resultado final, naquilo que é uma multiplicação por descaracterização e/ou despersonalização, é um produto superior à simples e directa soma dos cacos, em demonstração do que é, sumariamente, o valor acrescentado do sensacionismo: o vaso, ao partir-se, transforma-se em mais pedaços do que havia de loiça em si, demonstrando que o resultado da soma é superior à soma das partes. Ou seja, pelo sensacionismo, efectua-se o milagre da multiplicação (à semelhança com a bíblica multiplicação dos pães, em que quanto mais o pão se parte e reparte, mais ele cresce) do ser, em que um homem é tanto mais humano, quantos mais homens conseguir sentir ser em si. O que, aliás, após as interrogações "Asneira? Impossível?", que são arredadas pelo conhecimento apenas concebível ao da dúvida socrática, num fingimento de ausência do intelecto e razão, que é o sentimento – "Sei lá!" –, fica confirmado pelo enunciado afirmativo de "tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu", onde se explica que ser-se e sentir-se ser um único ser, não é uma libertação extensiva, mas sim uma limitação e restrição feita ao eu, enquanto capacidade e potência de sentir, recordar, imaginar, iludir e existir, ou palco de representação (simbólica ou não) da vida. O verso é livre, sem rima, sem ritmo nem métrica definitiva, alternando versos de doze, quinze e dezoito sílabas com redondilhas menores, atenuando o balanço sem traços aliterantes demasiado vincados, excepto quando necessários para evidenciarem os mecanismos dentados dos sistemas maquinais, e no objectivo de recriar a sensação de rasgo que antecede o eclodir, o Big Bang inicial, a explosão primeira da formação do verbo estelar, que é, indubitavelmente, a do fonema que surge antes do noema, e antecipa o sentido da palavra. Ser é uma subida pelas mão de alguém, seja quem for esse alguém, podendo até ser uma criada doméstica, uma serviçal ao dispor da sensação que a requer. É aspirar a ser Deus, degrau a degrau, sensação a sensação, de analogia em analogia (A minha alma partiu-se como um vaso vazio. // Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. // Etc., etc.) descendo cada vez mais fundo por uma escada, por uma escada excessivamente abaixo, íngreme, tornando por isso mais tolerante, mais múltiplo e sincero, como leitores (deuses não se zanguem com o poeta / com a criada, a vossa criada...) nascidos do vazio, olhando os cacos absurdamente, ainda que conscientes deles, tirando caco sobre caco, ilusão sobre ilusão, desfolhando o ser, multiplicando-se alastrando na grande escadaria que antecede o temp(l)o, por cada caco uma estrela, por cada estrela outro ser, cada uma/a mais diferente de cada qual, mas por isso mesmo mais igual àquele caco que brilha, virado do exterior lustroso, entre astros seus iguais, porque também mutáveis, ou outros eus demasiado diferentes de si, porquanto no mundo dos mundos sensitivos os extremos tocam-se, irremediavelmente: uma queimadura tanto pode ser provocado pelo excesso de exposição ao calor, como pelo excesso de gelos e frios, enquanto caco, que quanto mais astro mais é caco que brilha, na desorganização caótica dos sentidos.


No segundo andamento de Apontamento, que começa com o anfiguri (Não se zanguem com ela. / São tolerantes com ela. / O que eu era um vaso vazio?), composto por dois anacolutos (Não se zanguem / São tolerantes), cuja epístrofe "com ela" / "com ela", é reforçada pela não concordância dos tempos e verbos zangar e ser, passando da segunda para a terceira pessoa do plural e com tempos diferentes, sem nada que o peça ou faça supor; e o segundo, "o que eu era um vaso vazio?", pela falta – elipse – do "senão" ou de uma interrogação, que parece estar subentendida, "o que eu era? Um vaso vazio?", em que o princípio da frase nada tem a ver com o final, entra-se numa derradeira derrapagem do ser para a sensação de ser, explícita na iteração da palavra conscientes, espalhada no dueto seguinte: "Olham os cacos absurdamente conscientes, / Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles." Então, ser-se é um esquecer de ser. Olham e sorriem tolerantes como os deuses. Mas para onde olham senão para si próprios?... – Afinal, cacos, nacos, partes, conscientes de si-mesmos... Porque os deuses são cacos/lentes que se olham fora de si, que se imaginam especialmente, ainda quando desconhecem porque ficam ali.
Ter uma sensação não é como ter uma experiência. Mas sim um como imaginá-la tão especialmente que se sente quase o mesmo do que se tivéssemos tido, tipo ver claramente visto que se não viu realmente. "Fingir é conhecer-se". É experimentar no laboratório da poesia um eu, que não sendo nosso é deveras nosso, mas que manipulamos como se o não fosse, e através do qual podemos sentir o que fingimos sentir.

b) O ESPELHO SOCIAL – SOCIEDADE DE PRODUÇÃO

Se, como poderia ser a intenção do autor, Álvaro de Campos teria de ser um poeta "moderno e cosmopolita", então não lhe restava outro caminho senão o de retratar a imagética de uma sociedade que, por não existir concretamente em Portugal nos princípios do século, teve o seu ponto de referência nos Estado Unidos e Inglaterra; nela nascesse, dela fizesse parte integrante, justificasse a aptidão, por exemplo com um diploma tirado em Glasgow, representasse o seu futuro como o progresso industrial, enfim, fosse a sociedade de produção onde o engenheiro cumpriria o seu mister. E uma cosmologia mecanicista. Ora, para esse objectivo concorreram, argumentativamente, sem dúvida, pemas como
Dactilografia, O Binómio de Newton, Cruzou Comigo, Veio Ter Comigo, Dobrada à Moda do Porto, Não: devagar, Às Vezes Tenho Ideias Felizes, Começa a Haver Meia-Noite e a Haver Sossego, Ode Triunfal, Tabacaria, Apostila, Adiamento, Nuvens, Reticências, Ode Marcial, Ao Volante do Chevrolet Pela Estrada e Sintra, Ali Não Havia Electricidade, Acordar na Cidade de Lisboa, O ter Deveras, Que Prolixa Coisa, Vai pelo Cais Fora um Bulício, Cruz na Porta da Tabacaria, Faróis Distantes e Nas Praças Vindouras.




Ao Volante do Chevrolet Pela Estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixado ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, nem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim, eu próprio sou!

À esquerda o casebre – sim o casebre – à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela ma olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite , ao luar, ao volante
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de mim.

"Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem montadas, os cavaleiros seriam peões." – É Pessoa/Campos quem o afirma no nº 5 da Presença, de 4 de Junho de 1927. A sociedade de produção sem as máquinas da revolução industrial, ou sem os carros, seria um progresso apeado, que o mesmo é dizer, um progredir de coisa nenhuma, para outra igual a si. Mas o automóvel encerra dentro dele outra particularidade: para ser guiado necessita de um volante, um comando de seguir viagem, cujo maquinismo, instrumento, o volante, é o símbolo sensacionista por excelência. Sem ele a sensação seria estéril, fixa, para e intoxicante, inconsequente, descontrolada, desequilibrada e descabida.
No verso livre e discursivo, repleto de cesuras marcadas e pontuadas pela artificialidade da vírgula, a meio ou no fim de cada um, de métrica longa, como batida de êmbolo, na constância rítmica ou por tónicas forçosamente coladas, precisamente com a melodia alongada, esticada, a harmonia fónica característica da frase cumulativa natural da frase grande, AC recorre a uma panóplia de figuras de retórica e sintaxe, para nos esgarrar a visão. No entanto, pela sua insistência, dois recursos estilísticos me parecem mais propositados que quaisquer outros: a anáfora e a gradação. Porque poderá ter sido?
Vejamos: porque estrada de Sintra é apenas um caminho, pelo qual, com o auxílio do volante (o sensacionismo, a corrente), cada um pode condzir o progresso social e industrial, mecânico e económico, a seu bel prazer, em direcção à descoberta de si próprio, enquanto homem cosmopolita na sua fuga para a vida, para a frente, com a pobreza à esquerda e o latifúndio à direita, mas iludido e material, como o é, indubitavelmente, o homem típico da sociedade de produção.
Ao Volante do Chevrolet é uma sinfonia épica, à semelhança das de Wagner, Beethoven, Mozart ou Ravel, em que dois instrumentos, quais solistas – talvez um violoncelo e um piano, uma percussão e um trinado, uma repetição e uma elipse – a anáfora e a gradação, dialogam, despicam, se interrogam , interpelam e combatem mutuamente, até à apoteose final, ao clímax, à catarse, em que se entregam e unificam definitivamente na sensação que delas retemos. Assim:
(Anáfora) (Gradação circular)
Na estrada de Sintra volante
Na estrada de Sintra imaginação
Na estrada de Sintra cada vez mais perto de Sintra
Na estrada de Sinta cada vez mais perto de mim
para a fusão perfeita nos dois últimos versos, onde a anáfora e a gradação atingem o êxtase culminante.
Na estrada de Sintra cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada e Sintra cada vez mais perto de mim,
afinal, uma progressão nominal típica de uma sociedade que apela mais aos fins justificando neles os meios. E isto é o resultado de uma progressão valorativa, épica, tão sinfónica e musical, como, por exemplo, O Bolero, de Ravel. Daí que logo nos primeiros dois versos, acordes, como prelúdio e anúncio do que se irá seguir, em aviso à navegação, sejam precisamente a anáfora de
Ao
Ao
e a gradação circular estrada de Sintra, luar, sonho e estrada de Sintra, a pedra-de-toque com que nos afiançamos da natureza do poema. Mas não só: em todas as demais estrofes – na segunda: (anáfora)
Que sigo
Que sigo
Que sigo

e
Sempre
Sempre

(gradação crescente) estrada, sonho, mundo ou (gradação decrescente) propósito, sem nexo, nem consequência e (gradação crescente) Sintra, sonho, vida; na terceira: (anáfora)
Quantas coisas
Quantas coisas
Quanto

e (gradação circular) sorrio, pensar, virar, sigo, guio, sou; na quarta: (anáfora)
Que só
Que só

e (gradação compulsiva, com epístrofe) estrada, automóvel, liberdade, fechado, fechado; na quinta: (anáfora)
O meu coração
O meu coração
O meu coração

e (gradação circular) luar, tristeza, campos, noite ou (gradação decrescente) terrível, súbito, violento, inconcebível, e (gradação crescente) casebre, coração vazio, coração insatisfeito, coração mais humano –, como se dizia, à excepção da quarta, que é uma espécie de desenvolvimento romântico e garrettiano do tema, o processo se repete, como fórmula de preparação para cozinhar em lume brando o epílogo "final", enquanto prova demonstrada de como a sociedade, os outros e as coisas do progresso, só serão válidas e úteis desde que forneçam um veículo e caminho que facilitem ao homem do seu tempo a tarefa, essencial diremos, e se buscar, para a descoberta de si mesmo, enfim, quadro de fundo e leitmotiv que assiste a todo e qualquer sensacionismo, ou até a todo e qualquer "ismo".
Outro pormenor a realçar, enquanto crítica do social, é que, ironicamente, o Chevrolet conduzido é emprestado. Porquê? Porque o modelo de sociedade descrito e subscrito por AC também foi emprestado, não é português, é anglo-americano, visto que cá a revolução industrial nunca chegou a acontecer, em termos determinativos e concludentes, e aquilo que se dela se viu, chegou com pelo menos 50 anos de atraso, aliás, sociedade essa, a que apenas Fernando Pessoa teve aceso por empréstimo de outra escrita, o jornalismo, ou os ecos jornalísticos dela que a Portugal aportavam através dos jornais e revistas inglesas que ia lendo. Ou seja, o engenheiro é formado no exterior, mas o carro que conduz também é emprestado, o que, em certa medida, ainda hoje continua a ser verdade: a indústria já vai na sua quinta revolução nas as máquinas de escrever actuais, desde as esferográficas bic ao computadores que usamos, são de fabrico estrangeiro, ainda cá não foram inventados, continuando nós a servirmo-nos deles por empréstimo, ou... importação. Pelo que, neste capítulo da sociedade e progresso, a actualidade de AC se mantém intocável e inalterada!
(Ilustração: foto de quadro de Júlio Pomar)


b) NA PERSPECTIVA DO EU, OU CONFESSIONAIS

A vertente confessional, ou da formação superior e educação escocesa do engenheiro, já que os estudos anteriores foram os liceais, como os de tanta outra gente, AC demonstra-nos, e demonstra-se, a irreverência nas tendências in da toxicomania, homossexuais, pedófilas e maçónicas rosacrucianas, tudo coisas ousadas e perversas para a altura, que, além de estarem vedadas e não poderem ser incluídas nos currículos liceais da nacionalidade nacionalista fechada, também nunca poderiam ser admitidas pela moral da época, a um homem real, mas muito bem aceites numa personagem abstracta; isto sem falarmos, no psicadelismo que se lhe seguiu, nem os ecos deformativos badalados acerca da Inglaterra, a propósito da formação e educação dos técnicos navais "literários" de então, onde causavam enormes incêndios e tempestades de ânimo a polémica em torno de Oscar Wilde, que foi "excomungado" da sociedade londrina.
E podemos incluir nessa linha os poemas Saudação a Walt Whitman, Soneto já Antigo, Lisbon Revisited I e II, Marinett Académico, Todas as Cartas de Amor São, Eu, eu mesmo, Há mais de meia hora, Pecado Original, Magnificat, "The Times", Gazetilha, De la Musique, Psiquetipia (ou Psicopatia), Poema em Linha Recta, Barrow-on-Furnes, Cleary Nn-Campos e Degogn.

Soneto já Antigo


Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Embora não sintas, que tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
Que eu nada que tu digas acredito),
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas felizes

Embora não o saibas, que morri...
Mesmo ele, a quem tanto julguei amar,
Nada se importará... Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily,
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partem a vida e que m lá ande!



Ora, Soneto já Antigo, enquanto poema, só é soneto na distribuição estrófica, pelos seus quatro conjuntos de versos, cujos 14 são repartidos por duas quadras e dois tercetos. De rima diversificada (abba / cddc / eff / egg) em cada estrofe, a sua paralelística disfarçada (bb / dd / ff / gg) e pela rima interpolada das quadras com emparelhamento dos tercetos, denota desde logo a intenção de AC em fazer mais uma canção de amigo invertida, em medida de (quase) alexandrinos, utilizando a licença poética que o versilibrismo da época lhe concedia, do que um soneto clássico petrarquiano. Neste cantar de amigo por soneto, soneto em torno de uma canção de amigo ou canção de amigo em forma de soneto, conforme se queira e prefira, AC confessa à sua confidente (invocação do primeiro verso: "Olha, Daisy") a sua homossexualidade, matando imaginariamente aquela outra "máscara", e personalidade, pela qual, entre ainda alguns amigos de Londres, era conhecido, e em que acreditavam que ela fosse a sua verdadeira persona, ou realidade personalista. Literalmente falando... Os encavalgamentos do verso 1 para o verso 2, do 4 para o 5, do 7 para o 8, do 8 para o 9 e do 11 para o 12, aliados aos àpartes intercalados por apóstrofe do verso 3 ("embora não o sintas"), do verso 6 ("que eu nada que tu digas acredito"), do verso 9 ("embora não o saibas") – 369, numeral composto por múltiplos de três – e do verso 12 ("que acreditava que eu era grande"), assim como a aliteração em r, d e m, constatada em todo o poema, confluem propositadamente para a formação de um anticlímax esotérico compulsivo e congestionado, naquilo que parece ser um anacoluto final, por se assemelhar extraordinariamente à confabulação ou algo desenquadrado do anteriormente dito ("raios partam a vida e quem lá ande!"), característico dos místicos iniciados nos rituais das seitas do secreto, então, proibido, essencialmente britânicos, cuja literatura e teatro são um espelho, além de actividades não permitidas na época às mulheres, em que as personagens femininas eram sempre (encarnadas) representadas por travestis, seres em que se não deve acreditar, pois nunca são o que parecem, mas invariavelmente outra coisa qualquer ("embora não o sintas", "tu escondes", "nada que tu digas acredito", "embora não o saibas, "julguei amar" e "estranha Cecily"), tal como Fernando Pessoa estará, ou esteve, travestido de AC para os seus amigos, actores e máscaras sociais, do teatro londrino, ou fora dele.
Neste poema Daisy, não parece ser uma mulher amiga e particular e específica: é a calma, a tranquilidade querida e adorada, que as amizades londrinas lhe proporcionaram, porquanto Daisy é uma espécie de acrónimo de dear easy. E está, qual provocação propositada, no princípio do poema, não só como porta de entrada, por ser uma invocação, mas também para demonstrar que é uma espécie de chave de entrada para a ambivalência do texto, que no rascunho é dedicado à casa do teatro (daisy mason) ambulante (irás de Londres a York), como eram quase todas as grandes companhias teatrais e faziam na altura. Porque acima de tudo é o teatro, o drama de ser muitos, as máscaras, as personagens, as roupagens de ser, que escondem – ou revelam – a dor da sua morte, dado que ser muitos é ser ninguém (em particular), como ser tudo é ser nada, e não se ninguém é estar morto, tudo aquilo que concorre para que o engenheiro AC, pela sua formação académica inglesa, seja mais marinheiro que engenheiro, mais poeta que marinheiro, mais personagem que poeta, mais actor que personagem, mais máscara que actor, mais masculino que máscara e mais feminino que actor. Se não, então porque é que Cecilia seria estranha?... Porque, provavelmente, não era Cecily nenhuma: era um homem, artista de teatro, um actor travestido de mulher. Porque ele, Álvaro de Campos, como personagem de um drama que era, apenas conseguia uma tranquilidade plena no seu próprio habitat natural, que eram os camarins, o palco, a boca de cena sensacionista, (n)a representação dos sentires, seus e alheios, e saber e não saber, que caracteriza a essência do teatro.
Portanto, reiterando, Soneto já Antigo, não é um soneto – é um travesti de estilo, uma canção de amigo disfarçada de soneto, ou vice-versa.

b) A TRADIÇÃO OCEÂNICA PORTUGUESA

Mas também porque o ambiente natural de um marinheiro erudito (engenheiro naval e viajante) nascido à beira do Mediterrâneo, crescido ao lado do Atlântico e de frente para o estuário do Tejo, só pode ser (homem) do mar e ter como consequência directa o cumprir do fado que é ser português, a tradição oceânica portuguesa assume-se como outro dos parâmetros basilares da estrutura molecular e poética de AC, de enorme constância, concisão semântica e deverasmente contribuiva, ou imprescindível, no quadro geral dos conteúdos. E essa unidade significativa é inegável em poemas tais como Ode Marítima, Opiário, Dois Excertos de Odes, Grandes São os Desertos, Acaso, La Bas Je Ne Sais Ou, Realidade, Ah, um Soneto, e Escrito Num Livro Abandonado em Viajem.

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio se calhar.
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito duma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Porque todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo o que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional!
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isso é o mesmo também afinal.

Tudo aquilo que restou da tradição, além dos mulatos e mulatas, da qual os portugueses se (re)formaram após Os Descobrimentos, foram Os Lusíadas e pouco mais: "Ao menos escrevem-se versos", como disse e redisse AC, no Acaso de toda a sua ingenuidade e desorganização de marinheiro de engenho e arte, que em cada porto de cada nova cidade a que aportou, nova Ilha dos Amores encontrou, com outras raparigas, novamente por acaso, mas loiras.
E o Acaso é conseguido na repetição (repetição de palavras ou frases a intervalos irregulares num poema), e da também diversidade nonémica e fónica, numa manifestação musical de caótico desempenho, mas que, como se fossem sons de acaso numa natureza feminina e selvagem, virgem e por descobrir, como antigamente o haviam sido a África Austral ou o Brasil, de 1500, agora já colonizados por também outras raparigas loiras, como loira é a desta vez, que nem as holandesas e alemãs do brasil, ou as inglesas e holandesas de África, como se fossem – dizia-se –, ecos de uma vontade ancestral, desvitalizada, adormecida, descuidada, ou recordações, palimpsestos, reminiscências do génio, se calhar!, maravilha das celebridades, e do espírito oceânico ou tradicional dos navegantes portugueses. Que só por acaso são portugueses, pois bem podiam ser fenícios ou gregos, se A Odisseia de que se fala fosse outra. Digamos que, neste poema, por acaso de acaso em acaso se relaciona, tudo é despropositado – mas de propósito –, ao sabor da maré, disperso umas vezes, conciso, junto e repetido outras, numa tal dispersão que até as repetições (de retomar o ponto) são caóticas, não (com)sequentes e desordenadas.
Porquê – pergunta-se. Por três razões, e a clarificar.

1) Pela anamnese, ou recordação de um facto passado para com ele dar mais ênfase ao discurso poético e reforçar a imagética do presente, estabelecida nos primeiros seis versos, indo culminar na irónica exclamação do "que grande vantagem o recordar intransigente!", ou litote, espécie de meiose de ruminação passadista ou saudosa do tempo dos Gamas e Cabrais da portugalidade, numa lamentação consecutiva e resulta no que sempre deve resultar: quando se olha muito para o passado, perde-se ou perdemo-lo de vista, e, irremediavelmente, perde-se também a oportunidade de ver o presente – "agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga / e tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta", como salienta AC. Pois quando o acaso da rua dá no acaso da rapariga loira, que é a imagem viva de outra rua por acaso, é o que acontece. E é muito épico!...

2) Por via da sinédoque, em todos os plurais são o mesmo singular: "Porque todas as recordações são a mesma recordação" – ou, porque todas as sensações são sempre a mesma sensação; porque todos os acasos são sempre o mesmo acaso; porque todos os descobrimentos são sempre o mesmo descobrimento: o do homem, enquanto busca e encontro de si mesmo, do seu destino e fado. E o destino, no fado dos portugueses, é aportar em cada porto de cada igualmente outra cidade, onde haja outra rua e o acaso de outra loira, que até pode ser morena. Os épicos sempre na diversidade múltipla da mulher a infinita unidade do (fértil) ser feminino.
3) E em consequência directa da última epístrofe (dupla): "é a mesma afinal... / Tudo é o mesmo afinal... // Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isso é o mesmo também afinal". Porque fazer versos vale tanto como fazer gestos (até obsceno, porventura) e caretas ao destino, porquanto será o mesmo afinal, o seu resultado comunicativo, e em cada um de nós há, quiçá, adormecido talvez, escondido, recalcado e no desemprego, aquele mesmo que não é o mesmo nem o outro, porque é de hoje e não de 1500, mas mesmo assim e ainda o mesmo marinheiro que partiu para a Índia (ou Sintra) e deu novos mundos ao mundo, a bordo de uma frágil nau ou num Chevrolet, que tanto fez, faz e fará. Deu novas cidades, novas ruas, com novas loiras. Ou não-loiras. As mesmas da Ilha dos Amores – afinal, outras ilhas mas igualmente visões no espelhos desta ilha, ou imagem dela, invertida no espelho de água da nossa capitania, emolduradas sob os caixilhos (apertados) por uma Castela adversa e um (oceano) mar de temores e mostrengos, Admastores e Atlândidas.

Conclusão

Fernando Pessoa e, por arrasto, Álvaro de Campos, não só foram poetas maiores da língua portuguesa como tentaram clarificar a penumbra e nevoeiro que ofuscava a portugalidade. Portanto, não faziam versinhos ou composições poéticas sobre um ou vários temas que sustentavam a tenebrosa alma lusitana: faziam poesia autêntica e profunda, escavavam "arqueologicamente" os nossos pensamento e cultura, como sucede, sem dúvida alguma, nos demais géneros literários de que os autores se "socorram" para revelar o seu canto épico, conforme as características da sua natureza, mais ou menos universais, mais ou menos abrangentes, extensão aliás comum a muitos outros da nossa praça, e segundo o espaço-quando que os circunscreveu, ou circunscreve. Daí que a divisão temática – e um tema é apenas o reflexo de uma interrogação existencial... – não tenha tido a pretensão infantil de apenas dividir (o indivisível) a poesia de AC por itens redactoriais (vaquinha, burrinho, cidade, campo, sociedade, saudade, blá, blá...), mas abarcar parâmetros de intertextualidade e entretextualidade subalternos que funcionam, ou poderiam funcionar para qualquer outro "sincero" poeta do fingimento, como motivação da produção estética e/ou criadora, e também para Fernando Pessoa, que nunca deixou de ser ele mesmo, mesmo quando foi outro (nos seus heterónimos): enfim, no seu sensacionismo, enquanto membro da sociedade, o seu relacionamento com o seu "eu" e o enquadramento cultural que História de Portugal lhe exigiu ou propiciou. Primeiro, porque o que estava em causa não era a capacidade de redacção do poeta, nem sua a filosofia ou identidade, poios elas são por demais e sobejamente (re)conhecidas, não só nacional como internacionalmente, mas sobretudo os pontos fulcrais e evidentes da sua imagética; e segundo, porque o que importava não descaracterizar pela análise interpretativa, nem valorativa, a poesia de AC, mas sim cuidar de tentar compreendê-la enquanto elemento vivo e duradouro do espectro cultural e literário português. Até porque, nem Fernando Pessoa, nem Álvaro de Campos, carecem já de afectações intelectuais que os promovam, elogiem, nem maneirismos críticos que os livrem da pestilência emocional do politicamente correcto como precisaram enquanto vivos, ou qualquer outro tipo de provas e diplomas, experimentações e enredos. Que nisso, ou disso, são a língua e a literatura portuguesa quem precisa dos seus exemplos.
Por outro lado, seria impossível sintetizar a obra de AC numa moldura de apenas quadro cantos: porque ela diversa e dispersa, e melhor do que eu o sabem quem, por engano estratégico, a tentou contabilizar ou classificar tematicamente: um brasileiro já entrou nessa via e, à altura em que foi notícia, ia em 186 temas distintos, como esteticamente representáveis e possíveis. Por isso, os quatro itens enunciados englobam somente poemas cujo núcleo duro é explícito do grupo que evidenciam, talvez de forma arbitraria, mas sem que tal, todavia, vá interferir ou determinar uma leitura mais aberta, porque esta nunca pretendeu ser exemplar. Quando se apresentam tais ou tais poemas sensacionistas, por exemplo, não se esteve a irradiar os restantes da esfera sensacionalista, coisa impensável, dado que o "ismo" da sensação se estende a todos eles e todas as temáticas, com maior ou menor acutilância, mas sim a pronunciar mais uma sentença do tipo "este poema apresenta uma noção particular, peculiar e bastante relevante deste género de sensionismo, além dos restantes não a excluírem totalmente". O que é igualmente válido quanto à sociedade, perspectiva do eu ou tradição oceânica portuguesa.
Quanto aos resultados da operação "desmembratória", creio terem sido substancialmente positivos, visto me terem obrigado a reler, mas com um objectivo definido, grande parte da sua obra. E pelo menos uma coisa ficou clara: AC não permite qualquer leitura passiva, passagem de vista, feito no lume brando de desentorpecer dos outros heterónimos. Porque o seu mérito está, sobremaneira, em estabelecer o inverso, a imagem reflectida no espelho de água, logo ao contrário, daquilo que com os outros ele expôs. Acima de tudo, nesse esclarecido e privilegiado interlocutor que fez da língua portuguesa a sua pátria. E por último, porque os objectivos propostos na introdução se cumpriram satisfatoriamente: AC, mais do que uma variação para a leitura da poesia pessoana, é uma confirmada realidade da linguagem interpretativa do seu tempo. No seu tempo. Enfim, faz jus à absorção espontânea, imediata e criativa, diremos a quente, das ideologias, conceitos, teorias, ideias e posturas estético-culturais adquiridas por contacto e/ou estudo, da vida quotidiana, e na invenção do século XX português para o qual, ao seu jeito, grandemente contribuiu.

(Foto de escultura, Benit soit le fruit de tes entraille, de Canto da Maia)

2.13.2008

Palhaços!

Entre os sete e os dezasseis anos tive uma amiga especial, nas mesmas idades, que se revelou essencial na minha formação. Desconheço se lhe aconteceu, a propósito de mim, na sua, igual importância, mas o que é certo é que aprendemos um com o outro a ensinarmo-nos histórias. Se algum adulto lhe contava alguma, ela vinha logo contar-ma a mim, e se não lha contavam, então inventava-a, conforme as diversas que anteriormente tivesse ouvido. Quando a minha avó se lembrava de outro conto e mo alinhavava ao serão, eu corria a pagar-lhe na mesma moeda, dando-lhe dele a minha versão, que raramente era coincidente com aquela que ouvira, a fim de melhor lhe prender a atenção enquanto o fazia.
Se os líamos então brindávamo-nos mutuamente com o manuscrito da nossa "versão original" deles, modificando-os, sobretudo nos pormenores onde desconfiávamos que o seu autor tinha fugido à verdade, facto aliás confirmado, pelo incompetente descabimento de certas afirmações, controversas frases, e inverosímeis factualidades. Não raras vezes, acaso tivéssemos o que celebrar, enrolávamo-los como pergaminhos antigos, de fita e laçarote, e oferecíamo-los por prenda ou oferenda dessa celebração. Mas enquanto isso crescíamos, aprendíamos a contar histórias um ao outro com o corpo, sem palavras e quase sempre de olhos fechados, igualmente sedutoras e caprichosas nos pormenores e acordes tácteis, dedilhações que nos acompanhavam no fado das descobertas interiores e externas da alma, que se compraz e rejubila com o prazer do corpo físico que a anima, lhe dá vida e significado próprio no virar das páginas da eternidade. Logo, reunido que foi o conselho directivo das duas famílias, na constatação da suprema importância que dávamos a este tipo de narrativas, determinaram que devíamos separar-nos por uns tempos, indo um estudar para Lisboa, onde ficaria "a viver hospedada" na casa dos tios paternos, ao caso um que era uma, ou, por assim dizer, ela – a Cátia.
Ora, afastados, aconteceu aquilo que tinha que acontecer, e cruzámos empatias por outros lados, que nos despertaram também para novos prazeres de viver. Todavia, largos anos passados, fui encontrar alguns bocados, dessa nossa maneira de crescer. Por sinal, um conto dela, sobre o qual desconheço, se o terá inventado ela, se ouvido ou lido em intermezzo algum, de prosápia e fartum.


A MENINA DOS PÉS GRANDES

O Sr. António e a Sra. Maria moravam numa grande Quinta muiiito longe da cidade e como viviam muiiito sós, gostavam de ter uma filha.
Passado tempo o seu desejo concretizou-se. A menina era linda mas tinha os pés grandes.
À medida que ia crescendo a menina apercebeu-se que os seus pés eram diferentes dos das outras pessoas.
Quando fez seis anos foi para a escola.
Ela era muito boa aluna e no intervalo quando brincava quase nunca caía porque os seus pés grandes não deixavam.
Na escola alguns meninos sem coração como por exemplo o Pedro gozavam-na.
Os meninos que brincavam com ela puseram-lhe o nome de: "Pés Grandes".
Um dia quando ia quase a chegar à cidade viu passar uma caravana: Era o circo!
Foi a correr dizer aos seus colegas.
Quando estavam quase no fim da aula apareceram lá uns senhores do circo que estiveram muito tempo a falar com a Sra. Professora. Eu só ouvi isto: Gostava que nos deixasse levar as crianças para fazer uns exercícios na corda. Podia ser que alguma delas se equilibrasse pois a Dalila está doente.
Pés Grandes pensou logo que esta seria a sua oportunidade pois os seus pés iriam ter uma segunda utilidade.
Quando chegaram ao circo um a um começaram os ensaios.
Todos falharam.
Quando chegou a vez dela e viu que conseguiu ficou surpreendida.
Fez um trabalho SENSACIONAL e o seu equilíbrio foi TOTAL.
Mais tarde pediu aos pais se a deixavam entrar no mundo do circo.
Os pais consentiram e a partir daí dedicou-se ao CIRCO.

FIM

(Se calhar hoje é uma grande ESTRELA...)

Todavia, com o decorrer dos anos, voltámos a encontrar-nos, quiçá comprovando ser o caso bastante mais grave do que o Conselho Superior de Famílias lhe antevira em gravidade. Pois se é certo que há pessoas que possuem os pés maiores do que os caminhos que percorrem, o que é igualmente certo, é que há caminhos demasiados estreitos para neles se poder andar, sem danificar a anatomia dos andarilhos – e alguns não estão pelos ajustes. Depois, para que caibam neles dão cabo deles, e dizem que isso é evitar desgraças piores. Que é para defenderem o património, o genético e outro, e para lhe garantirem a felicidade, sobretudo sendo essas pessoas as mais infelizes dos mortais, ou, quando o são e estão, felizes digo eu, é porque se esqueceram de quem realmente são e as figuras que fizeram, enfim, de como em verdade são desgraçados e dignos de lástima, até aos seus próprios olhos. E falhados. Principalmente porque derivado da tentativa de recuperação do manuscrito, o publicá-lo num blog de histórias infantis, teve por consequência imediata o reconhecer-se Cátia nele, recuperando com isso ela a memória, o anseio comum de nos voltarmos a encontrar, recuperarmo-nos nós de nós mesmos, procurando-nos mutuamente, e tanto e insistentemente o fizemos que o conseguimos, para nos voltarmos a contar histórias, incluindo as incontáveis e indizíveis, tais como as que fazem da humanidade um circo e de cada ser humano aquele trapezista, mais ou menos brilhante ou eloquente, que voa sem rede, apenas abraçado ao seu sonho e na única companhia de quem lhe vai dentro. A segredar-lhe nem sei o quê, que nem vale pena aqui repeti-lo!...
Aliás, eu também desconfio, que cada estrela tem um fio, que a mantém dependurada, dessa coisa que é sonhar, que uns dizem ser quase nada e outros muito mais que tudo. Pois que se há vida a baloiçar, que até faz balançar o mundo, então é legítimo que todos o queiram tentar, com o seu fio mais profundo.
Porque se o circo passou e com ele levou a equilibrista afamada, quando partiu, bem deixou, a família que ficou, como os palhaços na estrada!

2.12.2008

Os Ovos de Emma

Não é necessária muita concentração para depreendermos que estamos nos arredores de Portalegre. Ao caso, e mais precisamente, entre a Serra do mesmo nome e a Serra de S. Mamede. Há como que um vale, um espaço parado no tempo, entre encostas, onde as ideias e as técnicas andam a passo de caracol. Daqui, semelhante a eco de resfolegar cansado, em ritmo cadente, subtraindo ao silêncio bucólico aquele algo de estertor manso das ravinas no rumorejar dos pinheirais, uma voz soa, qual crepitar líquido dos regatos perenes de início de Primavera. É Emma Maia.
E se Emma vive entre serras, a sua linguagem também; é uma pronúncia rural mas urbana, um dialecto crioulo, que na composição mista arrasta ruídos com reminiscências e intuitos industriais, papaguear de jornaleiros em faina, arenga de ajuste e negócio, franjas da comunicação social em laivos sonoros de telefonia que acompanha o amanho das terras. Acarreta consigo, fundidos com o xadrez da chita, nos estampados do lenço sob o chapéu de feltro preto, na bata garrida a sobrar sobre as calças de ganga, os sinais do género masculino e feminino típicos da mulher que se formou a crescer como os rapazes, a ir aos espargos, tortulhos, ninhos, correr entre estevas e piornos, sacudir o gado ou apanhar fruta. Merendar pão e conduto da mesma mão, enxaguar a garganta com tinto corrente. Pelos olhos entrou-lhe a imensidão do verde e azul serranos, e moldaram-lhe as ancas o calcorrear de granitos não cinzelados. Mas desse estado ao sonho é um saltinho de trepa, que chilreia na nuca, a desinquietar o Alentejo...
Portanto, soletra-lhe a voz utopia quando mal se descuida dos afazeres terrenos. Quer reunir em si a harmonia de tudo quanto é contrário, e prende com atilhos de saudade aqueles que se afastaram. Demora-se nos mandados, afia os suspiros com lembranças avulsas de pormenores singelos. E desagua-lhe o desejo num amor que almeja compromissos de conquista, lutas de consentimento entre rejeições, batalhas quixotescas contra fantasmas que lhe moem, enternecendo, os impulsos de possuir através da dádiva, como se a sociedade pudesse ser uma enorme família, onde o capital afectivo fizesse as vezes das hierarquias ou do dinheiro. E influenciasse deveras o sentido de voto na devoção à coisa pública.
Sensatez. Ingenuidade. Inocência. Eis os três pólos inseparáveis, em redor dos quais lhe flui o sangue e a palavra. Do trigo faz o pão, mas ao joio aproveita-o como rabeira para as pequenas aves de criação. Transparece-lhe o imo na flor da pele e ruboriza perante a surpresa, mais do que deseja revelando-lhe assim amiúde quanto de si escondido quer. E se no crescer se educou, conforme as imposições do meio, ou do corpo, segundo este se lhe modificou, nunca por nunca ser, bruscamente cortou com os ritos, as maneiras, os hábitos, as tradições, os valores, as regras, o quotidiano, da família em que o fez e aconteceu: o pai, empregado fabril, a mãe doméstica, mulher-a-dias na cidade, com casa e algum chão seus.
Saídos da rudeza do campo, para fazer face à carestia de vida e exigências do tempo, não abandonaram todavia essa atmosfera característica da ruralidade em que se crestaram, e que inculcaram, pouco a pouco, dia a dia, embora inconscientemente, na filha. Honravam o trabalho, a partilha, a cooperação, a ajuda entre eles; celebravam os aniversários, a Páscoa e o Natal, mas estes sem exageros nem afectações de religiosidade; dividiam quanto de bom lhes coubesse e auxiliam-se nos revezes, dentro da modéstia de conhecimento que as habilitações lhes propiciavam; incentivavam Emma para auto-suficiência e autonomia, para que lhes pudesse facultar conforto na velhice e dar continuidade à família, em espírito e genes, mas sem a desesperança, hiperprotecção e expectativa que normalmente acometem os casais com filhos únicos. Sem deslumbramentos de maior, nem preciosismos de exigência, eram discretos no convívio, simples nos gostos e afáveis de trato.
Porém, de restrito vocabulário. E deveras temerosos ante a complexidade da arte, dos mistérios da ciência e tecnologia, dos arrufos e jogos da política ou da agitação cosmopolita. E sentiam-se sinceramente acabrunhados quando lhes faltavam as palavras que lhes traduzissem o que ao momento pensavam, dessem ênfase ao que sentiam. Involuntariamente transmitiram-no a Emma, que lhe avolumou a preocupação e lhe aumentou a relevância.
Por isso, quis ela aperfeiçoar o seu discurso, dar-lhe requinte e substância, socorrendo-se da leitura eclética e diversificada. De jornais, revistas, livros técnicos, estudos científicos e ensaios filosóficos, enfim, literatura. Então, na singeleza da moradia, uma dependência dela, o seu quarto, começou, primeiro sem destoar muito, mas com o correr dos anos, a ganhar uma vida ímpar e peculiar que contrastava com as restantes divisões. A ter personalidade díspar, a acumular mistério, a exigir atenção redobrada, a acomodar presenças que se estranhavam num ambiente tão comezinho e campestre. A compungir os progenitores que, se lá entravam por qualquer motivo corriqueiro, se compenetravam em tal circunspecção, a pontos de o pai ter o cuidado de tirar o boné, se o tinha na cabeça, e a mãe a abotoar o decote até cima.
Os anos somaram-se uns aos outros, naquela cadeia habitual que nos acompanha a idade, e a par deles, multiplicaram-se também esses livros com outros livros, essas revistas e jornais por demais exemplares da mesma índole, até o quarto ter as paredes não forradas de papel, mas de estantes com papel, que mais parecia, não o quarto de dormir que era, e por tal criado fora, mas uma sala de acordar, de vigília, de despertar, de recriar como é qualquer biblioteca, ainda que nas vilas mais sorrateiras do Alentejo profundo. E vai daí, dentro dele, em que Emma ganhara o hábito de apalpar a parte inversa e interior do mundo e da vida, e onde passava a maior parte do tempo, que eram todos os dias e noites se em férias ou fins-de-semana, e apenas as noites se em aulas, lhe deu para rabiscar o que ia pensando em folhas brancas, pequenas e arrancadas dos cadernos diários escolares, em forma de poemas, short-stories, ditados de versejo e rima, pensamentos que lhe acudiam e achava meritórios de guardar escritos para que deles se não viesse a esquecer.
Quando deu por si, eram estes rascunhos já tantos, embora que espalhados entre estantes, gavetas, pastas de arquivo ou cadernos de argolas, que resolveu arrumá-los para os reler, escolhendo de entre eles os que continuavam a ser verdade e melhor espelhavam o que lhe ia na alma. Apurou os critérios de desbaste, exigiu-se com algum rigor formal e de conteúdo, reviu a grafia de outros, em que isso não abonava para a sua compreensão imediata, estabeleceu um local próprio para os guardar, em que estivessem mais acessíveis para os consultar.
Mas como era empreendedora além de fantasiosa, quis que esse local não tivesse uma aparência vulgar, fosse de certa maneira especial, e, em suma, representasse o seu quarto dentro do quarto, como, aliás, ele já o era dentro da casa, e a casa dentro do vale, e o vale dentro da região, e a região dentro do país, e o país dentro da Europa e, ao fim e ao cabo, a Europa dento do mundo.
Portanto, arranjou uma cesta de vime, grandota por sinal e à altura, se considerarmos a diminuta quantidade de textos que lhe restaram da efectiva monda de que foram alvo, numa espécie de ninho com asa, cujo fundo forrou de palhas de centeio, aveia e trigo envernizadas, para maior brilho, ou duração, e menor quebra, colocando-a ao canto esquerdo do quarto, perto da janela para lá dos pés da cama, afim de que o sol das tardes de Inverno, entrando pela vidraça, que estava virada para Ocidente, os iluminasse e aquecesse, os protegesse da solidão do frio, nos dias que passava fora, nas idas e vindas à cidade onde frequentava a escola.
Agradou-lhe a coreografia, contudo, por pouco tempo, pelo que não demorou muito, por ver assim as suas inquietações fragilizadas e em carne viva, sentindo nas costas nuas as arestas das palhas, a dar-lhe outro arranjo que mais a satisfizesse e lhe emprestasse alguma feminilidade, conforme lhe exigiam as vicissitudes hormonais que a adornavam no seu dia a dia. Ora, como tinha diversos ovos de plástico das pastilhas elásticas, que se vendiam no quiosque junto à escola, onde eram acompanhadas por um brinde, ou boneco de plástico em peças, desmontado, dobrou e enrolou cada um dos seus escritos para melhor lhe caberem dentro, fechando-os de seguida, e envolvendo cada com pratas de diversas cores, que resultou naquilo que podemos avaliar como uma ninhada de ovos coloridos. Data a partir da qual, ia repetir o comportamento e acção, sempre que alguma ideia ou poema lhe ocorresse e fosse tão importante, mas tão importante, que a considerasse uma trágica perda o seu esquecimento.
A mãe e o pai, inicialmente, apenas acharam a decoração graciosa. Depois, ao sentir que aliviava notavelmente a gravidade ao quarto da cachopa, rejubilaram enternecidos, e passaram a entrar lá mesmo quando nele não tinham nada que fazer, tão-só para contabilizar o volume e número de ovos que ia crescendo no cesto. Às vezes, de um dia para o outro somava mais quatro ou cinco, outras passavam-se nove dias sem que se visse aumentarem as novidades nele.
Mas enquanto Emma crescia e baloiçava no vaivém de cidade-campo, casa-escola, o pai dela cometeu dois ou três disparates que desagradaram sobremaneira à mãe, indo-lhe esta dar-lhe outros tantos como contrapartida. Quiseram dizer as suas tristezas, as suas arrelias, e os motivos delas um ao outro, mas quando o pretendiam apenas agravavam ainda mais a situação, discutindo, apontando-se mutuamente erros, aumentando o pesar contristado que a ambos acometia, instalando-se entre si um clima, que podemos chamar agora, de insustentável. E que escondiam da filha, por acharem que a não deviam sobrecarregar com os seus problemas "pessoais", desconhecendo nisto, o que é muito comum a todos, que de pessoais nenhuma questão o é, pelo menos para os filhos, quando os problemas das famílias assolam os próprios pais. O que atirou o casal para uma crise, de certa forma, pungente.
Até que um dia, ao almoço, em que Emma estava fora, a coisa explodiu em termos tais, que quase se tornou impossível estarem um em frente do outro, por ódio ressentido, e desejando ambos não se verem mais. A mãe saiu da cozinha, aflita consigo, sem saber que fazer, dizer e pensar, apenas por não conseguir tolerar olhar o marido, e ver, que ele preferia não comer, e estar à mesma mesa que ela. E entrou no quarto da filha, remexeu nos ovos, deu-lhe voltas e voltas dentro da cesta, tirou um ao calhas, desembrulhou-o, abriu-o, e leu qualquer coisa nele que lhe provocou o choro, e onde uma das suas lágrimas, desbotando várias letras uma mancha na tinta.
Então, retornou à cozinha, de braço estendido, e entregou-o ao marido. Que o leu igualmente, e à medida que o fazia, sentiu esvaziar-se a agonia, a aflição em que vivia, e o torturara ultimamente.
Depois beijaram-se como sabiam, não dessa forma que aparece nos filmes e telenovelas, mas com um tamanho abraço jungido, que aperta as almas umas contra as outras, fundindo-as entre si, e sem permitir qualquer nuvem entre elas.
Do que depois veio a acontecer e sei, não conto mais. Nem onde ela está, nem por onde vai, nem o que lhe aconteceu quando retornou a casa ou lhe acontece agora. Mas juro-lhes que as visitas à família aumentaram numerosamente daí para cá, e que muitas delas, quando de lá partem, deixam o cesto mais vazio do que quando em casa entraram, sendo por isso difícil saber ao certo quantos ovos vai Emma tendo no ninho... E algumas há, que todas as Primaveras, vestem as filhas de branco, com um colar e coroa de flores, de níveas pétalas ao redor de um ovo dourado, ou todas elas de amarelo dourado, tal e qual um sol alado!

Clímax, de Dick Haskins


"Uma coisa é acertarmos, quando apontamos a chave à fechadura
de uma casa que nos é familiar – a nossa. Outra coisa é não acertarmos
com a fechadura, mesmo quando a casa nos é familiar. Uma coisa
é chegar a casa sóbrio, outra é chegar bêbado. Mas outra coisa ainda
é chegar a casa sóbrio, acertar com a fechadura, entrar no átrio, ficar bêbado
no segundo imediato e consciente no segundo que se segue ao imediato."

DH, in Clímax, p. 63

Eis três colecções diferentes da Edições DH DêAgá – Romance, Espionagem e Enigma –, que têm em comum o facto da capa ser do mesmo autor, Andrade Albuquerque, dirigidas por A. Andrade Albuquerque, que é nem mais nem menos do que António Andrade Albuquerque, aliás, Dick Haskins (DH).
DH não só é o autor como personagem importante, protagonista, mais precisamente um dos detectives com parte activa no desfecho das narrativas, isto quando em folga do seu principal mister nelas, que é desempenho de narrador "omnipresente", aquele que tudo ouve, tudo vê, eixo que superintende o fluxo das acções. Não um narrador qualquer, nem apenas o alter-ego do autor, mas um alter-ego do pseudónimo, o que parece bastante mais complicado (e controverso), não obstante o background de sustentação da narrativa seja o mundo empresário editorial, onde António Andrade Albuquerque nada no dia a dia.

E neste livro as suspeitas confirmam-se... Clímax, obra pertencente à doação de Orlando Neves à Biblioteca Municipal de Portalegre, onde o autor (DH) rabiscou dedicatória a propósito, em Abril de 1972, data da oferta que curiosamente não é coincidente com a data da 1ªedição (1969), conforme a imagem inclusa neste "arrazoado crítico", mantém a técnica estrutural dos cinco quadros/situações basilares, matriz esquemática pronunciada no conto Último Fim, mas agora com o desenvolvimento exigido pelo género romance, formando um estendido e prolongado painel que suporta o puzzle. Porque tudo aponta ser um minucioso e enorme puzzle a caixa rectangular do enigma que constituí a obra literária que temos em mãos.

Primeira jornada
Wade contrata alguém para simular atentados contra si, mas que o não atinjam; no entanto, alguém lhes passa a perna, aos supostos atacante e vítima, atentando deveras contra ele, virando o feitiço contra o feiticeiro, numa sequência de peripécias que culminam com o suicídio criminoso da vítima. Isto é, na perpetuação de um suicídio com grandes afinidades ao homicídio, porquanto se "neste último a morte é praticada por outrem na pessoa do seu semelhante, o primeiro é a morte praticada por um indivíduo em si próprio, dado que o suicídio é crime, e, uma vez consumada esta espécie de delito, podemos dizer que o assassino, na personalidade da própria vítima, se puniu pela prática do mesmo" (p. 55).

Segunda jornada
«Ser-se humano é uma coisa, defendermo-nos de quem não pratica as leis humanas é outra coisa», reza o guião da ética policial apagando assim as dúvidas acerca da nobreza de princípios de quem navega nas águas do Classe B, remando contra a confusão que há entre ser-se violento e escrever sobre violência, pondo acento no carácter e natureza dessa bestialidade, uma vez que ela não é logicamente consequente do olho por olho dente por dente, nem se enreda nos maquinismos patológicos da agressividade gratuita. A coisa fia mais fino, e o boggart DH evidencia-o na p. 74, para que o não esqueçamos entre o tinto e a talhada de chouriço, posto que não havendo desprimor por uns e outros, copos e enchidos, o que é certo é que não devemos confundi-los, tal como escrever é muito diferente de encher capítulos, fazer deles uma fiada de salsichas onde a última (clímax) terá maior requinte, mais acentuado odor, acentuado paladar e melhor apresentação. Portanto, o jogo vai na brida e quem pensa enviesado ameaça quando se sente ameaçado, mas quem se não deixa ludibriar pelas aparências (o detective) não cai nele, e não é lá porque ameaçam de morte quem ele ama para parar as investigações, que este deixa de investigar, nem quem o ama deixa de o amar pelo risco que ele lhe faz correr, as mudanças na sua vida que isso obriga, os terceiros que incomoda.
Todavia a vítima dos falsos atentados sofrerá também atentados reais, não só porque estava condenada a morrer muito antes de se matar, em consequência de uma neoplasia no estômago, que lhe seria fatal, alinhavando a motivação criminosa para o plano das seguradoras e beneficiários do seguro de vida, contando com a cumplicidade dúplice do médico pessoal, muito amigo do seu cliente em vésperas de se tornar ex-cliente, o D. Sinclair Backer para render homenagem a outras figuras do policial, mas sim porque a criminosa vítima inspiradora dos atentados acabou por falecer da falácia de suposto homicídio praticado na sua própria pessoa, comummente apelidada de suicídio, enquanto forma prática de um segundo verdadeiro atentado. E para simplificar as coisas...


Terceira jornada
Investigar crimes é perigoso, quer para quem investiga como para quem favorece e fornece pistas de investigação, de onde resulta que ninguém o fará de ânimo leve sem uma motivação especial para isso. Wells e Howard fazem-no é claro, mas sem dar nas vistas, antes porque parece ser esse o seu papel profissional, pertencentes que são à Scotland Yard, mas sem correr demasiados nem desnecessários riscos, mas com DH a história é outra pois acredita terem-lhe matado a sua mais-que-tudo e sempre eterna noiva (Kathy), precisamente aquela que ele não desposou por achar que com tal casamento a poderia pôr em risco, nem dar-lhe a vida de serena felicidade que ela merecia, pela sua beleza e fragilidade, pela ternura e respeito e admiração que lhe inspirava. Abdicação, porém, vã, pois é o que acaba por suceder. E isso é duro, mesmo para os mais insensíveis e frios duros, fazendo notar como a brasa incandescente é deveras cruel para os glaciares intempestivos. Saber a sua Kathy morta é doloroso, e essa dor exige acção, sobretudo quando nela se adivinham resquícios de culpa, ou que sua morte teria sido um acidente, um efeito secundário de uma explosão que lhe seria destinada, numa viatura "igual" à sua...

Quarta jornada
Com a morte de Kathy muitas das insubmissões submersas pelo receio de perdê-la vêm à tona, nomeadamente as de lógica e conteúdo, e outras mortes podem suceder daí. As mulheres são o alvo preferencial além dos personagens secundários que mal borboletaram no enredo. Os atiradores a saldo, as secretárias, os porteiros, são a fauna peculiar desses ínterins. E principalmente provocam algumas revelações inimagináveis, que parecem dissolver a atmosfera de duplicidade e nublosa, ou enviesada desenvoltura da narrativa. E uma delas arrasta-nos definitivamente de rojo: Wade, a vítima, proprietário das edições George D. Wade & Co. de contencioso antigo com a agência literária New Books, Ltd., instalada no prédio fronteiro de onde teria partido o primeiro tiro, não era só um empresário do mundo editorial mas também foi, desde a II Guerra Mundial, agente da Scotland Yard, e por sinal duplo, que circulou entre os dois lados da cortina da guerra fria, embora retirado desse tráfego há algum tempo, pelo menos o suficiente para amadurecer esse facto.

Quinta jornada
De surpresa em surpresa o suspense renasce. O puzzle ficou concluído mas não chega, porquanto visionarmos o quadro completo não basta para desvendar o suicídio que em tudo aponta para um homicídio. É preciso o fio de Ariane para nos descolarmos dentro dele, e assim atingir a verdade, se porventura alguma há em tamanho enredo de duplicidades. O labirinto, eis o modelo que desde o início nos recusámos a ver como estrutura molecular do romance, que encerra e desvenda o folte face necessário ao clímax... Sobretudo quando ele é imo essencial de um livro hard-cover numa obra maioritariamente de capa mole!

Em resumo, a teoria do conto que é matriz em muitas das obras maiores confirma-se plenamente:
1. tese –> 2. antítese –> 3. síntese
/
3. tese –> 4. antítese –> 5. síntese / clímax
(um, dois, três; um, dois, três, quatro minutos de jazz).
Só quem o não leu fica a perder. Eis a principal vítima dum homicídio que qualquer um pode cometer na sua própria pessoa. Aliás, como se elucida na página 198, "todos os assassinos erram; de uma forma ou de outra, erram sempre. A questão reside em descobrir onde eles erraram, mais cedo ou mais tarde, ou nunca..."

Clímax – denomina-se clímax o momento em que, numa peça teatral, romance, conto ou poema narrativo, uma crise (viragem para melhor ou para pior numa doença aguda, campanha militar, aventura de amor, relacionamento interpessoal ou qualquer outro processo em actividade; no teatro como na literatura de ficção diz-se porém que ocorre uma crise as forças que originam o conflito se entrechocam numa acção decisiva que vai alterar o curso enredo) atinge o seu ponto culminante, e desse modo encontra uma resolução cabal. Significa assim a resposta do espectador, ou leitor, ao mesmo tempo que designa a rotura de desprendimento de uma acção à seguinte, ou, pelo contrário o volte face processual de um enredo que lhe origina o fim.
Hard-cover – livro encadernado, geralmente com sobrecapa, numa edição já considerada, ou muito próxima, da edição de luxo.

2.11.2008


Desfloramento

Venho das noites escuras
e aprendi a ver nas trevas
e a ler nas trevas.
Venho das noites escuras
e sei o grande soluço das sombras
e os cânticos impotentes dos peregrinos.
Venho das noites escuras
daí o meu amor imenso pela luz!
Quanto mais treva era a treva
melhor eu aprendia a amar a luz do sol
e dos meus olhos sempre mais e mais abertos
a luz interior irradiando aniquilava as sombras...
E sendo sempre noite já a pouco e pouco era mais manhã.
E cada vez mais enorme e definitiva amanhã subia
apesar da treva apesar do silêncio apesar de tudo!
O negrume da noite era uma incandescência prenhe.

A flor romântica das trevas esfolhou-se-me nos dedos.
E então nasci.
E então vi que estava nu
e alegrei-me por estar nu
enfim!
Sorvi os frutos da terra
e já não me souberam a papel impresso!
Sacudi a poeira que me tinham ensinado
e comecei então a saber.

Sob as palavras surgiu enfim a voz
e a canção ardente da vida já não encontrou algodão nos meus ouvidos.

Ah! só quem vem das trevas e das noites escuras
pode amar assim o imenso mundo do sol!

Adolfo Casais Monteiro, in Sempre e Sem Fim

Às vezes, aquilo que uns me disseram, acaba em pretexto para eu dizer a outros, outras coisas. Aliás, quando um médico se põe à procura da menina no olho da menina, é porque uma de duas circunstâncias pode estar a acontecer: 1) que a menina deixa e quer, ou 2) que a menina não vê. Só que, parecendo que não, entre estas duas razões, além da grande diferença, há também uma questão de estilo. Sobretudo se deixarmos o plano da oftalmologia e entrarmos no da arte e crítica ela...
Suponhamos que, subscrevendo José Régio, "o ideal do artista nada tem a ver como o do moralista, do patriota, do crente, do cidadão: quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem ser igualmente poderosos agentes de criação artística, podem ser elementos de uma obra". E quem diz de uma obra, de um romance, de uma película, de uma pintura, por exemplo, que pode ser inclusive "uma transposição da vida, dos sentimentos, das sensações, da inteligência que o homem tem dela quando é artista" (João Gaspar Simões), dizendo com isso igualmente existência ou carreira profissional, mas principalmente teoria da vida, o que incluí toda a gama de fantasias e recheios do Id, acaso nos deixemos embalar pelas ideias e letras de André Gide, Valéry, Dostoievski, Bergson, Freud, Proust e tantos outros filósofos, romancistas e cientistas célebres no tempo dos desbravamentos interiores e dos bandeirantes da introspecção, como o que foi o século passado, em que eclodiu o Segundo Modernismo, sob a égide e "culto" dos mestres Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, pelo menos no que se viu contemplado pelo "plácido provincianismo descritivo" coimbrão, protagonizado pela Presença, revista dirigida por José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, diversas vezes explanado ao longo dos seus 54 números, e que teve a sua primeira publicação em 10 de Maço de 1927, onde colaboraram Adolfo Casais Monteiro, Saúl Dias (aliás Júlio dos Reis Pereira, irmão de José Maria dos reis Pereira ou José régio), António de Sousa, Vitorino Nemésio, António Navarro, Afonso Duarte, António Madeira (pseudónimo de Branquinho da Fonseca, fora das lides de direcção), Fausto José, Mário Saa, Gil Vaz, Alexandre d'Aragão, António Botto, Olavo de Eça Leal, António Pedro, José Gomes Ferreira, Joaquim Namorado, Luís Cardim, João José Cochofel, Mário Dionísio, Thomaz Kim, João Meneres de Campos, Alberto Serpa, Edmundo Bettencourt, Carlos Queirós, Francisco Bugalho, Pedro Homem de Melo ou Miguel Torga (de seu nome próprio Adolfo Correia da Rocha).
Ora, se desses nomes muitos foram os que singraram literariamente, uns com maior notoriedade que outros, como é óbvio, o que aqui nos trás é, porém, um tradutor quase desconhecido do grande público, denominado Adolfo Casais Monteiro, que tendo chegado à poesia através da prosa, o que não é de estranhar nos meandros do escribalismo, se notabilizou essencialmente como ensaísta e crítico, embora se revelara poeticamente desconcertante, em versos de sinceridade rude e áspera, despidos de beleza formal mas delicados e subtis na análise da sensibilidade, cujas temáticas, de pura análise psicológica, se centraram na insatisfação e consequente indiferença sobre si mesmo, ou o mundo que o rodeava, características típicas de quem muito andou partido entre o passado e presente, o que, aliás, é vulgar ainda hoje em diversos criadores. Autor de títulos como Sempre e Sem Fim (1937), Considerações Pessoais (1933), O Romance e os seus Problemas (1950), A Palavra Essencial (1965), Confusão (1929), Poemas do Tempo Incerto (1934), Canto da Nossa Agonia (1942), Noite Aberta aos quatro Ventos (1943), Europa (1946), Voo sem Pássaro Dentro (1954) e Adolescentes (1945), ou os serôdios A Poesia Contemporânea (1977), A Poesia da "Presença" (1972) e Estrutura e Autenticidade na Teoria e na Crítica Literárias (1984), sumariamente conhecidos embora, o que posamos não conhecer tão bem, é a sua faceta de tradutor, o que, isto sim acarreta alguma estranheza, pois são dele, nem mais nem menos, as traduções de A Aranha, de Henri Troyat, Prémio Goncourt em 1938, além dos números 1 e 7 da Colecção O Escaravelho de Ouro (1950), respectivamente Três Igual a Um (título original: L'Assssin Habite au 21), de Stanislas Andre Steeman, e Rito Mortal (título original: The Riddle of The Dead Cats), de Anita Blackmon, e nos questionam sobre a natureza e importância da tradução na vida dos literatos portugueses do século passado.
E o mais curioso, é que não podemos considerar estas duas obras, dois policiais sem dúvida mas de raríssima qualidade, mesmo se observados sob os maniqueísmos literários, que classificam a literatura entre Maior e Menor, de boa ou de cordel, como dois apêndices insignificantes na carreira do escritor, uma vez que, desta colecção da Empresa Editorial Édipo, Lda., dirigida por Baptista de Carvalho, elas são duas peças moleculares das que forjaram e ousaram apresentar-se os como guiões desta colecção, que granjeou afamada preferência durante anos nos leitores do género do terceiro quarto do século passado, ou seja, entre 1950 e 1975.
De fácil manuseamento, capa mole não plasticizada, formato de bolso em corpo oito, Três Igual a Um, patrocinado pela TAP (Transportes Aéreos Portugueses) que sorteava mensalmente uma viagem a Londres, pelo que era vendido com três senhas para o sorteio dela, na execução de um Plano Nacional de Leitura bastante estimulante, além de uma imaculada mancha gráfica tinha também uma autobiografia do autor, com a reprodução da sua assinatura no término e ilustrações do mesmo que, na altura, davam um trabalhão magistral até serem as zincogravuras que acompanhariam o texto no prelo, para a respectiva impressão, e deve o seu título, em português, ao título do filme de H. G. Clouzot que adaptou ao cinema enquanto ainda somente era conhecido pelo original de L'Assassin Habite au 21, que era uma pensão, tal e qual como nós em Portalegre tínhamos na Rua dos Canastreiros, actualmente Rua 31 de Janeiro, onde hoje funciona o Centro de Emprego, denominada precisamente Pensão 21 e, curiosidade coincidente, alguns presencistas se albergaram periodicamente, mas sobretudo hospedou o professor José Maria dos Reis Pereira, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário de José Régio, na altura como agora.

Haja também um que suba, carago!


Muito sinceramente desconheço as razões que alegas
Qual o lambel que te cobre e o escabelo que almejas
Para esperar pelo futuro sabendo que ele chegou ontem,
Ainda não eram nove horas à estação das línguas cruzadas
Junto ao cais entre colunas de vapor e hodiernos cheiros
Mal o apito da asma social nas emergências se fez ouvir
E as ambulâncias azuis dos fornecedores de oxigénio a turnos
Encetaram o giro da noite, passaram revista às faltas crónicas
Leram as recomendações médicas sob o candeeiro da banca,
Se aplicaram como exactos bombeiros da modernidade que são
Incensadores de políticas oficiais, planos nacionais de leitura
Incineradores de ideias livres mas apóstolos da propaganda
Intentados atentatórios da mudança para o já falho de sentido
Tão velho mas tão velho, que até o esquecimento se esqueceu
Que o esquecera num compêndio perdido que esquecido ardeu,
Fahrenheits 451 em stress por excesso de censura e contágio,
Vulneráveis a quem o sistema imunitário os exige sistemáticos
Embora os abandone amiúde nas faldas da solidão e do remorso.
A quem a alma se partiu como um vaso estaladiço e ressequido
Caiu pela escada excessivamente abaixo da descuidada indiferença
Tropeçou das mãos da mulher-a-dias que lhe adivinhava o caso
E soubera por contagem dos glóbulos a anemia social candente
Pronta a penetrá-la por trás logo que se baixou a pousá-lo no chão
Rés ao corrimão das carreiras profissionais de promissora ascensão
De subir aos céus findos o três dias da quarentena divina profiláctica

A fim de evitar a entrada no Olimpo de novas tentações aos deuses
Que bem nos basta o que já nos fizeram e cuja exacerbada líbido
Está sempre pronta se deparam com humano corpo, ele ou ela
Nisso de se enrolarem com terrenos igual é a tesão de deuses e deusas,
Sobretudo elas que andam a deixar de fumar mas não querem engordar.
Caiu, sem dúvida, ainda desceu os primeiros degraus inteiro e sonoro
Ainda compacto a tilintar os mil e um pedaços em que havia de ser
Desfazendo-se como nevoeiro a que faltam os sebastiões sonhados
Mas anunciam as poalhas magnéticas e chuvas ácidas intensas
Ditaduras do tempo e das alterações climáticas de catastrófica lei
Punindo com furacões, terramotos e maremotos as faltas humanas
Provando que nisto do oito ou oitenta são tão democráticas como nós.
Aliás, uma me disse, pondo creme adesivo para lhe não saltar
A verdade dos dentes aperrados na luta, que as dentaduras territoriais
Propícias ao marketing global darão excelentes destinos turísticos
Se anunciados como imunes aos efeitos de estufa e sem alterações
Climáticas, políticas, urbanísticas e naturais desde o primeiro PDM
Aquele que definiu o perímetro de uso aos pomares do Paraíso
Definiu a macieira como espécie protegida da área dos infernos
Cujo fruto se podia trincar livremente em todo o lado excepto ali
Pois era de sabor proibido embora mais suculento, doce e nutritivo
Que em quaisquer outros vergéis registados nas tábuas do suserano,
Onde o mundo era plano porque Deus escreve direito sobre curvas
Linhas tortas dizem mas desconfio que há muito estigmatismo nisso
Que estrábicas nos põe as visões daquilo que é e daquilo que não é.
Ou serão apenas cataratas, curáveis numa simples operação em Cuba
Dessas que se fazem ainda com o niágara vivo e prestes a despencar
Pela cachoeira da sorte e melhor ver quanto lhe falta em rendimento
Em eficácia governativa nas questões da saúde e segurança social.
Haverá por acaso aí algum oftalmologista cubano que queira ir ao céu

Operar os olhos do Senhor a ver se avista bem as lagartas das maçãs
Que já lá estavam dentro, há muito tempo, antes de proibir mordê-las
E por isso nem era preciso proibir que não somos parvos nenhuns
De andar por aí a trincar em qualquer porcaria só por que reluzente
Bonita, roliça e dengosa que nos aparece do hiper dependurada
Ou de galho em galho florida a desinquietar-nos prà brincadeira.
Vá lá, Fidel, porra: a malta agradece-te, quando te voltar a ver!

Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre



Malta:
Pròs que preferem estar em cima do acontecimento do que por baixo dele, e queiram acompanhar os trabalhos à distância (de um clic), a leitura corrente do Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre, para a sessão de 13 de Fevereiro, no sítio do costume e à hora exacta, é – tatatam-tatatam!!... –, nem mais nem menos, do que A Minha Tia É Uma Baleia (mentira, não é nada, pelo contrário, é bem jeitosinha, como sabeis todos e todas que com ela conviveis ... 'Tá é usadota!), de Anne Provoost, que, segundo o veiculado pelo google "é uma escritora flamenga que na última década se tornou um nome incontornável na literatura neerlandesa e que através das traduções das suas obras vai também ganhando uma projecção internacional cada vez maior. Já não se pode dizer que é uma autora totalmente desconhecida em Portugal, porque um fragmento do seu segundo romance foi publicado pela Afrontamento na antologia Lá longe, a paz, A guerra em histórias e poemas (2001). Anne Provoost nasceu em Poperinge, na Bélgica, em 1964. Ainda antes de poder ler e escrever já inventava histórias que ditava aos pais e desde jovem que escrevia muito: contos e diários, actividade que abandonou quando foi estudar Línguas Germânicas. Porém, o vírus da narrativa voltou quando passou uma semana doente na cama. Escreveu um conto que enviou para um concurso literário e que ganhou o primeiro prémio. Depois dos estudos de Germânicas, fez ainda um ano de Pedagogia - já com a ideia de vir a ser escritora. A seguir viveu durante algum tempo nos Estados Unidos, onde trabalhou num infantário e recomeçou a escrever: contos para revistas infantis flamengas e americanas, e uma primeira versão do seu livro de estreia Mijn tante is een grindewal (versão portuguesa: A minha tia é uma baleia, Edições Afrontamento, 2002). De volta à Bélgica, trabalhou em part-time numa organização para intercâmbios internacionais de estudantes do ensino secundário. Desde meados de 1995 que se dedica à escrita a tempo inteiro. Vive com o marido e três filhos em Antuérpia." (http://www.anneprovoost.com/Other/Portugees/POBio.htm)
E eu acredito... – por enquanto.
Portanto, os que quiserem partilhar as suas impressões connosco, arrefinfem-lhe!

2.09.2008

Que lugar é esse, o da literatura, enquanto experiência humana?

A gente ao princípio começa por ir lá aos pouquinhos, para se distrair, para descansar da realidade, para se divertir secretamente, para ter um lugar onde só possam entrar os nossos amigos íntimos, onde as coisas aconteçam por diferentes razões daquelas que em família, na escola, ou na rua, as causam e justificam; para evadir-se do dia a dia, para esconder-se da timidez com que nos debatemos, para surripiar uma frase inteligente de que precisamos, para desentorpecer as nossas inquietações, por birra, e até mesmo para buscar auxílio e ajuda na resolução dos problemas que nos assolam. Às vezes entra-se lá pela mão de alguém mais experiente e crescido, uma avó, uma professora que nos cativou sobremaneira, um irmão, companheiro de classe ou simplesmente alguém que contou uma história para adormecermos, comermos a sopa e entreter-nos enquanto o nosso adulto responsável está ocupado por tarefas inadiáveis. Outras por que aquele ou aquela que nos acompanha no acaso das circunstâncias não está para aturar os bichos-carapinteiros da fedelhada e nos arrumou algo útil com que permaneçamos quietos e sem chatear. Seja pelo que for, o que é certo, é que quando lá entramos nunca mais voltamos a ser os mesmos que antes éramos!... Sofremos uma transformação, ainda que delével e sem deixar mossa, mínima beliscadura ou picada de insecto, que coçamos ou sacudimos para encetar nova corrida, salto, chuto na bola, pedrada na água, deitar a língua de fora à velha vizinha rabugenta que nos promete rebuçados se lhe dermos um beijinho (bhhhaaaa!!...), ou pularmos sobre a cama à sorrelfa de quem tem obrigação de a manter impoluta. Se estamos doentes, assolados por papeira, varicela, sarampo, gripe, ou de castigo no quarto por alguma malfeitoria grave, e, no desentediar do momento, ao percorrer o quarto com olhar de desafio a fim de perverter a contrariedade que ali nos depusera, damos de caras com uma prenda de anos ou de Natal a que anteriormente não déramos alguma importância.
Depois a gente nem nota como, mas começamos a demorar-nos lá, entretidos com esta ou aquela personagem, alguém suficientemente descarado para nos revelar segredos íntimos, dizer o que pensa disto e daquilo, capaz de desaforos mirabolantes se provocado, possuído de força incomparável, detentor de poderes mágicos que tanto jeito nos faziam para apagar do mapa os pindéricos que nos atrofiam e não nos deixam crescer em paz e retouça. Apanhando-lhes os trejeitos, tiques característicos, falas, traquinices, partidas, repentes, argúcia, e até a vocação profissional. E aí inicia-se o jogo de esconde-esconde, o guardar algo na mochila ou no bolso que nos transmite confiança, tal como uma pedra do rio, uma concha de praia, um cordel insignificante, um apetrecho de pesca, a carica ou berlinde da sorte, o selo valiosíssimo, a moeda suja e carcomida que encontrámos no sótão, no quintal, recreio da escola, caminho que percorríamos desaustinados, mas nos chamou a atenção e fez parar para ver o que era, e mostrámos aos adultos ou colegas, não merecendo outro comentário além do tradicional «Aaah, porcarias!...» Então, nasce o primeiro sintoma de que ficámos agarrados, viciados, capazes de sonhar acordados, de falar alto quando estamos sozinhos, de escutar a conversa entre duas ou mais pessoas sem que elas nos vejam, e de responder «Médico», por exemplo, se alguém nos pergunta o que queremos ser quando formos grandes, mas fazendo figas atrás das costas e pensando noutra profissão qualquer!

Aí, já percebemos que cada vez que lá entramos somos notados. Passamos a ficar mais um pouco do que o habitual, e se nos chamam para almoçar fingimos que não ouvimos. As personagens preferidas, aquelas que nos vingam e enfrentam com galhardia os arruaceiros do nosso desassossego, os que apostaram em fazer-nos homens dê lá por onde der, prometem surpreender-nos ou revelar-nos coisas indizíveis se não abalarmos imediatamente. Se esperarmos mais uns parágrafos. Se aguentarmos até folhas adiante. Estamos feitos!...
Podemos até distrair-nos com as obrigações do quotidiano, estabelecer relações sociais desejáveis, tirar boas notas, responder positivamente às expectativas dos maiores e companheiros, brincar normalmente com os primos e vizinhos, integrar grupos, bandos, agremiações religiosas ou partidárias, ir de excursão de visita de estudo, ajudar os familiares no campo ou na lide, cuidar do nosso animal de estimação, fazer corridas de bicicleta, assistir a jogos de futebol ou bater palmas na primeira fila dum espectáculo. Como igualmente socorrer-nos da idade que temos para fazer o que acham que devemos fazer com ela, ou é suposto fazer-se nela: brincar, estudar, namorar, trabalhar, conviver, estar com a família ou os amigos, participar da vida pública, encontrar na actividade social um óptimo élan para nos fortalecermos e enraizarmos. Além de estabelecer vida e família própria. Todavia, se já descobrimos a nossa voz, e ela foi reconhecida pela voz de outras vozes, autores ou personagens, narradores ou redactores, então toda e qualquer experiência que tenhamos, ficou com lugar marcado para ser dita por ela numa invenção oportuna e premente, onde essa revelação tomará foros de imperiosa e urgente: tornámo-nos literatos. Nómadas do conhecimento e da geografia, andarilhos da empatia, fotógrafos dos inconscientes (individual e/ou colectivo). Vagabundo da língua, cavadores de areais em busca de tesouros que ninguém nos legou, mas antes roubámos do fantástico baú da História!
E se por um lado ganhámos uma pátria (a língua em que a nossa voz se expressa), por outro, conquistámos também uma trincheira, labiríntica, subterrânea, misteriosa, de onde olharemos os outros para lhe atirar os nossos petardos. Não para os atingirmos mas para os tornarmos conscientes de quanto estão ao nosso alcance. Alguns deles são mesmo fogo de vista, artifícios de maravilhar, plenos de cor e exotismo, movimento e som, aroma e ritmo, que os arrebatam e deslumbram, os levam a baixar guarda, evacuar de si próprios, e seguirem-nos na aventura de soletrar o espaço-quando. O tempo e o modo. A letra e o estilo. O género e a ousadia. Enfim, a fala e a voz!

Abandonado que foi o reino do fazer é altura de entrar no de como fazer, pois todas as nossas aptidões e experiências humanas se alteraram. Viver deixa de ser importante, mas o como fazê-lo (ou como se faz) torna-se imperativo. Então, se se entra num jogo, ou numa profissão, é premente saber praticá-los bem, não para ganhar o jogo ou evoluir na carreira, mas sim para assimilar a experiência a ponto de poder servi-la pura e real, em condições de utilização óptima, aos personagens (nossos ou alheios) que habitam no universo dos que nos reconhecem (a voz): a literatura. A mentira. A mentira tão mentirosa que chega desmentir-se numa verdade que nos espelha, reflecte e determina. A mentira tão profunda que nos devolve autênticos em palavras para além do que somos e queremos ser. A ilusão que nos descarna e coloca no rubro da carne viva, sujeitos a todas as infecções dos sentidos, incluindo da empatia e propriocepção. E que nos doutrina na forma de nos conduzirmos entre os demais, semelhantes e diferentes, físicos e imateriais.
Eis Casal Parado...

A Suciadade dos Associais e Assuciados




A pintura de entrada (o mural, portanto, que enforma a moral da prédica) é do Paulo Moreira, e reflecte exemplarmente o ambiente underground que precede e sustenta a formação social dos nossos quadros superiores, forjados na escolaridade académica da competição, das notas para abichar notas, notória vantagem competitiva para os que querem ser o número UM seja no que for, o que importa é que sejam os melhores da altura, no crime, na loucura, na turma, na dança, na matemática, no levar no cu, no atletismo, no futebol, na cultura, na ciência, na política, na pureza como na pecação, quais cavalos a abater em sacrifício das parangonas, que vêem na sociedade um conjunto de combatentes, se estes lhe não baterem palmas a propósito de tudo e de nada, ou de aliados cujo principal valor é o de ajudarem o narciso a conquistar o podium dos ídolos, a sua suprema obsessão, logo a súcia claque do objectivo maior daqueles que essencialmente almejam acertar sempre no centro, incluindo no alvo das coisas erradas e perniciosas.
Elegeram os seus amores contra os seus ódios, ou vice-versa, e guerreiam, guerreiam, guerreiam: guerreiam pela pátria contra as outras pátrias, pelos brancos contra as outras "cores", por este género contra os demais géneros, incluindo os mistos; guerreiam pelos da sua universidade contra as outras universidades, pelos do seu ano contra os outros anos, pelos das suas turmas contra as outras turmas; guerreiam pelo seu clube, bairro, cidade ou região contra os outros clubes, bairros, cidades e regiões; guerreiam pelo seu Deus, pelos seus ritos, cultos e religiões contra os outros deuses, os outros ritos, cultos e religiões, não lhes reconhecendo demais objectivos ou funcionalidades, a não serem o de reencarnar o mal que necessitam para executarem o seu bem, a prova da sua excelsa bondade.
E fazem-no com todas as armas possíveis e inimagináveis. Com o currículo, com a beleza, porte atlético, carro, vivenda, penico antigo, charme, gosto, ideias, obras, filhos e filhas, namorados e namoradas, pais e avós, títulos nobiliárquicos, número de amigos, clientes, fãs, subscritores, eleitores, alunos, fiéis, notícias, citações, prémios, frequência de relações sexuais, ou variedades de parceiros, além da mais comum e espúria das suas razões bélicas, que é a noção do politicamente correcto. Excepto com uma coisa... isso não!
Com a empatia. Que ninguém lhe diga que o desejo de felicidade, de emancipação, consciência moral e cívica, responsabilidade, inteligência, aptidão para os elevados valores e obras, também são características atribuíveis a outrem, e que ele merece ser respeitado por isso. Que é por tal que são humanos e são essas a legítimas características da sua humanidade. Porque nela, na empatia, não vêem qualquer utilidade para eliminar os empecilhos ao seu brilhantismo, que os outros são.
Pois é esta suciedade que pretende negar aos "génios" o Panteão... Incluindo escritores. Mestres, como eram considerados pelos seus pares no seu tempo. Mestres que em vez de ensinar a fazer, fizeram. Mas como, a cuja negação de nada lhes serviu, vão continuar a escondê-lo nas bibliotecas e dos programas escolares, escaparates editoriais e páginas de revistas ou jornais, para que Aquilino continue a ser aquele que antes de morrer já indubitavelmente era: o mais célebre, prolífero e pujante escritor português, mas também o menos lido. Posto que ser lido é o melhor lugar que pode conceder-se a qualquer autor, e esse é o Panteão que vão continuar a negar-lhe, todos quantos tentaram negar-lhe o outro... mas, esforço capciosamente contemplado pelos nossos órgãos de soberania, como vão. Demonstrando que verdadeiramente soberana é a nossa língua, e que é do seu exercício na fala e na escrita, que melhor resulta o considerarem-nos um povo soberano entre outros povos igualmente soberanos. E soberania é tudo, menos suciedade!

A Liberdade Também Se Aprende

"A todos os escribas e artistas e praticantes de magias através dos quais estes espíritos se têm manifestado...
NADA É VERDADE; TUDO É PERMITIDO. "
William S. Burrougs, in Cidades da Noite Vermelha


A Um deus desconhecido

É Ele Quem nos faz respirar e a força é dádiva Sua.
As altas divindades respeitam os Seus mandamentos.
A Sua sombra é Vida, a Sua sombra é morte;
Quem é Ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Apesar do Seu poder, tornou-se senhor da vida e do mundo resplandecente.
E governa o mundo, os homens e as bestas.
Quem é Ele, a quem oferecemos o nosso sacrifício?

Da Sua força as montanhas tomaram forma, e também o mar
E o distante rio;
Quem é Ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?
Fez o Céu e fez e a Terra e, pela Sua vontade, ocuparam os seus lugares,
Contudo, olham-No e estremecem.
O sol nascente brilha sob a Sua vontade.
Quem é Ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Olhou sobre as águas que entesouram o Seu poder e engendraram a imolação.
É o Deus dos Deuses.
Quem é Ele, a quem oferecemos o nosso sacrifício?

Que não nos fira Aquele que fez a Terra,
Que fez o Céu e o Mar reluzente?
Quem é Ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

John Steinbeck, in A Um deus Desconhecido

Porém, o Senhor todo poderoso o feriu
E o entregou nas mãos de uma mulher,
Que lhe tirou a vida.
O seu herói não foi prostrado
Às mãos de jovens guerreiros,
Nem o feriram os filhos de Titã,
Nem se lhe opuseram corpulentos gigantes.
Mas Judite, filha de Merari,
O derrubou com a formosura do seu rosto.
Ela se despiu do traje de viúva,
E se ataviou com os vestidos da alegria,
Para o triunfo dos filhos de Israel.
Ela ungiu o seu rosto com perfumes,
Entrançou os seus cabelos sob um turbante
E revestiu-se de um vestido novo para o seduzir.
As suas sandálias arrebataram-lhe os olhos,
E a sua beleza cativou-lhe a alma,
E ela cortou-lhe a cabeça com o alfange.
Judite, 16: 7-11


Apenas porque não acreditamos num determinado Deus, teremos o direito o direito de reclamar a sua inimizade? Dar-nos-á a nossa ignorância, medo e vocação missionária o direito de conduzir os demais sem assumir a responsabilidade do acto? Livros e livros foram amputados de suas partes imprescindíveis à compreensão simplesmente porque quem os leu antes, traduziu e editou os considerou indignos da sua verdade? Como se chamam os críticos que em vez de compreender, explicar e ajuizar, matam uma determinada obra para atingir "mortalmente" o seu autor? É necessário, não corrigir o passado, mas desamputá-lo dos golpes suicidas que sobre si mesmo desferiu, para que se consolide a sustentabilidade humana, com raízes no amor, no trabalho e na sabedoria (W. Reich), uma vez que são ainda eles quem permitem que nasçamos continuamente homens e mulheres para sermos também cada vez mais humanidade. Foram inúmeros os livros a quem a(s) censura(s) tiraram capítulos, epígrafes, evangelhos, personagens (Lilith, por exemplo bíblico). A verdade era assim tão contundente?

Sono de Homem

Quando "isso" – um homem quer lutar, pode lutar sem tréguas
Dias e dias, léguas após léguas,
O corpo a apodrecer, mas a alma no olhar.
Mais pode resistir que a máquina mais firme
Do desgaste, até ao último limite
Quem ele tem em si qualquer coisa, em verdade,
Que o ilumina
Porque ele – o homem, floresce em claridade.

Um homem, se amargurado
E sem remédio destroçado
Fica em suor, arquejante, imundo
E não se sabe o que resta no fundo
Dele; talvez, a aurora, a tremer, da besta, o essencial...
Seu olhar abandona as fontes de altos fundos
Para contemplar, dias a fio, sua mão que julgara imortal.


Quando vencido e a dormir, um homem verdadeiro
Dorme com a boca em terra
Na primitiva argila e nu, sobre o mato rasteiro
Braços em cruz contendo seus desertos.
Tão frágil é, sepultado no sono
Como no mar profundo
Que a respirar não faz tremer vermelhas sombras
E somente seus dedos, cheios de relva, se colam sempre ao mundo.

Mas às vezes o vencido que dorme solta um grito
Profundo de tormento,
Que faz temor imenso
No silêncio azulado da campina.
Agita-se, qual menino medroso
Dum sonho que não sabe destruir
E súbito, como que ansioso
De qualquer coisa que o possa recobrir
Volta a cara para o ar
Ventre para as estrelas, lábios para o orvalho penetrante...


E é só unicamente nesse instante
Que sabemos que a luz treme ainda em seu olhar!


Yves Brainville

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