La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.20.2008

Lector in Fabula

"No máximo, existe apenas uma objecção, à minha objecção à objecção de Lévi Strauss: se até mesmo os reenvios anafóricos postulam cooperação por parte do leitor, então nenhum texto escapa a esta regra."
Umberto Eco

São partes essenciais do processo crítico, em literatura, desde que este esteja eivado de boa vontade e cooperação semântica, a interpretação, a análise e a valorização do texto, seja ele poema ou ficção, teatro ou ensaio. Todavia há pessoas, e que me desculpem a ousadia de chamar pessoas a este tipo de gente!..., capazes de avaliar a qualidade de um livro, sem que antes o tenham interpretado, muito menos analisado e nem sequer lido totalmente. Pegam num item do leque temático, em que mais à vontade estejam, aplicando-lhe seguidamente todo o seu saber sobre o assunto para, invariavelmente, sentenciarem de cátedra que os restantes capítulos estão a mais. Pretendem, não só saber mais que o próprio autor a propósito da obra, como também, e em superlativo grau, melhor desta acerca do autor ou como ele nela se revela. Melhor dito, já têm tantas ideias feitas acerca do quer que seja, que até para dizer mal de um autor e de suas obras, acham desnecessário pensar, ou procurar outras que pior digam, inovando assim o seu maldizer que apenas reflecte o seu não saber fazer, numa manifestação exemplar e típica daquilo que o povo português, sem eufemismos nem maneirismos de falsos católicos ou falsos ateus, empregando o vernáculo da sua estirpe vicentina, designa por dor de corno. A sinédoque é o seu cavalo de batalha, a ironia socrática o seu estandarte, o sofisma o seu florete, o tráfico de influências o seu escudo e a ignorância enciclopédica a sua estratégia contra toda e qualquer metáfora, ser estranho e extraterrestre ao seu linguajar narcísico, que tem por anáfora incansável o "ama-me" até parecer que sim, à força de tanta repetição, reproduzindo sobre os textos literários o modus operandi da política de massas, cuja propaganda, em mais não consistiu, do que usar o boato, a trocagem de dizer bem do que é mau, até que as estatísticas lhe confirmem os méritos e a sua eleição se verifiquem, demonstrando que o número, em vez de prova de quantidade, é prova de qualidade, pintando um arco-íris virtual e falso na sinestesia da sua existência(e obtusa alma).
Para estes críticos do quem não tem vergonha todo o mundo é seu ou água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mas que substituíram a água pelo ácido corrosivo da sua bílis afectiva, a sua destilaria de venenos pessoais, sugando todas as relações para o canal único e edipiano, ou elétrico, do amor-ódio, a qualidade de qualquer manifestação artística reside exclusivamente no seu grau de parentesco ideológico com o autor dela, com a simpatia ou tesão que lhes desperta, e nunca da genialidade ou eficácia, rigor, mestria, domínio da técnica e recursos que a suportam e sustentam. E em face deles, confrontados com a sua evidência, recusam admiti-los, nem que para isso tenham que confessar que não compreendem, que são burros e desinteligentes, uma vez que estão tão habituados a corromper, a justificar com os fins os usos de qualquer meio, que até a si mesmos corrompem e usam, utilizam e violentam, desde que esteja em causa defender a sua causa. Transformar uma grande merda numa obra prima, é tão fácil para estes críticos, e amigos da onça, como fazer o contrário, que é do tornar numa bosta a melhor e mais sublime das criações.

Os clusters de estilo, aquelas ideias ou figuras chave – alegoria, parábola, metáfora, sínquise, imagem, metonínia, sinédoque, ironia, elipse, palimpsesto, etc. –, convenções semióticas ou sistemas semânticos, capazes de impulsionar a criação de conteúdos, estruturas sintácticas e moleculares, inovar dentro de um determinado formato ou modelo, não passam para eles de academismos ou deselegâncias de intelectual armado em sabichão. Pieguices do não-sentir as lamechices do seu contentamento, do seu corporativismo ou, ainda, falange de gosto. Não lêem, não vêem teatro, cinema, pintura, fotografia, não ouvem música, nem admiram a paisagem ou a natureza, a não ser que essas manifestações de beleza possam servir para debitar os seus preconceitos, empurrar a sua falua, rumo à foz dos seus anseios e maquinações, interesses e teses de competição, directa e indirecta.
Conforme salientou Umberto Eco, num outro estudo, acerca da Interpretação e Sobreinterpretação, coligido e dirigido por Stefan Collini (p. 34), é reconhecida geralmente a lenda do califa que ordenou a destruição da Biblioteca de Alexandria, advogando ele que ou os livros diziam a mesma coisa que o Alcorão, caso em que seriam supérfluos (palimpsestos), ou então diriam coisas mui díspares e diferentes dele, caso em que estariam errados como nocivos, pelo que se tornariam igualmente inúteis e cuja perda seria um notório ganho para a humanidade, como, aliás, de facto é qualquer mal intencionada mentira. Portanto, o califa, além de conhecedor da verdade, possuí-a, e achava-se no direito de julgar/avaliar os livros sob o "espírito absoluto" dela, que em si mesmo seria também uma verdade absoluta. Pertencia à noite dos tempos, embora fosse o que melhor aprendizagem usufruíra e o mais sagaz espírito do seu tempo, não dos anteriores nem dos que se lhe seguiram, e muito menos deste tempo que é nosso, enquanto efeito dilecto da modernidade...
Ora, sendo nós apenas leitores e não fazedores de literatura, por mais que nos queiramos impor sobre a informação – sem a adulterar... – veiculada nos textos, literários ou não, podendo eles ser tão-só simples documentos cuja informação está "criptada" numa determinada mensagem, somente essa e não outra qualquer que poderia ser mas não é, o que faz deles aqueles textos ou documentos, e não outros quaisquer, se quisermos descodificar os que eles contêm, que há-de sobretudo ser traduzível num produto cognitivo ou conteúdo cultural, posto que sendo conhecimento tácito será igualmente conhecimento explícito, se não nos outorgarmos outros califas destruidores de livros, teremos de cooperar com o autor dele, como seu codificador inicial, até já não precisarmos dos sinais e marcas que o definiram para o percebermos, pois que assim, grosso modo, estaremos então aptos a avaliá-lo de acordo com a sua lógica, sensatez e gosto explanados, utilidade ou bem-aventurança que manifestem, quer conforme o resultado que dele colhamos, quer pela utilidade ou conhecimento tácito que nos facultou e podemos dar à informação contígua, como pelo conhecimento explícito que nos transmitiu, ou pelo maquinismo com que apetrechou (ou não) a nossa estrutura mental, na medida em que a reforçou ou abalou, consolidou ou degradou, reparou ou abateu, preencheu ou feriu, em termos cognitivos e de superação da vida, o nosso ser, enquanto personalidade plausível de estar entre os demais e influenciável pelo que lhe (e lhes) acontece.

Interpretar um texto, significa explicar por que razões as palavras dele, não obstante poderem significar diversas e diferentes coisas, significam precisamente aquilo que significam, e não carecem de demais ou quaisquer significações para que o entendamos, posto que sendo ler não somente soletrar – Albert Camus, nos seus Primeiros Cadernos, afirmava até que ler é compreender e compreender seria criar, aliás, posição radical que aqui não é subscrita totalmente... –, na tentativa de reconstruir a intenção do texto, distante essa da intenção do autor ao fazê-lo, decifrá-lo enfim, descobrir e enveredar pelos sentidos dele, para preparar a releitura que, essa sim, estabelecerá outras vias de análise, de aprofundamento, de sobreinterpretação, onde se verão esclarecidas, por observância das intertextualidades e entretextualidades vigentes nele, os voilàs e dejà vus passíveis de facilitar identificações, projecções e transferências fundamentais à empatia, e que concorrem para que aquele texto que lemos seja igualmente o outro texto lido mas cuja experiência nos modificou, bem como à nossa maneira de o acatar e entender, sem deixar de ser o anterior nem descambar no simples palimpsesto do primeiro que lemos, seja ele excerto da Bíblia Sagrada ou do Alcorão, da Gata Borralheira, do Assim Falava Zaratustra ou de O Principezinho, ultrapassando definitivamente o "wo Es war, soll Ich werden" (onde era Isso, devo ser Eu) freudiano, envolvido afastamento mas essencial, para reconhecer que, independentemente dos sete sentidos de cada um – gosto, tacto, ouvido, cheiro, visão, propriocepção e empatia –, ou das sinestesias que suscitem, estarem positivamente activos e actuantes, servindo para recuperar o objecto desconstruído, alvo do nosso interesse (o texto, neste caso) e não para o danificarem pela utilização, talvez distorcendo-o sob a nossa intenção ao lê-lo, quiçá destorcendo-o dela em seguida, até já nada do texto restar como intenção de si ou da do seu autor, quando se propôs a redigi-lo que, sem dúvida, nem sempre coincide com aquela que ele espelha depois de pronto.
(Quadro de Ian Cox)
A fábula está aí. Essa é que é a verdadeira fábula em que o animal falou, humano que seja esse animal, artesão no menos, alquimista da palavra, se bem sucedido. E saltar para dentro dela, para ver claramente visto o que nela ocorre, deduzir do seu texto, além do pretexto também o contexto, permitir que da polissemia dos significantes nasçam os constructos semânticos que a identificam, fazem dela aquilo que deveras é e não uma outra qualquer, quebrando a cadeia de palimpsestos que a submergem, emergindo então ela original, se original for, eis então o trabalho do leitor que, finalmente, terá sobre ela o direito de valorização, condenando-a ou absolvendo-a perante os seus juízos e valores.
Agora, se ao entrar nela nos abstrairmos dele, se da fábula não descortinarmos o texto que a elabora, a executa, a realiza, sucumbindo apenas às (primeiras) impressões que nos suscitou, isso pode entender-se como uma leitura desnecessária, uma vez que nós a não queríamos conhecer mas usá-la, coisa que poderíamos fazer com qualquer outra que ela fosse, para nos relatarmos nela, descobrindo-nos nela, revelando-nos não pelo que ela é, e sim pelo que pretendemos que ela seja, tornando-a não um palimpsesto de si mas um palimpsesto de nós. O que irremediavelmente provoca que todas as histórias sejam a mesma história, atribuindo plena razão ao califa (sem dúvida leitor monomaníaco, fundamental adepto da percepção motivada) da Biblioteca de Alexandria, que a queimou por desnecessária, perante a relevância do Corão.
Como os animais, as coisas também falam... Incluindo as palavras, os números, o quotidiano, as cores, as condutas, os objectos, os sujeitos, a memória, a experiência, os símbolos, os sinais. A cultura é feita disso. A arte, também. Principalmente, a ficção e a poesia... O romance e a verdade. A fábula, como a doutrina que lhe subjaza. E ao transportarmo-nos para dentro dela, metemo-nos fora (metáfora) de nós. Os clusters de estilo, são portanto, nesse sentido, estratégias facultativas desse ínterim. Reconhecê-las, ser permeável a elas, é cooperar com o texto, com a intenção dele, como com a do seu autor, que as usou para o balizar, tornando-o naquilo que é, de entre tudo aquilo que ele poderia ser.
Discernir entre as hipóteses possíveis a mais plausível, ou verosímil, é por conseguinte, a mais rudimentar forma de ler, logo, de interpretar, embora esta se revele, assim, como uma maneira de enfabular a fábula propriamente dita, seja ela de cariz realista (caso de consciência, gesta, enigma, locução), seja ela idealista (mito, memória, traço de espírito, lenda ou conto de fadas). Narrativa ou poema. Documento ou informação. Contexto ou conteúdo. Enciclopédico ou semântico, visto ambos veicularem conhecimento, tanto tácito como explícito.

Tal como nos edifícios, perante tantas aberturas (janelas, varandas, sacadas, etc.), desde que neles queiramos entrar naturalmente, sem excentricidades saloias nem intenções malévolas de saqueadores nocturnos, a melhor e mais inteligente, ou expedita, forma de o fazer, é utilizar a porta da frente, se estiver aberta, ou, caso o não esteja, usando a respectiva chave para abri-la, também aos textos, enquanto fachada da mancha gráfica, lhe devemos aceder pelo mesmo processo: pelo item por onde melhor falam – que sempre é o que mais nos surpreende neles, ou aquela característica sua que mais alterada esteja em relação aos outros da sua índole, ou então, pelo contrário, por aquela semelhança tão exaustiva e evidente em relação a alguns dos seus pares que impossível se tona não reparar nela, logo às primeiras e diagonais vistas. E, no caso da fábula, pela fala do animal, que principalmente por ser uma das suas características alteradas e simultaneamente semelhantes, logo alternativa, visto ser a fala aquilo que antes estaria vedado ao animal (ou coisa, ainda apenas que personagem seja...), embora o faça com características tão iguais às da fala humana, que nos chega parecer que muito superior em humanidade é do que quando usada por essa espécie, no seu corrente dia a dia, onde apenas o conhecimento tácito da língua é revelado, facto pelo qual o identificamos ora por narrador, ora por alter-ego, ora por sujeito, ora por voz polifónica, ora por protagonista principal, ora por objectiva que nos filtra, como amplia ou minimiza, a realidade candente nela, que é enfim onde o animal mostra a face hiperbólica da sua natureza, as suas aspirações maiores, os seus feitos superiores, o seu habitat e comunidade, as suas mais fantásticas aventuras e relações, quer com tudo isso como consigo mesmo, incluindo o protocolo do seu relacionamento (hiperligação) com o divino, o onírico e o paranormal. E, grosso modo, com o leitor. O espectador. O olhar do outro que obrigou o autor a meter-se fora de si para facilitar a comunicação com ele.
Eco chamou-lhe leitor-modelo. Todavia, adiante se verá porquê, na geração do autor-modelo, inerente aos modelos literários (narrativos como poéticos) que formatam não só o género, como igualmente a modalidade discursiva (discurso). Por enquanto, a suspeita recai toda sobre a palavra (signo: significante e significado) e o seu crime hediondo que é o de invadir-nos e alterar-nos. Bala que entra em nós para estilhaçar-nos a alma, sem se importar connosco minimamente, nem como no-la deixa, se num vitral perfeito e magnífico a transforma, se num escaqueirado espelho que estonteante e assustadora imagem reflecte. Bala que seja, fala que indubitavelmente é, é através dela que a História se revela na história, quando ela é história palimpsesto, ou que a não-História se revela na história, quando ela é história elipse, por exemplo. Uma pela (às vezes exagerada) presença, outra pela (não menos notória) ausência. Digamos que se a fala fala, o silêncio é outro falar que, em comunicar, a iguala. Logo, igualmente bala.
Em Ian Cox, por exemplo, o céu é vermelho e chove sangue, mas palpita-me que seja apenas tinta de guache sobre papel. Para Eva De Mul, D. Quixote montado no seu rocinante de rodas recicláveis tenta combater as gigantescas centrais nucleares com o protocolo de Quioto, espelhando uma vez mais a sonhadora alienação do cavaleiro da fraca figura. Ziek funde analisador e analisado na mesma cadeira de baloiço ou sofá de psicanalista. Entre o ventre e o seu interior há um voilá a revelar-se na concretização do dejà vu com que se nasce. Ever Meulen não se coíbe de indicar-nos que o estilo é um pensamento especial que serve de combustível ao protótipo de corrida em que molhamos a pena. E os clusters de estilo são a fechadura na qual cabe a figura-chave que há-de abrir-nos a porta da fábula onde o nosso animal (alma, inconsciente, pátria, língua, etc.) nos ensina quem afinal somos. Portanto, se interpretar é entrar no texto, analisar é descobrir as ligações entre a chave e a fechadura, o imbricado jogo entre arestas e ranhuras, que provoca o clique para vermos claramente visto algo que apenas tínhamos a impressão (suspeita) que existia. E após isso, mas só após Ich, depois do animal que fala ter sido superado (Nietzsche) ou suprimido (Amélie Nothomb), só depois de termos desenleado o fio da meada, é que nos é legítimo avaliar se esta ou aquela obra é boa ou má. Mas, nunca antes!
(De Bloedregen, 1975, de Ian Cox)



3.04.2008

A peregrinação inteior de Orhan

Orhan Inner Pilgrimage

Presently we live in a world whose essential reality rests upon the will of two duplicates, which now get closer, then stay far away from each other; now get similar, then get different; now join their spades against evil, then they engender it; now they are for each other, then they are against each other; now they devise an invincible machine, then they smash it: well, of two Gods. The God of the Christians and the God of the Muslims. And this could be the conclusion taken of what was not said but largely demonstrated in the White Cidadel, a novel in which story, plot and supposition balance on the borders of identity, swinging “on tiptoe” in an exercise of risk, in as much as “to be” is not unpunished, because “to be” one it takes to be the other, in the vice-versa of a mirror dance.
However, that crossed reflection, typical of the flickering writing between the lines, is not extinguished in the above mentioned work and can be the clue of signs for detectives committed in the revelation of the supreme crime, or the one that makes each one what it is and not other which he could equally be. Leading thread among incident reflections, traces of familiar sprinkling, flashes of memory on the river of forgetting, shades of undoubtable similarity among different tapestries of different craftsmen, in the disparity of motives, whether they are revealed to the sight and on the face, whether they are simply guessed as a possibility on the reverse. That’s why this presentation is, was, a gesture of resistance, an obliquely look that insists on recognizing that “when the garden of memory starts getting desert” as Djélâl had already said, “we tender its last trees and its last roses, we fear for them. To avoid that they dry and disappear, we smooth them, we water them from morning to night! We do nothing but remembering and remembering again, fearing to forget!”
To go through the imagetic universe of The Gardens of the Memories is to recognise how much permeable to common history we are and to allow it the transparency of the waters where will be reflected the inseparable futures of two worlds, which exerted the secular magic of making flourish the alchemy of the fusion again, changing the lead of the difference into the gold of identity, as true houroufis, initiated in the art of verbal play and punning of the old literature, inhabitants of the “Heart of the Cities”, watered by the rivers and seas of memories, whose tides fertilize its margins, filling them with the green ink of its trees (secular) in search for the secret and for the lost sense in the faces, cities which are the reunion of themselves, built from addresses, which are built from letters, and the letters built from the faces which teach the memory to read and write, just as the lead which changes the simple glass of transparency into the mirror of the secret, words that in Turkish are homographic and homophonous, which tell us that reading is looking at the mirror, but knowing the secret is being able to cross it, as all those that ignore the secret of the letters cannot but discover in this world the dullness, the banality of their own face.
“…
“Remember me?” he asked the old journalist after a moment.
- Of course! You are also a flower in the garden of my memory! – Néchati answered without raising his head. – Who said that the memory was a garden?
- It was Djélâl Salik.
- No, it was Bottfolio. In his very classical translation of Ibn Zerhani. As always Djélâl Salik has stolen him that image. As you stole him his glasses.”


And saying glasses we say lens. And saying lens we say glass. And saying glass we say mirror… If, alas, we are able to put together enough and the necessary dose of (green) lead that History gave us.
(Tradução de Margarida Coelho)




A peregrinação inteior de Orhan

Vivemos actualmente num mundo cuja realidade essencial se fundamenta na vontade de dois sósias, que ora se aproximam, ora se afastam; ora se assemelham, ora se diferenciam; ora unem as espadas contra o mal, ora o forjam; ora se pronunciam a favor um do outro, ora contra; ora inventam a máquina invencível, ora a desmantelam: enfim, de dois Deus. O Deus dos cristãos, e o Deus dos muçulmanos. E esta podia ser a ilação conclusiva de quanto não foi dito mas sobejamente demonstrado em A Cidadela Branca, onde a trama, o enredo, a conjectura, se equilibra nas fronteiras da identidade, balançando-se "pé ante pé" num exercício de risco, por quanto isso de ser não é impune, pois para se ser um obriga igualmente a ser-se o outro, no vice-versa duma dança de espelhos.
Todavia, esse reflectir entrecruzador, típico do entrelinhamento bruxuleado, não se esgota na obra citada e pode também ser pista de sinais para detectives empenhados na desvendação do crime supremo, ou aquele que faz com que cada um seja o que é, e não outro qualquer que podia igualmente ser. Fio condutor entre reflexos incidentes, traços de aspersão familiar, flashs da memória sobre o rio do esquecimento, matizes de inequívoca similaridade entre diferentes tapeçarias de diferentes artesãos, na disparidade dos motivos, quer eles se revelem à vista e no rosto, quer se adivinhem simplesmente como possibilidade no avesso. Por isso, esta apresentação é, foi, um gesto de resistência, um olhar de soslaio que insiste em reconhecer que "quando o jardim da memória começa a desertificar-se", como dissera Djélâl, "acarinhamos as suas últimas árvores e as suas últimas rosas, tememos por elas. Para evitar que sequem e desapareçam, acariciamo-las, regamo-las de manhã à noite! Não fazemos outra coisa que não seja recordar e voltar a recordar, com medo de esquecer!"
Atravessar o universo imagético de Os Jardins das Memórias, é reconhecer quanto somos permeáveis à história comum e permitir-lhe a transparência das águas onde se reflectirão os futuros inseparáveis de dois mundos que exerceram a magia secular de fazer reflorir a alquimia da fusão, transformando o chumbo da diferença em ouro da identidade, como autênticos houroufis, iniciados na arte dos jogos verbais e dos trocadilhos da literatura antiga, habitantes do "Coração das Cidades", irrigadas pelos rios e mares da memória, cujas marés fertilizam as suas margens, impregnando-as da verde tinta das suas árvores (seculares) na busca do segredo e do sentido perdidos nos rostos, cidades que são a reunião de si mesmas, construídas a partir de endereços, estes a partir de letras, e as letras a partir dos rostos que nos alfabetizam a memória, qual estanho que transforma o simples vidro da transparência em espelho do segredo, palavras que em turco são homógrafas e homófonas, e nos indica que ler é olhar o espelho, mas conhecer o segredo é poder atravessá-lo, porquanto todos os que ignoram o segredo das letras não podem descobrir neste mundo senão a insipidez, a banalidade do seu próprio rosto.
" ...«Lembra-se de mim?» perguntou ao fim de um momento o velho jornalista.
– Claro! Também você é uma flor no jardim da minha memória! – respondeu Néchati, sem levantar a cabeça. – Quem foi que disse que a memória era um jardim?
– Foi Djélâl Salik.
– Não, foi Bottfolio. Na sua tradução muito clássica de Ibn Zerhani. Como sempre o Djélâl Salik roubou-lhe essa imagem. Como você lhe roubou os óculos a ele."
– página 323.
E quem diz óculos diz lente. E quem diz lente diz vidro. E quem diz vidro diz espelho... Se, enfim, lhe soubermos juntar a dose suficiente e necessária de (verde) estanho que a História nos forneceu.

3.01.2008

A Minha Tia é Uma Baleia, de Anne Provoost


"As lágrimas são para os olhos o que o arco-íris é para o céu"
Ditado popular neerlandês.


Quando uma das relações primárias (do indivíduo consigo mesmo, do indivíduo com os outros indivíduos, do indivíduo com a natureza e seus elementos, do indivíduo com os animais e do indivíduo com a cultura do lugar, a civilização, o imaginário colectivo e os mitos), em vez da consumada realização, encalha, então as restantes quatro vêm em seu socorro, e determinam pôr fim (preencher) ao buraco negro existente na sua existência – com ressalvadas escusas pela impertinência da redundância. Foi o que aconteceu (ou acontece) sumariamente, na minha opinião, que nunca poderá valer por outra coisa além de conjectura, em A Minha Tia é Uma Baleia, quando Tara, pertencente a uma família, em cujos membros têm o nome sempre começado por t, Tony, o pai, Tânia, a mãe, e Tara, a filha, formando a trindade molecular (ou ordem) da sociedade a que o tempo sem contemplações ditou a prescrição, porque inapta, entrecruzando os relacionamentos desta, notoriamente disfuncional, com a da sua prima Ana, absolutamente discernível e funcional, residente no Cabo do Bacalhau, istmo terreno de onde se pode vislumbrar a Europa, e tudo o que esta representa, para facilitar a operação de salvamento, não só das baleias que deram à costa porque tinham o seu sistema de orientação baralhado, mas também, dela, Tara, que está sendo vítima de violentação sexual por parte de seu pai (incesto), recorrendo à ajuda de uma bióloga (a biologia é a ciência da vida...) especializada em acostamentos e que terá, na sua formação, sofrido iguais sevícias, nos danos, embora que apenas de pedófilas características, uma vez que o agressor era amigo da família e não membro dela.
Numa escrita sem afectadas pretensões, nem floreados barroquismos mas descomprometida, onde a narradora contrapõe com o seu inverso, a prima, duas crianças entre os dez e treze anos, cuja paleta metafórica deriva do multicolorido semiótico universal (verde, vermelho e laranja) das emoções à cor fixa da neurose, Ana e Tara respectivamente, que vagueiam pelas dunas entre dois mundos distintos, tão distintos quão o são o medieval ternário (1+1=1=3) e o moderno binário (1+1=2=10), em que, onde a dependência afectiva e material das crianças é ou não aproveitada egoísta ou perversamente pelos adultos de suas relações, e obrigou uma delas a deixar de ser mais uma criança de sete anos a quem foi amputado o direito de construir castelos de areia com telhados de conchas, túneis subterrâneos e autênticas arvorezinhas à volta dos fossos. Escrita onde se entrecruzam ou entretecem, em ponto décimal, porque abre os seus cinco principais temas à duplicidade de leituras – a lenda de Goody Hallet, o mito das sereias (e sirenas), a arqueologia dos afectos, do conhecimento e da família, o incesto e/ou pedofília universais, a Europa simbólica e o Continente-Estado real, da nossa actualidade – na procura da catarse, que, à falta de melhor antídoto para o veneno existencial dos recalcamentos gerados nas relações ambíguas e nocivas ao desenvolvimento da personalidade, ainda continua, desde a psicanálise, hipnose, narcoanálise (Pentotal ou soro da verdade) e o psicodrama (Mário Moreno), ainda continua, dizia-se, a ser a melhor e mais rentável solução para reacertar a visão que cada um tem de si mesmo, com a do indivíduo que realmente é, se não estivesse sob a influência sensorial e emocional do diferencial correlativo em que se baseia e fundamenta a neurose.
Isto é, transforma uma obra literária noutra tesoura (X) capaz de cortar (interromper) o ciclo de multiplicação dos Filipes (amigos dos cavalos, súbditos da aristocracia marialva) violentados, que em adultos serão os transportadores (cocheiros) de outras crianças que submeterão às mesmas sevícias que eles tiveram, posto que é suficiente para gerar a catarse, aumentando para cinco o número de métodos de a conseguir – psicanálise, hipnose, narcoanálise, psicodrama e literatura – além de facultar às famílias um meio de, sem esquecer os recursos da diversão e da pedagogia, escamotear o medo que alimenta o secretismo das relações intergeracionais, onde se geram as taras psicológicas e as perversões sexuais. Abolindo essas divisões da caixilharia editorial barroca, templária e inicial, de que há literaturas para estádios mentais e etários (infantil, juvenil, adulto e idoso), que infantilizam a humanidade, e esclarecendo definitivamente que se existe alguma definição valorativa e dirigida, porque intencional, da literatura, ela está na linha daquilo que serve, se é a vida ou a morte, a arte ou a perversão, o concerto e harmonia social ou a pornografia, enfim, facultam o conhecimento ou o seu contrário – a ignorância.
Porque é preciso calar o silêncio, matar as bruxas que geram o medo e petrificam os "lábios" de quem expõe os seus segredos, salvar todas as baleias em perigo de extinção, sobretudo as suas crias, sejam elas golfinhos, sereias, boca-de-panela ou gigantescas baleias do Mar do Norte que engolem garrafas para gritar ao mundo a sua mensagem de agonia, e espalham o seu sangue vermelho nos oceanos da modernidade. T-shirt das águas e atmosfera no dorso da Terra... Porque também ele quer dizer Stop. E Stop é para parar!
Porque a literatura pode ser o Albatroz IV que devolve as baleias ao mar...

2.29.2008

Nos wolksvagens da desgraça...



Consta que o carro do povo dos tempos bíblicos terá sido o burro... Sobretudo se considerarmos que foi nele que a Senhora se deslocou a Belém para ter o menino! Seria?... Não seria?... O facto é que até meados do século passado ainda o era, embora o populacho o tenha substituído por besta maior, mais zurrante, potente, lesta e acomodatícia: o carocha. Ou os "wolksvagens" do progresso. E a tradição manteve-se não obstante o câmbio de alimália, para gáudio dos apologista do eterno retorno, ou aqueles que se empenham em regressar à terra tal e qual vieram ao mundo: ignorantes, brutos e bravos que nem uma vara de bronquicéfalos. Os marialvas da repetição tradicional. Os que zurzem o fado da bandeirola para exorcizar o medo de serem encavados por qualquer sem-abrigo ao cruzar da esquina. Os que se acoitam no espírito corporativista da capa (e espada) para executar a sua perversão. Com idem para os que da inveja pela sua moralidade - famosa, a do burro, como todos sabeis, se desenrolada para prazer de quem passa!... - espremem o pedal, carregado com a virilidade de quem por outro meio a desconhece, a fim de granjear os favores do sexo oposto, ou mesmo do mesmo, posto que quem come no que é seu não merece (es)conjuras.
Portanto, a primeira importante viagem que Jesus Cristo terá feito, ainda no ventre materno, do que não restam as menores dúvidas, foi num carocha 127 daquelas eras, de passo lento mas aturado, sábio inventor da subida em Z para melhorar a marcha se carregado, desovando bonicos na passagem como regalo aos que ficavam, outro sintoma de galhardia pelas tradições do pagar portagem, ou pagamento por franqueio e infiltro, no pleno respeito pelos passados antigos que já quando eram novos estavam velhos e errados e imprestáveis. (Excepção feita, é claro, para o esterco de burro, que sempre podia ser utilizado na fertilização e benfeitoria das terras onde deixava franquia... Aliás, mérito conhecidíssimo até dos plantadores de pinhais e outras monoculturas, tendentes a destruir a biodiversidade imprescindível.)
Segundo parece há quem prefira, dentro das instituições que deviam ser a vanguarda da evolução da espécie, do ambiente e da cultura ou das ideias, manter o status quo a contribuir com a sua dedicação, tempo, vantagem económica e inteligência para se desarreigar das práticas obsoletas, numa apologia ao erro, convictos assim de o tornarem menos erróneo só pelo facto de o fazer perdurar, popularizando-o inclusive, cuidando de alicerçar-se na sargentice, para justificar as suas práticas australopitecas. Tal como o comer à unha e à dentada, modo tradicional de usar o único talher que deus nos deu, tão válido antes como depois das propinas, insistem em reiterar as práticas de caserna medievais transpondo-as para os nossos dias, através daquilo que, no sufrágio da mandriice e do laxismo intelectual, é conhecido por praxes. Em vez de reivindicar o ensino gratuito, a melhoria de estruturas, técnicas como de conteúdos, equipamentos e quadros docentes, demonstrando à sociedade portuguesa quanto ganharia com isso, porquanto num futuro próximo as despesas orçamentais com a segurança social, a justiça, o parque prisional e segurança pública, a requalificação e formação profissional, a saúde e a cidadania, seriam bem menores do que actualmente são, desde que o nível de formação do povo português aumentasse, pondo-o em consonância com os níveis de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países nórdicos, por exemplo.
Não se augura nada de bom para um país quando a sua classe estudantil abdica do seu papel reformador e se entrincheira nas surrobecas eclesiásticas para marcar a diferença com o povo que a sustenta. E muito menos quando ela se escora na tradição para manter no activo um passado inoperante, falacioso, estéril, que põe em risco a sustentabilidade nacional, quer na soberania como na identidade cultural, e nos remete para o fundo de todos os rankings de desenvolvimento, nomeadamente o da qualidade de vida.
Creio que é chegada a altura de os meninos deixarem de ir de burro para nascer. Sobretudo de se deixar de entender o conhecimento (diplomado ou não) como um Z para subir na escala social. A tradição, veículo assaz asnático de perenizar tudo, independentemente do seu valor, quer seja bom ou mau, desejável ou sociopata, é o único entrave para a aquisição de novas práticas, pelo que mantê-la quando desnecessária e prejudicial, se torna um crime de lesa democracia: institui patamares de diferença entre iguais, contrariando não só o espírito da Carta dos Direitos do Homem, como impondo pela força uma Lei que apenas não está escrita e aprovada por decreto, graças à sua universal insensatez e desumanidade.
Afiança a sabedoria popular, que é de experiência feita, que "o amor dos burros começa aos coices e acaba em cacos". O carocha do nazismo imperou pelas exigências das sociedades de produção e consumo, mas foi atirado para o ferro-velho com a implementação da sociedade de informação, que por sua vez gerou a do conhecimento e educação. Recolher os cacos desse amor asinino e vesti-los de preto, não é um factor de júbilo para ninguém, e antes um sinal de luto (nacional e europeu). Admoestar e excluir quem não lhe presta culto e vassalagem, um crime pelo qual o tempo, esse mesmo com que se tenta justificar a tradição, a breve trecho nos fará pagar. Caro. E com onerosas dívidas para gerações futuras, herança que perdurará como um código genético dos vencidos da modernidade.
Evoluir, crescer, é sobretudo contrariar e soltarmo-nos das amarras da tradicional miséria (deontológica, emocional, ética, imagética, cognitiva e económica) em que nascemos e estávamos. A mudança requer rupturas, cortes exímios com o passado, principalmente nos formatos em que ele se demonstrou ineficaz, abusivo, inútil e contraproducente à humanização da humanidade. A tradição académica, como todos os rituais guerreiros de iniciação e manutenção do espírito de caserna, monástico, de ordem e ordenança, é um deles: um formato que enfermiça e disforma qualquer formatura. Pôr-lhe fim, apenas o coup de grace, o golpe de misericórdia que a sua agonia suscita e implora de há muito. É lamentável que a beca da tradição, qual capa que outrora servia aos estudantes para lhe ocular a miséria franciscana, ou esconder e tapar o fato puído e remendado, sirva hoje para encapotar a miserabilidade do espírito estudantil, como uma tentativa de eternizar a praxis da sua ignorância. Não é concebível que alguém pretenda aprender e conhecer mais abrigando-se sob o capote da tradição, cuja é desde sempre, a subscrita reafirmação das ignorâncias. De todas elas, incluindo daquelas que se aprestam nas protecções de Drs.

Os Doutores-Rã: e a literatura de procriação assistida...

Amélie Nothomb, no seu livro, quer dizer: romance, intitulado a Higiene do Assassino (Editorial Presença – 1997), estabelece que há diferentes tipos de leitores, ou que há leitoras/es e "leitoras/es" como há escritores, escritoras, escribas e escrivães, sendo que uns e umas gostam amiúde de fazer-se passar pelos outros ou outras e vice-versa. E que se há quem mergulhe na leitura para ficar encharcado de conteúdos até aos tutanos do córtex – e aqui era bom saber, na anatomia humana, onde é que isso fica!... –, não menos "leitores e leitoras" o fazem maquilhando-se apetrechadas, e apetrechados, com os seus fatos de mergulho, tipo escafandro de não-me-toques que me infectas, para poderem entrar e sair dos livros sem serem tocados pela mínima gota de conteúdo, defendendo-se do veneno das palavras alheias como fazia o diabo da cruz, embora tenha crucificado quantos inocentes pôde através dela, ou melhor dizendo, delas, que cruzes há muitas e de bastos formatos conforme os credos e os pecados a expiar, e para os diabos, quaisquer que sejam, desde que seja para fazer mal ao próximo, menos próximo e distante, qualquer cruz serve. São, os que Amélie denomina, como leitores-rã. Por analogia com os homens que costumam ir ao fundo do mar sem se molharem.
Ora, a bem dizer, se acerca das leituras de uns e outros, umas e outras, tal se pode inferir, não menos legítimo será fazê-lo sobre demais actividades onde é habitual usar, pôr em movimento, estimular, a massa cinzenta com suas célulazinhas, como gostava de referir o Poirot da cristã Agatha, sobre os diferentes cursos e seus cursadores ou cursadoras, corsários e corsárias do intelecto alheio na pirataria do conhecimento, que conseguem a proeza de tirar canudos e canudas, atravessar currículos e currículas, sem nunca terem percebido a mínima das matérias, patavina dos conteúdos, visto que as decoraram para esquecer, que bem melhor o fizeram do que as memorizaram, com o auxílio da sempre copofónica boémia de armar aos corvos, pelo que mergulharam sim senhora, disso não houve a mínima dúvida, mas foi na água do lago d'O Tarro, que suja e insalubre também não presta para mais nada, a não ser para passar barrela a quem, de tão falho aproveitamento, teve por última escolha a sorte que lhe coube de aqui vir parar. Ou juntar lixo, porcarias várias e chamar insectos comuns à putrefacção do meio. E que licenciados no fresco da obradura, hão-de ser os doutores da nossa portugalidade, feitos à medida das caixas dos hipermercados, em que se pode trabalhar sem curso nenhum, nas obras como servente ou nas municipalidades, onde desempenharão actividades, sobre as quais nunca ouviram falar sequer, mas a que a cunha pôde chegar, e o voto valeu no troca por troca autárquico, como sucedeu noutros tempos e continua acontecer na maioria das edilidades, nomeadamente nas alentejanas, que nisso do errar são sempre as primeiras e no acertar, como convém à mediocridade, aliás exemplarmente notória nos transportes, acessibilidades, cultura, requalificação urbana e planeamento, igualmente sempre as últimas, e só se não tiverem outro remédio.
"Ouvide" agora senhores e senhoras, excelências!, uma história de pasmar...
Há muito, muito tempo, vivia na Rua Direita uma velhinha, que tirou um curso superior na Universidade da Agulha (UA), sita ali na esquina da Rua com a Rampa de S. Lourenço, onde então se vendiam também as máquinas Singer. Tirou de letra todo o hardware e software, aprendeu com uma perna às costas o que era uma máquina de costura, para que serve o pedal e onde se enfia a bobine do fio (condutor da narrativa), o que era a correia da cabeça, o tronco da máquina e a caixa baixa de embuti-la. Teve 20 valores na Universidade dos Lavores, que, como saberdes e estardes lembrados, estava pintada de trocadilhos e arabescos para fazer frente aos anagramas da existência, e já na altura era uma coisa importantíssima na arquitectura das ignorâncias com habilitações certificadas. Pois bem: logo que com o canudo chegou a casa, empregou-se numa loja ao lado, por sinal retrosaria de nome e tradição, onde passou a remendar ou cerzir, com o auxílio de polido e luzente ovo, que nem ovo era, por ser de madeira, com agulha fina e preciosa, de igual calibre e quilate do anel de curso que o midinho alçava, todas as meias, incluindo as de vidro, à mão, como sempre fizera desde que se conhecera nas lides laborais e funcionárias, que equivalia mais ou menos a toda a vida. Não porque tivesse tido inúmeras oportunidades de arranjar novos empregos no desempenho das funções para que se formara; não porque não houvesse uma forte aposta governamental (e local) nas novas tecnologias, inovação, empreendedorismo urbano, marketing territorial e comunicação; não porque não lhe houvessem oferecido lugares de destaque, influência e protagonismo na estratégia de desenvolvimento sustentado para a sua família, rua, cidade e região; não. Mas sim porque ela já estava velha para mudar com o aprendizado de novidades, não estava para complicações nem comprometimentos na sua vida, prezava a paz de espírito e tranquilidade, o safe-se quem puder e o não tenho culpa, e menosprezava tudo quanto a obrigasse a pensar, a sentir, tudo coisas que a magoavam profundamente como uma comichão que se tem em pontos do corpo onde se não chega para coçar. E, finalmente, já tinha muita experiência da vida e sabia que todas e todos querem o mesmo e são (igualmente) todas e todos iguais. Pois tinha 23 anos, e isso é muita e qualificada vivência.
Confortante, não é?
Deveras. Sobretudo se pensarmos que essa velhinha agora vai ter uma nova oportunidade, propiciada pela formação contínua e escolaridade para toda a vida, onde lhe será facultada a possibilidade de tirar o mestrado e o doutoramento correspondentes à sua esforçada e consciente e responsável formação, voltar aos bancos da Singer onde lhe ministrarão acções complementares que a apetrecharão das melhores maneiras e procedimentos para ganhar mais fazendo absolutamente o mesmo de igual forma e profissionalismo, sob o coaxar colectivo de "o seguro morreu de velho", "é melhor prevenir que remediar", "remendo a remendo enche a academia o papo", esperando envelhecer tanto mas tanto, até que o envelhecimento seja já tão velhinho mas tão velhinho, que não possa envilecer mais ninguém por falta de força, ânimo e motivo. E fique a esperança de esperanças, que parecem ser dela sempre as últimas golfadas a espernear nas vascas da morte.
"Não se é a mesma pessoa se se tiver comido morcela ou caviar; também se não é o mesmo se se tiver acabado de ler Kant (Deus me livre) ou Queneau. Enfim, quando falo de uma maneira impessoal, deveria dizer «eu e alguns outros», porque a maior parte das pessoas emergem de Proust ou Simenom num estado idêntico, sem terem perdido uma migalha do que eram e sem terem adquirido uma migalha suplementar. Leram, e é tudo: na melhor das hipóteses sabem «do que se trata». Não julgue que estou a inventar. Quantas vezes não perguntei a pessoas inteligentes: «Esse livro modificou-o?» E elas olhavam para mim, de olhos muito abertos e como quem diz: «Porque haveria de ter-me modificado?»" – Disse Amélie um dia através do seu personagem, o Prémio Nobel da Literatura, Prétextat Tach. Bem podia ter ficado calada, que se alguém o leu não lhe tocou; e se lhe tocou, foi apenas no instante imediato que antecede o vómito. Como um plano nacional de leitura que os crânios regurgitaram sem saber como aplicar ou, o que é pior, sabendo muito bem, tão bem, que o aplicam como emplastro de usar e deitar fora quando o analfabetismo funcional está menstruado e sente remorsos por ter fodido tanto, tantas e tantos, mas sempre com camisinha, é claro, para prevenir contra contágios e gravidezes indesejadas. Quer, dizer, com escafandro de quecas para evitar girinos. Girinos e girinas, que nisto da rãnhozice sempre houve, e haverá, respeito pela Carta da Igualdade de Género!...

2.26.2008

Ambiente e Sustentabilidade


A Oikos vai realizar as XIV Jornadas sobre Ambiente e Desenvolvimento subordinadas ao tema “Pedra, Barro e Areia: Estratégias de Conservação e Exploração Sustentável."

Para mais informações e inscrição, contactar:

oikosambiente@mail.telepac.pt

www.oikosambiente.com

Recortes do imaginário para uma paisagem real

A Morte do Professor
Hugo Santos


Estas coisas são exactamente assim: há dois "judites" (Carranca, ex-seminarista que fuma cachimbo, e Pereira Dias, que cursara Direito/Letras) e um crime. Hediondo. Vil. Insólito. E inumano. Que curiosamente passa (também) a dois (lá prò fim). Por isso, tem forçosamente que haver um criminoso – pelo menos. Vai daí, os PJ's foram-se a ele, a procurá-lo, com as ajudas de um sargento, um cabo e quatro praças da GNR. Se o encontraram ou não, eis os outros quinhentos da questão... Que por agora, o que deveras importa, é o modo de agir, o raciocínio, as démarches, as sortes, no cumprimento do dever. E eis senão quando, o tempo (que continua sábio) actua, e duas salvas a Onan e quatro achegas depois, o caso se resolve, com o sublinhado a recair sobre uns elucidativos cadernos de capa preta.
Estes cadernos, diários de bordo ou moleskines, são o patamar de passagem para outro nível de leitura. Lá iremos! Por enquanto, é à volta deles que gira o mistério da morte de Daniel, o professor, e mais não são do que a "reposição em cena" de algumas das peculiares, para bastantes e inúmeros simplesmente manias, para outros, embora não tantos, faróis de auxílio na navegação literária, matérias-primas dos escritores, que é o de anotarem tudo o que vêm, ouvem, sentem e vivem e, ao fazê-lo, recorrem àquilo a que outros já recorreram (com êxito), como por exemplo o terá feito um dos mais honestos e criativos homens das letras do nosso país: Raul Brandão. Dos quais, um sempre o acompanhava, para nele, quer estivesse em tertúlia de livraria ou café, quer em família ou reunião política, ir esboçando as suas peças de teatro, os romances, os apontamentos paisagísticos, memórias, críticas, pensamentos, nas mais díspares circunstâncias e independentemente do ambiente, natural ou social, em que se encontrava. Autor que, aliás, faz parte do discurso e do universo intertextual de Hugo Santos, com quem terá aprendido a importância das coisas simples, do canto das aves v. g., atribuindo a parte de leão na repartição dele, discurso, digo, com outros não menos essenciais à esfera da nossa portugalidade, como Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Ramos Rosa, Vergílio Ferreira ou Aragon.
Detentor de um estilo insinuante, circular, de onda provocada por pedrinha na água, jogo de paciência, como o das pedras da quadratura do círculo, em que se vence sobretudo pelo cansaço que se incute ao adversário, repetitivo na musicalidade, concêntrico na observância semântica, muito próximo da "proustiana recherche", que rumina os espaços-quando e os liga pela baba-teia dos enredos, das emoções (re)visitadas, este escritor de Campo Maior, alentejano de muitos costados, consegue fazer ferver a água fora dos testos e contextos, transbordar deles, ultrapassar a sua própria significação, contrapondo ao dejá vu do intrincado da trama, dramática sem dúvida, numa narrativa de alcance superior, à propriedade do simbólico, se enveredarmos por leituras menos literais, embora que mais abrangentes e extensivas, pragmáticas, essenciais e conclusivas do ponto de vista da literatura nacional. De resto, e por sinal, muito pouco regionalista, além da contabilização de um ou outro vocábulo, algumas "vozes", a vila, as personagens que se encerram, e circunscrevem, no provincianismo envergonhado dentro do provincianismo exposto, ou pretendido, apenas denunciado pelo contraste da universalidade que a ele aporta nas figuras "viajadas e vividas" dos dois polícias e de Vanda, ou desenlace serôdio de uma paixão ultramarina, uma regressada da diáspora colonialista, retornada, a carpir os seus encontros e desencontros, a vingarem-se deles e da desdita que os reuniu num lugar tão ermo, afastado da cosmopolita civilização.
E tudo isso, numa simplicidade surpreendente, num só golpe de génio, ou passe de mágica: transformando um policial num romance de amor, onde a morte do professor deixa de ser apenas um crime, para passar a ser o final concernente a quem cumpriu a sua (missão na) vida, e se tornou eterno na dupla gravidez de Mercês, a shakespeariana Julieta da questão, ao deixar-lhe simultaneamente um filho no ventre e os cadernos de capa preta, cuja semente germinaria de há muito em suas mentalidades. Eis aí o grande paralelismo, para uma elipse fadada a funcionar...

2.16.2008

Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre

A próxima leitura do GLRP é A Higiene do Assassino, de Amélie Nothomb, que é, nem mais, que o primeiro livro da autora publicado em Portugal, e antecedeu o já anteriormente "trabalhado com prazer" pelo grupo, intitulado Temor e Tremor. Não se confessará aqui mais nenhum pormenor do caso para não prejudicar as averiguações nem manchar o bom nome da vítima, porém, pode-se adiantar, que há fortes perspectivas de geringonça argumentativa quanto ao seu conteúdo, as provocações inomináveis que contém e os sapinhos (ou rãs) que fará engolir, desde que lhe aparem bem as unhinhas. Alguns lambões garantiram que este tipo de marisco dos charcos, é melhor se acompanhado com alexanders bem condimentados e explosivos; outros preferem-nas com molho de tomate, albardadas ou de escabeche, desde que não lhe faltem o queimor e os orégãos.Todavia, como gostos não discutem, força companheiros e companheiras, arrefinfem-lhe, que é dose!

2.15.2008

O Toque de Mírdias

Há que definirmo-nos em relação à natureza e não a natureza em relação a nós, estabelecer uma convivência harmoniosa de base simbiótica entre ela e nós, ao contrário do esclavagismo de espécies com que actualmente nos pautamos, a fim de nos consciencializarmos do nosso papel no mundo e de como poderemos auxiliá-lo a resolver a crise ambiental e as alterações climáticas que ora nos assolam, consubstancializar a nossa atitude numa maior responsabilidade e emancipação, que dê significado ao total respeito pela ciclicidade dos processos naturais de evolução e sustentabilidade, num claro rompimento com a visão tradicional humanista de incidência económica que acentua, estimula e valoriza mais a sua exploração e utilização como geradora de riquezas, do que como geradora e alimentadora de vida.
Tendo dado pela falta de Sileno, seu mestre e criador, Baco resolveu procurá-lo. Mas em vão, pois o mundo era infindo e falho de meios de comunicação, mesmo para os deuses. Como era hábito, o velho andara bebendo e na rambóia, até perder o norte. Porém, uns camponeses encontraram-no e levaram-no ao rei Midas, que durante dez dias e dez noites, o manteve junto de si no meio de grande alegria. Ao décimo primeiro dia levo-o de volta a Baco, entregando-lho são e salvo. Então este, reconhecido, decide recompensar o rei concedendo-lhe um desejo, fosse ele qual fosse. Aí Midas pediu que tudo em que tocasse fosse transformado imediatamente em ouro. Baco, concedeu-lhe isso, embora, contrafeito, achasse que o outro podia ter feito melhor escolha. Midas, porém, maravilhado com o dom recém-adquirido, experimento-o com júbilo de volta a casa, mudando em ouro aqui uma pedra, ali um ramo, acolá uma maçã, por aí fora. Todavia, quando teve fome, e pegou no pão para comer, ele transformou-se em ouro, sucedendo igualmente ao vinho e demais iguarias que tanto gostava. Enfim, reconheceu que alguns desejos se podem tornar maldições, como ao caso lhe estava sucedendo...
Ora, em termos ambientais, tendo sido criada Portalegre em honra de Baco, é notória nela apetência para dar continuidade ao desejo de Midas, tentando transformar em profícuas mais-valias tudo aquilo em que a natureza e a História a favoreceu: um património cultural, étnico, paisagista, edificado, climático e campestre de excelente qualidade, que, se reconvertido para valores de troca imediata, consumido e dado a consumir, fará do turismo aquela galinha dos ovos de ouro, espécie de El Dorado dos tempos modernos que nos propiciará um franco e desejado desenvolvimento.
Mas, conhecendo o que aconteceu a Midas, a quem um simples desejo acarretou excelsa maldição, resolveu inverter o processo, fazendo com que se transformasse em caca, porcaria, tudo em quanto mexesse, usando os mass medias ou planos de desenvolvimento, dando-lhe o seu toque especial e visão estratégica, numa característica inovadora a que se pode chamar, por associação directa e de resultados, o Toque de Mírdias. Foi assim no PDM, utilizando-o não para planear o urbanismo mas para poder recorrer a certas e determinadas verbas. Foi assim no Instituto Politécnico, não para formar massa crítica mas para se aproveitar das migrações estudantis portuguesas. Foi assim na Agenda 21 Local que comprou já feita a uma empresa de Évora, para contornar a cidadania participativa, o debate político e discussão que ela exigia. Foi assim nos PR (Planos de Reabilitação) do Polis, que entregou nas mãos dos empreendedores da construção civil e gabinetes de arquitectura com necessidades (ou amizades) especiais. Foi assim nos festivais de cinema e audiovisuais, e sobretudo igualmente assim no aproveitamento e interpretação dos recursos ambientais.
Vendeu espaços públicos a construtores civis, onde estes construíram autênticas aberrações ambientais e paisagísticas. Utilizou os transportes públicos para obrigar os portalegrenses a comprar carro. Apagou o comércio local com parquímetros e parques de estacionamento inoperativos. Esvaziou de famílias a cidade histórica. Corroeu as valências culturais com certames e instituições onerosas estimulando-lhe a dependência subsidiária. Programou os espectáculos e actividades sócio-culturais de acordo com as acções de promoção das etiquetas livreiras, musicais e agências nacionais. Caprichou na proliferação de tascas e multiplicou os festivais de vomitório e enfartamento. Enfim, estilhaçou a identidade gregária para vender os seus cacos avulso, numa tentativa de aumentar a receita sem recorrer à produção de valores. Derreteu o ouro que nos valia para fazer uma talha dourada que, ao invés de enfeitar, nos está a amortalhar, de tal forma que podemos dizer, que nos últimos anos, a única coisa que se modernizou crescendo, substancialmente e a olhos vistos, foi o Cemitério, e os respectivos ciprestes, que o emolduram.
Portanto, não basta fazer festivais e dar festas de papas e bolos, bailes de mercado e utilizar os velhotes para comprar o voto aos seus familiares, nem benzermo-nos como quadrúpedes de Alá, de cu prò ar, ou unir as mãos imitando o saboroso gesto de lamber vaginas, de preferência virgens e cheirosas, para nos considerarmos modernos e actuais, porque o que mais importa é contribuir com a nossa acção política para resolver os problemas do presente, e isso nunca se fará com métodos e atitudes do passado, a não ser que queiramos enterrar o futuro na vala dos genocídios comuns, à semelhança do que fizemos nas famigeradas guerras do nosso "abençoado e narcísico" antropocentrismo, nascido anteriormente mas tendo como pilares de referência Aristóteles, a que se seguiu Francis Bacon, depois Descartes, com estações intermédias em 1914-18 e culminou com a guerra de 1942-1945, numa enorme e apoteótica celebração de imortalidade do divino homem edificada com a sua acção mortífera sobre os outros homens, animais e plantas de todo o planeta – e arredores. Isto é, se queremos ser civilizados então devemos ter atitudes de cultura e civilidade susceptíveis de promoverem a vida e o seu berço, a natureza, e não a morte através da exploração desenfreada e inequívoca destruição do mundo natural, do qual dependemos e a vida, como os demais seres viventes conhecidos, incluindo os que não carecem de sol e oxigénio para o fazerem, ou os habitantes das profundidades oceânicas.
(Os Girassóis, de Van Gogh)
Há mais vida para além da nossa, mas acontece que essa vida sobrevive muito bem sem a nossa, e esta, a nossa, nunca sobreviverá sem essa vida, sem a ecosfera tal e qual como a conhecemos e enquanto mantiver os valores de salubridade suficientes e necessários à nossa existência. Pelo que importa assumir uma nova posição ética, consentânea com as nossas maiores dificuldades actuais, e consciencializarmo-nos de que elas não são só nossas embora tenhamos sido nós a produzi-las, a provocá-las, com os nossos pensamentos, religiões, economias, governos, comportamentos e atitudes. E essa ética já existe, transposta e subscrita por Naess (1948), embora possa vir a ser melhorada e tornada mais compatível com a actualidade global, se for igualmente melhor conhecida dos humanos, mais praticada pelos povos e superiormente contemplada nas políticas e enquadramentos legais das diferentes governanças europeias e ocidentais, enunciada conforme se segue:
1 – O florescimento da vida humana e não humana tem valor em si mesmo (valor intrínseco ou valor inerente), independentemente dos objectivos humanos.
2 – A riqueza e a diversidade de formas de vida contribuem para a realização desse valor e são também valores em si mesmos.
3 – Os seres humanos não têm o direito de reduzir esta riqueza e diversidade, excepto para satisfazerem necessidades vitais.
4 – A qualidade da vida humana e a afirmação das diferentes culturas são compatíveis com uma substancial diminuição da população humana, aspecto indispensável ao florescimento da vida não humana.
5 – A actual interferência humana no mundo não humano é excessiva e a situação está a agravar-se rapidamente.
6 – As políticas têm de ser alteradas, face à gravidade da situação. Estas políticas têm de afectar as opções económicas e tecnológicas e as estruturas ideológicas.
7 – A mudança ideológica tem de se centrar na aposta na qualidade de vida, em vez de uma adesão a um elevado padrão material. Esta mudança traduzirá a tomada de consciência da diferença entre grandeza e grandiosidade.
8 – Os que subscrevem estes pontos de vista têm a obrigação, de forma directa ou indirecta, de tentar implementar as mudanças necessárias.

Ou seja, se quisermos mudar podemos mudar, da mesma forma que se quisermos continuar a empestar o planeta, e a transformá-la em caca com o nosso Toque de Mírdias podemos continuar a fazê-lo, embora saibamos pelos Bangladeshs da actualidade que isso não nos será facultado durante muito mais tempo. E lavar as mãos, como Pilatos, não leva a nada ou, ainda piora, mesmo que o façamos com detergente Al Gore!

Álvaro de Campos: apenas mais um heterónimo de Fernando Pessoa?



Álvaro de Campos: apenas mais um heterónimo de Fernando Pessoa?

"Os poetas não inventam os poemas
O poema está algures lá atrás
Há muito tempo que lá está
O poeta não fez senão descobri-lo."

Jan Skacel

Introdução

A poesia de Álvaro de Campos, enquanto elemento cénico-dramático da família pessoana, deve ser encarada paradigmaticamente como um produto de quatro vectores importantes, e a saber: a) no sentido estético-filosófico – o sensacionismo; b) enquanto espelho social do seu tempo – ou retrato da sociedade de produção; c) na perspectiva do "eu" e sua natureza confessional – ou reflexo da formação inglesa; e d) pela postura imagética na tradição oceânica portuguesa, seus motivos e argumentos poéticos. Não só porque Álvaro de Campos foi aquele heterónimo mais próximo do alter ego de Pessoa, como também foi, sem dúvida, o seu principal companheiro (imaginário) e confidente, o que o tornou no mais original, atrevido e mistificar de todos eles. Há até quem pretenda que Fernando Pessoa ele-mesmo mais não teria sido que o pseudónimo de Álvaro de Campos... Daí a grande dificuldade de analisarmos um sem nos conseguirmos abstrair do outro!
"Álvaro de Campos, embora tenha ido para Lisboa muito novo, nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890", afiança Fernando Pessoa numa carta a Adolfo Casais Monteiro, incluída na Presença, número 48. E adianta: "Como se sabe, é engenheiro naval (formado em Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa, em inactividade. (...) É alto (1,75 m de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo porém liso, normalmente apartado ao lado, e usa monóculo. Teve uma educação vulgar de liceu; mas depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez uma viagem ao Oriente, de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre." E além de discípulo de Caeiro, era também drogado, maricas e iniciado da maçonaria.
Por outras palavras: a biografia de Álvaro de Campos, à excepção da camoniana viagem ao Oriente, que Pessoa nunca fez, confunde-se simetricamente com a deste último, se invertermos o Globo e atribuirmos à Escócia a localização correspondente à colónia inglesa, a província do Cabo da Boa Esperança, ou, a Tavira, a igualmente correspondente beira-mar lisboeta. Até o ano da morte de um, 1935, é o mesmo que da morte do outro, pois que a 21 de Outubro desse ano, ainda Álvaro de Campos assinava poesia, o que é a mais evidente das provas para a existência de um poeta, independentemente de qual seja ele a que queiramos referir-nos. Aliás, também Álvaro de Campos foi prosador e crítico literário: Notas ao Acaso, in Sudoeste; Notas Para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, no número 30 da Presença; O Que é a Metafísica e Apontamentos Para Uma Estética Não Aristotélica, na revista Athena (1924); e, ainda, os manifestos Aviso Por Causa da Moral e Ultimatum. Mesmo o sensacionismo de "Álvaro de Campos (AC) era um vinco fundo cavado na alma, a expressão trágica de uma consciência que, de cabriola em cabriola, fizera chegar Fernando Pessoa àquele estado abissal, sem fé, sem esperança, sem caridade, estirado ao comprido na valeta que era a sua cama, lá nesse quarto desalinhado da Rua Coelho da Rocha, onde a maior parte das vezes, completamente só, principiava a sentir a intoxicação física que as permanentes bebedeiras lhe iam provocando na constituição débil, ainda mais debilitada por anos e anos de mau passadio, de deambulação boémia de tasco em tasco, comendo conforme o dinheiro que havia de momento e dormindo onde o acaso lhe proporcionava nova cama", como subscreveu João Gaspar Simões, que foi tanto um conhecedor do homem, quanto da sua vida e obra.
Neste trabalho vai-se, por conseguinte, estabelecer que há uma linha de criação estética que, não só foge aos cânones de beleza comummente aceites como épicos e líricos, o que os traslada em "euépicos", mas que também executa a linguagem enquanto proposta de ligação entre correntes de pensamento, ou teórico-literárias, anteriormente apenas concebidas em separado: o romantismo, o realismo, o simbolismo esotérico e introspectivo, e o sentimento épico nacional. Porque a subjectividade do eu poético é tão circunstancial quanto os poetas, quer em seu nome, quer como expressão de alguém em si, quando estão limitados e influenciados pelo espaço-quando que os enquadra e emoldura. Incluindo mesmo, e principalmente, os maiores, que se anteciparam no tempo, no modo, no verbo e no acto de representar a sua imagética. E originalidade.

a) O SENSACIONISMO

Este primeiro item é o cerne fundamental de toda a temática de AC. É da experimentação subjectiva modificada e reflectida acerca dos mais variados estímulos sensitivos que parte toda a sua poesia. O "eu" sensacionista é um ego experimental. O sensacionismo é baseado na teoria segundo a qual a única realidade da vida é a sensação; e que, grosso modo, a única realidade da arte é a consciência dessa sensação – "porque a melhor maneira de viajar é sentir".
Os mais efectivos, factuais e prementes exemplos disso são: E o Esplendor dos Mapas, Casa Branca Nau Preta, Insónia, Aniversário, Trapo, Bicarbonato de Soda, Dai-me Rosas e Lírios, Lembro-me do Teu Olhar, Vilegiatura, Até Que Enfim ..., Perfeitamente, Símbolos? Eu Estou farto de Símbolos, O Que Há Em Mim é Sobretudo Cansaço, Esta Velha Angústia, Hoje, Se Calhar, Está o Quê?, Mestre, Meu Mestre Querido!, Na Noite Terrível, No Lugar dos Palácios Desertos, Não Sei. Falta-me um Sentido, Afinal, a Melhor Maneira de Viajar é Sentir e Passagem das Horas.

Apontamento

A minha alma parti-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia de loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre o capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçaram-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que eu era um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes eles.


Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.


(In Presença, nº 20 – Abril/Maio, de 1929)


A analogia "a minha alma partiu-se como um vaso vazio", com que começa este poema, em que a imagem de movimento reflexivo "partiu-se" coisifica a alma de AC, assemelhando-a metaforicamente a um vaso vazio, é gradativamente intensificada, em crescendo, pela anáfora
Caiu pelas escadas
Caiu das mãos
Caiu

com o objectivo de nos dar um esboço pictórico, um croquis, um apontamento de rascunho para a tela fundamental, uma impressão sensitiva avivada de aguarela nebulosa – e não é o impressionismo um sensacionismo?... –, imaginada até se tonar mais realidade, ou tão real como a realidade sentida, forte, violenta e intransigente, em que o resultado final, naquilo que é uma multiplicação por descaracterização e/ou despersonalização, é um produto superior à simples e directa soma dos cacos, em demonstração do que é, sumariamente, o valor acrescentado do sensacionismo: o vaso, ao partir-se, transforma-se em mais pedaços do que havia de loiça em si, demonstrando que o resultado da soma é superior à soma das partes. Ou seja, pelo sensacionismo, efectua-se o milagre da multiplicação (à semelhança com a bíblica multiplicação dos pães, em que quanto mais o pão se parte e reparte, mais ele cresce) do ser, em que um homem é tanto mais humano, quantos mais homens conseguir sentir ser em si. O que, aliás, após as interrogações "Asneira? Impossível?", que são arredadas pelo conhecimento apenas concebível ao da dúvida socrática, num fingimento de ausência do intelecto e razão, que é o sentimento – "Sei lá!" –, fica confirmado pelo enunciado afirmativo de "tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu", onde se explica que ser-se e sentir-se ser um único ser, não é uma libertação extensiva, mas sim uma limitação e restrição feita ao eu, enquanto capacidade e potência de sentir, recordar, imaginar, iludir e existir, ou palco de representação (simbólica ou não) da vida. O verso é livre, sem rima, sem ritmo nem métrica definitiva, alternando versos de doze, quinze e dezoito sílabas com redondilhas menores, atenuando o balanço sem traços aliterantes demasiado vincados, excepto quando necessários para evidenciarem os mecanismos dentados dos sistemas maquinais, e no objectivo de recriar a sensação de rasgo que antecede o eclodir, o Big Bang inicial, a explosão primeira da formação do verbo estelar, que é, indubitavelmente, a do fonema que surge antes do noema, e antecipa o sentido da palavra. Ser é uma subida pelas mão de alguém, seja quem for esse alguém, podendo até ser uma criada doméstica, uma serviçal ao dispor da sensação que a requer. É aspirar a ser Deus, degrau a degrau, sensação a sensação, de analogia em analogia (A minha alma partiu-se como um vaso vazio. // Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. // Etc., etc.) descendo cada vez mais fundo por uma escada, por uma escada excessivamente abaixo, íngreme, tornando por isso mais tolerante, mais múltiplo e sincero, como leitores (deuses não se zanguem com o poeta / com a criada, a vossa criada...) nascidos do vazio, olhando os cacos absurdamente, ainda que conscientes deles, tirando caco sobre caco, ilusão sobre ilusão, desfolhando o ser, multiplicando-se alastrando na grande escadaria que antecede o temp(l)o, por cada caco uma estrela, por cada estrela outro ser, cada uma/a mais diferente de cada qual, mas por isso mesmo mais igual àquele caco que brilha, virado do exterior lustroso, entre astros seus iguais, porque também mutáveis, ou outros eus demasiado diferentes de si, porquanto no mundo dos mundos sensitivos os extremos tocam-se, irremediavelmente: uma queimadura tanto pode ser provocado pelo excesso de exposição ao calor, como pelo excesso de gelos e frios, enquanto caco, que quanto mais astro mais é caco que brilha, na desorganização caótica dos sentidos.


No segundo andamento de Apontamento, que começa com o anfiguri (Não se zanguem com ela. / São tolerantes com ela. / O que eu era um vaso vazio?), composto por dois anacolutos (Não se zanguem / São tolerantes), cuja epístrofe "com ela" / "com ela", é reforçada pela não concordância dos tempos e verbos zangar e ser, passando da segunda para a terceira pessoa do plural e com tempos diferentes, sem nada que o peça ou faça supor; e o segundo, "o que eu era um vaso vazio?", pela falta – elipse – do "senão" ou de uma interrogação, que parece estar subentendida, "o que eu era? Um vaso vazio?", em que o princípio da frase nada tem a ver com o final, entra-se numa derradeira derrapagem do ser para a sensação de ser, explícita na iteração da palavra conscientes, espalhada no dueto seguinte: "Olham os cacos absurdamente conscientes, / Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles." Então, ser-se é um esquecer de ser. Olham e sorriem tolerantes como os deuses. Mas para onde olham senão para si próprios?... – Afinal, cacos, nacos, partes, conscientes de si-mesmos... Porque os deuses são cacos/lentes que se olham fora de si, que se imaginam especialmente, ainda quando desconhecem porque ficam ali.
Ter uma sensação não é como ter uma experiência. Mas sim um como imaginá-la tão especialmente que se sente quase o mesmo do que se tivéssemos tido, tipo ver claramente visto que se não viu realmente. "Fingir é conhecer-se". É experimentar no laboratório da poesia um eu, que não sendo nosso é deveras nosso, mas que manipulamos como se o não fosse, e através do qual podemos sentir o que fingimos sentir.

b) O ESPELHO SOCIAL – SOCIEDADE DE PRODUÇÃO

Se, como poderia ser a intenção do autor, Álvaro de Campos teria de ser um poeta "moderno e cosmopolita", então não lhe restava outro caminho senão o de retratar a imagética de uma sociedade que, por não existir concretamente em Portugal nos princípios do século, teve o seu ponto de referência nos Estado Unidos e Inglaterra; nela nascesse, dela fizesse parte integrante, justificasse a aptidão, por exemplo com um diploma tirado em Glasgow, representasse o seu futuro como o progresso industrial, enfim, fosse a sociedade de produção onde o engenheiro cumpriria o seu mister. E uma cosmologia mecanicista. Ora, para esse objectivo concorreram, argumentativamente, sem dúvida, pemas como
Dactilografia, O Binómio de Newton, Cruzou Comigo, Veio Ter Comigo, Dobrada à Moda do Porto, Não: devagar, Às Vezes Tenho Ideias Felizes, Começa a Haver Meia-Noite e a Haver Sossego, Ode Triunfal, Tabacaria, Apostila, Adiamento, Nuvens, Reticências, Ode Marcial, Ao Volante do Chevrolet Pela Estrada e Sintra, Ali Não Havia Electricidade, Acordar na Cidade de Lisboa, O ter Deveras, Que Prolixa Coisa, Vai pelo Cais Fora um Bulício, Cruz na Porta da Tabacaria, Faróis Distantes e Nas Praças Vindouras.




Ao Volante do Chevrolet Pela Estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixado ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, nem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim, eu próprio sou!

À esquerda o casebre – sim o casebre – à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela ma olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite , ao luar, ao volante
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de mim.

"Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem montadas, os cavaleiros seriam peões." – É Pessoa/Campos quem o afirma no nº 5 da Presença, de 4 de Junho de 1927. A sociedade de produção sem as máquinas da revolução industrial, ou sem os carros, seria um progresso apeado, que o mesmo é dizer, um progredir de coisa nenhuma, para outra igual a si. Mas o automóvel encerra dentro dele outra particularidade: para ser guiado necessita de um volante, um comando de seguir viagem, cujo maquinismo, instrumento, o volante, é o símbolo sensacionista por excelência. Sem ele a sensação seria estéril, fixa, para e intoxicante, inconsequente, descontrolada, desequilibrada e descabida.
No verso livre e discursivo, repleto de cesuras marcadas e pontuadas pela artificialidade da vírgula, a meio ou no fim de cada um, de métrica longa, como batida de êmbolo, na constância rítmica ou por tónicas forçosamente coladas, precisamente com a melodia alongada, esticada, a harmonia fónica característica da frase cumulativa natural da frase grande, AC recorre a uma panóplia de figuras de retórica e sintaxe, para nos esgarrar a visão. No entanto, pela sua insistência, dois recursos estilísticos me parecem mais propositados que quaisquer outros: a anáfora e a gradação. Porque poderá ter sido?
Vejamos: porque estrada de Sintra é apenas um caminho, pelo qual, com o auxílio do volante (o sensacionismo, a corrente), cada um pode condzir o progresso social e industrial, mecânico e económico, a seu bel prazer, em direcção à descoberta de si próprio, enquanto homem cosmopolita na sua fuga para a vida, para a frente, com a pobreza à esquerda e o latifúndio à direita, mas iludido e material, como o é, indubitavelmente, o homem típico da sociedade de produção.
Ao Volante do Chevrolet é uma sinfonia épica, à semelhança das de Wagner, Beethoven, Mozart ou Ravel, em que dois instrumentos, quais solistas – talvez um violoncelo e um piano, uma percussão e um trinado, uma repetição e uma elipse – a anáfora e a gradação, dialogam, despicam, se interrogam , interpelam e combatem mutuamente, até à apoteose final, ao clímax, à catarse, em que se entregam e unificam definitivamente na sensação que delas retemos. Assim:
(Anáfora) (Gradação circular)
Na estrada de Sintra volante
Na estrada de Sintra imaginação
Na estrada de Sintra cada vez mais perto de Sintra
Na estrada de Sinta cada vez mais perto de mim
para a fusão perfeita nos dois últimos versos, onde a anáfora e a gradação atingem o êxtase culminante.
Na estrada de Sintra cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada e Sintra cada vez mais perto de mim,
afinal, uma progressão nominal típica de uma sociedade que apela mais aos fins justificando neles os meios. E isto é o resultado de uma progressão valorativa, épica, tão sinfónica e musical, como, por exemplo, O Bolero, de Ravel. Daí que logo nos primeiros dois versos, acordes, como prelúdio e anúncio do que se irá seguir, em aviso à navegação, sejam precisamente a anáfora de
Ao
Ao
e a gradação circular estrada de Sintra, luar, sonho e estrada de Sintra, a pedra-de-toque com que nos afiançamos da natureza do poema. Mas não só: em todas as demais estrofes – na segunda: (anáfora)
Que sigo
Que sigo
Que sigo

e
Sempre
Sempre

(gradação crescente) estrada, sonho, mundo ou (gradação decrescente) propósito, sem nexo, nem consequência e (gradação crescente) Sintra, sonho, vida; na terceira: (anáfora)
Quantas coisas
Quantas coisas
Quanto

e (gradação circular) sorrio, pensar, virar, sigo, guio, sou; na quarta: (anáfora)
Que só
Que só

e (gradação compulsiva, com epístrofe) estrada, automóvel, liberdade, fechado, fechado; na quinta: (anáfora)
O meu coração
O meu coração
O meu coração

e (gradação circular) luar, tristeza, campos, noite ou (gradação decrescente) terrível, súbito, violento, inconcebível, e (gradação crescente) casebre, coração vazio, coração insatisfeito, coração mais humano –, como se dizia, à excepção da quarta, que é uma espécie de desenvolvimento romântico e garrettiano do tema, o processo se repete, como fórmula de preparação para cozinhar em lume brando o epílogo "final", enquanto prova demonstrada de como a sociedade, os outros e as coisas do progresso, só serão válidas e úteis desde que forneçam um veículo e caminho que facilitem ao homem do seu tempo a tarefa, essencial diremos, e se buscar, para a descoberta de si mesmo, enfim, quadro de fundo e leitmotiv que assiste a todo e qualquer sensacionismo, ou até a todo e qualquer "ismo".
Outro pormenor a realçar, enquanto crítica do social, é que, ironicamente, o Chevrolet conduzido é emprestado. Porquê? Porque o modelo de sociedade descrito e subscrito por AC também foi emprestado, não é português, é anglo-americano, visto que cá a revolução industrial nunca chegou a acontecer, em termos determinativos e concludentes, e aquilo que se dela se viu, chegou com pelo menos 50 anos de atraso, aliás, sociedade essa, a que apenas Fernando Pessoa teve aceso por empréstimo de outra escrita, o jornalismo, ou os ecos jornalísticos dela que a Portugal aportavam através dos jornais e revistas inglesas que ia lendo. Ou seja, o engenheiro é formado no exterior, mas o carro que conduz também é emprestado, o que, em certa medida, ainda hoje continua a ser verdade: a indústria já vai na sua quinta revolução nas as máquinas de escrever actuais, desde as esferográficas bic ao computadores que usamos, são de fabrico estrangeiro, ainda cá não foram inventados, continuando nós a servirmo-nos deles por empréstimo, ou... importação. Pelo que, neste capítulo da sociedade e progresso, a actualidade de AC se mantém intocável e inalterada!
(Ilustração: foto de quadro de Júlio Pomar)


b) NA PERSPECTIVA DO EU, OU CONFESSIONAIS

A vertente confessional, ou da formação superior e educação escocesa do engenheiro, já que os estudos anteriores foram os liceais, como os de tanta outra gente, AC demonstra-nos, e demonstra-se, a irreverência nas tendências in da toxicomania, homossexuais, pedófilas e maçónicas rosacrucianas, tudo coisas ousadas e perversas para a altura, que, além de estarem vedadas e não poderem ser incluídas nos currículos liceais da nacionalidade nacionalista fechada, também nunca poderiam ser admitidas pela moral da época, a um homem real, mas muito bem aceites numa personagem abstracta; isto sem falarmos, no psicadelismo que se lhe seguiu, nem os ecos deformativos badalados acerca da Inglaterra, a propósito da formação e educação dos técnicos navais "literários" de então, onde causavam enormes incêndios e tempestades de ânimo a polémica em torno de Oscar Wilde, que foi "excomungado" da sociedade londrina.
E podemos incluir nessa linha os poemas Saudação a Walt Whitman, Soneto já Antigo, Lisbon Revisited I e II, Marinett Académico, Todas as Cartas de Amor São, Eu, eu mesmo, Há mais de meia hora, Pecado Original, Magnificat, "The Times", Gazetilha, De la Musique, Psiquetipia (ou Psicopatia), Poema em Linha Recta, Barrow-on-Furnes, Cleary Nn-Campos e Degogn.

Soneto já Antigo


Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Embora não sintas, que tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
Que eu nada que tu digas acredito),
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas felizes

Embora não o saibas, que morri...
Mesmo ele, a quem tanto julguei amar,
Nada se importará... Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily,
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partem a vida e que m lá ande!



Ora, Soneto já Antigo, enquanto poema, só é soneto na distribuição estrófica, pelos seus quatro conjuntos de versos, cujos 14 são repartidos por duas quadras e dois tercetos. De rima diversificada (abba / cddc / eff / egg) em cada estrofe, a sua paralelística disfarçada (bb / dd / ff / gg) e pela rima interpolada das quadras com emparelhamento dos tercetos, denota desde logo a intenção de AC em fazer mais uma canção de amigo invertida, em medida de (quase) alexandrinos, utilizando a licença poética que o versilibrismo da época lhe concedia, do que um soneto clássico petrarquiano. Neste cantar de amigo por soneto, soneto em torno de uma canção de amigo ou canção de amigo em forma de soneto, conforme se queira e prefira, AC confessa à sua confidente (invocação do primeiro verso: "Olha, Daisy") a sua homossexualidade, matando imaginariamente aquela outra "máscara", e personalidade, pela qual, entre ainda alguns amigos de Londres, era conhecido, e em que acreditavam que ela fosse a sua verdadeira persona, ou realidade personalista. Literalmente falando... Os encavalgamentos do verso 1 para o verso 2, do 4 para o 5, do 7 para o 8, do 8 para o 9 e do 11 para o 12, aliados aos àpartes intercalados por apóstrofe do verso 3 ("embora não o sintas"), do verso 6 ("que eu nada que tu digas acredito"), do verso 9 ("embora não o saibas") – 369, numeral composto por múltiplos de três – e do verso 12 ("que acreditava que eu era grande"), assim como a aliteração em r, d e m, constatada em todo o poema, confluem propositadamente para a formação de um anticlímax esotérico compulsivo e congestionado, naquilo que parece ser um anacoluto final, por se assemelhar extraordinariamente à confabulação ou algo desenquadrado do anteriormente dito ("raios partam a vida e quem lá ande!"), característico dos místicos iniciados nos rituais das seitas do secreto, então, proibido, essencialmente britânicos, cuja literatura e teatro são um espelho, além de actividades não permitidas na época às mulheres, em que as personagens femininas eram sempre (encarnadas) representadas por travestis, seres em que se não deve acreditar, pois nunca são o que parecem, mas invariavelmente outra coisa qualquer ("embora não o sintas", "tu escondes", "nada que tu digas acredito", "embora não o saibas, "julguei amar" e "estranha Cecily"), tal como Fernando Pessoa estará, ou esteve, travestido de AC para os seus amigos, actores e máscaras sociais, do teatro londrino, ou fora dele.
Neste poema Daisy, não parece ser uma mulher amiga e particular e específica: é a calma, a tranquilidade querida e adorada, que as amizades londrinas lhe proporcionaram, porquanto Daisy é uma espécie de acrónimo de dear easy. E está, qual provocação propositada, no princípio do poema, não só como porta de entrada, por ser uma invocação, mas também para demonstrar que é uma espécie de chave de entrada para a ambivalência do texto, que no rascunho é dedicado à casa do teatro (daisy mason) ambulante (irás de Londres a York), como eram quase todas as grandes companhias teatrais e faziam na altura. Porque acima de tudo é o teatro, o drama de ser muitos, as máscaras, as personagens, as roupagens de ser, que escondem – ou revelam – a dor da sua morte, dado que ser muitos é ser ninguém (em particular), como ser tudo é ser nada, e não se ninguém é estar morto, tudo aquilo que concorre para que o engenheiro AC, pela sua formação académica inglesa, seja mais marinheiro que engenheiro, mais poeta que marinheiro, mais personagem que poeta, mais actor que personagem, mais máscara que actor, mais masculino que máscara e mais feminino que actor. Se não, então porque é que Cecilia seria estranha?... Porque, provavelmente, não era Cecily nenhuma: era um homem, artista de teatro, um actor travestido de mulher. Porque ele, Álvaro de Campos, como personagem de um drama que era, apenas conseguia uma tranquilidade plena no seu próprio habitat natural, que eram os camarins, o palco, a boca de cena sensacionista, (n)a representação dos sentires, seus e alheios, e saber e não saber, que caracteriza a essência do teatro.
Portanto, reiterando, Soneto já Antigo, não é um soneto – é um travesti de estilo, uma canção de amigo disfarçada de soneto, ou vice-versa.

b) A TRADIÇÃO OCEÂNICA PORTUGUESA

Mas também porque o ambiente natural de um marinheiro erudito (engenheiro naval e viajante) nascido à beira do Mediterrâneo, crescido ao lado do Atlântico e de frente para o estuário do Tejo, só pode ser (homem) do mar e ter como consequência directa o cumprir do fado que é ser português, a tradição oceânica portuguesa assume-se como outro dos parâmetros basilares da estrutura molecular e poética de AC, de enorme constância, concisão semântica e deverasmente contribuiva, ou imprescindível, no quadro geral dos conteúdos. E essa unidade significativa é inegável em poemas tais como Ode Marítima, Opiário, Dois Excertos de Odes, Grandes São os Desertos, Acaso, La Bas Je Ne Sais Ou, Realidade, Ah, um Soneto, e Escrito Num Livro Abandonado em Viajem.

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio se calhar.
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito duma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Porque todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo o que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional!
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isso é o mesmo também afinal.

Tudo aquilo que restou da tradição, além dos mulatos e mulatas, da qual os portugueses se (re)formaram após Os Descobrimentos, foram Os Lusíadas e pouco mais: "Ao menos escrevem-se versos", como disse e redisse AC, no Acaso de toda a sua ingenuidade e desorganização de marinheiro de engenho e arte, que em cada porto de cada nova cidade a que aportou, nova Ilha dos Amores encontrou, com outras raparigas, novamente por acaso, mas loiras.
E o Acaso é conseguido na repetição (repetição de palavras ou frases a intervalos irregulares num poema), e da também diversidade nonémica e fónica, numa manifestação musical de caótico desempenho, mas que, como se fossem sons de acaso numa natureza feminina e selvagem, virgem e por descobrir, como antigamente o haviam sido a África Austral ou o Brasil, de 1500, agora já colonizados por também outras raparigas loiras, como loira é a desta vez, que nem as holandesas e alemãs do brasil, ou as inglesas e holandesas de África, como se fossem – dizia-se –, ecos de uma vontade ancestral, desvitalizada, adormecida, descuidada, ou recordações, palimpsestos, reminiscências do génio, se calhar!, maravilha das celebridades, e do espírito oceânico ou tradicional dos navegantes portugueses. Que só por acaso são portugueses, pois bem podiam ser fenícios ou gregos, se A Odisseia de que se fala fosse outra. Digamos que, neste poema, por acaso de acaso em acaso se relaciona, tudo é despropositado – mas de propósito –, ao sabor da maré, disperso umas vezes, conciso, junto e repetido outras, numa tal dispersão que até as repetições (de retomar o ponto) são caóticas, não (com)sequentes e desordenadas.
Porquê – pergunta-se. Por três razões, e a clarificar.

1) Pela anamnese, ou recordação de um facto passado para com ele dar mais ênfase ao discurso poético e reforçar a imagética do presente, estabelecida nos primeiros seis versos, indo culminar na irónica exclamação do "que grande vantagem o recordar intransigente!", ou litote, espécie de meiose de ruminação passadista ou saudosa do tempo dos Gamas e Cabrais da portugalidade, numa lamentação consecutiva e resulta no que sempre deve resultar: quando se olha muito para o passado, perde-se ou perdemo-lo de vista, e, irremediavelmente, perde-se também a oportunidade de ver o presente – "agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga / e tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta", como salienta AC. Pois quando o acaso da rua dá no acaso da rapariga loira, que é a imagem viva de outra rua por acaso, é o que acontece. E é muito épico!...

2) Por via da sinédoque, em todos os plurais são o mesmo singular: "Porque todas as recordações são a mesma recordação" – ou, porque todas as sensações são sempre a mesma sensação; porque todos os acasos são sempre o mesmo acaso; porque todos os descobrimentos são sempre o mesmo descobrimento: o do homem, enquanto busca e encontro de si mesmo, do seu destino e fado. E o destino, no fado dos portugueses, é aportar em cada porto de cada igualmente outra cidade, onde haja outra rua e o acaso de outra loira, que até pode ser morena. Os épicos sempre na diversidade múltipla da mulher a infinita unidade do (fértil) ser feminino.
3) E em consequência directa da última epístrofe (dupla): "é a mesma afinal... / Tudo é o mesmo afinal... // Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isso é o mesmo também afinal". Porque fazer versos vale tanto como fazer gestos (até obsceno, porventura) e caretas ao destino, porquanto será o mesmo afinal, o seu resultado comunicativo, e em cada um de nós há, quiçá, adormecido talvez, escondido, recalcado e no desemprego, aquele mesmo que não é o mesmo nem o outro, porque é de hoje e não de 1500, mas mesmo assim e ainda o mesmo marinheiro que partiu para a Índia (ou Sintra) e deu novos mundos ao mundo, a bordo de uma frágil nau ou num Chevrolet, que tanto fez, faz e fará. Deu novas cidades, novas ruas, com novas loiras. Ou não-loiras. As mesmas da Ilha dos Amores – afinal, outras ilhas mas igualmente visões no espelhos desta ilha, ou imagem dela, invertida no espelho de água da nossa capitania, emolduradas sob os caixilhos (apertados) por uma Castela adversa e um (oceano) mar de temores e mostrengos, Admastores e Atlândidas.

Conclusão

Fernando Pessoa e, por arrasto, Álvaro de Campos, não só foram poetas maiores da língua portuguesa como tentaram clarificar a penumbra e nevoeiro que ofuscava a portugalidade. Portanto, não faziam versinhos ou composições poéticas sobre um ou vários temas que sustentavam a tenebrosa alma lusitana: faziam poesia autêntica e profunda, escavavam "arqueologicamente" os nossos pensamento e cultura, como sucede, sem dúvida alguma, nos demais géneros literários de que os autores se "socorram" para revelar o seu canto épico, conforme as características da sua natureza, mais ou menos universais, mais ou menos abrangentes, extensão aliás comum a muitos outros da nossa praça, e segundo o espaço-quando que os circunscreveu, ou circunscreve. Daí que a divisão temática – e um tema é apenas o reflexo de uma interrogação existencial... – não tenha tido a pretensão infantil de apenas dividir (o indivisível) a poesia de AC por itens redactoriais (vaquinha, burrinho, cidade, campo, sociedade, saudade, blá, blá...), mas abarcar parâmetros de intertextualidade e entretextualidade subalternos que funcionam, ou poderiam funcionar para qualquer outro "sincero" poeta do fingimento, como motivação da produção estética e/ou criadora, e também para Fernando Pessoa, que nunca deixou de ser ele mesmo, mesmo quando foi outro (nos seus heterónimos): enfim, no seu sensacionismo, enquanto membro da sociedade, o seu relacionamento com o seu "eu" e o enquadramento cultural que História de Portugal lhe exigiu ou propiciou. Primeiro, porque o que estava em causa não era a capacidade de redacção do poeta, nem sua a filosofia ou identidade, poios elas são por demais e sobejamente (re)conhecidas, não só nacional como internacionalmente, mas sobretudo os pontos fulcrais e evidentes da sua imagética; e segundo, porque o que importava não descaracterizar pela análise interpretativa, nem valorativa, a poesia de AC, mas sim cuidar de tentar compreendê-la enquanto elemento vivo e duradouro do espectro cultural e literário português. Até porque, nem Fernando Pessoa, nem Álvaro de Campos, carecem já de afectações intelectuais que os promovam, elogiem, nem maneirismos críticos que os livrem da pestilência emocional do politicamente correcto como precisaram enquanto vivos, ou qualquer outro tipo de provas e diplomas, experimentações e enredos. Que nisso, ou disso, são a língua e a literatura portuguesa quem precisa dos seus exemplos.
Por outro lado, seria impossível sintetizar a obra de AC numa moldura de apenas quadro cantos: porque ela diversa e dispersa, e melhor do que eu o sabem quem, por engano estratégico, a tentou contabilizar ou classificar tematicamente: um brasileiro já entrou nessa via e, à altura em que foi notícia, ia em 186 temas distintos, como esteticamente representáveis e possíveis. Por isso, os quatro itens enunciados englobam somente poemas cujo núcleo duro é explícito do grupo que evidenciam, talvez de forma arbitraria, mas sem que tal, todavia, vá interferir ou determinar uma leitura mais aberta, porque esta nunca pretendeu ser exemplar. Quando se apresentam tais ou tais poemas sensacionistas, por exemplo, não se esteve a irradiar os restantes da esfera sensacionalista, coisa impensável, dado que o "ismo" da sensação se estende a todos eles e todas as temáticas, com maior ou menor acutilância, mas sim a pronunciar mais uma sentença do tipo "este poema apresenta uma noção particular, peculiar e bastante relevante deste género de sensionismo, além dos restantes não a excluírem totalmente". O que é igualmente válido quanto à sociedade, perspectiva do eu ou tradição oceânica portuguesa.
Quanto aos resultados da operação "desmembratória", creio terem sido substancialmente positivos, visto me terem obrigado a reler, mas com um objectivo definido, grande parte da sua obra. E pelo menos uma coisa ficou clara: AC não permite qualquer leitura passiva, passagem de vista, feito no lume brando de desentorpecer dos outros heterónimos. Porque o seu mérito está, sobremaneira, em estabelecer o inverso, a imagem reflectida no espelho de água, logo ao contrário, daquilo que com os outros ele expôs. Acima de tudo, nesse esclarecido e privilegiado interlocutor que fez da língua portuguesa a sua pátria. E por último, porque os objectivos propostos na introdução se cumpriram satisfatoriamente: AC, mais do que uma variação para a leitura da poesia pessoana, é uma confirmada realidade da linguagem interpretativa do seu tempo. No seu tempo. Enfim, faz jus à absorção espontânea, imediata e criativa, diremos a quente, das ideologias, conceitos, teorias, ideias e posturas estético-culturais adquiridas por contacto e/ou estudo, da vida quotidiana, e na invenção do século XX português para o qual, ao seu jeito, grandemente contribuiu.

(Foto de escultura, Benit soit le fruit de tes entraille, de Canto da Maia)

Arquivo do blog