La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

4.16.2008

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

O livro que ora se apresenta, das edições ITAU, custou 7$50, com oito páginas, algumas em branco é claro, que para cinco sonetos não eram precisas tantas, ainda que do tamanho de uma cautela da lotaria nacional: 10 x 14,5 cm (sem gralhas). Ou pouco maior, mas são sonetos, carago, e isso doura sobremaneira a coisa, mesmo para aqueles que não gostam de poesia, e preferem versos. Pois.


FLORBELA ESPANCA

"... Pelo seu apurado instinto de beleza formal, tão raro em mulheres até boas escritoras; pelo seu excepcional temperamento e vibrante sensibilidade; pela profundeza da sua alma revolta e ardente; pelo poder de comunicação com que, nos seus versos, se exprime o seu drama pessoal e o da paisagem que tão bem sentiu – Florbela Espanca é a maior poetisa portuguesa de qualquer tempo e um dos grandes nomes da nossa poesia moderna.
Ninguém pode honrar Florbela Espanca; – ela é que nos honra. Ela é que honra as letras portuguesas."

JOSÉ RÉGIO

1.

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira

E eu, que era neste mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

2.

Meu amor, meu amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tom de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mão são fontes de água clara
A cantar sobre a sede d'um jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sòzinho,
Passando junto a mim sem me encontrares? –

3.

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Ouço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou p'ra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra?– Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
És tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

4.

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

5.

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é sòmente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se pousaram.

São mortos os que nunca alevantaram
Dentre os escombros a Torre de Mensagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o país da luz,
A sombra calma dum entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

O "enredo" desta brochura não o sei, mas desconfio que se alguma história tem, mais a circunda do que a circunscreve, e se deva ela simplesmente à iniciativa da editora (ITAU, por sinal) em celebrar – honrar ou homenagear que seja –, qualquer data importante como aniversário da autora, se de nascimento, se de morte, não se precisa ao certo, embora não reconheça de grande valia para ninguém o andar-lhe a gente a celebrar o dia em que se foi, alguns dirão sentenciosos "desta para melhor", todavia afianço "uma porra: se é assim tão boa porque não foram vocês!?", nem proveito descubro em andarem-se a servir da desgraça derradeira de alguém, festejando, por assim dizer, a data do seu falecimento, a não ser que mórbido instinto financeiro se adivinhe, ou outro qualquer de igual calibre, sobretudo se ele recair sobre um poeta, ou poetisa, espécie de pessoas que sempre tão pobres e parcamente viveram em Portugal, por demais carecidos de pão como de afecto, falhos daquelas coisecas elementares com que a vida se governa, mas invariavelmente sujeitos à chacota e ironia da mediocridade popularucha, como quem sublinha aquilo que o burguesismo pacóvio e serôdio salientara acerca de outros, igualmente felizardos na sorte de poetar, declarando que qualquer poeta, mesmo poetisa, só é bom quando morto, e principalmente nesse instante, a partir do qual todos o podem enterrar a seu bel-prazer, depositando-lhe por cima uma boa camada de anos e esquecimento, para que nunca mais daí se alevante, aliás, garantia absoluta que diminua o risco de ressuscitar.
Portanto, não desviemos o sentido à prédica, não nos distraiamos daquilo a que viemos, que se apenas cinco são os sonetos, eles foram magistralmente esgalhados, embora reclusos daquela euforia depressiva, ou ciclotímica, que empresta ao amor tanto e doloroso prazer, tanto contentamento descontente, como diria o ancestral Luís, Vaz que não vás, tente que não caias, que nisso de ser triste por mais triste que se seja, ninguém o consegue a tempo inteiro e toda a vida, e nela, mesmo quando se não queira, ainda que "folha ao abandono / Num parque solitário, pelo Outono, / Sobre um lago onde vogam nenúfares", de vez em quando há-de sobrevir a paixão, o seu fulgor eufórico e maravilhoso, o arrebatamento único que a transforma em febre brava e impulsiva que antecede as maiores infecções, incluindo as da alma, por muito contemplativa e atormentada que ande, onde amar por amar se faz sempre perdidamente, pois nos obriga a deixar de ser os tristes e deprimidos que antes éramos, ou vice-versa, os alegres e joviais em melancolia taciturna apoderados, possessos e prostrados, que nisso de perder-se a gente tanto pode dar para um lado como para o outro, e salvar-se seja quem for quando a tensão febril acontece é um bico-de-obra de alto lá com ele, visto as mais vezes ser essa tensão o caminho recto e mais curto para a excitação realizável e, realizada ela, fonte de calma e meditativa tranquilidade, que ainda é o melhor tónico revigorante da tensão, para elaborá-la a preceito tal que exigirá realizar-se, repetidamente, inequivocamente imperiosa e urgente, e para, enfim, consumir-nos na justa medida em que a consumarmos. Em nós, exactamente nós, que sempre estaremos prontos e ansiosos para provocá-la. Nem que para isso nos tenhamos que socorrer de Deus, ou o consideremos um forte e determinado aliado para justificá-lo, exigi-lo e consegui-lo. Até no amor ilícito, se é que haverá algum que o seja...

Até porque, como diz José Régio no prelúdio, ninguém pode honrar os poetas, pois são eles essencialmente quem nos honra com a sua obra, os seus poemas, os seus versos, pelo que se lhe quisermos manifestar algo, por recompensa, por gratidão, então não nos resta outra maneira de o fazer senão lendo-os, recitá-los, compartindo-os e partilhando-os com aqueles a quem prezamos, por quem nutrimos afecto, sempre que possamos, e onde quer que o possamos fazer.

4.15.2008

DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS -- 18 de ABRIL


PATRIMÓNIO RELIGIOSO E ESPAÇOS SAGRADOS


A Assembleia da República associa-se às comemorações deste dia promovendo um conjunto de actividades organizadas pelo Museu:

17 de Abril, quinta-feira - Recital pelo Coro Gregoriano do Porto na Sala do Senado, às 19h

18 de Abril, sexta-feira – Visitas guiadas ao Palácio de S. Bento às 10h-11h-15h e 16h.
No final de cada visita haverá Prova de Licor de Singeverga e Pão de Ló de S. Bento


- Exposição sobre os espaços monásticos do Palácio de S. Bento, integrada nas visitas

- Serviço de doçaria conventual no restaurante dos Deputados e refeitório dos Funcionários como sobremesa


Inscrição prévia ,indispensável, para assistir ao Recital e participar nas visitas para os telefones - 213919347 —213919370—213919408

O “NASCIMENTO” DA CÉLULA – Por Helder Maiato

Hélder Maiato é Professor Auxiliar Convidado no Departamento de Biologia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Investigador Auxiliar e Responsável pelo Laboratório de Dinâmica e Instabilidade Cromossómica no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto. Natural de Matosinhos, nasceu em 29 de Fevereiro de 1976, licenciou-se em Bioquímica na Universidade do Porto e fez parte do sexto Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, o que o levou a passar pela Universidade de Edimburgo no Reino Unido para estudar a divisão celular e a doutorar-se em Ciências Biomédicas pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), Porto. Foi investigador afiliado no Wadsworth Center, Divison of Molecular Medicine, New York State Department of Health, USA (2003). Publicou inúmeros artigos científicos em revistas internacionais de excelência como o EMBO Journal, o Journal of Cell Biology, Cell e o Nature Cell Biology. Foram-lhe atribuídos prémios e distinções nacionais e internacionais – Prémio da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (2004); Prémio Jacinto Magalhães (2005); distinção do Programa Gulbenkian de Estímulo à Investigação da Fundação Calouste Gulbenkian (2005); Prémio Crioestaminal (2006); Prémio Gulbenkian de Apoio à Investigação na Fronteira das Ciências da Vida (2007), entre outros. E proferirá a conferência O “NASCIMENTO” DA CÉLULA :UMA VISITA GUIADA ATRAVÉS DO MICROSCÓPIO, (acerca de como o universo do infinitamente pequeno tem fascinado várias gerações de cientistas desde o século XVII, em que o maior desafio tem sido conseguir vencer as limitações físicas impostas pelo uso do microscópio, o que tem vindo a ser ultrapassado através de equipamento e de tecnologia cada vez mais sofisticados), onde se dará uma pequena viagem pelo tempo e ilustração dos avanços tecnológicos desde o aparecimento do primeiro microscópio até aos dias de hoje, assistindo àquilo que pode chamar-se o “nascimento” da célula, o momento em que uma célula “nasce” a partir de outra pré-existente, e tentar perceber como o progresso na fronteira das ciências da vida permitiu ao Homem ver como a “maquinaria” celular executa todo este processo na perfeição.

Esta é organizada pelo Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com a Ciência Viva, terá lugar no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), dia 16 de Abril, às 18h00, a qual, para os que tiverem dificuldade em aí se deslocar, poderá ser vista em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ , podendo enviar-se questões para fronteiradaciencia@gulbenkian.pt, a que o orador responderá no final da sessão.

4.11.2008

Alternam Engenharias Fraticidas, por aí...

(Ilustração: Contracapa da Revista Antítese, nº 2, de Março de 1985)
Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.

De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.

E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...

Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!

4.09.2008

Expiação, de Ian McEwan, no GLReadcom, de Portalegre

Aprazada para o dia 29 deste mês, no local e às horas do costume, o Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre (GLP–IPP), fará a sua próxima sessão à volta do romance de Ian McEwan, intitulado Expiação, e que recentemente foi alvo de adaptação cinematográfica, estreada há pouco tempo entre nós. Com edição portuguesa em 2002, de quem José Prata, na revista Os Meus Livros, nº 7 – onde consta também uma curiosa autobiografia do autor –, e a propósito, terá afirmado ser ela uma obra em que, "epílogo à parte" serem "três histórias: a de uma menina cuja imaginação conduz um homem à queda; a desse homem, que atravessa uma guerra com uma carta no bolso; a daquela menina, quando adulta, escreve um livro para expiar o seu crime." Mais adianta José, que nesses três momentos ficamos na presença da "Inglaterra ociosa do pré-guerra, a demência da retirada de Dunquerque, e de novo a Inglaterra" debaixo dos bombardeamentos alemães (blitz), realçando a transfusão do sentimento épico que a intertextualidade com Jane Austen nele aflora.

Daí que, ainda reportando-nos às palavras do crítico, embora na tradução literal da Gradiva se tenha perdido grande parte da poesia que Expiação respira, "é um romance total, de arquitectura antiga, psicologia moderna [e] montagem cinematográfica." Extraordinariamente reflectido na "cena de amor na biblioteca ou no drama de Cecília a escolher um vestido, [que] têm o peso de uma guerra; e a memória do soldado debaixo de fogo é uma casa solarenga no campo."


Portanto, aqui fica o convite a todos quantos queiram partilhar as suas impressões sobre a obra, admitir que há outras opininiões igualmente válidas sobre ela, sem estigmatizar nos "pântanos" da certeza, ainda que ela veicule a melhor e mais paternalista (ou protectora) das intenções... Digo eu!

4.08.2008

A Ortografia e os Desacordos à Portuguesa


Concomitante a uma longa história, iniciada em 1911, quando Portugal, mas sem a anuência brasileira, estipulou a primeira reforma ortográfica no sentido de alterar as grafias correntes, modernizando-as rumo à sua unificação continental e ultramarina, polémica com reacendimentos vários, nomeadamente em 1931 e 1943, que culminou no assentamento (e praça) do Acordo Ortográfico de 1945, que durou ainda muito para lá da ditadura e primavera (outonal) marcelista da mesma,

Gentilezas e Galhardias de Outros Géneros


"A desconfiança é o pior inimigo do bom senso"
Honoré de Balzac

Que há efetivamente de comum entre o primeiro número da coleção Aventuras de Arséne Lupin, da Editorial Notícias, intitulado Arséne Lupin: Gentleman Gatuno, de 1966, o nº 15 da coleção Grandes Mistérios / Grandes Aventuras, das Edições Romano Torres, denominado O Ladrão Voltou de Madrugada, autoria de Marcel Damar, de 1945, e o nº 16 da coleção Escaravelho de Ouro, com chancela da Empresa Editorial Édipo, Lda., sob o título A Lenda do Pântano, de 1951, de Conan Doyle, naquele tempo ainda mal referenciado por Sir Arthur Conan Doyle? Nada. Absolutamente nada de importante, se excetuarmos quatro pormenores insignificantes: são três exemplares antigos do romance de cordel, editados sob os auspícios do Acordo Ortográfico de 1943/45, todos foram adaptados ao cinema em mais que uma versão, bem como em nenhum deles a filosofia dos amigos do alheio argumenta mais forte que a moral escorada na legitimidade da propriedade privada. Mas tem outra: o autor de cada um deles foi pioneiro do modelo em que se desenvolve: Maurice Leblanc é o progenitor do romance policial, propriamente dito, com ou sem polícia; Sir Arthur o fundador do género fantástico; e Marcel Damar, o cultivador maior da novela de suspense.

1. A Lenda do Pântano

A tradução é de Baptista de Carvalho, igualmente, ao tempo, também director da Colecção O Escaravelho de Ouro. Após esta seguiram-se inúmeras edições, mas todas sob o título de O Cão dos Baskervilles, tradução literal do título original: The Hound of the Baskervilles. A última que me lembre é a do Diário de Notícias / Europa-América, com tradução de Jorge Vítor Carvalho, já sem c atrás do t, conforme mandam as regras da unificação ortográfica, embora o Baptista da outra versão o mantenha, pois já não há nada a fazer, e o que não tem remédio, remediado está. Ora acerca delas, tanto de uma como de outra, que no fundo são a mesma coisa, muito foi dito, sobretudo depois da fama que as adaptações cinematográficas e televisivas lhe deram, a ela obra, e a ele, Sir Arthur Conan Doyle seu autor e inventor do celebérrimo Sherlock Holmes que, desconfio, deve ser muito mais famoso do que quem o criou. São coisas da literatura, alvitram; são mistérios, dizem; paradoxos, afirmo eu, que sou dos que não percebem por que motivo os pseudónimos hão-de ter maior significado do que os nomes próprios, nem as personagens mais prestígio do que quem as traduziu em letra de forma ou lhe deu voz, tal e qual como o que sucedeu entre Platão e Sócrates, ou o Dr. Watson e Sherlock Holmes, ou, ainda, entre o último e Conan Doyle. E muito haverá por dizer, será dito, mesmo calado, acrescentado por silêncio, que é outra das formas de dizer muito praticadas nos subentendidos da polissemia. Bom.
Mas o que é verdade, ou não o sendo totalmente se lhe aproxima muito, é que o autor se serviu exemplarmente do Watson para exibir a sua riqueza vocabular, satisfazendo nele, e por ele, o apetite pelos rendilhados do discurso narrativo, os ramalhetes descritivos, as tiradas de perícia no linguajar, a frase desenvolta e harmoniosa, capazes de transcrever e reunir, num só romance, diversos estilos da arqueologia dos géneros, embora todos eles considerados populares, sim, mas menores: o terror, o gótico, o passional, o científico, o exótico, o policial, o de aventura, o paranormal ou supersticioso, o romântico moderno, o retórico. E tudo isso vendável em qualquer tabacaria da época, quiosque de hoje, como foi o caso do volume cuja capa se reproduz acima, que foi comprado na Tabacaria Continental, sita na Rua Augusta, 57 e 59, em Lisboa, onde eram comerciadas as demais brochuras ou folhetins de cordel, jornais, revistas ligth e bombásticas do Jet Sete, da sociedade, artes e espectáculos. Não seria barato, é claro, que vinte paus (20$00) era um ror, uma pipa de massa, mas era acessível a todos quantos, que seriam bastante menos do que agora são, sabiam ler, além de contar e assinar o nome. Dura apenas 183 páginas, de papel barato, em tipo miúdo, redondo, pequeno formato, de bolso (15x11 cm), capa mole e desenhada por Rosa Duarte, que é delícia para os olhos e uma enorme satisfação para a polpa dos dedos de quem o manuseia. Pegar-lhe, devorar de golpe parágrafos inteiros, é reconfortante, e ajuda-nos a compreender como é que a literatura se tornou uma arte de massas, antes de as massas serem devoradas pelos mass media. Deambularmos pelos pormenores das paisagens, pelas características dos edifícios e das ruas, pelos perfis psicológicos e físicos dos personagens, pelos compêndios de biologia e enciclopédias do crime, como então eram condimentados, é uma recompensa inigualável para quem, para além dos enredos outros enredos tece à volta do livro. E uma benção, pois durou de 1951 até hoje, sem perder qualquer das suas qualidades!

















(Continua)

4.07.2008

Sol na Eira e Água no Nabal....

É extraordinariamente engraçado como a maior parte das medidas que, noutros países, talvez com mais vocação para a cultura do que para a trambiquice, servem para proteger os criadores, em Portugal, sirvam apenas para os prejudicar, para os isolar superlativamente, impedir a divulgação, promoção e venda das suas obras, e, no caso da literatura, amputar-lhes os benefícios da crítica, sobretudo da honesta, ou daquela que pode ser feita com tempo, peso e medida, de acordo com as regras deontológicas ou da ética e companheirismo que partilham quantos em vez de roubar, criam, em vez de plagiar, interpretam, em vez de denegrir, analisam, e se pautam pelo respeito à relação criador-criado, do autor com o texto, do texto com a época, o ambiente e demais textos que o reflectem, ou nele são reflectidos, bem como acreditam que tudo quanto nos melhora individualmente contribui, determinada e inequivocamente, para nos qualificar, aumentar em qualidade, também como povo, como língua, como nação, apura a identidade portuguesa, lhe encorpa o teor civilizacional e assegura, no presente como no futuro, uma maior dignidade entre os restantes países europeus ou lhe empresta acrescida credibilidade e estatuto, quando e se convocado para assumir os protagonismos e estratégias de desenvolvimento imprescindíveis à consolidação de uma Europa, cada vez mais mundial, cada vez mais actuante e interferente na conjuntura da modernidade.
Tomemos agora de assalto um livro que nada tenha para nos dizer, do qual não haja qualquer conhecimento anterior acerca do autor, menos da obra, nem de anteriores trabalhos, ou géneros sobre que incidiu, e que nem sequer tenhamos comprado por ter uma capa atraente, título apelativo ou estivesse nos escaparates da actualidade, mas sim por ser o mais barato da estante de literatura de uma grande superfície comercial do sítio, falho em literacia por sinal, localizado num bairro social da periferia de uma cidade periférica, outros dirão interior, embora signifique exactamente o mesmo.
Temos sorte, pensei eu ao encontrá-lo, porquanto me ficaria pelo preço de um jornal diário um livro de poesia, ainda por cima premiado com o Prémio Revelação da APE/IPLB-1995, década cuja safra não foi muito afamada. Aqui "sorte" era já uma conjectura, como simples constatação momentânea de pouca valência, para apreciar uma compra de objecto cultural, qualquer que seja, livro, disco, quadro, documento, peça de escultura, de artesanato, onde figure, enfim, um conteúdo analisável e passível de veicular conhecimento. Poder-se-á, por conseguinte, dizer que não foi uma escolha totalmente aleatória mas pouco faltou para sê-lo, por que já intencional, mais precisamente motivada pela necessidade de executar, ou experimentar nela uma teoria, a ver se dela resultava a confirmação ou negação das teses em si enunciadas.
Nas orelhas, tem algumas indicações sobre o autor e a colecção onde a Difel, que é a editora, o insere, mas não serão lidas nem achadas. Tem prefácio? Tem. Saltemo-lho, pois.
Distribuídos por 70 páginas, os títulos de cada poema são de natureza numérica, de 1 a 30 apenas, pelo que nem por aí se poderá fazer ideia do que conste, embora se saiba já que esse foi o número de moedas com que Judas vendeu, traiu, Jesus, coisa de que dificilmente podemos abstrair-nos sem fazer primeiro uma interpretação dos textos assim intitulados, pois é impossível apagar uma convenção desta natureza sem haver outra que a substitua de imediato.
No primeiro poema a autora reproduz uma partida para o infinito, que vai desde aqui a lado nenhum, mas dando a volta por fora, depois de hesitante e indecisa caminhar pelo Cais de Alcântara, constatar o seu degradado e conspurcado estado, podendo daí concluir que os marinheiros se olham os rios procuram as moedas de prata da sua traição às amantes, tanto aquelas apenas mulheres como as com quem assumiram algum compromisso ou namoro. No segundo já está "bandeirante" na Amazónia, no terceiro e quarto e quinto viaja nas veias do corpo, até entrar, no sétimo, em Santa Cruz onde se começa a trajectória pela infância de alguém.
E dito isto assim, parece que estou a relatar um jogo de carica entre dois imberbes que não sabem, não querem, nem gostam de tal jogo, mas não há outra maneira de falar num livro – de poesia – que tem como rodapé da ficha técnica a indicação de que é "Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do Editor", pelo que me é dado compreender como Fernando Pessoa teve uma sorte danada em ter vivido noutro tempo, e ter muito pouca coisa publicada, quando os rapazes da Presença lhe começaram a criticar os poemas, divulgando-o e promovendo-os, pois caso vivesse e escrevesse actualmente apenas chegaria ao papelão mais próximo, onde, por descargo de consciência e imperativos ambientais e de cidadania, iriam parar os seus livros depois de lidos frugalmente, em diagonal ou ziguezague, uma vez que quem se atrever a repetir, ainda que por motivos de apreciação, de interpretação, de análise e avaliação, os poemas ou parte deles só o poderá fazer com autorização dos editores, o que obrigaria a escrever-lhes uma carta (ou e-mail) para pedir-lha, que, se considerada a contagem dos caracteres por defeito, se sujeitava a ser maior que o livro todo.
Bom... Anda toda a gente a dizer que se lê pouco, os autores queixam-se do fraco sustento que a literatura lhes rende, os editores e livreiros lamentam a comunicação social que os não noticia, os planos de leitura são para "europeu" ver e o acordo ortográfico é uma pedra no sapato da indústria da publicação, que vai, de só uma assentada, desactualizar a fornada de edições (invendidas) que atravancam os stocks das editoras e livrarias, e lhes atulham os armazéns. Pois saiba-se que sol na eira e água no nabal, embora continue a ser tempo cobiçado, nem com as alterações climáticas é alcançado. E das duas, uma: ou querem crítica séria ou recato de virgem sem dote e vaginismo inflamado. Agora, ao mesmo tempo, as duas coisas, apenas as encontram na prateleira esquecida de algum hipermercado!

4.02.2008

capas de primeiros números de colecção

A capa em baixo é de Abílio Santos, para as Edições Surpresa, em 1956, e o texto foi revisto para português por Maria Julieta C. Viana, que não faço a mínima ideia de quem foi, mas pelo tratamento e relevo dado pelo editor, tudo indica ter sido uma personalidade de respeito na área.


E em cima, o nº 1 da Colecção Policial da Editorial Notícias, sem data, com tradução de Maria Antonieta da Silva Telo, e ilustrações de Júlio Gil.

4.01.2008

Arthur Schnitzler regressa ao READCOM

A próxima sessão do Grupo de Leitura Readcom – IPP, de Portalegre, a realizar no dia 8 de Abril, no sítio e horas usuais, recairá sobre a obra Casanova Regressa a Veneza, de Arthur Schnitzler, autor austríaco de origem judaica, médico, amigo de Freud e elemento do grupo de artistas Jungen Wien. Autor, aliás, do qual já, em sessão de ano anterior, se leu e discutiu A História de Um Sonho, na tradução de Maria Paula Couto, e sobre a que há registos de óptimas recordações, quer pelo conteúdo e análises suscitadas, quer pela dinâmica com que impregnou o GLP-IPP da altura.
Portanto, quem tiver lido o livro e queira participar nas actividades, não perca a oportnidade...

Olivença e Juromenha – uma história por contar


As Edições Colibri e a Livraria Dom Pepe apresentarão no dia 5 de Abril, pelas 16.30 horas, o livro


Olivença e Juromenha – uma história por contar

da autoria de Ana Paula Fitas

Intervenções de Moisés Espírito Santo, Professor (Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas); António Teixeira Marques, Jurista, (Presidente dos Grupos dos Amigos de Olivença); Lina Jan, Geógrafa (Cooperação Transfronteiriça – CCDR Alentejo).

3.20.2008

Icebergs, Neve e Muitos Pinguins: As Razões do Ano Polar Internacional

Representante português em vários comités internacionais, incluindo a Cambridge Philosophical Society, Cephalopod International Advisory Council (CIAC), Association of Early Career Scientists (APECS), Youth Steering Committee for the International Polar Year (YSC) e Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR) José Xavier, doutorado pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, actualmente investigador pós-doutoral do Centro de Ciências do Mar (laboratório associado da Universidade do Algarve) e da British Antarctic Survey (Reino Unido), faz investigação na Antárctica desde 1997, biólogo marinho com numerosas publicações na ecologia, conservação e gestão de recursos marinhos no Oceano Antárctico, Oceano Atlântico, Reino Unido e Portugal, tendo experiência em estudos interdisciplinares e em colaborações internacionais, membro do Comité Português para o Ano Polar Internacional, coordenador nacional de três projectos chave do Ano Polar Internacional, http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=20867&op=all , será quem irá proferir a próxima conferência do Ciclo de Conferências Na Fronteira da Ciência 07/08, uma iniciativa conjunta do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian e da Ciência Viva, no dia 26 de Março, pelas 18 horas, no Auditório 2, da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), intitulada Icebergs, Neve e Muitos Pinguins: As Razões do Ano Polar Internacional.
E nela se desvendarão parte dos porquês e fascínio das regiões polares, sobretudo "por terem componentes que nos atraem, tais como a neve, os icebergs, os pinguins e os ursos polares. Esta palestra focará a forma como estes elementos nos podem ajudar a compreender a importância das regiões polares em relação às alterações climáticas que estão a ocorrer no Planeta (num contexto português, ao nível histórico, científico e educacional), porquanto, e historicamente, Portugal foi um dos países envolvidos no início da exploração polar, logo no século XVI."
Aliás, conforme circular da organização, "nos últimos trinta anos, um grupo de oito investigadores portugueses desenvolveram estudos científicos na Antárctica, em colaborações internacionais com vários países, incluindo o Reino Unido, Espanha, Estados Unidos da América, Bulgária, França e Itália. No entanto, esses estudos têm sido desenvolvidos a título individual, sem estarem enquadrados num suporte científico nacional. Pela primeira vez na sua história Portugal está a participar num Ano Polar Internacional (API), o programa internacional científico e educacional sobre os pólos que decorrerá até Março de 2009 (consultar o site: http://anapolar.no.sapo.pt). O último API foi há cinquenta anos e este é apenas o quarto API (depois de 1882-83, 1932-33 e 1957-58).
Ao nível científico, Portugal tem realizado excelente ciência polar e tem tido um papel activo durante o Ano Polar Internacional. Nesta palestra, pretende-se ilustrar que estudos científicos estão a ser realizados por cientistas portugueses nos pólos, nas suas diferentes áreas (ciências atmosféricas, ciências biológicas, ciências da Terra e criosfera, ciências planetárias e astronomia) durante o API. Pretende-se também evidenciar a estratégia cientifica que Portugal tem para estes dois anos e qual o seu contributo ao nível internacional. De momento, os cientistas portugueses estão envolvidos em projectos onde estão incluídos mais de trinta países. Através do trabalho do Comité Português para o Ano Polar Internacional, Portugal já é reconhecido como parceiro científico polar, ao ser aceite pelo Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR). Portugal irá assinar em breve o Tratado da Antárctica, que define que este continente seja devotado à ciência e à paz.
Ao nível educacional Portugal está igualmente bastante activo, tendo um dos projectos educacionais mais reconhecidos internacionalmente. O comité Português para o Ano Polar Internacional, conjuntamente com a Associação de Professores de Geografia, elaborou um projecto chamado LATITUDE60!, cujos principais objectivos são educar a comunidade escolar portuguesa sobre as regiões polares, mostrar a importância determinante que estas regiões têm para a dinâmica e regulação climática do Planeta e apresentar a excelente ciência que os investigadores portugueses produzem nessas regiões, sempre com o objectivo de motivar as gerações mais jovens para as ciências e para as artes. Patrocinado pela Agência Ciência Viva, este projecto já tem cerca de cem escolas e quatrocentos professores envolvidos a nível nacional.
Finalmente, esta palestra pretende ilustrar a perspectiva portuguesa de “realizar ciência” e de viver num dos mais fascinantes locais do Planeta: a Antárctica."
Todavia, se se considerar a presente informação ainda não suficiente para motivar a ida a esta conferência, ou tiverem dificuldades de lá se deslocarem, poderão sempre assistir a ela em directo, pelo site:
http://live.fccn.pt/fcg/ (podendo no fim da conferência enviar por email as perguntas que entenderem para fronteiradaciencia@gulbenkin.pt ) ou solicitar mais informações sobre ela em www.gulbenkian.pt/fronteiradaciencia.

Lector in Fabula

"No máximo, existe apenas uma objecção, à minha objecção à objecção de Lévi Strauss: se até mesmo os reenvios anafóricos postulam cooperação por parte do leitor, então nenhum texto escapa a esta regra."
Umberto Eco

São partes essenciais do processo crítico, em literatura, desde que este esteja eivado de boa vontade e cooperação semântica, a interpretação, a análise e a valorização do texto, seja ele poema ou ficção, teatro ou ensaio. Todavia há pessoas, e que me desculpem a ousadia de chamar pessoas a este tipo de gente!..., capazes de avaliar a qualidade de um livro, sem que antes o tenham interpretado, muito menos analisado e nem sequer lido totalmente. Pegam num item do leque temático, em que mais à vontade estejam, aplicando-lhe seguidamente todo o seu saber sobre o assunto para, invariavelmente, sentenciarem de cátedra que os restantes capítulos estão a mais. Pretendem, não só saber mais que o próprio autor a propósito da obra, como também, e em superlativo grau, melhor desta acerca do autor ou como ele nela se revela. Melhor dito, já têm tantas ideias feitas acerca do quer que seja, que até para dizer mal de um autor e de suas obras, acham desnecessário pensar, ou procurar outras que pior digam, inovando assim o seu maldizer que apenas reflecte o seu não saber fazer, numa manifestação exemplar e típica daquilo que o povo português, sem eufemismos nem maneirismos de falsos católicos ou falsos ateus, empregando o vernáculo da sua estirpe vicentina, designa por dor de corno. A sinédoque é o seu cavalo de batalha, a ironia socrática o seu estandarte, o sofisma o seu florete, o tráfico de influências o seu escudo e a ignorância enciclopédica a sua estratégia contra toda e qualquer metáfora, ser estranho e extraterrestre ao seu linguajar narcísico, que tem por anáfora incansável o "ama-me" até parecer que sim, à força de tanta repetição, reproduzindo sobre os textos literários o modus operandi da política de massas, cuja propaganda, em mais não consistiu, do que usar o boato, a trocagem de dizer bem do que é mau, até que as estatísticas lhe confirmem os méritos e a sua eleição se verifiquem, demonstrando que o número, em vez de prova de quantidade, é prova de qualidade, pintando um arco-íris virtual e falso na sinestesia da sua existência(e obtusa alma).
Para estes críticos do quem não tem vergonha todo o mundo é seu ou água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mas que substituíram a água pelo ácido corrosivo da sua bílis afectiva, a sua destilaria de venenos pessoais, sugando todas as relações para o canal único e edipiano, ou elétrico, do amor-ódio, a qualidade de qualquer manifestação artística reside exclusivamente no seu grau de parentesco ideológico com o autor dela, com a simpatia ou tesão que lhes desperta, e nunca da genialidade ou eficácia, rigor, mestria, domínio da técnica e recursos que a suportam e sustentam. E em face deles, confrontados com a sua evidência, recusam admiti-los, nem que para isso tenham que confessar que não compreendem, que são burros e desinteligentes, uma vez que estão tão habituados a corromper, a justificar com os fins os usos de qualquer meio, que até a si mesmos corrompem e usam, utilizam e violentam, desde que esteja em causa defender a sua causa. Transformar uma grande merda numa obra prima, é tão fácil para estes críticos, e amigos da onça, como fazer o contrário, que é do tornar numa bosta a melhor e mais sublime das criações.

Os clusters de estilo, aquelas ideias ou figuras chave – alegoria, parábola, metáfora, sínquise, imagem, metonínia, sinédoque, ironia, elipse, palimpsesto, etc. –, convenções semióticas ou sistemas semânticos, capazes de impulsionar a criação de conteúdos, estruturas sintácticas e moleculares, inovar dentro de um determinado formato ou modelo, não passam para eles de academismos ou deselegâncias de intelectual armado em sabichão. Pieguices do não-sentir as lamechices do seu contentamento, do seu corporativismo ou, ainda, falange de gosto. Não lêem, não vêem teatro, cinema, pintura, fotografia, não ouvem música, nem admiram a paisagem ou a natureza, a não ser que essas manifestações de beleza possam servir para debitar os seus preconceitos, empurrar a sua falua, rumo à foz dos seus anseios e maquinações, interesses e teses de competição, directa e indirecta.
Conforme salientou Umberto Eco, num outro estudo, acerca da Interpretação e Sobreinterpretação, coligido e dirigido por Stefan Collini (p. 34), é reconhecida geralmente a lenda do califa que ordenou a destruição da Biblioteca de Alexandria, advogando ele que ou os livros diziam a mesma coisa que o Alcorão, caso em que seriam supérfluos (palimpsestos), ou então diriam coisas mui díspares e diferentes dele, caso em que estariam errados como nocivos, pelo que se tornariam igualmente inúteis e cuja perda seria um notório ganho para a humanidade, como, aliás, de facto é qualquer mal intencionada mentira. Portanto, o califa, além de conhecedor da verdade, possuí-a, e achava-se no direito de julgar/avaliar os livros sob o "espírito absoluto" dela, que em si mesmo seria também uma verdade absoluta. Pertencia à noite dos tempos, embora fosse o que melhor aprendizagem usufruíra e o mais sagaz espírito do seu tempo, não dos anteriores nem dos que se lhe seguiram, e muito menos deste tempo que é nosso, enquanto efeito dilecto da modernidade...
Ora, sendo nós apenas leitores e não fazedores de literatura, por mais que nos queiramos impor sobre a informação – sem a adulterar... – veiculada nos textos, literários ou não, podendo eles ser tão-só simples documentos cuja informação está "criptada" numa determinada mensagem, somente essa e não outra qualquer que poderia ser mas não é, o que faz deles aqueles textos ou documentos, e não outros quaisquer, se quisermos descodificar os que eles contêm, que há-de sobretudo ser traduzível num produto cognitivo ou conteúdo cultural, posto que sendo conhecimento tácito será igualmente conhecimento explícito, se não nos outorgarmos outros califas destruidores de livros, teremos de cooperar com o autor dele, como seu codificador inicial, até já não precisarmos dos sinais e marcas que o definiram para o percebermos, pois que assim, grosso modo, estaremos então aptos a avaliá-lo de acordo com a sua lógica, sensatez e gosto explanados, utilidade ou bem-aventurança que manifestem, quer conforme o resultado que dele colhamos, quer pela utilidade ou conhecimento tácito que nos facultou e podemos dar à informação contígua, como pelo conhecimento explícito que nos transmitiu, ou pelo maquinismo com que apetrechou (ou não) a nossa estrutura mental, na medida em que a reforçou ou abalou, consolidou ou degradou, reparou ou abateu, preencheu ou feriu, em termos cognitivos e de superação da vida, o nosso ser, enquanto personalidade plausível de estar entre os demais e influenciável pelo que lhe (e lhes) acontece.

Interpretar um texto, significa explicar por que razões as palavras dele, não obstante poderem significar diversas e diferentes coisas, significam precisamente aquilo que significam, e não carecem de demais ou quaisquer significações para que o entendamos, posto que sendo ler não somente soletrar – Albert Camus, nos seus Primeiros Cadernos, afirmava até que ler é compreender e compreender seria criar, aliás, posição radical que aqui não é subscrita totalmente... –, na tentativa de reconstruir a intenção do texto, distante essa da intenção do autor ao fazê-lo, decifrá-lo enfim, descobrir e enveredar pelos sentidos dele, para preparar a releitura que, essa sim, estabelecerá outras vias de análise, de aprofundamento, de sobreinterpretação, onde se verão esclarecidas, por observância das intertextualidades e entretextualidades vigentes nele, os voilàs e dejà vus passíveis de facilitar identificações, projecções e transferências fundamentais à empatia, e que concorrem para que aquele texto que lemos seja igualmente o outro texto lido mas cuja experiência nos modificou, bem como à nossa maneira de o acatar e entender, sem deixar de ser o anterior nem descambar no simples palimpsesto do primeiro que lemos, seja ele excerto da Bíblia Sagrada ou do Alcorão, da Gata Borralheira, do Assim Falava Zaratustra ou de O Principezinho, ultrapassando definitivamente o "wo Es war, soll Ich werden" (onde era Isso, devo ser Eu) freudiano, envolvido afastamento mas essencial, para reconhecer que, independentemente dos sete sentidos de cada um – gosto, tacto, ouvido, cheiro, visão, propriocepção e empatia –, ou das sinestesias que suscitem, estarem positivamente activos e actuantes, servindo para recuperar o objecto desconstruído, alvo do nosso interesse (o texto, neste caso) e não para o danificarem pela utilização, talvez distorcendo-o sob a nossa intenção ao lê-lo, quiçá destorcendo-o dela em seguida, até já nada do texto restar como intenção de si ou da do seu autor, quando se propôs a redigi-lo que, sem dúvida, nem sempre coincide com aquela que ele espelha depois de pronto.
(Quadro de Ian Cox)
A fábula está aí. Essa é que é a verdadeira fábula em que o animal falou, humano que seja esse animal, artesão no menos, alquimista da palavra, se bem sucedido. E saltar para dentro dela, para ver claramente visto o que nela ocorre, deduzir do seu texto, além do pretexto também o contexto, permitir que da polissemia dos significantes nasçam os constructos semânticos que a identificam, fazem dela aquilo que deveras é e não uma outra qualquer, quebrando a cadeia de palimpsestos que a submergem, emergindo então ela original, se original for, eis então o trabalho do leitor que, finalmente, terá sobre ela o direito de valorização, condenando-a ou absolvendo-a perante os seus juízos e valores.
Agora, se ao entrar nela nos abstrairmos dele, se da fábula não descortinarmos o texto que a elabora, a executa, a realiza, sucumbindo apenas às (primeiras) impressões que nos suscitou, isso pode entender-se como uma leitura desnecessária, uma vez que nós a não queríamos conhecer mas usá-la, coisa que poderíamos fazer com qualquer outra que ela fosse, para nos relatarmos nela, descobrindo-nos nela, revelando-nos não pelo que ela é, e sim pelo que pretendemos que ela seja, tornando-a não um palimpsesto de si mas um palimpsesto de nós. O que irremediavelmente provoca que todas as histórias sejam a mesma história, atribuindo plena razão ao califa (sem dúvida leitor monomaníaco, fundamental adepto da percepção motivada) da Biblioteca de Alexandria, que a queimou por desnecessária, perante a relevância do Corão.
Como os animais, as coisas também falam... Incluindo as palavras, os números, o quotidiano, as cores, as condutas, os objectos, os sujeitos, a memória, a experiência, os símbolos, os sinais. A cultura é feita disso. A arte, também. Principalmente, a ficção e a poesia... O romance e a verdade. A fábula, como a doutrina que lhe subjaza. E ao transportarmo-nos para dentro dela, metemo-nos fora (metáfora) de nós. Os clusters de estilo, são portanto, nesse sentido, estratégias facultativas desse ínterim. Reconhecê-las, ser permeável a elas, é cooperar com o texto, com a intenção dele, como com a do seu autor, que as usou para o balizar, tornando-o naquilo que é, de entre tudo aquilo que ele poderia ser.
Discernir entre as hipóteses possíveis a mais plausível, ou verosímil, é por conseguinte, a mais rudimentar forma de ler, logo, de interpretar, embora esta se revele, assim, como uma maneira de enfabular a fábula propriamente dita, seja ela de cariz realista (caso de consciência, gesta, enigma, locução), seja ela idealista (mito, memória, traço de espírito, lenda ou conto de fadas). Narrativa ou poema. Documento ou informação. Contexto ou conteúdo. Enciclopédico ou semântico, visto ambos veicularem conhecimento, tanto tácito como explícito.

Tal como nos edifícios, perante tantas aberturas (janelas, varandas, sacadas, etc.), desde que neles queiramos entrar naturalmente, sem excentricidades saloias nem intenções malévolas de saqueadores nocturnos, a melhor e mais inteligente, ou expedita, forma de o fazer, é utilizar a porta da frente, se estiver aberta, ou, caso o não esteja, usando a respectiva chave para abri-la, também aos textos, enquanto fachada da mancha gráfica, lhe devemos aceder pelo mesmo processo: pelo item por onde melhor falam – que sempre é o que mais nos surpreende neles, ou aquela característica sua que mais alterada esteja em relação aos outros da sua índole, ou então, pelo contrário, por aquela semelhança tão exaustiva e evidente em relação a alguns dos seus pares que impossível se tona não reparar nela, logo às primeiras e diagonais vistas. E, no caso da fábula, pela fala do animal, que principalmente por ser uma das suas características alteradas e simultaneamente semelhantes, logo alternativa, visto ser a fala aquilo que antes estaria vedado ao animal (ou coisa, ainda apenas que personagem seja...), embora o faça com características tão iguais às da fala humana, que nos chega parecer que muito superior em humanidade é do que quando usada por essa espécie, no seu corrente dia a dia, onde apenas o conhecimento tácito da língua é revelado, facto pelo qual o identificamos ora por narrador, ora por alter-ego, ora por sujeito, ora por voz polifónica, ora por protagonista principal, ora por objectiva que nos filtra, como amplia ou minimiza, a realidade candente nela, que é enfim onde o animal mostra a face hiperbólica da sua natureza, as suas aspirações maiores, os seus feitos superiores, o seu habitat e comunidade, as suas mais fantásticas aventuras e relações, quer com tudo isso como consigo mesmo, incluindo o protocolo do seu relacionamento (hiperligação) com o divino, o onírico e o paranormal. E, grosso modo, com o leitor. O espectador. O olhar do outro que obrigou o autor a meter-se fora de si para facilitar a comunicação com ele.
Eco chamou-lhe leitor-modelo. Todavia, adiante se verá porquê, na geração do autor-modelo, inerente aos modelos literários (narrativos como poéticos) que formatam não só o género, como igualmente a modalidade discursiva (discurso). Por enquanto, a suspeita recai toda sobre a palavra (signo: significante e significado) e o seu crime hediondo que é o de invadir-nos e alterar-nos. Bala que entra em nós para estilhaçar-nos a alma, sem se importar connosco minimamente, nem como no-la deixa, se num vitral perfeito e magnífico a transforma, se num escaqueirado espelho que estonteante e assustadora imagem reflecte. Bala que seja, fala que indubitavelmente é, é através dela que a História se revela na história, quando ela é história palimpsesto, ou que a não-História se revela na história, quando ela é história elipse, por exemplo. Uma pela (às vezes exagerada) presença, outra pela (não menos notória) ausência. Digamos que se a fala fala, o silêncio é outro falar que, em comunicar, a iguala. Logo, igualmente bala.
Em Ian Cox, por exemplo, o céu é vermelho e chove sangue, mas palpita-me que seja apenas tinta de guache sobre papel. Para Eva De Mul, D. Quixote montado no seu rocinante de rodas recicláveis tenta combater as gigantescas centrais nucleares com o protocolo de Quioto, espelhando uma vez mais a sonhadora alienação do cavaleiro da fraca figura. Ziek funde analisador e analisado na mesma cadeira de baloiço ou sofá de psicanalista. Entre o ventre e o seu interior há um voilá a revelar-se na concretização do dejà vu com que se nasce. Ever Meulen não se coíbe de indicar-nos que o estilo é um pensamento especial que serve de combustível ao protótipo de corrida em que molhamos a pena. E os clusters de estilo são a fechadura na qual cabe a figura-chave que há-de abrir-nos a porta da fábula onde o nosso animal (alma, inconsciente, pátria, língua, etc.) nos ensina quem afinal somos. Portanto, se interpretar é entrar no texto, analisar é descobrir as ligações entre a chave e a fechadura, o imbricado jogo entre arestas e ranhuras, que provoca o clique para vermos claramente visto algo que apenas tínhamos a impressão (suspeita) que existia. E após isso, mas só após Ich, depois do animal que fala ter sido superado (Nietzsche) ou suprimido (Amélie Nothomb), só depois de termos desenleado o fio da meada, é que nos é legítimo avaliar se esta ou aquela obra é boa ou má. Mas, nunca antes!
(De Bloedregen, 1975, de Ian Cox)



3.04.2008

A peregrinação inteior de Orhan

Orhan Inner Pilgrimage

Presently we live in a world whose essential reality rests upon the will of two duplicates, which now get closer, then stay far away from each other; now get similar, then get different; now join their spades against evil, then they engender it; now they are for each other, then they are against each other; now they devise an invincible machine, then they smash it: well, of two Gods. The God of the Christians and the God of the Muslims. And this could be the conclusion taken of what was not said but largely demonstrated in the White Cidadel, a novel in which story, plot and supposition balance on the borders of identity, swinging “on tiptoe” in an exercise of risk, in as much as “to be” is not unpunished, because “to be” one it takes to be the other, in the vice-versa of a mirror dance.
However, that crossed reflection, typical of the flickering writing between the lines, is not extinguished in the above mentioned work and can be the clue of signs for detectives committed in the revelation of the supreme crime, or the one that makes each one what it is and not other which he could equally be. Leading thread among incident reflections, traces of familiar sprinkling, flashes of memory on the river of forgetting, shades of undoubtable similarity among different tapestries of different craftsmen, in the disparity of motives, whether they are revealed to the sight and on the face, whether they are simply guessed as a possibility on the reverse. That’s why this presentation is, was, a gesture of resistance, an obliquely look that insists on recognizing that “when the garden of memory starts getting desert” as Djélâl had already said, “we tender its last trees and its last roses, we fear for them. To avoid that they dry and disappear, we smooth them, we water them from morning to night! We do nothing but remembering and remembering again, fearing to forget!”
To go through the imagetic universe of The Gardens of the Memories is to recognise how much permeable to common history we are and to allow it the transparency of the waters where will be reflected the inseparable futures of two worlds, which exerted the secular magic of making flourish the alchemy of the fusion again, changing the lead of the difference into the gold of identity, as true houroufis, initiated in the art of verbal play and punning of the old literature, inhabitants of the “Heart of the Cities”, watered by the rivers and seas of memories, whose tides fertilize its margins, filling them with the green ink of its trees (secular) in search for the secret and for the lost sense in the faces, cities which are the reunion of themselves, built from addresses, which are built from letters, and the letters built from the faces which teach the memory to read and write, just as the lead which changes the simple glass of transparency into the mirror of the secret, words that in Turkish are homographic and homophonous, which tell us that reading is looking at the mirror, but knowing the secret is being able to cross it, as all those that ignore the secret of the letters cannot but discover in this world the dullness, the banality of their own face.
“…
“Remember me?” he asked the old journalist after a moment.
- Of course! You are also a flower in the garden of my memory! – Néchati answered without raising his head. – Who said that the memory was a garden?
- It was Djélâl Salik.
- No, it was Bottfolio. In his very classical translation of Ibn Zerhani. As always Djélâl Salik has stolen him that image. As you stole him his glasses.”


And saying glasses we say lens. And saying lens we say glass. And saying glass we say mirror… If, alas, we are able to put together enough and the necessary dose of (green) lead that History gave us.
(Tradução de Margarida Coelho)




A peregrinação inteior de Orhan

Vivemos actualmente num mundo cuja realidade essencial se fundamenta na vontade de dois sósias, que ora se aproximam, ora se afastam; ora se assemelham, ora se diferenciam; ora unem as espadas contra o mal, ora o forjam; ora se pronunciam a favor um do outro, ora contra; ora inventam a máquina invencível, ora a desmantelam: enfim, de dois Deus. O Deus dos cristãos, e o Deus dos muçulmanos. E esta podia ser a ilação conclusiva de quanto não foi dito mas sobejamente demonstrado em A Cidadela Branca, onde a trama, o enredo, a conjectura, se equilibra nas fronteiras da identidade, balançando-se "pé ante pé" num exercício de risco, por quanto isso de ser não é impune, pois para se ser um obriga igualmente a ser-se o outro, no vice-versa duma dança de espelhos.
Todavia, esse reflectir entrecruzador, típico do entrelinhamento bruxuleado, não se esgota na obra citada e pode também ser pista de sinais para detectives empenhados na desvendação do crime supremo, ou aquele que faz com que cada um seja o que é, e não outro qualquer que podia igualmente ser. Fio condutor entre reflexos incidentes, traços de aspersão familiar, flashs da memória sobre o rio do esquecimento, matizes de inequívoca similaridade entre diferentes tapeçarias de diferentes artesãos, na disparidade dos motivos, quer eles se revelem à vista e no rosto, quer se adivinhem simplesmente como possibilidade no avesso. Por isso, esta apresentação é, foi, um gesto de resistência, um olhar de soslaio que insiste em reconhecer que "quando o jardim da memória começa a desertificar-se", como dissera Djélâl, "acarinhamos as suas últimas árvores e as suas últimas rosas, tememos por elas. Para evitar que sequem e desapareçam, acariciamo-las, regamo-las de manhã à noite! Não fazemos outra coisa que não seja recordar e voltar a recordar, com medo de esquecer!"
Atravessar o universo imagético de Os Jardins das Memórias, é reconhecer quanto somos permeáveis à história comum e permitir-lhe a transparência das águas onde se reflectirão os futuros inseparáveis de dois mundos que exerceram a magia secular de fazer reflorir a alquimia da fusão, transformando o chumbo da diferença em ouro da identidade, como autênticos houroufis, iniciados na arte dos jogos verbais e dos trocadilhos da literatura antiga, habitantes do "Coração das Cidades", irrigadas pelos rios e mares da memória, cujas marés fertilizam as suas margens, impregnando-as da verde tinta das suas árvores (seculares) na busca do segredo e do sentido perdidos nos rostos, cidades que são a reunião de si mesmas, construídas a partir de endereços, estes a partir de letras, e as letras a partir dos rostos que nos alfabetizam a memória, qual estanho que transforma o simples vidro da transparência em espelho do segredo, palavras que em turco são homógrafas e homófonas, e nos indica que ler é olhar o espelho, mas conhecer o segredo é poder atravessá-lo, porquanto todos os que ignoram o segredo das letras não podem descobrir neste mundo senão a insipidez, a banalidade do seu próprio rosto.
" ...«Lembra-se de mim?» perguntou ao fim de um momento o velho jornalista.
– Claro! Também você é uma flor no jardim da minha memória! – respondeu Néchati, sem levantar a cabeça. – Quem foi que disse que a memória era um jardim?
– Foi Djélâl Salik.
– Não, foi Bottfolio. Na sua tradução muito clássica de Ibn Zerhani. Como sempre o Djélâl Salik roubou-lhe essa imagem. Como você lhe roubou os óculos a ele."
– página 323.
E quem diz óculos diz lente. E quem diz lente diz vidro. E quem diz vidro diz espelho... Se, enfim, lhe soubermos juntar a dose suficiente e necessária de (verde) estanho que a História nos forneceu.

3.01.2008

A Minha Tia é Uma Baleia, de Anne Provoost


"As lágrimas são para os olhos o que o arco-íris é para o céu"
Ditado popular neerlandês.


Quando uma das relações primárias (do indivíduo consigo mesmo, do indivíduo com os outros indivíduos, do indivíduo com a natureza e seus elementos, do indivíduo com os animais e do indivíduo com a cultura do lugar, a civilização, o imaginário colectivo e os mitos), em vez da consumada realização, encalha, então as restantes quatro vêm em seu socorro, e determinam pôr fim (preencher) ao buraco negro existente na sua existência – com ressalvadas escusas pela impertinência da redundância. Foi o que aconteceu (ou acontece) sumariamente, na minha opinião, que nunca poderá valer por outra coisa além de conjectura, em A Minha Tia é Uma Baleia, quando Tara, pertencente a uma família, em cujos membros têm o nome sempre começado por t, Tony, o pai, Tânia, a mãe, e Tara, a filha, formando a trindade molecular (ou ordem) da sociedade a que o tempo sem contemplações ditou a prescrição, porque inapta, entrecruzando os relacionamentos desta, notoriamente disfuncional, com a da sua prima Ana, absolutamente discernível e funcional, residente no Cabo do Bacalhau, istmo terreno de onde se pode vislumbrar a Europa, e tudo o que esta representa, para facilitar a operação de salvamento, não só das baleias que deram à costa porque tinham o seu sistema de orientação baralhado, mas também, dela, Tara, que está sendo vítima de violentação sexual por parte de seu pai (incesto), recorrendo à ajuda de uma bióloga (a biologia é a ciência da vida...) especializada em acostamentos e que terá, na sua formação, sofrido iguais sevícias, nos danos, embora que apenas de pedófilas características, uma vez que o agressor era amigo da família e não membro dela.
Numa escrita sem afectadas pretensões, nem floreados barroquismos mas descomprometida, onde a narradora contrapõe com o seu inverso, a prima, duas crianças entre os dez e treze anos, cuja paleta metafórica deriva do multicolorido semiótico universal (verde, vermelho e laranja) das emoções à cor fixa da neurose, Ana e Tara respectivamente, que vagueiam pelas dunas entre dois mundos distintos, tão distintos quão o são o medieval ternário (1+1=1=3) e o moderno binário (1+1=2=10), em que, onde a dependência afectiva e material das crianças é ou não aproveitada egoísta ou perversamente pelos adultos de suas relações, e obrigou uma delas a deixar de ser mais uma criança de sete anos a quem foi amputado o direito de construir castelos de areia com telhados de conchas, túneis subterrâneos e autênticas arvorezinhas à volta dos fossos. Escrita onde se entrecruzam ou entretecem, em ponto décimal, porque abre os seus cinco principais temas à duplicidade de leituras – a lenda de Goody Hallet, o mito das sereias (e sirenas), a arqueologia dos afectos, do conhecimento e da família, o incesto e/ou pedofília universais, a Europa simbólica e o Continente-Estado real, da nossa actualidade – na procura da catarse, que, à falta de melhor antídoto para o veneno existencial dos recalcamentos gerados nas relações ambíguas e nocivas ao desenvolvimento da personalidade, ainda continua, desde a psicanálise, hipnose, narcoanálise (Pentotal ou soro da verdade) e o psicodrama (Mário Moreno), ainda continua, dizia-se, a ser a melhor e mais rentável solução para reacertar a visão que cada um tem de si mesmo, com a do indivíduo que realmente é, se não estivesse sob a influência sensorial e emocional do diferencial correlativo em que se baseia e fundamenta a neurose.
Isto é, transforma uma obra literária noutra tesoura (X) capaz de cortar (interromper) o ciclo de multiplicação dos Filipes (amigos dos cavalos, súbditos da aristocracia marialva) violentados, que em adultos serão os transportadores (cocheiros) de outras crianças que submeterão às mesmas sevícias que eles tiveram, posto que é suficiente para gerar a catarse, aumentando para cinco o número de métodos de a conseguir – psicanálise, hipnose, narcoanálise, psicodrama e literatura – além de facultar às famílias um meio de, sem esquecer os recursos da diversão e da pedagogia, escamotear o medo que alimenta o secretismo das relações intergeracionais, onde se geram as taras psicológicas e as perversões sexuais. Abolindo essas divisões da caixilharia editorial barroca, templária e inicial, de que há literaturas para estádios mentais e etários (infantil, juvenil, adulto e idoso), que infantilizam a humanidade, e esclarecendo definitivamente que se existe alguma definição valorativa e dirigida, porque intencional, da literatura, ela está na linha daquilo que serve, se é a vida ou a morte, a arte ou a perversão, o concerto e harmonia social ou a pornografia, enfim, facultam o conhecimento ou o seu contrário – a ignorância.
Porque é preciso calar o silêncio, matar as bruxas que geram o medo e petrificam os "lábios" de quem expõe os seus segredos, salvar todas as baleias em perigo de extinção, sobretudo as suas crias, sejam elas golfinhos, sereias, boca-de-panela ou gigantescas baleias do Mar do Norte que engolem garrafas para gritar ao mundo a sua mensagem de agonia, e espalham o seu sangue vermelho nos oceanos da modernidade. T-shirt das águas e atmosfera no dorso da Terra... Porque também ele quer dizer Stop. E Stop é para parar!
Porque a literatura pode ser o Albatroz IV que devolve as baleias ao mar...

2.29.2008

Nos wolksvagens da desgraça...



Consta que o carro do povo dos tempos bíblicos terá sido o burro... Sobretudo se considerarmos que foi nele que a Senhora se deslocou a Belém para ter o menino! Seria?... Não seria?... O facto é que até meados do século passado ainda o era, embora o populacho o tenha substituído por besta maior, mais zurrante, potente, lesta e acomodatícia: o carocha. Ou os "wolksvagens" do progresso. E a tradição manteve-se não obstante o câmbio de alimália, para gáudio dos apologista do eterno retorno, ou aqueles que se empenham em regressar à terra tal e qual vieram ao mundo: ignorantes, brutos e bravos que nem uma vara de bronquicéfalos. Os marialvas da repetição tradicional. Os que zurzem o fado da bandeirola para exorcizar o medo de serem encavados por qualquer sem-abrigo ao cruzar da esquina. Os que se acoitam no espírito corporativista da capa (e espada) para executar a sua perversão. Com idem para os que da inveja pela sua moralidade - famosa, a do burro, como todos sabeis, se desenrolada para prazer de quem passa!... - espremem o pedal, carregado com a virilidade de quem por outro meio a desconhece, a fim de granjear os favores do sexo oposto, ou mesmo do mesmo, posto que quem come no que é seu não merece (es)conjuras.
Portanto, a primeira importante viagem que Jesus Cristo terá feito, ainda no ventre materno, do que não restam as menores dúvidas, foi num carocha 127 daquelas eras, de passo lento mas aturado, sábio inventor da subida em Z para melhorar a marcha se carregado, desovando bonicos na passagem como regalo aos que ficavam, outro sintoma de galhardia pelas tradições do pagar portagem, ou pagamento por franqueio e infiltro, no pleno respeito pelos passados antigos que já quando eram novos estavam velhos e errados e imprestáveis. (Excepção feita, é claro, para o esterco de burro, que sempre podia ser utilizado na fertilização e benfeitoria das terras onde deixava franquia... Aliás, mérito conhecidíssimo até dos plantadores de pinhais e outras monoculturas, tendentes a destruir a biodiversidade imprescindível.)
Segundo parece há quem prefira, dentro das instituições que deviam ser a vanguarda da evolução da espécie, do ambiente e da cultura ou das ideias, manter o status quo a contribuir com a sua dedicação, tempo, vantagem económica e inteligência para se desarreigar das práticas obsoletas, numa apologia ao erro, convictos assim de o tornarem menos erróneo só pelo facto de o fazer perdurar, popularizando-o inclusive, cuidando de alicerçar-se na sargentice, para justificar as suas práticas australopitecas. Tal como o comer à unha e à dentada, modo tradicional de usar o único talher que deus nos deu, tão válido antes como depois das propinas, insistem em reiterar as práticas de caserna medievais transpondo-as para os nossos dias, através daquilo que, no sufrágio da mandriice e do laxismo intelectual, é conhecido por praxes. Em vez de reivindicar o ensino gratuito, a melhoria de estruturas, técnicas como de conteúdos, equipamentos e quadros docentes, demonstrando à sociedade portuguesa quanto ganharia com isso, porquanto num futuro próximo as despesas orçamentais com a segurança social, a justiça, o parque prisional e segurança pública, a requalificação e formação profissional, a saúde e a cidadania, seriam bem menores do que actualmente são, desde que o nível de formação do povo português aumentasse, pondo-o em consonância com os níveis de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países nórdicos, por exemplo.
Não se augura nada de bom para um país quando a sua classe estudantil abdica do seu papel reformador e se entrincheira nas surrobecas eclesiásticas para marcar a diferença com o povo que a sustenta. E muito menos quando ela se escora na tradição para manter no activo um passado inoperante, falacioso, estéril, que põe em risco a sustentabilidade nacional, quer na soberania como na identidade cultural, e nos remete para o fundo de todos os rankings de desenvolvimento, nomeadamente o da qualidade de vida.
Creio que é chegada a altura de os meninos deixarem de ir de burro para nascer. Sobretudo de se deixar de entender o conhecimento (diplomado ou não) como um Z para subir na escala social. A tradição, veículo assaz asnático de perenizar tudo, independentemente do seu valor, quer seja bom ou mau, desejável ou sociopata, é o único entrave para a aquisição de novas práticas, pelo que mantê-la quando desnecessária e prejudicial, se torna um crime de lesa democracia: institui patamares de diferença entre iguais, contrariando não só o espírito da Carta dos Direitos do Homem, como impondo pela força uma Lei que apenas não está escrita e aprovada por decreto, graças à sua universal insensatez e desumanidade.
Afiança a sabedoria popular, que é de experiência feita, que "o amor dos burros começa aos coices e acaba em cacos". O carocha do nazismo imperou pelas exigências das sociedades de produção e consumo, mas foi atirado para o ferro-velho com a implementação da sociedade de informação, que por sua vez gerou a do conhecimento e educação. Recolher os cacos desse amor asinino e vesti-los de preto, não é um factor de júbilo para ninguém, e antes um sinal de luto (nacional e europeu). Admoestar e excluir quem não lhe presta culto e vassalagem, um crime pelo qual o tempo, esse mesmo com que se tenta justificar a tradição, a breve trecho nos fará pagar. Caro. E com onerosas dívidas para gerações futuras, herança que perdurará como um código genético dos vencidos da modernidade.
Evoluir, crescer, é sobretudo contrariar e soltarmo-nos das amarras da tradicional miséria (deontológica, emocional, ética, imagética, cognitiva e económica) em que nascemos e estávamos. A mudança requer rupturas, cortes exímios com o passado, principalmente nos formatos em que ele se demonstrou ineficaz, abusivo, inútil e contraproducente à humanização da humanidade. A tradição académica, como todos os rituais guerreiros de iniciação e manutenção do espírito de caserna, monástico, de ordem e ordenança, é um deles: um formato que enfermiça e disforma qualquer formatura. Pôr-lhe fim, apenas o coup de grace, o golpe de misericórdia que a sua agonia suscita e implora de há muito. É lamentável que a beca da tradição, qual capa que outrora servia aos estudantes para lhe ocular a miséria franciscana, ou esconder e tapar o fato puído e remendado, sirva hoje para encapotar a miserabilidade do espírito estudantil, como uma tentativa de eternizar a praxis da sua ignorância. Não é concebível que alguém pretenda aprender e conhecer mais abrigando-se sob o capote da tradição, cuja é desde sempre, a subscrita reafirmação das ignorâncias. De todas elas, incluindo daquelas que se aprestam nas protecções de Drs.

Os Doutores-Rã: e a literatura de procriação assistida...

Amélie Nothomb, no seu livro, quer dizer: romance, intitulado a Higiene do Assassino (Editorial Presença – 1997), estabelece que há diferentes tipos de leitores, ou que há leitoras/es e "leitoras/es" como há escritores, escritoras, escribas e escrivães, sendo que uns e umas gostam amiúde de fazer-se passar pelos outros ou outras e vice-versa. E que se há quem mergulhe na leitura para ficar encharcado de conteúdos até aos tutanos do córtex – e aqui era bom saber, na anatomia humana, onde é que isso fica!... –, não menos "leitores e leitoras" o fazem maquilhando-se apetrechadas, e apetrechados, com os seus fatos de mergulho, tipo escafandro de não-me-toques que me infectas, para poderem entrar e sair dos livros sem serem tocados pela mínima gota de conteúdo, defendendo-se do veneno das palavras alheias como fazia o diabo da cruz, embora tenha crucificado quantos inocentes pôde através dela, ou melhor dizendo, delas, que cruzes há muitas e de bastos formatos conforme os credos e os pecados a expiar, e para os diabos, quaisquer que sejam, desde que seja para fazer mal ao próximo, menos próximo e distante, qualquer cruz serve. São, os que Amélie denomina, como leitores-rã. Por analogia com os homens que costumam ir ao fundo do mar sem se molharem.
Ora, a bem dizer, se acerca das leituras de uns e outros, umas e outras, tal se pode inferir, não menos legítimo será fazê-lo sobre demais actividades onde é habitual usar, pôr em movimento, estimular, a massa cinzenta com suas célulazinhas, como gostava de referir o Poirot da cristã Agatha, sobre os diferentes cursos e seus cursadores ou cursadoras, corsários e corsárias do intelecto alheio na pirataria do conhecimento, que conseguem a proeza de tirar canudos e canudas, atravessar currículos e currículas, sem nunca terem percebido a mínima das matérias, patavina dos conteúdos, visto que as decoraram para esquecer, que bem melhor o fizeram do que as memorizaram, com o auxílio da sempre copofónica boémia de armar aos corvos, pelo que mergulharam sim senhora, disso não houve a mínima dúvida, mas foi na água do lago d'O Tarro, que suja e insalubre também não presta para mais nada, a não ser para passar barrela a quem, de tão falho aproveitamento, teve por última escolha a sorte que lhe coube de aqui vir parar. Ou juntar lixo, porcarias várias e chamar insectos comuns à putrefacção do meio. E que licenciados no fresco da obradura, hão-de ser os doutores da nossa portugalidade, feitos à medida das caixas dos hipermercados, em que se pode trabalhar sem curso nenhum, nas obras como servente ou nas municipalidades, onde desempenharão actividades, sobre as quais nunca ouviram falar sequer, mas a que a cunha pôde chegar, e o voto valeu no troca por troca autárquico, como sucedeu noutros tempos e continua acontecer na maioria das edilidades, nomeadamente nas alentejanas, que nisso do errar são sempre as primeiras e no acertar, como convém à mediocridade, aliás exemplarmente notória nos transportes, acessibilidades, cultura, requalificação urbana e planeamento, igualmente sempre as últimas, e só se não tiverem outro remédio.
"Ouvide" agora senhores e senhoras, excelências!, uma história de pasmar...
Há muito, muito tempo, vivia na Rua Direita uma velhinha, que tirou um curso superior na Universidade da Agulha (UA), sita ali na esquina da Rua com a Rampa de S. Lourenço, onde então se vendiam também as máquinas Singer. Tirou de letra todo o hardware e software, aprendeu com uma perna às costas o que era uma máquina de costura, para que serve o pedal e onde se enfia a bobine do fio (condutor da narrativa), o que era a correia da cabeça, o tronco da máquina e a caixa baixa de embuti-la. Teve 20 valores na Universidade dos Lavores, que, como saberdes e estardes lembrados, estava pintada de trocadilhos e arabescos para fazer frente aos anagramas da existência, e já na altura era uma coisa importantíssima na arquitectura das ignorâncias com habilitações certificadas. Pois bem: logo que com o canudo chegou a casa, empregou-se numa loja ao lado, por sinal retrosaria de nome e tradição, onde passou a remendar ou cerzir, com o auxílio de polido e luzente ovo, que nem ovo era, por ser de madeira, com agulha fina e preciosa, de igual calibre e quilate do anel de curso que o midinho alçava, todas as meias, incluindo as de vidro, à mão, como sempre fizera desde que se conhecera nas lides laborais e funcionárias, que equivalia mais ou menos a toda a vida. Não porque tivesse tido inúmeras oportunidades de arranjar novos empregos no desempenho das funções para que se formara; não porque não houvesse uma forte aposta governamental (e local) nas novas tecnologias, inovação, empreendedorismo urbano, marketing territorial e comunicação; não porque não lhe houvessem oferecido lugares de destaque, influência e protagonismo na estratégia de desenvolvimento sustentado para a sua família, rua, cidade e região; não. Mas sim porque ela já estava velha para mudar com o aprendizado de novidades, não estava para complicações nem comprometimentos na sua vida, prezava a paz de espírito e tranquilidade, o safe-se quem puder e o não tenho culpa, e menosprezava tudo quanto a obrigasse a pensar, a sentir, tudo coisas que a magoavam profundamente como uma comichão que se tem em pontos do corpo onde se não chega para coçar. E, finalmente, já tinha muita experiência da vida e sabia que todas e todos querem o mesmo e são (igualmente) todas e todos iguais. Pois tinha 23 anos, e isso é muita e qualificada vivência.
Confortante, não é?
Deveras. Sobretudo se pensarmos que essa velhinha agora vai ter uma nova oportunidade, propiciada pela formação contínua e escolaridade para toda a vida, onde lhe será facultada a possibilidade de tirar o mestrado e o doutoramento correspondentes à sua esforçada e consciente e responsável formação, voltar aos bancos da Singer onde lhe ministrarão acções complementares que a apetrecharão das melhores maneiras e procedimentos para ganhar mais fazendo absolutamente o mesmo de igual forma e profissionalismo, sob o coaxar colectivo de "o seguro morreu de velho", "é melhor prevenir que remediar", "remendo a remendo enche a academia o papo", esperando envelhecer tanto mas tanto, até que o envelhecimento seja já tão velhinho mas tão velhinho, que não possa envilecer mais ninguém por falta de força, ânimo e motivo. E fique a esperança de esperanças, que parecem ser dela sempre as últimas golfadas a espernear nas vascas da morte.
"Não se é a mesma pessoa se se tiver comido morcela ou caviar; também se não é o mesmo se se tiver acabado de ler Kant (Deus me livre) ou Queneau. Enfim, quando falo de uma maneira impessoal, deveria dizer «eu e alguns outros», porque a maior parte das pessoas emergem de Proust ou Simenom num estado idêntico, sem terem perdido uma migalha do que eram e sem terem adquirido uma migalha suplementar. Leram, e é tudo: na melhor das hipóteses sabem «do que se trata». Não julgue que estou a inventar. Quantas vezes não perguntei a pessoas inteligentes: «Esse livro modificou-o?» E elas olhavam para mim, de olhos muito abertos e como quem diz: «Porque haveria de ter-me modificado?»" – Disse Amélie um dia através do seu personagem, o Prémio Nobel da Literatura, Prétextat Tach. Bem podia ter ficado calada, que se alguém o leu não lhe tocou; e se lhe tocou, foi apenas no instante imediato que antecede o vómito. Como um plano nacional de leitura que os crânios regurgitaram sem saber como aplicar ou, o que é pior, sabendo muito bem, tão bem, que o aplicam como emplastro de usar e deitar fora quando o analfabetismo funcional está menstruado e sente remorsos por ter fodido tanto, tantas e tantos, mas sempre com camisinha, é claro, para prevenir contra contágios e gravidezes indesejadas. Quer, dizer, com escafandro de quecas para evitar girinos. Girinos e girinas, que nisto da rãnhozice sempre houve, e haverá, respeito pela Carta da Igualdade de Género!...

2.26.2008

Ambiente e Sustentabilidade


A Oikos vai realizar as XIV Jornadas sobre Ambiente e Desenvolvimento subordinadas ao tema “Pedra, Barro e Areia: Estratégias de Conservação e Exploração Sustentável."

Para mais informações e inscrição, contactar:

oikosambiente@mail.telepac.pt

www.oikosambiente.com

Recortes do imaginário para uma paisagem real

A Morte do Professor
Hugo Santos


Estas coisas são exactamente assim: há dois "judites" (Carranca, ex-seminarista que fuma cachimbo, e Pereira Dias, que cursara Direito/Letras) e um crime. Hediondo. Vil. Insólito. E inumano. Que curiosamente passa (também) a dois (lá prò fim). Por isso, tem forçosamente que haver um criminoso – pelo menos. Vai daí, os PJ's foram-se a ele, a procurá-lo, com as ajudas de um sargento, um cabo e quatro praças da GNR. Se o encontraram ou não, eis os outros quinhentos da questão... Que por agora, o que deveras importa, é o modo de agir, o raciocínio, as démarches, as sortes, no cumprimento do dever. E eis senão quando, o tempo (que continua sábio) actua, e duas salvas a Onan e quatro achegas depois, o caso se resolve, com o sublinhado a recair sobre uns elucidativos cadernos de capa preta.
Estes cadernos, diários de bordo ou moleskines, são o patamar de passagem para outro nível de leitura. Lá iremos! Por enquanto, é à volta deles que gira o mistério da morte de Daniel, o professor, e mais não são do que a "reposição em cena" de algumas das peculiares, para bastantes e inúmeros simplesmente manias, para outros, embora não tantos, faróis de auxílio na navegação literária, matérias-primas dos escritores, que é o de anotarem tudo o que vêm, ouvem, sentem e vivem e, ao fazê-lo, recorrem àquilo a que outros já recorreram (com êxito), como por exemplo o terá feito um dos mais honestos e criativos homens das letras do nosso país: Raul Brandão. Dos quais, um sempre o acompanhava, para nele, quer estivesse em tertúlia de livraria ou café, quer em família ou reunião política, ir esboçando as suas peças de teatro, os romances, os apontamentos paisagísticos, memórias, críticas, pensamentos, nas mais díspares circunstâncias e independentemente do ambiente, natural ou social, em que se encontrava. Autor que, aliás, faz parte do discurso e do universo intertextual de Hugo Santos, com quem terá aprendido a importância das coisas simples, do canto das aves v. g., atribuindo a parte de leão na repartição dele, discurso, digo, com outros não menos essenciais à esfera da nossa portugalidade, como Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Ramos Rosa, Vergílio Ferreira ou Aragon.
Detentor de um estilo insinuante, circular, de onda provocada por pedrinha na água, jogo de paciência, como o das pedras da quadratura do círculo, em que se vence sobretudo pelo cansaço que se incute ao adversário, repetitivo na musicalidade, concêntrico na observância semântica, muito próximo da "proustiana recherche", que rumina os espaços-quando e os liga pela baba-teia dos enredos, das emoções (re)visitadas, este escritor de Campo Maior, alentejano de muitos costados, consegue fazer ferver a água fora dos testos e contextos, transbordar deles, ultrapassar a sua própria significação, contrapondo ao dejá vu do intrincado da trama, dramática sem dúvida, numa narrativa de alcance superior, à propriedade do simbólico, se enveredarmos por leituras menos literais, embora que mais abrangentes e extensivas, pragmáticas, essenciais e conclusivas do ponto de vista da literatura nacional. De resto, e por sinal, muito pouco regionalista, além da contabilização de um ou outro vocábulo, algumas "vozes", a vila, as personagens que se encerram, e circunscrevem, no provincianismo envergonhado dentro do provincianismo exposto, ou pretendido, apenas denunciado pelo contraste da universalidade que a ele aporta nas figuras "viajadas e vividas" dos dois polícias e de Vanda, ou desenlace serôdio de uma paixão ultramarina, uma regressada da diáspora colonialista, retornada, a carpir os seus encontros e desencontros, a vingarem-se deles e da desdita que os reuniu num lugar tão ermo, afastado da cosmopolita civilização.
E tudo isso, numa simplicidade surpreendente, num só golpe de génio, ou passe de mágica: transformando um policial num romance de amor, onde a morte do professor deixa de ser apenas um crime, para passar a ser o final concernente a quem cumpriu a sua (missão na) vida, e se tornou eterno na dupla gravidez de Mercês, a shakespeariana Julieta da questão, ao deixar-lhe simultaneamente um filho no ventre e os cadernos de capa preta, cuja semente germinaria de há muito em suas mentalidades. Eis aí o grande paralelismo, para uma elipse fadada a funcionar...

2.16.2008

Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre

A próxima leitura do GLRP é A Higiene do Assassino, de Amélie Nothomb, que é, nem mais, que o primeiro livro da autora publicado em Portugal, e antecedeu o já anteriormente "trabalhado com prazer" pelo grupo, intitulado Temor e Tremor. Não se confessará aqui mais nenhum pormenor do caso para não prejudicar as averiguações nem manchar o bom nome da vítima, porém, pode-se adiantar, que há fortes perspectivas de geringonça argumentativa quanto ao seu conteúdo, as provocações inomináveis que contém e os sapinhos (ou rãs) que fará engolir, desde que lhe aparem bem as unhinhas. Alguns lambões garantiram que este tipo de marisco dos charcos, é melhor se acompanhado com alexanders bem condimentados e explosivos; outros preferem-nas com molho de tomate, albardadas ou de escabeche, desde que não lhe faltem o queimor e os orégãos.Todavia, como gostos não discutem, força companheiros e companheiras, arrefinfem-lhe, que é dose!

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