La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

5.03.2008

Herbert Read - A Filosofia da Arte Moderna





A Filosofia da Arte Moderna
Herbert Read
Título original: The Philosophy of Modern Art
Tradução de Maria José Miranda
1ª Edição: Londres, 1952
Editora Ulisseia


"(...) nos perguntamos pelo significado e natureza da existência. (...) Mas na liberdade da resposta está a poesia; a arte é a afirmação, a aceitação e a intensificação da vida." (Pagina 112, Ensaio V, Realismo e Abstracção na Arte Moderna)

As questões que se levantam à (filosofia da) arte, são hoje as mesmas que se levantavam em 1952, data da primeira edição do livro? Para onde caminha a arte moderna? Para a arte contemporânea. E muita da problemática envolvente nela, que a caracteriza e conforma, também transita, pois os seus principais problemas são comuns em ambas.
D
aqui, talvez, a justificação utilitária da leitura da presente obra. Isto é: na medida em que alguns problemas com que a arte moderna se confrontou (da ordem dos factores económicos e movimentos sociais; consequências das primeira e segunda Guerras Mundiais; o protectorado do Estado Mecenas e/ou a ausência dessa circunstância; a filosofia enquanto motivadora e destinatária da actividade criativa e artística; o problema da liberdade do artista perante o significado e natureza da existência; as correlações directas e indirectas entre as tipologias psicossomáticas e as correntes teórico-estéticas; etc.) são exactamente os mesmos e assumem uma correspondência imediata com os da arte contemporânea, embora esta se veja eivada de novos problemas derivados da variedade de suportes e veículos, como na sua estrita funcionalidade, utilidade e recursos técnicos, é igualmente premente e encontra-se em "elevada" actualidade um debate colectivo que insira a arte (pintura, escultura, literatura, fotografia, cinema, etc.) no discurso filosófico, não só para definição e enunciação das diferentes formas de beleza, ou de como ela se processa e manifesta, assuntos em que é prolífera a estética, nem pela confrontação e efeitos dos recursos técnicos disponíveis, campo convencional da crítica, mas sim no sentido de compreender dialecticamente como a evolução do pensamento reverteu a favor, ou a desfavor da arte, do conhecimento e da formação cívica, ou participação democrática e grau de cidadania, na medida em que detonou e disponibilizou novas teorias e conjecturas, conceitos e enquadramentos, a que os artistas recorreram como base de sustentação estrutural e semântica para as suas obras, e ainda recorrem, independentemente dos públicos alvo ou materiais que as suportem, as divulguem ou as elejam nos rankings nominativos para o primeiro quartel deste século (e milénio).
Por outro lado, a ideia que a "arte é o laboratório das filosofias", já na Era Moderna a arte usufruía de tal estatuto – aliás evidente, por exemplo, na aceitação do Freudismo no Cubismo e Surrealismo de Pablo Picasso, em pintura; ou nos Existencialismos, quer de Jean-Paul Sartre como no de Albert Camus, que foram sobejamente ensaiados e experimentados nos seus romances ou peças de teatro; ou os excessos de Marx e Hegel vislumbráveis nos Neo-Realismos português e europeu – por quanto a sua anuência popular derivava directamente do modo como participava na sociedade, nela era reconhecida, e se processava de acordo com os maquinismos de empatia-identificação-transferência comuns ao que hoje, grosso modo, é usual definir-se como parâmetros de funcionalidade e utilidade essenciais ao produto artístico.
Herbert Read executa, com propósito e conhecimento de causa, o salto exemplar de uma teoria da sensibilidade para uma teoria do conhecimento, através da interpretação e análise da arte, e consequente descodificação semiótica, o que, por analogia, se estende às naturezas ambientais e humanas, arqueologias profundas da sociedade da comunicação, para cimentar, recorrendo ao cariz antológico dos ensaios críticos subjectivos sobre estética (Estética – século XVIII, Baumgarten, 1750, fundamentada nos alicerces etimológicos aisthanesthai, perceber pelos sentidos, aisthètikos, que é dotado de sensibilidade, e aisthesis, sensação ou sensibilidade, que teve por objectivos e objecto a identificação das motivações, a avaliação, a análise, a descrição e interpretação das reacções particulares, como do grau de satisfação e gozo provocados pela percepção imediata mas total dos objectos naturais ou artificiais apreendidos como signos desligados, logo distantes e separados do mundo de consumo e/ou isolados do seu eventual valor de uso), que abarcam no seu todo temas díspares e contraditórios como Realismo e Abstracção, Surrealismo e Romantismo, Simbolismo e Expressionismo (5º e 6º Ensaios) e ensaios biográficos, opiniosos, em que escamoteia a relação criador-obra, pondo ênfase em exemplos dessas mesmas correntes (7º Ensaio, sobrePaul Gaugin; 8º Ensaio, sobre Pablo Picasso, de quem é a gravura de capa, na edição portuguesa; 9º Ensaio, Paul Klee; 10º Ensaio, Paul Nash; 11º Ensaio, Henry Moore; e 12º Ensaio, Bem Nicholson), para nos elucidar que considera a filosofia, não como uma atitude de resignação serena face aos caminhos da existência, mas sim um saber racional (tácito, explícito e sistemático) radical, que incide sobre a totalidade do real e dá deste uma explicação última. Espécie de ferramenta de socialização e participação activa nas sociedades. E da sociedade.
Tal como o autor afirma no prefácio, o método adoptado "pode chamar-se de filosófico porque é a afirmação de um juízo de valor", logo uma estética ilustrativa da ética, e ainda porque a abordagem em termos de realização de contrários, posto que "em dialética a tese e antítese são factos objectivos, e a necessidade de solução ou síntese vem da existência de uma contradição real (página 123, 6º Ensaio), de que resultam fórmulas de acutilância bastante abrangentes, lúcidas e enunciativas como Realismo x Abstracção = Surrealismo (Ensaio V), ou Romantismo x Classicismo = Surrealismo Humanista (Ensaio VI), matematicamente capazes de nos proporcionar compreender as divergências e convergências comuns entre esses três modelos típicos de ordem, proporção, simetria, equilíbrio e harmonia, que caracterizam a unidade artística, por oposição à unidade boçal dos objectos (ou produtos) não artísticos de relativo valor de consumo e uso.
O termo Moderno, que designa de modo assaz peculiar, uma sociedade cujas cultura e civilização são dominadas pelo saber e pela ideologia científica, em óbvia ruptura com o sistema de pensamento mítico dos povos primitivos e tradicionais, implica transformações profundas aos níveis técnico-económico, estrutural e político, que rasgam e dilaceram os padrões ideais. Sempre relativa, mesmo quando é determinante, a modernidade não exclui a primitividade, mas apenas tenta discipliná-la com resultados diversos e consoantes ao momento histórico, pois os níveis estéticos acordam perante os sectores das sociedades modernizadas, num esforço de aptidão por inadaptação, como foi o caso de Paul Gaugin, que sendo alguém da Era Moderna alcançou a modernidade pela revolta contra a civilização modernista, partindo para o Pacífico, para o calor e cor exuberantes, para a inocência e ingenuidade do exotismo, de cuja oposição a sua obra é a síntese óbvia e evidente, exemplo nítido de quem substituiu o amor de Deus pelo amor da Beleza, numa entrega total e missionária à arte, despojando-se assim de tudo quanto lhe era alheio, como as condicionantes familiares, económicas, religiosas e consumistas, que poderiam sustentá-la (ou absorvê-la).
Estávamos, então, na era "da arte pela arte"? E da ciência pela arte? E da filosofia pela arte? Ainda estamos. Como dizia Pablo Picasso (Ensaio VIII), "todos sabemos que a arte não é verdade", "é uma ficção que nos permite reconhecer a verdade – pelo menos a verdade como se apresenta à nossa compreensão." E isso comportou a inteireza da subjectividade relativamente acentuada da arte moderna: conforme o artista entendia o mundo, e a vida, assim os representava. Apetrechado de todos os conhecimentos teóricos e científicos da primeira metade do século passado, como bagagem de recurso, enfrentava a vida e extraía dela a sua sobrevivência, bem como a sua maneira muito peculiar de a redefinir. Simbolismo, cubismo, surrealismo, naturalismo, integralismo, expressionismo, impressionismo, neo-realismo, foram tão-só alguns exemplos dessa maneira de representação e dessa visão da vida, digamos filosofia, que por tantos outros personagens e interpretes dela se realizou, e nelas se acorrentaram, dos quais Paul Gaugin, Pablo Picasso, Paul Klee, Paul Nash, Henry Moore, Bem Nicholson, etc., foram expoentes radicais de execução, mas não os únicos praticantes. Uma arte sem maniqueismos, ou para além dos moralismos abjectos dos conceitos de bem e de mal, de certo e errado, feio e bonito, desejável e indesejável, útil e inútil, que apenas tinha por cenário testemunho dessa luta entre a vida e a morte da natureza, em toda a sua pujança primordial, a sua força impulsiva na necessidade de eclosão, sob os eixos dicotómicos do realismo/abstracção e surrealismo/romantismo, em exemplo do que então a sociedade era: uma autêntica confrontação entre a produção e o consumo. Entre o socialismo e o capitalismo. Entre materialismo e idealismo. Enfim, entre colectivismo e individualismo. E que na arte encontrava a sua síntese.
Em resumo: a arte moderna foi a antecipação, no tempo e modo, da sociedade de comunicação contemporânea. Quando a colisão entre os interesses essenciais entre a sociedade de produção e a sociedade de consumo se deram, esta confrontação antiética gerou uma nova maneira de assimilar as suas incompatibilidades: a arte, dita moderna, um meio termo entre o design industrial e o artesanato primitivo e secular, que os ultrapassava e suplantava graças à bagagem cognitiva e científica disponível, restos e vanguardas dessas sociedades. Uma espécie de loucura, mas uma loucura que se confirmou sã. Como onírica mas estabilizadora, de recompensa para o stress da competitividade múltipla (e colectiva). E, a não ser assim, como compreender o arrebatamento e êxtase face ao absurdo sortilégio transmitido frente a quadros de Dali, Picasso ou Klee? Ou a uma escultura de Henry Moore?
Todavia, Herbert Read, no conjunto dos textos, na generalidade dos capítulos, manifesta um ecletismo sintético bastante tendencioso, provavelmente como resultado da sua origem e formação inglesas, esquecendo, quiçá propositadamente, a herança renascentista dos abstracionistas, nomeadamente do dualismo platónico, de cuja representação o cubismo, integralismo e construtivismo são os mais radicais e puristas de todos os ismos da modernidade, pois que aquilo que visavam representar nos seus trabalhos – e disse bem, trabalhos, não me enganei, porque nenhuma obra de arte, embora algumas delas tenham sido feitas com muito prazer, é feita sem ele, e exige sacrificado trabalho para ser realizada –, era a sofisticada abstracção ao mundo sensível, aquele habitado por sombras deformadas da realidade profunda, dando-nos sugestões visuais subjectivas do mundo ideal, das formas puras precisas, puras essenciais, da geometria perfeita que cada coisa encerra pelo tapado exterior (dos sentidos) do seu estado bruto, enfim, os círculos, as esferas, os triângulos, os cubos, os cilindros, os quadrados, que mais não são do que as essências dos rostos, das colunas, das casas, das mesas, dos altares, dos frutos, das árvores, dos pratos, das bicicletas, das mulheres, dos animais, dos mitos, etc., numa panóplia infinita; ecletismo disciplinar esse, tão desenraizado da técnica, que melhor se prende aos efeitos do que às causas, obriga a entender mais a arte como fruto e resultado das características da sociedade, reiterando o que já havia afirmado em 1945, no seu livro Arte e Sociedade (Art and Society, Londres, 1945, Faber & Faber), do que da imperiosidade humana directa de moldar o mundo, estruturar a realidade conforme lhe é ditada – ao homem (sapiens) criador – pela sua necessidade de emitir uma mensagem, não uma qualquer e sim precisamente aquela, quase obsessiva, mas inevitavelmente um de dentro para fora pessoalíssimo que caracteriza o universo imagético dos mais diversos artistas. O que faz dele, no fundo, também um filósofo modernista, uma vez que está vocacionado, motivado, para apresentar uma visão da totalidade real fundamentada em "colagens" das diferentes disciplinas sociais e humanas da época, nomeadamente sociologia, antropologia, semiótica, literatura, economia, fisiologia, política, artes plásticas, por exemplo, e sem, com especificidade, em nenhuma delas se basear profundamente para analisar o produto artístico, detendo-se sobremaneira na sua interpretação.

















5.02.2008

Capas Inesquecíveis

Não, não é engano... São mesmo repetidas, porque o que é fenomenal bem pode ser duplicado. É uma questão de vontade e tempo...
O livro de Ellery Queen tem tradução de Wilson Velloso, revista pelo já aqui nomeado Batista de Carvalho e o Cosmic Engineers, foi traduzido a duas mãos por Mário Braga e Maria Isabel Morna Braga. Uma, quer dizer, duas autênticas raridades que valem por muitas mais, ou não fossem elas os números 44, da colecção Vampiro, e o 105, da Argonauta.



4.30.2008

Grupo de Leitura READCOM, lerá Paul Auster

"Quando larga a caneta, há uma palavra que começa a ressoar na sua cabeça, e, durante vários momentos depois disso, enquanto a palavra continua a ecoar dentro dele, Mr. Blank sente que está a um passo de uma importante descoberta, de um ponto de viragem crucial que ajudará a clarificar, pelo menos em parte, aquilo que o futuro lhe reserva. A palavra é «parque». Lembra-se agora de que, pouco depois de ter entrado no quarto, Flood sugeriu que fosse conversar para o «parque, do outro lado da rua». Esta indicação parece ao menos contrariar a prévia asserção de Mr. Blank segundo a qual se encontraria cativo, confinado ao espaço limitado por estas quatro paredes, impedido, para todo o sempre, de se fazer ao mundo. Sente-se algo encorajado por este pensamento, mas sabe também que, mesmo que o autorizem a visitar o parque, isso não prova necessariamente que seja um homem livre. " (Excerto)
A próxima sessão do Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre, a realizar no dia 20 de Maio, incidirá sobre Viagens no Scriptorium, de Paul Auster.
Aqueles que já tiverem lido a obra e andarem pelas redondezas, podem dar o seu lamiré pr' àqui ou aparecer. Ou melhor, não se evitem de partilhar as opiniões que vos suscitou, que a luz quando nasce é para todos.

4.22.2008

Dizer a Liberdade


Dizer
"Aqui
reina a liberdade"
é sempre
um erro
ou então
mentira:

A liberdade
não reina
Erich Fried

4.17.2008

Palestra de Sebastião Morão Correia

Capa da Palestra aos alunos do Liceu Nacional de Portalegre, proferida por Sebastião Morão Correia, na sessão de abertura do ano lectivo de 1959-60. Brochura composta e impressa na Gráfica S. José, em Castelo Branco.



"E, Todavia, o Homem
só vale pela sua Vontade..."

Eça de Queirós, in Ilustre Casa de Ramires

Nunca, como nos dias de hoje, em que a deletéria passividade existencialista está causando no espírito da Juventude tão perniciosos efeitos, esta afirmação do genial romancista Eça de Queirós, teve uma aplicação tão necessária, de indiscutível interesse e flagrante actualidade.
Quando Gonçalo Mendes Ramires, personagem tão palpitante de simbolismo, se queixava amargamente dos seus desaires, se não das suas derrotas, atribuindo ao Destino a teimosa infelicidade que inexoràvelmente o perseguia, nem sequer se dava conta de que estava nas suas próprias mãos mudar o rumo daquela vida sem acção e sem sentido, que era a existência que ele arrastava inglòriamente enclausurado na Torre dos Ramires – mais velha que o próprio reino.
Esta terrível falta de confiança em si próprio, consequência directa da abulia que se apossara do seu pobre espírito sem força para reagir com eficácia ao medo impertinente da "carne espantadiça e cobarde", tinha feito daquela vergôntea, débil e quebradiça, engastada na rija cepa dos antigos Ramires, um carácter amorfo, anémico, aguado, sem têmpera e sem viço, exposto aos caprichos do Destino que nunca perdoa aos fracos.
E assim vamos acompanhando o drama desse fidalgo, cuja principal ambição era um lugar de deputado, não olhando aos meios para alcançar esse fim.
Mas Gonçalo, enterrado na sua velha Torre, era um abúlico, falho de vontade, cedendo constantemente à lei da inércia.
Por isso atribuia ao seu negro destino todas as fatalidades que lhe sucediam.
Eça aproveita também o ensejo de dar a esse tipo de pessoas esta eficacíssima receita:
"E, todavia o Homem só vale pela Vontade – só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Porque, se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão – então é delícia do domínio sereno; se encontra em torno resistência, – então é a delícia maior da luta interessante."
E, como corolário de tal postulado – que é a tese principal da Ilustre Casa de Ramires – o fidalgo da Torre, ao compenetrar-se que a verdadeira honra reside no trabalho ordenado, fruto de uma vontade firme e reflectida, abandona a sebenta cadeira de S. Bento, alcançada por meios tão torpes e degradantes, e lança-se, livre de influências e com orgulho próprio, nas explorações das terras africanas.
[1]
Surge-nos, então, um homem que procura que procura dar plena realização à sua personalidade já temperada por um Querer, forte e decidido, e por uma Vontade, consciente e reflectida.

Minhas meninas e meus rapazes:

Gonçalo é mais que um simples personagem de romance.
Gonçalo é um símbolo.
Eis a razão por que resolvi aproveitar este magnífico exemplo que sobre o valor da Vontade nos apresenta o insigne autor da Ilustre Casa de Ramires, para me servir de tema à palestra da abertura solene das aulas do ano escolar de 1959/1960.
Não conheço, nem creio que em tão breves palavras se tenha cantado um hino tão admirável ao valor da Vontade.
Depois de uma análise ao drama de Gonçalo, vítima da terrível abulia que lhe entibiara o carácter e debilitara a personalidade, a tese surge clara e convincente, numa síntese bem expressiva e sem enfeites ou aparatos pretenciosos, como era próprio do estilo do incomparável artista.
Com efeito, o autêntico valor do Homem cifra-se no poder da Vontade inteligentemente exercida.
E, sem dúvida, o maior prazer da Vida reside no exercício de um Querer, forte e consciente, mercê do qual o nosso eu actuante possa ganhar plena consciência do seu valor, verificando que pela prática bem orientada dos seus actos voluntários é possível alcançar a inteira satisfação das suas aspirações.
E, se no exercício da Vontade as circunstâncias se conjugam num sentido favorável de docilidade e submissão, permitindo-nos realizar os nossos desejos sem obstáculos nem esforços, gozaremos a delícia do domínio sereno. Se, porém, encontrarmos em torno resistência, quero dizer, se para a efectivação das nossas aspirações tivermos de enfrentar e remover as pesadas dificuldades, ao atingirmos o nosso fim, gozaremos, então, vitoriosamente, a delícia maior da luta interessante.

***

A Vontade é um factor imprescindível na têmpera do carácter. E só pode considerar-se homem de carácter aquele que, removendo todos os obstáculos de ordem psicológica ou material, consegue atingir o fim digno que se propõe alcançar.
É, em suma, o homem que sabe querer.
O inconstante, o indeciso e o fraco – esses falham inevitavelmente na vida, porque não se esforçaram para aprender a querer.
E o que é curioso é que, na maior parte dos casos, os fracos, os desiludidos e os abúlicos guardam também no mais íntimo do seu ser um cabedal de forças intelectuais e morais capazes de lhes permitir as vitórias que os outros – aqueles que sabem querer – conseguem alcançar.
Têm também ao seu dispor a força da Vontade. Não souberam, porém, aproveitá-la num sentido conveniente, pondo em conjugação harmónica e disciplinada todas as energias disponíveis.
Mas eu não quero, nem devo, esquecer-me de que estas recomendações, singelas e despretenciosas, se dirigem, principalmente aos jovens, àqueles que estão na idade própria dos impulsos instintivos, do domínio tirânico das primeiras impressões, da embriaguez da Fantasia e da força estimulante, mas indisciplinada, da Imaginação.
Mais que em qualquer outra fase da vida humana, o jovem tem de aprender a querer, para poder temperar convenientemente o seu carácter.
Ora, querer não é obedecer cegamente ao mandato imperioso dos instintos, nem ceder inconscientemente às primeiras impressões quase sempre arrebatadas e falazes.
Não é também construir castelos no ar em plano muito distante das possibilidades reais, nem fixarmo-nos obstinadamente numa opinião ou decisão que só nós consideramos a non plus ultra...
O querer metódico, sistemático, é um acto voluntário que implica necessàriamente, reflexão e, para ser cumprido, tem de assentar na deliberação, na determinação e, finalmente, na execução.
O homem de carácter bem formado, antes de agir, tem de examinar bem a situação, ponderando as vantagens e inconvenientes do acto que pretende realizar; tem de escolher os meios mais aptos para alcançar o fim almejado; e, só depois de efectuar bem todas estas operações e de elaborar calmamente um juizo de valor sobre o assunto, então, sim, há-de tomar a decisão que julgar mais conveniente.
O acto voluntário será, pois, fruto de uma reflexão bem amadurecida e calculada, em que o espírito, isento de qualquer influência dos impulsos insofridos e das primeiras impressões fogosas, mas raramente exactas e quase sempre deformantes da Verdade, possa actuar de harmonia com a Razão, faculdade intelectual que permite julgar do Bem e do Mal existentes nas nossas acções.
Por isso a Razão deve ser activamente consultada na execução do acto voluntário.
Quantas vezes somos traídos pelas tais primeiras impressões que levianamente seguimos, e aceitamos como sendo as mais convenientes!
Não podemos também, é claro, executar os nossos actos exclusivamente ao sabor da imaginação exaltada, nem de harmonia com os nossos sonhos que, principalmente na quadra da adolescência, são fagueiros, mas ilusórios.
Isto não quer dizer, porém, que à Imaginação não seja dado um lugar bem destacado e merecido na nossa vida activa, como também não quer dizer que excluamos de todo o Sonho da nossa actividade volitiva, pelo eficiente contributo que qualquer deles pode dar à realização das nossas aspirações.
A Imaginação, por exageradas que sejam as dimensões daquilo que criamos em espírito, é uma faculdade que tem também o seu valor estimulante e que, expurgada do aparato que a Fantasia lhe empresta, pode fazer reverter para o campo prático a sua contribuição prestante.
Por outro lado, o Sonho, a despeito das visões quiméricas que produz, narcotizantes do espírito, não é um acto exclusivamente passivo.
A ardência do desejo, que lhe deu origem, imprime-lhe um estímulo que, em certa medida, o transforma numa força activa e útil.
Imaginar e Sonhar são actos característicos da Juventude, tão próprios e naturais, que não se pode conceber um adolescente sem Imaginação e sem Sonho.
Isso seria trair a Natureza, e a Natureza não admite traições...
Para que se realize integralmente é, pois, necessário ao jovem imaginar e sonhar.
Tal como a criança constroi o seu mundo maravilhoso de Fantasia, assim o adolescente arquitecta o seu mundo ideal de Sonho, à imagem e semelhança dos seus ardentes desejos.
A noção exacta da Realidade, na sua forte nudez, sem o "manto diáfano da Fantasia" e sem o efeito aliciante do caleidoscópio do Sonho, aparece, depois, normalmente, quando o jovem começa a ter contacto com a vida prática.
Mas, concomitantemente com a percepção da Realidade, em toda a sua nudez e crueza, – porque a Vida é luta – surge também a desilusão que acabrunha e deprime.
É nesta altura que o jovem precisa muito de nós: pais e professores.
E, no entanto, tem-me ensinado a experiência que é essa a quadra em que o jovem é menos compreendido.
A adolescência é a idade característica da audácia e da rebeldia.
E os pais e os professores, dum modo geral, é claro, em vez de aceitarem naturalmente essa realidade psicológica tal qual ela é, buscando uma solução conveniente aos problemas dessa idade crítica, procuram, antes, ladear a questão, fugindo a tais impertinências, e limitando-se a dizer: "Isso passa com a idade..."
Mas... às vezes não passa... e eis a causa por que o mundo está vivendo momentos tão apreensivos no que tange ao aberrante comportamento da mocidade de hoje.
Teimo em afirmar que a falta de uma orientação racional da Juventude tem sido, sob o ponto de vista educacional, o nosso maior pecado.
É certo que muito se tem escrito em teoria sobre esta matéria. Mas onde está a aplicação prática? É nula ou quase nula. E, se algum educador mais ousado e mais sensato pretende por em prática essas teorias, seja para cumprir o que os tratados e compêndios de Pedagogia determinam, seja para satisfazer o imperativo da sua maneira de ser psicológica, logo os Velhos do Restelo se unem alarmados, fazendo cair sobre esse educador, que ousou quebrar os cânones da sua pedagogia balofa e bolorenta, postiça e contra Naturam, uma chuva de incompreensões e uma tempestade de críticas demolidoras!
É urgente que a Família e a Escola, numa eficiente e indispensável colaboração, encarem abertamente este grave problema sob todos os aspectos e em todas as suas dimensões, evitando que nessa fase de transição o jovem caia num rumo sem sentido e até no desespero...
O ideal será conseguir-se, uma fórmula que permita o aproveitamento da força estimulante do Sonho e da Imaginação aplicada às realidades úteis que a Vida necessàriamente implica e implacàvelmente nos impõe.
Ora, é nessa fórmula ideal que a Vontade tem de actuar como um factor indispensável e de primordial importância.
Com a Vontade firme, desenvolvida e habituada a refrear os instintos e os impulsos, e pronta a superar os desânimos, estaremos convenientemente preparados para encarar as adversidades que a Vida a cada instante nos dispara, enquanto o Homem que não sabe querer, amarrado ao drama dos seus complexos de inferioridade, será sempre situado em plano secundário, consumindo a existência a ruminar amargamente as suas derrotas e os seus desaires.


***

É certo que o exercício da Vontade implica muito esforço, muito trabalho, muita renúncia, muita luta contra as solicitações das nossas tendências psíquicas, que nos convidam insistentemente à situação cómoda, mas inglória, do laisser faire e laisser passer.
Filho da desobediência ao Deus criador e consequência da maldição do mesmo Deus, não há dúvida que o Trabalho é penoso.
Mas também não há dúvida de que é inerente à condição humana.
Depois de ouvir a sentença fatal que o condenava a comer o pão com o suor do rosto, o Homem nunca mais pôde libertar-se do Trabalho. Vive por ele e para ele, e assim viverá eternamente, enquanto a condição humana se mantiver.
E não vá supor-se que a plena felicidade do Homem reside na total ausência do Trabalho... Pelo contrário... O homem normal não dispensa a actividade. As próprias preocupações são o condimento da existência. E as mesmas dificuldades, seguidas pela ânsia de as vencer, actuam como o sal da Vida.
Sem Trabalho a existência seria insuportável.
Que o diga aquele homem que, tendo levado uma vida cheia de actividade, morreu e foi transportado para um mundo diferente. Conduzido a um rico palácio, logo aparece solícito, um mordomo que com ar solene lhe mostra um quarto sumptuoso, dizendo: «É aqui que o Senhor vai morar. Qualquer coisa que deseje, basta premir o botão desta campainha, e terá imediatamente tudo o que lhe apetecer».
Daí a algum tempo estava o feliz ocioso sentado numa cómoda poltrona, tendo ao lado charutos, whisky, várias revistas, um rádio, televisão... Num compartimento ao lado viam-se espingardas para caçar, canas de pesca tudo, enfim, que pudesse proporcionar ao mais exigente mortal um passatempo agradável.
Mas o nosso homem não estava satisfeito! Premindo o botão da campainha, surgiu novamente solícito o mordomo, a quem disse, em tom nervoso:
– Venha cá, rapaz. Eu quero alguma coisa para fazer. Quero Trabalho!
– Sinto muito, mas Trabalho é coisa que não há por cá...
– Se não posso trabalhar aqui, nesse caso prefiro ir para o Inferno!
– Mas – respondeu o mordomo entre surpreso e admirado – onde é que o Senhor pensa que está?!
O exemplo que acabo de expor foi respigado de uma breve leitura de uma revista que me passou pelas mãos há bem uns quinze ou dezasseis anos.
Mas esta anedota, tão pitorescamente expressiva, guardei-a na memória pelo conteúdo moral que encerra, pois não conheço em tão breve síntese, nem em prosa, nem em verso, hino mais laudatório dedicado ao Trabalho.
Meus queridos alunos:
Foi para compreenderdes o valor da Vontade e a necessidade indispensável do Trabalho como factores principais da vida humana, que eu, nesta sessão solene de abertura das aulas, bordei as breves considerações que vos dedico.
À míngua de outros méritos, possam elas, ao menos, acautelar-vos dos perigos desta 25ª hora turva e enigmática, tumultuosa e inquietante.
E possam ainda contribuir para uma conveniente formação do vosso carácter, de modo que nele caiba, em perfeita harmonia, a aliança da Realidade com os lampejos do Ideal em que a vossa alma é fértil.




(Coitadinhas das crianças... Agora, sim, percebo por que é que continuamos na cauda da Europa: há traumas de que jamais se recupera!)


Não abdique dos seus direitos fundamentais. E não perca na próxima edição tudo sobre o mais importante e elementar dos seus direitos: O ...
[1] Conforme com o opúsculo do autor "Traços característicos da Ironia Queirosiana – Sua finalidade social."

4.16.2008

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

O livro que ora se apresenta, das edições ITAU, custou 7$50, com oito páginas, algumas em branco é claro, que para cinco sonetos não eram precisas tantas, ainda que do tamanho de uma cautela da lotaria nacional: 10 x 14,5 cm (sem gralhas). Ou pouco maior, mas são sonetos, carago, e isso doura sobremaneira a coisa, mesmo para aqueles que não gostam de poesia, e preferem versos. Pois.


FLORBELA ESPANCA

"... Pelo seu apurado instinto de beleza formal, tão raro em mulheres até boas escritoras; pelo seu excepcional temperamento e vibrante sensibilidade; pela profundeza da sua alma revolta e ardente; pelo poder de comunicação com que, nos seus versos, se exprime o seu drama pessoal e o da paisagem que tão bem sentiu – Florbela Espanca é a maior poetisa portuguesa de qualquer tempo e um dos grandes nomes da nossa poesia moderna.
Ninguém pode honrar Florbela Espanca; – ela é que nos honra. Ela é que honra as letras portuguesas."

JOSÉ RÉGIO

1.

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira

E eu, que era neste mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

2.

Meu amor, meu amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tom de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mão são fontes de água clara
A cantar sobre a sede d'um jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sòzinho,
Passando junto a mim sem me encontrares? –

3.

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Ouço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou p'ra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra?– Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
És tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

4.

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

5.

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é sòmente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se pousaram.

São mortos os que nunca alevantaram
Dentre os escombros a Torre de Mensagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o país da luz,
A sombra calma dum entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

O "enredo" desta brochura não o sei, mas desconfio que se alguma história tem, mais a circunda do que a circunscreve, e se deva ela simplesmente à iniciativa da editora (ITAU, por sinal) em celebrar – honrar ou homenagear que seja –, qualquer data importante como aniversário da autora, se de nascimento, se de morte, não se precisa ao certo, embora não reconheça de grande valia para ninguém o andar-lhe a gente a celebrar o dia em que se foi, alguns dirão sentenciosos "desta para melhor", todavia afianço "uma porra: se é assim tão boa porque não foram vocês!?", nem proveito descubro em andarem-se a servir da desgraça derradeira de alguém, festejando, por assim dizer, a data do seu falecimento, a não ser que mórbido instinto financeiro se adivinhe, ou outro qualquer de igual calibre, sobretudo se ele recair sobre um poeta, ou poetisa, espécie de pessoas que sempre tão pobres e parcamente viveram em Portugal, por demais carecidos de pão como de afecto, falhos daquelas coisecas elementares com que a vida se governa, mas invariavelmente sujeitos à chacota e ironia da mediocridade popularucha, como quem sublinha aquilo que o burguesismo pacóvio e serôdio salientara acerca de outros, igualmente felizardos na sorte de poetar, declarando que qualquer poeta, mesmo poetisa, só é bom quando morto, e principalmente nesse instante, a partir do qual todos o podem enterrar a seu bel-prazer, depositando-lhe por cima uma boa camada de anos e esquecimento, para que nunca mais daí se alevante, aliás, garantia absoluta que diminua o risco de ressuscitar.
Portanto, não desviemos o sentido à prédica, não nos distraiamos daquilo a que viemos, que se apenas cinco são os sonetos, eles foram magistralmente esgalhados, embora reclusos daquela euforia depressiva, ou ciclotímica, que empresta ao amor tanto e doloroso prazer, tanto contentamento descontente, como diria o ancestral Luís, Vaz que não vás, tente que não caias, que nisso de ser triste por mais triste que se seja, ninguém o consegue a tempo inteiro e toda a vida, e nela, mesmo quando se não queira, ainda que "folha ao abandono / Num parque solitário, pelo Outono, / Sobre um lago onde vogam nenúfares", de vez em quando há-de sobrevir a paixão, o seu fulgor eufórico e maravilhoso, o arrebatamento único que a transforma em febre brava e impulsiva que antecede as maiores infecções, incluindo as da alma, por muito contemplativa e atormentada que ande, onde amar por amar se faz sempre perdidamente, pois nos obriga a deixar de ser os tristes e deprimidos que antes éramos, ou vice-versa, os alegres e joviais em melancolia taciturna apoderados, possessos e prostrados, que nisso de perder-se a gente tanto pode dar para um lado como para o outro, e salvar-se seja quem for quando a tensão febril acontece é um bico-de-obra de alto lá com ele, visto as mais vezes ser essa tensão o caminho recto e mais curto para a excitação realizável e, realizada ela, fonte de calma e meditativa tranquilidade, que ainda é o melhor tónico revigorante da tensão, para elaborá-la a preceito tal que exigirá realizar-se, repetidamente, inequivocamente imperiosa e urgente, e para, enfim, consumir-nos na justa medida em que a consumarmos. Em nós, exactamente nós, que sempre estaremos prontos e ansiosos para provocá-la. Nem que para isso nos tenhamos que socorrer de Deus, ou o consideremos um forte e determinado aliado para justificá-lo, exigi-lo e consegui-lo. Até no amor ilícito, se é que haverá algum que o seja...

Até porque, como diz José Régio no prelúdio, ninguém pode honrar os poetas, pois são eles essencialmente quem nos honra com a sua obra, os seus poemas, os seus versos, pelo que se lhe quisermos manifestar algo, por recompensa, por gratidão, então não nos resta outra maneira de o fazer senão lendo-os, recitá-los, compartindo-os e partilhando-os com aqueles a quem prezamos, por quem nutrimos afecto, sempre que possamos, e onde quer que o possamos fazer.

4.15.2008

DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS -- 18 de ABRIL


PATRIMÓNIO RELIGIOSO E ESPAÇOS SAGRADOS


A Assembleia da República associa-se às comemorações deste dia promovendo um conjunto de actividades organizadas pelo Museu:

17 de Abril, quinta-feira - Recital pelo Coro Gregoriano do Porto na Sala do Senado, às 19h

18 de Abril, sexta-feira – Visitas guiadas ao Palácio de S. Bento às 10h-11h-15h e 16h.
No final de cada visita haverá Prova de Licor de Singeverga e Pão de Ló de S. Bento


- Exposição sobre os espaços monásticos do Palácio de S. Bento, integrada nas visitas

- Serviço de doçaria conventual no restaurante dos Deputados e refeitório dos Funcionários como sobremesa


Inscrição prévia ,indispensável, para assistir ao Recital e participar nas visitas para os telefones - 213919347 —213919370—213919408

O “NASCIMENTO” DA CÉLULA – Por Helder Maiato

Hélder Maiato é Professor Auxiliar Convidado no Departamento de Biologia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Investigador Auxiliar e Responsável pelo Laboratório de Dinâmica e Instabilidade Cromossómica no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto. Natural de Matosinhos, nasceu em 29 de Fevereiro de 1976, licenciou-se em Bioquímica na Universidade do Porto e fez parte do sexto Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, o que o levou a passar pela Universidade de Edimburgo no Reino Unido para estudar a divisão celular e a doutorar-se em Ciências Biomédicas pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), Porto. Foi investigador afiliado no Wadsworth Center, Divison of Molecular Medicine, New York State Department of Health, USA (2003). Publicou inúmeros artigos científicos em revistas internacionais de excelência como o EMBO Journal, o Journal of Cell Biology, Cell e o Nature Cell Biology. Foram-lhe atribuídos prémios e distinções nacionais e internacionais – Prémio da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (2004); Prémio Jacinto Magalhães (2005); distinção do Programa Gulbenkian de Estímulo à Investigação da Fundação Calouste Gulbenkian (2005); Prémio Crioestaminal (2006); Prémio Gulbenkian de Apoio à Investigação na Fronteira das Ciências da Vida (2007), entre outros. E proferirá a conferência O “NASCIMENTO” DA CÉLULA :UMA VISITA GUIADA ATRAVÉS DO MICROSCÓPIO, (acerca de como o universo do infinitamente pequeno tem fascinado várias gerações de cientistas desde o século XVII, em que o maior desafio tem sido conseguir vencer as limitações físicas impostas pelo uso do microscópio, o que tem vindo a ser ultrapassado através de equipamento e de tecnologia cada vez mais sofisticados), onde se dará uma pequena viagem pelo tempo e ilustração dos avanços tecnológicos desde o aparecimento do primeiro microscópio até aos dias de hoje, assistindo àquilo que pode chamar-se o “nascimento” da célula, o momento em que uma célula “nasce” a partir de outra pré-existente, e tentar perceber como o progresso na fronteira das ciências da vida permitiu ao Homem ver como a “maquinaria” celular executa todo este processo na perfeição.

Esta é organizada pelo Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com a Ciência Viva, terá lugar no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), dia 16 de Abril, às 18h00, a qual, para os que tiverem dificuldade em aí se deslocar, poderá ser vista em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ , podendo enviar-se questões para fronteiradaciencia@gulbenkian.pt, a que o orador responderá no final da sessão.

4.11.2008

Alternam Engenharias Fraticidas, por aí...

(Ilustração: Contracapa da Revista Antítese, nº 2, de Março de 1985)
Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.

De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.

E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...

Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!

4.09.2008

Expiação, de Ian McEwan, no GLReadcom, de Portalegre

Aprazada para o dia 29 deste mês, no local e às horas do costume, o Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre (GLP–IPP), fará a sua próxima sessão à volta do romance de Ian McEwan, intitulado Expiação, e que recentemente foi alvo de adaptação cinematográfica, estreada há pouco tempo entre nós. Com edição portuguesa em 2002, de quem José Prata, na revista Os Meus Livros, nº 7 – onde consta também uma curiosa autobiografia do autor –, e a propósito, terá afirmado ser ela uma obra em que, "epílogo à parte" serem "três histórias: a de uma menina cuja imaginação conduz um homem à queda; a desse homem, que atravessa uma guerra com uma carta no bolso; a daquela menina, quando adulta, escreve um livro para expiar o seu crime." Mais adianta José, que nesses três momentos ficamos na presença da "Inglaterra ociosa do pré-guerra, a demência da retirada de Dunquerque, e de novo a Inglaterra" debaixo dos bombardeamentos alemães (blitz), realçando a transfusão do sentimento épico que a intertextualidade com Jane Austen nele aflora.

Daí que, ainda reportando-nos às palavras do crítico, embora na tradução literal da Gradiva se tenha perdido grande parte da poesia que Expiação respira, "é um romance total, de arquitectura antiga, psicologia moderna [e] montagem cinematográfica." Extraordinariamente reflectido na "cena de amor na biblioteca ou no drama de Cecília a escolher um vestido, [que] têm o peso de uma guerra; e a memória do soldado debaixo de fogo é uma casa solarenga no campo."


Portanto, aqui fica o convite a todos quantos queiram partilhar as suas impressões sobre a obra, admitir que há outras opininiões igualmente válidas sobre ela, sem estigmatizar nos "pântanos" da certeza, ainda que ela veicule a melhor e mais paternalista (ou protectora) das intenções... Digo eu!

4.08.2008

A Ortografia e os Desacordos à Portuguesa


Concomitante a uma longa história, iniciada em 1911, quando Portugal, mas sem a anuência brasileira, estipulou a primeira reforma ortográfica no sentido de alterar as grafias correntes, modernizando-as rumo à sua unificação continental e ultramarina, polémica com reacendimentos vários, nomeadamente em 1931 e 1943, que culminou no assentamento (e praça) do Acordo Ortográfico de 1945, que durou ainda muito para lá da ditadura e primavera (outonal) marcelista da mesma,

Gentilezas e Galhardias de Outros Géneros


"A desconfiança é o pior inimigo do bom senso"
Honoré de Balzac

Que há efetivamente de comum entre o primeiro número da coleção Aventuras de Arséne Lupin, da Editorial Notícias, intitulado Arséne Lupin: Gentleman Gatuno, de 1966, o nº 15 da coleção Grandes Mistérios / Grandes Aventuras, das Edições Romano Torres, denominado O Ladrão Voltou de Madrugada, autoria de Marcel Damar, de 1945, e o nº 16 da coleção Escaravelho de Ouro, com chancela da Empresa Editorial Édipo, Lda., sob o título A Lenda do Pântano, de 1951, de Conan Doyle, naquele tempo ainda mal referenciado por Sir Arthur Conan Doyle? Nada. Absolutamente nada de importante, se excetuarmos quatro pormenores insignificantes: são três exemplares antigos do romance de cordel, editados sob os auspícios do Acordo Ortográfico de 1943/45, todos foram adaptados ao cinema em mais que uma versão, bem como em nenhum deles a filosofia dos amigos do alheio argumenta mais forte que a moral escorada na legitimidade da propriedade privada. Mas tem outra: o autor de cada um deles foi pioneiro do modelo em que se desenvolve: Maurice Leblanc é o progenitor do romance policial, propriamente dito, com ou sem polícia; Sir Arthur o fundador do género fantástico; e Marcel Damar, o cultivador maior da novela de suspense.

1. A Lenda do Pântano

A tradução é de Baptista de Carvalho, igualmente, ao tempo, também director da Colecção O Escaravelho de Ouro. Após esta seguiram-se inúmeras edições, mas todas sob o título de O Cão dos Baskervilles, tradução literal do título original: The Hound of the Baskervilles. A última que me lembre é a do Diário de Notícias / Europa-América, com tradução de Jorge Vítor Carvalho, já sem c atrás do t, conforme mandam as regras da unificação ortográfica, embora o Baptista da outra versão o mantenha, pois já não há nada a fazer, e o que não tem remédio, remediado está. Ora acerca delas, tanto de uma como de outra, que no fundo são a mesma coisa, muito foi dito, sobretudo depois da fama que as adaptações cinematográficas e televisivas lhe deram, a ela obra, e a ele, Sir Arthur Conan Doyle seu autor e inventor do celebérrimo Sherlock Holmes que, desconfio, deve ser muito mais famoso do que quem o criou. São coisas da literatura, alvitram; são mistérios, dizem; paradoxos, afirmo eu, que sou dos que não percebem por que motivo os pseudónimos hão-de ter maior significado do que os nomes próprios, nem as personagens mais prestígio do que quem as traduziu em letra de forma ou lhe deu voz, tal e qual como o que sucedeu entre Platão e Sócrates, ou o Dr. Watson e Sherlock Holmes, ou, ainda, entre o último e Conan Doyle. E muito haverá por dizer, será dito, mesmo calado, acrescentado por silêncio, que é outra das formas de dizer muito praticadas nos subentendidos da polissemia. Bom.
Mas o que é verdade, ou não o sendo totalmente se lhe aproxima muito, é que o autor se serviu exemplarmente do Watson para exibir a sua riqueza vocabular, satisfazendo nele, e por ele, o apetite pelos rendilhados do discurso narrativo, os ramalhetes descritivos, as tiradas de perícia no linguajar, a frase desenvolta e harmoniosa, capazes de transcrever e reunir, num só romance, diversos estilos da arqueologia dos géneros, embora todos eles considerados populares, sim, mas menores: o terror, o gótico, o passional, o científico, o exótico, o policial, o de aventura, o paranormal ou supersticioso, o romântico moderno, o retórico. E tudo isso vendável em qualquer tabacaria da época, quiosque de hoje, como foi o caso do volume cuja capa se reproduz acima, que foi comprado na Tabacaria Continental, sita na Rua Augusta, 57 e 59, em Lisboa, onde eram comerciadas as demais brochuras ou folhetins de cordel, jornais, revistas ligth e bombásticas do Jet Sete, da sociedade, artes e espectáculos. Não seria barato, é claro, que vinte paus (20$00) era um ror, uma pipa de massa, mas era acessível a todos quantos, que seriam bastante menos do que agora são, sabiam ler, além de contar e assinar o nome. Dura apenas 183 páginas, de papel barato, em tipo miúdo, redondo, pequeno formato, de bolso (15x11 cm), capa mole e desenhada por Rosa Duarte, que é delícia para os olhos e uma enorme satisfação para a polpa dos dedos de quem o manuseia. Pegar-lhe, devorar de golpe parágrafos inteiros, é reconfortante, e ajuda-nos a compreender como é que a literatura se tornou uma arte de massas, antes de as massas serem devoradas pelos mass media. Deambularmos pelos pormenores das paisagens, pelas características dos edifícios e das ruas, pelos perfis psicológicos e físicos dos personagens, pelos compêndios de biologia e enciclopédias do crime, como então eram condimentados, é uma recompensa inigualável para quem, para além dos enredos outros enredos tece à volta do livro. E uma benção, pois durou de 1951 até hoje, sem perder qualquer das suas qualidades!

















(Continua)

4.07.2008

Sol na Eira e Água no Nabal....

É extraordinariamente engraçado como a maior parte das medidas que, noutros países, talvez com mais vocação para a cultura do que para a trambiquice, servem para proteger os criadores, em Portugal, sirvam apenas para os prejudicar, para os isolar superlativamente, impedir a divulgação, promoção e venda das suas obras, e, no caso da literatura, amputar-lhes os benefícios da crítica, sobretudo da honesta, ou daquela que pode ser feita com tempo, peso e medida, de acordo com as regras deontológicas ou da ética e companheirismo que partilham quantos em vez de roubar, criam, em vez de plagiar, interpretam, em vez de denegrir, analisam, e se pautam pelo respeito à relação criador-criado, do autor com o texto, do texto com a época, o ambiente e demais textos que o reflectem, ou nele são reflectidos, bem como acreditam que tudo quanto nos melhora individualmente contribui, determinada e inequivocamente, para nos qualificar, aumentar em qualidade, também como povo, como língua, como nação, apura a identidade portuguesa, lhe encorpa o teor civilizacional e assegura, no presente como no futuro, uma maior dignidade entre os restantes países europeus ou lhe empresta acrescida credibilidade e estatuto, quando e se convocado para assumir os protagonismos e estratégias de desenvolvimento imprescindíveis à consolidação de uma Europa, cada vez mais mundial, cada vez mais actuante e interferente na conjuntura da modernidade.
Tomemos agora de assalto um livro que nada tenha para nos dizer, do qual não haja qualquer conhecimento anterior acerca do autor, menos da obra, nem de anteriores trabalhos, ou géneros sobre que incidiu, e que nem sequer tenhamos comprado por ter uma capa atraente, título apelativo ou estivesse nos escaparates da actualidade, mas sim por ser o mais barato da estante de literatura de uma grande superfície comercial do sítio, falho em literacia por sinal, localizado num bairro social da periferia de uma cidade periférica, outros dirão interior, embora signifique exactamente o mesmo.
Temos sorte, pensei eu ao encontrá-lo, porquanto me ficaria pelo preço de um jornal diário um livro de poesia, ainda por cima premiado com o Prémio Revelação da APE/IPLB-1995, década cuja safra não foi muito afamada. Aqui "sorte" era já uma conjectura, como simples constatação momentânea de pouca valência, para apreciar uma compra de objecto cultural, qualquer que seja, livro, disco, quadro, documento, peça de escultura, de artesanato, onde figure, enfim, um conteúdo analisável e passível de veicular conhecimento. Poder-se-á, por conseguinte, dizer que não foi uma escolha totalmente aleatória mas pouco faltou para sê-lo, por que já intencional, mais precisamente motivada pela necessidade de executar, ou experimentar nela uma teoria, a ver se dela resultava a confirmação ou negação das teses em si enunciadas.
Nas orelhas, tem algumas indicações sobre o autor e a colecção onde a Difel, que é a editora, o insere, mas não serão lidas nem achadas. Tem prefácio? Tem. Saltemo-lho, pois.
Distribuídos por 70 páginas, os títulos de cada poema são de natureza numérica, de 1 a 30 apenas, pelo que nem por aí se poderá fazer ideia do que conste, embora se saiba já que esse foi o número de moedas com que Judas vendeu, traiu, Jesus, coisa de que dificilmente podemos abstrair-nos sem fazer primeiro uma interpretação dos textos assim intitulados, pois é impossível apagar uma convenção desta natureza sem haver outra que a substitua de imediato.
No primeiro poema a autora reproduz uma partida para o infinito, que vai desde aqui a lado nenhum, mas dando a volta por fora, depois de hesitante e indecisa caminhar pelo Cais de Alcântara, constatar o seu degradado e conspurcado estado, podendo daí concluir que os marinheiros se olham os rios procuram as moedas de prata da sua traição às amantes, tanto aquelas apenas mulheres como as com quem assumiram algum compromisso ou namoro. No segundo já está "bandeirante" na Amazónia, no terceiro e quarto e quinto viaja nas veias do corpo, até entrar, no sétimo, em Santa Cruz onde se começa a trajectória pela infância de alguém.
E dito isto assim, parece que estou a relatar um jogo de carica entre dois imberbes que não sabem, não querem, nem gostam de tal jogo, mas não há outra maneira de falar num livro – de poesia – que tem como rodapé da ficha técnica a indicação de que é "Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do Editor", pelo que me é dado compreender como Fernando Pessoa teve uma sorte danada em ter vivido noutro tempo, e ter muito pouca coisa publicada, quando os rapazes da Presença lhe começaram a criticar os poemas, divulgando-o e promovendo-os, pois caso vivesse e escrevesse actualmente apenas chegaria ao papelão mais próximo, onde, por descargo de consciência e imperativos ambientais e de cidadania, iriam parar os seus livros depois de lidos frugalmente, em diagonal ou ziguezague, uma vez que quem se atrever a repetir, ainda que por motivos de apreciação, de interpretação, de análise e avaliação, os poemas ou parte deles só o poderá fazer com autorização dos editores, o que obrigaria a escrever-lhes uma carta (ou e-mail) para pedir-lha, que, se considerada a contagem dos caracteres por defeito, se sujeitava a ser maior que o livro todo.
Bom... Anda toda a gente a dizer que se lê pouco, os autores queixam-se do fraco sustento que a literatura lhes rende, os editores e livreiros lamentam a comunicação social que os não noticia, os planos de leitura são para "europeu" ver e o acordo ortográfico é uma pedra no sapato da indústria da publicação, que vai, de só uma assentada, desactualizar a fornada de edições (invendidas) que atravancam os stocks das editoras e livrarias, e lhes atulham os armazéns. Pois saiba-se que sol na eira e água no nabal, embora continue a ser tempo cobiçado, nem com as alterações climáticas é alcançado. E das duas, uma: ou querem crítica séria ou recato de virgem sem dote e vaginismo inflamado. Agora, ao mesmo tempo, as duas coisas, apenas as encontram na prateleira esquecida de algum hipermercado!

4.02.2008

capas de primeiros números de colecção

A capa em baixo é de Abílio Santos, para as Edições Surpresa, em 1956, e o texto foi revisto para português por Maria Julieta C. Viana, que não faço a mínima ideia de quem foi, mas pelo tratamento e relevo dado pelo editor, tudo indica ter sido uma personalidade de respeito na área.


E em cima, o nº 1 da Colecção Policial da Editorial Notícias, sem data, com tradução de Maria Antonieta da Silva Telo, e ilustrações de Júlio Gil.

4.01.2008

Arthur Schnitzler regressa ao READCOM

A próxima sessão do Grupo de Leitura Readcom – IPP, de Portalegre, a realizar no dia 8 de Abril, no sítio e horas usuais, recairá sobre a obra Casanova Regressa a Veneza, de Arthur Schnitzler, autor austríaco de origem judaica, médico, amigo de Freud e elemento do grupo de artistas Jungen Wien. Autor, aliás, do qual já, em sessão de ano anterior, se leu e discutiu A História de Um Sonho, na tradução de Maria Paula Couto, e sobre a que há registos de óptimas recordações, quer pelo conteúdo e análises suscitadas, quer pela dinâmica com que impregnou o GLP-IPP da altura.
Portanto, quem tiver lido o livro e queira participar nas actividades, não perca a oportnidade...

Olivença e Juromenha – uma história por contar


As Edições Colibri e a Livraria Dom Pepe apresentarão no dia 5 de Abril, pelas 16.30 horas, o livro


Olivença e Juromenha – uma história por contar

da autoria de Ana Paula Fitas

Intervenções de Moisés Espírito Santo, Professor (Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas); António Teixeira Marques, Jurista, (Presidente dos Grupos dos Amigos de Olivença); Lina Jan, Geógrafa (Cooperação Transfronteiriça – CCDR Alentejo).

3.20.2008

Icebergs, Neve e Muitos Pinguins: As Razões do Ano Polar Internacional

Representante português em vários comités internacionais, incluindo a Cambridge Philosophical Society, Cephalopod International Advisory Council (CIAC), Association of Early Career Scientists (APECS), Youth Steering Committee for the International Polar Year (YSC) e Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR) José Xavier, doutorado pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, actualmente investigador pós-doutoral do Centro de Ciências do Mar (laboratório associado da Universidade do Algarve) e da British Antarctic Survey (Reino Unido), faz investigação na Antárctica desde 1997, biólogo marinho com numerosas publicações na ecologia, conservação e gestão de recursos marinhos no Oceano Antárctico, Oceano Atlântico, Reino Unido e Portugal, tendo experiência em estudos interdisciplinares e em colaborações internacionais, membro do Comité Português para o Ano Polar Internacional, coordenador nacional de três projectos chave do Ano Polar Internacional, http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=20867&op=all , será quem irá proferir a próxima conferência do Ciclo de Conferências Na Fronteira da Ciência 07/08, uma iniciativa conjunta do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian e da Ciência Viva, no dia 26 de Março, pelas 18 horas, no Auditório 2, da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), intitulada Icebergs, Neve e Muitos Pinguins: As Razões do Ano Polar Internacional.
E nela se desvendarão parte dos porquês e fascínio das regiões polares, sobretudo "por terem componentes que nos atraem, tais como a neve, os icebergs, os pinguins e os ursos polares. Esta palestra focará a forma como estes elementos nos podem ajudar a compreender a importância das regiões polares em relação às alterações climáticas que estão a ocorrer no Planeta (num contexto português, ao nível histórico, científico e educacional), porquanto, e historicamente, Portugal foi um dos países envolvidos no início da exploração polar, logo no século XVI."
Aliás, conforme circular da organização, "nos últimos trinta anos, um grupo de oito investigadores portugueses desenvolveram estudos científicos na Antárctica, em colaborações internacionais com vários países, incluindo o Reino Unido, Espanha, Estados Unidos da América, Bulgária, França e Itália. No entanto, esses estudos têm sido desenvolvidos a título individual, sem estarem enquadrados num suporte científico nacional. Pela primeira vez na sua história Portugal está a participar num Ano Polar Internacional (API), o programa internacional científico e educacional sobre os pólos que decorrerá até Março de 2009 (consultar o site: http://anapolar.no.sapo.pt). O último API foi há cinquenta anos e este é apenas o quarto API (depois de 1882-83, 1932-33 e 1957-58).
Ao nível científico, Portugal tem realizado excelente ciência polar e tem tido um papel activo durante o Ano Polar Internacional. Nesta palestra, pretende-se ilustrar que estudos científicos estão a ser realizados por cientistas portugueses nos pólos, nas suas diferentes áreas (ciências atmosféricas, ciências biológicas, ciências da Terra e criosfera, ciências planetárias e astronomia) durante o API. Pretende-se também evidenciar a estratégia cientifica que Portugal tem para estes dois anos e qual o seu contributo ao nível internacional. De momento, os cientistas portugueses estão envolvidos em projectos onde estão incluídos mais de trinta países. Através do trabalho do Comité Português para o Ano Polar Internacional, Portugal já é reconhecido como parceiro científico polar, ao ser aceite pelo Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR). Portugal irá assinar em breve o Tratado da Antárctica, que define que este continente seja devotado à ciência e à paz.
Ao nível educacional Portugal está igualmente bastante activo, tendo um dos projectos educacionais mais reconhecidos internacionalmente. O comité Português para o Ano Polar Internacional, conjuntamente com a Associação de Professores de Geografia, elaborou um projecto chamado LATITUDE60!, cujos principais objectivos são educar a comunidade escolar portuguesa sobre as regiões polares, mostrar a importância determinante que estas regiões têm para a dinâmica e regulação climática do Planeta e apresentar a excelente ciência que os investigadores portugueses produzem nessas regiões, sempre com o objectivo de motivar as gerações mais jovens para as ciências e para as artes. Patrocinado pela Agência Ciência Viva, este projecto já tem cerca de cem escolas e quatrocentos professores envolvidos a nível nacional.
Finalmente, esta palestra pretende ilustrar a perspectiva portuguesa de “realizar ciência” e de viver num dos mais fascinantes locais do Planeta: a Antárctica."
Todavia, se se considerar a presente informação ainda não suficiente para motivar a ida a esta conferência, ou tiverem dificuldades de lá se deslocarem, poderão sempre assistir a ela em directo, pelo site:
http://live.fccn.pt/fcg/ (podendo no fim da conferência enviar por email as perguntas que entenderem para fronteiradaciencia@gulbenkin.pt ) ou solicitar mais informações sobre ela em www.gulbenkian.pt/fronteiradaciencia.

Lector in Fabula

"No máximo, existe apenas uma objecção, à minha objecção à objecção de Lévi Strauss: se até mesmo os reenvios anafóricos postulam cooperação por parte do leitor, então nenhum texto escapa a esta regra."
Umberto Eco

São partes essenciais do processo crítico, em literatura, desde que este esteja eivado de boa vontade e cooperação semântica, a interpretação, a análise e a valorização do texto, seja ele poema ou ficção, teatro ou ensaio. Todavia há pessoas, e que me desculpem a ousadia de chamar pessoas a este tipo de gente!..., capazes de avaliar a qualidade de um livro, sem que antes o tenham interpretado, muito menos analisado e nem sequer lido totalmente. Pegam num item do leque temático, em que mais à vontade estejam, aplicando-lhe seguidamente todo o seu saber sobre o assunto para, invariavelmente, sentenciarem de cátedra que os restantes capítulos estão a mais. Pretendem, não só saber mais que o próprio autor a propósito da obra, como também, e em superlativo grau, melhor desta acerca do autor ou como ele nela se revela. Melhor dito, já têm tantas ideias feitas acerca do quer que seja, que até para dizer mal de um autor e de suas obras, acham desnecessário pensar, ou procurar outras que pior digam, inovando assim o seu maldizer que apenas reflecte o seu não saber fazer, numa manifestação exemplar e típica daquilo que o povo português, sem eufemismos nem maneirismos de falsos católicos ou falsos ateus, empregando o vernáculo da sua estirpe vicentina, designa por dor de corno. A sinédoque é o seu cavalo de batalha, a ironia socrática o seu estandarte, o sofisma o seu florete, o tráfico de influências o seu escudo e a ignorância enciclopédica a sua estratégia contra toda e qualquer metáfora, ser estranho e extraterrestre ao seu linguajar narcísico, que tem por anáfora incansável o "ama-me" até parecer que sim, à força de tanta repetição, reproduzindo sobre os textos literários o modus operandi da política de massas, cuja propaganda, em mais não consistiu, do que usar o boato, a trocagem de dizer bem do que é mau, até que as estatísticas lhe confirmem os méritos e a sua eleição se verifiquem, demonstrando que o número, em vez de prova de quantidade, é prova de qualidade, pintando um arco-íris virtual e falso na sinestesia da sua existência(e obtusa alma).
Para estes críticos do quem não tem vergonha todo o mundo é seu ou água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mas que substituíram a água pelo ácido corrosivo da sua bílis afectiva, a sua destilaria de venenos pessoais, sugando todas as relações para o canal único e edipiano, ou elétrico, do amor-ódio, a qualidade de qualquer manifestação artística reside exclusivamente no seu grau de parentesco ideológico com o autor dela, com a simpatia ou tesão que lhes desperta, e nunca da genialidade ou eficácia, rigor, mestria, domínio da técnica e recursos que a suportam e sustentam. E em face deles, confrontados com a sua evidência, recusam admiti-los, nem que para isso tenham que confessar que não compreendem, que são burros e desinteligentes, uma vez que estão tão habituados a corromper, a justificar com os fins os usos de qualquer meio, que até a si mesmos corrompem e usam, utilizam e violentam, desde que esteja em causa defender a sua causa. Transformar uma grande merda numa obra prima, é tão fácil para estes críticos, e amigos da onça, como fazer o contrário, que é do tornar numa bosta a melhor e mais sublime das criações.

Os clusters de estilo, aquelas ideias ou figuras chave – alegoria, parábola, metáfora, sínquise, imagem, metonínia, sinédoque, ironia, elipse, palimpsesto, etc. –, convenções semióticas ou sistemas semânticos, capazes de impulsionar a criação de conteúdos, estruturas sintácticas e moleculares, inovar dentro de um determinado formato ou modelo, não passam para eles de academismos ou deselegâncias de intelectual armado em sabichão. Pieguices do não-sentir as lamechices do seu contentamento, do seu corporativismo ou, ainda, falange de gosto. Não lêem, não vêem teatro, cinema, pintura, fotografia, não ouvem música, nem admiram a paisagem ou a natureza, a não ser que essas manifestações de beleza possam servir para debitar os seus preconceitos, empurrar a sua falua, rumo à foz dos seus anseios e maquinações, interesses e teses de competição, directa e indirecta.
Conforme salientou Umberto Eco, num outro estudo, acerca da Interpretação e Sobreinterpretação, coligido e dirigido por Stefan Collini (p. 34), é reconhecida geralmente a lenda do califa que ordenou a destruição da Biblioteca de Alexandria, advogando ele que ou os livros diziam a mesma coisa que o Alcorão, caso em que seriam supérfluos (palimpsestos), ou então diriam coisas mui díspares e diferentes dele, caso em que estariam errados como nocivos, pelo que se tornariam igualmente inúteis e cuja perda seria um notório ganho para a humanidade, como, aliás, de facto é qualquer mal intencionada mentira. Portanto, o califa, além de conhecedor da verdade, possuí-a, e achava-se no direito de julgar/avaliar os livros sob o "espírito absoluto" dela, que em si mesmo seria também uma verdade absoluta. Pertencia à noite dos tempos, embora fosse o que melhor aprendizagem usufruíra e o mais sagaz espírito do seu tempo, não dos anteriores nem dos que se lhe seguiram, e muito menos deste tempo que é nosso, enquanto efeito dilecto da modernidade...
Ora, sendo nós apenas leitores e não fazedores de literatura, por mais que nos queiramos impor sobre a informação – sem a adulterar... – veiculada nos textos, literários ou não, podendo eles ser tão-só simples documentos cuja informação está "criptada" numa determinada mensagem, somente essa e não outra qualquer que poderia ser mas não é, o que faz deles aqueles textos ou documentos, e não outros quaisquer, se quisermos descodificar os que eles contêm, que há-de sobretudo ser traduzível num produto cognitivo ou conteúdo cultural, posto que sendo conhecimento tácito será igualmente conhecimento explícito, se não nos outorgarmos outros califas destruidores de livros, teremos de cooperar com o autor dele, como seu codificador inicial, até já não precisarmos dos sinais e marcas que o definiram para o percebermos, pois que assim, grosso modo, estaremos então aptos a avaliá-lo de acordo com a sua lógica, sensatez e gosto explanados, utilidade ou bem-aventurança que manifestem, quer conforme o resultado que dele colhamos, quer pela utilidade ou conhecimento tácito que nos facultou e podemos dar à informação contígua, como pelo conhecimento explícito que nos transmitiu, ou pelo maquinismo com que apetrechou (ou não) a nossa estrutura mental, na medida em que a reforçou ou abalou, consolidou ou degradou, reparou ou abateu, preencheu ou feriu, em termos cognitivos e de superação da vida, o nosso ser, enquanto personalidade plausível de estar entre os demais e influenciável pelo que lhe (e lhes) acontece.

Interpretar um texto, significa explicar por que razões as palavras dele, não obstante poderem significar diversas e diferentes coisas, significam precisamente aquilo que significam, e não carecem de demais ou quaisquer significações para que o entendamos, posto que sendo ler não somente soletrar – Albert Camus, nos seus Primeiros Cadernos, afirmava até que ler é compreender e compreender seria criar, aliás, posição radical que aqui não é subscrita totalmente... –, na tentativa de reconstruir a intenção do texto, distante essa da intenção do autor ao fazê-lo, decifrá-lo enfim, descobrir e enveredar pelos sentidos dele, para preparar a releitura que, essa sim, estabelecerá outras vias de análise, de aprofundamento, de sobreinterpretação, onde se verão esclarecidas, por observância das intertextualidades e entretextualidades vigentes nele, os voilàs e dejà vus passíveis de facilitar identificações, projecções e transferências fundamentais à empatia, e que concorrem para que aquele texto que lemos seja igualmente o outro texto lido mas cuja experiência nos modificou, bem como à nossa maneira de o acatar e entender, sem deixar de ser o anterior nem descambar no simples palimpsesto do primeiro que lemos, seja ele excerto da Bíblia Sagrada ou do Alcorão, da Gata Borralheira, do Assim Falava Zaratustra ou de O Principezinho, ultrapassando definitivamente o "wo Es war, soll Ich werden" (onde era Isso, devo ser Eu) freudiano, envolvido afastamento mas essencial, para reconhecer que, independentemente dos sete sentidos de cada um – gosto, tacto, ouvido, cheiro, visão, propriocepção e empatia –, ou das sinestesias que suscitem, estarem positivamente activos e actuantes, servindo para recuperar o objecto desconstruído, alvo do nosso interesse (o texto, neste caso) e não para o danificarem pela utilização, talvez distorcendo-o sob a nossa intenção ao lê-lo, quiçá destorcendo-o dela em seguida, até já nada do texto restar como intenção de si ou da do seu autor, quando se propôs a redigi-lo que, sem dúvida, nem sempre coincide com aquela que ele espelha depois de pronto.
(Quadro de Ian Cox)
A fábula está aí. Essa é que é a verdadeira fábula em que o animal falou, humano que seja esse animal, artesão no menos, alquimista da palavra, se bem sucedido. E saltar para dentro dela, para ver claramente visto o que nela ocorre, deduzir do seu texto, além do pretexto também o contexto, permitir que da polissemia dos significantes nasçam os constructos semânticos que a identificam, fazem dela aquilo que deveras é e não uma outra qualquer, quebrando a cadeia de palimpsestos que a submergem, emergindo então ela original, se original for, eis então o trabalho do leitor que, finalmente, terá sobre ela o direito de valorização, condenando-a ou absolvendo-a perante os seus juízos e valores.
Agora, se ao entrar nela nos abstrairmos dele, se da fábula não descortinarmos o texto que a elabora, a executa, a realiza, sucumbindo apenas às (primeiras) impressões que nos suscitou, isso pode entender-se como uma leitura desnecessária, uma vez que nós a não queríamos conhecer mas usá-la, coisa que poderíamos fazer com qualquer outra que ela fosse, para nos relatarmos nela, descobrindo-nos nela, revelando-nos não pelo que ela é, e sim pelo que pretendemos que ela seja, tornando-a não um palimpsesto de si mas um palimpsesto de nós. O que irremediavelmente provoca que todas as histórias sejam a mesma história, atribuindo plena razão ao califa (sem dúvida leitor monomaníaco, fundamental adepto da percepção motivada) da Biblioteca de Alexandria, que a queimou por desnecessária, perante a relevância do Corão.
Como os animais, as coisas também falam... Incluindo as palavras, os números, o quotidiano, as cores, as condutas, os objectos, os sujeitos, a memória, a experiência, os símbolos, os sinais. A cultura é feita disso. A arte, também. Principalmente, a ficção e a poesia... O romance e a verdade. A fábula, como a doutrina que lhe subjaza. E ao transportarmo-nos para dentro dela, metemo-nos fora (metáfora) de nós. Os clusters de estilo, são portanto, nesse sentido, estratégias facultativas desse ínterim. Reconhecê-las, ser permeável a elas, é cooperar com o texto, com a intenção dele, como com a do seu autor, que as usou para o balizar, tornando-o naquilo que é, de entre tudo aquilo que ele poderia ser.
Discernir entre as hipóteses possíveis a mais plausível, ou verosímil, é por conseguinte, a mais rudimentar forma de ler, logo, de interpretar, embora esta se revele, assim, como uma maneira de enfabular a fábula propriamente dita, seja ela de cariz realista (caso de consciência, gesta, enigma, locução), seja ela idealista (mito, memória, traço de espírito, lenda ou conto de fadas). Narrativa ou poema. Documento ou informação. Contexto ou conteúdo. Enciclopédico ou semântico, visto ambos veicularem conhecimento, tanto tácito como explícito.

Tal como nos edifícios, perante tantas aberturas (janelas, varandas, sacadas, etc.), desde que neles queiramos entrar naturalmente, sem excentricidades saloias nem intenções malévolas de saqueadores nocturnos, a melhor e mais inteligente, ou expedita, forma de o fazer, é utilizar a porta da frente, se estiver aberta, ou, caso o não esteja, usando a respectiva chave para abri-la, também aos textos, enquanto fachada da mancha gráfica, lhe devemos aceder pelo mesmo processo: pelo item por onde melhor falam – que sempre é o que mais nos surpreende neles, ou aquela característica sua que mais alterada esteja em relação aos outros da sua índole, ou então, pelo contrário, por aquela semelhança tão exaustiva e evidente em relação a alguns dos seus pares que impossível se tona não reparar nela, logo às primeiras e diagonais vistas. E, no caso da fábula, pela fala do animal, que principalmente por ser uma das suas características alteradas e simultaneamente semelhantes, logo alternativa, visto ser a fala aquilo que antes estaria vedado ao animal (ou coisa, ainda apenas que personagem seja...), embora o faça com características tão iguais às da fala humana, que nos chega parecer que muito superior em humanidade é do que quando usada por essa espécie, no seu corrente dia a dia, onde apenas o conhecimento tácito da língua é revelado, facto pelo qual o identificamos ora por narrador, ora por alter-ego, ora por sujeito, ora por voz polifónica, ora por protagonista principal, ora por objectiva que nos filtra, como amplia ou minimiza, a realidade candente nela, que é enfim onde o animal mostra a face hiperbólica da sua natureza, as suas aspirações maiores, os seus feitos superiores, o seu habitat e comunidade, as suas mais fantásticas aventuras e relações, quer com tudo isso como consigo mesmo, incluindo o protocolo do seu relacionamento (hiperligação) com o divino, o onírico e o paranormal. E, grosso modo, com o leitor. O espectador. O olhar do outro que obrigou o autor a meter-se fora de si para facilitar a comunicação com ele.
Eco chamou-lhe leitor-modelo. Todavia, adiante se verá porquê, na geração do autor-modelo, inerente aos modelos literários (narrativos como poéticos) que formatam não só o género, como igualmente a modalidade discursiva (discurso). Por enquanto, a suspeita recai toda sobre a palavra (signo: significante e significado) e o seu crime hediondo que é o de invadir-nos e alterar-nos. Bala que entra em nós para estilhaçar-nos a alma, sem se importar connosco minimamente, nem como no-la deixa, se num vitral perfeito e magnífico a transforma, se num escaqueirado espelho que estonteante e assustadora imagem reflecte. Bala que seja, fala que indubitavelmente é, é através dela que a História se revela na história, quando ela é história palimpsesto, ou que a não-História se revela na história, quando ela é história elipse, por exemplo. Uma pela (às vezes exagerada) presença, outra pela (não menos notória) ausência. Digamos que se a fala fala, o silêncio é outro falar que, em comunicar, a iguala. Logo, igualmente bala.
Em Ian Cox, por exemplo, o céu é vermelho e chove sangue, mas palpita-me que seja apenas tinta de guache sobre papel. Para Eva De Mul, D. Quixote montado no seu rocinante de rodas recicláveis tenta combater as gigantescas centrais nucleares com o protocolo de Quioto, espelhando uma vez mais a sonhadora alienação do cavaleiro da fraca figura. Ziek funde analisador e analisado na mesma cadeira de baloiço ou sofá de psicanalista. Entre o ventre e o seu interior há um voilá a revelar-se na concretização do dejà vu com que se nasce. Ever Meulen não se coíbe de indicar-nos que o estilo é um pensamento especial que serve de combustível ao protótipo de corrida em que molhamos a pena. E os clusters de estilo são a fechadura na qual cabe a figura-chave que há-de abrir-nos a porta da fábula onde o nosso animal (alma, inconsciente, pátria, língua, etc.) nos ensina quem afinal somos. Portanto, se interpretar é entrar no texto, analisar é descobrir as ligações entre a chave e a fechadura, o imbricado jogo entre arestas e ranhuras, que provoca o clique para vermos claramente visto algo que apenas tínhamos a impressão (suspeita) que existia. E após isso, mas só após Ich, depois do animal que fala ter sido superado (Nietzsche) ou suprimido (Amélie Nothomb), só depois de termos desenleado o fio da meada, é que nos é legítimo avaliar se esta ou aquela obra é boa ou má. Mas, nunca antes!
(De Bloedregen, 1975, de Ian Cox)



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