La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

5.15.2008

Duas Preciosidades

O Homem da Montanha

Dino Buzzati


Trad. de Rosália Braacamp


Capa de António Domingues


Colecção Os Livros das Três Abelhas


Publicações Europa-América, 1960

A Confidência Imperfeita

André Gide

Trad. António Ramos Rosa

Capa de Infante do Carmo

Colecção Miniatura

Livros do Brasil

Pequenas Maravilhas

Um Mundo Perdido
Henri Bosco



Colecção Biblioteca dos Rapazes


da Portugália Editora


Capa de João Câmara Leme


Trad. de Maria Helena da Costa Dias



Segunda página

9 Novelas de Antecipação Americanas


Trad. de Rafael Alberty


Capa de Miguel Flávio


Colecção COR de Bolso (nº 12)


Edição de Estúdios COR - 1964

E em terceiro lugar...

O Corredor
Jean Reverzy
Trad. de José Manuel Calafate
Capa de Infante do Carmo
Colecção O Livro de Bolso
Portugália Editora



Mundo Marciano, de Ray Bradbury

O Mundo Marciano
Ray Bradbury

Trad. Fernando de Castro Ferro
248 páginas


No poema A Invenção do Amor, de Daniel Filipe, um dos perseguidos apaixonados lia, ao momento, as Crónicas Marcianas, quando foi sequestrado pela urgência da dita "invenção", instante a partir do qual a sua vida sofreu uma transformação de 180 graus. Não havia no texto, como em rodapé, ou nota suplementar, qualquer referência quanto à autoria das Crónicas, mas mesmo assim lá desencantei o livro nas prateleiras amarfanhadas de uma biblioteca pública. Foi precisamente esse o meu primeiro contacto com Ray Bradbury. Por cunha, é certo, e sob a influência indesejável de um poeta, como, ao que parece, todos são quando se fala de literatura, pois nunca aconselham esses monos e pincéis chatos e cinzentões que aqueles que raramente lêem, ou quando o fazem, fazem-no com motivações "superiores" políticas ou moralistas bastante definidas e intencionais, costumam aconselhar, todavia com esforçada regularidade. Segui-se-lhe depois O País de Outubro, A Última Cidade de Marte, As Vozes de Marte, Fahrenheit 451, etc.
Porém, confesso que, talvez devido ao discurso um tanto atabalhoado e surrealista, o relacionamento inicial não primou pela facilidade amistosa, antes pelo contrário, pelo arrinca-finca da adolescência do "tu estás-te a armar em parvo, mas eu dou-te a volta". Digamos que, ao invés da sugestão romanesca do poema, que não acatei de maneira nenhuma, insurgi-me, blasfemei contra a sua narcótica marcíice, declarei-me ferrenho adepto de Vénus, chamei-lhe aqueles nomes feios típicos de quem anda a ajustar contas com a existência, pu-lo de quarentena nas minhas preferências de leitura. É que, mesmo na FC da fantasia e à semelhança das demais coisas sob as quais floresce a vida, exigia-me compreensão para o aprazível saboreio da sua escrita: primeiro estranha-se, em seguida tolera-se, depois gosta-se, e, finalmente, repete-se (gulosamente e com exaustiva sofreguidão). Até que nos viciamos na ementa e precisamos dum esforço sobrenatural para mudar de "prato".
Convém, contudo, salientar que a "surrealidade fantástica" do discurso de Ray Bradbury, é o supra-sumo de toda a sua obra. Não só porque usufrui de uma linguagem eivada de abundantes sinestesias e prosopopeias, polvilhadas de referências aos tempos do p.b. (preto e branco, para aqueles a quem ainda custa decifrar os enigmas que têm por separador o elo de um ponto final – e escusam de me perguntar o que é que isto significa, que também não sei!), num ritmo de lengalenga juvenil, repetitiva, insistente, aproveitando-lhe os nós aliterantes – provavelmente, uma peculiaridade mais fácil de reconhecer no inglês de origem, coisa a que sempre fui adverso –, mas também porque com ela consegue montar um universo significativo tão díspar do comum, que lhe dá a volta pelo contrário, e nos parece igual ao linguajar de todos os dias, formando em cada livro uma extensa prolepse figurativa (descrição de um acontecimento esperado como se ele já tivesse acontecido), assaz prometedora para a compreensão da realidade, enquanto espaço-quando sócio-cultural, que se insinua e nos dita que "amanhã é já ontem", e que, em realidade, nos pede que concordemos em discordar, pelo menos aqueles que se consideram humanos e resistentes, que não entregam os seus foguetões para que os governos façam as guerras atómicas, em ou por pura diversão, não atiram a toalha ao chão perante as contrariedades da globalização, nem se limitam a ser mais uma alucinação sensorial de entidades (supostamente) superiores.
Enfim, que se forma na constante e contínua fuga ao contexto, apontando sucessivos planos e plataformas numa progressão aos socalcos, de patim para patim, de nível para nível de entendimento, características de uma estrutura narrativa a que não podem ser alheias influências de Edgar Allan Poe, Garrett, Lord Byron, Sthendal, no contraponto intertextual, numa aberta, frontal e declarada oposição, quer ao atomismo individualista, quer ao realismo, como demonstrações confessionais de uma fraqueza, duma fragilidade, duma infinitesimal pequenez que só os grandes homens são capazes de em si mesmos verem, de admitirem, e que os leva a combater a ansiedade daí resultante, numa obra com a radicalidade da postura futurista, romântica e de terroristas fantásticos, armados até aos dentes com palavras-bombas, suicidas da memória, kamikazes da imaginação, mercenários da arte. Em resumo, e em apenas duas palavras, marcianos da Terra – ou, terráqueos de Marte!

5.13.2008

Mary Anne, de Daphne du Maurier

Mary Anne
Daphne du Maurier
Trad. Maria Irene Daun e Lorena
424 páginas

Mulher e escritora inglesa que atravessou quase todo o século passado (1907-1989), Daphne du Maurier é sobejamente conhecida entre nós, não só como acontece no resto do mundo, pelo reconhecimento natural do seu estilo, peculiarmente atraente, fácil e objectivo, isto é, que vai direito aos assuntos que quer escamotear, sem chicoelinas nem maneirismos, mas também porque a quase totalidade da sua obra – contos, romances, memórias, biografia – foi intencionalmente traduzida para português, de cá como de lá do Atlântico, onde títulos como Rebeca, O Outro Eu, A Sorrir Também se Vence, Os Pássaros e os Outros Contos Macabros, A Pousada da Jamaica, Prima Raquel, Voo do Falcão e a Casa da Praia, se tornaram familiares aos leitores, incluindo os mais escrupulosos, como a cinéfilos, uma vez que destes derivaram outras tantas adaptações cinematográficas, que o circuito comercial nos facultou. Mas é da história "verídica" da sua trisavó, Mary Anne Clarke, ou de quanto verídico ainda se podia coar das narrativas familiares, sobretudo acerca de uma pessoa que terá falecido em Bolonha, a 21de Junho, de 1852, logo há mais de um século e passado pelo crivo de duas gerações distintas, que a autora foi buscar o enredo e motivos descritivos deste romance, extraordinário sem dúvida, onde o retrato do tempo se cruza com um ambiente de sedução e sexo, tendo a alcova por antecâmara do poder cortesão, num intrincado de escândalos da alta sociedade, de corrupção e vitalidade das ruas londrinas, com uma pícara heroína não menos corrupta, não menos arrivista e, principalmente, também não menos torcidinha e credível.
Mulher bem dotada fisicamente, quer dizer, senhora de encantos vários, além de possuidora de uns angelicais olhos azuis, pois então, que escondem o frio calculismo da sua dona, nariz arrebitado e cabelo castanho-claro, o que mais arrebatava, ou electrizava quem com ela deparava, em Mary Anne, era porém o seu sorriso, que parecia troçar indiscriminadamente tanto de quem gostava como de quem desprezava, confundindo para reinar e reinando seduzindo, enredando pela dúbia teia, as vítimas da sua atenção. Sacrificada, oprimida, pobre, oriunda do sopé social e pouco escrupulosa, decidiu pôr a sua beleza ao serviço da sua libertação, numa carreira ambiciosa, e como trampolim ideal que lhe facilite a ascensão desenfreada. Só que depois não consegue parar e lança-se, graças ao seu desmedido amor pelo dinheiro, ou poder que dele advém, num ciclo de ousadias perigosas e nada honestas, que culminam no vender de comissões militares, tráfico esse que deu origem a mais um escândalo que, na época, correu mundo e abalou o país, além do que obrigou o Duque, o aristocrata da sua garantia, a responder perante o parlamento, assim como ameaçou fazer ruir a sua fortuna pessoal. Aliás, fenómenos de outros tempos, embora pouco estranhos aos actuais, o que, indubitavelmente, empresta a este romance a sua validade clássica, como um direito de estilo... e género.

5.12.2008

poetasportuguesesdoseculo21: sara costa

poetasportuguesesdoseculo21: sara costa

António Botto: Real e Imaginário

António Botto: Real e Imaginário
António Augusto Sales
256 Páginas

Canção Mutilada

A tarde cai amaciando a terra,
E enchendo-a de miragens tentadoras
Enquanto o sol,
Nos últimos alentos,
Se prende nos galhos de um arbusto
Que, ressequido, à beira de uma ermida,
Parece o próprio símbolo da Vida.

De enxada ao ombro, alguns trabalhadores,
Pisam o pó e as pedras dos caminhos
– Como bandeiras humanas
Movidas pelo infortúnio,
Sem alegria, sórdidos, curvados
Mas enormes no seu frémito de luta!

Ah!, nem a morte quer os homens
Quando eles são desgraçados!
As estrelas lá, no alto,
Riscam cintilantes brilhos.

E em bandos –
Os maltrapilhos,
Silenciosos e ateus,
Zombam do Amor
E até de Deus!
A miséria
Quando atola
O homem nos seus negros labirintos,
Dá-lhe, também, a loucura
Dos mais trágicos instintos...

Agora, neste momento,
A noite –
É uma imensa realidade...

E eu julguei ver a Justiça
Afundar-se na penumbra
Da sua inútil realidade.


(Poema de António Botto, que encerra o livro de contos Imagens do Alentejo, de Henriques Zarco, nº 2 da Colecção Amanhã, edição da Imprensa Artística, Lda., em 1936. )

António Botto era homossexual assumido, gay praticante e maricas confesso, não obstante ser casado com uma inteligente e linda senhora. Aliás, o primeiro de uma plêiade de "travestidos" sexuais que ainda hoje prolifera no universo das artes e letras nacionais, europeias ou mundiais, e em grande parte tem feito delas o ninho das tendências marginais. No entanto, é inegável que também era um genial poeta, um extraordinário fabulador e maravilhoso contista, um exemplar dramaturgo, um tradutor sofrível, um letrista respeitável, e um espectacular fadista, arrebatado declamador e convicto versejador, quer no dizer pausado, quer no improviso. Escritor de canções, colaborador dos jornais, boémio e dandy da Alfama bairrista da primeira metade do século passado, que se vangloriava de ser o primeiro pederasta lusitano com reconhecimento oficial, chegando mesmo a mandar imprimir cartões de visita com tal "classificação", foi por muitos considerado o Frederico García Lorca português, mas sem a morte, embora não menos trágica, nem iguais preocupações, na vertente sócio-política, que as do celebérrimo granadino da Geração de 27. E nesta obra se tenta situar, definir, o espaço-quando por que o circunvagou, a que pertenceu, assim como especificar-lhe a faceta e perfil, os relacionamentos, as paixões, fraquezas, limitações e obra, sem cair nas vulgaridades e clichés que tantas vezes entorpecem o género biográfico.
Companheiro de tertúlia e protegido de Fernando Pessoa, conhecido de Régio e amigo de Vilarett e Beatriz Costa, "disse" poemas e declamou como mais ninguém (daquele tempo), aproveitando as nuanças da voz, o efeito das inflexões, a musicalidade do ritmo, num jeito próprio que fez escola, sem que jamais se sentisse incomodado pelo facto de, na Lisboa do seu dia a dia, as pessoas continuarem descalças, cultivando e conservando hábitos, tão socializados, educados e ribeirinhos, como o de estender a roupa encharcada à janela, gotejando torrencialmente sobre os transeuntes, ou de escarrar para a rua sem sequer averiguar se alguém vai a passar nesse ínterim. Espírito de irreverente quadrilheiro, pregoeiro de boatos e vingativo nos desamores, praticou o exercício da má-língua tão vorazmente que o baptizaram de A Serpente, tal era argúcia e mordacidade de sua feminidade venenosa, consolidando o cosmopolitismo de Álvaro de Campos, e o que levou "alguns" a considerarem-no, de certo modo e justificadamente, também mais um, ou outro heterónimo do poeta da Mensagem, na medida em que Pessoa se reviu e realizou igualmente na poesia dele, além de na vida que a ela correspondeu. Enfim um contista que escreveu sonetos nos guardanapos das mesas de café, cantou o fado nas tascas severinas e marialvas, solitário frequentador do Martinho da Arcada, visitou diariamente as capelinhas livreiras do Chiado (Bertrand, Sá da Costa e Portugal), e que borboleteando vagueou entre as prostitutas e gigolôs, as bailarinas, pintores, escritores, jornalistas, actores e demais refugiados, na capital, do provincianismo e moral do seu tempo.

5.10.2008

Crisfal, de Cristóvão Falcão

CRISFAL
Cristóvão Falcão

Será ainda possível o arrebatamento estético pela linha do exotismo regional? E que espécie de exotismo resistirá depois que a globalização pôs o mundo todo à nossa disposição? Ali, à exacta distância de um clique? É – responderei –, pese embora o termos que procurá-lo em dois tempos (im)possíveis: no passado ou, mais esforçadamente, no futuro. Que quem o quiser no amanhã, outro remédio não tem, senão descobri-lo na literatura de antecipação, a ficção científica. E quem o preferir pretérito, há-de recorrer às matrizes originais, subterradas no passado, como na Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, ou na Crisfal, de Cristóvão Falcão, por exemplos... Mas, do que não poderá esquecer-se, é que a Odisseia do Homem se faz na procura de si mesmo, o que significa que a adivinhação do futuro só resulta quando fecha o círculo, e mais não é do que uma outra forma, ou retoma da ancestralidade!
Se então optou pela primeira, saiba que vai ficar a cada parágrafo em suspenso, enleado, enredado numa trama de frases e mistérios, sentimentos esculpidos em renda macia, capaz de lhe desenterrar emoções profundas e ideias iniciais, da estirpe das que com que já muitas vezes se deparou mas desconhecia de onde lhe nasceram. E tudo isso, numa linguagem cujo vocabulário e hieróglifos sentimentais, mesmo quando os termos são assaz estranhos ao linguajar corrente, por desconhecidos ou arcaicos, com a musicalidade da natureza e das paisagens deste torrão das fraldas ibéricas, onde as campainhas dos rebanhos e os címbalos dos ventos se repercutem. Tanto, que é como se nos viessem de dentro, do nosso inconsciente recôndito, precisamente daquele ponto de intercepção em que o individual toca o colectivo, se lhe entrelaça, e forja a etimologia da cultura. Não só porque invoca a génese da nossa língua, mas também porque transmite aquela singela sensação de quem está alfim de regresso ao seio materno, onde todos os regatos se cristalizam no deleite das horas.
Depois, como a irremediabilidade característica que assiste ao inevitável, constatar-se-á que o discurso literário actual nasceu da narrativa oral, e que a nossa história antes de escrita foi falada até nos fadar naquilo que somos. De quanto nele é possível observarmos o palimpsesto da oralidade, de tal modo, que apetece lê-lo em voz alta só para nos ouvirmos dizendo-a, à medida que a vamos vivendo. Cair na magia da palavra dita, sussurrada ao canto da lareira, sob o dançar fantasmagórico das sombras que as chamas activam e despertam. Que era como se refazia o sonho, se transmitia a moral, os costumes e as ideias, se compunha a noção de beleza e de liberdade, dando-lhe por cercadura os lintéis da vontade, dos valores, da honra, afecto e glória. Porque era com eles, que as gentes edificavam as portas prà vida, com que os homens eram esculpidos, talhados, determinados, programados, no heroísmo de sobreviverem sendo felizes. E fieis. Principalmente fiéis, ao seu amor, ou à sua rainha – deusa, dirão alguns, a quem a veia mística ainda não fez perder o tino.
Porque das éclogas se conta pouco, quando foi muito o seu cantar, neste recanto onde o pastoreio se fez, sobretudo, com rebanhos do sonhar. E, "no que toca à substância das ideias, ao temperamento", afiança Rodrigues Lapa, "aquela espécie de pudor que se nota nas éclogas de Bernardim Ribeiro, deu lugar, no Crisfal, a uma sensualidade picante, dum realismo por vezes atrevido. Em meio dos seus queixumes e desfalecimentos, sentimos que Crisfal é um homem que luta e sabe gozar a vida." Alguém de Portus Alacer...
Ficando, adianta ele no seu prefácio, "pois demonstrado, sem sombra de dúvida, a nosso ver, que foi Cristóvão Falcão de Sousa, fidalgo de Portalegre, o autor da écloga Crisfal e da carta em verso. As outras hipóteses apresentadas, em torno da questão, não têm fundamento, uma, de Patrocínio Ribeiro, formulada em 1917, pretendeu ver no poema uma composição de Luís de Camões, e no entrecho a narração dos amores de Jorge Silva pela infanta D. Maria. É um produto daquela imaginação delirante, que estraga muitas vezes o crítico em Portugal. A outra, apresentada em 1940 pelo professor António José Saraiva, supõe o Crisfal como composto por Bernardim Ribeiro, em torno dos amores de Cristóvão Falcão. Além de tudo quanto se tem dito sobre as circunstâncias da vida e particularismos de estilo, não é razoável figurarmos um homem como Bernardim, já velho, torturado pelo seu drama pessoal, de que só sabia falar, metido a celebrante de amores escandalosos de um rapaz. Isto admitindo mesmo que Bernardim Ribeiro estivesse em estado mental de o fazer, o que era duvidoso."
Por mim, confesso-me suficientemente elucidado. Quanto aos demais, experimentem lê-los, a ambos, e depois avaliem sobre a justeza desta paternidade!

5.09.2008

Auto da Alma, de Gil Vicente

Embora com edição nacional, este livrinho foi comprado (em primeira mão) n’A ALENTEJANA, Livraria-Papelaria, situada na Rua 19 de Junho, 17 a 21, em Portalegre, propriedade de Maximiliano Andrade Ratto, e servia de apoio ao estudo do teatro vicentino que, à época, era de leitura (interpretação e análise) obrigatória para os cursos liceais (e técnicos: industrial e comercial). Trabalho exímio, preciso e exaustivo, complementado por um glossário essencial, de autoria de autores portalegrenses, foi, com apenas 69 páginas, um dos livros incontornáveis para quem cursou outras letras, além das primeiras, na altura – décadas de 1950/60.

5.08.2008

Despeço-me da Terra da Alegria

Despeço-me da Terra da Alegria
Ruy Belo

O prefácio na edição é de outro poeta, João Miguel Fernandes Jorge – autor de livros como à Beira do Mar de Junho, Porto Batel, Actus Tragicus ou Direito de Mentir, entre outros, dos quais podemos destacar Os Poucos Poderes, de colaboração com Jorge Guerra e Ruy Belo –, e assinado da Consolação, pelo S. Martinho, de 1978. E de Ruy Belo se disse quanto havia a dizer nos mais diversos suportes e mass media. Contudo vem a propósito relembrá-lo, e à sua poesia, lendo-a como nomeando-a, que sendo diferentes uma coisa e outra, porém muito têm de igual, não nos meios mas nos fins, que é a melhor homenagem que se pode fazer aos poetas, vivos como defuntos, e assim se vão da lei da morte libertando. Mais ainda: nela, edição digo, é acrescentada à de 77, da Inova, o então inédito Enganos e Desencontros, que sem dúvida é o mais perfeito exemplo e característico do estilo, pejado de trocadilhos e andanças figurativas, com que o autor nos prendou. Que neste se dá por inteiro o jeito de poetar de quem teve por único desporto a versificação, ou trocou os tempos e as estações por três ou quatro palavras.
E quando se diz "característico do estilo" quer afirmar-se que, em Enganos e Desencontros, mais do que em qualquer outro poema seu, se notam a extensão significativa dos encavalgamentos, os versos longos e livres, a rima interna, a aliteração insistente e predominante, que nos impõem um ritmo de leitura, uma fluência, uma cadência oral, muito próximas da ecolalia e da lengalenga, mas sem os seus aspectos fastidiosos, exaustivos, monótonos e infantis desta espécie de composições, nem o seu carácter ligeiro e falho de profundidade e sentido humanitários, em que as palavras perdem consistência semântica e mais se valorizam pela convergência fonética e rítmica. Como, por exemplo, se nota no excerto

Que alguém ampare o que for que em nós espere
que alguma coisa dure antes de ir-
se embora ó morna urna eterna e nocturna

ávida e lêveda dúvida lívida mas tórrida
parássemos e víssemos e velhíssemos nos embrulhássemos num
sensual servil lençol sob o docel azul e mole
A área da matéria é vária e etérea
o átrio é pétreo e vítreo
mas a larva ou a erva que sirva pra que a água ferva
que a vida a não absorva nem a ponha turva
que o debate debite azeite por quem opte e lute

onde o efeito da aliteração, em vez de aliviar a carga do significado, porém a multiplica, a reforça, a intensifica, estabelecendo novas linhas de continuidade ou cumplicidades entre o autor e o leitor, a arte e o objectivo dela, a linguagem e a comunicação, as formas e os conteúdos, sempre renováveis a cada verso, a cada estrofe, a cada parágrafo, a cada nova interrogação que, afinal sempre outra a si mesma se repete. Porque é essa a essência fulcral da poesia de Ruy Belo: a insistente tentativa de responder à sempiterna pergunta "o que é o amor?"
"
que já há quatro séculos se entoa
hão-de rasgar a noite portuguesa
as raparigas de lisboa
e eu hei-de voar ao vento do momento
Dizias qualquer coisa? Esta manhã? Perfeitamente
"

5.07.2008

Sem Papas na Língua

Sem Papas na Língua
Beatriz Costa


Beatriz Costa privou com pessoas da estirpe de Aquilino Ribeiro, Almada Negreiros, Vieira da Silva e Arpad, Ribeirinho e Vasco Santana, Zélia Gatai e Jorge Amado, Cármen Miranda e demais etecoetras de igual nomeada, que para os citar a todos tornaria esta peça num grande pincel, tipo Páginas Amarelas do Jet Set intelectual da época. E viveu cada momento da sua carreira com entrega ímpar e profissionalismo extremo. Cortou amarras, rasgou fronteiras e estabeleceu novos horizontes para a representação, quer teatral, cinematográfica, como da revista à portuguesa, que é uma espécie de cozido com todos e todas as artes do espectáculo. Mas sobretudo, foi a mulher que assumiu a sua sexualidade sem preconceitos nem tabus, negando a hipocrisia da (in)fidelidade, do amor a horas e por contado, e se não deixou alguma vez usar pela ingenuidade das paixões. Enfim, fez há setenta anos o que hoje é comum e banal entre os rapazes e raparigas que se libertam das dependências sexistas, dos caminhos feitos por caridade, e preferem rasgar no solo comunitário o “Erasmos” dos seus próprios trilhos. E é precisamente esta a principal causa da sua representação aqui.
Com apenas 1,58 metros de altura foi uma das maiores mulheres do seu tempo, que não só em Portugal se souberam afirmar, e sem nunca descambar no facilitismo de conveniência, nem hipotecar a sua dignidade. De resposta pronta e acutilante sentido crítico, mordacidade saloia e humor frontal, cruzou as parangonas dos dois hemisférios com a mesma naturalidade com que comeu a fava-rica em Lisboa ou abraçou a paternidade mafrense (da Malveira). Esteve à beira de ser violada com cinco anos de idade e, aos nove, já sabia tudo sobre a vida, ou mais particularmente, de como ela se iniciava e o que era preciso fazer-se para detoná-la. Cursou na Sorbone e não pode tirar a carta de condução por não ter diploma comprovativo de como sabia ler e escrever. Nunca se deu – ou cedeu!... – à política, como também nunca pactuou com o poder. Foi chamada por Carmona e Salazar, e privou com Vargas. No entanto, jamais esqueceu a sua ascendência humilde e tudo quanto fez foi para reabilitar o seu povo. Principalmente quando o retratava nos seus quadros, o imitava e reflectia, no seu pitoresco e rusticidade, sem que alguma vez sequer os visados não se rissem com isso, não lhe repetissem a pilhéria, ou não lhe devotassem ainda mais admiração e ternura. Acarinhada como filha de pobre, nunca teve casa própria, vivendo sempre em hotéis e pensões, cujos serviçais tomou por família, e que a serviram com orgulho e esmero.
Se foi amargurada, ou lhe pesou o fardo em demasia, disso não saberemos, que aos que a prejudicaram perdoou, para os que a exploraram foi generosa, e para os que a traíram foi justa e sem mágoas ressequidas, que o que havia a dizer sempre o fez na hora e sem mandar recado por ninguém. Não foi como escritora que redigiu estas memórias – e confessa-o. Foi como pessoa que não quer incorrer no mais brutal dos pecados: o esquecimento. Esquecimento dos outros, esquecimento de si, esquecimento dos factos e esquecimento das ideias ou criações. Daí que ao lê-lo cada um de nós seja confrontado com uma surpreendente simplicidade narrativa, e de meter inveja a qualquer escritor. Sobretudo dos que aspiram a “falar” com o coração nas mãos e a caneta na alma, ou por alma. Cuja tinta é o sangue dos seus. Um relembrar para quem já leu, e um alvitre para os que ainda o não fizeram, recordando-lhes como estão dentro de tempo para o poderem fazer. É uma biografia alinhavada em crónicas, num jeito leve e temperado, popular, divertido – como aliás a sua autora, mulher de referência na vida e no espectáculo, grande na alma e enorme no talento. E essas estão sempre actuais, por que exemplares, também souberam crescer imprescindíveis.

5.03.2008

Herbert Read - A Filosofia da Arte Moderna





A Filosofia da Arte Moderna
Herbert Read
Título original: The Philosophy of Modern Art
Tradução de Maria José Miranda
1ª Edição: Londres, 1952
Editora Ulisseia


"(...) nos perguntamos pelo significado e natureza da existência. (...) Mas na liberdade da resposta está a poesia; a arte é a afirmação, a aceitação e a intensificação da vida." (Pagina 112, Ensaio V, Realismo e Abstracção na Arte Moderna)

As questões que se levantam à (filosofia da) arte, são hoje as mesmas que se levantavam em 1952, data da primeira edição do livro? Para onde caminha a arte moderna? Para a arte contemporânea. E muita da problemática envolvente nela, que a caracteriza e conforma, também transita, pois os seus principais problemas são comuns em ambas.
D
aqui, talvez, a justificação utilitária da leitura da presente obra. Isto é: na medida em que alguns problemas com que a arte moderna se confrontou (da ordem dos factores económicos e movimentos sociais; consequências das primeira e segunda Guerras Mundiais; o protectorado do Estado Mecenas e/ou a ausência dessa circunstância; a filosofia enquanto motivadora e destinatária da actividade criativa e artística; o problema da liberdade do artista perante o significado e natureza da existência; as correlações directas e indirectas entre as tipologias psicossomáticas e as correntes teórico-estéticas; etc.) são exactamente os mesmos e assumem uma correspondência imediata com os da arte contemporânea, embora esta se veja eivada de novos problemas derivados da variedade de suportes e veículos, como na sua estrita funcionalidade, utilidade e recursos técnicos, é igualmente premente e encontra-se em "elevada" actualidade um debate colectivo que insira a arte (pintura, escultura, literatura, fotografia, cinema, etc.) no discurso filosófico, não só para definição e enunciação das diferentes formas de beleza, ou de como ela se processa e manifesta, assuntos em que é prolífera a estética, nem pela confrontação e efeitos dos recursos técnicos disponíveis, campo convencional da crítica, mas sim no sentido de compreender dialecticamente como a evolução do pensamento reverteu a favor, ou a desfavor da arte, do conhecimento e da formação cívica, ou participação democrática e grau de cidadania, na medida em que detonou e disponibilizou novas teorias e conjecturas, conceitos e enquadramentos, a que os artistas recorreram como base de sustentação estrutural e semântica para as suas obras, e ainda recorrem, independentemente dos públicos alvo ou materiais que as suportem, as divulguem ou as elejam nos rankings nominativos para o primeiro quartel deste século (e milénio).
Por outro lado, a ideia que a "arte é o laboratório das filosofias", já na Era Moderna a arte usufruía de tal estatuto – aliás evidente, por exemplo, na aceitação do Freudismo no Cubismo e Surrealismo de Pablo Picasso, em pintura; ou nos Existencialismos, quer de Jean-Paul Sartre como no de Albert Camus, que foram sobejamente ensaiados e experimentados nos seus romances ou peças de teatro; ou os excessos de Marx e Hegel vislumbráveis nos Neo-Realismos português e europeu – por quanto a sua anuência popular derivava directamente do modo como participava na sociedade, nela era reconhecida, e se processava de acordo com os maquinismos de empatia-identificação-transferência comuns ao que hoje, grosso modo, é usual definir-se como parâmetros de funcionalidade e utilidade essenciais ao produto artístico.
Herbert Read executa, com propósito e conhecimento de causa, o salto exemplar de uma teoria da sensibilidade para uma teoria do conhecimento, através da interpretação e análise da arte, e consequente descodificação semiótica, o que, por analogia, se estende às naturezas ambientais e humanas, arqueologias profundas da sociedade da comunicação, para cimentar, recorrendo ao cariz antológico dos ensaios críticos subjectivos sobre estética (Estética – século XVIII, Baumgarten, 1750, fundamentada nos alicerces etimológicos aisthanesthai, perceber pelos sentidos, aisthètikos, que é dotado de sensibilidade, e aisthesis, sensação ou sensibilidade, que teve por objectivos e objecto a identificação das motivações, a avaliação, a análise, a descrição e interpretação das reacções particulares, como do grau de satisfação e gozo provocados pela percepção imediata mas total dos objectos naturais ou artificiais apreendidos como signos desligados, logo distantes e separados do mundo de consumo e/ou isolados do seu eventual valor de uso), que abarcam no seu todo temas díspares e contraditórios como Realismo e Abstracção, Surrealismo e Romantismo, Simbolismo e Expressionismo (5º e 6º Ensaios) e ensaios biográficos, opiniosos, em que escamoteia a relação criador-obra, pondo ênfase em exemplos dessas mesmas correntes (7º Ensaio, sobrePaul Gaugin; 8º Ensaio, sobre Pablo Picasso, de quem é a gravura de capa, na edição portuguesa; 9º Ensaio, Paul Klee; 10º Ensaio, Paul Nash; 11º Ensaio, Henry Moore; e 12º Ensaio, Bem Nicholson), para nos elucidar que considera a filosofia, não como uma atitude de resignação serena face aos caminhos da existência, mas sim um saber racional (tácito, explícito e sistemático) radical, que incide sobre a totalidade do real e dá deste uma explicação última. Espécie de ferramenta de socialização e participação activa nas sociedades. E da sociedade.
Tal como o autor afirma no prefácio, o método adoptado "pode chamar-se de filosófico porque é a afirmação de um juízo de valor", logo uma estética ilustrativa da ética, e ainda porque a abordagem em termos de realização de contrários, posto que "em dialética a tese e antítese são factos objectivos, e a necessidade de solução ou síntese vem da existência de uma contradição real (página 123, 6º Ensaio), de que resultam fórmulas de acutilância bastante abrangentes, lúcidas e enunciativas como Realismo x Abstracção = Surrealismo (Ensaio V), ou Romantismo x Classicismo = Surrealismo Humanista (Ensaio VI), matematicamente capazes de nos proporcionar compreender as divergências e convergências comuns entre esses três modelos típicos de ordem, proporção, simetria, equilíbrio e harmonia, que caracterizam a unidade artística, por oposição à unidade boçal dos objectos (ou produtos) não artísticos de relativo valor de consumo e uso.
O termo Moderno, que designa de modo assaz peculiar, uma sociedade cujas cultura e civilização são dominadas pelo saber e pela ideologia científica, em óbvia ruptura com o sistema de pensamento mítico dos povos primitivos e tradicionais, implica transformações profundas aos níveis técnico-económico, estrutural e político, que rasgam e dilaceram os padrões ideais. Sempre relativa, mesmo quando é determinante, a modernidade não exclui a primitividade, mas apenas tenta discipliná-la com resultados diversos e consoantes ao momento histórico, pois os níveis estéticos acordam perante os sectores das sociedades modernizadas, num esforço de aptidão por inadaptação, como foi o caso de Paul Gaugin, que sendo alguém da Era Moderna alcançou a modernidade pela revolta contra a civilização modernista, partindo para o Pacífico, para o calor e cor exuberantes, para a inocência e ingenuidade do exotismo, de cuja oposição a sua obra é a síntese óbvia e evidente, exemplo nítido de quem substituiu o amor de Deus pelo amor da Beleza, numa entrega total e missionária à arte, despojando-se assim de tudo quanto lhe era alheio, como as condicionantes familiares, económicas, religiosas e consumistas, que poderiam sustentá-la (ou absorvê-la).
Estávamos, então, na era "da arte pela arte"? E da ciência pela arte? E da filosofia pela arte? Ainda estamos. Como dizia Pablo Picasso (Ensaio VIII), "todos sabemos que a arte não é verdade", "é uma ficção que nos permite reconhecer a verdade – pelo menos a verdade como se apresenta à nossa compreensão." E isso comportou a inteireza da subjectividade relativamente acentuada da arte moderna: conforme o artista entendia o mundo, e a vida, assim os representava. Apetrechado de todos os conhecimentos teóricos e científicos da primeira metade do século passado, como bagagem de recurso, enfrentava a vida e extraía dela a sua sobrevivência, bem como a sua maneira muito peculiar de a redefinir. Simbolismo, cubismo, surrealismo, naturalismo, integralismo, expressionismo, impressionismo, neo-realismo, foram tão-só alguns exemplos dessa maneira de representação e dessa visão da vida, digamos filosofia, que por tantos outros personagens e interpretes dela se realizou, e nelas se acorrentaram, dos quais Paul Gaugin, Pablo Picasso, Paul Klee, Paul Nash, Henry Moore, Bem Nicholson, etc., foram expoentes radicais de execução, mas não os únicos praticantes. Uma arte sem maniqueismos, ou para além dos moralismos abjectos dos conceitos de bem e de mal, de certo e errado, feio e bonito, desejável e indesejável, útil e inútil, que apenas tinha por cenário testemunho dessa luta entre a vida e a morte da natureza, em toda a sua pujança primordial, a sua força impulsiva na necessidade de eclosão, sob os eixos dicotómicos do realismo/abstracção e surrealismo/romantismo, em exemplo do que então a sociedade era: uma autêntica confrontação entre a produção e o consumo. Entre o socialismo e o capitalismo. Entre materialismo e idealismo. Enfim, entre colectivismo e individualismo. E que na arte encontrava a sua síntese.
Em resumo: a arte moderna foi a antecipação, no tempo e modo, da sociedade de comunicação contemporânea. Quando a colisão entre os interesses essenciais entre a sociedade de produção e a sociedade de consumo se deram, esta confrontação antiética gerou uma nova maneira de assimilar as suas incompatibilidades: a arte, dita moderna, um meio termo entre o design industrial e o artesanato primitivo e secular, que os ultrapassava e suplantava graças à bagagem cognitiva e científica disponível, restos e vanguardas dessas sociedades. Uma espécie de loucura, mas uma loucura que se confirmou sã. Como onírica mas estabilizadora, de recompensa para o stress da competitividade múltipla (e colectiva). E, a não ser assim, como compreender o arrebatamento e êxtase face ao absurdo sortilégio transmitido frente a quadros de Dali, Picasso ou Klee? Ou a uma escultura de Henry Moore?
Todavia, Herbert Read, no conjunto dos textos, na generalidade dos capítulos, manifesta um ecletismo sintético bastante tendencioso, provavelmente como resultado da sua origem e formação inglesas, esquecendo, quiçá propositadamente, a herança renascentista dos abstracionistas, nomeadamente do dualismo platónico, de cuja representação o cubismo, integralismo e construtivismo são os mais radicais e puristas de todos os ismos da modernidade, pois que aquilo que visavam representar nos seus trabalhos – e disse bem, trabalhos, não me enganei, porque nenhuma obra de arte, embora algumas delas tenham sido feitas com muito prazer, é feita sem ele, e exige sacrificado trabalho para ser realizada –, era a sofisticada abstracção ao mundo sensível, aquele habitado por sombras deformadas da realidade profunda, dando-nos sugestões visuais subjectivas do mundo ideal, das formas puras precisas, puras essenciais, da geometria perfeita que cada coisa encerra pelo tapado exterior (dos sentidos) do seu estado bruto, enfim, os círculos, as esferas, os triângulos, os cubos, os cilindros, os quadrados, que mais não são do que as essências dos rostos, das colunas, das casas, das mesas, dos altares, dos frutos, das árvores, dos pratos, das bicicletas, das mulheres, dos animais, dos mitos, etc., numa panóplia infinita; ecletismo disciplinar esse, tão desenraizado da técnica, que melhor se prende aos efeitos do que às causas, obriga a entender mais a arte como fruto e resultado das características da sociedade, reiterando o que já havia afirmado em 1945, no seu livro Arte e Sociedade (Art and Society, Londres, 1945, Faber & Faber), do que da imperiosidade humana directa de moldar o mundo, estruturar a realidade conforme lhe é ditada – ao homem (sapiens) criador – pela sua necessidade de emitir uma mensagem, não uma qualquer e sim precisamente aquela, quase obsessiva, mas inevitavelmente um de dentro para fora pessoalíssimo que caracteriza o universo imagético dos mais diversos artistas. O que faz dele, no fundo, também um filósofo modernista, uma vez que está vocacionado, motivado, para apresentar uma visão da totalidade real fundamentada em "colagens" das diferentes disciplinas sociais e humanas da época, nomeadamente sociologia, antropologia, semiótica, literatura, economia, fisiologia, política, artes plásticas, por exemplo, e sem, com especificidade, em nenhuma delas se basear profundamente para analisar o produto artístico, detendo-se sobremaneira na sua interpretação.

















5.02.2008

Capas Inesquecíveis

Não, não é engano... São mesmo repetidas, porque o que é fenomenal bem pode ser duplicado. É uma questão de vontade e tempo...
O livro de Ellery Queen tem tradução de Wilson Velloso, revista pelo já aqui nomeado Batista de Carvalho e o Cosmic Engineers, foi traduzido a duas mãos por Mário Braga e Maria Isabel Morna Braga. Uma, quer dizer, duas autênticas raridades que valem por muitas mais, ou não fossem elas os números 44, da colecção Vampiro, e o 105, da Argonauta.



4.30.2008

Grupo de Leitura READCOM, lerá Paul Auster

"Quando larga a caneta, há uma palavra que começa a ressoar na sua cabeça, e, durante vários momentos depois disso, enquanto a palavra continua a ecoar dentro dele, Mr. Blank sente que está a um passo de uma importante descoberta, de um ponto de viragem crucial que ajudará a clarificar, pelo menos em parte, aquilo que o futuro lhe reserva. A palavra é «parque». Lembra-se agora de que, pouco depois de ter entrado no quarto, Flood sugeriu que fosse conversar para o «parque, do outro lado da rua». Esta indicação parece ao menos contrariar a prévia asserção de Mr. Blank segundo a qual se encontraria cativo, confinado ao espaço limitado por estas quatro paredes, impedido, para todo o sempre, de se fazer ao mundo. Sente-se algo encorajado por este pensamento, mas sabe também que, mesmo que o autorizem a visitar o parque, isso não prova necessariamente que seja um homem livre. " (Excerto)
A próxima sessão do Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre, a realizar no dia 20 de Maio, incidirá sobre Viagens no Scriptorium, de Paul Auster.
Aqueles que já tiverem lido a obra e andarem pelas redondezas, podem dar o seu lamiré pr' àqui ou aparecer. Ou melhor, não se evitem de partilhar as opiniões que vos suscitou, que a luz quando nasce é para todos.

4.22.2008

Dizer a Liberdade


Dizer
"Aqui
reina a liberdade"
é sempre
um erro
ou então
mentira:

A liberdade
não reina
Erich Fried

4.17.2008

Palestra de Sebastião Morão Correia

Capa da Palestra aos alunos do Liceu Nacional de Portalegre, proferida por Sebastião Morão Correia, na sessão de abertura do ano lectivo de 1959-60. Brochura composta e impressa na Gráfica S. José, em Castelo Branco.



"E, Todavia, o Homem
só vale pela sua Vontade..."

Eça de Queirós, in Ilustre Casa de Ramires

Nunca, como nos dias de hoje, em que a deletéria passividade existencialista está causando no espírito da Juventude tão perniciosos efeitos, esta afirmação do genial romancista Eça de Queirós, teve uma aplicação tão necessária, de indiscutível interesse e flagrante actualidade.
Quando Gonçalo Mendes Ramires, personagem tão palpitante de simbolismo, se queixava amargamente dos seus desaires, se não das suas derrotas, atribuindo ao Destino a teimosa infelicidade que inexoràvelmente o perseguia, nem sequer se dava conta de que estava nas suas próprias mãos mudar o rumo daquela vida sem acção e sem sentido, que era a existência que ele arrastava inglòriamente enclausurado na Torre dos Ramires – mais velha que o próprio reino.
Esta terrível falta de confiança em si próprio, consequência directa da abulia que se apossara do seu pobre espírito sem força para reagir com eficácia ao medo impertinente da "carne espantadiça e cobarde", tinha feito daquela vergôntea, débil e quebradiça, engastada na rija cepa dos antigos Ramires, um carácter amorfo, anémico, aguado, sem têmpera e sem viço, exposto aos caprichos do Destino que nunca perdoa aos fracos.
E assim vamos acompanhando o drama desse fidalgo, cuja principal ambição era um lugar de deputado, não olhando aos meios para alcançar esse fim.
Mas Gonçalo, enterrado na sua velha Torre, era um abúlico, falho de vontade, cedendo constantemente à lei da inércia.
Por isso atribuia ao seu negro destino todas as fatalidades que lhe sucediam.
Eça aproveita também o ensejo de dar a esse tipo de pessoas esta eficacíssima receita:
"E, todavia o Homem só vale pela Vontade – só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Porque, se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão – então é delícia do domínio sereno; se encontra em torno resistência, – então é a delícia maior da luta interessante."
E, como corolário de tal postulado – que é a tese principal da Ilustre Casa de Ramires – o fidalgo da Torre, ao compenetrar-se que a verdadeira honra reside no trabalho ordenado, fruto de uma vontade firme e reflectida, abandona a sebenta cadeira de S. Bento, alcançada por meios tão torpes e degradantes, e lança-se, livre de influências e com orgulho próprio, nas explorações das terras africanas.
[1]
Surge-nos, então, um homem que procura que procura dar plena realização à sua personalidade já temperada por um Querer, forte e decidido, e por uma Vontade, consciente e reflectida.

Minhas meninas e meus rapazes:

Gonçalo é mais que um simples personagem de romance.
Gonçalo é um símbolo.
Eis a razão por que resolvi aproveitar este magnífico exemplo que sobre o valor da Vontade nos apresenta o insigne autor da Ilustre Casa de Ramires, para me servir de tema à palestra da abertura solene das aulas do ano escolar de 1959/1960.
Não conheço, nem creio que em tão breves palavras se tenha cantado um hino tão admirável ao valor da Vontade.
Depois de uma análise ao drama de Gonçalo, vítima da terrível abulia que lhe entibiara o carácter e debilitara a personalidade, a tese surge clara e convincente, numa síntese bem expressiva e sem enfeites ou aparatos pretenciosos, como era próprio do estilo do incomparável artista.
Com efeito, o autêntico valor do Homem cifra-se no poder da Vontade inteligentemente exercida.
E, sem dúvida, o maior prazer da Vida reside no exercício de um Querer, forte e consciente, mercê do qual o nosso eu actuante possa ganhar plena consciência do seu valor, verificando que pela prática bem orientada dos seus actos voluntários é possível alcançar a inteira satisfação das suas aspirações.
E, se no exercício da Vontade as circunstâncias se conjugam num sentido favorável de docilidade e submissão, permitindo-nos realizar os nossos desejos sem obstáculos nem esforços, gozaremos a delícia do domínio sereno. Se, porém, encontrarmos em torno resistência, quero dizer, se para a efectivação das nossas aspirações tivermos de enfrentar e remover as pesadas dificuldades, ao atingirmos o nosso fim, gozaremos, então, vitoriosamente, a delícia maior da luta interessante.

***

A Vontade é um factor imprescindível na têmpera do carácter. E só pode considerar-se homem de carácter aquele que, removendo todos os obstáculos de ordem psicológica ou material, consegue atingir o fim digno que se propõe alcançar.
É, em suma, o homem que sabe querer.
O inconstante, o indeciso e o fraco – esses falham inevitavelmente na vida, porque não se esforçaram para aprender a querer.
E o que é curioso é que, na maior parte dos casos, os fracos, os desiludidos e os abúlicos guardam também no mais íntimo do seu ser um cabedal de forças intelectuais e morais capazes de lhes permitir as vitórias que os outros – aqueles que sabem querer – conseguem alcançar.
Têm também ao seu dispor a força da Vontade. Não souberam, porém, aproveitá-la num sentido conveniente, pondo em conjugação harmónica e disciplinada todas as energias disponíveis.
Mas eu não quero, nem devo, esquecer-me de que estas recomendações, singelas e despretenciosas, se dirigem, principalmente aos jovens, àqueles que estão na idade própria dos impulsos instintivos, do domínio tirânico das primeiras impressões, da embriaguez da Fantasia e da força estimulante, mas indisciplinada, da Imaginação.
Mais que em qualquer outra fase da vida humana, o jovem tem de aprender a querer, para poder temperar convenientemente o seu carácter.
Ora, querer não é obedecer cegamente ao mandato imperioso dos instintos, nem ceder inconscientemente às primeiras impressões quase sempre arrebatadas e falazes.
Não é também construir castelos no ar em plano muito distante das possibilidades reais, nem fixarmo-nos obstinadamente numa opinião ou decisão que só nós consideramos a non plus ultra...
O querer metódico, sistemático, é um acto voluntário que implica necessàriamente, reflexão e, para ser cumprido, tem de assentar na deliberação, na determinação e, finalmente, na execução.
O homem de carácter bem formado, antes de agir, tem de examinar bem a situação, ponderando as vantagens e inconvenientes do acto que pretende realizar; tem de escolher os meios mais aptos para alcançar o fim almejado; e, só depois de efectuar bem todas estas operações e de elaborar calmamente um juizo de valor sobre o assunto, então, sim, há-de tomar a decisão que julgar mais conveniente.
O acto voluntário será, pois, fruto de uma reflexão bem amadurecida e calculada, em que o espírito, isento de qualquer influência dos impulsos insofridos e das primeiras impressões fogosas, mas raramente exactas e quase sempre deformantes da Verdade, possa actuar de harmonia com a Razão, faculdade intelectual que permite julgar do Bem e do Mal existentes nas nossas acções.
Por isso a Razão deve ser activamente consultada na execução do acto voluntário.
Quantas vezes somos traídos pelas tais primeiras impressões que levianamente seguimos, e aceitamos como sendo as mais convenientes!
Não podemos também, é claro, executar os nossos actos exclusivamente ao sabor da imaginação exaltada, nem de harmonia com os nossos sonhos que, principalmente na quadra da adolescência, são fagueiros, mas ilusórios.
Isto não quer dizer, porém, que à Imaginação não seja dado um lugar bem destacado e merecido na nossa vida activa, como também não quer dizer que excluamos de todo o Sonho da nossa actividade volitiva, pelo eficiente contributo que qualquer deles pode dar à realização das nossas aspirações.
A Imaginação, por exageradas que sejam as dimensões daquilo que criamos em espírito, é uma faculdade que tem também o seu valor estimulante e que, expurgada do aparato que a Fantasia lhe empresta, pode fazer reverter para o campo prático a sua contribuição prestante.
Por outro lado, o Sonho, a despeito das visões quiméricas que produz, narcotizantes do espírito, não é um acto exclusivamente passivo.
A ardência do desejo, que lhe deu origem, imprime-lhe um estímulo que, em certa medida, o transforma numa força activa e útil.
Imaginar e Sonhar são actos característicos da Juventude, tão próprios e naturais, que não se pode conceber um adolescente sem Imaginação e sem Sonho.
Isso seria trair a Natureza, e a Natureza não admite traições...
Para que se realize integralmente é, pois, necessário ao jovem imaginar e sonhar.
Tal como a criança constroi o seu mundo maravilhoso de Fantasia, assim o adolescente arquitecta o seu mundo ideal de Sonho, à imagem e semelhança dos seus ardentes desejos.
A noção exacta da Realidade, na sua forte nudez, sem o "manto diáfano da Fantasia" e sem o efeito aliciante do caleidoscópio do Sonho, aparece, depois, normalmente, quando o jovem começa a ter contacto com a vida prática.
Mas, concomitantemente com a percepção da Realidade, em toda a sua nudez e crueza, – porque a Vida é luta – surge também a desilusão que acabrunha e deprime.
É nesta altura que o jovem precisa muito de nós: pais e professores.
E, no entanto, tem-me ensinado a experiência que é essa a quadra em que o jovem é menos compreendido.
A adolescência é a idade característica da audácia e da rebeldia.
E os pais e os professores, dum modo geral, é claro, em vez de aceitarem naturalmente essa realidade psicológica tal qual ela é, buscando uma solução conveniente aos problemas dessa idade crítica, procuram, antes, ladear a questão, fugindo a tais impertinências, e limitando-se a dizer: "Isso passa com a idade..."
Mas... às vezes não passa... e eis a causa por que o mundo está vivendo momentos tão apreensivos no que tange ao aberrante comportamento da mocidade de hoje.
Teimo em afirmar que a falta de uma orientação racional da Juventude tem sido, sob o ponto de vista educacional, o nosso maior pecado.
É certo que muito se tem escrito em teoria sobre esta matéria. Mas onde está a aplicação prática? É nula ou quase nula. E, se algum educador mais ousado e mais sensato pretende por em prática essas teorias, seja para cumprir o que os tratados e compêndios de Pedagogia determinam, seja para satisfazer o imperativo da sua maneira de ser psicológica, logo os Velhos do Restelo se unem alarmados, fazendo cair sobre esse educador, que ousou quebrar os cânones da sua pedagogia balofa e bolorenta, postiça e contra Naturam, uma chuva de incompreensões e uma tempestade de críticas demolidoras!
É urgente que a Família e a Escola, numa eficiente e indispensável colaboração, encarem abertamente este grave problema sob todos os aspectos e em todas as suas dimensões, evitando que nessa fase de transição o jovem caia num rumo sem sentido e até no desespero...
O ideal será conseguir-se, uma fórmula que permita o aproveitamento da força estimulante do Sonho e da Imaginação aplicada às realidades úteis que a Vida necessàriamente implica e implacàvelmente nos impõe.
Ora, é nessa fórmula ideal que a Vontade tem de actuar como um factor indispensável e de primordial importância.
Com a Vontade firme, desenvolvida e habituada a refrear os instintos e os impulsos, e pronta a superar os desânimos, estaremos convenientemente preparados para encarar as adversidades que a Vida a cada instante nos dispara, enquanto o Homem que não sabe querer, amarrado ao drama dos seus complexos de inferioridade, será sempre situado em plano secundário, consumindo a existência a ruminar amargamente as suas derrotas e os seus desaires.


***

É certo que o exercício da Vontade implica muito esforço, muito trabalho, muita renúncia, muita luta contra as solicitações das nossas tendências psíquicas, que nos convidam insistentemente à situação cómoda, mas inglória, do laisser faire e laisser passer.
Filho da desobediência ao Deus criador e consequência da maldição do mesmo Deus, não há dúvida que o Trabalho é penoso.
Mas também não há dúvida de que é inerente à condição humana.
Depois de ouvir a sentença fatal que o condenava a comer o pão com o suor do rosto, o Homem nunca mais pôde libertar-se do Trabalho. Vive por ele e para ele, e assim viverá eternamente, enquanto a condição humana se mantiver.
E não vá supor-se que a plena felicidade do Homem reside na total ausência do Trabalho... Pelo contrário... O homem normal não dispensa a actividade. As próprias preocupações são o condimento da existência. E as mesmas dificuldades, seguidas pela ânsia de as vencer, actuam como o sal da Vida.
Sem Trabalho a existência seria insuportável.
Que o diga aquele homem que, tendo levado uma vida cheia de actividade, morreu e foi transportado para um mundo diferente. Conduzido a um rico palácio, logo aparece solícito, um mordomo que com ar solene lhe mostra um quarto sumptuoso, dizendo: «É aqui que o Senhor vai morar. Qualquer coisa que deseje, basta premir o botão desta campainha, e terá imediatamente tudo o que lhe apetecer».
Daí a algum tempo estava o feliz ocioso sentado numa cómoda poltrona, tendo ao lado charutos, whisky, várias revistas, um rádio, televisão... Num compartimento ao lado viam-se espingardas para caçar, canas de pesca tudo, enfim, que pudesse proporcionar ao mais exigente mortal um passatempo agradável.
Mas o nosso homem não estava satisfeito! Premindo o botão da campainha, surgiu novamente solícito o mordomo, a quem disse, em tom nervoso:
– Venha cá, rapaz. Eu quero alguma coisa para fazer. Quero Trabalho!
– Sinto muito, mas Trabalho é coisa que não há por cá...
– Se não posso trabalhar aqui, nesse caso prefiro ir para o Inferno!
– Mas – respondeu o mordomo entre surpreso e admirado – onde é que o Senhor pensa que está?!
O exemplo que acabo de expor foi respigado de uma breve leitura de uma revista que me passou pelas mãos há bem uns quinze ou dezasseis anos.
Mas esta anedota, tão pitorescamente expressiva, guardei-a na memória pelo conteúdo moral que encerra, pois não conheço em tão breve síntese, nem em prosa, nem em verso, hino mais laudatório dedicado ao Trabalho.
Meus queridos alunos:
Foi para compreenderdes o valor da Vontade e a necessidade indispensável do Trabalho como factores principais da vida humana, que eu, nesta sessão solene de abertura das aulas, bordei as breves considerações que vos dedico.
À míngua de outros méritos, possam elas, ao menos, acautelar-vos dos perigos desta 25ª hora turva e enigmática, tumultuosa e inquietante.
E possam ainda contribuir para uma conveniente formação do vosso carácter, de modo que nele caiba, em perfeita harmonia, a aliança da Realidade com os lampejos do Ideal em que a vossa alma é fértil.




(Coitadinhas das crianças... Agora, sim, percebo por que é que continuamos na cauda da Europa: há traumas de que jamais se recupera!)


Não abdique dos seus direitos fundamentais. E não perca na próxima edição tudo sobre o mais importante e elementar dos seus direitos: O ...
[1] Conforme com o opúsculo do autor "Traços característicos da Ironia Queirosiana – Sua finalidade social."

4.16.2008

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

O livro que ora se apresenta, das edições ITAU, custou 7$50, com oito páginas, algumas em branco é claro, que para cinco sonetos não eram precisas tantas, ainda que do tamanho de uma cautela da lotaria nacional: 10 x 14,5 cm (sem gralhas). Ou pouco maior, mas são sonetos, carago, e isso doura sobremaneira a coisa, mesmo para aqueles que não gostam de poesia, e preferem versos. Pois.


FLORBELA ESPANCA

"... Pelo seu apurado instinto de beleza formal, tão raro em mulheres até boas escritoras; pelo seu excepcional temperamento e vibrante sensibilidade; pela profundeza da sua alma revolta e ardente; pelo poder de comunicação com que, nos seus versos, se exprime o seu drama pessoal e o da paisagem que tão bem sentiu – Florbela Espanca é a maior poetisa portuguesa de qualquer tempo e um dos grandes nomes da nossa poesia moderna.
Ninguém pode honrar Florbela Espanca; – ela é que nos honra. Ela é que honra as letras portuguesas."

JOSÉ RÉGIO

1.

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira

E eu, que era neste mundo uma vencida
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

2.

Meu amor, meu amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tom de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mão são fontes de água clara
A cantar sobre a sede d'um jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sòzinho,
Passando junto a mim sem me encontrares? –

3.

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Ouço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou p'ra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra?– Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
És tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

4.

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

5.

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é sòmente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se pousaram.

São mortos os que nunca alevantaram
Dentre os escombros a Torre de Mensagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o país da luz,
A sombra calma dum entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

O "enredo" desta brochura não o sei, mas desconfio que se alguma história tem, mais a circunda do que a circunscreve, e se deva ela simplesmente à iniciativa da editora (ITAU, por sinal) em celebrar – honrar ou homenagear que seja –, qualquer data importante como aniversário da autora, se de nascimento, se de morte, não se precisa ao certo, embora não reconheça de grande valia para ninguém o andar-lhe a gente a celebrar o dia em que se foi, alguns dirão sentenciosos "desta para melhor", todavia afianço "uma porra: se é assim tão boa porque não foram vocês!?", nem proveito descubro em andarem-se a servir da desgraça derradeira de alguém, festejando, por assim dizer, a data do seu falecimento, a não ser que mórbido instinto financeiro se adivinhe, ou outro qualquer de igual calibre, sobretudo se ele recair sobre um poeta, ou poetisa, espécie de pessoas que sempre tão pobres e parcamente viveram em Portugal, por demais carecidos de pão como de afecto, falhos daquelas coisecas elementares com que a vida se governa, mas invariavelmente sujeitos à chacota e ironia da mediocridade popularucha, como quem sublinha aquilo que o burguesismo pacóvio e serôdio salientara acerca de outros, igualmente felizardos na sorte de poetar, declarando que qualquer poeta, mesmo poetisa, só é bom quando morto, e principalmente nesse instante, a partir do qual todos o podem enterrar a seu bel-prazer, depositando-lhe por cima uma boa camada de anos e esquecimento, para que nunca mais daí se alevante, aliás, garantia absoluta que diminua o risco de ressuscitar.
Portanto, não desviemos o sentido à prédica, não nos distraiamos daquilo a que viemos, que se apenas cinco são os sonetos, eles foram magistralmente esgalhados, embora reclusos daquela euforia depressiva, ou ciclotímica, que empresta ao amor tanto e doloroso prazer, tanto contentamento descontente, como diria o ancestral Luís, Vaz que não vás, tente que não caias, que nisso de ser triste por mais triste que se seja, ninguém o consegue a tempo inteiro e toda a vida, e nela, mesmo quando se não queira, ainda que "folha ao abandono / Num parque solitário, pelo Outono, / Sobre um lago onde vogam nenúfares", de vez em quando há-de sobrevir a paixão, o seu fulgor eufórico e maravilhoso, o arrebatamento único que a transforma em febre brava e impulsiva que antecede as maiores infecções, incluindo as da alma, por muito contemplativa e atormentada que ande, onde amar por amar se faz sempre perdidamente, pois nos obriga a deixar de ser os tristes e deprimidos que antes éramos, ou vice-versa, os alegres e joviais em melancolia taciturna apoderados, possessos e prostrados, que nisso de perder-se a gente tanto pode dar para um lado como para o outro, e salvar-se seja quem for quando a tensão febril acontece é um bico-de-obra de alto lá com ele, visto as mais vezes ser essa tensão o caminho recto e mais curto para a excitação realizável e, realizada ela, fonte de calma e meditativa tranquilidade, que ainda é o melhor tónico revigorante da tensão, para elaborá-la a preceito tal que exigirá realizar-se, repetidamente, inequivocamente imperiosa e urgente, e para, enfim, consumir-nos na justa medida em que a consumarmos. Em nós, exactamente nós, que sempre estaremos prontos e ansiosos para provocá-la. Nem que para isso nos tenhamos que socorrer de Deus, ou o consideremos um forte e determinado aliado para justificá-lo, exigi-lo e consegui-lo. Até no amor ilícito, se é que haverá algum que o seja...

Até porque, como diz José Régio no prelúdio, ninguém pode honrar os poetas, pois são eles essencialmente quem nos honra com a sua obra, os seus poemas, os seus versos, pelo que se lhe quisermos manifestar algo, por recompensa, por gratidão, então não nos resta outra maneira de o fazer senão lendo-os, recitá-los, compartindo-os e partilhando-os com aqueles a quem prezamos, por quem nutrimos afecto, sempre que possamos, e onde quer que o possamos fazer.

4.15.2008

DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS -- 18 de ABRIL


PATRIMÓNIO RELIGIOSO E ESPAÇOS SAGRADOS


A Assembleia da República associa-se às comemorações deste dia promovendo um conjunto de actividades organizadas pelo Museu:

17 de Abril, quinta-feira - Recital pelo Coro Gregoriano do Porto na Sala do Senado, às 19h

18 de Abril, sexta-feira – Visitas guiadas ao Palácio de S. Bento às 10h-11h-15h e 16h.
No final de cada visita haverá Prova de Licor de Singeverga e Pão de Ló de S. Bento


- Exposição sobre os espaços monásticos do Palácio de S. Bento, integrada nas visitas

- Serviço de doçaria conventual no restaurante dos Deputados e refeitório dos Funcionários como sobremesa


Inscrição prévia ,indispensável, para assistir ao Recital e participar nas visitas para os telefones - 213919347 —213919370—213919408

O “NASCIMENTO” DA CÉLULA – Por Helder Maiato

Hélder Maiato é Professor Auxiliar Convidado no Departamento de Biologia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Investigador Auxiliar e Responsável pelo Laboratório de Dinâmica e Instabilidade Cromossómica no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto. Natural de Matosinhos, nasceu em 29 de Fevereiro de 1976, licenciou-se em Bioquímica na Universidade do Porto e fez parte do sexto Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, o que o levou a passar pela Universidade de Edimburgo no Reino Unido para estudar a divisão celular e a doutorar-se em Ciências Biomédicas pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), Porto. Foi investigador afiliado no Wadsworth Center, Divison of Molecular Medicine, New York State Department of Health, USA (2003). Publicou inúmeros artigos científicos em revistas internacionais de excelência como o EMBO Journal, o Journal of Cell Biology, Cell e o Nature Cell Biology. Foram-lhe atribuídos prémios e distinções nacionais e internacionais – Prémio da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (2004); Prémio Jacinto Magalhães (2005); distinção do Programa Gulbenkian de Estímulo à Investigação da Fundação Calouste Gulbenkian (2005); Prémio Crioestaminal (2006); Prémio Gulbenkian de Apoio à Investigação na Fronteira das Ciências da Vida (2007), entre outros. E proferirá a conferência O “NASCIMENTO” DA CÉLULA :UMA VISITA GUIADA ATRAVÉS DO MICROSCÓPIO, (acerca de como o universo do infinitamente pequeno tem fascinado várias gerações de cientistas desde o século XVII, em que o maior desafio tem sido conseguir vencer as limitações físicas impostas pelo uso do microscópio, o que tem vindo a ser ultrapassado através de equipamento e de tecnologia cada vez mais sofisticados), onde se dará uma pequena viagem pelo tempo e ilustração dos avanços tecnológicos desde o aparecimento do primeiro microscópio até aos dias de hoje, assistindo àquilo que pode chamar-se o “nascimento” da célula, o momento em que uma célula “nasce” a partir de outra pré-existente, e tentar perceber como o progresso na fronteira das ciências da vida permitiu ao Homem ver como a “maquinaria” celular executa todo este processo na perfeição.

Esta é organizada pelo Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com a Ciência Viva, terá lugar no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), dia 16 de Abril, às 18h00, a qual, para os que tiverem dificuldade em aí se deslocar, poderá ser vista em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ , podendo enviar-se questões para fronteiradaciencia@gulbenkian.pt, a que o orador responderá no final da sessão.

4.11.2008

Alternam Engenharias Fraticidas, por aí...

(Ilustração: Contracapa da Revista Antítese, nº 2, de Março de 1985)
Raiam sobre as colinas dóceis, verdes anos
Os mastros, as crinas, de um animal divino
Quase ventres e minas, dosséis, alvos panos
Velas, de anfitriões matemáticos do destino.

De euros, nos restos fáceis, dígitos decanos
Arredondando a quadra estéril, ao verde pino
Das canções de amigo, despique entre manos
Pela jorna prima ao postigo entre coroa e sino.

E ferem as palavras como se ferro fundido fossem,
Sibilam sigilo ao tinir de analistas e confessores,
Enquanto seu JB de doze anos degustam e bebem...

Enredam-se nas teias de ilícitos, idílios e amores
Estrelas de ouro sobre o azul das europeias cores,
Se a desfraldar menina ferem, e só morrendo cedem!

4.09.2008

Expiação, de Ian McEwan, no GLReadcom, de Portalegre

Aprazada para o dia 29 deste mês, no local e às horas do costume, o Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre (GLP–IPP), fará a sua próxima sessão à volta do romance de Ian McEwan, intitulado Expiação, e que recentemente foi alvo de adaptação cinematográfica, estreada há pouco tempo entre nós. Com edição portuguesa em 2002, de quem José Prata, na revista Os Meus Livros, nº 7 – onde consta também uma curiosa autobiografia do autor –, e a propósito, terá afirmado ser ela uma obra em que, "epílogo à parte" serem "três histórias: a de uma menina cuja imaginação conduz um homem à queda; a desse homem, que atravessa uma guerra com uma carta no bolso; a daquela menina, quando adulta, escreve um livro para expiar o seu crime." Mais adianta José, que nesses três momentos ficamos na presença da "Inglaterra ociosa do pré-guerra, a demência da retirada de Dunquerque, e de novo a Inglaterra" debaixo dos bombardeamentos alemães (blitz), realçando a transfusão do sentimento épico que a intertextualidade com Jane Austen nele aflora.

Daí que, ainda reportando-nos às palavras do crítico, embora na tradução literal da Gradiva se tenha perdido grande parte da poesia que Expiação respira, "é um romance total, de arquitectura antiga, psicologia moderna [e] montagem cinematográfica." Extraordinariamente reflectido na "cena de amor na biblioteca ou no drama de Cecília a escolher um vestido, [que] têm o peso de uma guerra; e a memória do soldado debaixo de fogo é uma casa solarenga no campo."


Portanto, aqui fica o convite a todos quantos queiram partilhar as suas impressões sobre a obra, admitir que há outras opininiões igualmente válidas sobre ela, sem estigmatizar nos "pântanos" da certeza, ainda que ela veicule a melhor e mais paternalista (ou protectora) das intenções... Digo eu!

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