La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.18.2010

Camisola Nova Para Enredos Velhos




"O filme é uma música que chega até nós através da vista."
Élie Faure

Sim, desta vez é que eu mudo para a social democracia, porque agora sim tenho um partido onde posso ser eleito para depois governar sem oposição interna (e externa), o que é um verdadeiro filão de boas ideias para implantar a ditadura com que sempre sonhei, tornar-me o salvador da minha espécie e ídolo garantido das demais, mesmo da pátria (dissolvente), se a tanto vierem a mim os bravos de antanho rejuvenescidos, sim, cantando e rindo, levados pela bruma no nevoeiro da memória.
Porque o que de melhor e mais atractivo tem a nossa democracia, são estas mudanças de alterne que nos facultam os seus partidos, porquanto um deles, e dos maiores, consegue ser tudo quanto há nos compêndios de história – e de anatomia do Estado – ao mesmo tempo, o PSD, que na Assembleia da República é anarquista, abstendo-se frequentemente na votação dos itens fundamentais à governância, estalinista no Congresso onde aprova regras sintomáticas de amputação da liberdade de expressão, criando de si uma espécie de Estado dentro do Estado (Mafia), cujos estatutos não contemplam a Constituição da República nem se lhe sujeitam, no parlamento europeu em que é democrático e denuncia a falta de liberdade de imprensa nacional, no poder local onde ostraciza quem não usa na lapela o seu distintivo, coloca nas televisões e demais órgãos de comunicação os seus comentadores com pronunciada quota na bolsa das audiências, como se fossem produtos de mercado com marca registada, é revolucionário nas lutas sindicais e de classe profissional, sendo o principal agitador nas contendas entre profs e ministério da educação, veste a opa de sacristia na oposição aos casamentos entre pessoas do mesmo género e aplaude o Papa de velinha em punho e desfile (procissão) a favor dos desfavorecidos, das crianças que satisfizeram a santificada líbido dos dez clérigos portugueses entre 2003 e 2007, dos quais seis em 2007, que foram os que a Santa Madre Igreja não conseguiu desmentir e, portanto, não teve outro remédio senão assumir, deixando a ênfase para o facto de serem provavelmente muitos mais, mas que os seviciados não tiveram coragem de denunciar, por não haver como provar onde e como sofreram esses abusos, ou serem de tão boas famílias que o comer e calar é sempre preferível ao vir-se a saber entre os vizinhos e compadres.
Ora, o filme é o seguinte: se o Convento pôs o carrilhão a badalar a instância da regra que obsta à crítica, então vai daí, eu vou inscrever-me como militante no PSD, pagar as quotas, coisa e tal, pois a profissão de político é de carreira segura, nada de precariedade nem "lay-offs", garantindo a postura e o singrar na vida, porquanto sempre se podem fazer as asneiras que se fizerem, desde que isso suceda durante o período de defeso à crítica, ninguém porá a boca no trombone nem vaiará a lide dos contratados e eleitos na peluda de mandato, podendo cada um guardar para o fim a mariolice maior, abotoamento ou dissipação que sejam, que se antes das eleições não se pode falar depois delas muito menos vale a pena fazê-lo. O que é música para os meus ouvidos, reconhecida invariavelmente por toda a assistência, cansada claro está, de lhe andarem constantemente a mostrar como, onde e por quem foram enganadas e enganados (os votantes) nas eleições anteriores.
Estão a ver o filme? Depois venham cá com essa de me acusarem de eu andar sempre a mudar de camisa, a ver se não lhes respondo, que é bem preferível isso, que andar de roupa suja, a meter nojo aos demais, como muitos por aí andam fazendo... Venham, venham, que cá os espero, para vos brindar com um andar novo, enquanto o Chaplin esfrega um olho no dez pràs duas que a encomendinha demora!

3.13.2010

Torcer o Rabo à Porca

A bem da nação, os deputados aprovaram, ontem, sexta-feira 12.03.2010, recorrendo à abstenção, o catecismo da actividade governamental até à próxima rectificação orçamental, adiando-a mas não evitando-a, que ninguém lhe paga para fazerem aquilo que podem e unicamente quanto querem, garantindo mais um ano sem fumeiro às famílias votantes deste nosso torrão à beira da Europa enguitado, como paio de toucinho, que a carne é para exportação e quem está habituado a gorduras não deve alterar dietas alimentares, pois as mudanças drásticas acarretam esforço de adaptação suplementar e onerosas dificuldades de (di)gestão.
Torcer o rabo à porca sem tirar as mãos dos bolsos é tarefa para crânios geniais, apenas comparáveis aos dos mentores do popular faz força que eu impo com que, no tempo da outra senhora, a luta de classes se instituía por esses pousios fora, no amanho de mais um subsidiozinho para comprar um jeep novo, montar apartamento para a Severa do dia ou pagar a estadia em Coimbra ao rebento, até ele se doutorar em fados e vinho verde, salvo-seja!, que para tamanha exigência, dificilmente haverá curso com currículo e nobreza de conteúdos que honestamente a substancie...
As imagens são interfaces, plataformas de ligação, intersecção entre conjuntos de conceitos antagónicos, "placas-giratórias entre a realidade e o imaginário" (Edgar Morin, 1956), consequentes da necessidade de comunicar, considerando que na qualidade do dizível há muitas coisas que não lhe cabem dentro, por ser um universo onde há tudo quanto já foi descoberto (dizível), ideias, sentimentos, sonhos, teorias, sinais, medos e prenúncios, divindades, percepções sensoriais e extra-sensoriais, mais tudo aquilo quanto ainda não foi descoberto, visto, sentido, analisado, impossível e inaudito, que no entanto também carecem de ser transmitidas, comunicadas, partilhadas, desbravadas, para assim se tornarem posse humana, elementos preciosos do património cultural da humanidade que, à face da Terra, é de todos os seres, o homem, o único ser capaz de realizar, gerir e manter a memória da vida, como se lhe fosse o mais fiel, diligente e íntegro dos súbditos e servidores, o fac-símile e croquis que melhor a representa, lhe esboça as intenções, pese embora por caminhos bastante controversos, de notória inversão de sentidos, confundidos, parecendo avançar quando deveras regride, recuar se o progresso se manifesta e, até, atolado em estagnação se o choco e a meditação congeminam o passo seguinte.
Por exemplo, o governo português, ressuscitado da panaceia do socialismo democrático, está condenado a governar Portugal, não porque o Orçamento de Estado (OE) e o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) rectifiquem o direito que lhe foi outorgado pelas eleições, nem pela intenção objectiva que pretendem subscrever – recuperar a economia e consolidar as contas públicas –, mas por a oposição directa e mais próxima (o PSD) andar em ponderação constante, e esta lhe indicar que não está ainda preparado para avançar com determinação e sentido de Estado, porquanto não tem oficiais competentes e habilitados para a função, nem PEC alternativo e muito menos esboço de OE sob linhas mestras eficientes, susceptíveis de agilizar a economia e garantirem nela uma sustentabilidade sofrível a curto prazo. Ainda não chocaram convenientemente o que querem fazer, nem a estratégia para o conseguir, porque também ainda não sabem aquilo que deveras querem, uma vez que aquilo que queriam deixou de ser possível de sustentar no mundo actual, cujas fundações apodreceram arrastando o modelo em que assentavam, e o novo paradigma (globalização e sustentabilidade) ainda não se revelou suficientemente maleável à sua sede de poder, de benefício do individualismo e geração de fortunas. Isto é, ainda não descobriu a maneira de utilizar a solução dos problemas nacionais (crise, défice e dívida), sem os agravar irreversivelmente, para satisfazer a necessidade de lucro que os seus investidores políticos (militantes) consideram justo e plausível com o esforço (envolvimento) que prevêem e estão dispostos a "contribuir", a pagar, quer na propaganda do boca-a-boca nas praças de mercantilidade nacional, quer na congregação do tecido empresarial, financeiro e religioso. Enfim, estão em palpos de aranha, enleados pela teia que eles próprios teceram, sem ver uma saída airosa da crise e défice que durante tantos anos os beneficiou e – eles alimentaram com as suas opções político-ecnómicas do depois de nós o dilúvio, ou insustentáveis – controlaram para exclusivo proveito.
Rafael Bordalo Pinheiro sempre caracterizou a política económica como a porca que amamentava os bacorinhos da pátria, e desta imagem, costumava minha avó servir-se para me dar lições de economia(doméstica), dizendo que quando as receitas (tetas) não chegam para as despesas (bácoros), então não há porca que aguente, ficando os bacorinhos excedentários sujeitos a amamentação por biberão, caso o dono os queira salvar, pois caso contrário, não só morreriam, como enfraqueceriam a porca a ponto de não produzir leite suficiente para alimentar os que tinham lugar nas suas tetas, e a que normalmente se chama OE; e tanto fazia sobrecarregar a gorpelha do Zé-Povinho com mais impostos, como não, que se a porca estivesse chupada a ponto de já não conseguir comer a lavadura que este lhe desse, a breve trecho os viria a rejeitar se se quisesse salvar, ou então sucumbiria perante a fraqueza e trauma (culpa) que a perdida resiliência lhe imporia.
Com a abstenção do PP e PSD o parlamento torceu o rabo à porca, a fim de a obrigar a estar quieta e permitir que os bacorinhos com assento à mesa do orçamento pudessem alimentar-se com desfaçatez e diligência , esquecendo que o bicho já tinha o rabo torcido naturalmente, quer dizer, encaracolado de nascença, coisa que à sua espécie assiste desde o princípio dos princípios bíblicos, e sabendo que ao menor alívio da pressão sobre ela, esta se levantará sacudindo-se, expulsando quem a suga como quem a segura (manieta) e a faz amochar. E a abstenção parlamentar sempre foi um fazer sem fazer, autorizar sem convicção, um trabalhar com as mãos nos bolsos, de engraxar os sapatos sem se importar com o cuspinho que o engraxador vai gastando no ofício, logo, muito pouco duradouro no brilho que lhe advirá, opaco no polimento e fosco na tecitura, de onde – Deus queira que me engane... –, o amanho servirá de nada, por as solas estarem a dar o berro e o cabedal já não aguentar consertos de costura e ponto firme. Ou seja, no que para quem é bacalhau (abstenção) basta, está inerente uma estranha forma de considerar os portugueses, a cuja leitura com certeza estarão atentos, as suas condições de vida, o seu presente, o seu futuro, a sua esperança, bem como daqueles para os quais vão construindo um país, do qual, se acham mais ou menos espoliados.
Precisamente deputados e forças políticas que andaram a vociferar contra a abstenção nas eleições passadas, ei-los agora a praticar aquilo que condenavam nos demais, como se anarquia fosse o seu reino, a sua ordem, código disciplinar, demonstrando que quanto for denominado terrorismo nos nossos adversários, é sempre o supra-sumo de excelência, o alto expoente da nossa inteligência e patriotismo: deixa arder, que mais tarde vais ter que me contratar para apagar a crise, e nessa altura vou exigir pagamento em dobrado. E isto sim, será defender os elevados interesses da nação!

3.09.2010

KISS, KISS


"Os deuses atraem com promessas aqueles que querem destruir."
C. Connoly

É preciso ter descaramento e ser muito cínico – para não lhe chamar outra coisa mais apropriada e consentânea ao momento histórico que atravessamos –, para esbanjar mais de 300 mil € numa missa, por sinal bem menos atractiva do que as do padre Borga e sem qualquer perspectiva de milagre em vista, ou sem este estar claramente agendado (e garantido) no programa do evento, a não ser daqueles que logicamente derivam da dança da chuva, que já os pré-históricos peles-vermelhas praticavam, exactamente num momento em que a chuva é de todas as coisas a que nos sobra e não nos faz falta absolutamente para nada, nem para encher o Alqueva que já está a transbordar pròs Guadianas da nossa secura, mas pelo contrário, apenas nos vai fazer apodrecer mais os nabos, sujeitos esses que se encontram presentemente aboborados e adormecidos no lodo dos dias, graças, se calhar, à modorra orçamental sob o anticiclone do PEC nacional, coisa que promete para os próximos quatro anos, embora tenhamos que resignar-nos a tê-lo como a Alcina Lameiro tem o plano astrológico, cujos vaticínios dos seus signos orientam mas não determinam, isto é, não servem, nem têm préstimo absolutamente para nada, ou ao negócio das visitas presidenciais típicas e sintomáticas de uma campanha eleitoral, não só evidente como exagerada por essas Andorras fora da nossa portugalidade, dando uma amostra internacional daquilo que por cá se passa, fazendo batota de campanha eleitoral, dando já os primeiros passos com fotografias de família à mocidade portuguesa, com meninos e meninas a abanar a bandeirinha, inda'ssim não venha algum pateta alegre disposto a abichar o voto dos portugas que andam lá por fora a disseminar a lusitanidade.
Ora, se atentarmos nos últimos acontecimentos da política patriótica, este PEC, independentemente do diálogo – agora chamam isto à discussão! – que possa suscitar aos partidos e parceiros sociais, sob o fito de o pôr em prática, é tão bom, mas tão bom, que até o PSD é metade a favor, metade contra: pelo lado da estabilidade, acha um exagero, e pelo do crescimento, nem lho nota – o que é caso para dizer, que com PEC's deste quilate o Sócrates não precisa de inimigos para coisa nenhuma, porquanto as linhas mestras kamikaze, não só cortarão 11 milhões de € na despesa, como rebentarão com a economia nacional, incluindo a hipótese de descolarmos do fundo da tabela no campeonato do desenvolvimento europeu, de tal forma, que no relatório/plano da saúde nacional, se na física ainda estamos dentro da validade, na saúde mental estamos pior que em 2005, em que consoante a taxa de suicídio, depressão, morbilidade e estuporice, já estávamos com os pés prà cova há muito tempo, cujas origens remontam ao D. Fernando de tão triste e vã memória.
Enfim, a única certeza de recuperação das contas do Estado, em termos de combate ao défice, é aquela que qualquer velhote com as calças na mão e à rasca com contabilidade doméstica faria: venderia/privatizava os amarelos para pagar/reduzir os Juros/encargos com a dívida– isto é, os seguros da CGD, a REN, a EDP, a GALP, a TAP, etc., e tudo o mais que alguém quisesse comprar, e só não meteria no pacote a própria esposa, porque enviuvara há muito. Para mais, ao novo Aeroporto, precisamente na altura em que o tráfego aéreo está a dar o peido-mestre, não só pelas questões dos combustíveis e catástrofes ambientais, derivadas do aquecimento global versus alterações climáticas, mas também porque é um risco de lesa nacionalidade ter aeroportos intercontinentais tão próximos de uma capital de país macrocéfalo, como é o nosso, é dada luz verde – salvo seja, que na realidade é mesmo anti-verde –, para a sua construção. O que, se houvesse um Instituto da Sustentabilidade em Portugal, por si só, eram duas razões mais que suficientes para chumbar o PEC; mas não há, sobretudo, porque os portugueses continuam a existir à margem das responsabilidades sociais e cognitivas, em alegres carnavalidades do depois de nós o dilúvio, cumprindo, e dando continuidade, cada partido no poder, à política da terra queimada que o anterior começara, para evitar que a subida das águas oceânicas nos submirjam, pois deixaremos de existir muito antes desse colapso natural.
O que é pena, visto haver até portugueses que vão tendo e criando filhos, como se eles tivessem acesa a esperança de vir a fazer o mesmo, dando futuro a outras tantas gerações, como as que sucederam dos berçários de Guimarães, que os afonsinos amamentaram e embalaram tão corajosamente contra guerras e perigos esforçados. Nenhum PEC devia dar passos maiores que as pernas, coisa que este não reconhece, estando muito aquém da simplicidade aconselhada neste tipo de documentos fundamentais à governação (e à legislatura). Se apresenta linhas, estão difusas e enleadas; se pretende soluções, apenas agrava problemas. Logo, em vez de esperança, entoa o Adeus, até depois do apaniguado e nacional cancionetismo de sempre, das despedidas com muitos e babosos beijinhos... num KISS, KISS, bastante católico, de dar missas e ministrar cultos por 300 mil €, como se todos estivéssemos a nadar em fartura, apenas porque o Papa resolveu fazer turismo pelo Mar da Palha. Ou, se calhar, a congregação católica já conhecia desde há muito o PEC que saiu só ontem, e quis antecipá-lo ilustrando-o com os seus eventos... é um ideia!
Portanto, KISS, KISS, para ambos... (De Keep it simple, stupid!, não confundam.)

3.05.2010

Até aos Intés da Alma (que nos contempla)

Tanto Gigélia Hirondina, quer eu, não havíamos planeado qualquer encontro. Demais a mais, estávamos nas férias do Natal. E, se durante as aulas era uma constante sem compromisso o vermo-nos (e ouvirmo-nos), em Casal Parado, ou nos transportes públicos, quando regressávamos no autocarro da Câmara Municipal que presta serviço à cultura e transbordo de estudantes no concelho, naquela manhã de Dezembro, que nem parecia do recém-nascido Inverno, dado o tempo primaveril que se fazia sentir, nenhum de nós pressentia ou sequer imaginava que iríamos ver-nos, assim, frente a frente, com um daqueles sorrisos felizes que tudo prometem e oferecem dobrado com expoente dez: mas foi o que sucedeu. Às onze horas, exactamente onze horas, sem mais coisa, menos coisa, e ninguém na rua que pudesse reparar em nós.
Saído da Av. dos Serafins, eu descia a Rua da Igreja, que ela subia, de saco de plástico amarelo do supermercado com mercearias, produtos alimentares em conserva ou outros empacotados para igual fim, na mão esquerda, enquanto com a destra, polegar e indicador em pinça, puxava e esticava a pastilha elástica cuja extremidade prendia com os dentes. Antes de nos cruzarmos, parámo-nos, estancámo-nos, a dois palmos de distância, defronte para a porta lateral da igreja, que por sinal se encontrava aberta, mas de onde não soava qualquer ruído ou vestígios de presença humana (ou sequer divina, não obstante a proximidade do local de culto que emprestava o seu nome à rua). Cuspiu a pastilha, deixando-a pendular por instantes, e jogou-a para o meio da rua com um piparote. Sorrimos. A presença dela preenchia-me duma vitalidade surpreendentemente excelsa em sensualidade e confiança. Mas a ela, bastante mais nova do que eu, pois fizera dezasseis anos no 14 de Novembro p.p., data de elevado expoente cabalístico – 14.11.2016 –, enquanto eu navegava já pelos trinta de cavado alto mar, a minha aparição desencadeara outros sintomas (fraqueza nas pernas, esvaimento, perda de equilíbrio, tropeçar nas falas, necessidade impulsiva e imperiosa de me tocar, salivar constante, intenso suar de mãos e tremura nos gestos), pese embora que a doença fosse a mesma.
E porque estava linda, disse-lho, enquanto em simultâneo recitava no íntimo, com palavras mudas, o poema A CERTEZA DO AMOR, espécie de oração em verso que nunca deve ser dito, nem recitado, na presença de terceiros, posto que a voz alta lhe mata e retira todos os sortilégios:

“ Tu não precisas de mim
Nem eu preciso de ti.
Eu não sou a tua aspirina
Nem tu és a minha.
Tu não existes para me absolver das culpas,
Nem eu para resolver os teus problemas.
Nenhum de nós é a poção mágica
Soluto eficaz para as mágoas
Ou satisfação das necessidades do outro.
Nem das carências. Ou da solidão.
Tampouco ao equilíbrio ou a auto-estima.


Mas quando falamos de tesão,
Autêntica, de explodir até ao fim do mundo,
Então, tudo se complica;
E aí, penso,
Ninguém ma dá como tu.”


«Estás maravilhosa, Gigélia. Deslumbrante. Arrebatadora!...» O que simplesmente era a verdade. Pura, diga-se. E incontestável.
Por consequência, reanimou o riso, estendendo-me a mão livre, que tomei entre as minhas e beijei, a fim de melhor sentir o sedoso morno de sua pele clara. E o que lhe dissera alcançara o peso do universo, numa irrefutável evidência – aliás óbvia, pois nunca menti a qualquer mulher ou rapariga, mesmo àquelas que se têm em cota de baixa consideração e auto-estima, ou na opinião, quer própria, quer pública, arbitrariamente se acham pouco atraentes e até feias; porque sempre disse o que sentia ao senti-lo e sob o efeito directo desse sentimento, que é a ternura que cada uma me inspirou. Foi alvo e veículo. E transmitiu. E irradiou.
Nisto ouvimos um "rugido Famel" de motor de motorizada a trabalhar, que, traduzido em esforço e aceleração, tudo indicava vir a subir na nossa direcção, proveniente da Estrada do Cemitério. Só que antes de ela aparecer na curva que antecede o cruzamento, já nós tínhamos entrado na igreja. Quando passou à porta, estávamos-lhe dentro e por detrás, juntinhos, acariciando-nos mutua e lentamente, os dedos a viajar esquecidos entre poros e polpas, embora a ânsia de nos tocarmos crescesse na multiplicada provocação do desespero. Para lá da porta ficaram todas as inibições que nos haviam contido, e mantido afastados durante os anteriores dois meses e meio de aulas, em que fôramos construindo o suplício da atracção: a diferença de idade e de estatuto, a moral, o pressuposto social, o respeito pela família, o medo das adivinhações e pensamentos alheios, ou os desencontros de horário. Mas ali éramos apenas os dois e Deus – que nem convocado fora, ou de presença líquida; e nada além tinha importância ou contava para nós, excepto nós mesmos, na parte de cada um por cada qual.
Afastámo-nos sensivelmente. Apenas o suficiente para nos contemplarmos. Mutuamente gulosos. Os olhos de Gigélia eram o mundo todo numa versão de “Para Sempre”, à Vergílio, timbrado de verde-escuro (garrafa) com salpicos castanhos. Podia-se viajar neles como à tona de um sonho. Estendermo-nos, alongarmo-nos no veludo cromático de um tapete oriental. Quis que ela o soubesse. Portanto, beijei-a nas pálpebras achocolatadas de málvica macieza. Suspirou. Num exílio profundo, a emergir lá dos recônditos esquifes e enseadas onde o sangue batia ritmado, em pulsar libertador, depois da sobressaltada atitude que havíamos tomado, da intensidade da intenção condimentada pelo pulsar da expectativa.
Descansámos de nós. Éramos cavalos demasiado selvagens para nos submetermos às rédeas comuns, mas frágeis, dos preconceitos e falsos moralismos. Alheios à hipocrisia do pudor e do pecado. Aliás, resolvidos, pelo salto instantâneo e inconsciente dos degraus que dão acesso ao local de culto, numa dobragem das tormentas pelo acabar dos limites.
E exactamente ali decidimos que tínhamos todo o tempo (e solidão) do cosmos, mais que bastos, e suficientes, para deixarmos fluir a vida dentro de nós à procura de si própria. Somos-lhe a estratégia superlativa, perfeita e completa, e complexa, sem sombra de método, indubitavelmente. Pelo menos tanto quanto o foram os nossos progenitores. E essa era uma certeza que conquistávamos por cada minuto somado ao desejo em ebulição. Pronto à erupção, ao eclodir. Sem pejo, nem sobressalto.
Os anéis castanhos laivados a ouro dos cabelos, desciam-lhe ao pescoço, emoldurando as faces róseas, os olhos oblíquos, o pequeno nariz de ponta arrebitada, os lábios de desenho assimétrico, mas carnudos ambos, de viva, polposa e cárnea cor. Estava celestial e magnífica, sem esquecer quanto da sorridente alvura de convergir no para lá do lá dos secretos mistérios do corpo que a alma não hesita em seguir e continuar, lhe emprestava um áureo esplendor (brilho), na luminosidade vítrea que emanava, da luz, muito mais do que dela recebia. A consciência bárbara de um céltico culto, na ritual profanação dos rígidos moldes dessa mais recente ancestralidade, a moral familiar cristã, sem nada de enigmático e imaculado das figuras medievais, mas o corpo em plenitude, que é a massa de que é feito tudo quanto é deveras sagrado, e audaz se insurge contra os limites, conquistando novos significados.
Depois daquela fuga para dentro, vagueámos na igreja, mãos dadas, o saco amarelo abandonado no desvão da porta. E vimos sem ver os quadros em cópia barata de obras famosas, a talha dourada do altar, as vestes exóticas das imagens, representando mulheres e homens canonizados, em celebração da misoginia, os cortinados de veludo grená pesados e opulentos, em seu ondulado de ostentação, numa retenção de desafio, de medida, de procura, ao quanto éramos capazes de esperar. De prolongar o instante, de estender o tempo, fazer dele um naco de matéria tão elástico e moldável como o barro de nossos corpos. Argila de conseguir figuras ao custo da esperança, qual hipoteca do aqui e agora, num vasto painel suportado pela certeza de que seria assim que enfrentaríamos a eternidade se acaso fôssemos a ela condenados. Porque a eternidade é a única tragédia a que o ser humano ainda não está sujeito, sendo nos filhos que descarregou o fardo desse anseio, numa garantia de perenizar a vida sem o oneroso tributo da libertação ao medo da morte.
Perante o encargo, ajoelhámos ambos sob o altar. Mas não para rezar ou proferir preces; tampouco no lado a lado de quem espera uma benção. Frente a frente, contemplando-nos em adoração secreta, apenas denunciada pelo olhar que irrequietamente insistia em sorrir, em procurar-se, em tocar-se através de feixes intencionalmente imateriais.
Por fora, o trânsito, esporadicamente vinha lembrar-nos que o mundo não acabava ali, onde começávamos e terminávamos, num todo completo pelos géneros do cosmos. Mas éramos indiferentes à lembrança, não lhe reconhecendo valor além do de um ruído de fundo, incómodo, em frequência mal sintonizada. Porque, como sabemos, a abstracção não é abstracta. Nunca o foi, nem nunca o poderá vir a ser. É uma presença que insiste para lá da irrealidade (física), a consumar a indiferença ao momento, tripudiando do instante precisamente como ele o faz, na fotografia, ao movimento.
Foi então que ouvimos passos próximos da porta por onde entráramos. Mas, em vez de nos levantarmos, ou aprestarmo-nos a sair do local onde nos encontrávamos, baixámo-nos, protegendo-nos com a mesa atoalhada dos ofícios, escondendo-nos e tornando-nos invisíveis para quem entrasse. Era a serviçal da limpeza, a mulher do sacristão, talvez, a chocalhar as chaves no bolso da bata preta, que, depois de levantar o balde com a esfregona à porta da sacristia, saiu levando-o e fechando a dita de seguida com duas voltas da chave, que nos soaram ao coração como um engrenado resfolgar libertador. Descontraímo-nos. Ficáramos trancados dentro, o que ao contrário de nos aprisionar, antes nos libertou ainda mais do mundo exterior, e do receio de sermos ali surpreendidos. Nada nos impediria assim de concretizarmos em acto, o que anteriormente apenas tínhamos concebido em fantasia e imaginação. Até àquele dia... Que importa o espaço que o corpo de cada um habita, se é à alma que compete a totalidade na expressão irredutível da plenitude? Do fortalecimento do ser? Da execução do divino? Do prazer de profanar os limites? De os romper e reduzir à sua infinita mediocridade?...
Gigélia Hirondina era arrebatadora em seu despertar para o iniciático universo do corpo, que se usufrui, tanto quanto maior for a sua capacidade de entrega. As pernas longas, afastadas, o dorso em arco de desferir solicitude, os pulsos sustendo-me as ancas, as mãos vincadas nas nádegas atraindo-me, os braços flectidos de imprimir-me em si mesma, o ventre procurando-me cego, mas imperioso. A boca sofreguindo-me o pescoço, o queixo; a boca cuja língua soletrava seu hálito de sede e tumescência, repleta de contradição e dissolvência, em frescura morna de uma realidade só comparável ao sonho das polpas exóticas, quando se nos desfazem no palato em sua degustação (atenta e aturada).
A tarde iniciava a cumprir-se. Ao sol que fora subindo ao cume do zénite, não tardaria a aliviar o esforço e começar a descida, qual roda de fogo em marcha travada sobre a linha imaginária do horizonte, procurando seu nadir de reclusão. Mas não sem que antes lançasse os seus raios multicolores sobre a penumbra do altar, através do vidro recortado do vitral na janela gótica da arcada, lá no alto onde ninguém encostaria os cotovelos por ter sido feita como um celestial varandim, onde somente seria permitido descansar o olhar. O que, para quem se sabe não ser o “único a olhar o céu”, estas palavras têm muito mais plenitude e sentido que simples e soletrados sons.
Sabíamos que a qualquer momento podia voltar a mulher da limpeza, mas nem assim receámos o quer que fosse, desde o sermos surpreendidos à falta de tempo. O importante é que estávamos juntos, unidos por uma força invisível e omnipotente que nos atraía cada vez mais e mais e mais para perto de nós, e obrigava a que nos tocássemos mutuamente, ao procurarmos em nós o outro lado de nós, a certeza sem esperança, nem hipotecas de tempo e de vida; que é na ausência das suas noções e consciências que se consolidam. É quando menos notamos a sua existência que ele mais rápido passa, o tempo (e ela, a vida). É a sua intensidade que no-la devolve em inconsciência. E ousadia. Que, enfim, a torna tanto mais fugaz, quanto maior nela é essa/sua audácia.
Esquecermo-nos dele era esquecermo-nos de nós; no entanto, a cada segundo que passava, contabilizado pela pele que se toca e percorre, era transformado, por uma multiplicação do desejo, na aspiração de outro segundo e ao dobro da mesma cútis. E a de Gigélia Hirondina é seda morna, macia e quente, rósea fermente de pronunciar êxtase e liberdade. Quem domina o grito que nos esvai? Quem o sabe proferir? Quem pode dizer que o veludo olímpico não tenha sido copiado da sua glória e textura? Quem?
Sob a ganga das calças sinto-lhe as pernas secas, mas esguias, musculadas, compridas, resistentes, e as nádegas firmes, de bochechas alçadas, a afastarem-se ao contacto das minhas mãos, autorizando aos dedos o aflorarem o seu Vale do Nilo, do ânus à púbis. O seu gesto é de entrega, mas as suas mãos procuram em mim o conforto da posse que nunca antes havia desfrutado. Enquanto que com a esquerda me percorre o dorso, comprimindo-me, atraindo-me para si, a direita arrebata-me o sexo repleto e pulsante, fulguroso porém contido e congestionado, que o aperto da ganga não conseguia desmoralizar. É de buscar-mo que o toma, primeiro tacteante e indecisa, mas ganhando pouco a pouco confiança, subtileza, sofreguidão e carícia.
Afasto-me dela, desabotoo as calças – raramente uso cuecas, que me enguiçam os apetites e apetrechos!... – e permito que ela tenha uma visão geral do órgão em que toca, testículos, pintelhos e ancas, e saiba como se afina, ou o que as carícias nele provocam e em mim.
«É tão feérico e irascível...», murmura ela, desmentindo as minhas suspeitas quanto à sua fraca funcionalidade e pequenez, evidenciando o temor (infundado), com que a inexperiência costuma sobrecarregar o fardo das comparações.
Digo-lhe que não, que é simplesmente a percepção primária que provoca essa sensação. Que foi o facto de o não ter visto em pequeno, flácido, ou de não ter assistido ao seu tumescimento e maioridade, mas sim de o confrontar logo entesado pela primeira vez que o contacta e vê, que lhe inspira essa impressão. Que nada receie, conforto-a. Na sua mão a derme é macia, dedos curtos, unhas rentes e palma de gomos cheios. Beijo-a sôfrego, ainda mais intensamente na boca, nas faces, por detrás das orelhas, no pescoço, nos ombros de que lhe arredo a camisa de flanela, ao desabotoar-lha. No peito, entre os seios cónicos, de mamilos medalhudos achocolatados a culminarem nas pontas polposas, bicos fremitantes, a que, entrementes lhe sugo o esquerdo massajo igualmente o direito, com os pomos dos dedos húmidos de saliva recente, e vice-versa. Gigélia dobra-se para trás, desfraldando a camisa axadrezada, e desabotoando as calças, correndo ela própria o fecho éclair. Não usa soutien-gorge, mas tem postas umas cuequinhas brancas de algodão fofo, que reconfortam o tacto só de vê-las, como macios são também os encaracolados dourado-escuro dos pêlos púbicos. Desço-lhas, acariciando-a entrepernas, meigamente, demorada e calmamente, entreabrindo-lhe os lábios exteriores, friccionando-lhe o clitóris curto e insignificante, com a mão livre, enquanto com a língua lhe percorro, em círculos, numa espiral, o abdómen desde o umbigo. Ergo-me e puxo-a comigo, para cima, sentando-a sobre a toalha rendada da mesa dos ofícios, com as coxas afastadas, as calças a descerem-lhe até aos tornozelos.
Desembaraço-a delas, e dos sapatos de ténis, ajoelhando-me sobre elas, afagando e beijando-lhe as pernas, que ela abre sobremaneira, libertas que foram da ganga das jeans. No vale de entre as coxas eleva-se-lhe a púbis, em papo de rola, qual grande plano de relevo cumeado por cordilheira dorsal no emaranhado de cabelinhos castanho-claro, encaracolados e sedosos, a que colo a boca, apartando-lhe os lábios com os meus lábios, e deixando a língua aveludar-se-lhe entre, saboreando o amariscado doce da sua liquefacção, ir ao clitóris e voltar, reiniciar o mesmo ciclo de gestos e retornar, numa cadeia repetitiva de constâncias. E imperiosidades. Com Gigélia a pousar-me ambas as mãos sobre a cabeça, os dedos riscando despenteados, comprimindo-me sempre mais entre as coxas que se lhe retesam, enleando-me, aprisionando-me nelas. As minhas percorrem-lhe o dorso, as costas, num abraço complicado. E mantenho a língua numa lambidela rítmica, até senti-la estremecer em subtis orgasmos, embora que concludentes, evidenciando estar para prestes o tsumanis espasmódico da libertação.
Então, faço-a descer da mesa e ajoelhar-se entre mim e ela, de costas voltadas. Suas nádegas alçadas, equinas, abertas, procuram-me o sexo, anichando-se-lhe em redor. E assim, em perigosa contenção, afasto-lhe ainda mais as pernas e deixo que o pénis endurecido avance até à vagina, que lhe rodeia a glande e ela massaja convictamente com mãos ansiosas. Quanto a mim refreio as pressas e acaricio-lhe os seios, simultaneamente a beijo por baixo da nuca, coluna vertebral e ombros, até ela começar a contorcer-se, em convulsões espasmódicas, intentando cravar-se-me no sexo, o ânus acariciado pelos meus pêlos encarapinhados. Eléctricos. E inesperada e surpreendetentemente úteis.
Noto que nem eu, nem ela, poderemos manter-nos sem que algo deveras importante aconteça. Saco a toalha rendada da mesa para o chão, Gigélia posta-se fronte de mim, deitando-se de costas sobre ela, e só então a penetro, primeiro apenas com a glande, mas depois longa, demorada e profundamente. Os olhos cerram-se-lhe, e as pernas encerram-me, atraindo-me e prendendo-me a si. Não há saudade nem distância que nos façam reflectir a irreversibilidade do caminho. Chegou a hora de procurar o fim do mundo, para nos despenharmos e precipitarmos nele. E quando finalmente desperto duma explosão cósmica em que a arrastei comigo, ela sorriu-me, num esgar de plenitude e alegria como nunca antes lhe tinha visto. Beijámo-nos novamente, e ela virou-se de repente, pondo-se de costas para mim, deitando-se ao comprido de barriga para baixo, mas de traseiro levemente erguido, enquanto com as duas mãos afastava as nádegas, descobrindo o ânus.
«Rasga-me. Magoa-me bem. Até ao fundo», pediu ela. No que se repetiu, implorando.
Obedeci-lhe como se fosse apenas corpo, fazendo-a gemer de dor e o tronco em convulsões de choro.
Violava-a. Mais pela violência do pedido, do que pelo comprometimento do acto. Então compreendi que se sacrificava, que se imolava, como se se quisesse punir pelo prazer que havia auferido anteriormente. Quando terminei, numa ejaculação esforçada e agressiva, beijei-lhe os olhos e bebi-lhe as lágrimas, sem que pronunciássemos qualquer palavra. O sol punha-se, e já mal nos víamos na penumbra crepuscular.
Procurámos, na sacristia, uma janela que fosse suficientemente baixa para podermos saltar sem nos aleijarmos, depois de nos vestirmos.
Saiu primeiro, e atirei-lhe o saco. Saltei em seguida e despedimo-nos, na rua, como se nos tivéssemos acabado de encontrar vindos dos mandados, ao cruzamento das ruas (a da Igreja com a de S. Vicente) com a Estrada do Cemitério, num simples e mútuo
«Inté!...»
seguindo cada um seu rumo, sem uma promessa, sem um contrato, sem nenhuma obrigação de nos voltarmos a ver, ou sentir que devíamos manifestar esse querer embora não estivesse previsto.
Entre outras, era ao futuro que competia essa estipulação, se é que ele existe ou existirá, qual amanhã que se faz ontem... E à vida, que é quem mais manda e impera nestas andanças, que se não lhe são próprias e exclusivas, é somente porque o diabo se mete de permeio. Por incomuns que nos pareçam... Sobretudo porque em Casal Parado o quotidiano é tão imóvel, atarraxado, tão estagnado e pantanoso, que a criação o tem por caldo próprio, onde tudo pode acontecer, desde que ao momento seja dado estar atento, espiando a oportunidade que o procura, e que, enfim, foi quanto nessa tarde apenas sucedeu!
















2.27.2010

Alterações de Espírito

Estranhamente observável na sessão inaugural, Sinais de Fogo – que fogo? Amigo? Inimigo? De artifício? Ou apenas de fumo? –, pela nomenclatura, formato e coreografia, este boletim talk show dos pequeninos pareceu um recado encomendado pela questão coimbrã, em versão eleitoral semi-presendialista, para não contrariar o regime, com o fim de cortar à faca afiada da retórica e da semiótica social-democrata das primaveras marcelinas, em declarada versão remix das Conversas Em Família com direito a visitas (especiais ou espaciais, não se sabe bem...), condimentada com um apimentado gosto pelas quezílias comezinhas e domésticas, tipo marceladas em sofisticada bancada gastronómica da ML Modesto, na insensatez da guerra (fratricida) entre géneros, com vista a pôr os bons e os maus no mesmo plano (familiar), dando-lhe voz, é indesmentível, mas fazendo a inevitável separação consequente à evidentemente clara diferença que entre eles existe: uns, os bons querem retocar apenas a maquilhagem para continuar com o mesmo figurino (socializante); outros, os maus, querem alterar o modelo, embora não se preocupem com os pormenores e rendilhados do traje nem com as marcações do desfile. Erro grado, como é por demais salientado, numa questão onde as vidas, a qualidade delas, a natureza fundamental da democracia, se representativa ou participativa, se corporativa ou da cidadania, não passam, afinal, de mais uma destrinça burguesóide sobre bom senso e bom gosto, entre os quais vem o MST e... escolhe.
Que é recado ninguém contesta, todavia importa saber não quem o dá, mas quem o encomendou e como conseguiu impô-lo no universo da comunicação social lusófona, depois das arrelias, desmandos, incómodos e apoquentações que a Face Oculta tem detonado um pouco por todo o lado, demonstrando quão diferente é denunciar publicamente qualquer coisa ou pôr a boca no trombone, até na Rádio, que desde sempre foi uma espécie de baldio censório fedorento onde se vai afiando a lazulite quadrilheira conforme os interesses publicitários o permitem – leia-se, exigem –, no corta aqui, elimina acolá, no sonybitiano da refrega, que tempo é dinheiro sob as avalanches das crises, este nem lá entra que é para saberem quem é que manda aqui, diz o feijão entalado entre as escarpas da soberba e autoconvencimento, que é coisa que vai sendo esbanjada à torna baldia sob a cagança porreirista de atirar fora a vaca (armar em abastado) e comer depois só as tripas.
Por conseguinte, acerca das carambolas e jigajogas nas Faces Ocultas católicas – sempre gostava de saber que semelhança/ligação é que pode haver entre as cocas portalegrenses, as instituições judiciárias e as burkas islâmincas... –, convém referir aquilo que a Carta Europeia da Liberdade de Imprensa, reiterada no anopassado pela Comissária Europeia para os Media, Viviane Reding, e promovida pela comunidade – ou será tribo? – dos jornalistas europeus, cujos artigos primeiro e segundo sublinham inequivocamente ser a "Liberdade de Imprensa (ou Expressão) essencial para uma sociedade democrática, [onde] todos os governos devem defender, proteger e respeitar a diversidade dos media em todas as suas formas e políticas sociais, [porquanto] a censura deve ser absolutamente proibida". A Fábula da Raposa e das Uvas é mais velha que a Serra d'Ossa, e não basta dizer que as ditas (uvas) não prestam e estão verdes logo que se reconhece que o que caiu foi uma parra, e não um cacho delas, afirmar nunca ter tentado passar a perna à comunicação social incómoda, a disfarçar por ter sido apanhado, uma vez que é essa precisamente a estratégia mais simples e mais divulgada das mais velhas profissões do mundo: tenta-se, mas se algo correr mal, então descaradamente nega-se, se possível com indignação e acusando quem suspeita da marosca de não serem, nem terem a mínima confiança no amigo (desinteressado).
Pelo que resta concluir, visto nenhuma das partes envolvidas estar preocupada com o respeito, ou o desrespeito manifestado, nomeadamente a Justiça, que mais pretende ser secreta e secretista do que justa, à Carta da Liberdade de Imprensa (2007), é que o governo teve azar e foi apanhado (com a boca na botija) por quem sabe muito bem como as coisas se fazem, uma vez que também conhece a modalidade, precisamente porque já a praticou (no passado recente). Zangam-se as comadres, contam-se as verdades, eis o grafite que em rosa-choque e laranja-luminiscente pintalga os muros apodrecidos da identidade secular do (in)consciente colectivo que nos suportam a pátria, e esclarece porque continua a ser evidente que, façam aquilo que fizerem, tapem ou camuflem aquilo que camuflarem, onde há Fumo, há sempre (Sinais de) Fogo.



2.25.2010

Sinais de Figos

Radical, eu... Pois sim, mas nunca corrompi nem estraguei o presente ou o futuro a ninguém!
A capacidade de reacção e o grau de resiliência sócio-económica da Madeira, após a catástrofe natural que a vitimou, foi um «auguentem-se» de se lhe tirar o chapéu, que irá dar água pela barba aos políticos e demais gestores da coisa pública do «contenente», porquanto em menos de uma semana, depois dos efeitos devastadores das avalanches de terra e água, que soterraram, destruíram, atolaram, afogaram e entupiram centros nevrálgicos da urbanidade e quotidiano dos madeirenses, ei-los recuperados e lavados de fresco, a que nem o impiedosamente lamentável número de mortes, conseguiu abstrair-nos da ideia que a Ilha foi apenas sujeita a mais uma barrela para lhe arear os brios, limpeza assaz necessária se considerarmos o muito encardidas que andavam algumas línguas a dar ao trapo da lobística nacional-beneditina e arquipélagos adjacentes, sobretudo se atendermos a que aqui bem perto, no Litoral Oeste, sucedeu o que sucedeu, já lá vai um tempão, e só ontem a campanha de recuperação das (infra)estruturas agrícolas/hortícolas começou (financeiramente) a ser feita, com a devida pompa e circunstância do foguetório media propagandístico costumeiro em tais caridades ou eventos.
É, portanto, caso para rever a atitude parlamentar perante a aprovação do Orçamento de Estado, renegociando as verbas a atribuir ao arquipélago, duplicando no montante se possível for, mas exigindo como contrapartida a vinda para o continente de um terço da sua população, e em correspondência com todos os sectores de actividade, que seriam distribuídos equitativamente pelas nossas regiões, de norte a sul, para impulsionarem com a sua presença e exemplo, os níveis de participação e cidadania, e contabilizar essa verba, não como um acréscimo da despesa, mas como um investimento de retorno garantido em curto prazo, uma vez que ela nos iria facilitar poupar rios de dinheiro no futuro imediato, esse mesmo que actualmente é esbanjado em engonhices politiqueiras do quero-posso-e-mando do status quo «imperial» da bipolaridade moderada, que é uma espécie de moléstia na partidarite feudal dos barões da marialvice actual.
Para a minha avó, que versada era nestas coisas da usança que se torna provérbio, quando alguém caía no caminho, se se referia depois a essa queda, ou ao local onde ela acontecera, dizia que aí plantara uma figueira, indo ainda além, caso dela resultassem algumas consequências visíveis, por colher os figos da figueira que plantara. Em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que é uma intensa e extensa metáfora do ditado assinalado por minha avó, a Figueira (da Foz) foi a maior queda e a que mais marcou o percurso (caminho) do protagonista, personagem principal então a braços com os designos iniciais da sua formação, quer humana, como académica. E até aqui nada de novo, que a bondade de uma história não está no que ela é, mas (deveras) no modo como pode igualmente ser contada, parafraseando o nomeado autor. Agora, a elipse fundamental, o inaudito acordo de si perante o total apagamento, o desmemoriável reconhecimento de como a essa situação se chegou, é que já me parece um tanto mais rebuscada nas coreografias da nossa ocidentalidade, portuguesmente falando...
Das duas, uma: ou quem assim intitulou o programa nunca leu o livro mas gostou da semiótica (bélica) que encerra, e nesse caso, é apenas mais um entre dez milhões de portugueses que avaliam os conteúdos pelos rótulos, os contenidos pelos continentes, que continua a acreditar que o amor entre os burros começa aos coices e acaba (sempre) em cacos, o que não obstante já não haverem caravanas de oleiros a deslocarem-se para as feiras e mercados, não deixa de ser observável pelos números veiculados sobre violência doméstica, divórcios e discriminação genérica; ou, por outra, quem de tal o intitulou sabia muito bem o que estava a fazer, quiçá tenha lido a obra, ao direito como em ziguezague, quis fazer bonito, porém malhou, plantou figueira de cujos frutos terá que se alimentar futuramente, esquecendo que a particularidade de eles antecederem as suas flores, e de se passarem para assim evitar o indesejável apodrecimento. E nesse caso, se o que pretendia era branquear o decrescente prestígio do actual primeiro ministro português, para efeitos de governabilidade, então a coisinha não resultou minimamente, pois toda a gente viu – e ouviu – como se faz isso de serem duas pessoas a amanteigarem a mesma fatia, ora um, de um lado, ora o outro, do outro, em ameno e paulatino piquenique no parque de merendas das tágides suas, do que logicamente se conclui que nem um ficou mais branco ou preto, conforme timbrou no cinzento da gravata, nem outro menos desbotado no azul do nó com a mesma.
Ou seja, temos que admitir que naquela curva da estrada, foram dois a plantar a mesma árvore. Porém, saber ao certo, qual deles é que vai comer os figos, e qual aquele a quem vai arregoar a boca, isso é que é um mistério e tanto, que somente o futuro escreverá neste romance intempestivo que é a legitimidade democrática em navegações turbulentas nos acidentados oceanos da nossa portugalidade, em que nunca se sabe o que é que uma lei quer dizer, por virtude da fraca competência literária de quem legislou. O que são outras das passinhas, que além das do Algarve, também o restante Portugal passou!



2.12.2010

Vento Sem Tempo

Embora as pinturas rupestres sejam pensamentos, valores, ideias e ideais fossilizados, as vozes não deixam quaisquer fósseis, nem mesmo aquelas que se fizeram acompanhar com melodias (ideologias) várias, que nunca o suporte musical durou mais que o "vento" que transporta a palavra, como aliás já estava muito bem enunciado pelo famoso ditado popular que aventa aos quatro cantos do globo que palavras, leva-as o vento. Todavia, convém salientar que este ano de 2010 não é apenas mais um ano que medeia entre a crise que eclodiu em 2008/9 e a que (previsivelmente) surgirá em 2011/12, uma vez que a comunidade humana internacional, para se prevenir, única e exclusivamente para se prevenir, o elegeu como o Ano Mundial da Biodiversidade e a União Europeia lhe instituiu para preocupação fundamental e prioritária o combate à pobreza e exclusão social, determinando involuntariamente quanto uma temática e outra estão intimamente ligadas, considerando que a biodiversidade terrena sem a sua vertente social e humanitária é apenas mais um Quasimodo nesta ópera quotidiana (tragédia da sobrevivência da espécie), em que a Bela está particularmente adormecida, havendo também quem legitimamente diga que não só está adormecida, como igualmente dopada, narcotizada, anestesiada e iludida.
Ora, se a biodiversidade é transversal à vida terrena, ela exige porém que se garanta a sua sustentabilidade e resulte exactamente nela, já o mesmo não podemos afirmar sobre o combate à pobreza e exclusão social, uma vez que esse “combate” só será possível se houver recursos financeiros e humanos disponíveis, logo uma segurança social tão robusta quão sustentável, o que por si é um monstro difícil de alimentar, perante a ineficácia placebetária dessa invenção do chicoespertismo nacional, que apenas serve para ir ao bolso dos trabalhadores, surripiando-lhe dois ou três meses nas reformas, a que enganosamente se deu o faceiro nome de factor de sustentabilidade, visto que de factor somente ter aquele sinistro e canhestro sintoma de como os políticos e gestores da coisa pública vêem os portugueses, uns trouxas que gostam de ser comidos, e não vem resolver minimamente a insustentabilidade da segurança social, porque ela só se resolve com o constante e progressivo e contínuo aumento de trabalhadores, de inegável sustentabilidade laboral, efectivo desconto sobre o rendimento do trabalho sustentado, ou seja, só é possível fazer face a despesas e compromissos crescentes com receitas crescentes e duradouras, o que unicamente se consegue com mais emprego, pondo necessariamente fim aos despedimentos e erros de gestão, quer pública como privada, que opta invariavelmente por corrigir as diferenças de balanço desembaraçando-se dos recursos que sustentam os seus organismos e empresas, os recursos humanos, que são, enfim, a única garantia de sobrevivência das economias, incluindo as de mercado, como é a nossa, ou a europeia, em que estamos envolvidos, casados para o bem e para o mal, com assento registado pelo Tratado e pela Estratégia de Lisboa.
Em resumo, escusam de criar moda de bem pensantes, elegendo bandeiras temáticas, como o Ano Mundial da Biodiversidade ou prioridade fundamental europeia de combate à pobreza e exclusão social, porque de palavras estamos nós fartos, são coisas que o vento leva, intenções das tais de que o inferno está cheio, pois o que precisamos, a comunidade internacional, os europeus e os portugueses, é de actos e factos que corroborem esse querer, e isso só se consegue se for observada a sustentabilidade laboral efectiva, sobretudo redobrando o esforço no combate ao desemprego, pondo imperativa e determinantemente fim aos despedimentos, despedimentos que desperdiçam e atiram fora a força-trabalho de um povo, como qualquer pré-histórico faria ao computador que achasse, por desconhecer que mais-valias produz, ou como funciona
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2.06.2010

Da Coragem de Enfrentar a Verdade e o Erro



Surpreende-me, acerca das imagens das reacções dos populares no Haiti, como é que seres supostamente humanos, precisamente dois milénios depois de Cristo ter andado a (pregar) deambular pela moral e ética judaico-cristã como quem anda aos cogumelos silvestres, exactamente essa moral que impede qualquer mulher de subir aos púlpitos e altares, ministrar sacramentos e rituais religiosos, por ser menstruável, logo nojenta e indigna do contacto com as divindades, à vista e nas barbas de toda a gente, incluindo os intelectuais do politicamente correcto e do não me comprometas – que amanhã vou precisar de quem corrobore a minha vocação para este ou aquele tacho –, com radicalismos que as eleições estão à porta, nomeadamente das objectivas dos repórteres estrangeiros e das televisões mundiais, alguns, bastantes!, sobreviventes das derrocadas do sismo, e seguintes réplicas, não só saqueavam as casas abaladas e destruídas, como igualmente roubavam aos mais fracos a ajuda de sobrevivência que as organizações de ajuda internacional lhes forneciam. Pensei que isso seria impossível num país civilizado, mesmo entre gente remota edificado, qual quê!, é mas é uma prática comum, institucionalizada, disseminada aqui e ali, contagiando até os vacinados e sofridos, incluindo aqueles que são a elite de um país plantado entre o deixa arder que eu sou bombeiro e o politicamente correcto, os seus deputados e deputadas, governantes e quadros, oficiais, professores e funcionários, havendo mesmo aqueles que se indignam com a verdade que faz uma publicidade negativa do nosso país, e preferem a mentira que edificaram, construíram, publicitaram e elegeram, mesmo que essa mentira esconda os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) europeus no lodeiro da sua consciência individual e colectiva, importando-se, não com a sustentabilidade económica e cidadania, aprofundamento da democracia e combate à pobreza e exclusão social, de Portugal, mas sim com a possibilidade de ainda virmos a descer mais, empenhando-nos mais e contraindo mais dívida e défice, pois que assim, embora a crise se agrave, os seus partidos poderão colher vantagens políticas, não só ganhando mais votos, logo representação parlamentar, mas igualmente mais pobrezinhos a quem possam estender a sua caridadezinha e, por continuidade dialéctica, lhe venham a invejar o êxito nas lides da alma e frutos de abastança, de vida fidalga, na desenvoltura do corpo.
Isto é, estranhei eu que lá longe houvesse quem assaltava as vítimas do mesmo infortúnio que tivera, e não sei porquê, já que entre nós a coisa é igual, havendo quem acuse aqueles que querem mudar para melhor, corrigir os seus erros, tornar Portugal um país sustentável e consolidar o seu desenvolvimento económico e humano, de fazer publicidade negativa, apenas por não bater palminhas ao manancial de baboseiras que vocifera dos púlpitos que frequenta, confundindo conhecimento com fé e vontade política com demagogia político-partidária, biodiversidade com especismo e igualdade de género com sexismo, somente porque isso lhe trará mais proveitos e contas no estrangeiro, fama nos mass media e colagem ao superior interesse da nação, por conseguinte, passe de mágica ilusionista, do que garantia de sobrevivência actual, crescimento sustentado no futuro e maturidade histórica na memória da espécie e enciclopédia do universo. Estranhei, é certo, mas por frescura com certeza, pois cá é bem pior, já que o que fizeram no Haiti foi por fome, insegurança e falta de cultura, contudo aqui é precisamente por egoísmo, ganância e cultura marialva, onde o que importa é atingir o poder, cavalgue-se o que se cavalgar, seja pileca de estrebaria ou lusitano de real coudelaria: o que importa é ganhar muito do orçamento, venha ele de onde vier, e seja ganho com o sacrifício ou à custa seja de quem for, operário, sem-abrigo, cigano, aluno, professor, transmontano, ilhéu, alentejano, seminarista, empresário, estudante ou doutor. Vai lá, vai... Até a pocilga abana!

2.03.2010

Janela de Oportunidade




Cada qual sabe as sombras com que se entretece.
Ouvi, uma vez, dizer a um escritor consagrado pela crítica e pela banca, que escrever “é descrever a um cego o que estamos a ver, até que ele veja o mesmo que nós”. Senti-me defraudado. Então, adiantei: “a um cego que não quer ver, até que ele veja melhor do que nós.”
Talvez seja uma tarefa difícil, e reconheço que nunca o conseguirei. Só que o para “que não digam que nunca tentei” não é lá grande compensação. Pior ainda: é a confirmação duma frustração. O escritor é o único animal que faz da frustração uma profissão de fé: imolar-se, é-lhe decididamente preferível à indiferença. E executar-se consequência inequívoca dessa culpa alheia, ou em redenção de uma culpa colectiva, logo, o último responsável porque é igualmente de todos, o maior e mais nobre galardão que pode alcançar, e a que normalmente chamam fama ou número infinito e incontável de leitores.
Agripina está sentada, nua, no sofá da sala de estar, primeira divisão da casa que habita desde 1976, precisamente o nº 13 da Rua Velha, em Casal Parado, com o pé esquerdo sobre a alcatifa, surradíssima essa, e o direito sobre a nappe vermelha do móvel, erguendo o joelho dobrado à altura do queixo, inclinada para a frente, os braços ladeando a perna, cortando as unhas, com uma tesoura bicuda e curta, na mão direita, enquanto com a esquerda segura o pé e levanta o dedo. Tem o cabelo molhado e brilhante, como só os cabelos totalmente pretos podem brilhar quando se lhes ministra algum gel amaciador. Defronte a ela, a televisão, mal sintonizada, com chuviscos, deixa escapar a imagem numa subida alucinante. Não quer saber!... É o padrasto que paga a luz. Deixá-lo.
Dezassete anos; é quanto lhe rezam as contas, se feitas pelo B.I., mas a mãe já lhe confidenciara que somente fora registada com catorze meses, pois nascera na Roça, sob a providencial ajuda de duas pretas da casa, e a cidade mais próxima era longe, a uns cem quilómetros, com picadas em mau estado e (provavelmente) minadas pelos turras, que nesses tempos ganhavam uma força (moral) superlativa em consequência da opinião pública mundial se ver explanada nos acontecimentos internacionais do género da "derrota" dos americanos no Vietname ou da explosão pacifista do Indira Gandhi. Na noite anterior, quando regressara da escola nocturna, o padrasto estava a montar a mãe à canzana, com a porta do quarto escancarada, e sorriu-lhe, babando-se, no preciso instante em que ela punha os livros na mesinha do telefone, ao corredor, de frente para o quarto. A mãe também a viu, quando num esgar de cio orgástico abriu os olhos, mordendo uma franja da colcha, as mamas a balancear, mas largou uma gargalhada desinibida, desenvergonhada e sem escrúpulos, de sátira confissão, perante a confusa timidez do seu rebento – já bastante florido pela certa. Ao entrar no seu quarto, depois de ter ido à casa de banho, fechou por dentro a porta à chave. Contudo, demorou a adormecer, e quando enfim o conseguiu, sonhou que a mãe a agarrava por detrás, imobilizando-lhe os braços, ao mesmo tempo lhe afastava as pernas e o padrasto a violava. Depois o padrasto metamorfoseou-se e assumiu as feições do patrão, enquanto a chefe de secção tomava o lugar da mãe que, finalmente, se transformava na professora de História, concomitantemente ao patrão sucedia a imagem de D. Afonso Henriques, que sucessivamente se multiplicou numa série de Afonsos e de Sanchos, Dinises e Pedros, até ao Prior do Crato, ao presidente da república e presidente europeu, que foi quando acordou.
«Foi uma orgia! Foi o que foi!...» Exclamou para si mesma, sorrindo, sacudindo simultaneamente uma unha com as costas do midinho e anelar da mão direita, ao mesmo tempo que com a esquerda o polegar do pé. Nunca ligara muito a sonhos e mantinha a certeza de que continuava virgem e casta, impoluta no dizer do povo, inocente perante o que acerca de si própria pensava.
«Até quando?...», pensou. – Sim. Até quando?... – E sentiu uma onda de calor a percorrer-lhe o dorso, que a levou a felinamente recostar-se, distendendo-se suspirando, para trás. «Até quando?...»
Tocaram à campainha. Uma vez. Duas. Três vezes: não era o carteiro.
Ergueu-se. Foi à janela, levantou a esquina do estore, e, enviesada, espreitou o exterior, sem se preocupar em esconder o corpo nu. Eram duas mulheres, dos inta pròs enta, com sacos de couro a tiracolo. Provavelmente Testemunhas de Jeová. Elas desviaram-se da porta, posicionando-se mais defronte para a janela, e viram-na; então, desorbitaram os esbugalhantes olhos, sacudiram as cabeças pesarosas e partiram à desfilada. Agripina notou como elas repararam na sua nudez, mas em vez de se esconder para dentro, ainda ergueu mais o estore, e ficou a vê-las descerem a rampa de acesso, cochichando uma para a outra e virando-se para trás a cada dez passos dados. Com a mão livre aflorou a púbis, subtilmente, até se sentir humedecer e o clitóris fremir expectante, dando ao pormenor a periclitante urgência do todo.
«O que é que aquelas cabecinhas pensarão do bocado da carne?» Perguntou-se, exalando estridente gargalhada, em simultâneo com o desviar-se da janela, para voltar ao sofá e cortar as unhas do outro pé, a fim de findar a missão iniciada.
Ao sábado não trabalhava, nem tinha aulas. Tendo toda a manhã por sua conta, assim como o resto do dia e fim-de-semana, melhor dizendo. O padrasto, mai-la mãe, tinham partido para Estrasburgo, a passar oito dias que ganharam num concurso de anedotas, conjuntamente a outro casal, mas cujo prémio desfrutariam em Bruxelas, num programa televisivo do canal oficial nacional.
«Nunca se sabe!... Nunca se sabe!...» E suspirou.
Acabada a tarefa, pôs os dois pés no sofá, massajando-os com a mão dos seus lados, até que os sentiu lassos e descontraídos. Ligou a televisão, sem escolher qualquer canal e virou-se de lado. Passou a perna direita por cima do encosto, deixando-a bamba e descaída do outro lado, e estendeu a esquerda para fora, apoiando o calcanhar na alcatifa, ou no que dela restava, e deitou-se para trás, ao comprido, o braço direito ao longo do encosto, a cabeça no apoio de braços e o esquerdo pendente a coçar uma comichão imaginária no tecido do chão.
Quando acordou, mantinha a posição, e, na TV, estavam a transmitir o Jornal de Domingo, rodopiando reflexos e sombras para o tecto. Era tarde avançada, e o fim-de-semana escoava-se na penumbra a emergir, terminava com o crepúsculo a adensar-se, a crescer para o escuro na repetição garantida de mais uma semana cinzenta que se avizinhava, também ela com a esperança a rodopiar intermitente no cimo convexo de uma abóbada virtual.

1.30.2010

As Sombras e os Números




“Uma cerveja e um sonho;
Eis tudo que tenho.
De mim, do inconstante real,
Mais nada – nem bem, nem mal...”



O excitómetro ainda continua a ser o mais antigo e eficaz instrumento de medir te(n)sões, desentendimentos e medos de incompetência, também conhecidos por disfunções sexuais (além das outras que complicam igualmente a vida às pessoas com pouca prática no darem-se a volta a si mesmas, quer o façam por baixo como por cima – as que apenas se supõem ser).
Eram três da manhã. O quarto parecia vazio e, embora tivesse ficado nele anteriormente, algumas outras vezes, estranho. Da mala de viagem aberta, as camisas impávidas e impessoais transbordavam, vivificando em seu desalinho uma estrutura inabitável. Descobria-se dentro delas, adivinhava-se exibindo o clamor do seu sedentarismo frustrado. Cosia-as mais a si. Lembravam-lhe corpos semidecepados – os seus outros heterónimos, à data adormecidos na clandestinidade, empedernidos pela estatuária de qualquer Pessoa no desemprego ou mal instruído pelas manobras da crítica.
Fora ao cinema. Um filme divertido, por acaso. Uma comédia, ou coisa que o valha. Rira-se a bom rir. Depois, regressara àquela redoma de quatro paredes no terceiro andar de um prédio majestoso, entalado entre congéneres. Na avenida paralela ao rio, esse misterioso tesouro onde se situa o museu, e em que tinha decidido pernoitar. E no início desta fica a Ponte, em sua exclusiva personalidade de pedra, cimento e ferro, que nem uma "escultura arquitectónica" mansamente válida e útil na consciência colectiva das políticas corporativistas, na caracterização e identidade de Casal Parado. O que certamente lhe agradaria, quando pela manhã acordasse – pensou.
Mas os planos haviam-lhe falhado. Apenas se tinha deitado há duas horas e já acordara pelo menos quatro vezes. E de todas elas viu precisamente o mesmo: o guarda-fato, a cadeira onde pusera as vestes dobradas pelos vincos, a banca de cabeceira, a janela transparecendo o néon duma loja próxima, e a mala meio desarrumada.
Amedrontadamente imaginou-se, enquanto se esforçava por adormecer, unindo as pálpebras, a rever o irremediavelmente mesmo mobiliário. Viu-se a acordar novamente. Quanto mais se prendia ao pensamento de que era conveniente adormecer, mais essa visão se tornava poderosa. Masturbou-se, e voltou a masturbar-se – esporadicamente isso dava resultado, justificava-se, talvez na expectativa do efeito calmante da exaustão provocada.
Intimamente desejou que algo acontecesse de anormal, qualquer coisa que juntasse pessoas e acendesse a discussão, ou outra actividade barulhenta. Assim, que lhe desse a hipótese de crer que não era noite: um incêndio, uma manifestação, uma corrida de bicicletas, um terramoto, até.
Mas nada. Nada sucedia...
Num ápice levou as mãos à testa; fervia, "fervia ao ponto de fritar um ovo". Içou-se sobre os membros superiores, meditou durante segundos e saltou da cama, aflitivamente quase. Abriu a porta sem ruído e encaminhou-se para a casa de banho. Entrou, acendeu a luz, remodelou o formato da torneira com os dedos trementes e suados, deixou que o líquido escorresse retinente, e viu-se ao espelho.
A feminil ideia que fazia de si sacudiu-o. No prateado do vidro, a face polida e reflectora estava riscada de sabonete, daqueles sabonetes pequenos e duros, difusos, sem cheiro nem tonalidade certos, vulgares e habituais das pensões baratas, e ficou surpreso. Aproximou mais a vista do espelho e apercebeu-se de quatro estenogramas: “Eu preciso de ti”, decifrou ele. Em baixo, ao canto esquerdo do mesmo, um número: 17. Relavou a cara e concentrou-se no facto recém-descoberto. Ou por outra, tentou concentrar-se e raciocinar. Mas impossível!... O número 17 batia-lhe no córtex como vergasta carcereira.
Antes de sair encostou-se ao lavatório, na esperança de que o contacto com a louça fria o descongestionasse. Fez pressão, ansiosamente e até sentir dor. Teve, contudo, que abandonar a posição sem melhoria no seu estado. E o 17 perdeu toda a significação usual, passando a ser um apelo a que não sabia resistir.
No corredor procurou o quarto 17. Era o do canto esquerdo, ao fundo. Sem hesitar experimentou o trinco, e notou que se não encontrava fechado à chave. Entrou.
«Sabia que virias...», murmurou uma voz arrastada, entrecortada, feminina, jovem, cautelosa, sincopada, consumida e soluçada, oriunda da penumbra interior da "caverna" de quatro paredes que cada quarto parece sempre ser, desde que não seja o nosso de cada dia, impressão tão-só adubada pela familiaridade circunstancial dos objectos (significados) quotidianos.
«Tranco a porta?» Perguntou. E no mesmo instante, o número extinguia-se da sua mente... Apagava-se em definitivo.

* * *

De imediato, através da janela, o jorro intermitente da publicidade emprestava ao quarto um salpicado rubro, vermelhão, e lançava na parede da cabeceira, apenas desnivelada pela presença da porta, as sombras dos dois corpos sobre si próprios, em nítido frente a frente. Entre a sombra de cada um formava-se uma pirâmide de luz vermelha, que aparecia e desaparecia tão velozmente como um piscar de olhos. Pouco a pouco, silenciosamente, a figura geométrica foi perdendo os contornos iniciais, e transmutou-se numa agulha gótica, tendo por base os joelhos de ambos. Ao lado das sombras, outra sombra: o abat-jour que, embora bastante desviado, parecia seguir-se-lhes imediatamente.
Depois o candeeiro ficou afastado, definitiva e sombriamente afastado, e entre os seus corpos verticalmente unidos sobre o plano da cama, que marcava a fronteira entre a penumbra e a claridade inconstante, a luz quedava-se impossibilitada de penetrar, liquefazia-se na procura de uma brecha, de um vértice não suturado em que pudesse escoar-se.
Uma das sombras tinha cabelos curtos. A outra, cabelos pelos ombros.
A sombra de cabelos compridos, aglutinadamente ofegante, salivante, febril como a claridade do quarto, de pulsar descontroladamente acelerado, sentiu o cheiro suado da sombra de cabelos curtos, assim como os volumosos contornos do seu espectro. Sentiu o cheiro e o calor. Sentiu a derme e o término neuro-vegetativo afrontadamente electrificados. Sentiu o seu ser encher-se energética e psiquicamente, desejando-se a explodir num caótico grito do profano, até à imensidão da calma divina, ondasuprema do tubo prestes a eclodir para esvair-se no areal das costas.
Os braços e os lábios dos dois fantasmas percorriam-se mutuamente e reconquistavam-se em atropelo, descobrindo ao longo de cada um a certeza de serem o mundo todo. Porque, em declarado egoísmo pretendiam assimilar-se... E usufruíam-se nessa posse insubordinada.
Os seus ventres juntos fundiam a força espiral dos sexos, trocando informação sobre os seus pulsares, numa avareza despótica e cruelmente real. O ritmo de seus contactos assumia gradação ascendente, à medida que com maior frequência eram recebidas e emitidas descargas libidinosas reforçadoras da actividade. Contagiavam-se e incendiavam-se. Reprimiam-se e amachucavam-se. Libertavam-se e submetiam-se. Devoravam-se e ofereciam-se, inesperadamente sôfregos, na acumulada urgência da rebentação.
Meticulosamente os lábios vaginais da sombra de cabelos pelos ombros surpreenderam o vigoroso pénis da sombra de cabelos curtos, que teimosamente insistia em contrair-se, não obstante o extraordinário fluxo sanguíneo que afluía à glande, tentando fugir ao íman que o obrigava a vibrar mais pungentemente. E, enquanto que a boca genética da primeira sombra se armava contrita e espamódica, e dirigia o controlo táctil do musculado apêndice da segunda, formando uma díade pulsante inseparável, buscando a periferia do molho de fibras, os seus membros superiores deslizavam (reciprocamente) no seus dorsos, nas colunas vertebrais, deixando à passagem aquele formigar incandescente característico do despertar vegetal de romper as cascas.
A incansável vagina sugava o febril láscio irresistivelmente, ganhando território a cada entrega, afoitando-se delirante na absorção contínua, num terrível e imperioso desvendar da magia da posse, até que impossível se tornou aumentar o acto por completa a penetração. O contacto do clitóris com o tronco e os pêlos pélvicos conduziam o prazer exterior da sombra, distribuindo-o pelo resto dela, repartindo-o ao lóbulos das orelhas, pelos seios, pela boca, pelos músculos que circundam as clavículas, reavivando a nudez selvática da penumbra. As nádegas contorciam-se, contraíam-se, crispavam-se, e alteravam ligeiramente a pressão sedimentada da vagina sobre o pénis.
O universo estava dentro das sombras, porque era noite e a publicidade invadia o quarto, num arremesso quixotesco de quem quer vingar sobre o brumático torpor da arquitectura dos séculos passados, esporeando os flancos do receio, do recato, da defesa inusitada, almocreve do cavalo do medo que, como freio nos dentes, a toda a brida, à desfilada se disparava para lá do lá, para além do inimaginável na exploração do caos dos verbos sobreaquecidos com ternura solta, intensa mas brava e descomprometida.
Então, o quarto e o silêncio foram as únicas testemunhas, as obtusas testemunhas que se recusavam a retirar, do prazer das sombras que continuaram unidas, a esfumarem-se imperceptivelmente na languidez dos tempos.
A sombra comum e vertical tomou a obliquidade. Desceu aos 180 graus e pairou breves instantes num ballet imagético e soturno, quase fantasmagórico. Mas a luz apagou-se e, quando se reacendeu, a sombra havia-se sumido acompanhada de um baque seco. Depois silêncio... Um silêncio penetrante e duradouro. E persistente.
(.................................................................)
Amanhecia quando um grito inumano e gutural rompeu o quarto e atravessou a madrugada e o sol e o nevoeiro. Um grito vindo do chão. Um penhasco de voz cortante e hirto que queria esconder-se no infinito.
O ciciar dos motores dos primeiros camiões e transportes públicos que se eriçavam pela avenida, deu com-pa-ssa-da-men-te o seu acréscimo num reivindicativo sinal de existência. Homens de olhos vermelhos, raiados de sangue e toxinas, fitavam o pavimento em desafio à vida, à agrura do dia a dia.
Como sombras que eram, saíram de seus quartos e desceram as escadas. Na rua, ao seu lado direito, um empregado de balcão devidamente enfarpelado, abria a porta de um bar para motoristas e viajantes.
«Bom dia. Vai abrir, não é?» Inquiriu ele.
«Sim, sim. Desta vez venho um pouco... Já devia...» Respondeu o indivíduo tentando justificar-se por uma falta que ninguém vira.
«Não faz diferença. Podemos entrar?» Insistiu ele, dado que o empregado na tentativa de se desculpar esquecia-se de se arredar da porta.
«Às ordens...»
Entraram. O serviçal seguiu-os, deu a volta ao balcão e...
«Que tomam, então?»
«Uma cerveja e dois copos» pediu ela, a sombra mulher, já despida de espectro, em seu traje florido de violeta em tecido indiano, a flanar. Neles verteram o líquido cor de sol e mel, que ganhou a espuma das marés sobre as quais navegou Vénus na aurora dos tempos, que ambos sorveram meigamente até ao caramelo da cor, deixando-o escorrer pela língua sábia ainda no agitar das mais profundas e lusas preces.

1.23.2010

Uma História da Estória



Os condicionalismos teóricos e comunitários dominam-nos. A arte toma validade por não desviar os cidadãos da sua rotina, das subidas e descidas dos transportes públicos, do cinema das noites de sábado, das sextas-feiras de pulo na discoteca da berra, da praia ao domingo, e dos serões de Inverno com boa cozinha e excelente vinho, bem como do contagioso frenesim noticioso dos "jornais" multimédia, expondo a escancaradas janelas a sua miopia prò perto, quiçá a principal razão pela enorme falta de leitura que evidenciam, que à semelhança do greguíssimo Tales de Mileto, exímio em ver longe, para lá das estrelas, não enxergou o poço que havia sob os seus pés, no qual se encharcou até à medula, depois de nele ter caído. Uma estória não leva ninguém a perder o comboio! Porquê tanto barulho? Amofinam-se aos milhares pelos bares e cafés. Iludem-se e dão-se por realizados com mais uma aventura turístico amorosa? Contudo, acham o dinheiro mal empregado se o gastam em algo que tenha mais conteúdo que um galão de gasolina e produza menos CO2. Porquê? Porquê? Porquê esse "pensamento sentido" de que estão a ser comidos e levados quando pagam meia dúzia de folhas impressas pelo preço de uma Cuba Libre? Quem não quer ser estúpido não lhe usa os costumes. Se considerarmos o efeito de uma droga leve, sem mortais consequências a curto prazo, e o compararmos com o de uma ideia expressa cuidadosamente, vemos incontestavelmente, ou apercebemo-nos de várias semelhanças, quer pela frugalidade com que as ingerimos e as caracterizam, quer pela culpa e medo de ressaca que nos restam depois do "pecado" cometido. Portanto, desnecessário é afirmar que o nosso Rum é bebido letra a letra...
«Querem com, ou sem mistura?»


Primeira Parte


ACIDENTE INCOMPLETO

Por: José Luís Cebola


Havia quase duas horas que tinham partido de Casal Parado. Tinham-se cruza e encontrado bastante gente pela estrada, alguns até pedindo boleia; porém, esses outros pediam... eles queriam dar boleia... mas no instante de parar, esqueciam-se de o fazer, ou que o iam fazer, e continuavam viagem. Para trás ficavam jovens furiosos, aos berros e a atirar pedras ao carro, a distanciar-se consideravelmente lesto e expedito, ligeiro e conspirando com os donos na plenitude prazenteira do ronronar da sua cilindrada.
Aqueles dois, homem e mulher, marido e esposa, senhor e senhora, cidadã e cidadão, europeia e europeu, eram uns indivíduos deveras estranhos. Tudo quanto faziam sem pensar terminavam, agora, o pior era quando pensavam em fazer alguma coisa... Então, tornavam-se escravos compulsivos dos seus pensamentos e logo de seguida mudavam de ideias. Lá se ia tudo por água abaixo: faziam pirueta com mortal e encetavam novo rumo à versão anterior, não só diversa dela, senão inversa a ela.
Lena “acendeu” o rádio em FM, mas o marido não gostou da música e numa aceleradela brusca, com o joelho direito desligou o aparelho. E o que era apenas mais um gesto gratuito e machista, de imposição e resposta, de reacção a uma acção feminina, sem aviso nem sondagem ao companheiro (de viagem), transformou-se em prenúncio de tragédia na tirania mútua da relação entre ambos.
«Hoje vens de mau humor...», observou ela. «Começo a sentir saudades dos nossos primeiros dias de casados. Tudo estava bem!... tudo quanto fazias estava bem!... tudo quanto eu fazia estava igualmente bem!... o que dizíamos soava bem. Mas agora?... Sentas-te ao volante, calado, abstracto, só!... E eu para aqui abandonada, a teu lado, à espera que te dignes a dirigir-me palavra. É boa, não é? Parece que estás cansado de viver comigo! E que eu é sou o pomo e causa do teu mau feitio! E não ele o principal motivo das nossas desavenças!»
«Olha, queres uma ideia?» Perguntou-lhe ele desagravando-se e como resposta. «E se cantasses qualquer coisa, como nos bons velhos tempos, uma daquelas canções que tu...
o meu cabelo solto
o meu olhar oblíquo
e o meu vestido roto
voam na tua imaginação
... Sim, sim... Canta. Eras outra!»
Ela também tinha começado a trautear, a cantarolar, e cantou e voltou a cantar enquanto ele a acompanhava ao assobio; e os quilómetros pareceram-lhe curtos, pois estavam como que anestesiados por aquela cançoneta que lhes falava de seus corpos a viajar na imaginação um do outro. Era uma canção que reconfortava os seus cérebros cansados de derrotas; fazia-os esquecerem a vida insatisfeita que levavam juntos. Por isso, foi com alegria que saíram do carro, em Porto Perdido (PP), para beber qualquer coisa fresca e comer umas sanduíches manhosas. Só que aquela alegria por pouco tempo iria durar, como aliás, toda a felicidade que nasce da ilusão, e se deitara por hábito entre eles. Que foi quando veio o empregado, a estender-lhes a conta exorbitante, o que pôs novamente a sua (in)disposição a ferver. Ele pelo montante, ela pela avareza dele e contrariedade manifestada em pagar uma refeição, um momento que tinha agradado a ambos, evidenciando essa tenebrosa faceta do prazer, que só é autêntico prazer, quando somente uma das partes do casal goza.
Então voltaram para o carro a fugir, escapulindo-se e a largar palavrões pelo caminho. Ela fazendo atroar os tacões dos saltos altos no empedrado do passeio, ele resmungando entredentes palavrões e impropérios, gesticulando, esbracejando enfurecido.
Depois...
Ignição, primeira, segunda, terceira, quarta e prego a fundo – a partir daí só fariam o que era costume fazerem naquela viagem... Fariam unicamente o mesmo que das outras vezes que fizeram aquele percurso. Tão-só. E simplesmente.
«Quando chegarmos a Vale de Riba... Um bom banho, umas bebidas frescas, e depois cama», alvitrou ela. «Ah, como vai ser bom!...»
«A chave?»
«Não a tens no bolso?!»
«Não.»
«Então, deve estar na mala. Vou ver...»
«Está?»
«Não.»
«Vê no porta-luvas... Também não?»
«Pronto: achei. Olha! Cá está ela!»
«Logo vi. Merda para as tuas ideias! És sempre assim.»
Continuaram na rota e durante onze quilómetros conservaram-se amuados, vingativamente circunspectos, mudos e calados. Por fim, é ela quem irá romper o silêncio, aliás, coisa pouco original entre os dois, considerando que quase tradição e ponto assente, costume, ser invariavelmente ela quem tenta amenizar o clima e a quem mais afecta a natureza ressentida do amuo, porque também é ela, enfim, a mais inconformada com a ansiedade pesarosa remoída do mutismo comum.
«Sabes?! Não se deve pensar; traz sempre maus resultados.»
«Porquê?»
«Não sei. Talvez...»
«Talvez o quê?...»
«Isso. Vês, já me está a doer a cabeça outra vez», lamentou-se Lena. «Foi por tua causa. Única e exclusivamente por tua culpa. Anda, faz qualquer coisa. Vá!... Pára!!»
«Dói-te menos?» E estancou a viatura.
«Arranca!... Pára! Arranca. Pára. Arranca!... Oh, meu Deus: Pára», berrava ela, com as mãos na cabeça, enquanto Augusto obedecia atabalhoado.
Finalmente a dor de cabeça terminou, com o igualmente inesperado da eclosão: “era dor de mulher...”, como pensava o marido, que bem conhecia esse género de achaques. “As tais dores femininas!!...” – E sublinhava mentalmente o tais das dores, por puro gozo próprio. Privado. E secreto. E vingativamente inconfessável.
A conversa, após o tempo necessário para se reconstruírem um espírito obscuro e uma cabeça doída, tornou-se animadora e um tanto fértil em matéria de pensamento e reflexão. Fizeram análise à sua vida em comum. Perderam momentaneamente o medo de pensar, e tal, levara a que se sentissem tão bem, tão limpos, tão... como eles gostariam de ser sempre. “Maravilhoso! Maravilhoso!”, era uma das frases esguichosas e esganiçadas de euforia, que com maior frequência ouviria qualquer presente “desafortunado” mesmo que desatento.
«Já há um bocado que vivemos como num sonho», opinou Lena, realçando o milagre. «Sempre é bom sonhar!... Se na realidade o que pensamos é quase sempre impossível... Contentamo-nos sonhando. Já é qualquer coisa! Traz-nos esperança!»
«Tens razão... Mas acontece que para um homem o sonho não basta. Tem que existir mais do que isso. A ti, o sonho satisfaz-te? Plenamente...»
«Bem, não é bem assim. Não vivo só de sonhos. Temos carro. Temos um cão e um gato. Temos uma casa, uma casa onde ninguém nos incomoda. E temos uns pais que nos adoram, à sua maneira... Não nos falta nada! Ou isso são só sonhos!?... São?»
«Materialmente, não nos falta nada. Mas não só de pão vive o homem. E o amor dos nossos pais e animais não é suficiente. Isto é muito importante! Agora diz-me: desde que vivemos juntos quantas vezes te sucedeu pensar uma coisa e, logo a seguir, antes que esse pensamento fique registado na tua memória, o renuncies, e comeces a pensar precisamente o contrário? O inverso?! Não têm conto! O mesmo se passa comigo inúmeras vezes ao dia!...»
«Mas que posso eu fazer? Acaso serei eu a culpada de que isso aconteça? Sou?...»
«Quem disse tal coisa?! Apenas queria dizer-te que não podemos continuar assim!...»
«O quê?!! O divórcio...?»
«Não... Isso nunca. Temos é que fazer qualquer coisa. Ou nos crucificamos... Ou atiramos esta cruz para o lado. Agora!, a carregá-la durante o resto dos anos que vivermos é que não pode ser! Percebes? É demais para um homem! Não achas que já chega?!» Ela moveu a cabeça em sinal de anuência. «Então, hoje é o melhor dia para acabarmos com tudo», sentenciou ele, por fim.
Por momentos, ambos parecem reflectir. Planeiam a actuação... Lá adiante, à sua frente, estava uma parede com cerca de dois metros de altura. Servia... Ou...
Acelerado ao máximo, progredindo, o carro aumentava de velocidade. Ela, de olhos fechados, apertava firmemente a cabeça com as duas mãos. Ele, de dentes cerrados, com veias e tendões do pescoço em avantajado volume, mãos aperradas no volante, deixava transparecer um sorriso selvagem.
Ela grita palavras sem nexo. Ele petrifica na determinação. Mas não são um quadro; são um gesto, uma atitude, e acima de tudo, uma decisão. A 160 quilómetros por hora, o utilitário de baixa cilindrada em que se conduziam, embateu no muro sem uma única quebra de andamento por desaceleração, travagem ou redução, produzindo um estrondo superior ao que faria a queda de qualquer arranha-céus californiano. Os seus dois corpos saíram voando por entre os estilhaços do pára-brisas, indo cair num campo de trigo, a dezenas de metros, no outro lado do muro.
Curiosamente, deste acidente, somente o carro ficou sem conserto.
Então, Augusto e Lena levantam-se, sacodem-se e caminham, sorridentes, auxiliando-se na tarefa de se livrarem das raras palhas e sarugas que se agarram aos fatos.
E feito é, que quem os quiser encontrar, quem os quiser ver, quem não acreditar na veracidade desta reportagem, vá ao local de embate, ao quilómetro 270 da estrada entre Casal Parado e Vale de Riba, onde seguidamente eles mandaram edificar uma solarenga vivenda – um monumento à vitória das suas vontades – e donde raramente saem.
Apenas com um senão... é que só ainda não têm dois rebentos rechonchudos e reboliços, porque no acidente, Augusto foi amputado dos testículos. Mas pensam seriamente em adoptar um casal de filhos duma família pobre das redondezas.


Segunda Parte


OS TESTEMUNHOS


Primeiro Testemunho

Conheci o Autor precisamente na mesma data que ao Augusto e à Lena. Penso, sinceramente, que o A. foi cruel, demasiado pessimista e insolente em relação à vida do casal. O que se passava, na verdade, nada tinha assim de tão catastrófico. Eles eram somente mais um par em que nem ele, nem ela, se assumiam como marido e mulher, o que suscitava situações conflituosas de pouca monta. Nós discutíamos amiúde os porquês das suas atitudes, e fomos sempre divergentes. O A. considerava a problemática de uma forma extravagante e atribuía à determinante social e económica a total responsabilidade pelos seus comportamentos. O facto de eles serem filhos únicos de burgueses provincianos, de não precisarem de lutar para sobreviver, dizia o A., é que os levava a inventar barreiras no quotidiano que os impossibilitava de alcançar gozo com o prazer, ou angústia com a dor. Nunca vi com bons olhos essa suposição... Para mais sabia que a educação do A. não fora religiosa (nunca assistiu a qualquer missa, jamais se confessara e nem o Pai Nosso sabia!) o que, como é óbvio, o induzia a desprezar o aspecto estritamente humanitário e moral do ocorrido. Do que Augusto e Lena mais careciam era de paciência! Fé e compreensão! Dias houve em que os encontrei extraordinariamente, repito: ex-tra-ór-dii-nná-ria-mente!, felizes. A Lena era nervosíssima. Imenso. O Augusto também, é claro. Só apareciam quando não havia achaque de maior, mas eu fui imensas vezes à casa deles, e, à Lena principalmente, foram inúmeras as alturas em que lhe servi de confidente. É por isso que estou mais à vontade! Ela sempre teve problemas de ovários e durante o período menstrual sofria dores horríveis, hó-rrí-véis!, ficando inclusive com a pele, a facial era mais!, lacerada e cheia de borbulhas. A. dizia que a ocorrência não tinha significado e em pouco isso podia alterar as suas maneiras de ser. Mas não! Não é assim! A Lena possuía um sentimento de culpa bastante vincado pelo mau humor do Augusto, tendo por base esse facto. Achava-a insuficiente sexualmente, ou qualquer coisa no género, e embora não precisasse de vestir bem para seduzir qualquer homem, porque era muitíssimo bonita, fazia-o. E de forma ex-tra-or-di-ná-ri-a-mente agradável! Já se vê que no mundo actual, uma pessoa como ela, de imensamente grandes olhos castanhos, cabelos fortes, ondulados de preto asa de corvo, lábios grossos, dentes certos e favudos, entre o metro e cinquenta e o metro e sessenta de altura, musculada, rosto oval, com boas maneiras e suficientemente inteligente para manter uma conversação simpática e culta, jamais precisaria de tais apetrechos. Aliás, só os nervos podiam justificar os seus medos, e medos que considero incoerentes, absolutamente infundados!... Hoje, francamente, vejo-os assim. Na época apenas o entendia como absurdos e complicados! Ao Augusto não faltou bom gosto... Achei-o divertido, com sentido prático, espírito de observação, saudável e imaginativo – enfim, atraente. Atlético latino! Conhece, não é? Mas à excepção do futebol e uma patuscada de quando em vez, muito caseiro e agarrado. Esporadicamente autoritário e embirrento; nunca teimoso e bastante sentimental. Até romântico. Tinham bons empregos e raramente faltavam. Eram bem considerados, e influentes social e profissionalmente. A Lena trabalhava numa repartição de finanças, e ele como funcionário administrativo dos CTT. Têm o sétimo ano. Ambos. E foram colegas antes de casar... A casa onde viviam tem boas comodidades, e várias noites lá dormi. Passava-se o serão conversando, se havia artigo de jeito na TV, que até era digital-plus e tudo – e também tinham vídeo! –, ou vendo filmes. Ouvíamos música, bebia-se para desinibir, e nunca depois das duas da manhã, sossegava-se. O ritmo quotidiano não era mauzinho... Regras? Algumas! Mas no que estavam mais selectivos, era na escolha de companhias e amigos. Nem toda a gente lhes servia... Não gostavam nada de excêntricos, e, tanto os intelectuais como os demasiado estúpidos, não eram lá muito do seu agrado. Mas adoravam-me! Até me arranjaram emprego! Cuido que para além dos pais, era eu a sua preferida!... Talvez imerecidamente, claro. Nunca se sabe... Mas retribuí! Possivelmente, não de acordo com as suas expectativas, mas de uma forma compreensível para as minhas possibilidades. Dei-lhes um quadro autêntico, au-tên-ti-co!, repito: au-tên-ti-co!, do Abel Salazar, que foi mais tarde avaliado em 150 contos – e que era da minha tia Alice, que falecera pouco antes de os conhecer... Uma solteirona recatada e fina que nem uma raposa!...

Segundo Testemunho

Sou amigo do José Luís Cebola (JL) desde a escola primária. Costumávamos fazer os trabalhos de casa juntos, e após eles, íamos prà retouça os dois. Jantávamos igualmente juntos; umas vezes na minha casa, outras na dele, e se um estava em aflições, o outro também. Éramos uma espécie de gémeos não naturais (nem biológicos). Depois do secundário, quando começámos a namorar a sério, é que se tornou mais ocasional a nossa companhia. Lembro que quando fiz o exame da quarta classe o meu pai deu-me uma viola por prenda; cantámos então muitos poemas dele, sendo meus os arranjos musicais. Era uma boa parelha! Não conheci pessoalmente o Augusto e Lena de quem ele fala, e desconfio que nunca existiram – é tudo invenção dele! Aliás, para quem o conhece como eu é fácil depreender tal... Tem uma filosofia de vida danadinha! Diz ele que a existência de uma pessoa se encontra resumida num globo, em que, sendo um hemisfério o espelho do outro, se entra de acordo com o grau de verdade ou autenticidade de que somos capazes. E por Verdade entende ele o resultado da função cujos termos são a Lucidez, Objectividade, Disponibilidade e Apoio-Exterior: V=f(L,O,D,A-E). Pensa que os principais valores humanos são a liberdade, o bem-estar e o amor, a segurança, a imaginação e o amor, o poder físico, a saúde e o amor, o trabalho, a sabedoria e o amor. É uma porra, porque mete o amor em tudo! E na dele considera que quanto maior for grau de Verdade, maior será o grau de amor conseguido, que é o capital essencial, suficiente e necessário, para produzir tudo o resto. À parte isso, dessa teoria chata, tinha alguns acessos de ironia e fazia escritos interessantes. Passo a ler um, que encontrei há dias num dos livros do ciclo, no de geografia.
“O homem que andava a correr atrás da memória e tudo registava num bloco notas virou-se para o burguês, e disse (no fim de reflectir três vezes):
«Ora amola-te, que és pífio!»
Sim: que lhe importavam os feitos de um sacana que gostava de seduzir mulheres para se masturbar na frente delas, isolado na sua Ilha dos Amores, deixando-as amarradas e nuas até que ejaculasse o esperma nos dedos suados e peganhentos? Hãn, que lhe importava?!...”
Se lia?... Também. Líamos os dois. Tínhamos até uma técnica para nos ficar mais barato, isto além de usarmos a Gulbenkian, que era a de comprarmos os livros a meias, e que vendíamos, para com a receita voltar a comprar outros. Recordo que o livro que mais nos encantou, porque era estúpido e sem interesse nenhum, foi o DE BATA BRANCA, do Dr. Sem Pio. Era por demais fascissizante e ridículo. E fumámos droga, sim senhora. Liamba e haxixe. Às primeiras passas só os dois, mas, não sei bem por que carga de diabos!, simpatizou com uma fulaninha de nome Fátima – um nome que tem tanto de santo como de rafeiro, já que é árabe, e tem um culto celta com ritual católico – ou Fatinha, como ele lhe chamava, uma tipinha pequenininha, lourinha de olhos azuis, grandes de água e céu, e muito vivos, que depois de ele lhe ter feito um poema meio roskov, também alinhou. Ainda tenho esse soneto palerma, de pés quebrados, a que costumávamos chamar fodeto, dado a tantas F... que a ambos proporcionou.
Anda! Vamos fumar este porro

Anda! Vamos fumar deste cigarro a meias...
Há-de ter a doçura de um sonho todo vivo!
Há-de ser pequeno, castanho-alourado, cativo,
E lábios gostosos, num mundo de luas cheias.

Anda! Hoje o trabalho não vai ter velhas feias...
Faremos o mundo à nossa medida... no diminutivo!
E com esses grandes e lindos olhos de amor inventivo
Viveremos num jardim verde de fumo sem peias,
Como se vêem nos teatros ambulantes de marionetas
Dos vagabundos que nos encantam pelas tardinhas
Em que se regressa a casa por ruas ao carinho despertas.
E assim... silenciosos, enquanto o sol declina,
Camisa de xadrez e calças de ganga apertadinhas,
Este porro vai saber-nos a amor de boneco com menina!...


E tem piada como nesse tempo nos achávamos magestosos conhecedores das profundezas humanas e boémias! Os copos, as farras de grupo, as discussões académicas, ou pseudo-académicas, como lhe queiram chamar!, absorviam-nos grande parte do dia a dia; e assim, onde houvesse debate aguerrido, a penada da sapiência exibicionista, era dito e feito nosso. Que nem ginjas! Gostávamos de criar a confusão, e depois, ala que se faz tarde! Ridiculizávamos pessoas e situações, autoconvencidamente, claro está!, mas quem estava a ser ridículo, não haja dúvida, éramos nós. Há alguma coisa mais parva do que a competição mesquinha sem frutos monetários? À viva força, não era ao jeito, nós tínhamos que ter sempre razão. Para modelo de bons portugueses, cá estávamos nós pelos ajustes! Pelintras, mas felizes!... Má fé, gozões e egoístas; eis as tábuas. (Pouco mais que rasas!) Curtidos? Também. Filiações partidárias? Três: PCP, PS e PPD/PSD. Jogávamos de tripla num emprego! Ementa preferida? Pudim. Horas de retornar a casa? Quatro horas da matina, como ideal. Saída das aulas: 9 e 15 t.m.g., da madrugada quero dizer, se pudéssemos – um quarto de hora, como q. b. de cozedura, e aprendíamos tudo. De afianço!!


Terceiro Testemunho
(Augusto Cera Preta)

Sou um homem de bem. De bem, ouviu?! Esse gajo nunca teve boas ideias. Parvo fui eu em o admitir à nossa mesa! Metediço! E gingão, farejando a Inês. Percebi-o desde o primeiro dia. E cortei-lhe as voltas!... Dela, não levou nada! Isso lhe garanto eu! Adivinhei-lhe o pensamento, mas nunca esperei que fizesse o que fez. Tratámo-lo como é hábito a toda a gente, educadamente. Emprestámos-lhe dinheiro quase todos os meses, no fim, porque não ganhava e a mesada era curta. Conheceu bastantes pessoas através de nós, e nunca lhe demos o mínimo de trabalho. Acha que merecíamos ser assim tratados?!... Festas a que íamos, desde que pudéssemos, convite também para ele. Boleias que lhe arranjávamos, não têm conto. E o besta é assim que nos agradece?! Nos retribui?! Foi mais uma lição: pronto, há pessoas a quem se não pode dar confiança. Vê-los?!, só pelas costas!... Ainda se precisássemos dele... Pois. Mas não! Era ao contrário; ele é que precisava de nós. Depois, toma! Parece-me que até se drogou, e tudo. Se calhar veio daí a baixa moral... Quem sabe! Esses fulanos não têm a mínima consideração por ninguém; nem pelos próprios pais, lhe digo eu!... Olhe, posso contar-lhe o que se passou no dia em que fizemos a festa dos dez anos de casados. Foi há cinco anos, se me não engano... Foram comprados frangos, lagosta, camarão, carne de porco prò churrasco, doces, um bolo, e, depois de tudo preparado, fomos buscar a Inês, o José Luís, a Antónia – amiga deste último – e o Alberto, que é meu primo. Às sete horas, mais coisa menos coisa, estávamos à mesa, bebendo vinho vermute e trincando outros aperitivos. Enquanto se não embededou ninguém o ambiente foi de graçolas, alegre e sem (a)tropelias. Mas logo que o José Luís se enfrascou?... Bom. Diz o povo que se queres conhecer o coração do teu vizinho, dá-lhe pouco pão e muito vinho, e é bem certo!... Primeiro, começou por vomitar os cortinados; depois foi com a António para a minha cama, onde fizeram o que lhes apeteceu, e com o lápis de sombras de Lena escreveram as paredes do quarto com frases do tipo: “Antónia! Antónia! Este quarto está surpreendido!; Viva a masturbação de dez anos! Punheta a dois e jura de Bíblia!; Que é melhor? Maricas com lagosta ou lagosta de maricas?; Casamento e Estado – impotência bonificada!” A sorte foi eu não ter visto aquilo, a não ser no dia seguinte... nunca mais lhe falei. Que faziam vocês se convidassem para vossa casa um fulano e ele vos fizesse o mesmo? Sim: que fariam, hãn?!... O tipo é asqueroso, e o que escreve tem que sê-lo como ele. É obtuso, pedante e complexado. Debaixo daqueles olhos de marrã mal morta, castanho postiços, cabelo cerdoso de barrasco de montado, luzidio, viscoso, sempre aprumado, como quem engoliu um espeto, e preocupado com o vestuário, vaidoso, rosto de fuinha bicuda e corpo franzino, está um verme indesejável. Era bom que todos o soubessem... Compreende? Era mesmo muitíssimo bom... Para se precaverem!!...


Quarto Testemunho
(José Luís Cebola)


Aquilo não foi uma questão de inveja, nem de ciúme. O que se passava era isto: eu andava bestialmente apaixonado pela Inês, e eles, na sua ingenuidade e mesquinhez, porque de burgueses não lhes faltava nada!, davam-lhe uma protecção que ameaçava o êxito da conquista. Seria para mim mais uma mulher ou não? Não sei... Mas que eu tinha que os deitar abaixo, e levá-la a perder a confiança e suposta amizade “desinteressada” do Augusto e da Lena, lá isso tinha! Andava exaltado e inseguro, e via-os a ganhar terreno. Ia hesitar?! Qual quê! Se os fins são de valor, os meios não precisam de justificação. Honestidade, amizade, pudor, moralidade e outras que tais, são tudo balelas! Por outro lado, tinha uma necessidade imperiosa de vingar sobre o pessoal com quem convivia e discutia literatura, arte e assim por diante. Eles falavam, mas eu faria. Eles falavam, muitas vezes com mais senso do que eu, confesso, mas eu queria rematar a conversa com um simples “afinal, quem é que é aqui o escritor?!”, de lhes barrar o diletantismo com uma autoridade. Queria impor-me, arranjar uma posição de destaque, e ficar com um campo próprio de actuação. A ocasião pareceu-me propícia, e fi-lo sem mais nem aquelas. Em relação à Inês, quis que fosse ela a tomar a iniciativa de considerar o casamento um estado enfadonho e tedioso, rotineiro, somente interessante e atraente nos primeiros dias e meses. Havia medo em mim, pois havia! Ainda hoje o tenho. A queda do amor, o deixar de gostar de alguém ou o deixar de ser amado, é um facto que me assusta brutalmente. Talvez este medo seja só meuinho e de mais ninguém, ou até tenha muito de doentio; mas o que é certo, é que ainda agora o sinto. Um contrato é um contrato: então, porque é que o casamento há-de fugir à regra? O idealismo, o amor eterno, o platonismo, impuseram esta faceta; estava na hora de alguém pensar e agir pelo modo contrário! Foi o que fiz. E não estou arrependido, embora não tenha conseguido engatar, vá lá, porque não este termo?, a Inês. Aliás, Estórias... Quem as não faz? A imaginação das crianças prova que ninguém precisa de diploma para inventar pequenos universos onde alguém ou algo se move e actua, fala e pensa, cria, procria e morre. Defendia eu à data. E se em primeira mão o fazia para atacar os compinchas mais intelectualizados, em segundo plano dizia-o para encontrar uma vulgarização que desse uma margem de erro onde pudesse evoluir, sem ficar bloqueado pelo medo de errar. Inês idolatrou escritores modernos, acatou e interiorizou muitos conceitos deles, e tentou sempre sobrepô-los à estimativa popular (e nossa). Não gostei. Foi uma provocação... Daí, que a posição tomada não passou de uma defesa. Uma defesa avançada, como se diz no futebol. E dei livre curso aos meus impulsos. Apoiei-os com o pensamento. E esta táctica nada teve de maquiavélico. Se todos fazem o que querem, um estoriador também não tem que submeter-se a padrões limitativos. Desde que historie a dor! A literatura é aquilo que os homens de letras quiseram que ela fosse. Para mais, pouco me importava que os leitores gostassem ou não, compreendessem ou criticassem, usufruíssem ou aniquilassem, a conclusão ou tese tentada. A certeza de que Inês não iria ficar indiferente, saciava-me. A busca de um querer-sem-querer, para futura desculpa, conduziu-me ao género. O propósito era claro; urgia que o meio o fosse igualmente. Augusto e Lena eram nossos conhecidos, e, como o processo descritivo é moroso, sendo unicamente perfeito após apresentar uma panorâmica pormenorizada, facilitavam-me a tarefa. Foram peças fundamentais no tabuleiro onde jogava – o romantismo prosaico. O sonho de todo o artista é produzir uma bela mentira rodeada de verdades eternas, e delas suspensa (quase). Que sirva de medida na qual a verdade se iguala, por comparação. É falso pensar-se que já foi escrito tudo quanto era possível narrar-se – e equivale à morte da arte. Faria dela um lago estagnado na imaginação do homem. Quem não consegue imaginar o suficiente para voltar a amar de novo, está acabado! E era isso que eu queria... Voltar a amar, a render-me, a sentir que pertencia a Inês; consegui-lo, perdoava-me de tudo, absolvia-me das atrocidades cometidas. Foi o que foi.


Quinto Testemunho
(Lena Garbo Greta)


Desculpe, mas não me apetece falar disso – foi um grande susto – estou chateada – fui violada – mas agora o que me preocupa são os meus pais – por nada deste mundo eles podem ler a escabrosa estória – não sei o que hei-de fazer – sabe de algum bom cardiologista? Não há médicos de jeito em Portugal! – Gosta de cinema? E flores? Já conhece esta variedade? São goivos. O meu único gáudio. Temporões. – Mas o que é que quer? Bolas!! Julga que vou pôr-me prà’qui a falar, falar, falar, falar, enquanto você exibe esse sorriso idiota de quem está aqui a assistir a uma representação de fantoches?... Pois está enganado. E muito! ISTO É ESTÚPIDO. Onde já se viu um quadro tão imbecil? Vá... Diga. Apetece-me bater-lhe. Dão-me ganas de esbofeteá-lo até ficar cansada. Sabe?, você está a irritar-me. Pensa que vai ficar mais gordo depois de o conseguir? Vá à fava, homem! À fava! Vá-à-fá-va!! Ouviu? – Bem, não quero que fique com má impressão minha. Mas estou ofendida, sabe? Fui violentada na minha dignidade!... – Mas pronto: Desculpe. Desculpe, pois estava a ser pateta. Vamos lá, então! O Zé?... Ora! É um asténico. Um indivíduo que quando se lhe mete uma coisa no caco, não há quem lha tire. É uma personalidade orgulhosa, desprezível, mas submisso e subserviente quando lhe interessa, e muito virado para as coisas da alma. Ou daquilo que ele pensa que ela é. E quando queria até conversava ou desenvolvia ameno contacto. Gostava que a malta lançasse louros às suas tiradas intelectualóides. Bastante oportunista... Não deixava escapar uma oportunidade de se autopromover e publicitar. Talvez vá longe! Só as pessoas boas é que nunca têm sorte. Essa é que é essa! Não tenho diploma para o poder afirmar que às vezes se comportava de forma patológica, mas posso dizer que representava muito bem o papel de agressivo catatónico e doentio. Mantinha uma agressividade constante, e mesmo quando não lhe frustassem os desejos. Molestava-nos, espicaçava-nos, fazia-nos sentir mal propositada e gratuitamente. A ironia não lhe era alheia. Nem o sarcasmo e o vilipêndio. Discutia com as pessoas, sem mais nem menos, só por discutir, e quando as via exaltadas, deixava-as, sorrindo presunçoso, apresentando um ar de satisfação de quem tem o dever cumprido. É lógico que sendo assim como é, quis foi rir-se à nossa custa. Mas exagerou... Não haja dúvida. É inconcebível, depois de quanto por ele fizemos. Não só pelo apoio material, como também pela consideração que lhe emprestámos. A credibilidade. E que ele mais tarde destruiu. As influências perniciosas... As más companhias com que andava contribuíram razoavelmente para agir dessa forma, vil e egoísta como agiu. Andava com toda a espécie de marginais: ciganos, drogados, prostitutas, traficantes, rafeiros de rua, rockeiros e sabichões. Acompanhava com os campónios, de tasca em tasca, gente sem escrúpulos, e políticos radicais que servem exclusivamente para lançar a confusão. E isso nunca poderia dar em nada de bom. O que se viu! Pois deu no que deu...











Post Scriptum





Guião de reportagem, exploração exaustiva de uma notícia sensacionalista, story-board para prancha de vanguarda, documentário sobre uma infelicidade travestida, jogo de espelhos (entrevistas) para uma experiência psico-sociológica de reflexão sobre os (des)afectos interiores evidentes no desenvolvimento da (re)ligação entre as duas metades de uma alma controversa, qual composição em art deco para a geometria do stress, enciclopédia habitável de nós todos, condomínio fechado do existencialismo actual, tão prudente quanto senil numa humanidade esgotada de soluções de desagravo e desculpa perante a Vida, que está aqui propositadamente com inicial maiúscula, porque mais que mais que substantivo é substância, mais que verbo é símbolo, mais que palavra é valor; perante a urgência capital de converter a humanidade desempregada, ou mal empregada, desperdiçada, que merece melhores arrelias que essas inventadas por pessoas compulsivas que até para respirar precisam de tomar balanço, e mesmo assim saltam de olhos fechados por terem medo do que vai suceder a seguir. Pessoas que se servem daquilo que a sociedade põe ao seu dispor, não para criar ou usufruir, mas para impedir que outros criem e sejam felizes exactamente por isso, que fizeram das suas vidas um inferno pegado de que apenas sentem alívio quando estão a infernizar a vida dos demais, que por terem o quanto esses outros não têm, em termos materiais, incluindo um trabalho útil o efectuam somente quando podem vingar-se e recompensar dos seus ressentimentos por alguém, fazendo o bem se com isso puderem fazer mal a alguém, comunicando com este e aquele para marcar a diferença, acentuar o desprezo por aquestes e aqueloutros, dando a uns se puderem roubar a outros, emprestando o que nunca foi deles e investindo para benefício próprio aquilo, o recurso, que todos produziram mas lhe deram a guardar, a fim de melhor o administrar e rentabilizar.
Poderá ser um capital valioso esse, o da cultura e do entendimento entre os géneros, se não for travado como uma batalha, um trampolim sexista para voar rumo a idealismos castrativos, que nada de belo manifestam se exceptuarmos deles o fotograma imediato desse filme onde se armazenam todas as frustrações e incapacidades humanas, facturadas no quotidiano com que aspiram subir na vida amarfanhando e destruindo o labor, empenho e qualidade dos seus semelhantes. Colmatar a sua insuficiência para o amor, tiranizando os que se aventuram a considerá-los dignos de respeito e afecto, de ternura desinteressada e comovida. E que, mais que tudo isso, tentam desesperadamente dominar, submeter, aprisionar, censurar, escravizar quem diga livremente aquilo que eles não autorizaram que fosse dito, quanto denuncie o seu inferno, o muito que se apostaram evitar e calar toda a vida: que só deixarão de sentir claustrofobia mental quando encerrarem todas as Ágoras no mesmo bunker de peste emocional que construíram para si e para o seu medo de Viver.
Na história da estória entre Lena Garbo Greta e Augusto Cera Preta, há o fluxo e o tabu da história popular feminina, sobretudo desses meios supersticiosos consentâneos ao realismo mágico, onde as mulheres são o produto da maldição a que os homens as votaram, que as levou a esconder a sua menstruação na metáfora, dizendo que estão com a história quando querem dizer que estão com a menstruação, pois é crime grave estar indiferente aos efeitos da fertilidade viril, não se ter rendido a sua feminilidade perante o sedutor poder do espermatozóide valente que amarfanhou, venceu, derrotou e aniquilou a vontade e êxito dos seus gémeos, ejaculados pelo mesmo orgasmo. O mesmo embate contra o muro a alta velocidade, o mesmo clímax resultante desse acelerado movimento rumo à morte, o mesmo acidente incontornável de que potencialmente eclodirá uma nova vida, ou uma nova ilusão dela, outra teórica ficção dela, tal como se costuma chamar ao conto, a propósito do qual muitos já disseram, entre os o quais me incluo, serem as duas únicas coisas que lhe são superiores – a teoria, e o conto. A motivação e a fantasia. Enfim, a ideia e a sua concretização.

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