La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.19.2010

Entre Bocas e Bocanas, assim passam as semanas


Entre Semanas, Bocas e Bocanas

"Estava-se nessas desconformidades quando surgiu em nossa frente um cabrito malhado. O bicho destoava das solenidades. O administrador arreganhou em surdina:
– Quem é esse cabrito?
– De quem é... – o secretário corrigiu, discreto.
– Sim, de quem é essa merda?
– Esse cabrito não será dos seus, Excelência?"
In O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

bocanas e bocanas. E se cada um é como cada qual, sendo no todo ou em parte diferente do outro, seu semelhante, posto que ímpar e sem igual, no feitio como nas atitudes, o que é certo, é que são todos uma cambada de sacanas. Incapazes de sentir empatia, abespinham os demais, desde que em algo eles sobressaiam daquilo com que os rotularam, ou a ideia que deles fizeram, cultivaram, difundiram e admiraram. Insistiram e determinaram. Atribuíram como única possível, concebível e lógica.
Por exemplo, quando desgostam de uma pessoa, mas gostam/simpatizam com outra, que é sua familiar ou irmã, e se esta, a quem atribuem sempre tudo o que é mal feito ou indesejável no seio de uma família, faz algo de apreciável mérito e notório, então, para lhe retirarem o talento e os louros do feito, justificam a feitura às qualidades do outro, que nunca lhe pertencerão a não ser por cópia ou imitação, afirmando que o fulano, nessa etiqueta ou quadrante, «sai ao irmão», como se isso fosse possível, uma vez que a herança dos genes jamais será transversal e fraterna, mas de linha directa por descendência, como sucede de avós para pais e destes para os filhos. Se um cabrito nasce no seio de uma família branca tudo quanto faz de mal é herança do sangue negro que há nele, e se, pelo contrário, algo de louvável pratica, então foi a sua quota-parte de brancura que veio ao de cima. Ao invés, desde que nascido numa família predominantemente negra, tudo quanto é indesejável no seu comportamento será consequência directa do sangue branco que lhe ainda corre nas veias, e de bom, se algum houver, resquícios emergentes da sua negritude. Quando para uns casos é pessoa (cabrito de cor), para outros é animal(cabrito, filhote de cabra).
Em Tizangara, ambiente social e lugar onde se desenrola a ação, no livro acima citado, de Mia Couto, a situação, aliás comum às famílias e meios provincianos do interior português, essa clareza tem nome para as entidades oficiais, chamando-lhes merda, para evitar subsequentes equívocos. A crueldade criancista de nomear as coisas pelo nome, assim o exige, exorcizando a tendência civilizada para os eufemismos, contudo, não podemos negar que as nomeações nada acrescentam nem retiram aos seres e pareceres sociais, já que não é por este ou aquele indivíduo desafetar a carga pejorativa a alguns rótulos que o veneno das discriminações deixa de produzir os seus efeitos, e muito menos, se considerarmos que até podemos dizer que um fulano é um "querido" quando pretendemos chamar-lhe "filho da puta", ou que é engraçado se nos apetecer denominá-lo de bobo e bocana. A fluência das significações é muito superior à estirpe lexical que as sustenta, considerando que cada língua, cada vocabulário, particulariza apenas parte daquilo que a expressão generaliza, o sentimento humano, a emoção, a racionalidade, a sublimação, e a espiritualidade universalizam. Ter raiva a, ou sentir inveja de alguém, existe no seio de diversas culturas em diferentes modos, com significados normalmente aspergidos numa panóplia semântica que apelidamos facilmente de polissemia, pondo na esfera polissémica de um termo, numa língua, termos e significados que pertencem à esfera de outro ou outros, independentemente da linearidade, e correspondência literal, das traduções. "Um pai galinha" em português é um pai extremoso, atencioso, dedicado aos filhos, porém se o interpretarmos de acordo com o universo de significação brasileiro, é um indivíduo mulherengo, um D. Juan, e que se preocupa mais com o fornicar muitas mulheres do que ajudar-lhes a criar, proteger e educar os filhos, por exemplo.
Mas a minha televisão já tomou providências e começou a tratar do assunto, pondo nova ordem no aferir significativo das cores, confirmando quanto importa aos multimédia tomar decisões que visem concertar, dissolver e harmonizar os conflitos que a sociedade gerou para evoluir, mas que impreterivelmente tem que ultrapassar se quiser continuar essa evolução: alterou automaticamente, e sem qualquer possibilidade de retorno ou reparação, a paleta de cores, dando a ver verde, naquilo que era – e é – vermelho, azul no que antes foi verde, lilás no amarelo, rosa-choque no que antes fora azul, o castanho virou creme, e assim por diante, com tal magnificência e pertinácia, que eu passei também a ver a realidade conforme esta matriz de tons, uma vez que passo mais tempo a ver televisão do que a andar na rua, e a achar que a realidade, as paisagens e quadros vivos do quotidiano, andam mal pintados ou debaixo uma luz deveras sinestésica - e suspeita. A princípio tive dúvidas de que a máquina tivesse uma propositada intenção na baralhação das cores, julgando tratar-se de avaria, comentando de mim para mim «esta, está a dar o badagaio!...», não obstante, depois do contato com o técnico local de TVs, testes com aparelhómetros vários, o diagnóstico foi o sem espinhas «não tem qualquer problema, e está em melhor forma do que muitas das novas que ali tenho para venda ao público», vi-me na incontingência de aceitar o fato como capricho consumado de um ente que reivindicava participar na formação – e formatação – do mundo que espelhava, reproduzia e muito ajudara a criar. Ver os telhados das casas verdes quando cobertas do canelado mourisco, inicialmente, foi confuso e digno de tenaz resistência, repetindo a mim mesmo, oral e mentalmente, que eles, os telhados, eram sim, mas vermelhos, desde que não fossem de vidro ou de placas de “lusalite” com amianta memória. Depois, porque isto não é tempo de andar a mudar constantemente de electrodomésticos, engoli a mudança nos cambiantes por ela impostos, como quem assobia prò lado perante uma contrariedade corriqueira, e deixei de inculcar a memória cromática mal me apercebia de que a bandeira portuguesa tinha ganho outras cores e humores, flanando com verde, azul e lilás com o igual empertigamento de antanho onde o vermelho e o amarelo tinham notória presença. E idem para o estandarte da UE, a quem o rosinha com estrelas lilases dava um requinte feminino, porquanto primeiro foi estranho depois se entranhou, e afinal, mais consentâneo e conforme à felicidade do lar num casamento a vinte e sete... E agora, que fazer?
Nada. Conformei-me. Já não admito que a realidade queira pintar o real realmente de outras cores que não aquelas que aprendi a ver como reais. As árvores são azuis. Os telhados verdes. Os pretos são brancos, e vice-versa. Os mulatos são cremes. E os cabritos, se alguns vejo, cor de tijolo quando cai, que os muros e paredes se foram criados levaram caiação moderna com mestiçagem às avessas, deixaram de ser biombos de resguardo das espécies e raças, e passaram a ser elos de ligação e unidade entre gentes separadas, que cultivavam a simetria como perfeição.
Portanto, quando ouço dizer que fulano ou sicrano são uns merdas, ninguém me tira da ideia que são preciosos e ricos, de genial talento como os que em vez de saírem a seus pais saem aos seus irmãos, pois sei que, de certeza, quem assim os classifica por húmus fértil, tem a televisão avariada. Até porque não há filhos do pai quando estão com a mãe, nem filhos da mãe quando estão com o pai. Há seres humanos, na totalidade dos seus direitos e responsabilidades, e isso ninguém lhes pode negar, ainda que os bastonetes e cones lhes soneguem as cores originais, na mensagem que distorcendo veiculam ao cérebro de quem os toma por objectivos. Pintar o mundo sem ouvir as bocas de alguns bocanas, é uma tarefa para máquinas inteligentes que não se envergonham do que querem e são. Digam o que disserem, as cores são um privilégio de quem vê, não de quem crê ver.
Então, onde está o problema de se verem outras bandeiras em nações que se tornaram mais justas e soberanas, civilizadas e cultas, modernas e atuais, solidárias e conscientes, responsáveis e livres?

11.15.2010

Cultura e Civilização, o que são?

A Generosa Perfeição da Dúvida


"Ó deusa Sol de Arina, rainha de todos os países!
No país hitita, tens o nome da deusa Sol de Arina,
Mas no país que tu fizeste país dos cedros,
Tens o nome de Hegat!"

da Tabuinha de Puduhepa

Se até quanto à denominação dos mesmos deuses nos sucede às vezes adorar um sob o nome de outro, ou outro com igual nome daquele que invocamos, então, a mínima dúvida há de ser sempre preferível à maior, absoluta e mais preciosa e pura das certezas, no X de um voto sobre o quadrado da existência.
Desconheço quais sejam, efetivamente, os motivos e argumentos que levam alguns pensadores da atualidade a separar o conceito de cultura do seu congénere, o conceito de civilização, posto ser impercetível a fronteira entre ambas, cujas funções e estrutura se igualam e identificam, como igualmente se aplicam ao quotidiano, na sua crítica à natureza, principalmente à natureza humana, se no universo da ética navegamos, afastando cada vez mais o indivíduo das suas origens, ou o homem do animal que deriva e o suporta fundamentalmente.
Entre muitos que assim fazem, conheço eu um, que não nomeio, pois como os demais desta fornada, é dos que gostam de interpretar cada crítica às suas afirmações como um ataque pessoal, uma ofensa, uma injúria, não obstante número de diplomas e certificados académicos que tem em carteira, que o faz, fazendo-o como muitos antes e provavelmente outros tantos depois dele o farão, garantindo que «um indivíduo culto é o que possui abundantes bens de espírito; [e] um indivíduo civilizado é o que faz uso desses bens no decorrer do seu viver diário», tal como nós costumamos separar os portugueses (provincianos) pela sua opção religiosa, dizendo que todos são católicos, embora apenas alguns sejam praticantes, querendo com a especificação sublinhar que do total dos batizados como tal, só uma pequena porção cumpre os preceitos da hóstia, assistindo aos cultos e participando nos rituais.
E fá-lo sem o mínimo pejo ou qualquer receio de estar menos correto, quiçá, errado mesmo, uma vez que ao fazê-lo também o afirma, oralmente e por escrito, sem temer o risco que corre quem se habituou há muito a ter razão, ser incontestado, que quando a não tendo, supondo essa remota como remotíssima hipótese, então sabe que lhe advirá o consequente apoio de Deus e da Fé, que a tornam elástica e extensível a tudo e todos quantos sob o Sol se erguem desde há, pelo menos, dois mil anos, que é a idade do antropocentrismo cristão à face da Terra. Trigo limpo, farinha Amparo.
Todavia, o busílis não residiria em haver alguém superiormente formado dizer "tamanha verdade", senão em haver uma longa prol de bem formados e melhor pensantes que o subscrevem, citam, repetem, ou até defendem e propalam, seus discípulos, por considerarem que assim estão a fazer (e dar) o seu melhor na formação dos futuros quadros da portugalidade, reivindicando não só estarem a ajudar a edificar o espírito e clarificar as vontades daquelas gerações sobre as quais, sem a menor dúvida, recairá o ónus da responsabilidade dos desígnios nacionais, da gestão da riqueza e do bem da nação, da sustentabilidade cultural de um povo com oito séculos de história – e civilização –, como também a contribuir para a qualidade mental e psicológica da lusofonia, cujo período de validade expirou nos meados do século passado, em virtude da hegemonia global do inglês e pensamento anglossaxónico, com fortes indícios já espelhados na queda da Bastilha e o ressurgir do humanismo existencialista, nem sempre atreito à transmissão/disseminação de valores seculares de incontestável primazia como a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade, tão queridos aos patrícios do quarto império (romano) quão prezados pelos conquistados e vencidos do terceiro império, em Atenas sediado, e na retórica da ironia/mauêutica celebrados, pela verve socrática e platónica difundidos, refinados, apurados, e multiplicados na sua heurística (pro)criadora.
Portanto, a gravidade, nesta problemática, como noutras similares, não está no facto de alguém pensar assim, ser aplaudido, publicado e publicitado por isso, etc., etc., mas exactamente na constatação circunstancial de ninguém ousar vir a terreiro "denunciá-lo" como inconcebível e prejudicial, socialmente negativo e antidemocrático, lamentar a sua lucubração na noite provinciana do subdesenvolvimento nacional, e alertar para as consequências nefastas da proliferação deste tipo de clichés na edificação basilar de uma sociedade, por medo de retaliação censória e inquisitorial, ou sujeitos à acusação de heresia, escondendo, ou desconhecendo, que as ideias – e sentenças –, por mais toscas e tacanhas, desde que se não discutam e não suscitarem o dialéctico confronto, tendem a perder a sua principal razão de ser, motivo de génese, que é a faculdade de espevitar a luz, gerar conhecimento que nunca poderá ser passivo nem de cómoda aceitação, porquanto os conceitos de civilização – "conjunto complexo de fenómenos sociais, de natureza transmissível, apresentando um carácter religioso, moral, estético, técnico ou científico e comuns a todas as partes de uma vasta sociedade ou a várias sociedades relacionadas entre si", conforme avisa o Dictionnaire de Philosophie, de Lalande –, e cultura – "a totalidade dos comportamentos e artefactos de uma sociedade, na medida em que esses comportamentos e produtos podem ser apreendidos e partilhados", segundo a opinião de Ralph Linton, por exemplo –, acarretam em si uma responsabilidade formativa bastante superior a qualquer outro conceito que esteja associado às normas e atitudes de socialização sustentável, contínua, positiva e eficaz, uma vez que lhe é inerente a qualificação da arte, da tecnologia, da ciência e do pensamento que estruturam o desenvolvimento de um povo ou de uma região. A guilhotina ou as SS nazistas de Hitler, são elementos de uma civilização, é claro e inegável, porém a cultura que os gerou e valorizou é a da morte e da opressão, que de todas as conhecidas é a menos desejável em termos sociais, nacionais, europeus ou globais.
Um indivíduo civilizado e culto não é somente aquele que tem bastos conhecimentos e os utiliza no dia-a-dia, mas sim aqueloutro que tendo-os igualmente escolhe entre eles os que sendo-lhe úteis a si, não prejudicam, e antes beneficiam os demais, o ecossistema, o habitat, o seu nicho como a totalidade da humanidade e ecosfera.
Confundir, propositadamente (!), cultura com propriedade, e civilização com a exploração dela, não se me avizinha serem as melhores formas de demonstrar o grau, ou nível, de maturidade e consciência ética com que se está em ambas, outrossim expressam quanto elas têm sido confundidas com o amanho das terras atreito ao mediavelismo bucólico e selecionista deserticador das mentes e tutanos lusófonos, que nos atiraram para a mediocridade vigente, posto que se há produtos culturais e conteúdos como produto de cultura, pelo menos todos aqueles que sendo matéria o não sejam exclusivamente, sendo também espirituais, alguns de elevado teor civilizacional, o que é certo, embora sempre entendidos como plataforma de intercâmbio, de transbordo, de navegação, de interface, entre o mundo físico e o mundo ideal, eles jamais serão propriedade alguma, seja de quem for, a não ser do entendimento, da compreensão, e nunca uma propriedade palpável, rotulável, atestável, com cadastro e diploma, passível de ser arroteada e explorada, como filão aurífero ou poço de crude, e sim veículo de aproximação entre o conhecimento do sujeito e o objecto cognoscível, sem outra deriva civilizacional além da curiosidade metódica e cientificamente condicionada, que assistem a quem esclarecidamente está disponível para contribuir para o bem-estar e felicidade geral, porquanto deles dependem impreterivelmente os seus. E isso é tão velho como a Lei dos Profetas, já pré-bíblica e anterior ao (Grande) Dilúvio!

11.10.2010

Mudam-se os tempos mas a crise é sempre a mesma

Os Amigos da Dívida


"Tu estás tão acorrentado
À sombra que tens ao lado
Não consegues apagar
As marcas desse passado
(...)
Mas se isso acontecer
És mais um a flipar
Mas se tu queres acabar
Ó que tu queres é drunfar

Toma um comprimido
Toma um comprimido
Toma um comprimido que isso passa"

António Variações, in Toma o Comprimido

A China produz, os chineses vendem. E compram. E negoceiam. E até endossam ou emprestam, se nisso perspectivarem benefícios chorudos.
Ainda sou do tempo, apetece dizer, para melhor o registar, como memória futura (???), em que se acreditava que os japoneses, a potência da sua economia, os seus elevados desenvolvimento, crescimento e situação financeira, seriam os "chineses" que nos salvariam das profundas agruras de uma crise (exaustivamen¬te) anunciada. Confirmada. Útil. E continuamente sujeita a novos ajustes e actualizações, agravamentos ou dificuldades, que afinal são o idílico sonho de qualquer político, para camuflar (ou disfarçar) a sua incompetência e inaptidão para as estratégias do desenvolvimento e da sustentabilidade, sobretudo desde que essas exijam ação e discernimento, que aliás muito diferentes são, em resultados, eficácia e elucubração, dos da retórica do bom, do mau e do assim-assim inerentes às marceladas das marias e dos manéis oportunamente televisionadas e sucintamente difundidas.
Fui dos que acompanharam as comitivas de altas individualidades governamentais e financeiras nipónicas por esse Portugal adiante, comendo e bebendo do bom e do melhor, tudo a expensas do erário português complementado pelas verbas do FSE e do FEDER. Em ação. Nomeadamente a dos núcleos empresariais e associações comerciais. Lembro, inclusive, que também estiveram aqui, em Portalegre, no Governo Civil, na Estalagem da Serra e na Fábrica da Rolha, quer dizer, na Robinson, que lhes foi mostrada de alto a baixo, de fio a pavio, da rolha ao granulado, com salamaleques e Porto de Honra, negócio garantido com compra afiançada e injecção de capital para marketing e modernização. Eram a salvação dela, e de uns quantos postos de trabalho, im-pres-ciiiiin-díííí-veis. Tudo parra, que uva nem vê-la. Águas de bacalhau e algumas verbas que voaram, como as pombinhas da Catarina, de mão em mão. Anéis de pouca dura, como se veio a confirmar.
Porém, de vez em quando, ei-los – os salvadores, dando à costa para gáudio da vilanagem política e eleitoral. Tudo favas contadas. As eleições consumam-se e nunca mais ninguém ouve falar dos beneméritos das pátrias amigas... da onça, se nos deixarmos enrolar na fumaça da ocasião. Sejam chineses ou venezuelanos, os meridianos podem ser diferentes que a conversa é igual. «A gente ajuda a diminuir o buraco», prometem, ao que os políticos presentes, esfregando as mãos de contentes, adiantam (mentalmente): «Boa, que nós fazemos outro, ainda maior... Vamos a ver quem ganha!» – «É a política!», esclarecem os analistas e opinion makers, «estamos todos do mesmo lado, de Portugal. O barco há de virar», para cumprir o acordo ortográfico pondo o hífen de molho, molhando a sopa. Acondutada com a certeza e confiança partidária, nos seus quadros e líderes, que garantirá o engenho e arte de inventar uma crise, o buraco, não irreversível, uma vez que isto do nem o pai morre nem a gente almoça também cansar, e ou bem que é, ou bem que não é, já chega de crises em picotado, a esgarrar-nos os tutanos e fé na nacionalidade, a esfarelar-nos a resiliência, façam essa crise durar, porra, o tempo suficiente para nos habituarmos, que isto do vai acima e vai abaixo das flexões pode inspirar músculo sim senhora, mas também exige muito feijão com couve! E osso da suã.
Todavia o mais surpreendente, é que só agora quando atravessamos o medo e a fraqueza, a informação se vai tornando franca, real e informativa, ao contrário da costumeira declaradamente deformativa, e passa ainda além da retórica conjugável no cagativo do diz-que-disse, pondo o enfoque – termo de que sinceramente desconheço a significação portuguesa, visto ser mais um estrangeirismo aportado ao oceano do nosso léxico pela via do politiquês jornalístico –, ou ênfase, nos tabus de gestão da rés que é coisa, como dívida, leilões de dívida pública, défice público, défice externo, mercado e mercados (primário, secundário, ... e superior!?), despesa intermédia, despesa corrente, investimento de risco, sustentabilidade enganosa, efeitos incontornáveis da ignorância e diminuída formação cívica, conduta democrática das autoridades e órgãos colegiais, desígnio nacional, interesse e solidariedade social vigente, corrupção e egoísmo corporativista, sentido de oportunidade e abuso de poder, prémios e luvas indevidas, etc., etc., como se eles pudessem ser simplesmente destabulizados e a partir daí, perdessem como por artes mágicas de um exorcismo excomungável, irradiados das nossas preocupações da grande família lusófona que tem por lar este erm(íni)o torrão viriatejo. É ousado, isso, convém salientar, mas se não for para manter, acaba num exercício de estilo vulgar, demonstrativo de quanto conseguimos ser verdadeiros e imunes ao espírito mercenário dos que fazem mal por bem, batem para educar, proíbem para extinguir, aumentam a mesada para não dar chatices na escola, quer dizer, no Parlamento Europeu, nos centros de decisão internacional, no melhor pano que a nódoa invariavelmente cobiça. Porque adultera, desacredita, cria a impressão geral de andar tudo e andarem todos a brincar ao faz de conta.
Ora, é de supor que tal não apareça por acaso, o que já de si é bastante grave e pejorativo, mas seja o resultado, a consequência, o efeito directo da entrada no mercado de trabalho dos "profissionais" oriundos das novas oportunidades, quiçá em período de estágio (não remunerado), que ainda não aprenderam a respeitar "a cartilha do há coisas que não se dizem" que as administrações e/ou gabinetes de publicidade costumam fazer circular nas redações do Natal ao dia S. Cristóvão, de cada ano, sob o formato e bitola da simplicidade conciliadora dos leads de encher chouriços numa paginação avisada... Ou, então, o rescrever dos livros de estilo, por exigência da entrada em vigor do Acordo Ortográfico, sabendo nós, que o ler, falar e escrever são um resultado do pensar, e que nisso do pensamento só quem é livre o faz condignamente, e em contiguidade, o que leva desde logo a pensar que alguém anda a usar a crise para melhorar de dívida, leiloando-a ao desbarato até que os "japoneses" de agora lhe peguem, a transformem, e no-la vendam como produto de sua genuína autoria e fabricação.
Dando, enfim, a entender que a dívida que eles nos compram, há de ser a pílula indicada para a nossa retoma económica. Se fosse! Mas não é, que do juro à mais-valia, os únicos bolsos em alta vão ser as bolsas com reflexos em Pequim. E basta de comprimidos para amenizar mercados, pois o que deveras precisamos é de uma operação radical que extraia os maus políticos e gestores deste nação doente, que de crise em crise, vem atravessando a História aos solavancos do exterior, desde o berço ao catratumba, pumba, pim, paz, catrapaz da palhaçada que se avizinha, para dito e feito do Acordo. Pois. E exactamente. Sem espinhas, nem pontinhas queimadas no sussurro dos ministérios. Tomando comprimidos, para deixar passar o passado, como dizia o António.

10.15.2010

Quando se casquina não se assobia!



As Hienas Riem Por Despeito

«O cérebro de Fradique está admiravelmente construído e mobilado. Só lhe falta uma ideia que o alugue, para viver e governar lá dentro. Fradique é um génio com escritos!» (...) O extenso saber de Fradique também não o impressionava. «As noções desse guapo erudito (escrevia

ele em 1879) são bocados do Larousse diluídos em água-de-colónia.»

José Maria Eça de Queiroz, in A Correspondência de Fradique Mendes

É enternecedor ver como as hienas se lambuzam e enfartam com as sobras do vomitado dos homens, e como se põem aos magotes a destilar peçonha, ou a debandar batendo os cascos com estrondo no soalho, abanando o traseiro como cadelas saídas, desertas de um macho que se lhes empine e as cubra com dotes de Alter Real. E enternecedor, sobretudo, porque se acham mal recompensadas para tanto, uma vez que não fazem absolutamente mais nada e é daí que têm lamber o seu sustento. A Geografia Nacional dá conta disso num dos seus documentários acerca da vida selvagem nas periferias dos grandes centros urbanos, porém eu, adepto da vida natural, da biodiversidade, desconfiei bastante da forma como eram abordadas (e tratadas) as atitudes e comportamentos "selvagens" – de salientar notoriamente o significado destas aspas! – desses necrófagos que habitam as redondezas da humanidade... A não ser que estivessem contagiados pela peste emocional e venenosa que o narcisismo frustrado, a ignorância (crónica), a má formação cívica e a obtusidade abjecta de certas pessoas, não só lhes impusesse isso ao quotidiano, emprestando-lhes o nojo e pestilência em que coabitam, como as desenraizasse da matriz genética que durante biliões de anos lhes estruturou o DNA – e a espécie... Era uma hipótese!

Todavia, porque o grasnar de avantesma também se fazia ouvir como pano de fundo ao dentado rir das hienas, o famoso casquinar, não duvidei minimamente, por questões de evidência lógica, que ali havia uma intenção bíblica de profanar os canudos e pergaminhos da ciência natural, e deteriorar os cimentados conhecimentos da biologia, através da metáfora cinematográfica ou da alegoria com virtudes de boato maledicente. Como podiam esses nojentos animais alimentarem-se, física e espiritualmente, do vómito nauseabundo de um ser humano? Que glória podiam sentir em abocanhar e lamber do chão relvado a pasta laivosa que outro ser vivo lançara fora, por imprópria e indigesta? Ora bem: custa-me a crer que haja algum mamífero, algum animal, no seu estado primitivo e selvagem, que aja com tamanha e conspurcada índole, a não ser que o obriguem a isso ou tenha tanto medo de procurar alimento saudável, para que assim se empanturre com as "fezes" dos outros...

É claro que já assisti a muito nesta vida, e que pouco me espantam, ou surpreendem, as dietas alimentares que circunscrevem a coprofagia, necrofagia e necrofilia. E muitos foram os romances em que personagens, com essas taras ou de similar proveito, se me apresentaram. Até houve quem, por motivos de sobrevivência (moralmente justificados ), se repastasse com os restos mortais dos precoces nascituros, ou abortos, os sobejados corpos de recentes interrupções voluntárias da gravidez, num estado de loucura e alienação que apenas o obscurantismo medieval estimulou, produziu e obrigou. Mas aproveitar o vómito humano, a indisposição gástrica de um sujeito, para alimentar o ego, nos dias de hoje, parece-me, realmente, enternecedor... E bonito! Aliás, sobremaneira digno de (do)comentários artísticos, feitos a preceito, com qualidade de som e imagem BBC, porquanto só eles são comparáveis ao estilo desse guapo erudito, o célebre Fradique da fluorescente e fleumática verve dos Vencidos da Vida, que bem se espelham como "bocados do Larousse diluídos em água-de-colónia", a que humildemente assistimos, agradecendo a Deus e à tecnologia vigente, o ainda não permitir a transmissão dos cheiros característicos desses ambientes nauseabundos, no "senserowdy" das emissões. Reiterando, é óbvio, que os factos enternecedores perderiam muito da sua ternura e enternecimento, se essa capacidade técnica da imagem fosse estendida ao olfacto, o que faria, sem dúvida, com que a maioria das passerelles para o desfile da moda, incluindo a intelectual, não passassem de lixeiras a céu (aberto/fechado) estrelado dos subúrbios de Joanesburgo ou Cidade do Cabo. O que é uma sorte...

(A bem dizer!)

10.12.2010

O Ninho


Ele é respigador;
Ela, é cantadeira.
Quiseram uma casa maior,
Fizeram-no à minha beira.

Vida Breve






Ó rugas de tanto rir
Neste mundo de sofrimento,
Se o pior está pra vir,
O melhor é a falta de tempo!

9.29.2010

Ah, Fado!!...



Diz-se que este tempo não é para risadas e chalaças
Posto nele andar meio mundo a cornear o outro meio,
E bem sabemos em muitos as virtudes serem desgraças Dos que pelas cornadas foram apanhados em cheio.

8.07.2010

A Lição de Burke



Da Teoria Missionária e Expansionista dos Rústicos e Campónios...

"Eles defendem os seus erros como se
estivessem a defender uma herança."
E. Burke

É bastante comum depararmos com gente que parece regular mas, passados momentos, como às maçãs vistosas em cujo interior mina a lagarta da fruta, notamos que estão estragados, ou estragadas, por dentro, precisamente naquele pomo que mais importa à (com)textura da alma, que é a mentalidade. Merecem a nossa compaixão, é certo, a nossa pena e dó, é indubitável, todavia deve ter-se cuidado quando nos aproximamos, não por isso ser contagioso, ou veicular pessonha, antes sim para os não levarmos a sério nem termos em conta quanto dizem ou fazem, pois se o fizermos estaremos indiscutivelmente em sarilhos, sobretudo com eles e elas, porquanto ouvir e respeitar uma pessoa que não se ouve e muito menos se respeita é acto perigoso do qual pode resultar dano grave, a quem não se precaver atempadamente. Porque não aprenderam a estar e a ser, em termos normais de sociabilidade, uma vez que não sabem ouvir os demais, ficando assim amputados/entupidos no principal canal de fluência de comunicação e intercâmbio com o exterior, e criaram um dicionário particular em que raramente o significado das palavras que nele coleccionaram corresponde ao sentido que convencionalmente lhe foi atribuído. Aquilo que serve para aproximar umas pessoas das outras, a fala, neles servem exclusivamente para afastar ainda mais quem dificilmente se tocava e percebia. Enfim, estão gravemente doentes, enfermos duma moléstia incurável que a ignorância alimenta e faz evoluir, e que à medida que a sua resiliência vai prescrevendo mais se nota e agrava: crise de identidade, com vertentes fabulatórias e confusionistas.
Missionários expansionistas da quezília e confusão, distorcem a realidade conforme as suas necessidades de entendimento, e onde os demais, por exemplo, subscrevem partilha lêem (ou ouvem) exibição, por conversar entendem discutir, por observar, criticar, e por criticar, depreciar. E por compromisso sob o anteriormente acordado, identificam invariavelmente arrependimento.
Mas todavia, contudo e sinceramente, num tripartido genesíaco sob a trindade da adversidade, não deixa de custar-me a perceber como é que pessoas que, além de incompetentes e autênticas fraudes "profissionais", são eticamente tão imaculadas que nem uma carrada de esterco de porco, e mentalmente ordinárias que nem uma vala de esgoto a céu aberto, se podem outorgar modelos a seguir seja no que for, e muito menos nas práticas, procedimentos e operação de computadores, quando tudo quanto fizeram até hoje, nesse capítulo, mais não foi que disseminar a sua falta de cultura, espalhar a sua ignorância e arregimentar a sua mediocridade numa mediocridade maior, mais abrangente e correligionária ao corporativismo. E que obstinadamente insistem em exigir que se tome por bom e útil tudo quanto fazem quando inconfundivelmente apenas resvalam no lodo da sua perversão e incompetência. Atrevendo-se ainda a acharem-se mal pagas por isso, logo, que não lhe podem pedir melhor desempenho... O que não só é logro, como igualmente um roubo à colectividade que paga impostos dos quais são retirados os seus salários, bolsas ou abonos.
Não percebo. E provavelmente ninguém perceberá, mas para essas pessoas não há mistério nenhum, além de se considerarem meritórias de parasitar a sociedade por direito "quase divino", quiçá herdado de geração em geração por via familiar, também devem achar-se o supra-sumo da beleza, perfeição e inteligência, considerando que se posicionam sempre num patamar superior ao comum dos mortais para quem errar, por mais pernicioso e abominável, é incontestavelmente sinónimo de preocupada inovação. Nada importa que seja funcional e útil desde que lhe não possam aplicar o seu toque de génio, que é, afinal, torná-lo imprestável para todos mais, mostrando quanto lhes apraz mas condenando por abuso e ingerência na sua privacidade os que olharem e virem. Num golpe de asa e em voo certo na admiração dos seus congéneres... Porque a imitação é, entre os medíocres, a nota exemplar com que se pode atingir a mediocridade suprema, o reconhecimento da corporação e da generalidade dos seus elementos.
Ora, vem a prédica a propósito, depois de terem vindo a lume algumas notícias sobre o caso Freeport... Os procuradores (Vitor Magalhães e Paes de Faria) tinham vinte sete (noves fora nada) perguntas a fazer ao primeiro-ministro e, se calhar, outras tantas ao ministro da Presidência, mas como o pedido não chegou a tempo para o prazo de conclusão do inquérito (25 de Julho), ficaram assim inviabilizadas todas as diligências que se necessitassem para esclarecer melhor e mais justamente se fazer justiça. O Procurador Geral da República escreve num comunicado de nove pontos (noves fora nada) que vai ordenar a curto prazo um inquérito para o integral esclarecimento das questões de índole processual e deontológica. Os prazos vão-se esgotando desde 2006 para isto e para aquilo, os sete milhões que deram de frosques continuam a monte, a lei do empurra continua a fazer o seu jogo, espera-se pela aproximação do prazo para a conclusão da fase de inquérito a fim de se pedir para serem ouvidos este ou aquele, que chega fora de tempo, a fim de se realizarem diligências complementares, etc., etc., repetindo e imitando o modus operandi dos burocratas kafkinianos da outra senhora, enrolando, empurrando de Herodes para Pôncio Pilatos (lavar as mãos – e as verbas), até que finalmente já ninguém saiba o que é que está realmente em questão, resolvendo por cansaço das partes um processo onde todos tinham fortes probabilidades de sair mal na fotografia, como no ditado do que vai à vinha e do outro que fica à porta.
E porquê? Porque, como afirmou Burke, e foi "afixado" em epígrafe, há quem considere o erro (ou a corrupção) uma herança de enorme mais-valia cultural em todos os sectores do Estado, e que por tal deve ser defendida, pois precisa que se continuem a ganhar causas com truques de secretaria, precisa de ver garantida a sua sobrevivência, ter assento na administração das tutelas, onde possa continuar a tecer os seus enredos retóricos e semânticos para adiar a transparência necessária à justiça, uma vez que só assim poderá continuar a exigir aos demais o cumprimento duma lei que não segue.
Ou seja, o Freeport é apenas mais um monumento nacional, património cultural de um povo que continua a ser lusitano, e como tal, independentemente de ter uma tecnologia avançada e um sem-número de universidades continua a ser o mesmo lusitano, a roubar pelos mesmos motivos e igual êxito, a matar pelas mesmas razões, a violar e espancar o género oposto com a mesma acuidade e orgulho, a contornar a lei com a idêntica heroicidade e defraudar o desenvolvimento com igual desenvoltura e sucesso com que os Viriatos distorciam e destroçavam as ordens romanas, emboscados nos recôncavos e ermitérios (herméticos e hermínios) da rústica e campónia soberania. Bem ajam, então por isso, que cá estamos nós para levar bordoada na ética e competência profissional sempre que nos atrevamos erguer a voz no estrangeiro: afinal, aquilo que se herda nunca se muda, e deve defender-se como um bem imprescindível, imperdível, pese embora seja a maior porcaria que existe à face da terra, como cultura... – É tradição!

7.12.2010

O Condão dos Mírdeas!

"– E isto, conheces? Conhecer apenas metade é perigoso. Bebe até não poderes mais ou não bebas da fonte das Musas. Aí, as águas de superfície intoxicam o cérebro, mas se bebes à saciedade, receberás a lucidez. Pope, no mesmo ensaio. Então, como te sentes, depois disto?
Montag mordeu o lábio. "
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Agora que a Espanha é campeã mundial, não restam dúvidas nenhumas: eles, os espanhóis, até quando estão mal são muito melhores do que nós, em tudo, da economia ao desporto, da cultura à democracia, uma vez que não se deixam intimidar por quaisquer laranjinhas bichadas que andem a abrir sites de conteúdo pornográfico nas bibliotecas, escolas e locais públicos de Internet, só para terem o prazer de carregar de vírus os attaches de quem mais frequente esses organismos ou instituições, cujo fim, último e primeiro, é o de partilhar facultando aceder ao conhecimento, propiciando a sociedade para todos e a participação democrática, em igualdade e enraizado envolvimento cívico, e tudo isso porque os responsáveis pelo funcionamento dessas ferramentas civilizacionais preferem o silêncio melindrado corporativista, à comunicação adulta e racional, prejudicando as suas instituições sob o pretexto que lhe estão a proteger a imagem. Se há algo errado, e alguém o diz, aqui d'el rei, cai o Carmo e a Trindade, porque a verdade soou em vez do silêncio compungido dos penitentes, alterando a ordem dos canalhas que até ali se têm lambuzado com as iguarias da corte, tentando fazer passar a mensagem que o indecoroso e prevaricador não é quem prevarica e comete as faltas, mas sim quem as nomeia e propala, pondo acento tónico na transparência, debate, avaliação e correcção das medidas ante os resultados. Se dois ou três matulões preferem estragar aquilo que é de todos, porque assim sendo também é deles, e com aquilo que é seu eles fazem o que muito bem lhes der na gana, conseguem-no e ainda se ficam a gabar do heróico feito, porquanto os responsáveis optaram há muito insistir no erro monumental, desde que vindo de dentro, dos seus cúmplices de profissão e confrades cooperativos, a admitir discutir sequer os processamentos e actos profissionais. Seria uma humilhação. Séria. Grave. E um admitir que há melhores maneiras de fazer as coisas do que aquela que praticam e executam, o que lhes provocaria um curto-circuito terrível na consciência e narcisismo.
Não, essas instituições e organismos públicos não servem para satisfazermos a nossa gula expansionista e missionária, nem a partidarite aguda de que padecemos, sejamos simples utilizadores, técnicos ou profissionais do ramo, gestores ou dirigentes, mas sim para consolidar a sociedade do conhecimento e da informação que no-los patrocinam, no-los criaram e pagam a sua manutenção, funcionamento e divulgação, esclarecendo e formando cidadãos capazes de responder às exigências do seu tempo, não para que eles imponham a sua bizarria australopiteca aos demais contemporâneos e concidadãos.
Há um blogue que trata de relações e sentimentos, afectos e poesia, e eis que logo aparece quem seja lampeiro em classificá-lo de aberração, manigância de interesses sexuais obscuros, de clube de apanhados ou manifestação de exibicionismo cultural, com vincada pretensão à propaganda "idiológica" (lógica do idiota), que deve ser perseguido por quem coisifica os géneros, protege os sexismos e especismos, e se serve da democracia como um fim de alcançar o poder para depois fazer o que lhe apetecer, uma vez que é quem manda e sabe o que é bom para todos. Há um escritor que retrata a sociedade do seu tempo, como lhe compete, considerando que a cultura é sempre crítica da natureza, e a arte crítica da cultura, porém como também há alguém que não se sente beneficiado pelo retrato, eis que tenta sujá-lo por todos os meios ao seu alcance, dando-lhe o famoso e famigerado toque de Mírdeas que, ao contrário do de Midas, que transformava em ouro tudo em que tocasse, transforma em merda tudo o que aflora, seja pelos olhos, como a leitura, seja pelo apanhar e agarrar às mãos-cheias.
Em vez de interpretar e analisar, mete na boca, como qualquer esfomeado símio faria a uma peça de lego, e depois cospe porque é plástico, e não concebe que alguém produza mais do que bananas, já que é disso que ele gosta, e a arte deve ser uma questão de gosto: se gosta é boa, se não gosta não presta. E quem foi o Galileu que o elegeu centro do mundo? O papá e a mamã?... Então, eles que o aturem!

7.10.2010

Todas as Revoluções Começam com Flores...

No jardim da Celeste: Giroflé-giroflá

"Também é dos livros, que todos os comandantes em chefe, entre as lutas que sempre perdem, ganham e planeiam."
– Lídia Jorge, in O Cais das Merendas

Conforme o fait-divers do Público 2, de sexta-feira passada, ontem, dia 9 do mês de Júlio César, do ano da (des)graça PEC, os jasmins, essas odorosas gardénias galegas hermafroditas de flores brancas ou purpurescentes – ai credo, cruzes-canhoto!... –, além de vistosas podem pôr um homem a dormir só com o efeito de uma lufada, porquanto são senhoras de um mecanismo molecular de acção sobre o cérebro humano igual ao dos barbitúricos e ansiolíticos mais correntes, cujo efeito é tão forte como o dessas drogas, proclama o dito jornal, por assim o ter constatado no Journal of Biological Chemistry, e na sequência da descoberta de duas fragrâncias nesta flor, pela equipa de Hanns Hatt, da Universidade de Ruhr, na Alemanha. A notícia por si só é já um portento, agora o maior impacto deve-se sobretudo ao receio das farmácias e indústria farmacêutica europeia, uma vez que a sua mais volumosa e cimentada fonte de receita está precisamente na venda dos placebos anti-stress, com aplicação em sedação, redução da ansiedade, excitação e agressividade, bem como na indução do sono, coisa que vai faltando a muitos, com tendência crescente acentuada, na maré de crise em que naufragámos (desde o século XIV).
Talvez isto seja mais um sinal da vingança Alemã sobre as Espanha, que ultimamente não tem descoberto nada de jeito, quiçá ainda sob os efeitos traumatizantes dos maus negócios que Madrid tem efectuado, nomeadamente a compra do Cristiano Ronaldo e a OPA sobre a PT com a Vivo debaixo d'olho, que redundou numa golden share com perniciosas consequências Ibéricas, sobretudo ao Estado português que se sujeita a ser apalpado no OE pelo Tribunal Europeu, para quem as decisões meramente declarativas costumam ser locomotivas de um conjunto de outras não declaradas, mas surpreendentemente eficazes na surdez institucional dos países membros. Estas coisas moem muito, e às vezes até matam. Uma nação, mesmo que a ETA ande em sossego, também tem os seus achaques e inquietações, demasiado graves para se curarem com qualquer pensinho vermelhusco. Essa é que é Eça!
Porém, a suspeita de jogo sujo por parte da Holanda não está posta de parte... Aqui há marosca laranja! Pla certa! Habituada aos eflúvios gaseamentos e exalações das tulipas, jacintos, gladíolos, rosas e crisântemos, por país baixo que é, e que de pé, nem chega a bater pela cintura de qualquer pirinéu, por muito basco que seja, terá movimentado os apetites sexuais das plantas continentais e adjacentes, no sentido de intoxicarem os canais ibéricos, entupindo-os, recorrendo mesmo à infiltrada presença e actuação de uma flor abundante nas rusticidades galaico-castelhanas: o jasmim. E pela sua mais-valia, que é das virtudes medicinais e feiticeiras, havendo já quem defenda que, de futuro, aquela rosa sedutora que enfeitiçou o inocente cabo da guardia civil, atirada ao seus pés por uma fatal gitana mal intencionada, seja substituída em próximas/imediatas encenações da Carmen por uma gardénia, pelo menos, se bem que alguns radicais exijam mesmo um jasmim. Creio que neste mundo nada sucede por acaso, principalmente nos jornais. Nas universidades. E nos ministérios ou relvados sul-africanos. Portanto, meus amigos e amigas, estejam alerta e preparem-se que aí vem borrasca da grossa, e desta vez, não haverá golden share que nos salve: os espanhóis, doídos e açulados pelos alemães, vão plantar gardénias em todos os terrenos que já compraram nas redondezas do Alqueva. O odor e perfume destas plantas há-de alastrar de norte a sul, de este a oeste, adormecendo-nos, e quando, enfim, vier o próximo Verão, e acordarmos, O Primeiro de Dezembro mais não será que uma remota comichão no alzheimer de uma marsans que nos aconteceu com registo nas calendas gregas. Mas só nessas, nas gregas, que a Grécia nestas coisas é incapaz de nos deixar sozinhos, solidariedade de quem partilha as sortes de forcado, e sabe muito bem o que é isso de andar nos cornos do minotauro...E depois abufem-lhe nas vuvuzelas e batam-lhe palmas, que é manifestação de valentia e coragem para quem está já a pensar nos resultados das próximas eleições autárquicas ou legislativas: lugar certo e obra acabada. Participação incontornável e incontestável para os programas e planos do próximo quinquénio estratégico de Lisboa a Bruxelas, com apeadeiros em Badajoz e Cruz de Pau.

6.24.2010

Para Esse Peditório Já Dei

E Viva a República!

"Quando vi a víbora cegui os olhos. Alavanti a saia, brandi a cana, uma, duas, três, sete e vinte vezes, sobre a cabeça da bicha. Ela era azul, castanha e delgada. Assim. (...) Parecia um pensamento. Ali no chão. Di-lhe bem umas trinta canadas sobre a espinha e cabeça."
In O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge.

É significativamente lamentável que aquelas pessoas que tão veementemente se insurgiram contra os teores e conteúdos das minhas Crónicas (In)Divisas, saídas então no jornal portalegrense Fonte Nova, sobretudo quando nelas me referia a actos de gestão da coisa pública, em que salientava a necessidade de se estabelecerem voluntariamente medidas e políticas concretas com vista a objectivar a sustentabilidade, a contemplá-la, garanti-la e reforçá-la, porquanto corríamos o risco de num futuro próximo virmos a fazê-lo obrigatoriamente, pela pertinácia pouco esclarecida e forçosa do tem-que-ser que, como todos muito bem sabemos, tem muita força, não venham agora com igual veemência e empenho vociferar para os mesmos cafés e esquinas dos Rossios, confirmando que já sabiam que isto ia acontecer pois tinham-no lido nelas, nessas excomungadas crónicas, cujo único defeito que lhe encontraram, como basto motivo para a dor de corno que lhes provocou a tamanha comichão nos tutanos da consciência, era ou foi, o de estarem com alguma lógica e sensata razão. E é pena, porque essa atitude seria interpretada como um rebate de consciência, um remorso adulto e avisado, demonstrativo da capacidade cívica e educada que gerações alfabetizadas ganharam com a escolaridade (obrigatória?) tida, ou pelo tempo que passaram a puir os fundilhos nas carteiras da Corredora, da Fontedeira, da Estrada da Serra e do Magistério, como sob os demais "edificados" telhados na alçada dos Duarte Pacheco, deste e anterior tempo, tecendo e remendando os palimpsestos da Cartilha herdados ao serôdio de um João de Deus que lhes acordou as mentes para as manufacturas do odiar com facilidade, e respeitar com despeito ou exagerada e precavida moderação, ainda assim o respeitado não lhe dê uso e se convença ser isso sinal do considerá-lo alguém.
Todavia, é um lamento pouco pronunciado e de menos lamentado, uma vez que mais se assemelha àquele "cochicho murmurado" no escuro da plateia durante uma sessão de dejá vu como as que habitualmente se exibem nos actuais palcos da originalidade, entre velhos Marretas do mesmo ofício, alicerçado no contrabando platónico entre o ideal e o real à mercê do vice-versa, que é câmbio para todo e qualquer talento. É antes um chorinho sob a batuta do não-te-disse-agora-aguenta-te que é para ficares a saber o que é bom prà tosse, com que sacudir a água do capote, e determinar a forma de colaboração regimental disponível sob a bitola do vamos ver o que se pode arranjar, mas desde já te digo que não mereces nem um quinto de quanto possa vir a fazer por ti. Murmúrio assaz legítimo, considerando que o não-fazer me é um direito consagrado agora, como o foi o teu igual não-fazer nem deixar que alguém faça quando estavas sentado na burra. Porque, caro (e)leitor, não é por teres tido toda a vida uma fértil sorte e caganeira, que se conquista a cátedra de passar atestados de tacanhez & vilanagem a toda a gente, apenas porque ela – essa gente – é diferente e a falta de cuidados paternos/maternos a incapacitou (p.ex, com 71%) para toda a vida. Porque, até podes ter direito à ignorância e indiferença, até podes achar que é um bem voltar à terra tal e qual como caíste do sobreiro, agora do que não te assiste qualquer direito é o de impedir o acesso ao conhecimento e cultura a quem não bate palminhas aos teus arrazoados, requiens pindéricos, discursos de homenagem e suserania, elegíacos epitáfios, com a respeitável e diplomática inteligência do burro coça o burro, porque se aqui nada foi dito acerca do passamento de José Saramago, não foi por ressaibo, negligência nem má vontade, mas sim porque nada há a dizer quando uma vida se cumpre, seja ela a de um escritor Prémio Nobel, seja a de uma couvinha tronchuda ou galega, posto que a vida, isso que se supõe ser uma linha continua entre o nascer, crescer, procriar e morrer, é igual para todos, e não é agora que morreu que lhe vou ler a obra, uma vez que o li e divulguei em basta suficiência, mesmo sabendo que as susceptibilidades feridas, ao fazê-lo, podiam exercer o seu direito de afronta, ressentindo-se com a ousadia, e retaliarem com a respectiva excomunhão. Que, aliás, de nada lhes valeu, uma vez que continuei a escrever e, ao contrário deles, a ser lido, considerando que as suas publicações e pasquins encerraram a loja com a crise, em consequência de uma outra anterior que era a de valores humanos e éticos, que é coisa que não vinha de brinde, como as cartas de condução, nas farinhas Amparo, Predilecta e Trinta e Três.
Portanto, convinha que se deixassem de queixinhas e lamechices, que para esse peditório já dei!
Porque só há uma maneira de celebrar/homenagear legitimamente um autor, que é lendo-lhe a obra, e isso eu fiz de fio a pavio, como se estivesse a ler o Pentateuco dos pequeninos.

5.15.2010

As Tentações do Je Ne Sais Quoi


As Tentações do Je ne sais quoi!


Esse escorreito e rudimentar, senão atalho malévolo, esse não-sei-quê com que se pretende reduzir (na qualidade) as obras de arte à banalidade de um mistério, ou (in)definição de (in)suspeitável gosto, espécie de "se não percebo então é porque deve ser bom", que muitos exibem como pedra-de-toque para avaliar as demais por essas, atirando para o redil do surrealismo quantas se imbriquem na associação livre da imagética e da sinestesia, pondo de um lado as que têm esse não-sei-quê que nos arrebata pela incompreensão delas, e do outro, as estruturadas mas simples, por acaso consideradas menores, uma vez que explicam ao contrário das primeiras, que confundem, complicam, expressando fusões inconcebíveis entre parafraseados inconfundíveis, que desde o jazz ao Kusturica foram expulsos pela ecolália Dada, dos paraísos dos direitos de autor, bem como do das parangonas multimédias e escaparates maiores, como quem assenta os alfabetos com o tijolo e cimento da moda (de opinião), tem provocado quase tantas baixas de vulto na criação literária como o maneirismo teológico provocou na pintura (arte) europeia e/ou mundial de séculos recuados, tenebrosos, escuros e medievos com certeza, pondo o ver com os paninhos quentes do quero-posso-e-mando sob a tutelar batuta de Deus, e Este, a servir os mais instintivos e encarniçados desígnios dos papistas poderosos, que chegaram mesmo a exigir – e conseguir! – que os artistas fossem apenas os executantes das suas ideias de beleza, ditando-lhes o que deviam pintar (fotografar ou escrever, filmar ou esculpir, musicar ou coreografar, à semelhança do que hoje fazem...), posto que se a composição seria sempre deles embora a interpretação/execução, enfim a técnica (a arte), fosse de quem possuía o dom, a mestria, o talento, a habilidade para criar, produzir com génio, pintar ou escrever, vulgarmente conhecido por artista (ou artífice), pintor, poeta, músico, etc., contorcionista mesmo, pois que muita manobra e jogo de cintura tem que fazer para viver quem apenas souber fazer seja o que seja, mas não tiver bons padrinhos na confraria dos ai-não-me-toques-que-me-desmanchas e demais paróquias censórias (e congéneres).
Pois bem, se é certo que esse não-sei-quê que assenta como uma luva no ar enigmático das Giocondas desta urbe, o copy-past perfeito no equívoco soslaio da Rapariga com Brinco de Pérola de Vermeer, ou da multiplicação de pontos de vista em As Meninas, de Velasquez, ou ainda essa perseguição ao coelhinho branco pela toca do inconsciente (fantástico) segurando a mão (escrita) de Lewis Carrol, na Alice no País das Maravilhas, e se manifesta impróprio para consumo à luz de qualquer cassandre (acrónimo da expressão francesa "language pour la conception aidée et la simulation des systèmes logiques, leur analyse, description et réalisation" – que é como quem diz, linguagem para o projecto assistido e para a simulação de sistemas lógicos, sua análise, descrição e implementação, descrição lógica, estrutural e funcional de sistemas semânticos com vista a detectarem-se erros de alcance significativo, incongruências internas e anacronismos vários, incluindo as (inter)ligações (conexões) entre componentes dos constructos frásicos, e destes no discurso), pode muito exemplarmente ser aquele atestado de burrice e deslumbramento perante os palácios da complexidade, mas não é, de forma alguma, e por mais torções que apliquem ao bom gosto e bom senso tão apaniguados nas lides e inventivas da retórica (escolástica), sinónimo de qualidade estética e exímia técnica. Porque esse não-sei-quê é um calhou que assistiu em sorte àquele que querendo desenhar um periquito lhe saiu um melro, todavia assume o produto final como intenção inicial, logo, objectivo definido do seu gesto criativo. É um tanto foi o cântaro à fonte até que se partiu, e finalmente, assim viu recriado como um vitral, depois de coladas todas as suas partes (cacos), com a cola translúcida que apenas o pensamento empresta à análise que jorra, sem receio nem inibição castrativa, da interpretação sagaz e objectiva de cada um dos seus componentes.
Ou seja, se aplicarmos o zoom da eficácia significativa sobre esse não-sei-quê que tanto reclama a atenção do observador (leitor) da obra de arte, vemos que o resultado excedeu a competência técnica, normalmente porque algo lhe falta, formando elipse, metáfora, hipérbole, alegoria, eco, refrão, metonímia, sinédoque, sinestesia, hiato, provocando o salto no vazio ou vertigem de constatação que, além de arrebatar significativamente, também nos transportou para o ver claramente visto que os olhos nunca alcançarão, pois não estão apetrechados dos cones e bastonetes virtuais e suficientes para discernir os pormenores da alma.
Porém, digam aquilo que disserem, sejam tão fundamentalistas quão obtusos, o constante ar enigmático que o Papa denunciou/apresentou durante os actos públicos da sua estadia em Portugal, se a alguns pareceu sintoma de santidade e acutilância de espírito, isso foi porque viram mal, uma vez que era mais adequado interpretar a sua reserva, outros dirão timidez, e desconfiança perante o que via, como um ora-a-porra-onde-eu-me-vim-meter que estes gajos são malucos, tão malucos que até são capazes de andar a pé centenas de quilómetros – em peregrinação –, mas vão de pó-pó para ir beber café à tasca do fundo da rua onde moram, além de nem sequer separarem/seleccionarem o lixo doméstico porque isso lhes exigirá depois metê-lo em recipientes distintos de difícil avaliação e escolha. Enfim, um sorriso com aquele não-sei-quê que costuma acompanhar as grandes dúvidas e suspeições, tão conhecido das mulheres no Verão das poucas roupas, e se afastam, quando ao olhar por cimo do ombro, reconhecem que o amigo de fé, e familiar, lhe aprecia outros atributos traseiros, que não a simplicidade do andar, que as põe a pensar na necessidade de rever os conceitos, os suportes, os significados e os coloridos da amizade que os une... esse não-sei-quê que estremece, tanto quanto tenta e arrepia: não, não foi ele – o homem vestido de branco – que nos surpreendeu: nós é que não evoluímos nada, e continuamos os mesmos Viriatos a correr atrás das cabras, capazes de ter visões sob efeito de qualquer zurrapa.
Que dura pouco, mas que marca, capaz de traduzir toda a vida num momento, essa precipitação do tempo que (es)corre, em catadupa, à procura da sua própria cristalização, o instante, e se fixa num fotograma (frame) sem precedentes, sem studium, história ou preâmbulo, e contudo se torna síntese, punctum, sinal, luz, insight nos modos de ver peculiares com que cada um se diluirá na eternidade. Todavia, como todos os pormenores e adereços, importa saber que eles apenas são vistos porque alguém os colocou lá, precisamente para que os notássemos. Em arte, em coreografias, sejam elas quaisquer que sejam, os não-sei-quês funcionam sempre de acordo com os porquês para que foram criados. E alguns deles, deixam muito a desejar... Ou não!

3.18.2010

Camisola Nova Para Enredos Velhos




"O filme é uma música que chega até nós através da vista."
Élie Faure

Sim, desta vez é que eu mudo para a social democracia, porque agora sim tenho um partido onde posso ser eleito para depois governar sem oposição interna (e externa), o que é um verdadeiro filão de boas ideias para implantar a ditadura com que sempre sonhei, tornar-me o salvador da minha espécie e ídolo garantido das demais, mesmo da pátria (dissolvente), se a tanto vierem a mim os bravos de antanho rejuvenescidos, sim, cantando e rindo, levados pela bruma no nevoeiro da memória.
Porque o que de melhor e mais atractivo tem a nossa democracia, são estas mudanças de alterne que nos facultam os seus partidos, porquanto um deles, e dos maiores, consegue ser tudo quanto há nos compêndios de história – e de anatomia do Estado – ao mesmo tempo, o PSD, que na Assembleia da República é anarquista, abstendo-se frequentemente na votação dos itens fundamentais à governância, estalinista no Congresso onde aprova regras sintomáticas de amputação da liberdade de expressão, criando de si uma espécie de Estado dentro do Estado (Mafia), cujos estatutos não contemplam a Constituição da República nem se lhe sujeitam, no parlamento europeu em que é democrático e denuncia a falta de liberdade de imprensa nacional, no poder local onde ostraciza quem não usa na lapela o seu distintivo, coloca nas televisões e demais órgãos de comunicação os seus comentadores com pronunciada quota na bolsa das audiências, como se fossem produtos de mercado com marca registada, é revolucionário nas lutas sindicais e de classe profissional, sendo o principal agitador nas contendas entre profs e ministério da educação, veste a opa de sacristia na oposição aos casamentos entre pessoas do mesmo género e aplaude o Papa de velinha em punho e desfile (procissão) a favor dos desfavorecidos, das crianças que satisfizeram a santificada líbido dos dez clérigos portugueses entre 2003 e 2007, dos quais seis em 2007, que foram os que a Santa Madre Igreja não conseguiu desmentir e, portanto, não teve outro remédio senão assumir, deixando a ênfase para o facto de serem provavelmente muitos mais, mas que os seviciados não tiveram coragem de denunciar, por não haver como provar onde e como sofreram esses abusos, ou serem de tão boas famílias que o comer e calar é sempre preferível ao vir-se a saber entre os vizinhos e compadres.
Ora, o filme é o seguinte: se o Convento pôs o carrilhão a badalar a instância da regra que obsta à crítica, então vai daí, eu vou inscrever-me como militante no PSD, pagar as quotas, coisa e tal, pois a profissão de político é de carreira segura, nada de precariedade nem "lay-offs", garantindo a postura e o singrar na vida, porquanto sempre se podem fazer as asneiras que se fizerem, desde que isso suceda durante o período de defeso à crítica, ninguém porá a boca no trombone nem vaiará a lide dos contratados e eleitos na peluda de mandato, podendo cada um guardar para o fim a mariolice maior, abotoamento ou dissipação que sejam, que se antes das eleições não se pode falar depois delas muito menos vale a pena fazê-lo. O que é música para os meus ouvidos, reconhecida invariavelmente por toda a assistência, cansada claro está, de lhe andarem constantemente a mostrar como, onde e por quem foram enganadas e enganados (os votantes) nas eleições anteriores.
Estão a ver o filme? Depois venham cá com essa de me acusarem de eu andar sempre a mudar de camisa, a ver se não lhes respondo, que é bem preferível isso, que andar de roupa suja, a meter nojo aos demais, como muitos por aí andam fazendo... Venham, venham, que cá os espero, para vos brindar com um andar novo, enquanto o Chaplin esfrega um olho no dez pràs duas que a encomendinha demora!

3.13.2010

Torcer o Rabo à Porca

A bem da nação, os deputados aprovaram, ontem, sexta-feira 12.03.2010, recorrendo à abstenção, o catecismo da actividade governamental até à próxima rectificação orçamental, adiando-a mas não evitando-a, que ninguém lhe paga para fazerem aquilo que podem e unicamente quanto querem, garantindo mais um ano sem fumeiro às famílias votantes deste nosso torrão à beira da Europa enguitado, como paio de toucinho, que a carne é para exportação e quem está habituado a gorduras não deve alterar dietas alimentares, pois as mudanças drásticas acarretam esforço de adaptação suplementar e onerosas dificuldades de (di)gestão.
Torcer o rabo à porca sem tirar as mãos dos bolsos é tarefa para crânios geniais, apenas comparáveis aos dos mentores do popular faz força que eu impo com que, no tempo da outra senhora, a luta de classes se instituía por esses pousios fora, no amanho de mais um subsidiozinho para comprar um jeep novo, montar apartamento para a Severa do dia ou pagar a estadia em Coimbra ao rebento, até ele se doutorar em fados e vinho verde, salvo-seja!, que para tamanha exigência, dificilmente haverá curso com currículo e nobreza de conteúdos que honestamente a substancie...
As imagens são interfaces, plataformas de ligação, intersecção entre conjuntos de conceitos antagónicos, "placas-giratórias entre a realidade e o imaginário" (Edgar Morin, 1956), consequentes da necessidade de comunicar, considerando que na qualidade do dizível há muitas coisas que não lhe cabem dentro, por ser um universo onde há tudo quanto já foi descoberto (dizível), ideias, sentimentos, sonhos, teorias, sinais, medos e prenúncios, divindades, percepções sensoriais e extra-sensoriais, mais tudo aquilo quanto ainda não foi descoberto, visto, sentido, analisado, impossível e inaudito, que no entanto também carecem de ser transmitidas, comunicadas, partilhadas, desbravadas, para assim se tornarem posse humana, elementos preciosos do património cultural da humanidade que, à face da Terra, é de todos os seres, o homem, o único ser capaz de realizar, gerir e manter a memória da vida, como se lhe fosse o mais fiel, diligente e íntegro dos súbditos e servidores, o fac-símile e croquis que melhor a representa, lhe esboça as intenções, pese embora por caminhos bastante controversos, de notória inversão de sentidos, confundidos, parecendo avançar quando deveras regride, recuar se o progresso se manifesta e, até, atolado em estagnação se o choco e a meditação congeminam o passo seguinte.
Por exemplo, o governo português, ressuscitado da panaceia do socialismo democrático, está condenado a governar Portugal, não porque o Orçamento de Estado (OE) e o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) rectifiquem o direito que lhe foi outorgado pelas eleições, nem pela intenção objectiva que pretendem subscrever – recuperar a economia e consolidar as contas públicas –, mas por a oposição directa e mais próxima (o PSD) andar em ponderação constante, e esta lhe indicar que não está ainda preparado para avançar com determinação e sentido de Estado, porquanto não tem oficiais competentes e habilitados para a função, nem PEC alternativo e muito menos esboço de OE sob linhas mestras eficientes, susceptíveis de agilizar a economia e garantirem nela uma sustentabilidade sofrível a curto prazo. Ainda não chocaram convenientemente o que querem fazer, nem a estratégia para o conseguir, porque também ainda não sabem aquilo que deveras querem, uma vez que aquilo que queriam deixou de ser possível de sustentar no mundo actual, cujas fundações apodreceram arrastando o modelo em que assentavam, e o novo paradigma (globalização e sustentabilidade) ainda não se revelou suficientemente maleável à sua sede de poder, de benefício do individualismo e geração de fortunas. Isto é, ainda não descobriu a maneira de utilizar a solução dos problemas nacionais (crise, défice e dívida), sem os agravar irreversivelmente, para satisfazer a necessidade de lucro que os seus investidores políticos (militantes) consideram justo e plausível com o esforço (envolvimento) que prevêem e estão dispostos a "contribuir", a pagar, quer na propaganda do boca-a-boca nas praças de mercantilidade nacional, quer na congregação do tecido empresarial, financeiro e religioso. Enfim, estão em palpos de aranha, enleados pela teia que eles próprios teceram, sem ver uma saída airosa da crise e défice que durante tantos anos os beneficiou e – eles alimentaram com as suas opções político-ecnómicas do depois de nós o dilúvio, ou insustentáveis – controlaram para exclusivo proveito.
Rafael Bordalo Pinheiro sempre caracterizou a política económica como a porca que amamentava os bacorinhos da pátria, e desta imagem, costumava minha avó servir-se para me dar lições de economia(doméstica), dizendo que quando as receitas (tetas) não chegam para as despesas (bácoros), então não há porca que aguente, ficando os bacorinhos excedentários sujeitos a amamentação por biberão, caso o dono os queira salvar, pois caso contrário, não só morreriam, como enfraqueceriam a porca a ponto de não produzir leite suficiente para alimentar os que tinham lugar nas suas tetas, e a que normalmente se chama OE; e tanto fazia sobrecarregar a gorpelha do Zé-Povinho com mais impostos, como não, que se a porca estivesse chupada a ponto de já não conseguir comer a lavadura que este lhe desse, a breve trecho os viria a rejeitar se se quisesse salvar, ou então sucumbiria perante a fraqueza e trauma (culpa) que a perdida resiliência lhe imporia.
Com a abstenção do PP e PSD o parlamento torceu o rabo à porca, a fim de a obrigar a estar quieta e permitir que os bacorinhos com assento à mesa do orçamento pudessem alimentar-se com desfaçatez e diligência , esquecendo que o bicho já tinha o rabo torcido naturalmente, quer dizer, encaracolado de nascença, coisa que à sua espécie assiste desde o princípio dos princípios bíblicos, e sabendo que ao menor alívio da pressão sobre ela, esta se levantará sacudindo-se, expulsando quem a suga como quem a segura (manieta) e a faz amochar. E a abstenção parlamentar sempre foi um fazer sem fazer, autorizar sem convicção, um trabalhar com as mãos nos bolsos, de engraxar os sapatos sem se importar com o cuspinho que o engraxador vai gastando no ofício, logo, muito pouco duradouro no brilho que lhe advirá, opaco no polimento e fosco na tecitura, de onde – Deus queira que me engane... –, o amanho servirá de nada, por as solas estarem a dar o berro e o cabedal já não aguentar consertos de costura e ponto firme. Ou seja, no que para quem é bacalhau (abstenção) basta, está inerente uma estranha forma de considerar os portugueses, a cuja leitura com certeza estarão atentos, as suas condições de vida, o seu presente, o seu futuro, a sua esperança, bem como daqueles para os quais vão construindo um país, do qual, se acham mais ou menos espoliados.
Precisamente deputados e forças políticas que andaram a vociferar contra a abstenção nas eleições passadas, ei-los agora a praticar aquilo que condenavam nos demais, como se anarquia fosse o seu reino, a sua ordem, código disciplinar, demonstrando que quanto for denominado terrorismo nos nossos adversários, é sempre o supra-sumo de excelência, o alto expoente da nossa inteligência e patriotismo: deixa arder, que mais tarde vais ter que me contratar para apagar a crise, e nessa altura vou exigir pagamento em dobrado. E isto sim, será defender os elevados interesses da nação!

3.09.2010

KISS, KISS


"Os deuses atraem com promessas aqueles que querem destruir."
C. Connoly

É preciso ter descaramento e ser muito cínico – para não lhe chamar outra coisa mais apropriada e consentânea ao momento histórico que atravessamos –, para esbanjar mais de 300 mil € numa missa, por sinal bem menos atractiva do que as do padre Borga e sem qualquer perspectiva de milagre em vista, ou sem este estar claramente agendado (e garantido) no programa do evento, a não ser daqueles que logicamente derivam da dança da chuva, que já os pré-históricos peles-vermelhas praticavam, exactamente num momento em que a chuva é de todas as coisas a que nos sobra e não nos faz falta absolutamente para nada, nem para encher o Alqueva que já está a transbordar pròs Guadianas da nossa secura, mas pelo contrário, apenas nos vai fazer apodrecer mais os nabos, sujeitos esses que se encontram presentemente aboborados e adormecidos no lodo dos dias, graças, se calhar, à modorra orçamental sob o anticiclone do PEC nacional, coisa que promete para os próximos quatro anos, embora tenhamos que resignar-nos a tê-lo como a Alcina Lameiro tem o plano astrológico, cujos vaticínios dos seus signos orientam mas não determinam, isto é, não servem, nem têm préstimo absolutamente para nada, ou ao negócio das visitas presidenciais típicas e sintomáticas de uma campanha eleitoral, não só evidente como exagerada por essas Andorras fora da nossa portugalidade, dando uma amostra internacional daquilo que por cá se passa, fazendo batota de campanha eleitoral, dando já os primeiros passos com fotografias de família à mocidade portuguesa, com meninos e meninas a abanar a bandeirinha, inda'ssim não venha algum pateta alegre disposto a abichar o voto dos portugas que andam lá por fora a disseminar a lusitanidade.
Ora, se atentarmos nos últimos acontecimentos da política patriótica, este PEC, independentemente do diálogo – agora chamam isto à discussão! – que possa suscitar aos partidos e parceiros sociais, sob o fito de o pôr em prática, é tão bom, mas tão bom, que até o PSD é metade a favor, metade contra: pelo lado da estabilidade, acha um exagero, e pelo do crescimento, nem lho nota – o que é caso para dizer, que com PEC's deste quilate o Sócrates não precisa de inimigos para coisa nenhuma, porquanto as linhas mestras kamikaze, não só cortarão 11 milhões de € na despesa, como rebentarão com a economia nacional, incluindo a hipótese de descolarmos do fundo da tabela no campeonato do desenvolvimento europeu, de tal forma, que no relatório/plano da saúde nacional, se na física ainda estamos dentro da validade, na saúde mental estamos pior que em 2005, em que consoante a taxa de suicídio, depressão, morbilidade e estuporice, já estávamos com os pés prà cova há muito tempo, cujas origens remontam ao D. Fernando de tão triste e vã memória.
Enfim, a única certeza de recuperação das contas do Estado, em termos de combate ao défice, é aquela que qualquer velhote com as calças na mão e à rasca com contabilidade doméstica faria: venderia/privatizava os amarelos para pagar/reduzir os Juros/encargos com a dívida– isto é, os seguros da CGD, a REN, a EDP, a GALP, a TAP, etc., e tudo o mais que alguém quisesse comprar, e só não meteria no pacote a própria esposa, porque enviuvara há muito. Para mais, ao novo Aeroporto, precisamente na altura em que o tráfego aéreo está a dar o peido-mestre, não só pelas questões dos combustíveis e catástrofes ambientais, derivadas do aquecimento global versus alterações climáticas, mas também porque é um risco de lesa nacionalidade ter aeroportos intercontinentais tão próximos de uma capital de país macrocéfalo, como é o nosso, é dada luz verde – salvo seja, que na realidade é mesmo anti-verde –, para a sua construção. O que, se houvesse um Instituto da Sustentabilidade em Portugal, por si só, eram duas razões mais que suficientes para chumbar o PEC; mas não há, sobretudo, porque os portugueses continuam a existir à margem das responsabilidades sociais e cognitivas, em alegres carnavalidades do depois de nós o dilúvio, cumprindo, e dando continuidade, cada partido no poder, à política da terra queimada que o anterior começara, para evitar que a subida das águas oceânicas nos submirjam, pois deixaremos de existir muito antes desse colapso natural.
O que é pena, visto haver até portugueses que vão tendo e criando filhos, como se eles tivessem acesa a esperança de vir a fazer o mesmo, dando futuro a outras tantas gerações, como as que sucederam dos berçários de Guimarães, que os afonsinos amamentaram e embalaram tão corajosamente contra guerras e perigos esforçados. Nenhum PEC devia dar passos maiores que as pernas, coisa que este não reconhece, estando muito aquém da simplicidade aconselhada neste tipo de documentos fundamentais à governação (e à legislatura). Se apresenta linhas, estão difusas e enleadas; se pretende soluções, apenas agrava problemas. Logo, em vez de esperança, entoa o Adeus, até depois do apaniguado e nacional cancionetismo de sempre, das despedidas com muitos e babosos beijinhos... num KISS, KISS, bastante católico, de dar missas e ministrar cultos por 300 mil €, como se todos estivéssemos a nadar em fartura, apenas porque o Papa resolveu fazer turismo pelo Mar da Palha. Ou, se calhar, a congregação católica já conhecia desde há muito o PEC que saiu só ontem, e quis antecipá-lo ilustrando-o com os seus eventos... é um ideia!
Portanto, KISS, KISS, para ambos... (De Keep it simple, stupid!, não confundam.)

3.05.2010

Até aos Intés da Alma (que nos contempla)

Tanto Gigélia Hirondina, quer eu, não havíamos planeado qualquer encontro. Demais a mais, estávamos nas férias do Natal. E, se durante as aulas era uma constante sem compromisso o vermo-nos (e ouvirmo-nos), em Casal Parado, ou nos transportes públicos, quando regressávamos no autocarro da Câmara Municipal que presta serviço à cultura e transbordo de estudantes no concelho, naquela manhã de Dezembro, que nem parecia do recém-nascido Inverno, dado o tempo primaveril que se fazia sentir, nenhum de nós pressentia ou sequer imaginava que iríamos ver-nos, assim, frente a frente, com um daqueles sorrisos felizes que tudo prometem e oferecem dobrado com expoente dez: mas foi o que sucedeu. Às onze horas, exactamente onze horas, sem mais coisa, menos coisa, e ninguém na rua que pudesse reparar em nós.
Saído da Av. dos Serafins, eu descia a Rua da Igreja, que ela subia, de saco de plástico amarelo do supermercado com mercearias, produtos alimentares em conserva ou outros empacotados para igual fim, na mão esquerda, enquanto com a destra, polegar e indicador em pinça, puxava e esticava a pastilha elástica cuja extremidade prendia com os dentes. Antes de nos cruzarmos, parámo-nos, estancámo-nos, a dois palmos de distância, defronte para a porta lateral da igreja, que por sinal se encontrava aberta, mas de onde não soava qualquer ruído ou vestígios de presença humana (ou sequer divina, não obstante a proximidade do local de culto que emprestava o seu nome à rua). Cuspiu a pastilha, deixando-a pendular por instantes, e jogou-a para o meio da rua com um piparote. Sorrimos. A presença dela preenchia-me duma vitalidade surpreendentemente excelsa em sensualidade e confiança. Mas a ela, bastante mais nova do que eu, pois fizera dezasseis anos no 14 de Novembro p.p., data de elevado expoente cabalístico – 14.11.2016 –, enquanto eu navegava já pelos trinta de cavado alto mar, a minha aparição desencadeara outros sintomas (fraqueza nas pernas, esvaimento, perda de equilíbrio, tropeçar nas falas, necessidade impulsiva e imperiosa de me tocar, salivar constante, intenso suar de mãos e tremura nos gestos), pese embora que a doença fosse a mesma.
E porque estava linda, disse-lho, enquanto em simultâneo recitava no íntimo, com palavras mudas, o poema A CERTEZA DO AMOR, espécie de oração em verso que nunca deve ser dito, nem recitado, na presença de terceiros, posto que a voz alta lhe mata e retira todos os sortilégios:

“ Tu não precisas de mim
Nem eu preciso de ti.
Eu não sou a tua aspirina
Nem tu és a minha.
Tu não existes para me absolver das culpas,
Nem eu para resolver os teus problemas.
Nenhum de nós é a poção mágica
Soluto eficaz para as mágoas
Ou satisfação das necessidades do outro.
Nem das carências. Ou da solidão.
Tampouco ao equilíbrio ou a auto-estima.


Mas quando falamos de tesão,
Autêntica, de explodir até ao fim do mundo,
Então, tudo se complica;
E aí, penso,
Ninguém ma dá como tu.”


«Estás maravilhosa, Gigélia. Deslumbrante. Arrebatadora!...» O que simplesmente era a verdade. Pura, diga-se. E incontestável.
Por consequência, reanimou o riso, estendendo-me a mão livre, que tomei entre as minhas e beijei, a fim de melhor sentir o sedoso morno de sua pele clara. E o que lhe dissera alcançara o peso do universo, numa irrefutável evidência – aliás óbvia, pois nunca menti a qualquer mulher ou rapariga, mesmo àquelas que se têm em cota de baixa consideração e auto-estima, ou na opinião, quer própria, quer pública, arbitrariamente se acham pouco atraentes e até feias; porque sempre disse o que sentia ao senti-lo e sob o efeito directo desse sentimento, que é a ternura que cada uma me inspirou. Foi alvo e veículo. E transmitiu. E irradiou.
Nisto ouvimos um "rugido Famel" de motor de motorizada a trabalhar, que, traduzido em esforço e aceleração, tudo indicava vir a subir na nossa direcção, proveniente da Estrada do Cemitério. Só que antes de ela aparecer na curva que antecede o cruzamento, já nós tínhamos entrado na igreja. Quando passou à porta, estávamos-lhe dentro e por detrás, juntinhos, acariciando-nos mutua e lentamente, os dedos a viajar esquecidos entre poros e polpas, embora a ânsia de nos tocarmos crescesse na multiplicada provocação do desespero. Para lá da porta ficaram todas as inibições que nos haviam contido, e mantido afastados durante os anteriores dois meses e meio de aulas, em que fôramos construindo o suplício da atracção: a diferença de idade e de estatuto, a moral, o pressuposto social, o respeito pela família, o medo das adivinhações e pensamentos alheios, ou os desencontros de horário. Mas ali éramos apenas os dois e Deus – que nem convocado fora, ou de presença líquida; e nada além tinha importância ou contava para nós, excepto nós mesmos, na parte de cada um por cada qual.
Afastámo-nos sensivelmente. Apenas o suficiente para nos contemplarmos. Mutuamente gulosos. Os olhos de Gigélia eram o mundo todo numa versão de “Para Sempre”, à Vergílio, timbrado de verde-escuro (garrafa) com salpicos castanhos. Podia-se viajar neles como à tona de um sonho. Estendermo-nos, alongarmo-nos no veludo cromático de um tapete oriental. Quis que ela o soubesse. Portanto, beijei-a nas pálpebras achocolatadas de málvica macieza. Suspirou. Num exílio profundo, a emergir lá dos recônditos esquifes e enseadas onde o sangue batia ritmado, em pulsar libertador, depois da sobressaltada atitude que havíamos tomado, da intensidade da intenção condimentada pelo pulsar da expectativa.
Descansámos de nós. Éramos cavalos demasiado selvagens para nos submetermos às rédeas comuns, mas frágeis, dos preconceitos e falsos moralismos. Alheios à hipocrisia do pudor e do pecado. Aliás, resolvidos, pelo salto instantâneo e inconsciente dos degraus que dão acesso ao local de culto, numa dobragem das tormentas pelo acabar dos limites.
E exactamente ali decidimos que tínhamos todo o tempo (e solidão) do cosmos, mais que bastos, e suficientes, para deixarmos fluir a vida dentro de nós à procura de si própria. Somos-lhe a estratégia superlativa, perfeita e completa, e complexa, sem sombra de método, indubitavelmente. Pelo menos tanto quanto o foram os nossos progenitores. E essa era uma certeza que conquistávamos por cada minuto somado ao desejo em ebulição. Pronto à erupção, ao eclodir. Sem pejo, nem sobressalto.
Os anéis castanhos laivados a ouro dos cabelos, desciam-lhe ao pescoço, emoldurando as faces róseas, os olhos oblíquos, o pequeno nariz de ponta arrebitada, os lábios de desenho assimétrico, mas carnudos ambos, de viva, polposa e cárnea cor. Estava celestial e magnífica, sem esquecer quanto da sorridente alvura de convergir no para lá do lá dos secretos mistérios do corpo que a alma não hesita em seguir e continuar, lhe emprestava um áureo esplendor (brilho), na luminosidade vítrea que emanava, da luz, muito mais do que dela recebia. A consciência bárbara de um céltico culto, na ritual profanação dos rígidos moldes dessa mais recente ancestralidade, a moral familiar cristã, sem nada de enigmático e imaculado das figuras medievais, mas o corpo em plenitude, que é a massa de que é feito tudo quanto é deveras sagrado, e audaz se insurge contra os limites, conquistando novos significados.
Depois daquela fuga para dentro, vagueámos na igreja, mãos dadas, o saco amarelo abandonado no desvão da porta. E vimos sem ver os quadros em cópia barata de obras famosas, a talha dourada do altar, as vestes exóticas das imagens, representando mulheres e homens canonizados, em celebração da misoginia, os cortinados de veludo grená pesados e opulentos, em seu ondulado de ostentação, numa retenção de desafio, de medida, de procura, ao quanto éramos capazes de esperar. De prolongar o instante, de estender o tempo, fazer dele um naco de matéria tão elástico e moldável como o barro de nossos corpos. Argila de conseguir figuras ao custo da esperança, qual hipoteca do aqui e agora, num vasto painel suportado pela certeza de que seria assim que enfrentaríamos a eternidade se acaso fôssemos a ela condenados. Porque a eternidade é a única tragédia a que o ser humano ainda não está sujeito, sendo nos filhos que descarregou o fardo desse anseio, numa garantia de perenizar a vida sem o oneroso tributo da libertação ao medo da morte.
Perante o encargo, ajoelhámos ambos sob o altar. Mas não para rezar ou proferir preces; tampouco no lado a lado de quem espera uma benção. Frente a frente, contemplando-nos em adoração secreta, apenas denunciada pelo olhar que irrequietamente insistia em sorrir, em procurar-se, em tocar-se através de feixes intencionalmente imateriais.
Por fora, o trânsito, esporadicamente vinha lembrar-nos que o mundo não acabava ali, onde começávamos e terminávamos, num todo completo pelos géneros do cosmos. Mas éramos indiferentes à lembrança, não lhe reconhecendo valor além do de um ruído de fundo, incómodo, em frequência mal sintonizada. Porque, como sabemos, a abstracção não é abstracta. Nunca o foi, nem nunca o poderá vir a ser. É uma presença que insiste para lá da irrealidade (física), a consumar a indiferença ao momento, tripudiando do instante precisamente como ele o faz, na fotografia, ao movimento.
Foi então que ouvimos passos próximos da porta por onde entráramos. Mas, em vez de nos levantarmos, ou aprestarmo-nos a sair do local onde nos encontrávamos, baixámo-nos, protegendo-nos com a mesa atoalhada dos ofícios, escondendo-nos e tornando-nos invisíveis para quem entrasse. Era a serviçal da limpeza, a mulher do sacristão, talvez, a chocalhar as chaves no bolso da bata preta, que, depois de levantar o balde com a esfregona à porta da sacristia, saiu levando-o e fechando a dita de seguida com duas voltas da chave, que nos soaram ao coração como um engrenado resfolgar libertador. Descontraímo-nos. Ficáramos trancados dentro, o que ao contrário de nos aprisionar, antes nos libertou ainda mais do mundo exterior, e do receio de sermos ali surpreendidos. Nada nos impediria assim de concretizarmos em acto, o que anteriormente apenas tínhamos concebido em fantasia e imaginação. Até àquele dia... Que importa o espaço que o corpo de cada um habita, se é à alma que compete a totalidade na expressão irredutível da plenitude? Do fortalecimento do ser? Da execução do divino? Do prazer de profanar os limites? De os romper e reduzir à sua infinita mediocridade?...
Gigélia Hirondina era arrebatadora em seu despertar para o iniciático universo do corpo, que se usufrui, tanto quanto maior for a sua capacidade de entrega. As pernas longas, afastadas, o dorso em arco de desferir solicitude, os pulsos sustendo-me as ancas, as mãos vincadas nas nádegas atraindo-me, os braços flectidos de imprimir-me em si mesma, o ventre procurando-me cego, mas imperioso. A boca sofreguindo-me o pescoço, o queixo; a boca cuja língua soletrava seu hálito de sede e tumescência, repleta de contradição e dissolvência, em frescura morna de uma realidade só comparável ao sonho das polpas exóticas, quando se nos desfazem no palato em sua degustação (atenta e aturada).
A tarde iniciava a cumprir-se. Ao sol que fora subindo ao cume do zénite, não tardaria a aliviar o esforço e começar a descida, qual roda de fogo em marcha travada sobre a linha imaginária do horizonte, procurando seu nadir de reclusão. Mas não sem que antes lançasse os seus raios multicolores sobre a penumbra do altar, através do vidro recortado do vitral na janela gótica da arcada, lá no alto onde ninguém encostaria os cotovelos por ter sido feita como um celestial varandim, onde somente seria permitido descansar o olhar. O que, para quem se sabe não ser o “único a olhar o céu”, estas palavras têm muito mais plenitude e sentido que simples e soletrados sons.
Sabíamos que a qualquer momento podia voltar a mulher da limpeza, mas nem assim receámos o quer que fosse, desde o sermos surpreendidos à falta de tempo. O importante é que estávamos juntos, unidos por uma força invisível e omnipotente que nos atraía cada vez mais e mais e mais para perto de nós, e obrigava a que nos tocássemos mutuamente, ao procurarmos em nós o outro lado de nós, a certeza sem esperança, nem hipotecas de tempo e de vida; que é na ausência das suas noções e consciências que se consolidam. É quando menos notamos a sua existência que ele mais rápido passa, o tempo (e ela, a vida). É a sua intensidade que no-la devolve em inconsciência. E ousadia. Que, enfim, a torna tanto mais fugaz, quanto maior nela é essa/sua audácia.
Esquecermo-nos dele era esquecermo-nos de nós; no entanto, a cada segundo que passava, contabilizado pela pele que se toca e percorre, era transformado, por uma multiplicação do desejo, na aspiração de outro segundo e ao dobro da mesma cútis. E a de Gigélia Hirondina é seda morna, macia e quente, rósea fermente de pronunciar êxtase e liberdade. Quem domina o grito que nos esvai? Quem o sabe proferir? Quem pode dizer que o veludo olímpico não tenha sido copiado da sua glória e textura? Quem?
Sob a ganga das calças sinto-lhe as pernas secas, mas esguias, musculadas, compridas, resistentes, e as nádegas firmes, de bochechas alçadas, a afastarem-se ao contacto das minhas mãos, autorizando aos dedos o aflorarem o seu Vale do Nilo, do ânus à púbis. O seu gesto é de entrega, mas as suas mãos procuram em mim o conforto da posse que nunca antes havia desfrutado. Enquanto que com a esquerda me percorre o dorso, comprimindo-me, atraindo-me para si, a direita arrebata-me o sexo repleto e pulsante, fulguroso porém contido e congestionado, que o aperto da ganga não conseguia desmoralizar. É de buscar-mo que o toma, primeiro tacteante e indecisa, mas ganhando pouco a pouco confiança, subtileza, sofreguidão e carícia.
Afasto-me dela, desabotoo as calças – raramente uso cuecas, que me enguiçam os apetites e apetrechos!... – e permito que ela tenha uma visão geral do órgão em que toca, testículos, pintelhos e ancas, e saiba como se afina, ou o que as carícias nele provocam e em mim.
«É tão feérico e irascível...», murmura ela, desmentindo as minhas suspeitas quanto à sua fraca funcionalidade e pequenez, evidenciando o temor (infundado), com que a inexperiência costuma sobrecarregar o fardo das comparações.
Digo-lhe que não, que é simplesmente a percepção primária que provoca essa sensação. Que foi o facto de o não ter visto em pequeno, flácido, ou de não ter assistido ao seu tumescimento e maioridade, mas sim de o confrontar logo entesado pela primeira vez que o contacta e vê, que lhe inspira essa impressão. Que nada receie, conforto-a. Na sua mão a derme é macia, dedos curtos, unhas rentes e palma de gomos cheios. Beijo-a sôfrego, ainda mais intensamente na boca, nas faces, por detrás das orelhas, no pescoço, nos ombros de que lhe arredo a camisa de flanela, ao desabotoar-lha. No peito, entre os seios cónicos, de mamilos medalhudos achocolatados a culminarem nas pontas polposas, bicos fremitantes, a que, entrementes lhe sugo o esquerdo massajo igualmente o direito, com os pomos dos dedos húmidos de saliva recente, e vice-versa. Gigélia dobra-se para trás, desfraldando a camisa axadrezada, e desabotoando as calças, correndo ela própria o fecho éclair. Não usa soutien-gorge, mas tem postas umas cuequinhas brancas de algodão fofo, que reconfortam o tacto só de vê-las, como macios são também os encaracolados dourado-escuro dos pêlos púbicos. Desço-lhas, acariciando-a entrepernas, meigamente, demorada e calmamente, entreabrindo-lhe os lábios exteriores, friccionando-lhe o clitóris curto e insignificante, com a mão livre, enquanto com a língua lhe percorro, em círculos, numa espiral, o abdómen desde o umbigo. Ergo-me e puxo-a comigo, para cima, sentando-a sobre a toalha rendada da mesa dos ofícios, com as coxas afastadas, as calças a descerem-lhe até aos tornozelos.
Desembaraço-a delas, e dos sapatos de ténis, ajoelhando-me sobre elas, afagando e beijando-lhe as pernas, que ela abre sobremaneira, libertas que foram da ganga das jeans. No vale de entre as coxas eleva-se-lhe a púbis, em papo de rola, qual grande plano de relevo cumeado por cordilheira dorsal no emaranhado de cabelinhos castanho-claro, encaracolados e sedosos, a que colo a boca, apartando-lhe os lábios com os meus lábios, e deixando a língua aveludar-se-lhe entre, saboreando o amariscado doce da sua liquefacção, ir ao clitóris e voltar, reiniciar o mesmo ciclo de gestos e retornar, numa cadeia repetitiva de constâncias. E imperiosidades. Com Gigélia a pousar-me ambas as mãos sobre a cabeça, os dedos riscando despenteados, comprimindo-me sempre mais entre as coxas que se lhe retesam, enleando-me, aprisionando-me nelas. As minhas percorrem-lhe o dorso, as costas, num abraço complicado. E mantenho a língua numa lambidela rítmica, até senti-la estremecer em subtis orgasmos, embora que concludentes, evidenciando estar para prestes o tsumanis espasmódico da libertação.
Então, faço-a descer da mesa e ajoelhar-se entre mim e ela, de costas voltadas. Suas nádegas alçadas, equinas, abertas, procuram-me o sexo, anichando-se-lhe em redor. E assim, em perigosa contenção, afasto-lhe ainda mais as pernas e deixo que o pénis endurecido avance até à vagina, que lhe rodeia a glande e ela massaja convictamente com mãos ansiosas. Quanto a mim refreio as pressas e acaricio-lhe os seios, simultaneamente a beijo por baixo da nuca, coluna vertebral e ombros, até ela começar a contorcer-se, em convulsões espasmódicas, intentando cravar-se-me no sexo, o ânus acariciado pelos meus pêlos encarapinhados. Eléctricos. E inesperada e surpreendetentemente úteis.
Noto que nem eu, nem ela, poderemos manter-nos sem que algo deveras importante aconteça. Saco a toalha rendada da mesa para o chão, Gigélia posta-se fronte de mim, deitando-se de costas sobre ela, e só então a penetro, primeiro apenas com a glande, mas depois longa, demorada e profundamente. Os olhos cerram-se-lhe, e as pernas encerram-me, atraindo-me e prendendo-me a si. Não há saudade nem distância que nos façam reflectir a irreversibilidade do caminho. Chegou a hora de procurar o fim do mundo, para nos despenharmos e precipitarmos nele. E quando finalmente desperto duma explosão cósmica em que a arrastei comigo, ela sorriu-me, num esgar de plenitude e alegria como nunca antes lhe tinha visto. Beijámo-nos novamente, e ela virou-se de repente, pondo-se de costas para mim, deitando-se ao comprido de barriga para baixo, mas de traseiro levemente erguido, enquanto com as duas mãos afastava as nádegas, descobrindo o ânus.
«Rasga-me. Magoa-me bem. Até ao fundo», pediu ela. No que se repetiu, implorando.
Obedeci-lhe como se fosse apenas corpo, fazendo-a gemer de dor e o tronco em convulsões de choro.
Violava-a. Mais pela violência do pedido, do que pelo comprometimento do acto. Então compreendi que se sacrificava, que se imolava, como se se quisesse punir pelo prazer que havia auferido anteriormente. Quando terminei, numa ejaculação esforçada e agressiva, beijei-lhe os olhos e bebi-lhe as lágrimas, sem que pronunciássemos qualquer palavra. O sol punha-se, e já mal nos víamos na penumbra crepuscular.
Procurámos, na sacristia, uma janela que fosse suficientemente baixa para podermos saltar sem nos aleijarmos, depois de nos vestirmos.
Saiu primeiro, e atirei-lhe o saco. Saltei em seguida e despedimo-nos, na rua, como se nos tivéssemos acabado de encontrar vindos dos mandados, ao cruzamento das ruas (a da Igreja com a de S. Vicente) com a Estrada do Cemitério, num simples e mútuo
«Inté!...»
seguindo cada um seu rumo, sem uma promessa, sem um contrato, sem nenhuma obrigação de nos voltarmos a ver, ou sentir que devíamos manifestar esse querer embora não estivesse previsto.
Entre outras, era ao futuro que competia essa estipulação, se é que ele existe ou existirá, qual amanhã que se faz ontem... E à vida, que é quem mais manda e impera nestas andanças, que se não lhe são próprias e exclusivas, é somente porque o diabo se mete de permeio. Por incomuns que nos pareçam... Sobretudo porque em Casal Parado o quotidiano é tão imóvel, atarraxado, tão estagnado e pantanoso, que a criação o tem por caldo próprio, onde tudo pode acontecer, desde que ao momento seja dado estar atento, espiando a oportunidade que o procura, e que, enfim, foi quanto nessa tarde apenas sucedeu!
















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