La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.17.2011

Conto da Semana - Os Cêntimos Contados

Tudo Por Uns Trocos

“A ocupação de poeta
É nobre por natureza;
Mas todo o ofício tem ossos,
E os deste são a pobreza.”

Nicolau Tolentino, 1740-1811
Arrumadas as compras no porta-bagagem, apressei-me a sentar-me no lugar do morto, de copiloto na navegação em melhores horas, do pendura ou daquele que à boleia se aventura, mas que ao instante, a primeira função assentava na perfeição, dado que me sentia, à vontade e por defeito no arredondamento, dez furos abaixo de jumento em vias de virar cadáver putrefacto.
«Estás tão macambúzio, porquê… O que é que se passa?», quiseste saber mal nos instalámos no carro, enquanto tua mãe foi estacionar o carrinho das compras entre as baias para o efeito, e recuperar os 0,50€ com que eu entrara para o respetivo frete.
«Não se passa absolutamente nada.»
«Nada?!?», estranhou Shara através do teu sorriso matreiro de gozada expressão ou de circunspecta diversão.
«Pronto» consenti eu, elucidando a jovem inquisidora em que te transformaras momentaneamente. «É que ali a senhora», e apontei para tua mãe que vinha na nossa direção, «também já ganhou a mania, de me chamar de Joaquim Maria!»
«Eh, pá! Então, a coisa foi grave: mas o que é que tu fizeste desta vez??»
«Nada, já disse» uma vez que a tua teimosia é um baluarte, sobretudo quando se trata de arrancar-me respostas indizíveis sobre questões inconfessáveis, e volto agora a repeti-lo para que conste publicamente a natureza do meu martírio e os contornos de tortura pidesca que o enquadram. «Absolutamente nada», mas tu não ficaste pelos ajustes, e logo que D. Catarina se acomodou no banco traseiro, eis que a inquiriste sobre as modalidades de convívio com ela na tua ausência.
«Vá minha mãe, conte lá, que tal lhe decorreu a tarde pelo estabelecimento da sua predileção… Aqui o freguês, portou-se bem?»
«Oh, claro, claro. Aí o pendura, portou-se à altura.»
«À altura?!?», indignei-me defendendo a geração, porém à rasca verifiquei, que a maioria vigente não ligou a mínima atenção à manifestação de protesto com que as brindei.
«Sim, à altura… Das funções. Fez-me muito boa companhia, como qualquer Joaquim Maria»
«Faria», aproveitaste tu, para reforçar a rima, ainda assim não caísse ela em soneto mal escondido e com as sílabas ao léu.
Eu suei, nesse entrementes, que nem um Cristo na subida ao Calvário da Paixão e da Agonia, qual Senhor dos Passos com afrontamentos de andropausa, procurando a todo o custo outro rumo prà conversa que tinha enveredado pelo pior dos piores atalhos nas azinhagas existenciais. Até fiz ouvidos de mercador. Colei os mirantes à risca do centro da estrada e contei carros amarelos, azuis e vermelhos, todavia sem nenhum resultado na abstração, considerando que passavam em vertigem e dado me esquecer da cor de cada um no imediato à sua passagem, cruzando-se connosco nesta viagem de ida (e volta atormentada) ao hipermercado das conduções entre o labirinto das iguarias e demais substâncias nutritivas, calóricas e com 10% de desconto, consumindo-me os tutanos e a paciência, coisa que não afectou minimamente as duas, mãe e filha, que se conheciam há tanto tempo que uma nem precisava de dizer mata para a outra esfolar imediatamente e sem quaisquer contemplações.
Entretanto arquitetei um plano de recuperar a autoestima e galhardia. Não trazia grandes garantias de sucesso, porém estava à mão e, se não me facilitasse um ascendente racional sobre elas, pelo menos, oferecia uma hipótese de ganhar tempo para melhores estratégias na luta pela recompostura face à descompostura sofrida. «Ah, D. Catarina… Não se está a esquecer de nada, pois não? A moedinha do carrinho quem a investiu fui eu… Pode ficar com os juros, mas devolva-me o investimento, se faz favor. Ou será que anda a treinar para administradora do BPN?»
«Não, não esqueci. Só que esta moeda faz-me falta. E ela» apontou para a condutora, «lá em casa, dá-te os cinquenta cêntimos. E os juros!»
«Ai, pois dou. Está descansado. Temos que pôr as contas em dia…»
Mau! A minha alma encarquilhou-se de consternado temor e mau-pressentimento. Apalpei a testa e pareceu-me deveras quente, com sintomas de febre. Estaria a chocar alguma gripinha manhosa? O povo inventou essa de um mal nunca vir só, mas sendo eu povo como sou, desconfio das invenções por defeito, pois que, desde manhã até ao fim da tarde unicamente me aconteceram desgraças.
Portanto, assolapei-me. O trânsito, pelas horas que eram, demonstrava o frenesim típico do fim de um dia de trabalho, embora o tráfego fluísse com desenvoltura e sem contratempos, nem precisão de manobras perigosas ou desvios suplementares. E como a distância entre a casa de Shara e o hipermercado rondava o par de quilómetros, a viagem resumiu-se apenas a alguns minutos de cu tremido, sobretudo na Estrada da Ponte, onde os paralelos formam socalcos notórios e uma trepidação constante. Mas finalmente aportámos, termo aliás exato, uma vez que tu estacionaste precisamente em frente à portas de casa, isto é, no nº 32 da Rua da Igreja, paredes meias com o Tonel Bar, que é a melhor tasca de Casal Parado, terra de tradição tasqueira, e localidade onde tudo acontece daquilo que não sucede em nenhum outro lugar (nacional ou estrangeiro). Porque não querem, ou porque não podem, essa será outra questão que não é prà’qui chamada.
No transporte dos produtos do carro para casa cruzámo-nos os três diversas vezes com o vaivém, sem que nenhum pormenor de monta mereça ser contado, excepto quando me lamentei acerca do fato, de quer uma, como a outra, deixarem sempre os sacos mais pesados para mim, lamento esse que D. Catarina ouviu muito bem, aproveitando a ocasião para renovar as suas suspeitas quanto à maneira com que costumas tratar-me das frescuras, aconselhando-me «’tá com essas lamúrias, ‘tá, que se ela ouve, arranjas a fresca!», o que resultou de pleno, porquanto durante o resto do acarreto jamais abri o bico, nem sequer para bafejar as mãos que esfriaram no balanço.
Porém, o petisco já estava ao lume de há muito, brandamente congeminado pela tua cabecinha maquiavélica e maléfica, e não tive que esperar “demasiado” para que me fosse servido com esmero e requintadamente.
«Mãezinha, arrume isto como só você sabe, que aqui apenas atrapalhamos, e nós vamos para a sala conferir as faturas, ok?»
«Vai lá, vai lá, que isto agora, até ao jantar, ainda demora na arrumação. Esta vida é mesmo um tirar e pôr… Foi primeiro das prateleiras prò carrinho, do carrinho prò carro, do carro prà cozinha, e agora da cozinha para os armários e estantes. Nestes dias pareço uma fiel… de armazém!»
Fomos. Quer dizer, ela foi para a sala, e levou-me a reboque. Ainda tentei resistir, mas para não agravar o contencioso, fi-lo com pouco convicção e sem empenho na refrega. Sentámo-nos à mesa redonda, tu puseste o porta-moedas entre os dois, com a mão direita sobre ele, como se estivesses a jurar sobre a Bíblia, e começaste a prédica mais arrevesada que alguma vez te ouvi: «Meu menino», conforme a tua fórmula habitual para os puxões de orelhas, «meu menino, a minha amiga X9», e aqui confesso ter retirado ao discurso dela o nome próprio que mencionou, apenas para salvaguarda dessa pessoa, diga-se a propósito «veio contar-me, que uma amiga dela lhe contou que lhe enviaste um soneto, por sinal muito expedito, escorreito e galhardo, onde lhe retratavas excelentemente o sorriso e as covinhas das faces – entre outros dotes “espirituais”. Foi obradura de qualidade e preceito a que ninguém pode botar defeito. Porém, uma coisa tinha já sido esclarecida e definida entre nós: que tinham findado os sonetos. O que tu prometeste fazer, com evidente relutância, é óbvio, mas que te comprometeste a cumprir em nome da harmonia, salutar e agradável convivência entre nós. Esse conto que a minha amiga me contou, é só fantasia ou tem algum fundamento verídico?»
De sístole em diástole o meu sistema circulatório convulsionou-se confusamente, dando àquilo a que chamamos vulgarmente por ritmo de pulsação, uma espécie de tempestade sob controversos e contraditórios movimentos dos elementos naturais, com suores frios e quentes, que me invadiam avassaladoramente, e que me atirou num mar de aflições que nunca julguei possível existir, nem mesmo nas minhas deambulações literárias pelo géneros fantásticos do suspense e do terror, da aventura e do misticismo paranormal. Portanto, de tanto querer fugir dali o corpo colou-se à cadeira, a língua colou-se ao céu-da-boca e a vermelhidão facial, característica de uma pele em brasa, latiu que nem mil cães infernais num ardor demoníaco. E, claro, não respondi.
«Sim, que dizes?», insististe. E eu continuei de bico fechado.
«Ora, é verdade, não é? Quem cala consente.»
Filosofias!
E reiterou: «Mas considerando que foi uma obra bem esgalhada, vou abrir a exceção que se impõe. Em vez do castigo que mereces, vou antes brindar-te com um pequeno tesouro, que não duvido estimarás, amealhando-o para piores dias. Aqui tens – e porque é de um soneto que falamos, passo a especificar o valor de estrofe na estrutura: pela primeira quadra, 15 cêntimos, em moedinhas de um cêntimo cada; pela segunda quadra, outros 15 cêntimos, sendo seis moedinhas de dois cêntimos, e as restantes três de um cêntimo cada; pelo primeiro terceto, quatro moedas de dois cêntimos e duas de um; e finalmente, porque a melhor das estrofes é indubitavelmente o segundo terceto, como que a fechar com chave de ouro, que neste caso é níquel de primeiríssima qualidade, cinco moedas de dois cêntimos. No todo, perfaz exatamente os 50 cêntimos que a minha mãe te devia. E agora, mais estes três cêntimos de juros pelo investimento que fizestes. Satisfeito com o conto das contas? Hum?!?»
A contabilidade tinha água no bico, disso não me restava a menor dúvida. Peguei nas moedas sem levantar ondas, e enfiei-as no bolso. Punhada a punhada, a farpela ficava-me cada vez mais pesada. A minha faceta petrarquiana tinha sofrido forte abalo, e reconheci como é dolorosa a incompreensão da arte e dos artistas. Até as pessoas mais chegadas a tratam com desprezo. Todavia, o pior mesmo, foi o ter consciência, que catorze versos não valiam mais que 6% de €, o que vistas as condições e os juros sobre a venda da dívida portuguesa, ainda lhe ficam muito aquém. É como um fado camoniano – nenhum engenho e arte vai além da Taprobana por mais esforçados que os poetas da portugalidade sejam, ou perigos e guerras que atravessem. E a história repetia-se, enfim…
Tanto mar, tantos mundos ao mundo, ao desbarato de três tostões. O que equivale a dizer, tanta sílaba soletrada, tanta métrica perfeita, tanta música perdida… e tudo, só por uns trocados!

3.12.2011

Conto de Amanhã, dia 13, dia da Estrela

A Pequena Estrela (cor-de-rosa)

“Em nada à verdade falto,
A dor me aviva a memória;
E, por não entrar de salto,
Deixai, Senhor, que esta história
Tome o fio de mais alto.”

In Memorial a Sua Alteza, de Nicolau Tolentino

“A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.”

In Voz e Aroma, Folhas Caídas, de Almeida Garrett


Estamos disponíveis para nós mesmos se aos demais convocamos como desejáveis, preferidos e imprescindíveis. Até insubstituíveis. Nenhuma pessoa é como outra pessoa. Há algo que identifica aquela pessoa como favorita se lhe conhecemos o pormenor ínfimo que a diferencia da multidão de aqueloutras iguais a si, sem destrinça de cor ou feitio, fala ou cultura, costumes e trajes, princípios e atitude social, pessoal ou ideológica. A preferência dissolve-se e multiplica-nos depois como desejados e… inevitáveis à vida de quem assim nos rotulou. Marcou. Inventou. Assumiu. E acolheu.
Mas não é fácil sê-lo. Principalmente quando nos nomeiam soletrando o nome de alto a baixo, vincando cada sílaba como se estivessem a bater sola de ruim defunto. E D. Catarina fê-lo pelo menos quatro vezes, que foram as que mais “doeram”. A primeira, foi na sequência de me ter incumbido de escolher os pimentos. Fi-lo com galhardia e desenvoltura. Alegre e contente, cantando e rindo. Três exemplares escorreitos, imaculados de um verde não muito carregado, elegantes no porte e esguios no formato. E foi um queres vê-la a matraquear-me o juízo com «mas que é isto, Joaquim Maria?! Pedi-te pimentos e tu trazes-me palmilhas de pantufa quase transparentes que nem um cortinado de pilheira? Anda cá, a ver se aprendes!»
Eu fui, sob protesto mas fui, que era para tanto que ali estava e a acompanhava. Afinal, D. Catarina era o general em campo da filha. E quando chegámos aos frescos enxuguei calado na audição da mestra.
«Vê bem: pega num pimento dos que escolheste, e agora neste. Qual a diferença?»
«No peso, na cor, até na forma… Este parece um cepo de vide, contorcido e atarracado. Pelo peso, como é maior, e isto paga-se a peso, também será mais caro. Pois» argumentei eu, para ela ficar ciente de que nisso do saber rústico e rural não me faltavam estudos – nem sentenças. Mas ela engalfinhou-se no «errado valdevinos! Este pimento está feito, está formado, logo tem todas as qualidades desenvolvidas, sabor, textura, sementes, odor, e começa a ganhar aquela pigmentação vermelha que lhe atesta a maturidade. Por conseguinte, dará o respetivo aroma e sabor
aos cozinhados, conforme se espera que faça. Compreendido?»
«Claro. Tem razão, eu precipitei-me na escolha, foi o que foi.»
«Ótimo. Então, agora traz aí umas laranjas.»
Fui-me a elas. Havia-as em barda, avulso e em caixas, daqui e dali, em sacos de rede, umas grandes e outras pequenas, com o laranja mais desbotado ou carregado, mas todas, sem exceção, que nisso primavam pela unanimidade, todas cor-de-laranja, ainda que algumas se aparentassem na vestimenta com limões azedos. Calculei que as mais em conta seriam umas, rechonchudas, redondas de fazer inveja ao pôr-do-sol, casca encorpada e volumosa, e meti no saco de plástico, à vontade, quatro/cinco quilitos delas, rumando depois à viatura das mercadorias, na qual tinha investido 0,50€ só para armar em cavalheiro perante a mãe da dama dos meus celtiberos enredos. E foi com notório júbilo que as empunhei no ar, antes de as acomodar no carrinho, exibindo-as à generalíssima pessoa, tentando recuperar o amor-próprio abalado na anterior demanda. E aí a coisa deu-se. Dona Catarina dos meus tormentos, pôs as mãos na cabeça como quem se aflige por algum flagelo incontornável e lamentou-se num rogo condoído às criaturas divinas mais propícias ao lugar:
«Meu Deus; mas o que é isso, Joaquim Maria? Isso são lá laranjas! Achas que vamos comer cascabulho à sobremesa? Achas?»
Era óbvio que não achava, porém se lho confessasse que adiantaria? Quando ela se põe a rogar às alturas que intercedam em compaixão e dó para lhe melhorar a sua vida nesta terra, não há como ficarmos desatendidos e desadmirados ou des-surpreendidos com a tamanha fé e devoção que ela coloca nas suas preces. A minha cara de orgulho, antes, desceu num ápice às profundidades da vergonha, cujo semblante ensombreceu como se uma nuvem negra e tempestuosa tivesse cruzado os tetos da grande superfície e ofuscado as lâmpadas fosforescentes que os habitam. Ainda atalhei «mas D. Catarina, que mal pode haver em frutinhas tão vistosas e desempenadas…?», contudo ela cortou-me o pio com «não há mas, nem meio mas. Isto não presta, e não vou permitir que se leve para casa, fruta inchada que passou sede na sua criação, tal e qual como a barriga dos meninos do terceiro mundo, que se tornam barrigudos à força da fome que sofreram. Percebido?»
Amuei, e nem respondi. Responder o quê? Ainda não tinha enxugado a cara da última
ensaboadela, ia logo de seguida arriscar-me a levar outra, por causa da resposta… Vai lá, vai!
Todavia, ela nem sequer notou o cuidado com que evitava demais agruras, e adiantou-se para as pedagogias levando-me a reboque que nem charrueco empanado. «Olha só: estas laranjas, têm muita casca, são airosas, mas não têm sumo nenhum. Já estas, vês, de casca fininha, pouco enrugada, como camisas agarradas ao corpo, são pesadas e, se forem doces, como suponho que sejam, serão bastante sumarentas, dando para comer gomo a gomo, como em sumo, para acompanhar as refeições… Vês a diferença?»
Vocês viram? Assim vi eu! Porém, não tugi nem mugi, que as sondagens não andavam lá muito abonatórias prò meu lado, ultimamente. Ainda me passou pela cabeça sublinhar o momento de carinho (idílio) familiar com o típico «obrigado, mamã» dos famosos óscares da cinefilia, contudo meti a viola no saco, temendo ser mal compreendido na gratidão e reconhecimento invocados. Deambulámos em par por entre estantes e prateleiras, na estiva da transferências de garrafas e enlatados prò veículo, ela fazendo reparos, eu ouvindo atento e compenetrado, sem novidade significativa.
Não obstante, a terceira nomeação não se fez rogada na demora. E foi dura. «Enquanto vou ali à carne, vai tu buscar o café, senão ela há de sair do serviço e nós com metade das compras por fazer. Ok?»
Fui. Escolhi seis embalagens do Delta Q, que é a máquina de serviço, tanto na casa dela como na minha, três Qalidus, intensidade máxima, e três Qharacter, com intensidade 9, imediatamente inferior à do Qalidus, e acondicionei-as junto às restantes mercearias. E quase recuperei o ânimo quando D. Catarina voltou, depositando os sacos com as carnes em sus sítio, como seria lógico que fizesse. Fomos ambos aos queijos, ovos e restantes lacticínios, sem a mínima altercação. Contudo, quando ela me explicava precisamente porque convinha levar mais latas de tomate cortado aos cubinhos do que em polpa ou somente pelados, eis que reparou nos cafés e pronto, deflagrou outro aceso discurso sobre o benefício da diversidade. «Joaquim Maria, para que é que queremos seis embalagens só de dois lotes e sabores? Não respondas, que eu sei bem porque é: porque é só desses que tu costumas beber. Esqueces, meu menino, que lá em casa não és só tu que bebes café, além do que nem somente bebemos café depois das refeições, e que durante a tarde ou as manhãs, com um biscoito ou bolachas, também molhamos o bico com este estimulante, sobretudo quando precisamos de arejar um pouco do que se está a fazer. E que nessas alturas, o conveniente, é baixarmos a intensidade à beberagem, nomeadamente para um aQtivus, Qonvictus, Qonvivium, e até um deQafeinatus, se preferirmos abster-nos de excitações contraproducentes. Se a grande vantagem deste tipo de máquinas está em podermos variar nas preferências porque é que vamos usar sempre o mesmo sabor, intensidade e aroma? Para isso tínhamos comprado uma máquina daquelas em que seja qual for o café que se mete no cachimbo sai sempre igual. Ou não?»
Não faço a mínima ideia da cara com que fiquei… Mas suponho que a terei contorcido numas quantas caretas de dor e sofrimento, consternação e angústia, bem esclarecedoras do tormento que se abatera sobre mim, porquanto a tua mãe se condoeu a pontos de me perguntar «estás bem? Estás doente? O que é que se passa contigo?» que me obrigou a descansá-la com o tradicional «não é nada. São só umas cólicas intestinais, se calhar causadas pelo almoço, em que abusei um pouquinho do tintol», fato plausível se atendermos às migas engolidas à pressão de copo repetidamente cheio pelos 14,5º de volume na velocidade do enquanto o diabo esfrega um olho.
E a coisa não tinha sido grave se não tivéssemos entrado no capítulo da portugalidade gastronómica. Coisa tradicional, o bacalhau, havia de me dar – finalmente – hipótese de brilhar. Havia mas não haveu, porque não deu! Eu conto: saído a salvo pelas ventas, salvo-seja: pelas expressões faciais, foi a vez de irmos ao peixe, incumbindo-me a excelsa senhora de entrar na fila do fiel amigo para nos aprovisionarmos do mesmo. Calhou-me, e eu esmerei-me. Fui-me ao mais caro, mais alto e de maior “copa”. Branquinho de pureza e salgadinho de quase fresco, ainda húmido. Estava já com ele na mão para entregar à empregada prò pesar e cortar em postas, quando D. Catarina me abordou com o «deixa ver, se vale a pena», e então o tsunami aconteceu. A pena virou vergasta e acertou-me no ego na máxima pujança. «Joaquim Maria, Joaquim Maria, então tu foste escolher a pior coisa que havia na banca? Tu não vês que vais pagar água e sal ao preço do bacalhau, e que este depois de cozido se esfiará como estopa para atacar cartuchos de bacamarte? Não vês que além de não estar curado é alto e depois leva dois dias, pelo menos, a dessalar cada posta? O bacalhau quer-se creme, seco, daquele que depois de cozido a posta se separará em lascas de gomosa espessura, saborosas e sem sal de assoprar nas tensões arteriais… Ok?»
Eu okezei de anuimento, disse que sim que entendia, mas tinha-me distraído com qualquer coiseca, fora o que fora, todavia ela suspirou um «ora, ´ta-se mesmo a ver que foi isso» de quem não acreditou nadinha nas desculpas, o que reiterou o combalimento de que ainda não recuperara. E implorei para que Shara aparecesse. Não ajoelhei implorando, mas pouco faltou. Até que as preces foram ouvidas e tu entraste no meu ângulo de visão, equipada a preceito com o teu gabão cor-de-rosa, a mala a tiracolo, as chaves do carro na mão esquerda, o dedo indicador direito sobre os lábios,
num gesto pensativo, reflexivo, atenteando entre as fileiras de produtos à nossa procura. Não resisti. Chamei-te a plenos pulmões. Era como se no firmamento das minhas preocupações tivesse surgido uma estrela anunciadora, uma Boa Nova de libertação entre os enlatados e a bruma que evoluía dos congelados.
«Olha, olha, estamos aqui!»
E estávamos. Pelo menos eu estava, reconhecido e grato pela aparição. Podias ser um cometa, algo que aparece e desaparece seguidamente, mas não eras. Eras um raio luminoso na minha esperança fortemente vergastada pelas circunstâncias intempestivas da experiência consumidora que se tornou saber.
Calado agradeci às profundidades da alma ter-te por perto. E ao beijar-te, na saudação de boas-vindas, demorei a respirar o odor do teu cabelo e o “aroma” do teu olhar de alegria. Em verdade, o ramo (familiar) agitado que tanto, durante toda a tarde, cantara era o de tua mãe, mas a felicidade que me preenchera no fim dela, esse, sim, era totalmente teu, e por mais que tivesse a ver com o seu canto, nunca perderia o encanto que há em reencontrar-te.
E essa seria a singela novidade que Shara haveria de ter em conta quando te contasse a partida que me pregara – através das tuas ordens e chefia. Porque, pese embora, eu estranhar quando me tratas por Joaquim Maria, tu tinhas dias que nunca o fazias, e semanas até sem recorreres ao citado nomeamento. O que já não se podia dizer de tua mãe, que numa só tarde, quer dizer: duas horitas dela, por tal me nomeara pelo menos quatro vezes, e de forma bem sublinhada na soletração.

3.10.2011

Conto para os dias úteis


Quando a Razão nos Observa

“E daí? – Daí, a história
Não deixou outra memória
Dessa noite de loucura,
De sedução, de prazer…
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.”

In Aquela Noite!, Folhas Caídas, de Almeida Garrett

13.
"Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
E vejo o que não vi nunca, nem cri
Que houvesse cá, recolhe-se a alma a si,
E vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho
E me quero afirmar se foi assi,
Pasmado e duvidoso do que vi,
M’espanto às vezes, outras m’envergonho;

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m’era mister tant’outr’ajuda,
De que me valerei, se a alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
E não me acode, e está cuidando em al,
Afronta o coração, a língua é muda."

Sá de Miranda – Coimbra, 1481 – S. Martinho de Carrazedo, 1558


A cada qual o seu suplício, mas não há ninguém a quem seja alheio (e desconhecido) o meu martírio: não tenho vontade, que não seja influência sua; sou falho de sentir felicidade, desde que não seja ela a contribuir e determinar a sua existência; e de onde quer que seja que Shara se omita, se desinteresse, eu aí, simplesmente, torno-me nulo e insignificante. Sem o mínimo brio ou talento para o mister em causa, falho de capacidades e competências nessa área (e funcionalidades). Se sofre, sofro; se alegre e contente, rejubilo de satisfação e contentamento. Uns, podem chamar-lhe vício e dependência, outros, até obsessão; contudo, reclamo e pergunto: se viver não é isto, então o que é? Há outra maneira de viver que melhor se coadune com a natureza (humana) e a vida? Vá, digam lá: há? Pois. Era o que eu pensava!
Quando sorris assim reconheço-a em ti, aberta e espontânea, sem enigmas nem cuidados supérfluos. As aspas laterais aos lábios, a alegria espelhada como um desafio que não queres ocultar, os olhos a romperem o castanho das lentes dos óculos de sol, como se estas não fossem capazes de conter e filtrar a intencionalidade brilhante das pupilas pertinazes e cintilantes. A testa marmorínea e ogival sob a franja de onda a enformar tubo, o pescoço esguio mas forte, confiante e de porcelana, onde a sombra dos cabelos caídos de corda húmida, rasgam o outeiro da paisagem alentejana amputando-lhe a solidão rupestre e ancestral. Era eu quem queria estar sempre do outro lado da objetiva a registar cada segundo, cada instante, em que ambas vivem numa só pessoa. E nisso, até dela sinto ciúmes, por poder ser-te como se em si mesma ela fosse tu própria. O segredo, todavia, é esta espera de vê-la assomar, emergir num insight, espreitar a realidade através das tuas ações, esgares, gestos, atitudes, e capturá-la se para tanto me permitirdes no abraço a sofreguidão imperiosa do indizível e inaudito, a vencer, a diluir a indiferença do socialmente correto. É a ventura e o milagre da síntese, ante a eclosão da circunstância ocasional. Diária. Desatenta. Frugal. Desprevenida. Sem pose estudada nem jogada intencional. Clic de detalhe que tudo altera, que apaga a escuridão dos momentos de tédio e os ilumina transformando-os no incontornável cintilar que suspende na surpresa que nos faz esquecermo-nos de nós, de agir, de respirar, de falar, de pestanejar, enfim, de ouvir o tempo a marcar-nos o ritmo da pulsação à desfilada. Scherzando sobre as páginas vertida e convertida em melaço com significado translúcido dos fios das linhas (e dos cabelos castanho-escuros) escritas em sinapses que crepitam (e faíscam) arrebatamento. Como sinais. E como hinos de condão.
Foi dessa forma que sorriste quando cheguei ao teu serviço. “Exatamente assim”, precisamente com a desentupida manifestação de quem vê confirmadas as expectativas criadas. E desmentidas quaisquer suspeitas ou contrariedades.
Por conseguinte, sob o descaramento inerente aos vitoriosos, declaraste que «sempre soube do prazer que sentes em cumprir o que te ordeno. Mas hoje caprichaste» também em sublinhá-lo, fazê-lo notado, pondo-o em relevo de comprovada verificação perante as tuas colegas de trabalho, para que registassem quiçá que o quanto afirmaras antes era apenas metade do que à realidade calhava verdadeiro. Os seus modos denunciaram-no, porém eu fiz-lhes vista grossa, e não afetei a mínima mossa, pelo contrário, ajudei à festa sentenciando mais uma palissada(1) de incontestável efeito nos humores gerais: «pudera. Tu também só me impões tarefas e obrigações que sugeri com manifesto entusiasmo, e sabes serem do meu agrado. Assim qualquer chefe é sempre obedecido, pois sabe escutar o coração dos seus súbditos, os mais profundos anseios dos seus vassalos. Voilá
Houve gargalhada geral. O êxito e reconhecido sucesso do relacionamento entre nós contagiou quantos e quantas estavam. Contagia sempre e inevitavelmente, porque somos capazes de brincar com o que nos é superiormente profundo e íntimo sem nunca nos trairmos ou condenarmos. Sabemos os defeitos – mentira: as particularidades sensíveis de cada um –, mas não os usamos como argumento de persuasão ou cavalo de batalha para garantir qualquer tipo de ascensão sobre o outro. Não jogamos os segredos como trunfos no relacionamento mútuo. Nem pomos na cara o quer que seja que tenhamos feito a pedido do outro. Fazemos o que fazemos pelo que é feito, não como estratégia de conseguir seja mais o que for.
«Então, e o Magalhães… Deixaste-o em casa? Parece mentira! Logo agora que estava a pensar em romper o noivado por adultério com ele, eis que preferiste a minha companhia à dele. Sinto-me defraudada», registaste tu, como rodapé copulativo à risada de todos os presentes, o que lhes renovou os ânimos e a chacota. A alfinetada deveu-se sobretudo ao fato de levar incondicionalmente comigo o portátil minorca a onde quer que me desloque, como se ele fosse – e que efetivamente é – uma extensão complementar do meu cérebro e braço. Porque é nele que escrevo e leio, ouço música e vejo filmes, crio e navego, pesquiso e comunico, via correio electrónico (e-mail) com os meus conterrâneos de afinidades comuns.
«Pois deves sentir, e com razão. Porque quando estou com a tua mãe, ao contrário de quando estou só contigo, nem lhe sinto a falta. É uma senhora com quem dá extraordinário prazer privar e conviver!»
«Ai, é!? Então ‘bora: vou-te acoplar a ela toda tarde, para saberes o que é bom prà tosse!»
«E eu ralado! Creio mesmo que é bem melhor do que ficar arrumado entre quatro paredes no convívio com uns quantos chatos que só falam no trabalho…»
Não obstante, fiquei por ali na contenda, já que a hora podia estar a requentar os tutanos, que estariam em fritura lenta desde as duas horas da tarde, somando portanto, 120 minutos de esturricação lenta, o que acarreta danos em qualquer córtex por mais inanimado que estivera. Logo, desandei a trote à tua frente, a romper caminho, antes que o caldo entornasse.
Normalmente a conjuntura é-me favorável quando cumpro a tarefa de substituir-te junto de D. Catarina. É uma situação cómoda, confortável, admito, não só por estar a fazer o que determinaras que eu devia fazer, como igualmente por ser algo que consolida o espírito de família que deve cimentar as relações entre pessoas que têm um projeto de vida em comum, e se veem como estratégia de uma ordem superior, a da vida, que nos escolhera para alcançar a eternidade. Ou podia ter escolhido, quem sabe!, independentemente da nossa apetência para tal.
Consequentemente, preparei-me para desfrutar ao máximo da companhia de tua mãe. E empenhei-me em proporcionar-lhe momentos agradáveis, se é que alguns podem existir, numa simples e ordinária ida ao hipermercado do burgo, empurrando um carrinho rangente e aramado entre filas e estantes carregadas com embalagens, cujos rótulos, se estivessem escritos em chinês, não significariam positivamente mais nada para mim. D. Catarina estava à porta, esperando, pelo que não perdemos tempo, dirigindo-nos à superfície comercial. Foi também a primeira a descer do carro, ficando nós a sós por escassos segundos, mas os suficientes para aconselhares: «acompanha-a e aprende, que há coisas que não vêm nos livros. Como saber discernir entre um peixe fresco e outro menos fresco, por exemplo. Um queijo apaladado, ainda que tenha um aspecto [menos] atrativo. E um cheiro incomum. E isso também nos vai fazer falta, quando ela cá não estiver, para o fazer por nós. Ok?»
«Certo», respondi, pese embora me tenha ficado a língua muda, perante uma razão que o coração nem sempre entende como suficiente, mas que nos observa diletante. E ela que além de nos ver, igualmente nos conserva… Como uma folha que nos defende da própria boca!

(1) Dito do género o morto estava outrora vivo, ainda não acontecido antes de acontecer, etc., coisa que derivou do facto deste general (Jaques de Chabanes, Senhor de La Palice) ter sido contemplado com uma canção de caserna depois de ter morrido gloriosamente na batalha de Pavia, na qual foi feito prisioneiro o rei Francisco I pelo imperador Carlos V: “Monsieur de La Palice est mort / Mort devant Pavie / Un quart d’heure avant / Il etait encore en vie.”

3.05.2011

Conto da Semana -- Entre os Rios, a Memória

Entressonhando nos Mundos Paralelos

“Teu nome, só para mim,
Sabendo-o conhecido de toda a gente […]


Sei-o de trás para diante
Anterior ou partindo do meio,
Repetido como refrão constante
Atreito ao brilho do diamante
Como às espigas do trigo e do centeio. “
In Joaquim Castanho, Nova Razão: Velha Aliança



Temos sete sentidos e não apenas cinco, como nos admoestaram no ensinamento da escolástica. Além da empatia e propriocepção, há os comuns cinco das sebentas: visão, tato, gosto, audição e cheiro. Normalmente, esquecemo-nos dos dois primeiros porque os temos como garantidos ou incómodos. A propriocepção que faculta levarmos o garfo à boca quando comemos um bom bife, em vez de o metermos nas orelhas ou nos olhos, por exemplo, que tal como o equilíbrio e o ar, só lhe notamos a existência quando lhes sentimos a falta, se os perdemos; e a empatia, ou reconhecimento do outro, apenas se o outro demonstra não nos reconhecer (como devia), pela via sinuosa do melindre e narcisismo frustrado ou, então, quando nos sucede algo cujo efeito minorámos aos demais, no trajeto natural de um arrependimento fora de prazo. Todavia, porque fiquei com umas contas pendentes contigo, alterei a ementa do almoço, dando-lhe aquele toque provinciano que te havia de torturar na digestão: prato único – migas de pão com costado e linguiça fritos, cenouras cozidas cortadas às rodelas em vinagre e sal, azeitonas retalhadas e cebolinhas em vinagre, vinho tinto (e aí o esmero agudizou-se, porque na parte da tarde irias trabalhar e darias pela pertinácia da graduação…) com 14,5 º, marca Monte Maior; por fruta, uma manga madura, bem cheirosa, de polpa aveludada e sumarenta; o café, imprescindível nestes momentos de vitória, de máxima intensidade, um Qalidus fumegante e vulcânico da Delta Q, a rematar com dois Bombons de Figo com Chocolate, para te contorcer de remorsos pela afronta que me dispensaras de manhã e a frieza com que te despediras na saída. E tudo isto a provar que nem sempre a melhor vingança se serve fria!
Shara havia de rubescer irada quando reconhecesse o valor calórico do almocinho, e de como ele se propunha a derrubar pela base a dieta de emagrecimento que se impusera para adelgaçar a silhueta. (Hhhuuuau!, cá se fazem, cá se pagam.)
Portanto aprimorei-me nos detalhes, pus a mesa com a simetria perfeita, para um tete-à-tete de que não queria perder pitada, com apenas uma jarrinha ao centro, onde coloquei três rosas rubras cujos debruns nas pétalas raivam o negro, a fim de não interferir minimamente no frente-a-frente coreografado: só nós dois, ante uma refeição altamente reconstansubstancializadora. (Pimba: vai buscar!!)
Sei que nunca é difícil, quer a Shara como a ti, “adivinhar” o que penso nem quais são as minhas intenções, a propósito seja do que for. Conheces-me demasiado bem e nestes últimos nove anos apuraste a técnica, tornando-te numa exímia mestra da antecipação acerca de mim. Reconheço que facilitei bastante nesse sentido, pese embora, ainda que tardiamente, tenha treinado exercícios de escapar-te às infiltrações e invasões de "espionagem" existencial. E consigo-o de forma sofrível, principalmente quando andas ocupada com algo absorvente e fundamental, como a saúde da tua mãe, as questões laborais, as exigências do curso. Contei com esses aliados para dissolver a tua acutilância…
Quando chegaste acabara de descascar as mangas, guardando-as no frigorífico para não oxidarem. A conversa andou pelo blá-blá circunstancial e servi-te as migas, fumegantes e aromáticas, numa mescla de alho, loureiro, azeite e pão. Depois de umas garfadas, verti o vinho com subtileza, pondo menos no teu copo do que no meu, dando-te oportunidade de notar a ocorrência. Tu, caíste no visco da encenação, ingerindo-o de um só trago, e renovaste a dose, desta vez ao nível daquilo que tinha deitado no meu copo. E entraste no assunto da celeuma.
«Quim, está na hora de saber porque sonhei contigo ontem, a tentar dobrar aquela esquina entre as palavras ditas e as por dizer. O que se passou realmente ontem, antes de te deitares? Vá!»
«Ora, nada. Foi assim: tocou a campainha, fui ver quem era, pediu-me emprestados poemas sobre Arina e na devoção À Deus, e eu voltei a casa, tirei um exemplar dos dez que imprimi anteontem e dei-lho. Quando acabar a leitura dar-me-á a sua opinião sobre o que leu, o que duvido que faça, como é costume com toda a gente. Podia ter debatido a possibilidade de o oferecer a alguém, mas suponho que isso estava subentendido no fato de ter imprimido mais que dois, um para mim, outro para ti, conforme seria se estivesse estipulado que o livro não era acessível a terceiros. E pronto, foi tudo. A seguir deitei-me, dormindo até pouco antes de teres chegado.»
«Isso sei eu, pateta. O que quero saber agora, é o que sonhaste!»
Prontifiquei-me a renovar o vinho nos copos de ambos. Mastigando, mas sem tirar os meus olhos dos teus, avaliando-te o grau de concentração e contrariedade. Mantinhas-te serena e confiante…
Repetiste a pergunta salientando a pessoa inquirida pelo «que sonhaste Joaquim Maria?», o que me pôs alerta quanto à gravidade da inculca.
«Hum… Mal me lembro! Umas fantasias quaisquer sobre ambientes exóticos, meio árabes, meio ciganos, meio espanhóis, sei lá! Estava escuro, e era de noite!»
«Graçolas, não, meu menino. O humor é despropositado neste enredo. Humor deriva do latim, e significa humidade no olho. Portanto, revela esse filme.»
Engasguei-me. A coreografia desmoronou como um castelo feito com baralhos de cartas. Ela sabia. O meu esforço tinha sido em vão, e esconder-lho uma ousadia inglória. Arrefinfei-lhe o copo duma assentada, sem sequer me preocupar em reencher o dela. Planeara com sofisticado empenho a evasiva, a manobra de diversão, contudo a debalde, ela – ou Shara, vá-se lá saber! – atalhara e cortar-me a retirada. Porém contar-lhe o que sucedera estava fora de questão. Morreria no campo de batalha mas jamais lhe entregaria a bandeira. O estandarte. A divisa indivisível. Nunca!
«Diz.»
«Diz.»
Garfada a garfada as migas e o costado sumiram-se. A garrafa do vinho evaporou-se – por minha resumida influência, confesso. A fruta deslizou pelo palato imergindo na garganta. Mas ela não arredou pé da intenção, reiterando com intervalos regulares o «diz» que não admitia qualquer tergiversão.
«Diz.»
E eu disse.
De uma só vez.
Como se disparasse de rajada.
E estivesse numa esquina sem tempo a perder.
«Sonhei que estava no palácio de Entre-os-Rios (Mesopotâmia) onde decorria um baile de letras, todas trajadas com sedas e tules, com adereços de ouro e prata, pulseiras, coroas, colares, diademas, contorcendo-se como mulheres em ritmo indo-iraniano, persa, turco, de feiticeiras muito antigas, de cujas, as principais eram quatro letras minhas conhecidas, muito minhas conhecidas, que estão no pórtico da eduba de Uruk, alinhadas aleatoriamente formando étimos a que desconheço a significação, na minha frente, hipnotizando-me, encantando-me quase, distorcendo-me os sentidos, ouvindo com olhos e vendo com a língua, nada era comum ao que acontece no dia-a-dia, nada estava no seu lugar reservado, próprio e determinada, convecional, até que essas letras entraram num frenesim descomunal e me arrastaram para o meio de si, nessa babel incandescente, e fizeram comigo quanto nem a própria brisa consegue. Voei. Voei. Voei. E perdi o sentido da mortalidade, do tempo, da consciência de mim. Fui para lá do lá e voltei numa só noite. Que mais posso dizer?...»
«Vês, não doeu nada. Porque estavas com tantas fintas e esquivas? Depois do café, hoje vou querer três figuinhos achocolatados. Ainda há que cheguem?»
«Claro. Guardei dois para cada um, mas bebi tanto vinho, que dispenso um.»
«Ok. Depois de lavares a louça vai ter comigo ao serviço, para irmos buscar a minha mãe, para ires ao hipermercado com ela. Fazes-lhe companhia e ajuda-la nas compras. Passamos o serão com ela, que o meu pai regressa tarde. De Lisboa a Casal Parado ainda é um esticão, e ele só sairá de lá depois das dez.»
Nem retruquei. Sair de fininho destes enredos destorce as inquietações e põe-nos fora de outras aflições. Principalmente comigo, a quem as letras perderam todo o respeito e às vezes se insurgem criando palavras, sobretudo nomes, a dançar, a gingar, a despirem-me da névoa loquaz da realidade. Correr mais riscos, para quê?
«Tá», respondi. Só enfim, quando a acompanhei ao carro, reparei que a janela estava com as persianas corridas. Tu acompanhaste o meu olhar, reparaste no que reparei, e resumiste: «põe-te a pau, que estamos atentas ao que fazes e sentes. Eu, e elas
Então vi, tive a certeza, que [não] tinhas sido tu quem almoçara comigo, mas ela. E ela que, por sinal, durante a noite disfarçara seu nome numa dança de letras maravilhosamente inebriante. Ao que os meus sete sentidos, de sobreaviso e com intensa acuidade, bastaram para reconhecer,como excecionalmente reais e autênticos, superiormente reais do que foram a própria realidade.
Somos tão pequenos e distraídos neste mundo de lugares, que não raramente esquecemos a importância dos não-lugares. Mas a lição marcara-me…

3.02.2011

O Êxito e as Promessas

As Cortes da Galhofa

"O êxito está cheio de promessas até que os homens o alcançam: e então verifica-se que é um ninho do ano passado que os pássaros abandonaram."
– H. Beecher

Quase toda a gente diz disparates. Bom... exagero: das pessoas que eu conheço, muita delas, fazem-no. Incluindo eu!
O disparate é inerente à comunicação entre indivíduos de manifesta e declarada intenção social. E ele até não faz grande mal ao mundo, não atrofia a vida de ninguém, não avoluma a densidade e a estatísticas do errare humanum est (errar é próprio do homem), não destrói a natureza nem esgota os recursos naturais, e se polui o ambiente, é apenas nocivo a quem falhou o filtro de barbaridades, a que comummente chamamos sentido crítico, enquanto genuíno antivírus de prevenção contra as canalhices da governação, da vizinhança e da coleguia profissional, que é outra espécie de máfia na panelinha do safe-se quem puder. Porém, não reconhecer os próprios disparates ou branquear os dos demais, devido a qualquer sentimento de preferência, isso já se afigura deveras grave e prejudicial ao presente de cada um e futuro de todos nós.
A oratória da Assembleia da República, neste capítulo, é o suprassumo dos exemplos nocivos ao in/consciente coletivos da portugalidade vigente, enquanto pontapé de saída para o jogo do desenvolvimento no pano verde da sustentabilidade, alvitrando que no futuro nos espera um dominó enlouquecido com o qual teremos que dançar (cair/tombar) no dia-a-dia das lides do bem-estar, harmonia e sobrevivência. Uns dizem disparates, para os outros se rirem; e os que se riram, dizem depois outros disparates, em amena competição e faire play, para aqueles que antes os disseram, também se poderem rirem. É uma galhofa pegada, o que já sabíamos, pois desde há muito desconfiávamos que o deleite desses senhores e senhoras era, e é, o prejuízo que vão provocando em cada qual daqueles que os elegeu. As marafonas fazem teatrinhos, e os pinóquios capricham no donjuanismo consequente. Anima-se o regabofe do salão com os cantares e descantes da corte, anunciando uns para desanunciar outros, apresentando como decretos-lei os projetos-lei que jamais foram, atirando ao mar de seguida a pescada que nunca o foi. Mas a plateia ri-se, e o povo paga-lhes o divertimento, que é para isso mesmo que serve o orçamento!
Recapitulemos.
A cada qual a parte de ridículo que lhe cabe, por direito e conquista; que o saber de experiência feito, cabe sempre num ponto de vista. Contudo suspeito, que de entre todos os deputados que representam a nação, não haja um único sequer, que possa pôr sobre o peito a sua própria mão – sem se queimar de culpa (antes de um ato de contrição). Aliás, perguntamo-nos de que mais será capaz, aquele que não sente pudor nem vergonha por enganar um pobre?
Foi implantado e implementado – com pompa e circunstância – o célebre Plano Tecnológico, que se supunha vir a ser a vanguarda administrativa do progresso e desenvolvimento. Ninguém esquece o apanágio dessa "reforma" de excelentíssima expectativa e significado. Porém... Nas últimas eleições, milhares quiseram votar, mas não puderam exercer o seu direito que a constituição consagra também como dever de cidadão, porquanto o plano cumpriu a sua meta na complicadex expressão da cidadania democrática, porque o novo número estava lá mas não estava, não sendo omisso do cartão era todavia oculto, isto é, de consequências mágicas na subtração da identidade ao cidadão.
Por outro lado, empunhando o mesmo cartão, se tivermos isenção de taxas moderadoras e nos deslocarmos, por exemplo, a um hospital distrital (!!! – pasme-se...), temos que levar uma carta do Centro de Saúde a confirmar que somos quem somos e estamos isentos, pois no hospitalzinho não há uma máquina que descodifique/leia as informações configuradas no dito Cartão de Cidadão, que ao que parece a cuja cidadania ninguém passa cartão. Tem lá tudo: NID, NIF, NSS, NUS e de Eleitor – mas é o mesmo que não ter, pois ninguém o pode testemunhar, testar ou ler. Mas quando foi tirado pagámos 12 € por ele. É caso de Defesa do Consumidor (DECO), porquanto nos venderam um produto infuncional sob publicidade enganosa. De que mais será capaz quem engana um pobre?
Fácil resposta. Esse pobre que adoeça e vai ver como elas lhe mordem, desde que não seja a sorte favorece-lo no azar que teve e a coisa lhe passe com umas aspirinas... Porque se não for, então morre, de desespero, de desilusão e de falta de cuidados. E mais uma vez é do plano: está tramado. Se precisar de ir a um Centro de Saúde, então pode recorrer à Internet, e lá encontrará o site/portal do Centro que procura. O design é magnífico, as cores (re)laxantes, o letring magistral, as imagens bastante asséticas. As informações é que não são fiáveis pois, por exemplo, se quisermos saber a que horas terminam as consultas de recurso no fim-de-semana, seja ao sábado, então, estamparam lá que é às 20:00 horas mas se lá formos depois das 14:00 horas batemos com o nariz no portal. Isto é, tiveram verba para cumprir o plano mas depois esqueceram-se de actualizar os conteúdos num "reino" onde a única coisa que não muda nunca é a constante mudança, a elevada dose de incerteza e entropia que alimenta a governaça e nos destrói a segurança.
Mas tem uma vantagem de inegável valor calórico que nos agasalha o ânimo: as promessas que o Plano nos trouxeram foram um êxito estrondoso e imorredoiro. Continuam ativas. Continuam atuantes. Continuam promessas. E isso também está em qualquer plano. Sobretudo naqueles que não contemplam a respetiva e inerente avaliação. Posto que é esta a mais-valia dos planos. Então se não é aquilo que é porque lhe chamam plano?
Quem é capaz de enganar um pobre, o que não fará às outras pessoas?
Garante-lhe um ninho – mas das eleições passadas. Que os passarões abandonaram, por estar fora de prazo e vencida validade, como dirá H. Beecher. Ou como diria, se assistisse à galhofeira nacional da casa da portugalidade, onde parecem todos estar muito satisfeitos e bem servidos sem nada que fazer. E todos equipados com a tecnológica dignidade do plano... Então, porque não a aproveitam, e aos cómodos climatizados, modernos, reparados, para atualizar os simples conteúdos das instituições a que o aplicaram. Aí está, até podiam manter o mesmo número que não baixavam na qualidade (cortesã). Continuariam muitos, mas a fazer qualquer coisa útil a quem os elegeu, para que lhe não caísse a cruz em democracia rota de cidadania vã!

2.24.2011

Conto da Semana - Nem Vale a Pena Contar

Nem Vale a Pena Contar!...


“Era a noite da loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder. “

In Aquela Noite, de Folhas Caídas, por Almeida Garrett

O s olhos faiscantes de Shara acompanharam-me e perduraram na noite enquanto me dirigia para casa, atravessando a única rua que precisava de ser atravessada para o efeito. E pese embora, em Casal Parado, elas não sejam assim tão largas como avenidas, creio que essa passagem durou muito mais do que seria plausível, esticando cada minuto além da sua extensão própria de sessenta segundos, quase pude assistir (intacto) a um autêntico concerto de estrelas despencando dos alto cimos do breu, como uma chuva de fogo-de-artifício, que somente findou quando a luz se acendeu, de repente, no quarto da vizinha sob a moldura encortinada da janela, cujo reposteiro de tule e seda azul-turquesa, bordados com motivos geométricos em dourado e prateado, partindo do centro superior descia afastando-se dele, até à base, no parapeito, formando um triângulo – ou delta luminoso – mais iluminado dentro do quadrado da caixilharia. Então nele, no preciso momento em que metia a chave na fechadura da minha porta de casa, surgiu, apareceu nele, a minha vizinha casualmente perscrutante e perscrutando a rua antes de correr as persianas.
Não me recordo agora do nome dela, mas ninguém me tira da ideia de que ela é uma aliada tua, uma personagem do quotidiano de forte afinidade com os teus desejos e estratégias, invariavelmente inoportuna como uma súbdita que me vigia e põe à prova entre as tuas ausências assaz pertinazes. Algo se repetia, pois é inquestionável a impressionante semelhança entre esta rapariga e a outra da história que me contaste, para me convenceres a acompanhar a tua mãe ao médico, com êxito, e a propósito, o que me pôs de sobreaviso, já que quando as circunstâncias se replicam ou duplicam é lógico concluir que os mesmos resultados se verifiquem. O que não tem a mínima prestidigitação ou ilusionismo, antes advém do determinismo positivista como qualquer sociologia. É pragmático e protocolar.
Digamos que essa que aparecia à janela, não sendo visão ou espectro, alucinação nem Maia, coincidia com uma pessoa real mas que esta, por sua vez, se colava em autenticidade a uma outra que tu criaras para figurar numa alegoria expressamente dirigida aos meus sentidos, através da tua narrativa. Seja. Difícil de engolir, e de fraca substância além da metafórica, sobejamente refutável, mas enfim, credível, se não nos afundarmos – aprofundando – excessivamente na factualidade lógica e racional. Todavia, o pior ainda estava para vir… Porque ao infinito, à suprema felicidade, à máxima ventura, como à Utopia, nunca se chegará, pois uma vez aí chegados então elas deixarão de o ser, que todo o brilho se lhe oculta e a atração perdem, pelo que tudo quanto sofremos e penámos para as alcançar vão se tornará, ganhando foros de ninharia.
Por conseguinte, e atalhando, depois de ter aberto a porta, entrado, feito o que é comum fazer antes de me deitar, tomado um Red Q de rooibos, petiscado umas bolachinhas com Mel de Elvas e dois bombons de figo com chocolate, anotado os itens de assunto para a palimpsestura do dia seguinte, lido mais um capítulo do livro combinado no Grupo de Leitura, tomado banho, lavagem dentária, etc., eis que a campainha tocou, num trrrim! breve de picada subtil, um quer-não-quer que soa, não obstante convicto quanto à eficácia para o efeito, que resumido era o de ter-se feito ouvir por mim. Estremeci. Não era hábito ter visitas àquela hora nem o toque me era familiar. Nem tu nem Shara assim tocaram alguma vez e, de resto, além dos vendedores disto & daquilo, durante o dia, raramente me visitavam ali, na minha casa, que era simultaneamente biblioteca, escritório, cozinha e dormitório de comedidos cómodos. Um trrrim! seco e rápido, agudo, afiado, acutilante e estridente, apenas.
Abri a porta de casa em roupão, desci as escadas até à porta do prédio, e sem surpresa alguma deparei com a minha vizinha, exatamente aquela que surgira na janela e em quem reparara a perscrutar a rua enquanto entrava no patim do rés-do-chão prédio de casa. «Boa noite, desculpa incomodar-te a horas tão tardias…» atalhou. «Mas soube hoje que escrevias poemas de devoção a Arina, e estou em pulgas para os conhecer. Podes emprestar-me alguns?»
Sorri vaidoso e radiante. Que coincidência! Precisamente há três dias atrás fizera uma brochura de um livro de poemas, intitulado Nova Razão: Velha Aliança, uma edição caseira de dez exemplares, sem qualquer motivo especial para isso, nem que alguém mo tenha sugerido, e que julguei ser um desperdício de dinheiro e tempo, e agora deparava com a hipótese de o mostrar, na calada da noite a uma conhecida quase desconhecida, e com quem não trocara mais que raríssimos bons-dias ou boas-tardes, que as circunstâncias dos vaivéns diários propiciaram… Porém, não estranhei nada, e além de me rejubilar com a oportunidade, respondi de imediato «tenho sim, e um livro mais ou menos acabado, que te dou, e de que serás o primeiro leitor, quer dizer, leitora. Queres entrar ou preferes que o vá buscar?»
«Não. Eu fico aqui, à espera» ouvi enquanto me virava com galhardia para retornar a casa e trazer-lho.
Voltei num ápice, como um Camões de braço erguido salvando o manuscrito do naufrágio, gravura que parece ter sido peta do marketing e da propaganda, embora desta vez traga algo de verdade e autêntico, porquanto o estava eu a salvar, não como manuscrito mas como edição impressa por meios electrónicos, não das águas frias e obscuras do temeroso mar, mas sim das turbulentas e maviosas angústias do ostracismo e anonimato, da solidão e incompreendida saga que acompanha, inevitavelmente, qualquer primeira obra de um autor sobejamente desconhecido – até da família. E entreguei-lho sublinhando que «não é emprestado, é dado. Será uma prova da empatia que existe entre nós, ok?», coisa bizarra que me saiu sem o mínimo sentido, mas de que só me dei conta depois de ela ter agradecido num «certo. Obrigada. Depois digo-te o que achei dele, se tiver achado alguma coisa, como deves entender… Boa noite!»
E este boa-noite misturou-se no até amanhã de Shara quando me despedi de ti. Vida complicada a minha!... Nada me acontece por menos, refleti, entrementes, ao subir lentamente os degraus de regresso ao quarto, numa escalada de sobressalto em sobressalto, como se girasse num torvelinho de sensações contraditórias e reconhecidas contradições de náufrago ao-deus-dará.
A vida, e o mundo nela, é mesmo um entroncamento de surpresas e variáveis inesperadas, onde basta um clic, um trrrrim!, um olhar, um ato, um gesto, uma palavra, para que tudo quanto era verdade e certo se tornar ilusão e engano, ou vice-versa, ou o monótono e melancólico, fatídico e previsível, se mostrar inconcebível e turbulento. Se adormecemos, sonhamos. Se ficamos acordados, alguém nos desperta e amplifica os sentidos para além do suportável…
Podia contar-vos o desassossego que foi a minha noite. Mas nem tento: ninguém acreditaria!

2.19.2011

Conto da Semana

Nos Condomínios do Cálice Único

“Mais tarde estenderam se sobre a cama amigavelmente com o calor da tarde lá fora, ele a ler e ela com os auscultadores do seu minigravador (o teu diadema; chamava lhe ele) enterrado no cabelo húmido e puxado para trás como gavinhas de videira à volta dos dedos dele que giravam distraidamente. De vez em quando, sem falar, ela tirava de repente os auscultadores e encostava um ao ouvido dele, fechando os olhos e cerrando a sua boca macia, arrebatada pelo que estava a ouvir.”

In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer

“Rosas sem fim. Flores caídas
Num chão amassado por rodas,
Sem outras forças para lidas
Que não as que nos restam, tidas
Como perdidas, quase todas.”

In http://escribalista.blogspot.com/, de Joaquim Castanho

Pressinto que nunca conseguirei trair-te. Até quando o faço contigo mesma, quando me dirijo a ti para dizer coisas a Shara, ou vice-versa, quando lhe digo algo que te é exclusivamente dirigido, toma-me um mal-estar insuportável que apenas consigo superar porque me convenço, de forma determinada, incontestável e incontroversa, que se assim o não fizer, então jamais o escutarás, uma vez que esses conteúdos não estão na tua linha de prioridades e só a curiosidade de saberes como Shara lhe reage te leva a atendê-los e considera-los, o que é igualmente verdade da parte dela, pois dificilmente os escutaria se lhos dissesse diretamente.
Creio que os casais que buscam ajuda exterior para se manterem casados, recorrendo a amantes ou encontros fortuitos, as chamadas escapadelas ou facadinhas no matrimónio, se servem de idêntico artifício embora aquilo que lucram em flexibilidade e comunicação o percam, em grau agravado, com o acrescido sentimento de culpa daí advindo e notório rombo na autoestima. É inevitável. Sobretudo quando a manobra acarreta prazer, onde a culpabilidade lhe resulta inversamente proporcional, no típico contentamento descontente que a poesia camoniana traduz (exemplarmente).
Todavia, nesse falar à tua imagem para que só tu ouças, às vezes o jogo vai muito para além do racional e plausível. Porque o descobriste, e te fazes passar amiúde por ela, ou leva-la a substituir-te e representar-te, iludindo-me. Assim, não raro dirijo-me à fantasia e é a realidade quem me responde. Shara atua em teu nome, veste-se no rigor da modernidade, vai para o teu trabalho em teu lugar, assume e faz tudo quanto só a ti diz respeito e ninguém nota, principalmente eu, que sou quem melhor conhece as diferenças entre ambas. As Maias celebradas na cidade também se acotovelam para encarnar nas raparigas que as representam, mas findos os festejos regressam ao seu mundo onírico e fantástico do qual se ausentaram por invocação humana, com intensidade e durabilidade marcada. Tu, não. Tu insurgiste-te ativa e depois permaneces nesse universo conforme a performance que determinaste manter.
Foste tu quem nos deixou no consultório médico, a tua mãe e a mim, mas foi Shara quem depois do serviço nos veio buscar e lanchou connosco, na pastelaria em frente do consultório, antes de regressarmos a casa – tenho a certeza. Suponho que foi por temeres a verdade acerca dos resultados das análises, caso eles tivessem confirmado o pior. Mandaste-a à frente como tua batedora pessoal, a ver o que encontrarias e como deverias preparar-te para lhe responderes a contento. Reconheci-a porque não trazias os óculos de sol, que sempre usas, resguardando-te da luminosidade do dia como do nosso olhar inquiridor, tão comum aos dois, e sob o mesmo propósito de espiolhar o teu estado de espírito, ou o ânimo que o habita. «Então, que novidades?», perguntaste ainda antes de te sentares à mesa, sem a manifesta ansiedade que acompanha os casos iguais.
«Tudo normal» respondi, carregando maior ênfase no «mas tem que voltar ao médico mensalmente, renovar os exames e análise de três em três meses, e estar com atenção redobrada quanto a nódulos e erupções de pele», o que não é propriamente novidade nenhuma, já que têm sido esses os comportamentos estipulados do último ano. Ela fitou-me; quer dizer, tu contraíste as pálpebras numa fita fina de concentrada acuidade, medindo e avaliando o meu envolvimento emocional e afetivo na declaração, confirmando as expectativas depositadas, pelo menos a considerar pelo sorriso que esboçaste de seguida, acentuando com o «isso vai ser fácil, e não te estorvará os afazeres minimamente» que o decreto continuava em vigor, e que a minha missão só expiraria consoante as melhoras definitivas de D. Catarina, o que me fez desejá-las mais intensamente, não só por a considerar uma pessoa extraordinária que merecia tudo do melhor que a vida reserva aos afortunados, mas também porque assim me veria liberto da função de acompanhante privilegiado. Mas contendo-me em manifestar essa vertente, pois caso ela a adivinhasse me concederia (indubitavelmente, e por consequência) reprimenda requintada. Homem avisado tem o êxito reservado!
«E tu?» quis saber. «Conseguiste trabalhar bem?»
«Claro. Acho que rendeu muito mais do que se tivesse ficado fechado em casa. Menos concentrado e com algumas interrupções, mas deveras proveitoso e sem stress. Com prazer, até…» O que não pode ser visto como uma capitulação, mas como uma nova experiência que resultou positivamente. Pensar, ler, escrever, criar, é mais produtivo e reflete melhor a vida quando quem o faz está envolvido e misturado também nela. A clausura intelectual é redundante e viciosa. Custa mais enveredar pelo disparate, todavia uma vez entrados nos seus condomínios, estes tornam-se labirínticos, e dificilmente de lá sairemos – ilesos. Resolutos. E inspirados. A boa companhia humana é higiénica e asséptica se queremos evoluir na qualidade da criação artística. Não há génios literários onde a comunicação apenas se alimenta da desértica solidão do amor-próprio e do narcisismo niilista. É essencial viver-se em sociedade quando nos queremos dirigir à sociedade e criar mais-valia socializadora, aprofundar da natureza humana e ser prazenteiramente útil a quem nos paga as facturas da sobrevivência, aperfeiçoamento, modernização técnica e valorização pessoal.
Portanto, reconhecer benefício e gratidão para com Shara e a mãe dela, não era uma derrota minha, antes um favor que me fizeram permitindo-se partilhar um momento difícil comigo, um voto de confiança e de aceitação em suas vidas. O caminho mais eficaz, rápido e sustentável, para o filho da mulher é o reconhecimento aprazível da sua mãe, e da maternidade que ambas (com)partilham; eis o segredo ancestral que originou a humanidade.
Depois de nos banquetearmos com as iguarias conventuais típicas do nosso interior provinciano, decidimos passar o resto do dia em casa, na cozinha tagarelando sobre tudo e nada, discutindo os pormenores sempre intrigantes e inerentes ao fazer coisa nenhuma, excepto o estarmos juntos pelo gosto que isso nos dá. O teu pai juntou-se-nos pouco antes do jantar, trazendo uma dose reforçada de novidades sobre o quotidiano das redondezas. Do café, o futebol, a política e os desmandos matrimoniais ou extramatrimoniais deste e daquela. Do trabalho, a crise económica e os seus efeitos diretos e indiretos. Tu, regressaras entretanto, afastando Shara do meio doméstico a que não está tão habituada como tu, e que a deixa circunspecta e expectante, indecisa mesmo, de arredia espontaneidade e propensa a frequentes hesitações.
Não podia queixar-me. A vida corria-me de feição, e às vezes ainda me recompensava com umas lasquinhas da tua afeição. Toques subtis, afagos naturais e desintencionados, o cheiro do teu cabelo, pequenos beijos nos olhares que se encontram (afloram) casualmente, o calor das tuas coxas que se demora quando nos aproximamos nisto e naquilo que o periquitar familiar nos exige, as tarefas propõem e a atenção mútua e redobrada sublinham. Nada de sobrenatural nem exorbitante, porém recheado de detalhes ínfimos ultrassignificativos. Apenas latência e atração num desejo que se prolonga até às fronteiras do (in)suportável.
E quando enfim os teus pais me desejaram boas-noites, despedindo-se e despedindo-me (muito diplomaticamente, como é óbvio e costume), sugerindo-me a retirada, vieste comigo à porta. Seguraste-me contra ti, fixando-me no fundo dos olhos, retendo-me numa distância suficientemente discernível para a transformação que ia acontecer, sem receios nem excentricidades. Primeiro reconheci a incandescência do teu olhar e vi que já não era o teu, mas o dela. Depois, a voz que me segredou «até amanhã» como se viesse das entranhas inquestionáveis da alma. Em seguida, o sentido imortal que transpareceu nos lábios ao beijar-te, como se aflorasse pétalas de aveludada sofreguidão. E finalmente o terno e doce aroma que se soltou do teu corpo num estremecido e morno abraço, deram-me provas irrefutáveis que tu eras ela nesse momento. Que Shara tinha voltado, e a sua recordação me acompanharia até casa, me habitaria o sonho durante o tempo que nos separava do novo dia. Jamais duvidei dessa hipótese, sobretudo porque todo o meu ser e consciência estavam despertos e acesos nessa inequívoca certeza.
Indesmentível. Mesmo que a minha fé se vertesse por outros cálices!

2.14.2011

Conto da Semana - e do dia 14!

Petrarca Reincidente II

E nas noites a terra pesada cai
De todas as estrelas para a solidão.

Todos caímos. Esta mão cai
E olha os outros: está em todos.

E contudo há Alguém que detém,
Infinitamente suave, este cair nas suas mãos.

(Excerto de um poema de Rainer Maria Rilke, incluído por Nadine Gordimer, no seu romance Um Mundo de Estranhos)


É nas alturas menos convenientes, quando a solidão rasga seus sulcos entre os minutos da espera, e ecoam as últimas palavras que nos dissemos, que os olhos se perdem no infinito como se este fosse a sua primeira casa, o estado de origem a que a matriz nos reporta na impaciência do reencontro. Quando demoras a passar sou eu quem fica sem jeito, aquele que te trai com Shara, e que trai Shara contigo, embora tu e ela a mesma pessoa sejam. O acaso me dita que medite nesta constatação irrevogável… Contudo, tenho que reconhecer, que as duas muitas vezes se unem contra mim, fazendo-me sentir a dolorosa mão pesada de uma solidão duplamente solitária!
Reconheço igualmente que sou egoísta, extremamente egoísta contigo, e que me roo de inveja das pessoas com quem convives diariamente, deixando-me isso acabrunhado, sorumbático, aflito, inseguro e danado por seres capaz de me trocar – sim “trocar” é o termo exato e preciso na medida do que sinto – por quem não te adora e admira como só eu sei que faço e acho que mais ninguém é digno de fazer, não raro deixando-me abalado e remoendo despeitos vários, que somente não explodem em desaforos e pedidos de reparação porque, enfim, temo que não haja depois soneto que me salve e recupere da emenda. Tanto mais que nos dias seguintes sublinharás o deslize repetindo-o até à exaustão, exatamente com essas pessoas, reiterando quanto és vítima das minhas monstruosidades solicitando-lhes razão no «mas que mal é que tem eu querer-me relacionar também com gente civilizada e não só com mentecaptos como ele, para quem tudo tem faltas e todos são indesejáveis, ninguém está à altura do seu nível de sensatez e boas-intenções», ao que as pessoas em causa aproveitam para retribuir o favor que ela lhes faz, acentuando que sou mil vezes pior do que supõe, já que se antes de casar me considero um ditador intolerante, então depois é que vão ser elas, dando-lhe a adivinhar o inferno que lhe está reservado, exclusivamente pelo meu feitio, aptidões malfazejas e possessivas, ou agressividade perante a frustração.
Ela anui. Satisfeitíssima com os resultados sorris, rejubilas no contentamento altamente científico de quem vê confirmadas todas as suas mais pertinazes, inconcebíveis e incongruentes hipóteses, e pondo em evidência quanto azar te cabe como recompensa em teres afeto e respeito por quem é ingrato e não reconhece o bem que lhe querem. Noutras alturas essas desavenças seriam motivo e conteúdo de belos e exemplares sonetos, se não me tivessem sido proibidos… Sonetos de amor feito com ganas, na raiva doce das diástoles, prolongando as sílabas breves até ao infinito da voz, esticando a urgência e imperiosidade da fala até ao insustentável da respiração, ao esgotamento do fôlego num único verso. Encurtando as longas até ao subtil pormenor de um clic, de um insight sonoro, fonema seco e sem eco. Todavia, impotente, calo-me na expectativa da borrasca anunciada e ansiando pela oportunidade de dar-te o troco numa recusa de olhar, virar-te as costas sem responder às perguntas que me faças, fazer orelhas moucas ao que disseres acerca de quaisquer assuntos que sejam, importante ou triviais, que em tempo de “guerra” não se limpam armas.
Que surge sempre. Sempre, desde que estejamos atentos. Suficientemente lúcidos e objetivos para a descortinarmos entre a espontaneidade de quem não se preocupa nem teme seja o que for da nossa parte, cujo atração, ternura e entrega é aquela garantia de segurança que jamais se dissolverá esmorecendo.
Mas que ocorre irremediavelmente num relacionamento se para tanto nos assistir a paciência da espera, coisa em que estou supimpamente treinado, graças àquelas intermináveis horas dos longos dias, meses e anos em que esperei por ti, primeiro por ela é claro, pois Shara suponho terá nascido (primeiro e) comigo, não ao mesmo tempo, mas assim que reconheci que não era o único ser que habitava o centro do mundo, e depois por ti, logo que te conheci, por considerar – não, o termo próprio é mais acreditar – que eras ela, não ideal e ancestral como Shara, mas real e presente, atual e em carne e osso como viva atualização dela. Incarnada e igualmente soberana.
Portanto, esse momento chegou de seguida, sem rogo nem demoras, sob o apelo inequívoco dos necessitados que penam no desespero de uma reparação. Quase em simultâneo com a saída de casa, exatamente essa que me deixou em carne viva, me arrancou quanta pele tinha e me defendia no contacto com o exterior, pondo-me a alma a nu e insuflando todos os sentidos até à sua insuportável constatação, esquartejando-a para a mergulhar no álcool puro da tua voz, quando te sentaste ao volante do carro e mencionaste que a tua mãe, D. Catarina, a ilustre senhora com quem simpatizo excecionalmente e por quem nutro aquele autêntico carinho e empatia típicos de alguém que se sente como se seu próprio filho fosse, ia nessa tarde ao médico, para consulta e saber o resultado dos exames que fizera na semana anterior, logo, na semana passada, e preferias que eu ficasse com ela, a fazer-lhe companhia, enquanto aguardava a consulta e depois, até que saísses do serviço, porque ficavas mais descansada comigo junto dela, pois os resultados poderiam inquietá-la ou assustá-la, conforme o grau de gravidade que declarassem.
Porém, eu tinha os “fones” nos ouvidos e não manifestei ter-te ouvido, o que te irritou notoriamente exigindo «tira essas coisas das orelhas quando falo contigo, por favor, ok? Afinal já não és nenhum teenager com necessidade de afirmação, para quem tudo aquilo que as pessoas, os adultos e responsáveis, dizem, é uma seca» inoportuna, é óbvio, a representação da surdez, uma vez que nem estava o som ligado, embora tenha sido suficientemente expressivo no atendimento dando ênfase à desatenção num «o quê? Que estás a dizer?» em voz bem alta de quem veio de outros decibéis e está nem aí para o que lhe disseram.
Notei o consequente rilhar de dentes e os pés jogaram de raiva no acelerar e travar com rispidez, indo a puxar até às curvas para depois refrear mesmo em cima delas, numa gáspea inusitada. «Fera à solta: cuidado», apeteceu-me avisar os transeuntes, mas disfarcei assobiando As Pombinhas da Cat’rina a ver se ela saía fora de mão, dando-me motivo para uma reprimenda exemplar. Porém, e ao contrário do que supunha, Shara abrandou, encostou à direita numa box de estacionamento livre, e desenrolou os pergaminhos que lhe dão jus ao nome, contando-me uma história, sem ponta por onde se lhe pegue, é evidentíssimo, mas a que o indicativo não permitia quaisquer dúvidas acerca do enredo que arrastaria consigo no «era uma vez um menino que se considerava muito esperto. Tinha alguma inteligência, pelo menos a suficiente para discernir que sem trabalho, preparação, estudo e planeamento nada se consegue. E vai daí, esmerou-se na aplicação, tornou-se objetivo e direto, perspicaz e sucinto. Um belo dia, com o sol a despontar entre o esfiapado encastelamento das raras nuvens, a temperatura de uma primavera morna e bucólica, ao sair de sua casa, reparou que aquela rapariga que ele todos os dias via e o observava intrigada, ainda que apenas estranhamente curioso, na janela da casa fronteira à sua, tinha um penteado diferente do habitual, e na sobre a fronte, jungindo as madeixas castanho-escuras dos cabelos ondeados, um diadema de prata com a lua em quarto crescente, do qual pendia um diminuto rubi em forma de gota, talvez lágrima, quiçá cristal sanguíneo, cujos reflexos pareciam disparar em todas as direções, num leque luminoso de concha marinha. Estes emaranhavam-se quase com os cabelos, dando a impressão de se prolongarem como raízes ou trama de teia assimétrica» e eu tentei descortinar isso nela, mirando-lhe o penteado que lhe emoldurava o rosto miúdo onde o seu olhar acutilante, incisivo, impertinente, no castanho-escuro ainda mais escurecido do que o habitual, me fisgava medindo as reações. Avaliando o interesse, a atenção, a sede, enfim, o efeito direto da sua narrativa.
E continuou «surpreendido e intrigado sobre visão proporcionada, uma vez que desde há muito a conhecia e via, quase diariamente, por sinal, mas nunca lhe tinha notado qualquer encanto, enquanto caminhava, descendo a rua, esforçando-se por mantê-la ao alcance da vista, inclinando a cabeça, até deixar de a ver, consequência da dobra da esquina com a rua transversal por onde seguiu adiante. Todavia, desaparecida que lhe foi da vista o mesmo não aconteceu do coração, deixando-o ensimesmado e a vê-la na sua frente, numa imagem vivaz e duradoura que insistia em não apagar-se com o distanciamento. Que perdurava para além do sensato e racional, sensível e fatual. Quis desfazer-se da imagem, escorraçar a lembrança, diminuir a intensidade da alucinação positiva com que se debatia, contudo sem o menor êxito, porquanto se viu frente a frente com ela nas vidraças das montras, nos vidros dos autocarros, nos espelhos por que passou. Então, corroído pelo prazer que esta lhe causava, mas contrariado e aflito pela falta de controlo que a ela o ligava, decidiu fechar os olhos com todas as forças e concentração que lhe foram possíveis, durante o resto do trajeto que faltava para o fim da viagem no autocarro que apanhara para a Estrada da Ponte, e com destino preciso na ponte desta estrada. E tanta força fez, tão intensa concentração auferiu, que quase conseguiu “matar” essa aparição incontrolável. Foi então que ouviu uma voz, inconfundível e que identificou com a da dita vizinha, que lhe dizia: nenhuma estrela se apagará com o sopro humano, e nem mesmo as candentes, param de brilhar quando passam para o outro lado da terra.»
Depois calou-se e pôs a viatura em andamento, sem demonstrar que a história terminara. Não obstante eu, que intentara vingar-me, fitei-a com manifesta timidez e receio, confirmando «está bem. Nos consultórios médicos também se pode ler, e hoje não tenho mais nada para fazer. Quando ela estiver despachada mando-te uma mensagem com os resultados. Gostava que lanchássemos todos juntos. De acordo?»
«Ótimo. Tentarei chegar o mais cedo possível.»
E foi tudo. Nada ficara por esclarecer. Apenas a leve sensação que faltavam algumas notas à música que vinha de fora, quando parámos nos semáforos junto à Fonte do Rossio… Mas não parecia ser nada grave!

Os Liliputianos e o Fado: Ai, Mouraria!

Os Liliputianos das Grandezas

“E entretanto, deixe-se que a polícia e a tropa negoceiem, de um modo mais eficaz, com os grevistas e os manifestantes, com os eloquentes agitadores, pretos e brancos, dentro do país. E se não conseguirem, há porém outra maneira de negociar: nunca apanhar aqueles que eliminam os agitadores, matando por detrás de rostos tapados e disparando de carros em andamento.”
In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, pág. 244.


Nem tudo o que se diz é luz. Embora o silêncio cúmplice e tácito acerca de todas as matérias que incomodam o status quo, seja ainda mais negro que o ignaro breu, mais escuro que toda a ignorância oriunda das trevas do Hades da Antiguidade Clássica, precisamente aquela que gerou e foi causa direta do obscurantismo (escolástico) medieval. Naquele tempo ainda só havia bons e maus, e o grande desígnio nacional – ou patriótico! – residia em conseguir agremiar os bons num clube, ginásio, partido, associação, escola, castelo, convento, quartel, repartição, café, corrente de estética, comissão, directório ou bairro, para, todos juntos, numa data estudamente marcada, os bons armados do que houvesse ou a lei deixasse passar, irem fazer mal aos maus. Os maus eram sempre – e nisso o tempo não mudou! – notoriamente mais frágeis, mais pobres, mais feios, mais dependentes e mais desprevenidos, não obstante que em menor número, menos corporativistas e até muito mais trabalhadores, expeditos, objetivos, lúcidos, responsáveis, conscientes, francos, transparentes e insistentes. Porém, tal não os desculpabilizava de nada, nem os redimia da herança genética, por cuja a má índole lhes coubera por completo, uma vez que já os seus trisavôs, bisavós, avós e pais foram, eram e são igualmente maus. E é desse tempo que sentem saudades os bons, pois podiam ser maus por uma boa causa, tentando continuamente restaurar a ordem e a lei e o progresso plantando as suas bandeiras onde o chão ainda o permitisse, sabendo demasiado bem que o melhor solo para esse plantio era a educação, o sistema de ensino, quintal onde florescia menina e menino, criando colégios de excelência em que o cultivo melhor rentabilidade oferecia.
Portanto desiludam-se aqueles e aquela gente que pensou que iria ler uma crónica da actualidade, porque não é sobre os dias de hoje que aqui se vai tergiversar, mas acerca daquele tempo em que havia bons e maus, bons com distinção e medíocres, muito bons e muito maus – e eram todos santificadamente felizes no assim-assim que a vida lhes oferecia, Deus dava, o Destino lhes reservara e as Igrejas prometiam. Desse tempo em que não era deveras hilariante verificar como é que pessoas que nem um livro liam por mês – quando liam! Que não raro passavam-se anos e anos sem tocar em book, a não ser para vender, impingir ou queimar… – eram as primeiras a saber como os outros, aqueles que liam dois ou três livros por semana, deviam ler, interpretar e analisar o que liam, bem como o que era aconselhável e desejável lerem. «Mistérios!» exclamará quem daquele tempo não for, talvez proclamando a rogo de Hefesto que em casa de ferreiro espeto de pau, coisa que nem ele nem Afrodite mereciam, quer pelo exemplo de Eros, o seu primeiro filho, quer pelas maneiras de Antero, que se lhe seguiu, dando ênfase à atitude desse tipo de gente que tudo sabe, tudo tem ou tudo tem de sobra, e a quem não incomoda nem estorva o mínimo resquício de consciência, civismo e consideração pelos demais, enfim, como dizem do outro lado do oceano, gente que não se manca nem quando a maka (mentira) é grande.
Elemento dessa Mocidade a que se chamou Portuguesa, não obstante a descarada metonímia da parte pelo todo transpire em cada sílaba, Liliputo Sonso foi uma dessas afortunadas crianças a quem os calções cor de café com leite assentaram que nem luva por medida em mão pródiga de ilusionista em part-time. Prodígio insuspeitável, conseguia as melhores notas da turma sem pegar num livro, jamais estudou para um ponto, dispensou a todos os exames, nunca copiou e se o fez, foi por algum colega tendo nota superior à dele, coisa que considerou deveras justa uma vez que lhe passara a limpo, revira e corrigira o saber. Faltas e futebol foram feitos de honra na finta aos tutores e encarregados de educação, porquanto se umas eram renovadas no outro eram repetidas (vitórias). E Fátima renovou-lhe a esperança e carregou-lhe as baterias da fé se, coisa muito pouco provável, alguma vez ousou duvidar pondo em causa a supremacia da espécie e a superioridade do género.

Portanto, este Liliputo, da família dos Sonsos à portuguesa, na baixa tensão das artérias do progresso e do desenvolvimento, passou a vida profissional à espera da reforma, que foi o objetivo primeiro da sua existência, do seu curso e de todos os sacrifícios inscritos no típico deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, com preocupação fundamental no aposentar-se ainda em bom estado e com perspetivas de duração, garantindo o total reembolso de quanto descontara, mês após mês para a segurança Social, com o juro na devida correção monetária, durante o tempo de exercício da profissão. Todavia, um dia acordou assustado, sob as expectativas badaladas da falência e insustentabilidade do sistema… Um sistema que, tal como a velha senhora terá falecido sem que ninguém lhe notasse a falta ou tivesse agido de forma a saber o que lhe sucedera, e só depois de 8/9 anos da sua morte, 13 insistentes visitas/participações à Justiça por parte de um familiar, inúmeras diligências promovidas por diversas pessoas junto das autoridades de segurança civil (PSP) e paramilitar (GNR), e que apenas viera a ser encontrada morta porque lhe venderam os tarecos ou bens, sem a sua autorização, nomeadamente o imóvel que não tinham permissão legal para abrir mas da qual não precisaram a fim de a leiloar. Um sistema que está moribundo a ponto de já não ser capaz de reconhecer o seu estado de saúde. Que comete crimes inacreditáveis, inauditos e hediondos mas que já nem se envergonha disso, e onde a culpa morrerá inevitavelmente solteira, porque as corporações envolvidas na situação precisam de defender o seu bom nome e o dos membros diretamente responsáveis pela omissão de segurança, caprichando no branqueamento e no esquecimento da ocorrência.
A notícia abalou-o e viu-se numa fona para recuperar o apetite. Esmiuçou-se, emagreceu, encarquilhou-se na pele e no ânimo. Sofreu cólicas terríveis em diversos órgãos, ardeu-lhe a bexiga de tanto urinar-se, e esvaiu-se numa diarreia abundante e contínua. A tez antes esbelta e altiva, luzidia e imaculada, ficou-lhe de dia para dia parda e enrugada com propensões para a de tartaruga velha a que nenhum creme gorduroso ofereceu perspetivas de melhoria. De bilioso azedou, tornou-se avarento, vingativo e picuinhas. De ressentido inventou defeitos e vícios nos demais, sobretudo nos vizinhos, colegas e familiares que não lhe viraram as costas com descaro e ostensivamente, respeitando-o na esperança de que pagasse na mesma moeda, a debalde claro está, que quanto maior foi o défice maior se tornou a ofensa e ressentimento por crédito. Assim como se de tão evidente lhe sentira a frustração, melhor evidenciara a agressividade da resposta que lhe dava, odiando tudo e todos, fazendo de cada minuto uma guerra fria e de cada hora um resgate de espoliado.

Então, empunhou a bandeira do patriotismo e aspergiu com os santos óleos o chão fronteiro às Necessidades e a S. Bento, gritou ser uma condenação e uma hipoteca sobre o futuro não contribuir para o privilégio de uns com o desmérito dos demais, principalmente dos que depois hão de competir com eles na busca de emprego e melhores condições de vida, configurando a justiça social sob a bitola da injustiça, argumentando com o costumeiro se sempre assim foi por que não há de continuar a ser, porquanto os radicalismos demoníacos são agentes de mudança que nenhum liberal tem por benfazejos. E o que cria a ordem, gera o progresso, alimenta o status quo é precisamente o tudo na mesma como dantes no quartel de Abrantes, onde qualquer pátria resguarda a sua elite e propala a fé desengonçada em pulos e cantares, palha e outros manjares, nas capas das gaiatas e dos tunantes. Ora pois. Que se já não tem a farda da Mocidade (à portuguesa) muito lhe sobra noutras iguarias do trajar desde que queira contra os iguais marchar, marchar.
E a pergunta que se põe, para remate de conversa sobre o tempo de outros tempos, é, com certeza, saber se no presente vamos ter de pagar a educação e o instruir daqueles que com os nossos filhos vão competir? Se sim, está encontrada a resolução, para quê atrás desses tempos outros tempos hão de vir, uma vez que a condição dos nascidos sem condição não muda por mais que façam para dela querer sair? E ser pequeno em Liliput é que é ser normal, tendo sonhos de grandeza para que nunca seque esta vontade de regar a realeza: façam os bons mal aos maus, que o ataque é a melhor defesa!

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