La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

1.18.2011

Petrarca Reincidente


Assim tinham adormecido: o olhar dele estava fixo nos lírios. Flores que ele lhe tinha comprado a um vendedor de rua no dia antes de aquilo ter acontecido – a purificação das sepulturas. Na semana passada tinham sido as rosas. Rosas vermelhas, enroladas como guarda-chuvas; as rosas têm o cheiro do sexo, disse ela, os lírios têm a forma: ele descobria todas essas delícias enquanto estava com ela. Aproximaram-se um do outro, sob sentidos amplificados.”
In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, tradução de Ana Patrão

Q uando Shara decide algo sobre mim, não há meio de contornar a questão nem desobedecer-lhe. Ela diz que não é obediência, sequer fidelidade, vassalagem, mas a sensatez que afluiu para reparar os danos da minha obtusidade (momentânea). Não o creio, deveras. E sinceramente; todavia, nunca lho disse abertamente, talvez por temer a contra-argumentação que lhe advirá. Aliás, a experiência recente aconselha-me prudência e tino, caso não queira ver-me espoliado, além dos sonetos e das fotos dela, como já fui, de outras predileções que ainda me restam, por secretas serem e escondidas dela as manter. Tenho as minhas razões…
Por conseguinte, o que importa reter neste àparte, sendo obediência ou não, desta confissão se infere facilmente que a minha vida é um martírio. Se digo que gosto de uma coisa, ela enquanto não me veda o acesso a essa coisa, não descansa. E pelo contrário, se proclamo não gostar de alguém, então faz dessa pessoa a sua companhia favorita e incondicional, elegendo-a como alvo de todos os seus elogios, incluindo os diminutivos mais carinhosos, sempre que se lhe refere, a chama ou a indica como testemunha e cúmplice do seu bom gosto. Por motivos que desconheço e razões que não enxergo, nada lhe dá maior prazer do que contrariar-me e proporcionar-me desprazer.
Com uma particularidade indesmentível: cria armadilhas, encontros, afinidades várias, acontecimentos em que sou obrigado a partilhar a presença e convívio com “essa gente” que, muito atempadamente e bem!, eu classificara de indesejável ou fora de prazo. «É um treino de amadurecimento, queridinho» respondeu-me ela quando corajosamente a interpelei acerca da sua conduta neste capítulo. O que pode ser tão absolutamente verdade como relativamente autêntico, posto que nunca plenamente ou sequer em definitivo, tendo em conta que mal passo a simpatizar com essas pessoas, logo ela lhe encontra defeitos gravíssimos que, saliente-se, «há bastante tempo tinha notado, e esperava pacientemente que também os detectasses; só que, como sempre, andas a leste e a ler por linhas tortas, aquilo que simplesmente se vê nas direitas», reportas tocando em sol maior de discurso avisado, apenas para meu governo, «já que em certos assuntos insistes em ser lerdo e demorado», como gosta de salientar se a oportunidade lhe surge a talho de foice.
Não obstante, se a circunstância surge, o latinório do de gustibus non est disputandum revela-se um importante recurso assim que, por qualquer motivo, enalteço feitos deste ou daquela, atos ou políticas, comportamentos ou silhuetas: «ora, não me apoquentes nem sarrazines a veneta, que bem sabes que os gostos não são discutíveis, embora recentemente, e a este propósito, te tenhas repetidamente manifestado de um mau gosto exorbitante. Como consegues fazer isso? Será que não te ouves? Há prà’i alguma disfunção entre a boca e ouvido, a língua e o cérebro? És disléxico mental? Ou estás unicamente empenhado a lembrar-me que quanto imagino que tens de bom, além de se perder e degradar a olhos vistos, nasceu em mim por falta de ponderação? Arrependo-me!» de lhe pespegar nos acintes e dar-lhe também pela medida grossa, dizer-lhe umas quantas que me andam aqui atravessadas há longa data, todavia as alturas vão-se derreando na inoportunidade circunstancial, remetendo-se invariavelmente para mais tarde, quando estivermos sem ninguém por perto, ou tiver digerido totalmente os reparos, num a vingança serve-se fria que comummente me congela a vontade e o ânimo, adiando-a, adiando-a, adiando-a até finalmente a esquecer – definitivamente.
Ademais, de pouco me serviria… Cada qual nasce prò que nasce, e a minha vida tem sido um tormento inglório. Tento chamar-lhe a atenção para a sua falta de decoro em relação à forma como me trata, a indelicadeza dos seus apartes, as notas de rodapé imerecidas que me aplica por dá cá aquela palha, a inconveniência e inexatidão da maioria das suas críticas, mas a debalde: se mal estava, pior fico, e caiem-me as prédicas no saco roto dos maus ouvintes, daqueles que fazem questão em escutar de cabeça muito direitinha, para que mal as palavras entrem por um ouvido possam sair, à mesma velocidade senão maior, de imediato pelo outro.
Por exemplo, ainda antes de sairmos de casa, após o raspanete que me pregou sobre as fotografias, todas dela, pois: todas tuas!, não se coibiu de judiar do meu semblante cabisbaixo e consternado, triturando-me o ânimo com outro discurso sem fim acerca das mesmas, onde vociferou entredentes sem pundonor, num sussurro azedo que «tudo o que é demais, é moléstia. Meu menino: Uma, duas, quanto muito, três fotografias minhas, selecionadas e atualizadas, ainda vá que não vá, e eu até te podia ajudar na escolha. Algumas são fidedignas, e espelham extraordinariamente bem a minha personalidade, com discrição e qualidade. E uma vez que vais, que vamos, continuar com esta casa, por estar mais perto do meu serviço, e onde tu tens a tua tralha de intelectual, não vejo nenhum obstáculo a que me sintas por perto e atenta, nos períodos em que estejamos “desencontrados” desenvolvendo as atividades profissionais sem as quais nunca poderemos passar. Não somos ricos, nem cultivamos o ócio. Portanto, começa a pensar nas fotografias que preferes manter à vista e dá sumiço às restantes. Ok?»
Meneei a cabeça fazendo «tsche-tsche» com a língua a bater no palato, como quem coça o céu-da-boca duma comichão insuportável, despreguei os olhos do chão, com que varria o soalho à procura de insectos, poeira ou nódoas libertadoras do recado, suspirei atrapalhado e tentei sossegá-la prometendo «fica descansada, que amanhã, assim que aqui chegar, vai ser a primeira coisa que faço. Quando vieres almoçar, já podes escolher aquelas que preferes que tenha de ti. Eu gosto particularmente de duas ou três, mas depois, durante a refeição, faremos a nossa “acareação” de pareceres. Vais ver, que os nossos gostos não diferem tanto como supões…»
Sai-me bem. Não é para me gabar, mas vislumbrei-lhe na face um tique, um breve estremecimento, de quem sustém um sorriso. Apeteceu-me dar um pinote e socar a atmosfera num «Hhhuuuaaaaauuuu!!!!!...» reconstansubstancializador mas evitei-me, sim, apenas para lhe fazer notar que a birra ainda não tinha passado totalmente, e que quando se prende o burro não se desata a corda de repente.
Abri a porta para sairmos com a respiração em suspenso, e desviei-me subtilmente para ela passar. Fê-lo lentamente, muito lentamente, demorando cada gesto da passada, esticando-os até aos limites do suportável, o braço direito a rasar-me o peito, quase a tocar-me sem tocar, contudo obrigando-me a sentir o calor de um contacto pré-anunciado, desejado, embora que na pronúncia acesa das palavras supérfluas e indizíveis. E eu tremi, estremeci sem controlo, tentando esconder a constatação inequívoca de que não me pertenço. Que a vontade que me anima, que essa ideia cujo melhor nome que encontrámos para nomear chamamos “alma”, pode ser a minha, mas habita outro querer. Num amplificado reconhecimento, a que se acrescia a noção exata da minha impotência para contrariar este estado, esta tomada de sentido em toda a sua consciência!

1.15.2011

Segundo Conto da Saga Petrarquiana

A Curva em Desnível

“Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A Fortuna inquieta pôr-lhe noda
Que lha não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.”

(Luís de Camões, in Os Lusíadas, Canto Terceiro, Estrofe 17)

A inda mal me tinha levantado quando a campainha tocou. Eram precisamente dez horas, e o sol entrava pela janela da sala como se fosse um dia de primavera. Mas não o era. Estávamos no pinho do inverno e, lá fora, a temperatura rondava os dois graus negativos.
Portanto, quando sem pressas me dirigi à porta para ver quem assim tocara, estava longe de imaginar que pessoa metera o dedinho no botão, deixando-o lá esquecido na demora de uma eternidade estridente. Insistentemente. Ansiosa. Porque, se nos propusermos ouvir as tonalidades dos toques, distinguimos perfeitamente o estádio de ânimo de quem carrega do outro lado. Eu distingo, e às vezes até sei quem é, dado que os timbres se tornam caracteristicamente identificáveis.
E ao ver-me, assarapantado, Shara sorriu-me de orelha a orelha, num desafio direto à contrariedade chapada no meu rosto. Porém, não se fez minimamente achada ou arrependida, e estampou-me nas ventas um «então queridinho, ainda de ressaca com as novidades de ontem?», que me arrepiou de alto a baixo num estertor de choque eléctrico, semelhante àqueles apanhados à sorrelfa e na calada da noite, quando se assalta o frigorífico ou tenta arrombar o mealheiro do filho mais novo, e se é apanhado com a boca na botija.
As novidades a que se referia estavam relacionadas com a conversa a quatro que tivéramos sobre a nossa vida a dois, durante o jantar em casa dos pais dela… E diziam respeito ao ter-me posto em banho-maria com o meu claro consentimento. O estranho é que a anuência nem tivera a interferência alcoólica, ou a nota persuasiva de uma fraqueza visível. Não estava bêbado nem fragilizado quando dissera que sim, pondo fim à minha liberdade de solteiro e bom rapaz.
Há coisas que nos sucedem sem querermos, outras porque não queremos mas também não nos importamos, e ainda outras, porque além de as querermos fazemos tudo para que nos aconteçam. O jantar não foi nenhuma delas. E a conversa anexa idem. Como diz o povo, tantas vezes vai o cântaro à fonte até que um dia… parte-se!
É claro que de inesperado não tinha nada. E a complacência que me acompanhara na decisão, também não indicava que fora esperada. Mas isso, de me terem sido “proibidos” os sonetos, acho que foi uma exagerada e elevadíssima pena para tão ínfimo e insignificante falta: a de dizer o que sinto por catorze versos. Há quem o faça mais barato, é claro, como se de um haiku se tratasse, porém estas modalidades não fazem muito o meu género…
Bom: o que é certo, afiançado e garantido, é que ela estava ali na minha frente, com cara de grande divertimento na intenção, clara e declarada, de sondar como tinha eu feito a digestão das novidades sofridas, se tinha feito ou ainda precisava de algum auxiliar – de memória? Farmacológico? Corretivo? – que me facilitasse o engolimento das decisões tomadas acerca da minha vontade e estado civil, como de espírito. «Ora, tu bem sabes, que tudo o que decidires, está decidido, e eu não ponho qualquer obstáculo…», fiz-lhe saber, desviando-me da entrada para que Shara atravessasse a ombreira da porta. Dá mau aspecto esse serôdio hábito oitocentista, essa coisa de se discutirem os sonetos em público…
«Mas nada de fintas, verónicas e chicuelinas, que os meus pais têm muito apreço e estima por ti, e desiludi-los será um duro golpe de que dificilmente recuperarão», remataste tu, aquela que possui o nome que é também a chave do meu destino, cuja sorte foi ditada e escrita muito antes do homem ser homem, ou até do menino ser menino.
«Claro» garanti, «podes ficar descansada, que nunca da minha parte haverá a menor razão de queixa, e tudo farei para continuar a merecer a confiança e apreço deles», tentando dar um ar oficial ao juramento para melhor me livrar do teu olhar acutilante, perscrutador e irreverente. Quase irónico, e veladamente ameaçador…
É óbvio que a tua intenção, quer dizer, a intenção de Shara era outra, de subtil natureza e contorcido engenho, que nestas coisas da vontade o feminino não pode passar nunca sem aquele requinte de matreira índole que os incautos e desprevenidos tomam por sedução. Por perspicácia. Salero. Coquetearia. O vos estes sal terrae sem o qual os dias nos seriam tediosamente sonsos. Imagino! Porque é apenas um supor, considerando que até quando não estás me anda inquieta a alma por entre os destroços em que me fica a existência se tal sucede…
Assim, tentei desviar a conversa para outros destinos, visto que a fatalidade me pusera a cabeça à roda, com o fito de equilibrar as ideias e o ânimo num degrau acessível ao amor-próprio sem me esticar muito. «Olha: já reparaste que limpei a casa e arrumei os livros quase todos? Não notas a diferença?» Mas na ânsia de a encaminhar para outros azimutes, descurei milimetricamente a guarda, mostrando-lhe as prateleiras onde eles se enfileiravam, embora que com as lombadas tapadas pelas inúmeras fotografias tuas, quer dizer: dela, nas mais variadas circunstâncias, trajes, fundos, poses, que ao longo dos anos fui colecionando, emoldurando e expondo, desde que houvesse algum espaço vago, ou que ainda não tivesse sido ocupado por uma. Uma vez chegaste mesmo a ironizar, perguntando-me se a figura que se via por toda a casa, tão insistentemente decorativa não seria «alguma Santa a que és devoto, a que prestas culto… Não te sabia tão dado às coisas da fé e da religião!», fazendo-te desentendida sobre quem era essa que somente Shara encarna sem se notar qualquer desacerto nas linhas, suturas e reminiscências.
Lembro-me que te paguei na mesma moeda e não afectei o toque, sem remoque e indiferença. Foi então, enquanto recordava a situação, que me atiraste outro balde água fria, ainda pior do que a proibição dos sonetos, coisa que eu pensava ser a mais terrível e desafortunada que me podia acontecer, e isto depois de teres passado revista aos móveis e estantes, avaliando a decoração, o estado de preenchido anafórico, de onde brotavas como um refrão que se repete a esmo por toda a glosa, sem curvas de desnível, de forma a esfregar com detergente eficaz outra nódoa que ainda me maculasse a alma, o comportamento e a motivação, determinando que «isto não pode continuar assim, durante muito mais tempo. Trata de desfazer, de arrumar esta tralha toda. Faz um álbum, mete-as numa caixa de camisas ou sapatos que tenhas prà’i, no quer que seja. Desenrasca-te. E se tivermos filhos, onde vamos pôr as fotografias deles? És tonto, ou quê?»
Na boca, a língua entaramelou-se, quando tentei ripostar, e nem um pio me saiu dela mal a abri, deixando-a à banda. Ficara de rastos, a corda partida, a pilha gasta, a alma num esfregão. Tudo quanto eu mais temia me estava acontecer. Um tsunami não teria provocado maior devastação. A cara devia ser o espelho da consternação e tempestade que se abateram sobre mim, todavia Shara não evidenciara a menor comoção, pena e dó. Olhei as alturas implorando socorro a todas as divindades, mas nenhuma me atendeu. Fitei o abstrato de nada que é ponto aceso a brilhar no vazio infinito, e nem uma luzinha me piscou no pestanejar da esperança, precisamente no momento em que até um pirilampo me consolaria. Mas nada. Da desfaçatez do cosmos não vieram quaisquer grânulos luminosos ou grãos de pó… o mínimo sinal de esperança ou réstia de razão.
E dada a evidência, contrito e aflito reconheci, que tudo quanto para Petrarca fora somente maldição, calhava-me a mim a dobrar – é que um soneto nunca vem só!

Males de uma idade maior... Ou crise de crescimento?


O Regozijo Nacional

"Os males da idade são postes de sinalização e não destino."
L. Kronenberger

Fico muito contente por saber que os melhores de entre todos nós não valem um pataco, havendo mesmo quem não sequer dê três vinténs por eles. E ninguém me tira da ideia que a pegada social de cada homem há de abranger muito para além de seus filhos e netos, porquanto também comporta a sua pegada ecológica e da sua família, durante bastante tempo depois de morrer e ela se extinguir, deveras contundente na violação das fronteiras e limites, sejam temporais como no espaço, indubitavelmente inerentes ao grupo, comunidade ou povo a que pertence. O nosso está de parabéns. Temos uma nata a toda a prova, incluindo a de sensatez. Ora vamos lá ver: o que prejudica ou não ajuda absolutamente nada este país, não são as conjeturas e alvitres sobre o possível pedido de auxílio à Europa (FEE) ou ao FMI, deste ou daquele civil mais ou menos magoado, e ressentido, com os desmandos da governação, e o estado precário e insustentável da nossa situação geral, é sim a falta de ações concretas e eficazes da parte do Estado e do governo para contrariar a atual situação económica, cultural, social, política e financeira. Esse é que é o maior e mais prejudicial défice de todos... E esse também sabemos todos nós muito bem onde nasceu e quem o fomenta!
Das agruras recentes e da qualificação deste ou daquele candidato, não restam agora as menores dúvidas que quem muito se cala não é só por lhe faltar argumento credível, é para não se comprometer ainda mais do que já se sente estar, receando dizer algo que prejudique ainda mais a sua defesa do que o ficar calado defenderia. Nem sequer é tabu, como aconteceu noutras circunstâncias. E se de estratégia se tratar, então bateu com os burrinhos na lama, uma vez que dia a dia, está a perder notoriamente as vantagens competitivas que o desempenho anterior do cargo lhe conferiu. Os portugueses, daqueles cuja filosofia era o comer e calar, que ovelha que berra é bocado que perde, já restam muito poucos, e desses, e nesses, o descrédito nos políticos e na política, para além das dificuldades de locomoção, a carestia de vida, agravamento das condições de saúde, a abstenção sobe em acelerado contínuo, na razão diretamente inversa ao seu descontentamento e perda de fé. Estão a ficar-se aos magotes como S. Tomé, querem ver para crer, ouvir para acreditar, e do silêncio gritante que ecoa nos seus aparelhos multimédia apenas soçobra o ruído das dificuldades crescentes no quotidiano.
Ninguém perde dúvidas com faltas de esclarecimentos, e aquela arrogância de que foram acusados alguns outros, nomeadamente o candidato à esquerda melhor posicionado, está a assentar como luva através do quem cala consente que acoita todos os desmandos, desde os menores aos mais graves. Em democracia não quem esteja inquestionavelmente acima de qualquer fato, e os fatos que perduram são sempre aqueles que não foram debatidos, escamoteados e esclarecidos. Mandar as pessoas que nem sequer sabem usar com presteza o telemóvel, para ligar aos filhos e netos, consultar o site na internet, e dizer-lhes cara a cara que não conta com eles e prescinde dos seus votos, pois que a única maneira plausível de se manterem informados é ouvir nas rádios e verem nas televisões, aonde esse tipo de informação foi sonegado.
Portanto, se acontecer alguma surpresa, não venham depois com modas de apelidar o povo de ingrato, que para pagar na mesma moeda é que ainda vai rebuscando no fundo dos bolsos os raros níqueis trocados, pois que quando faz perguntas e não ouve respostas, já não acredita logo que está a ficar velho e duro de ouvido, mas antes sim conclui que anda alguém a tentar fazer-lhe o ninho detrás da orelha – outra vez!

1.11.2011

Para Além de Outro Oceano, de Coelho Pacheco


Com a Alma num Puzzle

"NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano
Houve posições dum viver mais claro e mais límpido
E aparências duma cidade de seres
Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez
Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter
A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro
Todos viviam na vida dos restantes
E a maneira de sentir estava no modo de se viver
Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho
A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser
E houve pasmos de toda a realidade ser só isto
Mas a vida era a vida e só era a vida."
– In Para Além de Outro Oceano, de Coelho Pacheco (1)



Quem se esfarela até morrer, corre em riacho de muito seixo e pouca ternura (alcança), que o silêncio do nu apressado, ainda que vertido em multidões de espasmos e suspiros, nunca outra coisa lhe trará do que a solidão de si entre tantos, ilha sem pontes nem portos seguros que no vasto e perdido oceano lhe há de ficar. Ao buscarmo-nos fora de nós, como metáfora matriz do universo, desde Bhavicyottarapuräna ("água, tu és a fonte de todas as coisas e de toda a existência") ao Alcorão ("Não vêem os infiéis [...] que com a água demos vida a tudo?"), quer para nos purificarmos como para nos regenerarmos, é impossível que não caiamos no intempestuoso oceano da dúvida, da lágrima, da representação ou do júbilo, numa tentativa de retornarmos às águas primordiais, ao líquido amniótico, precisamente aquelas que antecederam a (nossa) realidade, a notificaram e convocaram para dela ajuizarmos, lhe mataram a sede e a dissolveram na fantasia e no sonho, no conto e teoria de vida, onde se estabeleceram e formataram os sentidos e veículos/ferramentas para a sua conveniente apropriação, que é, enfim, a vida de cada qual. Esporadicamente nessa tomada de posse, tivemos que saltar fora de nós (heteronímia), para nos podermos ver e observarmos (uns aos outros) como outros, capazes das ousadias que temíamos, enquanto mergulhávamos no líquido original e genesíaco, pré-diluviano, bem como quais eram os gestos peculiares e expressões com que reiniciávamos essa navegação essencial. O outro que nós éramos, experimentava assim aquilo que podíamos – ou queríamos – ser, sem correr os riscos e adversidades consequentes ao salto no escuro cometido, e sem perdermos da mão o telecomando imaginário com que nos iludíamos de ter sob controlo essa perigosa constatação de existir, que raiando o desdobramento da personalidade toca explicitamente as margens da loucura. Estávamos ali de corpo e alma, de fato e (e)feito indesmentível, porém, dela o víamos a cumprir os desígnios ordenados como se fossem por ele estipulados e decididos, leis executadas sem apelo nem agravo duma vassalagem indecorosa mas irresistível.
Coelho Pacheco – ou Fernando Pessoa, quem sabe?!?... – descreve/exemplifica um desses momentos de mergulho sem escafandro com que o homem-rã se propõe a submergir nas suas próprias águas. A dificuldade deste tipo modalidade ou de exercício de natação não está no peso da bagagem, escafandro e profundidade que almejamos, mas na qualidade e natureza das águas, porquanto elas são as nossas, revoltosas umas vezes, calmas e serenas outras, porém sempre turvas e a que a nossa lente de autoestima, disponibilidade, lucidez, objetividade e ideal/teoria de vida não acrescenta nenhuma transparência, antes as obscurece mais de acordo com a medida da nossa ansiedade e insegurança. E a corda bamba de Nietzsche, e Zaratustra, neste panorama não passa de uma brincadeira de crianças superprotegidas para quem o risco reside na correspondência direta com o volume do alarido de aviso, ou aconselhamento, que o bando protetor emite por alerta e prevenção.
É óbvio que depois de passarmos por semelhante experiência, voo ou mergulho que seja, tendo-nos acontecido o mesmo que sucede quando acordamos de um pesadelo infernal, o riso e o alívio serão quase inevitáveis, como quando vencemos uma barreira intransponível sem a mínima beliscadura, em que não obstante o pior já ter passado, o que é certo, é que jurámos jamais metermo-nos noutra igual para conseguir coragem e alento, e até ajuda divina, e não temos a certeza se essa emersão salvadora das aflições em que estávamos, se deveu aos nossos esforços e força de músculo, capacidade intelectual e motivação, se à intervenção divina para a qual implorámos e nos encomendámos, numa dívida inegável. Quando os sentimentos são só o desejo de os ter dificilmente saberemos se são reais ou apenas hipotéticos, consentidos ou imperiosos, inevitáveis ou relevantes, se são nossos ou de outrem, estão activos ou não passam de recordação, fantasia e alucinação, pondo-nos em igual plano com a suscetível irrealidade, pelo que deixamos de saber com certeza quem somos, se somos reais ou imaginados, autênticos ou fictícios, seres nomeáveis ou reclusos de uma maldição qualquer, emitida para corromper o espírito de outros seres, esses sim capazes de sentir e usufruir de sentimentos. E ninguém merece, por maior e mais hediondo que tenha sido o seu crime, tamanha condenação!
Febre de ser para além doutras águas, não destas que lavam e purificam, não destas que são genesíacas e originais, não destas que compõem os oitenta e tal por cento do nosso corpo, nem da superfície terrena ou global, que todas são impuras e normais, mas onde a pureza e a nudez se diluem lívidas de impossibilidade. Onde fica isso, que mares e oceanos são esses? O Purgatório tem alguma liquidez nessa perceção? Bom... Qualquer leitura atenta da totalidade do poema, creio, deve bastar para responder a esta questão.
E se não responder?



FICÇÕES DO INTERLÚDIO/3:
PARA ALÉM DO OUTRO OCEANO

DE C[OELHO] PACHECO


NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano
Houve posições dum viver mais claro e mais límpido
E aparências duma cidade de seres
Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez
Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter
A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro
Todos viviam na vida dos restantes
E a maneira de sentir estava no modo de se viver
Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho
A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser
E houve pasmos de toda a realidade ser só isto
Mas a vida era a vida e só era a vida.
O meu pensamento muitas vezes trabalha silenciosamente
Com a mesma doçura duma máquina untada que se move sem fazer barulho
Sinto-me bem quando ela assim vai e ponho-me imóvel
Para não desmanchar o equilíbrio que me faz tê-lo desse modo
Pressinto que é nesses momentos que o meu pensamento é claro
Mas eu não o oiço e silencioso ele trabalha sempre de mansinho
Como uma máquina untada movida por uma correia
E não posso ouvir senão o deslizar sereno das peças que trabalham
Eu lembro-me às vezes de que todas as outras pessoas devem sentir isto como eu
Mas dizem que lhes dói a cabeça ou sentem tonturas
Esta lembrança veio-me como me podia vir outra qualquer
Como por exemplo a de que eles não sentem esse deslizar
E não pensam em que o não sentem
Neste salão antigo em que as panóplias de armas cinzentas
São a forma dum arcaboiço em que há sinais doutras eras
Passeio o meu olhar materializado e destaco de escondido nas armaduras
Aquele segredo de alma que é a causa de eu viver
Se fito na panóplia o olhar mortificado em que há desejos de não ver
Toda a estrutura férrea desse arcaboiço que eu pressinto não sei por quê
Se apossa do meu senti-la como um clarão de lucidez
Há som no serem iguais dois elmos que me escutam
A sombra das lanças de ser nítida marca a indecisão das palavras
Dísticos de incerteza bailam incessantemente sobre mim
Oiço já as coroações de heróis que hão de celebrar-me
E sobre este vício de sentir encontro-me nos mesmos espasmos
Da mesma poeira cinzenta das armas em que há sinais doutras eras
Quando entro numa sala grande e nua à hora do crepúsculo
E que tudo é silêncio ela tem para mim a estrutura duma alma
É vaga e poeirenta e os meus passos têm ecos estranhos
Como os que ecoam na minha alma quando eu ando
Por suas janelas tristes entra a luz adormecida de lá de fora
E projeta na parede escura em frente as sombras e as penumbras
Uma sala grande e vazia é uma alma silenciosa
E as correntes de ar que levantam pó são os pensamentos
Um rebanho de ovelhas é uma coisa triste
Porque lhe não devemos poder associar outras ideias que não sejam tristes
E porque assim é e só porque assim é porque é verdade
Que devemos associar ideias tristes a um rebanho de ovelhas
Por esta razão e só por esta razão é que as ovelhas são realmente tristes
Eu roubo por prazer quando me dão um objeto de valor
E eu dou em troca uns bocados de metal. Esta ideia não é comum nem banal
Porque eu encaro-a de modo diferente e não há relação entre um metal e outro objeto
Se eu fosse comprar latão e desse alcachofras prendiam-me
Eu gostava de ouvir qualquer pessoa expor e explicar
O modo como se pode deixar de pensar em que se pensa que se faz uma coisa
E assim perderia o receio que tenho de que um dia venha a saber
Que o pensar eu em coisas e no pensar não passa duma coisa material e perfeita
A posição dum corpo não é indiferente para o seu equilíbrio
E a esfera não é um corpo porque não tem forma
Se é assim e se todos ouvimos um som em qualquer posição
Infiro que ele não deve ser um corpo
Mas os que sabem por intuição que o som não é um corpo
Não seguiram o meu raciocínio e essa noção assim não lhes serve para nada
Quando me lembro que há pessoas que jogam as palavras para fazerem espírito
E se riem por isso e contam casos particulares da vida de cada um
Para assim se desenfastiarem e que acham graça aos palhaços de circo
E se incomodam por lhes cair uma nódoa de azeite no fato novo
Sinto-me feliz por haver tanta coisa que eu não compreendo
Na arte de cada operário vejo toda uma geração a esbater-se
E por isso eu não compreendo arte nenhuma e vejo essa geração
O operário não vê na sua arte nada duma geração
E por isso ele é operário e conhece a sua arte
O meu físico é muitas vezes causa de eu me amargurar
Eu sei que sou uma coisa e porque não sou diferente de uma coisa qualquer
Sei que as outras coisas serão como eu e têm de pensar que eu sou uma coisa comum
Se portanto assim é eu não penso mas julgo que penso
E esta maneira de me eu acondicionar é boa e alivia-me
Eu amo as alamedas de árvores sombrias e curvas
E ao caminhar em alamedas extensas que o meu olhar afeiçoa
Alamedas que o meu olhar afeiçoa sem que eu saiba como
Elas são portas que se abrem no meu ser incoerente
E são sempre alamedas que eu sinto quando o pasmo de ser assim me distingue
Muitas vezes oculto-me sensações e gostos
E então elas variam e estão em acordo com as dos outros
Mas eu não as sinto e também não sei que me engano
Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver
Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é
Mas porque não posso viver figuradamente
E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar
A condição da poesia é ignorar como se pode senti-la
Há coisas belas que são belas em si
Mas a beleza íntima dos sentimentos espelha-se nas coisas
E se elas são belas nós não as sentimos
Na sequência dos passos não posso ver mais que a sequência dos passos
E eles seguem-se como se eu os visse seguirem-se realmente
Do fato deles serem tão iguais a si mesmo
E de não haver uma sequência de passos que o não seja
É que eu vejo a necessidade de nos não iludirmos sobre o sentido claro das coisas
Assim havíamos de julgar que um corpo inanimado sente e vê diferentemente de nós
E esta noção pode ser admissível demais seria incómoda e fútil
Se quando pensamos podemos deixar de fazer movimento e de falar
Para que é preciso supor que as coisas não pensam
Se esta maneira de as ver é incoerente e fácil para o espírito?
Devemos supor e este é o verdadeiro caminho
Que nós pensamos pelo fato de o podermos fazer sem nos mexermos nem falar
Como fazem as coisas inanimadas
Quando me sinto isolado a necessidade de ser uma pessoa qualquer surge
E redemoinha em volta de mim em espirais oscilantes
Esta maneira de dizer não é figurada
E eu sei que ela redemoinha em volta de mim como uma borboleta em volta de uma luz
Vejo-lhe sintomas de cansaço e horrorizo-me quando julgo que ela vai cair
Mas de nunca suceder isso acontece eu estar às vezes isolado
Há pessoas a quem o arranhar das paredes impressiona
E outras que se não impressionam
Mas o arranhar das paredes é sempre igual
E a diferença vem das pessoas. Mas se há diferença entre este sentir
Haverá diferença pessoal no sentir das outras coisas
E quando todos pensem igual duma coisa é porque ela é diferente para cada um
A memória é a faculdade de saber que havemos de viver
Portanto os amnésicos não podem saber que vivem
Mas eles são como eu infelizes e eu sei que estou vivendo e hei de viver
Um objeto que se atinge um susto que se tem
São tudo maneiras de se viver para os outros
Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços
Depois de comer quantas pessoas se sentam em cadeiras de balanço
Ajeitam-se nas almofadas fecham os olhos e deixam-se viver
Não há luta entre o viver e a vontade de não viver
Ou então — e isto é horroroso para mim — se há realmente essa luta
Com um tiro de pistola matam-se tendo primeiro escrito cartas
Deixar-se viver é absurdo como um falar em segredo
Os artistas de circo são superiores a mim
Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo
E dão os saltos só por os dar
E se eu desse um salto havia de querer saber por que o dava —
E não os dando entristecia-me
Eles não são capazes de dizer como é que os dão
Mas saltam como só eles sabem saltar
E nunca perguntaram a si mesmos se realmente saltam
Porque eu quando vejo alguma coisa
Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo
Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo
Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam
E se as visse também podia supor que elas sucediam
Uma ave é sempre bela porque é uma ave
E as aves são sempre belas
Mas uma ave sem penas é repugnante como um sapo
E um montão de penas não é belo
Deste fato tão nu em si não sei induzir nada
E sinto que deve haver nele alguma grande verdade
O que eu penso duma vez nunca pode ser igual ao que eu penso doutra vez
E deste modo eu vivo para que os outros saibam que vivem
Às vezes ao pé dum muro vejo um pedreiro a trabalhar
E a sua maneira de existir e de poder ser visto é sempre diferente do que julgo
Ele trabalha e há um incitamento dirigido que move os seus braços
Como é que acontece estar ele trabalhando por uma vontade que tem disso
E eu não esteja trabalhando nem tenha vontade disso
E não possa ter compreensão dessa possibilidade?
Ele não sabe nada destas verdades mas não é mais feliz do que eu com certeza
Em áleas doutros parques pisando as folhas secas
Sonho às vezes que sou para mim e que tenho de viver
Mas nunca passa este ver-me de ilusão
Porque me vejo afinal nas áleas desse parque
Pisando as folhas secas que me escutam
Se pudesse ao menos ouvir estalar as folhas secas
Sem ser eu que as pisasse ou sem que elas me vissem
Mas as folhas secas redemoinham e eu tenho de as pisar
Se ao menos nesta travessia eu tivesse um outro como toda a gente
Uma obra-prima não passa de ser uma obra qualquer
E portanto uma obra qualquer é uma obra-prima
Se este raciocínio é falso não é falsa a vontade
Que eu tenho de que ele seja de fato verdadeiro
E para os usos do meu pensar isso me basta
Que importa que uma ideia seja obscura se ela é uma ideia
E uma ideia não pode ser menos bela do que outra
Porque não pode haver diferença entre duas ideias
E isto é assim porque eu vejo que isto tem de ser assim
Um cérebro a sonhar é o mesmo que pensa
E os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos
Como outros quaisquer. Se vejo alguém olhando-me
Começo sem querer a pensar como toda a gente
E é tão doloroso isso como se me marcassem a alma a ferro em brasa
Mas como posso eu saber se é doloroso marcar a alma a ferro em brasa
Se um ferro em brasa é uma ideia que eu não compreendo
O descaminho que levaram as minhas virtudes comove-me
Compunge-me sentir que posso notar se quiser a falta delas
Eu gostava de ter as minhas virtudes gostosas que me preenchessem
Mas só para poder gozar e possuí-las e serem minhas essas virtudes
Há pessoas que dizem sentir o coração despedaçado
Mas não entrevistam sequer o que seria de bom
Sentir despedaçarem-nos o coração
Isso é uma coisa que se não sente nunca
Mas não é essa a razão por que seria uma felicidade sentir o coração despedaçado
Num salão nobre de penumbra em que há azulejos
Em que há azulejos azuis colorindo as paredes
E de que o chão é escuro e pintado e com passadeiras de juta
Dou entrada às vezes coerente por demais
Sou naquele salão como qualquer pessoa
Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam
A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrevãos das portas
É uma tristeza feita de silêncio desnivelada
Pelas janelas reticuladas entre a luz quando é dia
Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recantos montões de negrume
Correm às vezes frios ventosos pelos extensos corredores
Mas há cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos salões
E tudo é dolorido neste solar de velharias
Alegra-me às vezes passageiramente pensar que hei de morrer
E serei encerrado num caixão de pau cheirando a resina
O meu corpo há de derreter-se para líquidos espantosos
As feições desfar-se-ão em vários podres coloridos
E irá aparecendo a caveira ridícula por baixo
Muito suja e muito cansada a pestanejar

FIM
DE "PARA ALÉM DOUTRO OCEANO DE C[OELHO] PACHECO"

(1) Pacheco é um episódio heterónimo de Fernando Pessoa de quem se não conhece mais nenhuma produção. Estas notas que assina, com
uma técnica quase futurista de disposição e pontuação, seguem estranhamente próximo o tipo de raciocínio, forçosamente linear e de associações, de Alberto Caeiro. O conteúdo é, no entanto, mais de um gosto, ainda indiscriminado, a Álvaro de Campos. Não é uma composição de primeiro plano, nem como sentido poético nem como expressão estética. Porque não está datado, nada se pode concluir da sua feitura. O estar dedicado à memória de Alberto Caeiro pode apenas querer significar que a tal foi destinado à altura da publicação de Orpheu 3. Mais do que uma influência concreta de Alberto Caeiro, esta composição parece antes um quase e indistinto proto-Caeiro-Campos.

1.07.2011

Assim a modos da fala no sentir da gente...


As Maneiras de Dizer

Não vás ao monte, Nise, com teu gado,
Que lá vi que Cupido te buscava;
Por ti somente a todos perguntava,
No gesto menos plácido que irado.

Ele publica, enfim, que lhe hás roubado
Os melhores farpões de sua aljava;
E com um dardo ardente assegurava
Trespassar esse peito delicado.

Fuge de ver-te lá nesta aventura,
Porque, se contra ti o tens iroso,
Pode ser que te alcance com mão dura.

Mas ai! Que em vão te advirto temeroso
Se à tua incomparável formosura
Se rende o dardo seu mais temeroso!
Luís Vaz de Camões

Quando pretendemos meter as mãos nos bolsos de alguém, tripudiar sobre o seu carácter, modos de comportamento ou personalidade, integridade física e moral, dignidade, crenças e valores, afirmamos qualquer coisa sobre essa pessoa que se enquadra naquelas expressões (clichés) a que é comum chamar «maneiras de dizer».

Fazemos de conta que quanto dizemos não é o que queríamos afirmar mas outra coisa muito diferente e ala, cá vai mais uma daquelas que até os cães enjeitam. Alguns dirão que se enquadra no universo das expressões idiomáticas usuais, e que é uma forma de ser comedido, de levar com jeito alguém a escutar coisas que de outro modo não consentiria ouvir, como na Beira Baixa, se costuma indicar, ou que é dar um jeito-maneiras na conversa, à semelhança do que no português do brasil se comete, faltando ainda esmiuçar o que dirão os demais países da Comunidade dos falantes de Língua Oficial Portuguesa, mas que não deve andar muito longe do nosso linguajar.
É um modo de falar, pois então! É um supor, quero eu recomendar, pois quase nunca é assim que sucede. É, é sempre ao contrário… A bem dizer! Aquilo que queremos fazer, na realidade, é atirar lama à parede, sujar com os nossos formulários preconceituosos, a imagem que de si essa pessoa cultiva, autocriou ou fomentou durante a sua existência, ou parte dela. Atiram os petardos e depois fazem-se esquerdos, finos, desentendidos, lucas, alonsos, de novas, de sonsos e inocentes, com rapapés, gagos e gagas, põem manto de seda (parda) sobre o dito, metem-se na moita, dão-se ares de rasoura encarecida, fazem vista grossa à reação de quem não esteve pelos ajustes, chegando mesmo a ofenderem-se, melindrarem-se, vitimarem-se, quando lhes pagam igual moeda.




Fazer orelhas moucas a este tipo de dichotes e seus “dichotizadores”, não me parece a melhor estratégia a seguir, se queremos um relacionamento franco e aberto com os nossos concidadãos, e entre quem em português se entende. Querem lixar o parceiro, estão no seu direito, claro está, mas vão fazê-lo com quem tem obrigação de os/as aturar, vão sarrazinar a pata que os/as pôs. Se fizeram de suas vidas uma aberração ignota e visceral, então que comam as suas tripas envenenadas, abjetas e nojentas. Portanto, na cadeia de sentidos consequente às suas aspirações, digamos, quer dizer: digo eu!, que sejam todas e todos muito felizes, mas que não me incluam como participante, nem testemunha dessa suma felicidade que os inebria e encanta. Exato. Sejam tudo quanto queiram e puderem, mas não me incluam como seus cúmplices na tramoia que edificaram.
As maneiras de dizer refletem invariavelmente as maneiras de ser. É inolvidável que entre umas e outras, não há nenhum diferencial correlativo. Aquele que fala sem se ouvir não existe mentalmente nem em termos de humanidade. Não goza de consciência e responsabilidade suficientes para o podermos considerar «gente». É-se em direto aquilo que parecemos em diferido, por mais que representemos ser de outro jeito. A solução está em dizer quanto queremos sem recorrermos a maneiras e afectações para o fazermos, a frio e sem subterfúgios marginais à humana condição.
No tempo em que os homens e mulheres não sabiam falar, ou não podiam por motivos de poder ou religião, é que era preciso recorrer a esses meios de dizer uma coisa para afirmar outra. Hoje isso está fora de moda, é inútil e apenas reflete a personalidade contorcida e atrofiada de quem pratica tamanha modalidade – asnidade, se faz favor, acrescentarão os mais expeditos e lampeiros. Quer dizer que outra pessoa é assim ou assado, então sujeita-se às consequências da sua afirmação. Não há meio-termo, nem tergiversões maneiristas. O sim é sim, o não é não, e o sopas é sopas. Quem não pode viver sob esta constatação inalienável, então que resolva a situação a favor da humanidade, omitindo-se dela, subtraindo-se a ela, e deixando de a atrapalhar na evolução que merece, e os restantes mortais aliviados das suas manhosices.





Luís de Camões, ainda foi do tempo em que para dizer aquilo que queria dizer, se era obrigado a recorrer a formatos poéticos, épicos ou trovadorescos, e mesmo sendo exímio naquilo que fazia, como o futuro veio a confirmar, foi parar com os costados às Índias e aos cárceres da fidalguia. Camilo Castelo Branco mais tarde não teve melhor sorte. Porém, quando nos vemos com o exemplo de Cuba e somos anticubanos porque havemos de andar de reynaldas às escâncaras?
Agora que a República está a fazer um século, coisa que é já ser velhinha – maneira de dizer! – pese embora sem precisar de bengala, também lhe podíamos acrescentar um transplante de qualidade e transparência, a ver se não adoecia como à porca do Bordalo Pinheiro, por tantos andarem a mamar nela, desde os negócios legítimos com a banca ilícita até aos direitos ilegais com a banca legal. E desguardarmos os bigodes retorcidos ao regime, aonde até as mulheres já montam e fazem o render (da guarda), aconselhando-a como o poeta fez à Inês, que naqueles encómios se chamava Nise: Fuge de ver-te lá nesta aventura, / Porque, se contra ti o tens iroso, / Pode ser que te alcance com mão dura!

1.02.2011

Ecos do Escurecer...


As Vozes de Nuphar(1)

“(Sim, queremos perceber o que se passa à nossa volta, organizar o mundo, e por isso nos fazemos espertos e rimos, descobrindo, porque pensar é um gozo: juntamos uma coisa a outra e outra e no fim há um desenho que aparece. Provavelmente será assim com tudo, o universo deve estar cheio de indícios, como sinais numa floresta.)”

Teolinda Gersão, in A Árvore das Palavras, pp 88

Há quem insista (obtusamente) em atribuir a José Saramago as virtudes da Madre Teresa de Calcutá, esquecendo que se ele também era um humanista antropocêntrico como essa religiosa e demais almas afetas ao catolicismo, leigas ou iniciadas/ordenadas, ele era-o, ou fora-o, apenas por acréscimo semântico e técnico da sua condição de escritor engajado, ou comprometido com forças ideologicamente sustentadas, e terá sido exatamente por essas circunstâncias que foi laureado com o Nobel e outros “reconhecimentos” internacionais e ibero/lusófonos, de nomeada e apregoada humanidade …, à falta de melhor definição e terminologia, mas que nunca o terão levado a passar tanto tempo de joelhos como essa santa e canonizada mulher.




Se poderá inferir, portanto, que o reparo acarreta consigo a incontingência de uma reposição da ordem no caos, propositadamente criado por muitos, que não encontrando outras maneiras como denegri-lo, tentaram agremia-lo às suas hostes, seitas e corporações, sobretudo depois de já não precisarem do seu consentimento para fazê-lo, considerando que falecido é e está, por mais documentários e biografias que agora lhe façam e teçam, em consonância com o rifão popular do quando não os conseguires vencer, então junta-te eles, ou, neste caso, específico junta-o a ti, posto que esse «ti» são todos quantos não conseguiram engolir o sapinho mas agora consideram que Portugal também já tem um Prémio Nobel da Literatura.
O importante é que o amor-próprio e autoestima se mantenham intocáveis e incontestavelmente desenxovalhados. O fomos vítimas de uma injustiça, mas sobrevivemos-lhe e reparámo-la definitivamente, compensa-nos das agruras e batráquios custosamente mastigados, que embaçaram na digestão, concedendo-nos o derradeiro vómito “curativo” da indisposição sofrida, essa mesma que nos azedou os humores e infetou o fígado social na destilação do (amargo) fel da existência (gregária). Sentimo-nos enfim capazes de outra – salvo seja!






Porém, há ainda muito quem nisso fervilhe os tutanos, e considere ser possível usar a percepção motivada como forma de procuração para ajuizar do comportamento dos demais, conforme acha que eles obrigatoriamente têm de ser e de pensar, na mira de garantir que o seu estado de ânimo – e felicidade narcísica – se mantenha dentro dos limites do suportável, continue fiel ao preconceito em que habita e chafurda cantando e rindo. Por exemplo, afirmando ser provocação o uso de um capuz, carapuço ou gorro para quem se resguarde do frio sentido nas instituições onde o ar condicionado só dá vento, se utiliza um “Magalhães” para escrever em público, ou defende e argumenta em favor e resguardo da sustentabilidade e biodiversidade, nas atitudes que envolvem a sociedade, lhe usam o erário e aplicam recursos que não são exclusiva propriedade desta geração. Creio que estas florinhas dos pântanos, do lodo em que suas almas se reproduzem e defecam a obtusidade preconceituosa de que se alimentam hoje, e em que se amamentaram na sua doutoral formação, utilizam a língua não para se expressarem e criarem comunicação, mas a bifurcaram de viperina índole, para envenenar todos quantos à sua volta se mexem contra quem aproveita e cria com os equipamentos e potencialidades que [eles] não sabem usar, mas de que dispõem como se fossem propriedade sua, quiçá outorgada por divina concessão à supremacia dos seus genes, da complacência e laxismo com fundamento corporativista, ou por mérito missionário de arregimentados no mesmo credo dos caciques locais.
Podia ter dó e sentir pena dessa gente. Podia falar-lhe no dia-a-dia como se nada tivesse acontecido. Todavia, se assim me comportasse e agisse estaria simplesmente a estimular a sua reprodução maléfica, por imitação e hipocrisia, dando ao seu ar de supremacia antropocêntrica um estandarte de qualidade que não têm mas de que se outorgam, e com se que pavoneiam, e exibem, gloriosamente desde as natalícias quadras às mirras dos magos que viram estrelas onde os restantes mortais apenas vislumbraram planetas.
Por conseguinte, apenas me apraz esclarecer, a todos quantos ouvirem considerações a meu respeito, classificando e denegrindo as minhas atitudes e ações, vestuário e condição física, que não precisam de levar a sério tais comentários, pois não passei qualquer procuração a essas bestas para os emitirem, nem me incomoda o que qualquer filho da puta diga acerca de mim. Obrigado, e aproveitem a quadra natalícia e Ano Novo para seguir o conselho que a Madre Teresa de Calcutá dava aos políticos deste mundo (e do outro): passem mais tempo de joelhos – que há muitas lotarias que lhes podem sair, mesmo sem terem jogado. A sorte grande cabe a todos e todas – se estiverem na posição certa para recebê-la!

Normalmente, quem se mistura com gente sacana, tanto se dá, até que se dana. Todavia, temos tendência para branquear os sinais, alimentando a esperança, pondo o ênfase na possibilidade de estarmos errados, sermos paranoicos ou pessimistas. Insistimos teimosamente em recuperar a crença – caprichosa e ingénua, é claro – de que as pessoas, sobretudo aquelas com quem convivemos quase diariamente, e que frequentam os mesmos sítios que nós, são menos animais que as rústicas e grosseiras, menos vis que os australopitecos da humanidade pré-histórica… Pois bem: é mentira, ainda o são mais. Aqueles eram bestas por necessidade, na luta constante pela sobrevivência. As de agora, são-no por malvadez e inveja, por vício de destruir o próximo e sede de domínio. E as suas vozes respiram a estagnação infeta da febril podridão com que querem lambuzar o mundo, para que entre ele e elas o desenho não destoe, nem sintam necessidade de mudar, adaptando-se, uma vez que estão no seu habitat natural.

O que apenas é lamentável, não mais, nem menos que isso!

(1) Planta da família das Ninfeáceas, representada em Portugal pela espécie Nuphar Lutea (golfão-amarelo), hidrófilo rizomatoso com folhas flutuantes e submersas, flores com grandes pétalas amarelas expandindo-se acima do nível da água, que aparece em águas de corrente fraca ou quase estagnada.

12.23.2010

A Maldição de Petrarca (conto)

“O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura – foram os Sonetos.
- Eça de Queirós, in Cartas d’Amor / Correspondência de Fradique Mendes

A falta de algo é apenas um reconhecimento de quanto “esse alguma coisa” é deveras importante para quem assim sente a dita ausência, quase imperiosa ou momentaneamente fundamental, que o carecido encarece, se afoita no universo dos não-seres como se tanto fosse uma primazia assaz valorizada. Se for pessoa, posto que todas são além de seres indiscutíveis, também indivíduos com direitos e identidade inalienáveis, a carência mistura-se com outros sentimentos de diferente motivação, significado e afectividade, indo desde a saudade à impotência fatal, a que nunca serão alheios a ética e a biologia, a formação e a natureza, ou a personalidade dos sujeitos que tomaram a nomeada consciência como circunstância evidente e, quiçá, incontornável.

Ao fenecer do dia, se escurece, quando o lusco-fusco se volatiliza em negritude, aquilo que registamos não é a invasão do negrume mas a falta de claridade. (Pelo menos, comigo é o que sucede!...) Antes víamos mais ou menos nitidamente, porém deixámos de o conseguir, e os contornos facilmente definíveis das coisas ou a intensidade das cores, dos brilhos e das formas aparentes, prescreveu, esgotou-se e esvaiu-se como um prazo a que expirou a autenticidade, notando nós que o demais que vier, se de igual intensidade ou semelhante, então pertencerá ao reino do fantasmagórico, que é condomínio da fantasia e da alucinação, patim comum às escaladas do sonho. Impreterivelmente. Porque a nossa contabilidade pessoal e especial está imbuída do lucro na aquisição do novo sem prescindirmos da conservação do velho, no cumprimento imediato duma mudança racionalizada, e que subscreva igualmente a imutabilidade do anteriormente adquirido, que ganha foros de definitivo. É a herança da primazia do herdado sobre o conseguido, do inato sobre o aprendido. Somos isto ou aquilo, de entre tudo o que alguns de nós podemos pensar ser, não só sociais e gregários, mas também atreitos a hábitos, e ao menor esforço consequente, que pouparmo-nos na existência tida, muito melhor é que sacrificarmo-nos continuamente por uma identidade e essência vindoura, ainda do hemisfério do desconhecido, por muito que seja ansiada e preferida.
Tecemo-nos no entretecimento das teias do destino, da conjectura sobrenatural para que fomos convocados mas não ouvidos, crendo sempre que do quanto nos coube em sorte, nem metade é daquilo que merecemos, sobrevalorizando o passado do esfarelado barro que nos constitui, mesmo quando o presente – e o futuro! – se avizinham a um El Dourado insofismável. Nada se compara ao que fomos, havendo até quem justifique a felicidade da insuficiência da infância como o suprassumo da existência, se comparada com a fortuna de uma reforma sem preocupações substanciais, nem qualquer tipo de necessidades por satisfazer. Ou seja, ainda que tenha-mos vivido no limiar da sobrevivência até ao dia anterior, só pelo facto dessa circunstância difícil já ter sido ultrapassada com êxito e relativo sucesso, então tudo tem de superiormente apetecível se o comparamos às facilidades antevistas para os dias de hoje ou de amanhã.
Enfim, o realmente ideal é o inconseguível e inalcançável, seja utopia ou sentido prático no terra-a-terra semeado e colhido, e isto porque já passou, pois tudo o que foi jamais se repetirá ou voltará a ser, que essa é a suprema evidência para quem se atém a ver a História como um processo de evolução, e não como um estado de estagnada criação através dos tempos e do tempo, dos homens e do universo, no contínuo afiar o bico à alma para escrever a biografia de cada qual.
Portanto, quando me sentei à espera que regressasses da escola, a que foras apresentar um trabalho, conjuntamente com os restantes membros do grupo que te calhou, por acaso ou velhacaria do prof., como me veio posteriormente à ideia, ironicamente, estava muito longe de imaginar o que me havias de propor, confirmando que «está na hora de alterar isto», conforme determinaste, aclarando a voz, para que não tivesse a mínima dúvida de que estava a ouvir precisamente aquilo que dizias, e não outra coisa qualquer, pondo a ênfase no fato de ser mais que tempo de «vivermos na mesma casa, dormirmos na mesma cama, e ter apenas por amigos os que forem do agrado de ambos», uma vez que «está cada vez mais difícil estar seja onde for, sabendo que podes estar ou não estar à minha espera». «Pronto», disseste rematando como um «disse» de quem acabou o discurso na confraria da urbanidade próxima. «Mas eu estou» retorqui, na esperança de que invertesses caminho, retrocedesses na intentona de alterar a nossa condição de celibatários sob mútua ajuda e consentimento, porém atiraste um «porque queres, ou não tens mais nada para fazer, como se eu fosse um comprimido para matar o tédio, não por compromisso e garantida maturidade» complementaste, ao que empederni ressentido, mas não adiantou nada, já que aperraste os dentes e me olhaste de esguelha nas horas que se seguiram, talvez atirando-me facas pelas fisgas das pestanas, faiscando irritação e contrariedade.
Voltaras decidida a mudar-me a vida, e a mudar-me com ela. Achavas que era um privilegiado ímpar, o que era inadmissível à luz das leis e do destino, das criaturas celestes e dos desígnios humanos. Inesperadamente. E para meu desconsolo e inquietação adiantaste que «amanhã falo com os meus pais para me disponibilizarem a casa na Serra, já que raramente é ocupada, nem em férias lá vamos, apenas nos dias de faxina, anualmente, limpando-a para que os bichos-de-conta não se sintam totalmente desprezados na sua fé de cerzir os murmúrios das noites invernais», como se eu não pudesse reclamar outra hipótese, apelar para a lógica e sensatez do diálogo negocial (e democrático), ou sugerir uma solução menos radical.
O semblante carregado e circunspecto dos momentos de dúvida e incerteza, coisa frequente de há meses a esta parte, dava-te aquela ténue sombra de frieza que acompanha o mármore nas tardes chuvosas e nebuladas, em que as paredes ficam baças gemendo humidade na brancura polida dos entes deslocados, subtraídos ao seu habitat natural, no subterrâneo filão das escarpas abruptas e rectas a que foram extraídas. Receei a irascibilidade adivinhada, tentando adiar uma discussão que não poderíamos evitar, nem esconder na roupagem camuflada do isto passa depois de uma noite de sono profundo e reparador. Fiquei na esquina entre o não saber que fazer nem pensar, balançando como um soldadinho de chumbo em versão de sempre-em-pé, dlim-dlam, dlim-dlam, de um lado para o outro, agora penso, agora faço, agora sinto, agora ajo, porém não saía dali nem tomava qualquer decisão, calado e calando, que o mesmo é dizer, consentindo, se o ditado ainda estiver em vigor no dicionário das expressões idiomáticas ou das frases feitas.
Tenho a certeza que, embora arreliada, sabias exatamente o que se passava na minha cabeça, vias as faíscas que me estralejavam nos píncaros dos tutanos a que vulgarmente chamamos cérebro, uns, os armados com a bagagem das experiências científicas ou posologias das farmacopeias compendiadas, e alma, outros, decididos a en-contrar a fé em todo o lado, sobretudo no corpo humano, mesmo nos sítios onde essa busca mais difícil se torna, por fora como por dentro, a que por única via de acessibilidade é a venosa, e o venenoso impulso da imaginação sob os auspícios de Delfos no descobre-te a ti próprio.
«Tá; se é o que queres, então vai ser isso que faremos», ouvi-me eu dizer, como se a voz não fosse minha mas com a certeza absoluta de que era ela. «Com calma, sem pressas ou afogadilhos, que o tirar o pai da forca já está fora de prazo» entre os desesperados afrontamentos duma andropausa precoce. Não via como é que uma felicidade se pronunciava pela unilateralidade das decisões, contudo, porque a vontade me entrara naquele fim de lusco-fusco onde a obscuridade se mede pela falta de clareza e frontalidade, lucidez e objectividade. «Estou disposto a correr qualquer risco para não te ver desiludida e acabrunhada» sentenciei, crendo-me sincero, e discreto, sem no entanto perder o sorriso de gentil afeição que ela me inspirava, nem temer que viesse a usar a confissão futuramente, como argumento, noutras demandas.
Satisfeita com o rumo (e a anuência) da “negociação” (ausente), Shara resumiu e rematou com um «então, vamos jantar a minha casa, que minha mãe disse que hoje ia fazer uma miolada com rins, daquelas que tu tanto gostas», o que me levou a concluir que a história tinha alicerces antigos e fundeados no logradoiro da família. Opor-me estava fora de questão, que quando os familiares se unem em torno de uma decisão do tipo “é o melhor para os filhos”, entra em vigor o estado do vale tudo, e o escolher fica a ser apenas um anexo sem importância no capítulo do tem-que-ser, e por conseguinte, se passa de imediato à modalidade do escolher obrigatório, ou do voluntariado à força. E adormeci os olhos no seu rosto, que me embalavam pestanejando subtilmente, onde ressuscitava o brilho dos instantes áureos, de quando inventávamos pretextos para nos encontrarmos, infiltrando-nos nas atividades um do outro ou desenfiando-nos das obrigações a que particularmente tínhamos sido convocados. Descansei-os com o alívio de uma inquietação pressentida que se acoitou na perspectiva de ser infundada, revendo as ordens como simples apreciações sobre fatos, talvez opiniões similares ao estado do tempo, como se não tivessem demais consequências do que confirmar estar um lindo dia, ainda que nada visível corrobore tal constatação.
Provavelmente estaria a acatar as determinações de um hábito antigo, nascido e reforçado pelas repetições de outras esperas, sobremaneira frequentes e justificadas pelas diretivas dos adultos que nos forçavam a acompanhá-los para onde quer que fossem, sabendo muito bem que isso era a última coisa que desejávamos na vida. Contrariedade lógica, como é óbvio, porquanto se queríamos aprender a viver, devíamo-lo fazer conforme as expectativas do futuro e não conforme os ditames e emaranhações ancestrais, que para nós não possuíam uma ancestralidade muito remota, pois redundavam apenas à pré-história (infância) dos nossos progenitores e avós.

Conhecia-a quando fez, em Maio, seis anos, e agora já tem vinte e quatro, que é o produto da multiplicação por quatro da idade do primeiro dia. Longo currículo de esperas e desencontros, por sinal, em abono dos comportamentos adquiridos através da repetição que viram hábitos. Suponho que não serei o único a quem isso aconteceu, todavia não me serve de consolo nenhum reconhecer que outros andaram – ou andam – também nesta barca, atravessando o purgatório sem minimamente se questionarem acerca da justiça e legitimidade quanto ao percurso. E à navegação. É-lhes inerente, é-me incluído (acoplado, embutido) na própria vida e faz parte integrante da motivação e vontade de viver. Escutá-la, através do silêncio e da espera é tão-só uma versão diferente da fala – da sua fala –, da música – da sua música –, daquela que ela escolhe para ouvir e dar-me a ouvir, dos filmes – dos seus filmes –, precisamente aqueles que decide ver comigo e depois discutimos ambos, livros, cozinhados, fotografias, quadros, paisagens, e por aí fora, numa longa lista de usufrutos comuns.
Se há cumplicidade não se manifesta de nenhuma forma específica, tão-só praticamos a comunhão e a partilha, de uma maneira espontânea, senão automática, naturalmente, por não haver outra maneira de estarmos e convivermos, ou desconhecemo-las, e sem pensar nela, pô-la em causa, verificá-la ou fazê-lo propositadamente. Esporadicamente, se precisamos de interferir em defesa um do outro, perante terceiros, no convívio diário ou em família, não nos evitamos de concretizar essa peleja de imediato, sem qualquer pedido de autorização nem toque a rebate, ostentar ou exibir qualquer espécie de procuração especial, uma vez que a ninguém passa pela cabeça haver alternativa ou outra modalidade plausível. É categórico protegermo-nos das investidas exteriores, considerando que sempre assim foi desde que nos lembramos de quem somos, seja numa memória recente como remota, de há duas dúzias de anos. Supor que haja diferente modo de agir é já de si uma blasfémia impensável. Acreditar que nem todos os casais, civis ou oficiais, casados ou simplesmente unidos de fato, uma fantasia excêntrica, uma imaginação de inconcretizada hipótese, superlativamente hipotética além de profundamente remota.
Mas, retórica à parte, deposta a teoria, vamos ao que aqui me trouxe: a comunicação das intenções de Shara aos pais confrontando-os com o meu assentimento. E fizeste-o logo que entrámos em casa, como se precisasses de justificar a minha presença ali, nesse momento e no seguinte, durante o jantar.
«O Quim janta cá, para conversarmos sobre o que fazer quanto ao nosso futuro», avisaste a tua mãe, ainda com os casacos por pendurar no cabide, atrás da porta. O Quim sou eu! – Restos da infância que, afinal, foi prolongada com afinco e cultivada por ti, que insistes em tratar-me pelo nome do primeiro encontro.
«Futuro… Que futuro?», conjecturei de mim para comigo, a pensar «que tipo de futuro pode haver numa vida em que até hoje ainda não fiz outra coisa, a não ser estar disponível e tão perto quanto possível de ti?», porém, se bem o pensei, melhor o calei, e recalquei pressionando para o fundo dos fundos, temendo que tu, Shara, o adivinhasses, coisa que sucede frequentemente, sobretudo quando notas haver no meu semblante aquela sombra de receio e dúvida a que comummente chamamos, talvez confundidos, de circunspecção.
O jantar, é o costume: tu vais para a cozinha, conversar e acabar a confecção dos acepipes, eu fico a ver televisão com o teu pai, a fazer sala, entabulando uns reparos de ocasião sobre política e futebol, sobre o comércio local e a carestia de vida, que nos vão espremendo os cobres – e os cromados. Às vezes D. Catarina – eis como se chama a mãe de Shara, não sei porquê, nem por que influências, embora desconfie que tem a ver com uma gravura da monarquia que havia em casa dos avós – deita a cabeça à porta da sala, perguntando-nos se queremos isto ou aquilo, deste ou doutro jeito. A cozinha sempre foi o seu império. Costuma dizer que «é a melhor dependência da casa», e desconfio bem que sim, principalmente no Inverno. Quente, acolhedora, repleta de aromas e motivos campestres: as cebolas e alhos em réstias assépticas e decorativas, sobre o friso da chaminé alguns utensílios de cobre, de concavidade ampla e larga, de lume de chão, raramente aceso, é certo, dava à vontade para oito pessoas ao borralho, uma bancada para preparar os ingredientes e uma mesa redonda, firme, pesada e robusta, com saia e cobertura grossa e fofa, sob as quais pode ser aposta uma braseira – de picão! – para conforto na tomada do caldo, nas refeições sem visitas. Um guarda-prata em madeira maciça de castanheiros, escura e rústica. O sofá virado para a estante, onde fica também a televisão. É o sítio ideal para ler e escrever, trocar impressões acerca do quotidiano e vizinhança, porquanto transpira cumplicidade por todos os cantos e móveis.
Foi aí, assim que a tua mãe foi para a sala de jantar, pôr a mesa e nela a refeição, que tu, ela, me chamou à cozinha e me questionou se estava de acordo e se era realmente o que queria e pretendia da vida. Eu disse imediatamente «claro, como podes pensar que me passou, sequer, pela cabeça alguma coisa diferente disso? Olha, até te fiz um soneto», e retirei-o do bolso, onde o poema estava, para ler-to. Ficaste concentrada ao ouvi-lo, atenta e contrita, enquanto disparava os versos numa rajada, quase violenta, e incontida. Achaste-o bom. «A sério, foi o melhor poema que escreveste até hoje…» e senti-me nas nuvens, finalmente compreendido e aceite.
Porém, remataste: «Ok, então estamos de acordo, e vamos em frente. Mas uma coisa – a partir de hoje, acabaram-se os sonetos. Tá?»
Fiquei sem palavras. Também não eram precisas, que os silêncios às vezes são mais construtivos que a melhor argamassa.

12.22.2010


Idílio (1)



Praias que banha o Tejo caudaloso,
Ondas que sobre a areia estais quebrando,
Ninfas que ides escumas levantando,
Escutai os suspiros de um saudoso.


E vós também, ó côncavos rochedos,
Que dos ventos em vão sois combatidos,
Ouvi o triste som dos meus gemidos,
Já que de amor calais tantos segredos.

Ai, amada Tirceia, se eu pudera
Os teus formosos olhos ver agora,
Que depressa o pesar, que esta alma chora,
No gosto mais feliz se convertera!


Oh, como então ficaras conhecendo
Quanto te amo, se visses a violência
Com que estão dos meus olhos, nesta ausência,
As saudosas lágrimas correndo!


Tanto neste pesar, que estou sentindo,
O triste coração se desfalece,
E tanto me atormenta, que parece,
Que ao sofrimento a alma vai fugindo!


Mas oh! Qual há de ser a crueldade
Deste terrível mal em que ando envolto,
Se a qualquer parte, enfim, que os olhos volto
Imagens estou vendo de saudade!


Uma serena tarde, já sol-posto,
Te vi sobre esta penha estar sentada;
Ali naquela fonte prateada (2)
Estiveste banhando o alvo rosto.


Dali de quando em quando os olhos belos
Movidos com tal gesto me voltavas,
Que em cada movimento asseguravas
Uma nova esperança a meus desvelos.


Ali na branca areia se estão vendo
Ainda, doce bem, tuas pisadas,
Que entre outras, que vejo assinaladas,
Estou distintamente conhecendo.


Vê como vivamente andas impressa
Nesta alma, que por ti se abrasa, amante!
Mas nem amor ao meu há semelhante,
Nem outra que contigo se pareça.


Por ti sempre dos olhos desatando
As lágrimas estou nestes retiros;
Entre soluços mil e mil suspiros
Em vão ando o teu nome derramando.


Nesta praia não há, nem pelo prado,
Rústica penha ou árvore sombria,
Tenra flor, duro tronco, a fronte fria,
A quem por ti não tenha perguntado.


Talvez se visses quanto sinto, ausente,
Tivesses dó de ver-me em tal tormento;
Mas que importa que vejas meu lamento (3),
Se já teu peito ingrato amor não sente?


Vem colher deste prado as belas flores,
Vem gozar destas sombras a frescura;
Mostra-me ao menos tua formosura,
Inda que armada de cruéis rigores.


Qual a confusa névoa, que escurece
Na luz da madrugada os horizontes (4)
Que logo dos floridos e altos montes
Com a vista do sol desaparece,


Assim eu, neste mísero desgosto,
O pranto que desato pela terra
De meus saudosos olhos se desterra,
Quando o sol aparece de teu rosto.


Ah! Se pudesses ver, doce inimiga (5),
O estrago que me causa esta saudade,
Pode ser que o impulso da piedade
Te obrigasse ao que o amor te não obriga!


(1) O presente Idílio, independentemente da “desgraça” que acarreta, foi endereçado por Domingos dos reis Quita à sua Tirceia, nome poético pelo qual ficou identificada Teresa Teodora de Aloim, admirável mulher que, não obstante, casada, viúva, e seguidamente recasada, protegeu e recolheu o poeta, na miséria como na doença (tuberculose), até ao dia em que finalmente faleceu. Quanto à ausência enunciada, supõe-se derivar da distância que ia de Lisboa à Quinta de Santo António, na Moita, onde morava Tirceia durante o tempo de (ainda) solteira.
(2) Conforme anotação de Rodrigues Lapa, a fonte prateada é um cliché clássico, a cujos modelos (do classismo) o autor terá recorrido “servilmente”, mas sem trazer qualquer novidade para a poesia, além de alguma brandura, certa melancolia, próprias das almas e corpos fragilizados ou combalidos.
(3) Neste vejas meu lamento está patente que o ver inclui também o ouvir porquanto o autor se refere à leitura em voz alta dos seus lamentos escritos.
(4) Nítido tributo – mais um! – ao classicismo.
(5) Oximoro igualmente “herdado” dos inimitáveis clássicos…



Domingos dos Reis Quita – Nasceu em Lisboa em 1728, filho de um comerciante arruinado viu-se forçado a seguir no ofício de cabeleireiro, aos 13 anos, para ajudar a sustentar a família. Nos ócios da oficina, tomou-se de amores pelas letras, lendo com entusiasmo, principalmente Rodrigues Lobo. Começou por experimentar a poesia, adquirindo alguma popularidade, fazendo passar essas primeiras composições como sendo da autoria de um frade que habitava nas Ilhas. Como poeta cabeleireiro frequentava a casa de um amigo, por cuja filha, de seu nome, Teresa Teodora de Aloim, se apaixonou, fez dela a sua musa, dirigindo-se-lhe sob o nome poético de Tirceia. Esta porém casou com outro, e o pobre Quita desfez-se em lamentações.
O terramoto de 1755 deixou-o sem recursos. Então, Tirceia, já viúva, recolheu-o em sua casa, pondo-o ao abrigo da mendicidade. O conde de S. Lourenço, que se interessava igualmente por ele, recomendou-o a Pedro António Correia Garção, tutelar da Arcádia, para onde entrou sob o pseudónimo de Alcino Micénio.
Em 1761 contraiu tuberculose, mas Tirceia, que terá casado novamente, com um médico, intercedeu junto do marido, fazendo-o interessar-se pelo seu caso, promovendo a cura. Essa obra de piedade durou mais nove anos, ao fim dos quais, em 1770 sucumbiu, correndo o rumor (boato mais ou menos infundado) que fora o marido, desvairado pelo ciúme, quem o envenenara, pondo termo à excentricidade caridosa da mulher. A obra de Quita, vertida nos moldes clássicos, não tem energia nem originalidade, e é falha de cultura; todavia, nota-se nela, por vezes, um tom brando, langoroso e melancólico, que anuncia a nova disposição das almas. Sendo, dos árcades, o menos classificado para tal, ensaiou-se também na tragédia e no drama pastoril, compondo Hermione, A Castro e Licore, que resultaram frouxas e sem vincado delineamento de caracteres.

12.14.2010

Cantata de Dido

Já no roxo ambiente branqueado,
As prenhes velas da troiana frota
Entre as vagas azuis do mar dourado
Sobre as asas dos ventos se escondiam.
A misérrima Dido
Pelos paços reais vaga ululando (1)
C’os turvos olhos inda em vão procura
O fugitivo Eneas.
Só ermas as ruas, só desertas praças
A recente Cartago lhe apresenta.
Com medonho fragor, na praia nua,
Fremem de noite as solitárias ondas;
E nas douradas grimpas (2)
Das cúpulas soberbas
Piam noturnas, agoureiras aves.
Do marmóreo sepulcro,
Atónita imagina
Que mil vezes ouviu as frias cinzas
Do defunto Siqueu, com débeis vozes,
Suspirando chamar: -- Elisa! Elisa! (3)
D’Orco (4) aos tremendos numens
Sacrifícios prepara;
Mas viu, esmorecida,
Em torno dos turícremos (5) altares
Negra escuma ferver nas ricas taças,
E o derramado vinho
Em pélagos de sangue converter-se.
Frenética delira,
Pálido o rosto lindo,
A madeixa subtil desentrançada;
Já com trémulo pé entra sem tino
No ditoso aposento,
Onde do infido amante
Ouviu, enternecida,
Magoados suspiros, brandas queixas.
Ali cruéis Parcas lhe mostraram
As ilíacas roupas que, pendentes
Do tálamo dourado, descobriam (6)
O lustro pavês, a teucra (7) espada.
Com a convulsa mão, súbito, arranca
A lâmina fulgente da bainha,
E sobre o duro ferro penetrante
Arroja tenro, cristalino peito;
E em borbotões de espuma murmurando,
O quente sangue da ferida salta:
De roxas espanadas rociadas,
Tremem (8) da sala as dóricas colunas.
Três vezes tenta erguer-se,
Três vezes desmaiada, sobre o leito
O corpo revolvendo, ao céu levanta
Os macerados olhos.
Depois, atenta (9) na lustrosa malha
Do prófugo dardânico (10),
Estas últimas vozes repetia,
E os lastimosos, lúgubres acentos,
Pelas áureas abóbadas voando,
Longo tempo depois gemer se ouviam:

«Doces despojos
Tão bem logrados
Dos olhos meus,
Enquanto os fados,
Enquanto Deus
O consentirem,
Da triste Dido
A alma aceitai,
Destes cuidados
Me libertai.

«Dido infelice (11)
Assaz viveu;
Da alta Cartago
O muro ergueu;
Agora, nua,
Já da Caronte (12),
A sombra sua
Na barca feia,
De Flegetonte
A negra veia
Surcando (13) vai.

Pedro António Correia Garção, in Obras Poéticas, pp 259-261; Lisboa: 1778.




(1) Ululando, soberba expressão que traduz admiravelmente o que a paixão de Dido tem de frenético e de selvagem.
(2) Também Virgílio fala no canto agoureiro do bufo, mas Garção acrescenta-lhe uma pincelada de cor com aquelas «douradas grimpas».
(3) Elisa era o primeiro nome da rainha. Dido foi o cognome que lhe puseram depois da fundação de Cartago. Significava «errante», alusão aos trabalhos que passou, ao vir de Tiro para Cartago.
(4) Orco era o deus dos infernos.
(5) Turícremos: onde se queimava o incenso quando se depunha as oferendas nos altares.
(6) Descobriam – faziam realçar.
(7) Teucra – troiana.
(8) Tremem: o sentido é duvidoso – ou este tremer representa qualquer sinal misterioso da di-vindade, ou alude aos gritos que se levantaram no palácio e por toda a cidade, mal se soube do suicídio de Dido. Virgílio insiste nesse clamor desesperado: It clamor ad alta / atria – «o clamor sobe até aos altos pórticos».
(9) Atenta – com os olhos pregados.
(10) Dardânico – troiano.
(11) Infelice – infeliz, termo literário muito corrente em toda a época clássica.
(12) Caronte – o barqueiro do Inferno que conduzia as sombras dos mortos.
(13) Surcando – sulcando, na sua forma clássica.

11.19.2010

Entre Bocas e Bocanas, assim passam as semanas


Entre Semanas, Bocas e Bocanas

"Estava-se nessas desconformidades quando surgiu em nossa frente um cabrito malhado. O bicho destoava das solenidades. O administrador arreganhou em surdina:
– Quem é esse cabrito?
– De quem é... – o secretário corrigiu, discreto.
– Sim, de quem é essa merda?
– Esse cabrito não será dos seus, Excelência?"
In O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

bocanas e bocanas. E se cada um é como cada qual, sendo no todo ou em parte diferente do outro, seu semelhante, posto que ímpar e sem igual, no feitio como nas atitudes, o que é certo, é que são todos uma cambada de sacanas. Incapazes de sentir empatia, abespinham os demais, desde que em algo eles sobressaiam daquilo com que os rotularam, ou a ideia que deles fizeram, cultivaram, difundiram e admiraram. Insistiram e determinaram. Atribuíram como única possível, concebível e lógica.
Por exemplo, quando desgostam de uma pessoa, mas gostam/simpatizam com outra, que é sua familiar ou irmã, e se esta, a quem atribuem sempre tudo o que é mal feito ou indesejável no seio de uma família, faz algo de apreciável mérito e notório, então, para lhe retirarem o talento e os louros do feito, justificam a feitura às qualidades do outro, que nunca lhe pertencerão a não ser por cópia ou imitação, afirmando que o fulano, nessa etiqueta ou quadrante, «sai ao irmão», como se isso fosse possível, uma vez que a herança dos genes jamais será transversal e fraterna, mas de linha directa por descendência, como sucede de avós para pais e destes para os filhos. Se um cabrito nasce no seio de uma família branca tudo quanto faz de mal é herança do sangue negro que há nele, e se, pelo contrário, algo de louvável pratica, então foi a sua quota-parte de brancura que veio ao de cima. Ao invés, desde que nascido numa família predominantemente negra, tudo quanto é indesejável no seu comportamento será consequência directa do sangue branco que lhe ainda corre nas veias, e de bom, se algum houver, resquícios emergentes da sua negritude. Quando para uns casos é pessoa (cabrito de cor), para outros é animal(cabrito, filhote de cabra).
Em Tizangara, ambiente social e lugar onde se desenrola a ação, no livro acima citado, de Mia Couto, a situação, aliás comum às famílias e meios provincianos do interior português, essa clareza tem nome para as entidades oficiais, chamando-lhes merda, para evitar subsequentes equívocos. A crueldade criancista de nomear as coisas pelo nome, assim o exige, exorcizando a tendência civilizada para os eufemismos, contudo, não podemos negar que as nomeações nada acrescentam nem retiram aos seres e pareceres sociais, já que não é por este ou aquele indivíduo desafetar a carga pejorativa a alguns rótulos que o veneno das discriminações deixa de produzir os seus efeitos, e muito menos, se considerarmos que até podemos dizer que um fulano é um "querido" quando pretendemos chamar-lhe "filho da puta", ou que é engraçado se nos apetecer denominá-lo de bobo e bocana. A fluência das significações é muito superior à estirpe lexical que as sustenta, considerando que cada língua, cada vocabulário, particulariza apenas parte daquilo que a expressão generaliza, o sentimento humano, a emoção, a racionalidade, a sublimação, e a espiritualidade universalizam. Ter raiva a, ou sentir inveja de alguém, existe no seio de diversas culturas em diferentes modos, com significados normalmente aspergidos numa panóplia semântica que apelidamos facilmente de polissemia, pondo na esfera polissémica de um termo, numa língua, termos e significados que pertencem à esfera de outro ou outros, independentemente da linearidade, e correspondência literal, das traduções. "Um pai galinha" em português é um pai extremoso, atencioso, dedicado aos filhos, porém se o interpretarmos de acordo com o universo de significação brasileiro, é um indivíduo mulherengo, um D. Juan, e que se preocupa mais com o fornicar muitas mulheres do que ajudar-lhes a criar, proteger e educar os filhos, por exemplo.
Mas a minha televisão já tomou providências e começou a tratar do assunto, pondo nova ordem no aferir significativo das cores, confirmando quanto importa aos multimédia tomar decisões que visem concertar, dissolver e harmonizar os conflitos que a sociedade gerou para evoluir, mas que impreterivelmente tem que ultrapassar se quiser continuar essa evolução: alterou automaticamente, e sem qualquer possibilidade de retorno ou reparação, a paleta de cores, dando a ver verde, naquilo que era – e é – vermelho, azul no que antes foi verde, lilás no amarelo, rosa-choque no que antes fora azul, o castanho virou creme, e assim por diante, com tal magnificência e pertinácia, que eu passei também a ver a realidade conforme esta matriz de tons, uma vez que passo mais tempo a ver televisão do que a andar na rua, e a achar que a realidade, as paisagens e quadros vivos do quotidiano, andam mal pintados ou debaixo uma luz deveras sinestésica - e suspeita. A princípio tive dúvidas de que a máquina tivesse uma propositada intenção na baralhação das cores, julgando tratar-se de avaria, comentando de mim para mim «esta, está a dar o badagaio!...», não obstante, depois do contato com o técnico local de TVs, testes com aparelhómetros vários, o diagnóstico foi o sem espinhas «não tem qualquer problema, e está em melhor forma do que muitas das novas que ali tenho para venda ao público», vi-me na incontingência de aceitar o fato como capricho consumado de um ente que reivindicava participar na formação – e formatação – do mundo que espelhava, reproduzia e muito ajudara a criar. Ver os telhados das casas verdes quando cobertas do canelado mourisco, inicialmente, foi confuso e digno de tenaz resistência, repetindo a mim mesmo, oral e mentalmente, que eles, os telhados, eram sim, mas vermelhos, desde que não fossem de vidro ou de placas de “lusalite” com amianta memória. Depois, porque isto não é tempo de andar a mudar constantemente de electrodomésticos, engoli a mudança nos cambiantes por ela impostos, como quem assobia prò lado perante uma contrariedade corriqueira, e deixei de inculcar a memória cromática mal me apercebia de que a bandeira portuguesa tinha ganho outras cores e humores, flanando com verde, azul e lilás com o igual empertigamento de antanho onde o vermelho e o amarelo tinham notória presença. E idem para o estandarte da UE, a quem o rosinha com estrelas lilases dava um requinte feminino, porquanto primeiro foi estranho depois se entranhou, e afinal, mais consentâneo e conforme à felicidade do lar num casamento a vinte e sete... E agora, que fazer?
Nada. Conformei-me. Já não admito que a realidade queira pintar o real realmente de outras cores que não aquelas que aprendi a ver como reais. As árvores são azuis. Os telhados verdes. Os pretos são brancos, e vice-versa. Os mulatos são cremes. E os cabritos, se alguns vejo, cor de tijolo quando cai, que os muros e paredes se foram criados levaram caiação moderna com mestiçagem às avessas, deixaram de ser biombos de resguardo das espécies e raças, e passaram a ser elos de ligação e unidade entre gentes separadas, que cultivavam a simetria como perfeição.
Portanto, quando ouço dizer que fulano ou sicrano são uns merdas, ninguém me tira da ideia que são preciosos e ricos, de genial talento como os que em vez de saírem a seus pais saem aos seus irmãos, pois sei que, de certeza, quem assim os classifica por húmus fértil, tem a televisão avariada. Até porque não há filhos do pai quando estão com a mãe, nem filhos da mãe quando estão com o pai. Há seres humanos, na totalidade dos seus direitos e responsabilidades, e isso ninguém lhes pode negar, ainda que os bastonetes e cones lhes soneguem as cores originais, na mensagem que distorcendo veiculam ao cérebro de quem os toma por objectivos. Pintar o mundo sem ouvir as bocas de alguns bocanas, é uma tarefa para máquinas inteligentes que não se envergonham do que querem e são. Digam o que disserem, as cores são um privilégio de quem vê, não de quem crê ver.
Então, onde está o problema de se verem outras bandeiras em nações que se tornaram mais justas e soberanas, civilizadas e cultas, modernas e atuais, solidárias e conscientes, responsáveis e livres?

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