La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

5.14.2009

Os Remakes e a Posteridade

Remakes e posteridades: a
TV e a cultura – eis mais uma contradição perfeita


“A televisão é o único soporífero que se toma pelos olhos.”

Vittorio de Sica


Muitos são os hábitos que a humanidade tem perdido ultimamente: entre eles, o de conversar, o de conviver pensando, criticando, apreciando, estabelecendo laços para além das conveniências, para além do bota-abaixismo do narcismo frustrado e da peste emocional, da rigidez caracterial e dos fundamentalismos vários com que os terroristas da cultura e da religiosidade tentam cumprir o seu medo e desconfiança pelo outro, por menos que o conheçam, sobretudo se ele não bate palminhas a toda a porcaria que geram, gerem e propalam, a confirmar o pressuposto do antigo ditado, antigo é claro mas jamais desactualizado, que "quem se mistura com merda fica sempre cagado". Aquele conversar entre amigos, no café, ainda que muitos o não sejam e não passem de inimigos com problemas de motivação, de que falavam o Aquilino ou o Raul Brandão no auge da nossa republicanidade e a propósito dos despropósitos das monarquiazinhas imperialistas que os egos deste e daquele regimental sistemático ia tentando implantar nesta ou naquela repartição. O de conversar entre colegas, no trabalho. Mas sobretudo, o de conversar em família sem parecer nem copiar as afamadas marcelistas (ou marceladas) Conversas em Família sobre o estado do Estado corporativista, que anteciparam e inspiraram os tempos de antena dos partidos do Bloco Central na televisão oficial portuguesa (RTP 1), dos domingos e segundas-feiras como sobremesa estragada para os telejornais cozinhados às três pancadas do "isto vai ou racha" nacional.
Bom: rachou... Tempos houve em que os serões se passavam à lareira, os novos embevecidos pelas histórias, peripécias, magicações, pilhérias, anedotas, fantasias, casos da vida real ou invenções dos espíritos menos atreitos no terra a terra, escutavam os mais velhos e experientes tentando com eles compreender-lhes a vida, mas também as práticas, ou reprogramando o seu software para gasto no futuro, tentando encontrar razão e absolvência por aquilo que nunca tivera justificação alguma, no entanto aconteceram de pleno e convictamente. Todavia, hoje isso é raro, penoso, pouco in e altamente condenável ou suspeito, se não houverem umas gajas a despirem-se enroladas ao varão ou uns musculosos labregos a darem à nalga de tanga. E será cada vez mais raro porque cada vez mais haverá mais televisão nas nossas vidas, remetendo para incomunicabilidade as horas de almoço ou jantar em família, cuja sopa se sorve entre um beijo lânguido da telenovela e um chuto patriótico do Cristiano Ronaldo, ou o bacalhau que derrapa no azeite da discórdia política acerca do preço das portagens, dos casos de polícia, das desavenças entre cristãos e mouros, meninos e meninas, Belas Vistas e burgos amuralhados de novo com ou sem Fórum Comercial, doutores e futricas de copinho de plástico e charro em riste. Trocou-se o quentinho do borralho pelo conforto do ar condicionado, assim como se trocaram as palavras caprichadas e subtis, pelos arrazoados da notícia brejeira ou a volúpia das galas do glamour, de mostrar a cuequinha aos marialvas da trapalhice no desfile das cornucópias e cornicópios em rodopio musical de karaoke e agência de espectáculos, aliás sumariamente contratada para os efeitos secundários e genéricos do receituário de Pedro e Paulo a dar as usuais Papas e bolos ao povo, com que se enganam os tolos.
A família, espaço de convívio e consanguinidade, de afecto e partilha, deixou portanto de ser uma unidade solidária para passar a ser um conjunto de pessoas indiferentes umas perante as outras, e destas perante todas as demais, mas apenas dependuradas pelos olhos do mesmo canal, ou talvez simplesmente agrupadas no mesmo apartamento, fechadas nos seus quartos a absorver a sua droga preferida, satisfazendo o seu apetite de televiciados incorrigíveis. Segundo alguns pensadores, como por exemplo John Condry, que afirma, no livro que fez em parceria com Karl Popper sobre o assunto, intitulado Televisão: um perigo para a democracia, editado entre nós pela Gradiva, em 1995, que a perturbação das crianças de hoje se deve “em parte ao passarem demasiado tempo em frente da televisão. Todo esse tempo é tempo roubado; a televisão rouba às crianças um tempo precioso para aprenderem a conhecer o mundo em que vivem e o lugar que nele ocupam” – como a escola rouba a capacidade que cada um tem de saber ser e saber estar, para melhor saber fazer e saber obedecer sem refilar ou pensar nos porquês que os sustentam e motivam.
É, por conseguinte, lógica esta preocupação crescente da cultura com os efeitos da TV, visto que ao assistirmos à descaracterização da família e dos seus hábitos, estamos consequentemente a assistir ao seu resultado, que é o da descaracterização da sociedade, porém a dita cultura é cada vez menos culta, menos artística e mais monástica, mística e terapêutica, tipo de ajudar velhinhos e velhinhas a manterem a forma psicológica à custa daqueles que tradicionalmente e toda a vida prejudicaram, acrescentado que a sociedade é também cada vez menos sociedade e mais seita gerontológica em que a supragenialidade assenta no gagaísmo dos seus conceituados membros. O que é preciso é estar gá-gá e cagar postas de pescada acerca dos bons velhos tempos, tal e qual como estou a fazer agora, para ser considerado genial e nobelizado, pois que o que é bom, sempre bom, para lá de óptimo como dizem nas novelas brasileiras, é aquilo e são aqueles que não prestam para mais nada, a não ser para serem bons, embora se desconheça para quê e, principalmente, em quê!
E vós, irmãos e irmãs, já vistes que bom que eu sou?!... Então não percam a oportunidade e informem-me de como podem (e até conseguem...) ser ainda melhores do que eu, em absolutamente tudo, que por assim dizer, só terá um lógico e equivalente significado, que é o mesmo e exactamente em nada. Quem diria!

5.13.2009

Poema de Natália Correia


(De) SETE MOTIVOS DO CORPO
por Natália Correia

6.

Quando em halo de fêmea húmida e quente
São íntimas ao fogo as ancas sábias,
Está o corpo maduro no seu tempo
Aromático de rosas esmagadas.

São as Circes: fogueiras reclinadas
Como panteras em nuvens de magnólias;
Coxas versadas em abrir às lavas
Do desejo confins de lassas glórias.

Do amor, lúcida e plena anatomia;
Magníficas mulheres com flor e fruto;
Corpos de vagarosa fantasia
Que a febre afunda em estrelas de veludo.

Num esplendor de poentes envolvidas,
Sentadas têm pálpebras de violetas;
Mas erguem-se abrasadas; e despidas
São um verão a sair de meias pretas.

Capelines que lendas insinuam,
De segredos os olhos lhes sombreiam.
Dos ombros pendem-lhes mantos de volúpias
São fábulas que os moços estonteiam.


E aos seus leitos de prata e tílias altas
Ébrios de lua sobem os mancebos.
Elas enterram-se nuas como espadas
Nas suas virilhas e armam-nos cavaleiros.


Ó sazonada carne que circunda
De asas, abismos e suados cumes
O mistério do ovo, dando sombra
Ao pénis que procura o fim do mundo.

5.12.2009

Natal de Junho

Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo euromilhões e totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações: Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incóginto. Disseram-no de seguida ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara Bendita em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso, da ordem, da família e de São Tinto, e de como ele iria condicionar a posteridade delas, num futuro senão próximo, pelo menos com prazo certo ou ainda em vida de ambas.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas) muito para além da mercearia na esquina da rua.
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se acertava como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.
Ao princípio magoara-lhe a sina tida, doeram-lhe assim por dentro as entranhas, todavia com o correr das cortinas conformou-se, habituou-se ao costume de arrear o hábito, abriu-se de escancaras às benfeitorias do rancho untado na tulha farta da patroa, montou esteira com horário nobre (das 15 às 23:50 horas - excepto aos domingos, que eram dias santos) no quarto dos fundos, entre os fardos de bacalhau e sacos de arroz, e abotoou-se com as gorjetas dos que achavam que ela merecia mais do que os 20 paus que a taberneira apreçara por cada visita. Alguns foram tão bem servidos que lhe puseram outro tanto em mãos, só para darem uma marca de marxismo ao lenocinismo explorador da proprietária do estabelecimento. Gratos. E revolucionários.
Outros, depois da coisa feita ainda regateavam a carestia do serviço, atidos pela semelhança na função, público da reserva pública era o que era, que só mostrava bons modos quando precisava que lhe aprovassem os orçamentos para a engenharia dos dias, mas a quem, logo que obras em vias, cortava nos materiais para ajustes e garantia dos respectivos complementos profissionais...
Só que, é claro, o nascimento soou-se na freguesia, e os hipotéticos ou possíveis pais, organizaram visitas de estudo ao rebentinho a ver se era seu descendente. Uns que sim; outros, que não. Instalou-se a dúvida e confusão em muitas consciências, para as quais o peso, nem sempre era contrabalançado pelo tamanho dos cornos das esposas, umas mais sentidas que outras, quer católicas e bragantinas como devassas desde o berço amuralhado nos vímaros henriquinos do condado. Então fizeram-se apostas, sondagens e, finalmente, foi-se a votos, para definir em definitivo o provisório direito da paternidade. Restaram três, de quantos por experiência no ir às gajas, aparentavam melhor nas feições e tiques no mamar, que é conduta com que se acondutam as promessas de futuro que, embora se aperfeiçoam no colo da amamentação, tem as suas origens nos códigos e livros brancos da pré-natalidade. Ora, como terceiro, não era arde nem reich, puseram-no de fora por falha do sistema, restaram dois candidatos de peso.
De coimbrã académica salteou-se a parlamentária alfacinha, que de futrica aproveitara há muito o f... em legislaturas várias. Porém, a mãe e avó insatisfeitas, avaliaram as expectativas, abonos, contas-correntes, vantagens competitivas, facilidades na educação, oportunidades formativas, directivas póstumas na controvérsia dos planos e tratados, estratégias e estratagemas missionários, e a mãe optou por conceder o voto de qualidade à descendente e herdeira detentora do cargo em título, sem quarentena para qualquer gripe, e única com registo incontestável no xarope da verdade: «Diz tu filha, tu é que sabes, tu é que viste o desempenho que cada um teve, nesse dia...»
Então ela disse «foram os dois mãezinha, foram os dois a meias», como todos puderam ouvir, enfim testemunhar, que aqui não se mente, «sim mãezinha, foram os dois, foram os dois, que naquele dia não trabalhei para mais ninguém, e mesmo assim não 'tive um bocadinho parada».
Era a vitória do bloco central. E os demais montaram-se nos seus lindos carrinhos para desfilar em voltas e voltas aos burgos, buzinando embandeirados cantando o hino e gritando Viva República!

TRÊS POEMAS JAPONESES

1.

Eis que hoje estou pensado:
Valho menos que qualquer.
Para o que vá perdoando
Comprarei
E levarei
Flores a minha mulher.

– Ishikana Takuboku

2.

É manhã de Verão. Mas já as folhas
Da figueira que seca se enferrujam
E murmuram no vento
E nos ramos que lhe tremem que lhes fujam.
Dormir ou não dormir? Os fios eléctricos,
Neles cigarras cantam, vão pelo céu acima;
Murchas, as folhas tremem e os ramos temem
O fim que se aproxima.
Dormir ou não dormir? Quieto e escuro o céu,
O céu que os fios cortam,
Nuvens cobrindo o sol com seu véu.
Cigarras tão distantes a meus ouvidos.
E os que eu amo – perdidos.

Mamayara Chuya

3.

As costas da mulher no espelho se espelhando
Brilho macio de cera. Castanha, a cabeleira,
No dorso seu tão liso luz de fosforescência.
Borla de pó caída no lençol que, formando
Com rugas de seu pano a carta marinheira
De águas mediterrâneas, a Abril representa
Em sua ausente essência.
E o transe da mulher. Como cantava
Com as linhas do corpo ruas de sua aldeia
E a ladeira do porto e o vinho que espumava
E a concertina
E até a chuva sobre o polido corpo se passeia.
Pela janela atira a borla. Da janela atirada
Lá vai como flor que o sol espera
E é luar mediterrâneo e perfume no ar a Primavera.

– Kondo Azuma

4.29.2009

Integração Europeia, Relações Ibéricas e Política de Regionalização



LANÇAMENTO DO LIVRO:

Integração Europeia, Relações Ibéricas e Política de Regionalização
Coesão, diversidade e cooperação territorial na União Europeia

da autoria de António Covas


Data e Local: 30 de Abril às 18.30 horas no Auditório Afonso de BarrosISCTE – Alameda das Forças Armadas, Lisboa

4.23.2009

Efeméride


Enquanto tiveram dinheiro
Andaram a lixar o parceiro;
Agora, que já o não têm
Lixam o parceiro também!

Presos Políticos Algarvios



LANÇAMENTO DO LIVRO:

PRESOS POLÍTICOS ALGARVIOS EM ANGRA DO HEROÍSMO E NO TARRAFAL

Autora: Maria João Raminhos Duarte

Data e Local: 24 de Abril, pelas 18.00 horas – Auditório do Museu de Portimão

3.27.2009

Feijão Padre

"Quando um homem tem a liberdade de proceder como quer,
em geral, imita os outros."

E. Hoffer

Porém, se cinquenta milhões de pessoas disserem uma tolice, não há-de ser por isso que ela vai deixar de ser tolice (como Bertrand Russel disse). Aliás, eu nunca me repito; e, contudo, digo sempre a mesma coisa... É que, de onde moro, alcanço Alentejo até à linha do horizonte; e tudo quanto existe no mundo é um retrato do mundo: a poesia, a prosa, o cinema, a pintura, a fotografia, a arquitectura, a Lei, a religião, os sonhos, a ciência, o símbolo, o mito, o simples e pequeno escaravelho, a preciosa e requintada esmeralda fluorescente, a verdade da vontade ou mesmo a mentira por bem e sem querer. Tudo. Agora, o que resta definir, é se ele é a corpo inteiro ou apenas de uma fracção dele, bem como se sobre o retratado o zoom aplicado é de aumentar ou para diminuir... para esclarecer as sombras, ou obscurecer as luminosidades, os brilhos reflexos ou as concavidades brumosas sob o acumulado dos vértices.
Em resumo: parece óbvio que promoveram o Carnaval à custa do Magalhães, mas não igualmente o Magalhães a expensas do Carnaval, como seria respeitável à luz das relações de troca (directa) em que subsiste o mercado das ideias e iniciativas no quorum social, com efeito prático na edificação identitária de um povo, a quem os cincos dias de Entrudo não chegaram para aporrinhar o parceiro nem parodiar as bazófias da actualidade, ou sequer para exercer o seu mister inquisitório de missionário moderno excomungando à direita e à esquerda, como quem vai dando milho aos pombos, pataca-a-ti, pataca-a-mim, coisa sobejamente pura e cristã, no combate aos pecadores do santíssimo sacramento que querem casar não para procriar mas para fornicar, coitados, porquanto acham merecerem autorização de o fazer às escancaras, às claras, não na escuridão carmelita da unidade do facto, mas na iluminação imaculada do registo civil, sabendo-se, como se sabe, que se lhe tirarem esse pendor proibido ao fruto ele deixará de ser o mais apetecido, logo fugaz e de somenos, até nos confessionários da meia luz ou nas sacristias de branco caiadas sob o beato pincel, que isso do casados de fresco não para todos e todas, a não ser que tenham tabuleta para assentar no cui-dado da santa madre, tal e qual como aconteceu ao Charlin Chaplim quando ganhou um andar novo na Rua dos Dez Pràs Duas.
Ora o identi-kit, método de construção dos traços fisionómicos de um indivíduo, mediante fontes díspares, usualmente empregue pela polícia criminal, aponta as responsabilidades da acção obscura de "denegrição" do Magalhães para os industriais da Farinha 33, número também conhecido na esotérica linguagem tipográfica por KK, não só por serem eles os principais Anteros lesados com a evolução das TIC, mas também por verem nele, no Magalhães, o princípio do fim do seu império (e monopólio) na exploração dos manuais didácticos em suporte-papel, que tem sido a sua galinha dos ovos de ouro nos últimos cem anos em Portugal, e na Europa desde Pedro Ramus o que, no mínimo, é tosse, arre-pio de Bastilha, traque de quem comeu banana podre sobre a mesa dos paramentos. Catarro de carroceiro, que duas voltas ao mundo dadas e bastos diplomas no cu-rrículo vital, continua a beber a mesma aguardente JB e a escarrar no passeio dos caminhos de casa!... A impor a sua ignorância como supra-sumo do conhecimento dos demais, a fazer clones dos blogues de sucesso para ter alguma audiência, a abordar infantilmente a realidade na esperança de que ninguém note o seu envelhecimento, a sua caducidade e o seu narcisismo murcho, aviagrado para vingancinhas de mafioso desempregado ou empresário à beira de um ataque de servos. Vai daí, vejam bem, bate com o punho na palma do bem-feita a dizer asneiras entredentes, esconjuro antigo que ajudou muitos a prender o burro, e ainda ajuda, é claro, na argola dos arcos e portas, sobretudo se ele se põe à solta na torna baldia, a mostrar a doença nas manhãs de sol, para se especar melhor ante a brisa nos outeiros, semear a inveja nos homens e colher o suspiro das mulheres, aquele "ai" que vem do fundo que só ele alcançaria, caso o pecado não acarretasse também o bocado maior. Todavia, das duas caras que já não tem, apenas lhe ficou a mais negra da batina, nas surrobecas das Tunas, quando estendidas no chão da memória para os gloriosos passarem, somente servem de esfregão para limpar a calçada portuguesa do vomitado etílico dos pobres de espírito, numa feijoada demente, e pela qual rezamos, para que dela não fique semente... Quer dizer: sujidade, restos da peste emocional e rigidez caracterial que empestam a humanidade!

3.26.2009

Exposição de Catarina Castel-Branco


Ecologia Política



Desde há muito tempo que os arrivistas políticos têm vindo a usar a ecologia como biombo e trampolim de impulsão, na tentativa de ascenderem aos mais altos cargos da nação. A coisa não é novidade nenhuma, e já em 1981, António Elói, na rubrica Ponto de Encontro, que era aquela secção aberta à participação dos leitores, na Revista Sobreviver, apontava as linhas gerais desse contencioso que o tempo, ao contrário do esperado, por tudo resolver, apenas agravou. Dada a pertinência e desenvoltura do texto, em seguido o transcrevo, para que não restem dúvidas a quem pensa que está agora a descobrir a pólvora pròs fósforos, que essa atitude foi bastante comum em precoces datas, andaria ainda a ecologia de fraldas e gatinhas, arriscando sérias quedas dos bordos da democracia portuguesa, também ela sobejamente imberbe e de faces extraordinariamente salpicadas pelo acne da abrilenta adolescência política. Ei-lo:


O MOVIMENTO DA ECOLOGIA POLÍTICA

A luta ecológica não é um fim em si, é um meio


1.
A ecologia, não obstante o seu carácter difuso e pouco teorizável, não obstante ter uma pequena dimensão, a dimensão das coisas e das pessoas, foi, é, vai sendo apropriada por técnicos e políticos.
A ecologia vai sendo roubada àqueles que passeiam, ao longo do rio e sabem que o amor é uma mão, um olhar que troca. Àqueles que transformaram o cor-de-rosa dos sonhos em realidades.
Técnicos e políticos apoderaram-se da ecologia. Uns transformaram-na em dados frios e escuros de números e estatísticas, em coeficientes e projectos antipoluição. Outros encontram aí o maná de Canaã, a receita contra o esquecimento; a novidade e inovação que falta a quem não tem imaginação...
E nós? Vamos deixar de ser ecologistas? Vamos superar o actual estado de fraqueza e dispersão em que nos encontramos? Que fazer?, para glosar um velho político.
A resposta é individual, mas é pensada em termos de um colectivo. É a ocupação de um espaço de vida. É o tempo e o movimento.

2.
As experiências e vivências de outros podem ser-nos úteis, mas quando buscamos nuns lábios outros infinitos é sempre diferente. O sangue que percorre o nosso corpo vai-se renovando em cada momento. Temos de encontrar o nosso momento, o tempo de transformar. Eu. Tu. A Vida.
A teoria é o abstracto que se vive: são os nossos desejos pensados em fórmulas. Há que dar aos desejos realidade. A ecologia política é o assumir dessa realidade. É a recusa da ecologia como cantinho das novidades dos políticos. É dizer Nós e significar que os políticos são uma parte, o passado da vida. O futuro é amanhã.
Para Nós a ecologia política não precisa de se definir. É o espaço de cada um e de todos. Das mulheres em luta pelo seu ser. Dos poetas em luta contra o nuclear. Das flores, da não-violência em luta contra o barulho. O espaço do sonho onde cabe a antipsiquiatria e o dissidente soviético, a cultura e o guerrilheiro afegão, os sábados livres e o operário polaco, a diferença e os indígenas americanos. E cabem todos aqueles que lutam individual e colectivamente pela justiça. O salvadorenho, o negro do Soweto, a mulher somali e tantos, todos os outros. E esses, somos nós que queremos viver Hoje e Aqui.


3.
A ecologia política é um espaço muito grande, mas à medida de cada um, porque a ecologia política não é uma doutrina, um credo, não é tão-pouco uma referência. É uma prática.
Como todas as práticas é polimorfa e contraditória. É um local onde podemos concordar ou discordar, mas onde fundamentalmente podemos empreender a gestão colectiva da nossa vida e, essa, é sempre diferente.
O Movimento da Ecologia Política não precisa de programa, nem de declaração de princípios, esses são aquilo que cada um entenda. Os estatutos do Movimento são um quadro amplo onde os colectivos se encontram, funcionam como protecção jurídica e política.
Na Alemanha o Movimento Verde, em Itália o Partido Radical, em França o movimento embrionário que surge a partir do colectivo Gueule e do movimento autogestionário são algumas das referências que podem servir de parâmetros ao Movimento em Portugal. Ter em conta a distância cultural, sociológica e política é essencial, assim como é essencial ter em conta que a vida, o amor é sempre diferente e sempre um.


4.
Os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas fantasias convertem-se numa realidade. No movimento da ecologia política. Aqui, hoje, estamos solitários face ao papel branco. Amanhã, quando percorrer as ruas cinzentas da nossa cidade, vou-me recordar que a vida não é só as bandas desenhadas que lemos no nosso divã, nem se esgota no fumo que sai dos meus olhos. Está também nos sentimentos. Num sorriso, numa carícia. E que a revolução é uma festa de cada dia. É o sonho com as noites cálidas da Primavera...


Obrigado António Elói, e desculpa esta quase indevida apropriação das tuas palavras: é que elas hoje ainda nos fazem falta!

3.24.2009

Na Curva da àgua Férrea


(Crónica Literária publicada em O Distrito de Portalegre)


"Uma coisa é certa quando tende para preservar a integridade, a estabilidade
e a beleza da comunidade biótica. E é errada quando tende no sentido oposto."

Aldo Leopoldo, in A Ética da Terra

Cruzam-se novos rumos ao infinito (das bocas). Em vésperas de partilha e confraternização, insolentes por sofreguidão de afectos, eis que os factos se levantam a repique, e a aldeia amanhece global, como num dia de festa. Do coreto, um adufe que não se cansa, alicerça seu toque ao ritmo do coração da planície, e empresta-lhe o balanceado vaivém do cante, que os jornaleiros pendulam de braço dado, para adormecer o menino que ainda lhes não morreu dentro. Um, dois, um, dois, um, dois, passo a passo, o poeta das auroras verdes chega para sublinhar que se alguém perguntar por mim, diz que não estou, que fui prò jardim, com a saudade que dele me ficou...
Todavia, da curva do tempo, os nomes, sempre os nomes, plantados aqui e ali, no recato de qualquer esquina entre as vielas da urbe, regados pela Água Férrea que brota da serra, num murmúrio de Arina escondida, soerguem-se à vez, como lacrimoso mas colorido eco, nos alegretes de luz, e perfilam-se à volta das muralhas, num labirinto de invocações, porque nenhuma nomeação lhe é alheia. Minha avó me disse um dia, que aquilo que escorria, da fonte dos caminhos, água não seria porventura, mas lágrimas choradas, pela moura encantada, que na Penha enclausurada, assim dava notícia da sua amargura. Ora, não obstante a espécie que me fazia, tal receio ou constatação, o que é certo é que havia, quando se aproximava o Verão, mão anónima que lhe punha à volta da bica, nobre laço de junça tenra, e a água antes férrea, então benta lhe corria.
Pouca pode ser a significação, porém ela afirmava, que essa dita invenção, já a avó dela lha referia, por tê-la ouvido também à avó da bisavó um dia, em que a ela foram dessendentar-se num lusco-fusco de S. João. E talvez por isso, hoje eu lhe reconheça razão, é que se com aquele laço de verdura, em torno do metálico cano, santificada não estaria, era contudo geral a opinião, pela sua frescura, que quanto mais calor estivesse, mais brotava ela fria.
Jamais alguém lá voltou a matar a sede. Contudo eu, logo que da cidade avisto tal curva, dou por mim a recordá-la e vê-la, não como se fosse ontem, mas hoje. Agora. E, pese embora, nem sei bem porquê...

Deve ser grande a aflição
Para a Moura chorar assim,
Que também eu morro de mouro
Mas a Moura não chora por mim!

3.17.2009

Lançamentos de Livros

Eis duas oportunidades que não pode perder, sobretudo quem estiver nas redondezas nestes dias...

Jogos de Identidade Profissional: os engenheiros entre a formação e a acção

Apresentação
de Manuel Silva Suarez

Data e Local: Dia 20 de Março às 17.30 horas no Colégio Espírito Santo da Universidade de Évora

e...

A Teoria do Caos: Potencialidades na modelização da aprendizagem de conceitos científicos

Da autoria de Mercês Sousa Ramos

Apresentação do Prof. Doutor João Corte-Real

Data e Local: Dia 19 de Março às 17.30 horas no Anfiteatro da Escola Superior de Educação, no Campus de Benfica, em Lisboa.

2.20.2009

E Viva a República!


Quem é mais insensato: a criança que teme o escuro
ou o homem que tem medo da luz?”

M. Freehill

A nicotina mata as lesmas; aliás, não há melhor remédio para quem tem caracóis nas alfaces, e quer tratar do seu quintal, do que fazer um caldo pestilento de beatas com que aspergir as verduras e assim evitar que demais "moluscos" lhe vegetem nas pradarias (do Oeste – no cowboyar das virtudes saloias), destruindo a biodiversidade e promovendo a selecção das espécies que melhor lhe engordem a conta bancária e forrem a tripa, transformando-o, ao quintal, claro está, num autêntico vaticano maltês pessoal à beira do botaréu de Santa Cruz plantado. Vai daí, alguém imbuído de altos interesses tóxicos, elegeu o Carnaval de Torres Vedras como mais uma cruzada de magnitude nacional para combater a Liberdade, a Democracia, a Justiça, incluindo a Social, o Progresso, o Conhecimento e a Inovação, e fez do Magalhães a sua faixa de Gaza bombardeando-o indiscriminadamente, projectando nele as suas perversões pessoais, não só dando-nos o exemplo do tipo de pesquisas ou utilizações que dele faria se ainda fosse uma criança em idade escolar que lhe tivesse acesso, mas também, qual Antero vingador do amor desdenhado, irmão caçula de Eros (Cupido), igualmente filho de Vénus e Vulcano, aproveitando a oportunidade de denegrir (diabolizar) com falsas razões aquela, de entre as iniciativas governamentais positivas, da igualha da legalização da interrupção voluntária da gravidez, da inclusão da vacina contra o cancro do útero no plano nacional de vacinação, a aprovação do Acordo Ortográfico, a remoção dos telhados com amianto do parque escolar, das medidas acerca da eficiência energética na construção de edifícios ou na aposta em meios de produção de energia alternativa não fossilizada, melhor corresponde à noção de eco-desenvolvimento e educação para a sustentabilidade, que pronuncia e concretiza a eficaz possibilidade de uma pedagogia ecologista, em prol do ambiente, para todos e em qualquer lugar, no integral respeito pelas diferenças, nomeadamente as económicas, em evidente benefício da saúde e cultura, da identidade nacional, da língua portuguesa e qualidade de vida, bem como da efectiva modernização da estrutura vital da sociedade como são "catalogados" os seus recursos humanos: mais precisamente, aquele que indubitavelmente é o supra-sumo das TIC europeias – o Magalhães. Porém, bateu com os burrinhos na lama, porque houve um cidadão português, provavelmente torreense, no exercício dos seus direitos, com frontalidade, transparência, determinação, consciência, respeito emancipado e esclarecimento democrático, não nas sombras ciprianas do corporativismo esclavagista e medieval, bastidores da quadrilhice, como é hábito dos monges do parasitismo boateiro e corrosivo da costureirice nos patins das esfregonas lixiviantes, que apresentou queixa nos tribunais da alçada, e estes, surpreendentemente porque dentro de prazo útil, accionaram os maquinismos legais e impediram a brincadeirinha, como diremos, também por brincadeira. Ora, chamar a isso censura, é o mesmo que confundir o apêndice fecal de um camelo com o Campo das Cebolas, fazer Inquisição com bruxarias ou diagnosticar doenças da civilização como defeitos congénitos, ou monstruosidades no DNA da História. Alguém é contra uma coisa e tentou impedi-la, em conformidade com a lei dentro de um Estado de Direito, e outrem que lhe é a favor, pelas portas da vilania, da vitimização, do confusionismo maniqueísta mediático e chicoespertismo nacional porreirista, almejou nessa atitude uma excelente forma de ganhar uns cobres eleitorais, exagerando nas carnavalidades para gáudio de difusos e equívocos moralismos, sobejamente demonstrativos de como a rigidez caracterial pode ser confundida com virtude, e a peste emocional com sensatez e bom gosto. Logo, não percebo qual seja o desatino... Se estão assim tão indignados, com o desfecho da queixa, porque não apresentam recurso? Porque não recorrem ao "Supremo" como costumam fazer por outras questões inferiores? Ou, antes, será porque tendo avaliado a relação custo-benefício ela já lhe ter rendido tanto, em termos de propaganda, que gastar alguns trocos nisso seria um enorme desperdício?
O placard, o outdoor da notícia acarretou a mais-valia do boomerang, e isso, sem a mínima dúvida, trouxe um lucro incomensurável que ninguém com seriedade, bem intencionado, honesto, inocente, confiante na Justiça e democrático, conseguiria com iniciativas parlamentares, governativas, processuais ou de marketing político, a não ser que pagasse principescamente muitos anúncios na comunicação social vigente e inúmeros banquetes, portos de honra, aperitivos de breefing ou confraternização de conferência de imprensa para o establishment do jornalismo (dito) plural & independente. Isto é, não só causaram a mossa que pretendiam causar na divulgação dos recursos pedagógicos e didácticos electrónicos/digitais, necessários e imprescindíveis ao nosso desenvolvimento económico e humano, como se vingaram da Justiça por ela já lhes não obedecer nos obscuros ditames, nem dizer Ámen nos interesses moleculares, locais e regionais, além de diluir a carga simbólica e significativa que no plano das liberdades, direitos e garantias constitucionais o instituto da censura tinha – e tem. Não dizê-lo, não incentivar o debate acerca das circunstâncias e nuanças que a artimanha encerra, não contribuir para a caldeirada com o nosso peixe de opinião, não participar activamente no processo de dissolução das fantasmagorias antidemocráticas é abdicar de quase todas as conquistas que a Liberdade, a Democracia, a Igualdade e o Conhecimento nos facultaram desde a queda da monarquia em Portugal. Pelo menos!

2.05.2009

Urbe et Orbi (com ladeado e piafé)



"A juventude é uma doença que se cura
com o tempo
" – George Bernard Shaw

Às 18:11 horas tmg, enquanto reflectia sobre os últimos acontecimentos da política nacional, da investigação judiciária, da Justiça com j grande, das questões pessoais que de repente podem (ou não) virar questões de Estado, não pude esquivar-me à lembrança de como, também eu, deixei de ouvir ruídos esquisitos no meu telemóvel, depois de Pinto Monteiro, procurador-geral da República ter denunciado aos quatro ventos que lhe estava a acontecer exactamente aquilo que deveras me acontecia, sem que nada o justificasse, uma vez que não tenho dinheiro nem para mandar cantar um grilo, por mais marçalino que se encontre, e muito menos uma fénix, por suástica que seja, obediente, imbuída de afoito sentido da ordem, no sentido directo e plenário de Deus, da pátria, da família, enfim uma gaivota do norte polar insignificante ou qualquer outra ave de arribação, pondo-lhe o rebate pois Sua excelência, eis que também me calhou a mim uma migalhinha de efeito e consideração, pelo que comecei a sonhar alto, isso mesmo, a pensar que mais dia, menos dia, até podia suceder Portugal acordar em Democracia.
Ora tudo isto me vinha à ideia na última quinta-feira de Janeiro, dia 29.01.2009, naquele instante de espera, entre as dezoito e as dezoito e onze, noves fora porque nove são os planetas do nosso sistema, onze do nove, dia em que foram abaixo as torres gémeas de N.Y., N.Y., dito marginal 000000011 que é o quarto número em distância parcelar ao zero, mas afinal, mais não é que o digital três, coisa que traduzida em planetas a contar do Sol é Marte, corpúsculo observável entre a Terra e Júpiter, cujo ano dura 687 dias, senhor da Guerra, deus das armas, Ares grego, patriarca romano, pai de Rómulo e Remo, lobo, touro e cavalo nas esfinges da Primavera como da juventude, terceiro mês do ano, esperançado que também o procurador-geral estivesse nesse momento a assistir ao evento televisivo para depois o comentar via e-mail com os seus amigos, postar algo em seus blogues, como colaboração desinteressada, apenas para partilhar as conjecturas e apoquentações, e igualmente o não conseguisse por lhe haverem bloqueado/censurado o acesso ao blog nas instituições públicas que frequenta, lhe trancassem a hipótese de resposta por e-mail, coisa inaudita e carecida de basta engenharia politécnica, contudo e pelos vistos possível, e em consequência o dissesse aos quatro ventos para, assim, novamente lhe deixar de acontecer a ele o que também me acontece a mim. Porém, a essa hora se calhar não lhe aconteceu coincidir, provavelmente estaria em consonância com outro relógio, quiçá noutra sala de estar esperando, assistindo ao tic-tac do mostrador sempre que o ponteiro saltava de minuto em minuto, até à hora certa de entrar em cena o protagonista principal na coreografia do momento (histórico).
E foi então que me lembrei das conversas de café com o Sr. Catrunfo, vizinho da minha avó Cândida, que além de funcionário público, se me não falha a memória no tribunal da comarca, era igualmente encenador num grupo de teatro amador da cidade, há muito falecido e que morava nas traseiras duma casa de quintal gradeado, com uma ou duas palmeiras dentro dele, em que numa dessas tertúlias confessou ser recorrente esticar o tempo de espera dos espectadores antes dos espectáculos, a fim de melhor o sentirem voar quando deveras estivessem a assistir à peça, e que esse truque consistia precisamente em atrasar o relógio um minuto por cada três que ele andasse, pelo que se o espectáculo estava marcado para as 21 horas, se se começasse a atrasar o relógio a partir das 20:40 horas, os espectáculo apenas começarias às 21:11 horas, diminuindo-lhe a duração em dez minutos, mas obrigando as pessoas a reconhecer terem gostado tanto da peça que nem deram pelo tempo passar, pormenor que muito contribuiria para a magia do acontecimento. É óbvio que anteriormente me havia lembrado do ti Catrunfo, por mor de outros quinhentos, ao caso mais estendido esse tempo, porquanto o mostrador do relógio circunscrevia o movimento de translação da Terra, logo em vez de uma hora esta se amplificaria, não por um dia, mas por um ano, em que cada quarto de hora corresponderia às Estações do Ano, Primavera do meio-dia às três, das três às seis, o Verão, e das seis às nove o Outono, para o Inverno saltitar das nove às doze, fechando assim o ciclo completo, e precisamente a propósito das actualizações de montante dos salários, reformas e pensões, que eram feitas em Outubro, mas depois passaram a sê-lo em Novembro, até há uns aninhos atrás ainda eram feitas em Dezembro, mas agora estão a ser efectuadas apenas em Janeiro, tendo perdido os seus beneficiários gradualmente três meses de aumento, dois meses e um mês de aumento, porquanto esse aumento vinha antes do subsídio de Natal, recebendo eles o aumento pelo mês de Novembro desse ano, mais os do mês de Dezembro e o do respectivo subsídio, mas que assim apenas receberão o aumento no mês de Janeiro do ano seguinte, pelo que se calculado em comparação com a inflação e tendo efeito o aumento somente no final do ano, logo quando deveriam sofrer novo aumento mas não recebem, por este ser tão-só actualizado no mês seguinte ao que recebem a dobrar, passam a receber realmente por cada ano um pouquinho menos, subtraídos sendo gradualmente daqueles "minutinhos" económico-financeiros – quem foi que disse que tempo é dinheiro?–, à semelhança dos espectadores daquele tempo, espelho das encenações e coreografias funcionárias ou kafkianas, em que não havia sala de espectáculo sem que sobre a porta de entrada/saída, por conseguinte, nas costas da plateia, não estivesse um enorme relógio que se acertava da casa das máquinas (de projectar/filmar), fora do ângulo de visão da assistência, que supunha usufruir de espectáculos de uma hora, quando na realidade apenas tinha assistido a 49 minutos de sessão.
Ou seja, entre as 18 horas e as 18:11 daquele dia, antes da denúncia e preenchimento discursivo sobre campanhas negras e manifestação de poderes ocultos, cheguei a pensar que algo iria mudar em Portugal, que a justiça portuguesa poderia vir a confirmar que o Sr. Catrunfo da minha juventude não só estava definitivamente reformado, já não era funcionário activo em nenhum organismo do Estado, nomeadamente nos ministérios da Administração, da Defesa ou da Justiça, e que finalmente poderia usufruir da minha cidadania sem a acção contrária e opositora dos maquinismos de subtracção da liberdade comuns aos "espectáculos" coreografados pelos magistérios do Estado Novo... Mas falhei, que nada disso aconteceu, e as forças misteriosas do ocultismo cinzento-camurça das solas-de-ceilão continuou a circular pelos corredores, não só conspirando ou tramando enredos de esmagar os pobres que ousem comunicar entre si, servindo-se dos recursos que o poder caudilho diz ter feito a caridade de disponibilizar, para acabar com a infoexclusão, mas que afinal apenas usa para melhor manietar aqueles que não lhe batem palminhas, pensam por si mesmos, não engolem caroços por frutos, nem lhe apodam de geniais ideias que em verdade, embora desconhecendo o que elas significam e representam em termos de biodiversidade, quer do ponto de vista antropocêntrico como dos ecocêntrico e biocêntrico, valem e são, bem como quem politicamente as fomentou, inspirou e defendeu.
E isso sim, é outra vez lamentável, não obstante a hora que mo inspirou e em que ocorreu... Pois que se a juventude costuma passar como tempo, a velhice agrava-se com ele – e, ao contrário, até piora!

1.30.2009

carta de participação de acidente


A Rabaça e o Agrião

"Uma meada, que se saiba, tem sempre duas pontas."
Carlos de Oliveira, in Casa nas Dunas (p. 72)

Normalmente as minhas investidas na horticultura, ou visitas à horta, quando ainda achava que o trabalho era uma brincadeira divertida, coisa comum a quem cresce e nem nota, eram feitas com o meu avô paterno ou o meu tio Garranchinho, e terminavam quase sempre com um lacónico «sai daí, ventas de penico!» mais ou menos elucidativo da qualidade da acção desenvolvida durante a estadia entre as hortaliças, do posto em que me amesendara ou do poleiro em que me instalara para melhor dirigir as operações. Se a lembradura não carecia de gravidade suplementar nem orçava danos às novidades e mimos de época, então o respectivo «sai daí» tornava-se coisa fina de cozedura apurada para o intelecto em subtilidade, na brandura dos apodos, e transformava-se num «sai daí, ventas de abrunho!» cuja doçura ainda reflectia ocasionais destemperos, mas já sem apontar para solturas de terrível desfecho. Porém, a que mais impressão causava, pela pujança da imagem, e a que só o simples imaginar causava, provocava uma dor insuportável, pior que antevisões do inferno a que certamente iria parar se não fizesse, ou não parasse de fazer, isto ou aquilo a que a minha tia Inês não descortinava mérito algum, era o «Ah, malandro, que esgarro-te uma perna da outra!!...» com que o meu homónimo avô punha termo a qualquer pendência, ou celeuma, que entre ambos se levantasse por mor de pensamentos e acções menos consentâneas como seu modo de ver e avaliar a realidade comum. A diligência não era para tanto, está bom de crer, e sempre suspeitei de exagerada dramatização dos resultados, todavia perdia invariavelmente a lucidez de análise e julgamento, mal sentia serem passíveis de separação duas peças tão queridas ao meu corpo, precisamente num encaixe e região por demais preciosas, frequentemente acarinhadas por mim, como pelas filhas dos caseiros que assim demonstravam, não obstante serem muito novas para funções próprias a estremecimentos superiores, possuírem já um talento especial e inato para manuseamentos miraculosos. Portanto, desnecessário é dizer que o «ah, malandro: esgarro-te uma perna da outra!», quer viesse acompanhado com o salientar encarniçado das veias do pescoço como do mostrar apoplético do branco ocular, ainda não tinha sido acabado de proferir já estava a fazer efeito, doendo-me cruelmente só de pensá-lo, mesmo que o reportasse para o universo das figuras de estilo deveras inviáveis e obscuras.

(Continua amanhã)

1.24.2009

Em Reconhecimento do Primaz Valor dos Finalmentes

Finalmente, além da famigerada crise, Portugal acompanha a Europa em qualquer coisa que, sendo supostamente uma constatação boa virará arrelia, isto é, na tendência de envelhecimento com sucesso garantido, quer pelo escore da baixa fecundidade como pelo aumento da longevidade, porquanto os seniores com mais de oitenta anos, espécimen rara nos meados do século passado, passarão a ser uma das maiores minorias na sociedade portuguesa, o que sem dúvida lhe facilitará a formação de um lobby poderoso, contando com mais de 450 mil recenseados em causa própria, mas cujo número deverá triplicar até 2060, altura em que se prevê serem uma parcela de 13% da população, o que resultará, evidentemente, na banalização e perda de comoção – portanto um considerável decréscimo na lamechice saloia e pacóvia do Zé-Povinho –, o facto de pessoas como José Saramago, Mário Soares, Eunice Muñoz, Manoel de Oliveira, José Hermano Saraiva, Ruy de Carvalho, Nella Maissa, Júlio Resende, Almeida Santos, Maria Barroso, Eduardo Lourenço, Vitorino de Almeida, Odete Santos, Marcelo Rebelo de Sousa, Agustina Bessa-Luís, Maria de Lourdes Rodrigues e Bagão Félix serem motivo de notícia pela idade que têm e ainda se manterem no activo, embora não seja nada de qualidade aquilo que fazem, nem o seu provecto pensamento melhore minimamente o presente nacional e humano, assim como deixarão de poder preencher os buracos no macadame programático das vias de comunicação, quando a braços com a falta de assunto, facilitando que essa deslumbrante ideia de serem uns velhinhos que ainda dão muito bem conta do recado passe à história, como aliás eles também hão-de passar, mas sobretudo entender-se-á mais claramente o que significa para um geração o facto da sua predecessora se manter activa e inoportuna, atrasando a civilização para que se não sinta tão notoriamente ultrapassado pelo conhecimento e actualidade, esvaziando-lhe o gás dessa declarada intenção de continuar a fazer as mesmas travessuras magníficas e talentosas e geniais de que toda a gente fala mas ninguém usa, ninguém vê, ninguém lê, ninguém ouve, ninguém se serve, embora haja quem considere que isso tem uma gracinha especial, outros dirão, menos atreitos aos contágios das caganeirices maneiristas, piadinha arqueológica do anedotário universal, que pode vir a ser um excelente motivo para algumas famílias normais aparecerem nos écrans e parangonas, como prémio por os terem aturado tanto tempo, sem sequer se suicidarem nem sucumbirem ao stress, facilitando assim a imediata subida nos escores/rankings de audiência, ou venda ao público, de alguns dos órgãos de comunicação mais expeditos da nossa desalegre praça, de tão enegrecido empedrado à portuguesa.
Até porque o Finalmente Morreu Fulano Tal pode tornar-se o título mais frequentemente usado e recorrente na garantia de chamar a atenção geral, coisinha menos que original para quem tem assistido paulatinamente às aventuras dos Simpsons amarelos, cuja icterícia mental se propaga tão eficientemente como a malária, deng e leishmaniose nos pântanos globais, podendo este título passar a slogan político e indicativo dos principais blocos noticiosos (telejornais, jornais e noticiários), prima donna dos grupos de merceeiros e multimédia continentais, com garantida exportação para África, Américas e Ásia nos planos éco-colonialistas das TIC de sexta geração elaborados por copy past em retiros ultramodernos como freeports do ocultismo regular inglês e offshores em Madeiras paradisíacas de forte crescimento e proliferação infiscal, a fim de melhor captar a atenção das famílias ensimesmadas e distraídas com os acepipes enlatados ou acabamentos fumegantes dos aromáticos pré-cozinhados, ainda com rótulo de promoção da caridosa e beneplácita cadeia de hipermercados, tão oportuna e conveniente como a fome de cada um, dizia, título ou indicativo, capaz e suficiente de nos captar a atenção nas horas das refeições, esses momentos familiares excelsamente propícios às bombas políticas, boatos difamatórios e contundentes, anúncios de crise, prisão preventiva, comunicados de imprensa, discursos à nação e breefings de última hora, porquanto essas novidades o já não sejam nem suspendam ninguém dos quadradinhos mágicos, que era o modo mais eficaz de comer e calar que a democracia vigente inventou para nos fazer o ninho detrás da orelha, alcançar o céu (da boca) ou mergulhar na esperança dum sarapatel bem condimentado, alvitrando quanto a vida pode mudar, e que por mais infelizes que sejamos não nos podemos queixar, pois neste mundo ainda há muita coisa para além dos comezinhos vociferados das promulgações polémicas, das mensagens ecuménicas de profanidade relativa, dos conselhos patriarcais para a evitação de sarilhos, coisa que aliás os seus progenitores não ouviram, pois, se o tivessem feito eram, agora, de Dos Rostos ao Landal, duas parcelas do território nacional orgulhosas dos seus filhos. Assim, embora o possam ser por alguns deles, o que é certo é que nunca o poderão ser acerca de todos, visto haver um sobre quem recaia a maior vergonha que há no mundo: a de brincar com as fezes dos demais.
Isto é, a expressão popular de nem o pai morre, nem a gente almoça ganhará novo e superiormente expressivo sentido, maior pujança semântica, obrigando-nos a reconhecer definitivamente quanto um povo pode deveras ser sábio, sobretudo nas sentenças, ditados e provérbios que cria, precisamente por os tornar evidentes e indesmentíveis, não obstante em alguns a acutilância e excelência divinatória nos escape esporadicamente, mas lá vem aquele dia inegável em que não falham, batem de frente na nuca do nosso entendimento, se fazem luz vista claramente vista, e como um simples, convicto e convincente "vai chover" que não é prà'gora, e eis senão quando numa bela manhã em que nada o fazia prever, ao abrirmos a janela, levamos com a poalha nevoenta nas ventas, que nos arrepia que nem constatação sobrenatural, nos eriça os desagrados, embacia os tutanos, deveras ressequidos por não lhe acertarmos o passo e fulgor com o clima, alterado que está, obrigando-nos, finalmente, a enfiar as galochas se queremos ir à garagem pensar as rolas ou ir ao lugar da esquina comprar agriões para acompanhar a farinheira assada que destináramos como refeição principal do dia.
Caso para afirmar que o ditado curdo kem bijî, kel bijî (vive pouco mas vive quente, ou melhor dito, intensamente) virou treta de aliviar terrorismos breves, coisa de convencer quem ainda conta poucos anos, ainda acredita em sonhos e intenções benfazejas,empresta à realidade os semáforos de uma navegação sempre pronta a confundir fantasias com objectivos.

1.22.2009

O Grande Amor de Jane Eyre

O Grande Amor de Jane Eyre
Charlotte Brontë

Tradução de Leyguarda Ferreira
Edição Romano Torres – Lisboa, 1965

Eis um livro sobre o qual não vou adiantar qualquer comentário, visto ele ter "sofrido" já várias edições (e traduções) em português, das quais, esta deve ser a primeira ou uma das primeiras, além de ter igualmente sido "vítima" de adaptação a filme e série televisiva, ainda que em produção da BBC, coisa séria e de monta, se dirá, embora que pouco séria na montagem, sob o homónimo original de Jane Eyre. Mas sobretudo, e principalmente, porque nela está inserido um texto de Gentil Marques, em jeito de prefácio, a que não resisto à transcrição, por ser um documento de enorme clareza para ajudar a compreender, tanto a obra como a sua autora, tanto a época, a estética e a sociedade que lhe subjazem, além de romper, sem a mínima leviandade, com os cânones da crítica actual, não só pela frugalidade e fazer-de-conta que enferma, como também insatisfação de caldo verde aguado e sem conduto com que nos deixa. Uma crítica de copy pastiche a navegar no oceano dos lugares comuns que, tal como os modelos de horóscopos de revista são passíveis de ser aplicados a qualquer pessoa dando sempre certo, pode igualmente ser aplicada a qualquer livro, independentemente de o ter lido ou não, afirmar por verdadeiro algo que é também verdadeiro para um milhão de outros com romances milionariamente diferentes, e ninguém notar isso.

Breve Ensaio Sobre a Vida e Obra de Charlotte Brontë
por
Gentil Marques

1 – Num certo dia de 1847 surgiu nas vitrinas das livrarias inglesas um romance estranho. Intitulava-se «Jane Eyre». O seu autor assinava Currer Bell. Na primeira página trazia uma entusiástica dedicatória ao famoso W. M. Thackeray.
Começou assim, precisamente, um dos mais curiosos e dos mais fascinantes mistérios literários de todos os tempos...

2 – Quem era Currer Bell? Ninguém o sabia – nem o próprio editor.
E contudo o romance ia conquistando, aos poucos, um interesse deveras invulgar. Tratava-se de uma obra de verdadeira análise humana. Os leitores, habituados aos rendilhados de prosa da época, espantaram-se sinceramente com a ousadia do autor desse livro. «Jane Eyre» valia, de facto, como um romance desassombrado de realismo comovente e de crítica oportuna. Nas suas páginas passava, sem dúvida, um reflexo da própria vida – com o seu cortejo de misérias e de grandezas, de virtudes e defeitos, de bem e de mal...
E, então, não só o público ledor mas também os próprios críticos e até mesmo os literatos se entregaram à tarefa de descobrir esse autor novo e desconhecido que tão ousadamente vinha abrir novos caminhos ao estilo da literatura inglesa.
Não foi nada fácil chegarem a um resultado positivo. Currer Bell continuava na sombra, como que desfrutando o alto interesse criado em seu redor.
E somente um ano depois – o editor conseguiu solucionar o mistério. Mas a solução deixou muita gente de boca aberta...

3 – Porque afinal de contas – Curer Bell era apenas um pseudónimo. O pseudónimo de uma jovem...
Havia razão, decerto, para o espanto dos leitores e dos críticos e dos literatos. Podiam lá pensar que uma rapariga, filha de boas famílias, se atrevesse a publicar uma obra tão revolucionária, no estilo, e, sobretudo, tão genuinamente humana?
Porém – a verdade era essa, e só essa! Currer Bell representava unicamente o pseudónimo literário de Charlotte Brontë...
E quem era Charlotte Brontë?

4 – Nasceu em Thornton, a 21 de Abril de 1816. Filha do reverendo Patrick Brontë e de Maria Branwell, tinha mais cinco irmãos, Mary, Elizabeth, Patrick, Emily e Anne.
Em 1820, a família instalara-se no presbitério de Haworth – no mesmo edifício onde hoje existe o já famoso Museu Brontë.
Mas, então, nesses primeiros de estadia – Haworth representou para Charlotte mais do que um pesadelo vivido, quase a própria imagem do inferno na terra.
Aí morreu sua mãe. Aí morreram, quatro anos depois, as suas duas irmãs mais velhas, Mary e Elizabeth, ambas vítimas de uma tuberculose insaciável.
E ficaram assim somente as três irmãs Brontë – Charlotte, Emily e Anne – suportando sobre os ombros frágeis a doença do pais e as impertinências do irmão.
Por causa deste, Charlotte e Anne acabaram por aceitar empregos como preceptoras e governantas. E felizmente que o fizeram. Felizmente, porque da experiência vivida por elas resultaram algumas das obras-primas da literatura mundial!

5 – Foi em fins de 1845 que as três irmãs resolveram tentar, pela primeira vez, o juízo da opinião pública. E publicaram uma antologia de poemas, assinados com os pseudónimos de Currer, Ellis e Anton Bell. Mas o livro passou quase despercebido...
Corajosamente, elas resistiram ao fracasso. Sobretudo, Charlotte, a mais enérgica das três. Queriam ser escritoras – e seriam escritoras, custasse o que custasse. Não se poupavam a sacrifícios para que o irmão se tornasse um grande pintor. Pois também não se poupariam para alcançar a meta dourada dos seus sonhos.
Da estadia na Bélgica, no Pensionato Hèger, Charlotte trouxera uma viva e dolorosa recordação: o seu amor pelo senhor Hèger, director do pensionato. E daí nasceu o entrecho do seu romance «O Professor».
Entretanto, Emily, a irmã romântica e sonhadora, misturava a realidade e o sobrenatural no seu empolgante «Monte dos Vendavais». E Anne Brontë com as esperanças e as desilusões da sua própria existência a história singular de «Miss Grey».
Porém – os três romances tinham contra eles a incompreensão dos editores. Várias vezes apresentados para edição – foram recusados outras tantas.
Era um novo e mais terrível fracasso – mas nem esse, também, as fez desistir!

6 – Para o temperamento aguerrido de Charlotte, esses desaires só lhe trouxeram estímulos de coragem. Foi então que tentou a sorte com um seu outro romance, «Jane Eyre», escrito igualmente com um pouco da sua própria vida e da vida das suas irmãs.
Chegara, finalmente, a grande hora. Um editor leu o livro e gostou. O volume saiu a público. «Jane Eyre» por Currer Bell. De mansinho, o triunfo veio bater à porta das irmãs Brontë...

7 – Todavia, a sombra da fatalidade não lhes largava a porta. Enquanto Emily, no desespero de amores impossíveis, sonhava com «um cavaleiro negro» que a viria buscar, e Anne, flor delicada e campestre, não sabia resistir às intempéries do tempo – o irmão Patrick, semi-louco, semi-bêbedo, semi-génio, partia para um Mundo melhor.
Então, como se fosse um sinal, o grupo começou a reduzir-se, a desfazer-se. A seguir a Patrick, desapareceu Emily, levada decerto por um dos seus sonhos. E depois, Anne...
Charlotte ficou sozinha em frente da vida. Sozinha. Só os livros a poderiam salvar. E salvaram-na, na verdade. Das suas mãos, saíram mais três pequenas obras-primas: «Vilette», «Shirley» e a edição definitiva de «O Professor», já completamente remodelada.

8 – Acabou por casar. Por casar com um homem de quem Emily gostara e que, por sua vez, sempre gostara de Charlotte.
Ele chamava-se Arthur Nicholls e viera para Haworth a fim de ajudar o pai Brontë nos inúmeros afazeres do presbitério.
Estranho romance de amor unira essas: Emily, Charlotte e Arthur. De tal modo que certo dia, ao ler os manuscritos de «Jane Eyre» e do «Monte dos Vendavais», Patrick gritara bem alto a sua descoberta:
– Vocês, as duas, amam o mesmo homem!
Talvez só nesse momento tivesse compreendido a terrível verdade. Mas, de qualquer modo, passaram-se anos antes que a verdade se encontrasse a si mesma. De facto, Emily apaixonara-se por Nicholls, Nicholls apaixonara-se por Charlotte. E Charlotte julgava que Nicholls amava Emily...
Quando um dia, finalmente, as suas mãos e os seus corações se uniram para sempre – aos ouvidos de Charlotte devem ter soado, com certeza, aquelas palavras que Emily escrevera no «Monte dos Vendavais»:
«
Ninguém deve imaginar que tem um sono inquieto. O amor virá aquietar-lhe a alma.»
Ou então as palavras que ela própria confessara na boca de Jane Eyre:
«
Que nunca sejas um instrumento de morte para o ser que mais ames no mundo».

9 – Dizem certos críticos – e nós estamos de acordo com eles – que «Jane Eyre» é o mais autobiográfico dos livros de Charlotte Brontë. E, também, o mais sentido.
Por exemplo: a figura magnífica de Saint-John Rivers deve ter sido inspirada por Henry Nusser, o primeiro grande pretendente ao coração de Charlotte. Os retratos de Diana e de Mary têm forçosamente como modelos as figuras de Emily e de Anne Brontë. E a própria casa dos Rivers não é mais do que a reprodução exacta do presbitério de Haworth...
Mas, sobretudo, o que salta à vista de qualquer estudioso do romance de Charlotte Brontë – é a semelhança espantosa entre a autora e a protagonista. Mais do que semelhança – total identidade de carácter.
Por isso mesmo, talvez – a obra conseguiu despertar tal interesse à sua volta. Continha um depoimento vivo, humano, sincero. Era o testemunho leal de alguém que vivera, sofrera e amara. De alguém que confessava em público as suas fraquezas e as suas revoltas. De alguém que tinha uma história comovente e impressionante.

10 – E, acima de tudo, a rebelião contra os padrões estabelecidos pela literatura inglesa. Até então – as heroínas dos romances eram todas talhadas pelo molde clássico de cativar os leitores pela sua beleza, pela sua aristocracia, pelo seu ambiente familiar inacessível aos leitores.
Pois, muito bem, a heroína de «Jane Eyre» – nem era bonita, nem tinha sangue azul nas veias, tratava-se de uma rapariga banal, filha de gente pobre, vivendo quase na intimidade dos próprios leitores.

11 – E agora – a propósito – permitam-nos uma observação meramente pessoal: estamos em acreditar que a grande base para o êxito universal de «Jane Eyre» foi precisamente a aceitação que encontrou por parte das leitoras. Sim, das leitoras! E porquê? Porque todas as mulheres sem beleza e sem fortuna viram na aventura e no amor e na felicidade de «Jane Eyre» – o eco dos seus sonhos mais íntimos.
Quanto a nós – foram elas, principalmente, que lançaram o romance, como brado de emancipação, para os tempos vindouros. E são elas, ainda, estamos certos, que mantêm hoje a celebridade da obra de Charlotte Brontë. E serão elas, afinal de contas – que não mais deixarão apagar-se a projecção humana e social de «Jane Eyre».

12 – Repetimos: a projecção humana e social. Humana – porque contém, por assim dizer, a odisseia física e moral de uma pobre rapariga, na sua luta de existência. Social – porque reflecte naturalmente os erros, as imperfeições – e também as virtudes – de certos meios que são de sempre. Aliás – Charlotte Brontë teve a seu favor esta grande força: molhou a sua pena na verdade. Foi com a verdade que ela escreveu este magistral e inolvidável volume que se intitula na edição portuguesa: «O Grande Amor de Jane Eyre». Um nome e um símbolo. Jane Eyre. Como ela própria confessa: «Eu digo simplesmente a verdade».

1.20.2009

Da Curiosa Modernidade à Prefeitura da Perfeição

É, no mínimo, curioso que neste conflito entre o povo judeu, como os seus lideres gostam de o apelidar quando querem usá-lo para fazer passar a sua fraqueza de espírito ou executar, pôr em prática, o seu ódio ancestral por outras culturas, outros credos, outros povos, outras formas de estar na vida que não contemplem o seu criancismo monoteísta, onde se pretende que a Guerra Fundamental só possa ser ganha por quem for mais fundamentalista, Omer Granot, a israelita que se negou a cumprir o serviço militar obrigatório – coisa impensável da parte palestiniana –, nos seus poucos 19 anos, demonstrou ser mais sensata e inteligente que todos os dirigentes políticos de uma civilização milenar radicada num país (Israel) onde a isenção militar apenas é prevista por motivos religiosos, logo por motivos ilógicos e irracionais, que assentam na crença e na fé, na ignorância pré-científica, ou naquilo em que o homem se nota menos humano, por assim dizer, mais besta medieval de formação pré-histórica. Filha de um agente de espionagem da Mossad, onde fora dirigente, nega-se a fazer parte de um "exército que, desnecessariamente pratica actos de violência e viola os mais básicos direitos humanos", além de ser suspeito de fornecer "mísseis" (ou rockets) e pagar a membros de famílias palestinianas miseráveis, numerosas e famintas, para enviarem esses mísseis de zonas que querem destruir e onde suspeitam residir algum líder do Hamas.
Ora, isto pode ser muito contemporâneo, muito bem-intencionado, muito faixa de Gaza, ou tampão unilateral de medricas preconceituosos, tipo gaja que toma três pílulas anticoncepcionais, com medo de engravidar, no dia em que vai jantar com o namorado e depois o acusa de ele querer ter relações sexuais pré-matrimoniais, como se isso não lhe tivesse passado pela ideia quando combinou a refeição, criou expectativas acerca dela ou anteviu o seu desenrolar... Mas, sem sombra de dúvida, também é doentio, patológico, de assassínio premeditado de inocentes, enraizado no trauma e no determinismo do quando a globalização era uma anedota marselhesa para difundir ideologias. E entre duas facções fundamentais que tentam assegurar a sua segurança optando pela loucura (da guerra), em vez de pela via do diálogo e da diplomacia, só escolhem e tomam partido aqueles cuja rigidez caracterial e mente doentia se lhe iguala, pelo menos, ou obedece a interesses económicos e bélicos superiores ou estratégicos. Que o mesmo é afirmar, que entre duas maluquices somente tomam partido aqueles que são ainda mais doentios, mais loucos e malucos dos que os que geraram e continuam esse conflito. Ou, como diz o povo, de tão celebradas fundações judaico-cristãs, que é o nosso, e que também costuma dar para tudo, entre uns e outros, venha o diabo e escolha.

Sobre o estádio no Estado


Previsões, sondagens, estatísticas e estimativas, cada um toma as que quer, para um ano a caldos Knorr...
Embora as contas estejam bem-feitas, os resultados não condizem. Isto é, na escala dos políticos, não obstante o raciocínio esteja correcto, as operações foram manietadas, adulterando assim os efeitos ao polinómio. As incógnitas e variáveis tiveram mais força que as acções concretas e as motivações. Intentou-se um salteado com pouca gordura, saiu uma salada fria, sonsa, deslavada e subalimentar. Para mais, se a «moda de faltar às aulas» nos dias de ponto (avaliação) pega, também denominadas «assistidas», e tudo indica que sim, num país cuja principal tradição reivindicativa nos andar de alevante só tem convencido pelo lado do não-fazer, então é caso para dizer que Portugal abrirá falência brevemente, como o exemplo que veio do frio (Islândia), pondo de pantanas todas as previsões, desde as orçamentais ou governativas, às do Banco de Portugal, Economist e europeias. O investimento público redundará noutro gasto supérfluo para enriquecer algumas empresas pródigas em engenharias, financeiras e obras públicas, far-se-á um novo aeroporto ainda que o tráfego aéreo diminua consideravelmente, dois ou três charcos para as rãs e lagostins de água doce se reproduzirem a bel-prazer, a aposta ferroviária limitar-se-á ao TGV, a quebra de receitas das autarquias locais pela redução dos efectivos fiscais no IMI, IMT, IRS, derrama e não aumento das taxas municipais e rendas das concessões à EDP, transformar-se-ão 555 milhões de € em meio milhão de razões para o poder local continuar com a política do pão com queijo que até hoje tão bem têm executado, e o ensino produzirá mais uns milhares de mal-formados aptos a licenciaturas e doutoramentos em retórica no safe-se quem puder, suficientes e necessários para desbaratar o PIB metendo-se na cadeia uns aos outros, alternando entre si nas secretárias ministeriais conforme o partido que estiver a comandar o establishment constitucional, assim como se manterão excluídos dos conteúdos programáticos do ensino básico, secundário, politécnico e superior quaisquer conceitos relacionados com o conhecimento e a liberdade, consciência cívica, responsabilidade, emancipação, respeito pela diferença, autonomia, gestão sustentável e democrática de recursos e distribuição equitativa dos resultados, ou valorização da cultura, da natureza, da paisagem, das condições ambientais e território aduaneiro, costeiro, atmosférico e da biodiversidade, desde que não seja para efeitos turísticos e imediatamente vendáveis. A eficiência energética será legitimamente usada para fugir ao fisco e dar dinheiro aos investidores nas campanhas eleitorais para as autarquias, subornar concelhos directivos nos estabelecimentos de ensino das áreas metropolitanas, aliciar novos quadros para a função pública, principalmente nas TIC e formação de formadores capazes de alterar as estatísticas do INE quanto ao desemprego e qualidade de vida. No restante, continuará a ser o país a que nos habituámos desde 1383-85: selvagem, mal amanhado, paroquial, corporativista, produtor de emigrantes e paraíso do xicoespertismo nacional, onde arte do bom viver se funda no gastar enquanto houver, pedir emprestado e não pagar, contar como ovo no cu da galinha, acusá-la de traição à pátria se não puser, e estabelecer compromissos que as gerações futuras hão-de cumprir como recompensa por terem nascido mesmo sem serem planeadas e muito menos desejadas.
Todavia, que ninguém perca a esperança, pois o PS(D) está com força de mudança: bastantes gays poderão vir a passar a ser menos homossexuais e muitas lésbicas menos fufas, além do que, finalmente, um português genuíno entrará na Casa Branca (como oferta de Barack às filhas).

1.16.2009

COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS, por EUGÉNIA CUNHA

O Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, realiza no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A) a conferência – COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS – que terá lugar no dia 21 de Janeiro, às 18h00, e será proferida pela Profª. EUGÉNIA CUNHA da Universidade de Coimbra, a que poderá também assistir em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ e enviar as suas questões ( darwin@gulbenkian.pt ) que o orador responderá no final da sessão.
Mais se adianta que Eugénia Cunha é Bióloga ( cunhae@ci.uc.pt ), doutorada em Ciências (especialidade Antropologia, 1994); é professora catedrática de Antropologia, do Departamento de Antropologia, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra desde 2003.
A evolução humana sempre foi uma das suas áreas científicas prioritárias porque entende que o conhecimento da história natural do homem é crucial para várias ciências tais como a Antropologia e a Biologia. Ver o homem como um Primata, conhecer os primatas não humanos, é um modo insubstituível de nos conhecermos. Entender o nosso passado é também indispensável para perspectivar o nosso futuro como espécie. A evolução humana é uma ciência eminentemente transdisciplinar, sujeita a mudança, rica em descobertas de vários tipos e em que a ausência de evidência não é evidência de ausência. A divulgação e o ensino da Paleontologia Humana têm sido uma constante.
Entre outros, criou e desde 1998 é responsável pelo Mestrado em Evolução Humana, agora 2º ciclo em Evolução e Biologia Humanas do Departamento de Antropologia da FCTUC. Nas licenciaturas de Biologia e Antropologia lecciona desde 1985 disciplinas de Evolução Humana e Paleontologia Humana.
Orienta/ou cerca de 30 teses de Mestrado na área em questão; orienta/ou 16 teses de doutoramento (incluindo 7 bolseiros da FCT). Preside o Departamento de Antropologia da FCTUC e o GEEV, Grupo de Estudos em Evolução Humana http://www.geevh.org/, cujo lema é “ a especialização conduz à extinção”.
Ministrou vária conferências, debates e seminários em Evolução humana em Universidades nacionais e estrangeiras assim como em Escolas Secundárias. Desde 1987 participa em congressos internacionais sobre evolução humana.
Tem desenvolvido e colaborado em vários projectos na sua área tais como o Projecto Ciência Viva sobre a divulgação da Evolução Humana intitulado “ A Grande Árvore da Evolução Humana” 2007.

COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS
EUGÉNIA CUNHA
Esta pergunta recorrente que se coloca desde sempre vai buscar respostas a várias ciências e permanece um dos maiores desafios da antropologia e da biologia. Leva-nos a uma inevitável e fascinante viagem ao nosso interior e no tempo porque o entendimento de onde viemos elucida também sobre para onde vamos. E no exercício de mergulhar no passado, há que recuar até há cerca de 7 milhões de anos para encontrar os mais prováveis candidatos a primeiros hominídeos. Desde eles até ao presente, passamos por uma cadeia impressionante de antepassados, directos e indirectos, que vamos colocando na nossa árvore evolutiva, densamente ramificada mas da qual só conhecemos uma parte dos inquilinos. Falaremos de alguns deles, onde, como surgiram e como se relacionam connosco. As peças do puzzle vão surgindo com as novas descobertas e com a reavaliação de outras. Cada uma dessas peças conta-nos uma história. Mas cada vez mais, não são só os fósseis que permitem reconstruir a nossa história natural. O acesso ao nosso genoma e ao de alguns dos outros primatas levou-nos para uma nova era em que se procura identificar os genes e as alterações genéticas que nos tornaram únicos. A nossa singularidade remete-nos inevitavelmente para o órgão mais complexo do universo, o nosso cérebro. Recentemente, foi sugerido que um determinado gene, o HAR1F, possa vir a ajudar a perceber porque somos os mais encefalizados de todos os primatas. Mas temos que reconhecer que somos muito mais do que genes. A velha máxima “ somos aquilo que comemos” continua válida e o segredo do aumento do nosso cérebro, um autêntico devorador energético, parece ter sido contrabalançado por uma concomitante redução do aparelho gastrointestinal viabilizada por uma mudança na dieta. A incorporação de mais carne na dieta terá facilitado o crescimento cerebral. A hipótese ETH- Expensive- tissue hypothesis é aqui cruzada com o aumento do período de gestação, com a prematuridade do recém-nascido humano e com o crescente investimento parental por parte dos humanos como uma explicação possível para o facto de o nosso cérebro ser três vezes maior do que aquilo que seria de esperar. Mas este não é o nosso único traço distintivo. O bipedismo e a nossa linguagem têm sido cruciais para termos chegado onde hoje estamos. A chave está no cruzamento de todos estes traços distintivos, dos genes a eles subjacentes e na sua correcta contextualização ecológica. Sabendo que a evolução não é gratuita e que só quando os benefícios de uma dada mudança evolutiva superam os custos é que o processo avança, é um desafio destrinçar as cada vez mais peças chave deste intrincado ser que somos com a certeza de que muitas das questões só serão respondidas ao longo do próximo século, quiçá, no próximo grande aniversário de Darwin que, acredito, continuaria a dizer” Light will be thrown on the origin of man and history”.

12.18.2008

Carreiras Sem Transportes


Estatuto da Carreira Docente
Decisão Negociada ou Discutida?
Maria da Conceição Castro Ramos
256 Páginas

Na evolução da sociedade, que após a Revolução Industrial já fez diversas (trocas) mudanças de camisa, tal como da sociedade de produção se transformou em sociedade de consumo, de sociedade de consumo em sociedade de comunicação, de comunicação em informação, e agora, depois da passagem ao novo milénio e ao século XXI, estamos à beira doutra vernissage, uma vez que se avizinha (sob croquis) a sociedade da cidadania, que irá estabelecer uma nova ordem de valores, além de um novo – e desejável – posicionamento social dos agentes educativos e socializadores. E, claro está, com eles, os “principais” protagonistas da comunidade educativa, o corpo docente.
Sob esta perspectiva, importa repensar e sem eufemismos corporativistas o Estatuto da Carreira Docente, não só com base nas teorias que formatam hoje os modelos decisionais em Administração Pública, mas também ao nível das participações e do mapeamento dos parceiros sociais, das parcerias público-privadas possíveis, assim como na inter-relação daí resultante (como necessária), embora que acompanhada das típicas polémicas cimentadas pela defesa dos interesses particulares e corporativos que lhe subjazem.
Maria da Conceição Ramos Castro, cujo currículo (professora do ensino secundário, formada em filologia Germânica, Mestre em Ciências da Educação e Desenvolvimento, que também foi directora Regional da Administração Escolar dos Açores, subdirectora Geral do Ministério da Educação, directora Geral da Administração Escolar, directora do Departamento de Gestão de Recursos Educativos, membro do Conselho Nacional de Educação e presidente da Comissão Negociadora do Ministério da Educação para a regulamentação do Estatuto da Carreira Docente) é um aval de conhecimento de causa – e provavelmente de efeito! –, nesta obra de formato 16,5 x 23,5 cm, impressão a quatro cores e encadernação em capa dura plasticizada, o estudo da investigação já realizada, permitindo compreender o percurso processual de renegociação, assim como os paradigmas decisionais concernentes utilizados, que facultem o estabelecimento e dobragem de patamares de consenso, assaz controverso numa matéria tão pertinaz, porquanto se encontra eivado do espírito instrumentalista do bucolismo político-partidário que vê na Educação e na Escola Pública uma óptima oportunidade para minar estrategicamente o futuro da sociedade com a sua teoria de vida, precisamente aquela que deve ser ultrapassada e subscreve os valores e interesses financeiros que lhe facultaram, no passado recente, a ascensão social e consequente arregimentação no establishment (obsoleto).
E nos acicata a levantar a tão badalada pergunta de Raymond Carver, a propósito de outros imbróglios: afinal, de que falamos quando falamos de educação? E da Estatuto da Carreira Docente? Ou de ensino público? Que "escola" é essa que vai ser aliviado do amianto por decreto, mas não das barreiras arquitectónicas na acessibilidade como internas? Será uma escola pública ou tão-só virada para um determinado tipo de público? Vai lá vai, até o PRODEP abana!

12.15.2008

Duplo Crime na Rádio e Caçada ao Sr. X, de Rex Stout

Duplo Crime na Rádio e Caçada ao Sr. X
Rex Stout
Trad. L. de Almeida Campos
424 Páginas – Volume duplo

1.
No decurso de uma emissão radiofónica, patrocinada por uma marca de refrigerantes, um dos presentes morre envenenado enquanto se cumpre a "ritual" bebericação da dita. Quem foi que o assassinou e com que motivos? Para todos, inclusive para a polícia, o problema é insolúvel. Acredita-se que nem a vítima saberia, ao certo, quem a matou. Só que Nero Wolfe, o paquiderme das orquídeas, o sedentário e obeso detective, precisa de pagar os impostos e o dinheiro advindo da resolução do caso faz-lhe imenso jeito.
Secundado nas tarefas de exigência física, e movimento, pelo seu braço direito (e esquerdo) Archie Goodwin, porém apoiados ambos nos energéticos bastidores, na retaguarda ou trincheira da cozinha, por Fritz, um nome que lembra as batatinhas estaladiças, intenta bater a polícia na corrida à desmascaração do homicida, embora esta já disponha de considerável avanço de tempo (e dados) nas infrutíferas investigações, com a qual entra num jogo de bluff e esconde-esconde para tomar-lhe a dianteira.
Só que nos casos de Rex Stout um crime é sempre pouco, ou mesmo nada, qual espécie de vender gato por lebre que defrauda a clientela; tem invariavelmente que haver um antes, um durante ou imediatamente após, e outro depois. Ora, também neste a ementa se repete, para finalmente nos apresentar a sobremesa da desvendação, com requintes de última ceia, toda ela retirada à magnitude das palavras, quer pelo saber ouvi-las, como pelo saber dizê-las, que são saberes inseparáveis para quem a verdade e o conhecimento são duas preocupações, enfim, faces da mesma moeda.

2.
Nesta "caçada" há a considerar quatro [surpresas] particularíssimas novidades: a) Nero Wolfe sai de casa; b) em consequência de a) um homem é assassinado; c) o homicida confessa por escrito, mas ninguém acredita; e d) não morre mais ninguém por isso, ou seja, é um policial de vítima única, logo desinteressante do ponto de vista rexstoutiniano.
Se mais não houvesse, seria já quanto bastava para prolongar a curiosa agonia do leitor. Porém, Rex Stout vai ainda mais longe: não disputa a refrega com a polícia, ou sequer colabora com ela – antes toma as rédeas do caso, remetendo-a para a sua insignificância, como que a provar que Nero é também wolf, pelo que quando quer, sabe muito bem desenrascar-se sozinho, e pode resolver qualquer caso e o mais bicudo dos problemas sem recorrer ao auxílio (embora que indirecto) do erário público, do intrincado córtex titubeante da burocracia em nome da lei.
Porque não há moeda sem duas faces. Mas é necessário dá-las, mostrá-las, para se tornarem reais, pois nenhuma face pode ser oculta, muito menos nos problemas policiais, ou detectivescos, porquanto sendo-o, elas deixarão de pertencer ao foro da ficção e da literatura, para passar a fazer parte do "departamento literário do absurdo e do paranormal", a que costuma recorrer o mau terror, logo do doentio surrealista da fabulação psicótica, em cujos delírios alguns são atreitos a confundi-los com expressão artística. Porque há surrealismo não patológico, embora um como outro se sirvam igualmente da mesma análise e do mesmo psiquismo de referência.

3.
A Pechincha


E assim, prolongando apenas alguns elementos da sequência semântica (ou significativa) da história anterior (Duplo Crime na Rádio), estabelece-se neste volume redundantemente duplo, uma unidade razoavelmente explícita, confirmando-nos que não terá sido em vão nem gratuita a decisão da editora, juntando estas duas novelas num só livro, pois desnecessário é afirmar que se completam muito bem. Aliviando um o que é excessivo e exagerado no outro, e vice-versa. Equilibram-se sobre o mesmo fiel raciocínio, o toque-de-Rex se dirá, quando nos referimos ao universo imagético stoutiniano. Aliás, Rex Stout, conforme o que dele se diz em qualquer enciclopédia é, e eu transcrevo aqui o que a Moderna Enciclopédia Universal / Lexicoteca / Circulo de Leitores apregoa, que ele, escritor norte-americano (Noblesville, Indiana 01.12.1866 – Danburg, Connecticut 27.10.1975), "se notabilizou no género policial, com romances protagonizados pelo detective Nero Wolffe, caracterizado por resolver os casos que lhe apresentavam sem se afastar do seu apartamento de Nova Iorque." O que não só corrobora o afirmado como denuncia a singular pechincha desta edição. Exactamente!

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