La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.05.2011

Conto da Semana -- Entre os Rios, a Memória

Entressonhando nos Mundos Paralelos

“Teu nome, só para mim,
Sabendo-o conhecido de toda a gente […]


Sei-o de trás para diante
Anterior ou partindo do meio,
Repetido como refrão constante
Atreito ao brilho do diamante
Como às espigas do trigo e do centeio. “
In Joaquim Castanho, Nova Razão: Velha Aliança



Temos sete sentidos e não apenas cinco, como nos admoestaram no ensinamento da escolástica. Além da empatia e propriocepção, há os comuns cinco das sebentas: visão, tato, gosto, audição e cheiro. Normalmente, esquecemo-nos dos dois primeiros porque os temos como garantidos ou incómodos. A propriocepção que faculta levarmos o garfo à boca quando comemos um bom bife, em vez de o metermos nas orelhas ou nos olhos, por exemplo, que tal como o equilíbrio e o ar, só lhe notamos a existência quando lhes sentimos a falta, se os perdemos; e a empatia, ou reconhecimento do outro, apenas se o outro demonstra não nos reconhecer (como devia), pela via sinuosa do melindre e narcisismo frustrado ou, então, quando nos sucede algo cujo efeito minorámos aos demais, no trajeto natural de um arrependimento fora de prazo. Todavia, porque fiquei com umas contas pendentes contigo, alterei a ementa do almoço, dando-lhe aquele toque provinciano que te havia de torturar na digestão: prato único – migas de pão com costado e linguiça fritos, cenouras cozidas cortadas às rodelas em vinagre e sal, azeitonas retalhadas e cebolinhas em vinagre, vinho tinto (e aí o esmero agudizou-se, porque na parte da tarde irias trabalhar e darias pela pertinácia da graduação…) com 14,5 º, marca Monte Maior; por fruta, uma manga madura, bem cheirosa, de polpa aveludada e sumarenta; o café, imprescindível nestes momentos de vitória, de máxima intensidade, um Qalidus fumegante e vulcânico da Delta Q, a rematar com dois Bombons de Figo com Chocolate, para te contorcer de remorsos pela afronta que me dispensaras de manhã e a frieza com que te despediras na saída. E tudo isto a provar que nem sempre a melhor vingança se serve fria!
Shara havia de rubescer irada quando reconhecesse o valor calórico do almocinho, e de como ele se propunha a derrubar pela base a dieta de emagrecimento que se impusera para adelgaçar a silhueta. (Hhhuuuau!, cá se fazem, cá se pagam.)
Portanto aprimorei-me nos detalhes, pus a mesa com a simetria perfeita, para um tete-à-tete de que não queria perder pitada, com apenas uma jarrinha ao centro, onde coloquei três rosas rubras cujos debruns nas pétalas raivam o negro, a fim de não interferir minimamente no frente-a-frente coreografado: só nós dois, ante uma refeição altamente reconstansubstancializadora. (Pimba: vai buscar!!)
Sei que nunca é difícil, quer a Shara como a ti, “adivinhar” o que penso nem quais são as minhas intenções, a propósito seja do que for. Conheces-me demasiado bem e nestes últimos nove anos apuraste a técnica, tornando-te numa exímia mestra da antecipação acerca de mim. Reconheço que facilitei bastante nesse sentido, pese embora, ainda que tardiamente, tenha treinado exercícios de escapar-te às infiltrações e invasões de "espionagem" existencial. E consigo-o de forma sofrível, principalmente quando andas ocupada com algo absorvente e fundamental, como a saúde da tua mãe, as questões laborais, as exigências do curso. Contei com esses aliados para dissolver a tua acutilância…
Quando chegaste acabara de descascar as mangas, guardando-as no frigorífico para não oxidarem. A conversa andou pelo blá-blá circunstancial e servi-te as migas, fumegantes e aromáticas, numa mescla de alho, loureiro, azeite e pão. Depois de umas garfadas, verti o vinho com subtileza, pondo menos no teu copo do que no meu, dando-te oportunidade de notar a ocorrência. Tu, caíste no visco da encenação, ingerindo-o de um só trago, e renovaste a dose, desta vez ao nível daquilo que tinha deitado no meu copo. E entraste no assunto da celeuma.
«Quim, está na hora de saber porque sonhei contigo ontem, a tentar dobrar aquela esquina entre as palavras ditas e as por dizer. O que se passou realmente ontem, antes de te deitares? Vá!»
«Ora, nada. Foi assim: tocou a campainha, fui ver quem era, pediu-me emprestados poemas sobre Arina e na devoção À Deus, e eu voltei a casa, tirei um exemplar dos dez que imprimi anteontem e dei-lho. Quando acabar a leitura dar-me-á a sua opinião sobre o que leu, o que duvido que faça, como é costume com toda a gente. Podia ter debatido a possibilidade de o oferecer a alguém, mas suponho que isso estava subentendido no fato de ter imprimido mais que dois, um para mim, outro para ti, conforme seria se estivesse estipulado que o livro não era acessível a terceiros. E pronto, foi tudo. A seguir deitei-me, dormindo até pouco antes de teres chegado.»
«Isso sei eu, pateta. O que quero saber agora, é o que sonhaste!»
Prontifiquei-me a renovar o vinho nos copos de ambos. Mastigando, mas sem tirar os meus olhos dos teus, avaliando-te o grau de concentração e contrariedade. Mantinhas-te serena e confiante…
Repetiste a pergunta salientando a pessoa inquirida pelo «que sonhaste Joaquim Maria?», o que me pôs alerta quanto à gravidade da inculca.
«Hum… Mal me lembro! Umas fantasias quaisquer sobre ambientes exóticos, meio árabes, meio ciganos, meio espanhóis, sei lá! Estava escuro, e era de noite!»
«Graçolas, não, meu menino. O humor é despropositado neste enredo. Humor deriva do latim, e significa humidade no olho. Portanto, revela esse filme.»
Engasguei-me. A coreografia desmoronou como um castelo feito com baralhos de cartas. Ela sabia. O meu esforço tinha sido em vão, e esconder-lho uma ousadia inglória. Arrefinfei-lhe o copo duma assentada, sem sequer me preocupar em reencher o dela. Planeara com sofisticado empenho a evasiva, a manobra de diversão, contudo a debalde, ela – ou Shara, vá-se lá saber! – atalhara e cortar-me a retirada. Porém contar-lhe o que sucedera estava fora de questão. Morreria no campo de batalha mas jamais lhe entregaria a bandeira. O estandarte. A divisa indivisível. Nunca!
«Diz.»
«Diz.»
Garfada a garfada as migas e o costado sumiram-se. A garrafa do vinho evaporou-se – por minha resumida influência, confesso. A fruta deslizou pelo palato imergindo na garganta. Mas ela não arredou pé da intenção, reiterando com intervalos regulares o «diz» que não admitia qualquer tergiversão.
«Diz.»
E eu disse.
De uma só vez.
Como se disparasse de rajada.
E estivesse numa esquina sem tempo a perder.
«Sonhei que estava no palácio de Entre-os-Rios (Mesopotâmia) onde decorria um baile de letras, todas trajadas com sedas e tules, com adereços de ouro e prata, pulseiras, coroas, colares, diademas, contorcendo-se como mulheres em ritmo indo-iraniano, persa, turco, de feiticeiras muito antigas, de cujas, as principais eram quatro letras minhas conhecidas, muito minhas conhecidas, que estão no pórtico da eduba de Uruk, alinhadas aleatoriamente formando étimos a que desconheço a significação, na minha frente, hipnotizando-me, encantando-me quase, distorcendo-me os sentidos, ouvindo com olhos e vendo com a língua, nada era comum ao que acontece no dia-a-dia, nada estava no seu lugar reservado, próprio e determinada, convecional, até que essas letras entraram num frenesim descomunal e me arrastaram para o meio de si, nessa babel incandescente, e fizeram comigo quanto nem a própria brisa consegue. Voei. Voei. Voei. E perdi o sentido da mortalidade, do tempo, da consciência de mim. Fui para lá do lá e voltei numa só noite. Que mais posso dizer?...»
«Vês, não doeu nada. Porque estavas com tantas fintas e esquivas? Depois do café, hoje vou querer três figuinhos achocolatados. Ainda há que cheguem?»
«Claro. Guardei dois para cada um, mas bebi tanto vinho, que dispenso um.»
«Ok. Depois de lavares a louça vai ter comigo ao serviço, para irmos buscar a minha mãe, para ires ao hipermercado com ela. Fazes-lhe companhia e ajuda-la nas compras. Passamos o serão com ela, que o meu pai regressa tarde. De Lisboa a Casal Parado ainda é um esticão, e ele só sairá de lá depois das dez.»
Nem retruquei. Sair de fininho destes enredos destorce as inquietações e põe-nos fora de outras aflições. Principalmente comigo, a quem as letras perderam todo o respeito e às vezes se insurgem criando palavras, sobretudo nomes, a dançar, a gingar, a despirem-me da névoa loquaz da realidade. Correr mais riscos, para quê?
«Tá», respondi. Só enfim, quando a acompanhei ao carro, reparei que a janela estava com as persianas corridas. Tu acompanhaste o meu olhar, reparaste no que reparei, e resumiste: «põe-te a pau, que estamos atentas ao que fazes e sentes. Eu, e elas
Então vi, tive a certeza, que [não] tinhas sido tu quem almoçara comigo, mas ela. E ela que, por sinal, durante a noite disfarçara seu nome numa dança de letras maravilhosamente inebriante. Ao que os meus sete sentidos, de sobreaviso e com intensa acuidade, bastaram para reconhecer,como excecionalmente reais e autênticos, superiormente reais do que foram a própria realidade.
Somos tão pequenos e distraídos neste mundo de lugares, que não raramente esquecemos a importância dos não-lugares. Mas a lição marcara-me…

3.02.2011

O Êxito e as Promessas

As Cortes da Galhofa

"O êxito está cheio de promessas até que os homens o alcançam: e então verifica-se que é um ninho do ano passado que os pássaros abandonaram."
– H. Beecher

Quase toda a gente diz disparates. Bom... exagero: das pessoas que eu conheço, muita delas, fazem-no. Incluindo eu!
O disparate é inerente à comunicação entre indivíduos de manifesta e declarada intenção social. E ele até não faz grande mal ao mundo, não atrofia a vida de ninguém, não avoluma a densidade e a estatísticas do errare humanum est (errar é próprio do homem), não destrói a natureza nem esgota os recursos naturais, e se polui o ambiente, é apenas nocivo a quem falhou o filtro de barbaridades, a que comummente chamamos sentido crítico, enquanto genuíno antivírus de prevenção contra as canalhices da governação, da vizinhança e da coleguia profissional, que é outra espécie de máfia na panelinha do safe-se quem puder. Porém, não reconhecer os próprios disparates ou branquear os dos demais, devido a qualquer sentimento de preferência, isso já se afigura deveras grave e prejudicial ao presente de cada um e futuro de todos nós.
A oratória da Assembleia da República, neste capítulo, é o suprassumo dos exemplos nocivos ao in/consciente coletivos da portugalidade vigente, enquanto pontapé de saída para o jogo do desenvolvimento no pano verde da sustentabilidade, alvitrando que no futuro nos espera um dominó enlouquecido com o qual teremos que dançar (cair/tombar) no dia-a-dia das lides do bem-estar, harmonia e sobrevivência. Uns dizem disparates, para os outros se rirem; e os que se riram, dizem depois outros disparates, em amena competição e faire play, para aqueles que antes os disseram, também se poderem rirem. É uma galhofa pegada, o que já sabíamos, pois desde há muito desconfiávamos que o deleite desses senhores e senhoras era, e é, o prejuízo que vão provocando em cada qual daqueles que os elegeu. As marafonas fazem teatrinhos, e os pinóquios capricham no donjuanismo consequente. Anima-se o regabofe do salão com os cantares e descantes da corte, anunciando uns para desanunciar outros, apresentando como decretos-lei os projetos-lei que jamais foram, atirando ao mar de seguida a pescada que nunca o foi. Mas a plateia ri-se, e o povo paga-lhes o divertimento, que é para isso mesmo que serve o orçamento!
Recapitulemos.
A cada qual a parte de ridículo que lhe cabe, por direito e conquista; que o saber de experiência feito, cabe sempre num ponto de vista. Contudo suspeito, que de entre todos os deputados que representam a nação, não haja um único sequer, que possa pôr sobre o peito a sua própria mão – sem se queimar de culpa (antes de um ato de contrição). Aliás, perguntamo-nos de que mais será capaz, aquele que não sente pudor nem vergonha por enganar um pobre?
Foi implantado e implementado – com pompa e circunstância – o célebre Plano Tecnológico, que se supunha vir a ser a vanguarda administrativa do progresso e desenvolvimento. Ninguém esquece o apanágio dessa "reforma" de excelentíssima expectativa e significado. Porém... Nas últimas eleições, milhares quiseram votar, mas não puderam exercer o seu direito que a constituição consagra também como dever de cidadão, porquanto o plano cumpriu a sua meta na complicadex expressão da cidadania democrática, porque o novo número estava lá mas não estava, não sendo omisso do cartão era todavia oculto, isto é, de consequências mágicas na subtração da identidade ao cidadão.
Por outro lado, empunhando o mesmo cartão, se tivermos isenção de taxas moderadoras e nos deslocarmos, por exemplo, a um hospital distrital (!!! – pasme-se...), temos que levar uma carta do Centro de Saúde a confirmar que somos quem somos e estamos isentos, pois no hospitalzinho não há uma máquina que descodifique/leia as informações configuradas no dito Cartão de Cidadão, que ao que parece a cuja cidadania ninguém passa cartão. Tem lá tudo: NID, NIF, NSS, NUS e de Eleitor – mas é o mesmo que não ter, pois ninguém o pode testemunhar, testar ou ler. Mas quando foi tirado pagámos 12 € por ele. É caso de Defesa do Consumidor (DECO), porquanto nos venderam um produto infuncional sob publicidade enganosa. De que mais será capaz quem engana um pobre?
Fácil resposta. Esse pobre que adoeça e vai ver como elas lhe mordem, desde que não seja a sorte favorece-lo no azar que teve e a coisa lhe passe com umas aspirinas... Porque se não for, então morre, de desespero, de desilusão e de falta de cuidados. E mais uma vez é do plano: está tramado. Se precisar de ir a um Centro de Saúde, então pode recorrer à Internet, e lá encontrará o site/portal do Centro que procura. O design é magnífico, as cores (re)laxantes, o letring magistral, as imagens bastante asséticas. As informações é que não são fiáveis pois, por exemplo, se quisermos saber a que horas terminam as consultas de recurso no fim-de-semana, seja ao sábado, então, estamparam lá que é às 20:00 horas mas se lá formos depois das 14:00 horas batemos com o nariz no portal. Isto é, tiveram verba para cumprir o plano mas depois esqueceram-se de actualizar os conteúdos num "reino" onde a única coisa que não muda nunca é a constante mudança, a elevada dose de incerteza e entropia que alimenta a governaça e nos destrói a segurança.
Mas tem uma vantagem de inegável valor calórico que nos agasalha o ânimo: as promessas que o Plano nos trouxeram foram um êxito estrondoso e imorredoiro. Continuam ativas. Continuam atuantes. Continuam promessas. E isso também está em qualquer plano. Sobretudo naqueles que não contemplam a respetiva e inerente avaliação. Posto que é esta a mais-valia dos planos. Então se não é aquilo que é porque lhe chamam plano?
Quem é capaz de enganar um pobre, o que não fará às outras pessoas?
Garante-lhe um ninho – mas das eleições passadas. Que os passarões abandonaram, por estar fora de prazo e vencida validade, como dirá H. Beecher. Ou como diria, se assistisse à galhofeira nacional da casa da portugalidade, onde parecem todos estar muito satisfeitos e bem servidos sem nada que fazer. E todos equipados com a tecnológica dignidade do plano... Então, porque não a aproveitam, e aos cómodos climatizados, modernos, reparados, para atualizar os simples conteúdos das instituições a que o aplicaram. Aí está, até podiam manter o mesmo número que não baixavam na qualidade (cortesã). Continuariam muitos, mas a fazer qualquer coisa útil a quem os elegeu, para que lhe não caísse a cruz em democracia rota de cidadania vã!

2.24.2011

Conto da Semana - Nem Vale a Pena Contar

Nem Vale a Pena Contar!...


“Era a noite da loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder. “

In Aquela Noite, de Folhas Caídas, por Almeida Garrett

O s olhos faiscantes de Shara acompanharam-me e perduraram na noite enquanto me dirigia para casa, atravessando a única rua que precisava de ser atravessada para o efeito. E pese embora, em Casal Parado, elas não sejam assim tão largas como avenidas, creio que essa passagem durou muito mais do que seria plausível, esticando cada minuto além da sua extensão própria de sessenta segundos, quase pude assistir (intacto) a um autêntico concerto de estrelas despencando dos alto cimos do breu, como uma chuva de fogo-de-artifício, que somente findou quando a luz se acendeu, de repente, no quarto da vizinha sob a moldura encortinada da janela, cujo reposteiro de tule e seda azul-turquesa, bordados com motivos geométricos em dourado e prateado, partindo do centro superior descia afastando-se dele, até à base, no parapeito, formando um triângulo – ou delta luminoso – mais iluminado dentro do quadrado da caixilharia. Então nele, no preciso momento em que metia a chave na fechadura da minha porta de casa, surgiu, apareceu nele, a minha vizinha casualmente perscrutante e perscrutando a rua antes de correr as persianas.
Não me recordo agora do nome dela, mas ninguém me tira da ideia de que ela é uma aliada tua, uma personagem do quotidiano de forte afinidade com os teus desejos e estratégias, invariavelmente inoportuna como uma súbdita que me vigia e põe à prova entre as tuas ausências assaz pertinazes. Algo se repetia, pois é inquestionável a impressionante semelhança entre esta rapariga e a outra da história que me contaste, para me convenceres a acompanhar a tua mãe ao médico, com êxito, e a propósito, o que me pôs de sobreaviso, já que quando as circunstâncias se replicam ou duplicam é lógico concluir que os mesmos resultados se verifiquem. O que não tem a mínima prestidigitação ou ilusionismo, antes advém do determinismo positivista como qualquer sociologia. É pragmático e protocolar.
Digamos que essa que aparecia à janela, não sendo visão ou espectro, alucinação nem Maia, coincidia com uma pessoa real mas que esta, por sua vez, se colava em autenticidade a uma outra que tu criaras para figurar numa alegoria expressamente dirigida aos meus sentidos, através da tua narrativa. Seja. Difícil de engolir, e de fraca substância além da metafórica, sobejamente refutável, mas enfim, credível, se não nos afundarmos – aprofundando – excessivamente na factualidade lógica e racional. Todavia, o pior ainda estava para vir… Porque ao infinito, à suprema felicidade, à máxima ventura, como à Utopia, nunca se chegará, pois uma vez aí chegados então elas deixarão de o ser, que todo o brilho se lhe oculta e a atração perdem, pelo que tudo quanto sofremos e penámos para as alcançar vão se tornará, ganhando foros de ninharia.
Por conseguinte, e atalhando, depois de ter aberto a porta, entrado, feito o que é comum fazer antes de me deitar, tomado um Red Q de rooibos, petiscado umas bolachinhas com Mel de Elvas e dois bombons de figo com chocolate, anotado os itens de assunto para a palimpsestura do dia seguinte, lido mais um capítulo do livro combinado no Grupo de Leitura, tomado banho, lavagem dentária, etc., eis que a campainha tocou, num trrrim! breve de picada subtil, um quer-não-quer que soa, não obstante convicto quanto à eficácia para o efeito, que resumido era o de ter-se feito ouvir por mim. Estremeci. Não era hábito ter visitas àquela hora nem o toque me era familiar. Nem tu nem Shara assim tocaram alguma vez e, de resto, além dos vendedores disto & daquilo, durante o dia, raramente me visitavam ali, na minha casa, que era simultaneamente biblioteca, escritório, cozinha e dormitório de comedidos cómodos. Um trrrim! seco e rápido, agudo, afiado, acutilante e estridente, apenas.
Abri a porta de casa em roupão, desci as escadas até à porta do prédio, e sem surpresa alguma deparei com a minha vizinha, exatamente aquela que surgira na janela e em quem reparara a perscrutar a rua enquanto entrava no patim do rés-do-chão prédio de casa. «Boa noite, desculpa incomodar-te a horas tão tardias…» atalhou. «Mas soube hoje que escrevias poemas de devoção a Arina, e estou em pulgas para os conhecer. Podes emprestar-me alguns?»
Sorri vaidoso e radiante. Que coincidência! Precisamente há três dias atrás fizera uma brochura de um livro de poemas, intitulado Nova Razão: Velha Aliança, uma edição caseira de dez exemplares, sem qualquer motivo especial para isso, nem que alguém mo tenha sugerido, e que julguei ser um desperdício de dinheiro e tempo, e agora deparava com a hipótese de o mostrar, na calada da noite a uma conhecida quase desconhecida, e com quem não trocara mais que raríssimos bons-dias ou boas-tardes, que as circunstâncias dos vaivéns diários propiciaram… Porém, não estranhei nada, e além de me rejubilar com a oportunidade, respondi de imediato «tenho sim, e um livro mais ou menos acabado, que te dou, e de que serás o primeiro leitor, quer dizer, leitora. Queres entrar ou preferes que o vá buscar?»
«Não. Eu fico aqui, à espera» ouvi enquanto me virava com galhardia para retornar a casa e trazer-lho.
Voltei num ápice, como um Camões de braço erguido salvando o manuscrito do naufrágio, gravura que parece ter sido peta do marketing e da propaganda, embora desta vez traga algo de verdade e autêntico, porquanto o estava eu a salvar, não como manuscrito mas como edição impressa por meios electrónicos, não das águas frias e obscuras do temeroso mar, mas sim das turbulentas e maviosas angústias do ostracismo e anonimato, da solidão e incompreendida saga que acompanha, inevitavelmente, qualquer primeira obra de um autor sobejamente desconhecido – até da família. E entreguei-lho sublinhando que «não é emprestado, é dado. Será uma prova da empatia que existe entre nós, ok?», coisa bizarra que me saiu sem o mínimo sentido, mas de que só me dei conta depois de ela ter agradecido num «certo. Obrigada. Depois digo-te o que achei dele, se tiver achado alguma coisa, como deves entender… Boa noite!»
E este boa-noite misturou-se no até amanhã de Shara quando me despedi de ti. Vida complicada a minha!... Nada me acontece por menos, refleti, entrementes, ao subir lentamente os degraus de regresso ao quarto, numa escalada de sobressalto em sobressalto, como se girasse num torvelinho de sensações contraditórias e reconhecidas contradições de náufrago ao-deus-dará.
A vida, e o mundo nela, é mesmo um entroncamento de surpresas e variáveis inesperadas, onde basta um clic, um trrrrim!, um olhar, um ato, um gesto, uma palavra, para que tudo quanto era verdade e certo se tornar ilusão e engano, ou vice-versa, ou o monótono e melancólico, fatídico e previsível, se mostrar inconcebível e turbulento. Se adormecemos, sonhamos. Se ficamos acordados, alguém nos desperta e amplifica os sentidos para além do suportável…
Podia contar-vos o desassossego que foi a minha noite. Mas nem tento: ninguém acreditaria!

2.19.2011

Conto da Semana

Nos Condomínios do Cálice Único

“Mais tarde estenderam se sobre a cama amigavelmente com o calor da tarde lá fora, ele a ler e ela com os auscultadores do seu minigravador (o teu diadema; chamava lhe ele) enterrado no cabelo húmido e puxado para trás como gavinhas de videira à volta dos dedos dele que giravam distraidamente. De vez em quando, sem falar, ela tirava de repente os auscultadores e encostava um ao ouvido dele, fechando os olhos e cerrando a sua boca macia, arrebatada pelo que estava a ouvir.”

In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer

“Rosas sem fim. Flores caídas
Num chão amassado por rodas,
Sem outras forças para lidas
Que não as que nos restam, tidas
Como perdidas, quase todas.”

In http://escribalista.blogspot.com/, de Joaquim Castanho

Pressinto que nunca conseguirei trair-te. Até quando o faço contigo mesma, quando me dirijo a ti para dizer coisas a Shara, ou vice-versa, quando lhe digo algo que te é exclusivamente dirigido, toma-me um mal-estar insuportável que apenas consigo superar porque me convenço, de forma determinada, incontestável e incontroversa, que se assim o não fizer, então jamais o escutarás, uma vez que esses conteúdos não estão na tua linha de prioridades e só a curiosidade de saberes como Shara lhe reage te leva a atendê-los e considera-los, o que é igualmente verdade da parte dela, pois dificilmente os escutaria se lhos dissesse diretamente.
Creio que os casais que buscam ajuda exterior para se manterem casados, recorrendo a amantes ou encontros fortuitos, as chamadas escapadelas ou facadinhas no matrimónio, se servem de idêntico artifício embora aquilo que lucram em flexibilidade e comunicação o percam, em grau agravado, com o acrescido sentimento de culpa daí advindo e notório rombo na autoestima. É inevitável. Sobretudo quando a manobra acarreta prazer, onde a culpabilidade lhe resulta inversamente proporcional, no típico contentamento descontente que a poesia camoniana traduz (exemplarmente).
Todavia, nesse falar à tua imagem para que só tu ouças, às vezes o jogo vai muito para além do racional e plausível. Porque o descobriste, e te fazes passar amiúde por ela, ou leva-la a substituir-te e representar-te, iludindo-me. Assim, não raro dirijo-me à fantasia e é a realidade quem me responde. Shara atua em teu nome, veste-se no rigor da modernidade, vai para o teu trabalho em teu lugar, assume e faz tudo quanto só a ti diz respeito e ninguém nota, principalmente eu, que sou quem melhor conhece as diferenças entre ambas. As Maias celebradas na cidade também se acotovelam para encarnar nas raparigas que as representam, mas findos os festejos regressam ao seu mundo onírico e fantástico do qual se ausentaram por invocação humana, com intensidade e durabilidade marcada. Tu, não. Tu insurgiste-te ativa e depois permaneces nesse universo conforme a performance que determinaste manter.
Foste tu quem nos deixou no consultório médico, a tua mãe e a mim, mas foi Shara quem depois do serviço nos veio buscar e lanchou connosco, na pastelaria em frente do consultório, antes de regressarmos a casa – tenho a certeza. Suponho que foi por temeres a verdade acerca dos resultados das análises, caso eles tivessem confirmado o pior. Mandaste-a à frente como tua batedora pessoal, a ver o que encontrarias e como deverias preparar-te para lhe responderes a contento. Reconheci-a porque não trazias os óculos de sol, que sempre usas, resguardando-te da luminosidade do dia como do nosso olhar inquiridor, tão comum aos dois, e sob o mesmo propósito de espiolhar o teu estado de espírito, ou o ânimo que o habita. «Então, que novidades?», perguntaste ainda antes de te sentares à mesa, sem a manifesta ansiedade que acompanha os casos iguais.
«Tudo normal» respondi, carregando maior ênfase no «mas tem que voltar ao médico mensalmente, renovar os exames e análise de três em três meses, e estar com atenção redobrada quanto a nódulos e erupções de pele», o que não é propriamente novidade nenhuma, já que têm sido esses os comportamentos estipulados do último ano. Ela fitou-me; quer dizer, tu contraíste as pálpebras numa fita fina de concentrada acuidade, medindo e avaliando o meu envolvimento emocional e afetivo na declaração, confirmando as expectativas depositadas, pelo menos a considerar pelo sorriso que esboçaste de seguida, acentuando com o «isso vai ser fácil, e não te estorvará os afazeres minimamente» que o decreto continuava em vigor, e que a minha missão só expiraria consoante as melhoras definitivas de D. Catarina, o que me fez desejá-las mais intensamente, não só por a considerar uma pessoa extraordinária que merecia tudo do melhor que a vida reserva aos afortunados, mas também porque assim me veria liberto da função de acompanhante privilegiado. Mas contendo-me em manifestar essa vertente, pois caso ela a adivinhasse me concederia (indubitavelmente, e por consequência) reprimenda requintada. Homem avisado tem o êxito reservado!
«E tu?» quis saber. «Conseguiste trabalhar bem?»
«Claro. Acho que rendeu muito mais do que se tivesse ficado fechado em casa. Menos concentrado e com algumas interrupções, mas deveras proveitoso e sem stress. Com prazer, até…» O que não pode ser visto como uma capitulação, mas como uma nova experiência que resultou positivamente. Pensar, ler, escrever, criar, é mais produtivo e reflete melhor a vida quando quem o faz está envolvido e misturado também nela. A clausura intelectual é redundante e viciosa. Custa mais enveredar pelo disparate, todavia uma vez entrados nos seus condomínios, estes tornam-se labirínticos, e dificilmente de lá sairemos – ilesos. Resolutos. E inspirados. A boa companhia humana é higiénica e asséptica se queremos evoluir na qualidade da criação artística. Não há génios literários onde a comunicação apenas se alimenta da desértica solidão do amor-próprio e do narcisismo niilista. É essencial viver-se em sociedade quando nos queremos dirigir à sociedade e criar mais-valia socializadora, aprofundar da natureza humana e ser prazenteiramente útil a quem nos paga as facturas da sobrevivência, aperfeiçoamento, modernização técnica e valorização pessoal.
Portanto, reconhecer benefício e gratidão para com Shara e a mãe dela, não era uma derrota minha, antes um favor que me fizeram permitindo-se partilhar um momento difícil comigo, um voto de confiança e de aceitação em suas vidas. O caminho mais eficaz, rápido e sustentável, para o filho da mulher é o reconhecimento aprazível da sua mãe, e da maternidade que ambas (com)partilham; eis o segredo ancestral que originou a humanidade.
Depois de nos banquetearmos com as iguarias conventuais típicas do nosso interior provinciano, decidimos passar o resto do dia em casa, na cozinha tagarelando sobre tudo e nada, discutindo os pormenores sempre intrigantes e inerentes ao fazer coisa nenhuma, excepto o estarmos juntos pelo gosto que isso nos dá. O teu pai juntou-se-nos pouco antes do jantar, trazendo uma dose reforçada de novidades sobre o quotidiano das redondezas. Do café, o futebol, a política e os desmandos matrimoniais ou extramatrimoniais deste e daquela. Do trabalho, a crise económica e os seus efeitos diretos e indiretos. Tu, regressaras entretanto, afastando Shara do meio doméstico a que não está tão habituada como tu, e que a deixa circunspecta e expectante, indecisa mesmo, de arredia espontaneidade e propensa a frequentes hesitações.
Não podia queixar-me. A vida corria-me de feição, e às vezes ainda me recompensava com umas lasquinhas da tua afeição. Toques subtis, afagos naturais e desintencionados, o cheiro do teu cabelo, pequenos beijos nos olhares que se encontram (afloram) casualmente, o calor das tuas coxas que se demora quando nos aproximamos nisto e naquilo que o periquitar familiar nos exige, as tarefas propõem e a atenção mútua e redobrada sublinham. Nada de sobrenatural nem exorbitante, porém recheado de detalhes ínfimos ultrassignificativos. Apenas latência e atração num desejo que se prolonga até às fronteiras do (in)suportável.
E quando enfim os teus pais me desejaram boas-noites, despedindo-se e despedindo-me (muito diplomaticamente, como é óbvio e costume), sugerindo-me a retirada, vieste comigo à porta. Seguraste-me contra ti, fixando-me no fundo dos olhos, retendo-me numa distância suficientemente discernível para a transformação que ia acontecer, sem receios nem excentricidades. Primeiro reconheci a incandescência do teu olhar e vi que já não era o teu, mas o dela. Depois, a voz que me segredou «até amanhã» como se viesse das entranhas inquestionáveis da alma. Em seguida, o sentido imortal que transpareceu nos lábios ao beijar-te, como se aflorasse pétalas de aveludada sofreguidão. E finalmente o terno e doce aroma que se soltou do teu corpo num estremecido e morno abraço, deram-me provas irrefutáveis que tu eras ela nesse momento. Que Shara tinha voltado, e a sua recordação me acompanharia até casa, me habitaria o sonho durante o tempo que nos separava do novo dia. Jamais duvidei dessa hipótese, sobretudo porque todo o meu ser e consciência estavam despertos e acesos nessa inequívoca certeza.
Indesmentível. Mesmo que a minha fé se vertesse por outros cálices!

2.14.2011

Conto da Semana - e do dia 14!

Petrarca Reincidente II

E nas noites a terra pesada cai
De todas as estrelas para a solidão.

Todos caímos. Esta mão cai
E olha os outros: está em todos.

E contudo há Alguém que detém,
Infinitamente suave, este cair nas suas mãos.

(Excerto de um poema de Rainer Maria Rilke, incluído por Nadine Gordimer, no seu romance Um Mundo de Estranhos)


É nas alturas menos convenientes, quando a solidão rasga seus sulcos entre os minutos da espera, e ecoam as últimas palavras que nos dissemos, que os olhos se perdem no infinito como se este fosse a sua primeira casa, o estado de origem a que a matriz nos reporta na impaciência do reencontro. Quando demoras a passar sou eu quem fica sem jeito, aquele que te trai com Shara, e que trai Shara contigo, embora tu e ela a mesma pessoa sejam. O acaso me dita que medite nesta constatação irrevogável… Contudo, tenho que reconhecer, que as duas muitas vezes se unem contra mim, fazendo-me sentir a dolorosa mão pesada de uma solidão duplamente solitária!
Reconheço igualmente que sou egoísta, extremamente egoísta contigo, e que me roo de inveja das pessoas com quem convives diariamente, deixando-me isso acabrunhado, sorumbático, aflito, inseguro e danado por seres capaz de me trocar – sim “trocar” é o termo exato e preciso na medida do que sinto – por quem não te adora e admira como só eu sei que faço e acho que mais ninguém é digno de fazer, não raro deixando-me abalado e remoendo despeitos vários, que somente não explodem em desaforos e pedidos de reparação porque, enfim, temo que não haja depois soneto que me salve e recupere da emenda. Tanto mais que nos dias seguintes sublinharás o deslize repetindo-o até à exaustão, exatamente com essas pessoas, reiterando quanto és vítima das minhas monstruosidades solicitando-lhes razão no «mas que mal é que tem eu querer-me relacionar também com gente civilizada e não só com mentecaptos como ele, para quem tudo tem faltas e todos são indesejáveis, ninguém está à altura do seu nível de sensatez e boas-intenções», ao que as pessoas em causa aproveitam para retribuir o favor que ela lhes faz, acentuando que sou mil vezes pior do que supõe, já que se antes de casar me considero um ditador intolerante, então depois é que vão ser elas, dando-lhe a adivinhar o inferno que lhe está reservado, exclusivamente pelo meu feitio, aptidões malfazejas e possessivas, ou agressividade perante a frustração.
Ela anui. Satisfeitíssima com os resultados sorris, rejubilas no contentamento altamente científico de quem vê confirmadas todas as suas mais pertinazes, inconcebíveis e incongruentes hipóteses, e pondo em evidência quanto azar te cabe como recompensa em teres afeto e respeito por quem é ingrato e não reconhece o bem que lhe querem. Noutras alturas essas desavenças seriam motivo e conteúdo de belos e exemplares sonetos, se não me tivessem sido proibidos… Sonetos de amor feito com ganas, na raiva doce das diástoles, prolongando as sílabas breves até ao infinito da voz, esticando a urgência e imperiosidade da fala até ao insustentável da respiração, ao esgotamento do fôlego num único verso. Encurtando as longas até ao subtil pormenor de um clic, de um insight sonoro, fonema seco e sem eco. Todavia, impotente, calo-me na expectativa da borrasca anunciada e ansiando pela oportunidade de dar-te o troco numa recusa de olhar, virar-te as costas sem responder às perguntas que me faças, fazer orelhas moucas ao que disseres acerca de quaisquer assuntos que sejam, importante ou triviais, que em tempo de “guerra” não se limpam armas.
Que surge sempre. Sempre, desde que estejamos atentos. Suficientemente lúcidos e objetivos para a descortinarmos entre a espontaneidade de quem não se preocupa nem teme seja o que for da nossa parte, cujo atração, ternura e entrega é aquela garantia de segurança que jamais se dissolverá esmorecendo.
Mas que ocorre irremediavelmente num relacionamento se para tanto nos assistir a paciência da espera, coisa em que estou supimpamente treinado, graças àquelas intermináveis horas dos longos dias, meses e anos em que esperei por ti, primeiro por ela é claro, pois Shara suponho terá nascido (primeiro e) comigo, não ao mesmo tempo, mas assim que reconheci que não era o único ser que habitava o centro do mundo, e depois por ti, logo que te conheci, por considerar – não, o termo próprio é mais acreditar – que eras ela, não ideal e ancestral como Shara, mas real e presente, atual e em carne e osso como viva atualização dela. Incarnada e igualmente soberana.
Portanto, esse momento chegou de seguida, sem rogo nem demoras, sob o apelo inequívoco dos necessitados que penam no desespero de uma reparação. Quase em simultâneo com a saída de casa, exatamente essa que me deixou em carne viva, me arrancou quanta pele tinha e me defendia no contacto com o exterior, pondo-me a alma a nu e insuflando todos os sentidos até à sua insuportável constatação, esquartejando-a para a mergulhar no álcool puro da tua voz, quando te sentaste ao volante do carro e mencionaste que a tua mãe, D. Catarina, a ilustre senhora com quem simpatizo excecionalmente e por quem nutro aquele autêntico carinho e empatia típicos de alguém que se sente como se seu próprio filho fosse, ia nessa tarde ao médico, para consulta e saber o resultado dos exames que fizera na semana anterior, logo, na semana passada, e preferias que eu ficasse com ela, a fazer-lhe companhia, enquanto aguardava a consulta e depois, até que saísses do serviço, porque ficavas mais descansada comigo junto dela, pois os resultados poderiam inquietá-la ou assustá-la, conforme o grau de gravidade que declarassem.
Porém, eu tinha os “fones” nos ouvidos e não manifestei ter-te ouvido, o que te irritou notoriamente exigindo «tira essas coisas das orelhas quando falo contigo, por favor, ok? Afinal já não és nenhum teenager com necessidade de afirmação, para quem tudo aquilo que as pessoas, os adultos e responsáveis, dizem, é uma seca» inoportuna, é óbvio, a representação da surdez, uma vez que nem estava o som ligado, embora tenha sido suficientemente expressivo no atendimento dando ênfase à desatenção num «o quê? Que estás a dizer?» em voz bem alta de quem veio de outros decibéis e está nem aí para o que lhe disseram.
Notei o consequente rilhar de dentes e os pés jogaram de raiva no acelerar e travar com rispidez, indo a puxar até às curvas para depois refrear mesmo em cima delas, numa gáspea inusitada. «Fera à solta: cuidado», apeteceu-me avisar os transeuntes, mas disfarcei assobiando As Pombinhas da Cat’rina a ver se ela saía fora de mão, dando-me motivo para uma reprimenda exemplar. Porém, e ao contrário do que supunha, Shara abrandou, encostou à direita numa box de estacionamento livre, e desenrolou os pergaminhos que lhe dão jus ao nome, contando-me uma história, sem ponta por onde se lhe pegue, é evidentíssimo, mas a que o indicativo não permitia quaisquer dúvidas acerca do enredo que arrastaria consigo no «era uma vez um menino que se considerava muito esperto. Tinha alguma inteligência, pelo menos a suficiente para discernir que sem trabalho, preparação, estudo e planeamento nada se consegue. E vai daí, esmerou-se na aplicação, tornou-se objetivo e direto, perspicaz e sucinto. Um belo dia, com o sol a despontar entre o esfiapado encastelamento das raras nuvens, a temperatura de uma primavera morna e bucólica, ao sair de sua casa, reparou que aquela rapariga que ele todos os dias via e o observava intrigada, ainda que apenas estranhamente curioso, na janela da casa fronteira à sua, tinha um penteado diferente do habitual, e na sobre a fronte, jungindo as madeixas castanho-escuras dos cabelos ondeados, um diadema de prata com a lua em quarto crescente, do qual pendia um diminuto rubi em forma de gota, talvez lágrima, quiçá cristal sanguíneo, cujos reflexos pareciam disparar em todas as direções, num leque luminoso de concha marinha. Estes emaranhavam-se quase com os cabelos, dando a impressão de se prolongarem como raízes ou trama de teia assimétrica» e eu tentei descortinar isso nela, mirando-lhe o penteado que lhe emoldurava o rosto miúdo onde o seu olhar acutilante, incisivo, impertinente, no castanho-escuro ainda mais escurecido do que o habitual, me fisgava medindo as reações. Avaliando o interesse, a atenção, a sede, enfim, o efeito direto da sua narrativa.
E continuou «surpreendido e intrigado sobre visão proporcionada, uma vez que desde há muito a conhecia e via, quase diariamente, por sinal, mas nunca lhe tinha notado qualquer encanto, enquanto caminhava, descendo a rua, esforçando-se por mantê-la ao alcance da vista, inclinando a cabeça, até deixar de a ver, consequência da dobra da esquina com a rua transversal por onde seguiu adiante. Todavia, desaparecida que lhe foi da vista o mesmo não aconteceu do coração, deixando-o ensimesmado e a vê-la na sua frente, numa imagem vivaz e duradoura que insistia em não apagar-se com o distanciamento. Que perdurava para além do sensato e racional, sensível e fatual. Quis desfazer-se da imagem, escorraçar a lembrança, diminuir a intensidade da alucinação positiva com que se debatia, contudo sem o menor êxito, porquanto se viu frente a frente com ela nas vidraças das montras, nos vidros dos autocarros, nos espelhos por que passou. Então, corroído pelo prazer que esta lhe causava, mas contrariado e aflito pela falta de controlo que a ela o ligava, decidiu fechar os olhos com todas as forças e concentração que lhe foram possíveis, durante o resto do trajeto que faltava para o fim da viagem no autocarro que apanhara para a Estrada da Ponte, e com destino preciso na ponte desta estrada. E tanta força fez, tão intensa concentração auferiu, que quase conseguiu “matar” essa aparição incontrolável. Foi então que ouviu uma voz, inconfundível e que identificou com a da dita vizinha, que lhe dizia: nenhuma estrela se apagará com o sopro humano, e nem mesmo as candentes, param de brilhar quando passam para o outro lado da terra.»
Depois calou-se e pôs a viatura em andamento, sem demonstrar que a história terminara. Não obstante eu, que intentara vingar-me, fitei-a com manifesta timidez e receio, confirmando «está bem. Nos consultórios médicos também se pode ler, e hoje não tenho mais nada para fazer. Quando ela estiver despachada mando-te uma mensagem com os resultados. Gostava que lanchássemos todos juntos. De acordo?»
«Ótimo. Tentarei chegar o mais cedo possível.»
E foi tudo. Nada ficara por esclarecer. Apenas a leve sensação que faltavam algumas notas à música que vinha de fora, quando parámos nos semáforos junto à Fonte do Rossio… Mas não parecia ser nada grave!

Os Liliputianos e o Fado: Ai, Mouraria!

Os Liliputianos das Grandezas

“E entretanto, deixe-se que a polícia e a tropa negoceiem, de um modo mais eficaz, com os grevistas e os manifestantes, com os eloquentes agitadores, pretos e brancos, dentro do país. E se não conseguirem, há porém outra maneira de negociar: nunca apanhar aqueles que eliminam os agitadores, matando por detrás de rostos tapados e disparando de carros em andamento.”
In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, pág. 244.


Nem tudo o que se diz é luz. Embora o silêncio cúmplice e tácito acerca de todas as matérias que incomodam o status quo, seja ainda mais negro que o ignaro breu, mais escuro que toda a ignorância oriunda das trevas do Hades da Antiguidade Clássica, precisamente aquela que gerou e foi causa direta do obscurantismo (escolástico) medieval. Naquele tempo ainda só havia bons e maus, e o grande desígnio nacional – ou patriótico! – residia em conseguir agremiar os bons num clube, ginásio, partido, associação, escola, castelo, convento, quartel, repartição, café, corrente de estética, comissão, directório ou bairro, para, todos juntos, numa data estudamente marcada, os bons armados do que houvesse ou a lei deixasse passar, irem fazer mal aos maus. Os maus eram sempre – e nisso o tempo não mudou! – notoriamente mais frágeis, mais pobres, mais feios, mais dependentes e mais desprevenidos, não obstante que em menor número, menos corporativistas e até muito mais trabalhadores, expeditos, objetivos, lúcidos, responsáveis, conscientes, francos, transparentes e insistentes. Porém, tal não os desculpabilizava de nada, nem os redimia da herança genética, por cuja a má índole lhes coubera por completo, uma vez que já os seus trisavôs, bisavós, avós e pais foram, eram e são igualmente maus. E é desse tempo que sentem saudades os bons, pois podiam ser maus por uma boa causa, tentando continuamente restaurar a ordem e a lei e o progresso plantando as suas bandeiras onde o chão ainda o permitisse, sabendo demasiado bem que o melhor solo para esse plantio era a educação, o sistema de ensino, quintal onde florescia menina e menino, criando colégios de excelência em que o cultivo melhor rentabilidade oferecia.
Portanto desiludam-se aqueles e aquela gente que pensou que iria ler uma crónica da actualidade, porque não é sobre os dias de hoje que aqui se vai tergiversar, mas acerca daquele tempo em que havia bons e maus, bons com distinção e medíocres, muito bons e muito maus – e eram todos santificadamente felizes no assim-assim que a vida lhes oferecia, Deus dava, o Destino lhes reservara e as Igrejas prometiam. Desse tempo em que não era deveras hilariante verificar como é que pessoas que nem um livro liam por mês – quando liam! Que não raro passavam-se anos e anos sem tocar em book, a não ser para vender, impingir ou queimar… – eram as primeiras a saber como os outros, aqueles que liam dois ou três livros por semana, deviam ler, interpretar e analisar o que liam, bem como o que era aconselhável e desejável lerem. «Mistérios!» exclamará quem daquele tempo não for, talvez proclamando a rogo de Hefesto que em casa de ferreiro espeto de pau, coisa que nem ele nem Afrodite mereciam, quer pelo exemplo de Eros, o seu primeiro filho, quer pelas maneiras de Antero, que se lhe seguiu, dando ênfase à atitude desse tipo de gente que tudo sabe, tudo tem ou tudo tem de sobra, e a quem não incomoda nem estorva o mínimo resquício de consciência, civismo e consideração pelos demais, enfim, como dizem do outro lado do oceano, gente que não se manca nem quando a maka (mentira) é grande.
Elemento dessa Mocidade a que se chamou Portuguesa, não obstante a descarada metonímia da parte pelo todo transpire em cada sílaba, Liliputo Sonso foi uma dessas afortunadas crianças a quem os calções cor de café com leite assentaram que nem luva por medida em mão pródiga de ilusionista em part-time. Prodígio insuspeitável, conseguia as melhores notas da turma sem pegar num livro, jamais estudou para um ponto, dispensou a todos os exames, nunca copiou e se o fez, foi por algum colega tendo nota superior à dele, coisa que considerou deveras justa uma vez que lhe passara a limpo, revira e corrigira o saber. Faltas e futebol foram feitos de honra na finta aos tutores e encarregados de educação, porquanto se umas eram renovadas no outro eram repetidas (vitórias). E Fátima renovou-lhe a esperança e carregou-lhe as baterias da fé se, coisa muito pouco provável, alguma vez ousou duvidar pondo em causa a supremacia da espécie e a superioridade do género.

Portanto, este Liliputo, da família dos Sonsos à portuguesa, na baixa tensão das artérias do progresso e do desenvolvimento, passou a vida profissional à espera da reforma, que foi o objetivo primeiro da sua existência, do seu curso e de todos os sacrifícios inscritos no típico deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, com preocupação fundamental no aposentar-se ainda em bom estado e com perspetivas de duração, garantindo o total reembolso de quanto descontara, mês após mês para a segurança Social, com o juro na devida correção monetária, durante o tempo de exercício da profissão. Todavia, um dia acordou assustado, sob as expectativas badaladas da falência e insustentabilidade do sistema… Um sistema que, tal como a velha senhora terá falecido sem que ninguém lhe notasse a falta ou tivesse agido de forma a saber o que lhe sucedera, e só depois de 8/9 anos da sua morte, 13 insistentes visitas/participações à Justiça por parte de um familiar, inúmeras diligências promovidas por diversas pessoas junto das autoridades de segurança civil (PSP) e paramilitar (GNR), e que apenas viera a ser encontrada morta porque lhe venderam os tarecos ou bens, sem a sua autorização, nomeadamente o imóvel que não tinham permissão legal para abrir mas da qual não precisaram a fim de a leiloar. Um sistema que está moribundo a ponto de já não ser capaz de reconhecer o seu estado de saúde. Que comete crimes inacreditáveis, inauditos e hediondos mas que já nem se envergonha disso, e onde a culpa morrerá inevitavelmente solteira, porque as corporações envolvidas na situação precisam de defender o seu bom nome e o dos membros diretamente responsáveis pela omissão de segurança, caprichando no branqueamento e no esquecimento da ocorrência.
A notícia abalou-o e viu-se numa fona para recuperar o apetite. Esmiuçou-se, emagreceu, encarquilhou-se na pele e no ânimo. Sofreu cólicas terríveis em diversos órgãos, ardeu-lhe a bexiga de tanto urinar-se, e esvaiu-se numa diarreia abundante e contínua. A tez antes esbelta e altiva, luzidia e imaculada, ficou-lhe de dia para dia parda e enrugada com propensões para a de tartaruga velha a que nenhum creme gorduroso ofereceu perspetivas de melhoria. De bilioso azedou, tornou-se avarento, vingativo e picuinhas. De ressentido inventou defeitos e vícios nos demais, sobretudo nos vizinhos, colegas e familiares que não lhe viraram as costas com descaro e ostensivamente, respeitando-o na esperança de que pagasse na mesma moeda, a debalde claro está, que quanto maior foi o défice maior se tornou a ofensa e ressentimento por crédito. Assim como se de tão evidente lhe sentira a frustração, melhor evidenciara a agressividade da resposta que lhe dava, odiando tudo e todos, fazendo de cada minuto uma guerra fria e de cada hora um resgate de espoliado.

Então, empunhou a bandeira do patriotismo e aspergiu com os santos óleos o chão fronteiro às Necessidades e a S. Bento, gritou ser uma condenação e uma hipoteca sobre o futuro não contribuir para o privilégio de uns com o desmérito dos demais, principalmente dos que depois hão de competir com eles na busca de emprego e melhores condições de vida, configurando a justiça social sob a bitola da injustiça, argumentando com o costumeiro se sempre assim foi por que não há de continuar a ser, porquanto os radicalismos demoníacos são agentes de mudança que nenhum liberal tem por benfazejos. E o que cria a ordem, gera o progresso, alimenta o status quo é precisamente o tudo na mesma como dantes no quartel de Abrantes, onde qualquer pátria resguarda a sua elite e propala a fé desengonçada em pulos e cantares, palha e outros manjares, nas capas das gaiatas e dos tunantes. Ora pois. Que se já não tem a farda da Mocidade (à portuguesa) muito lhe sobra noutras iguarias do trajar desde que queira contra os iguais marchar, marchar.
E a pergunta que se põe, para remate de conversa sobre o tempo de outros tempos, é, com certeza, saber se no presente vamos ter de pagar a educação e o instruir daqueles que com os nossos filhos vão competir? Se sim, está encontrada a resolução, para quê atrás desses tempos outros tempos hão de vir, uma vez que a condição dos nascidos sem condição não muda por mais que façam para dela querer sair? E ser pequeno em Liliput é que é ser normal, tendo sonhos de grandeza para que nunca seque esta vontade de regar a realeza: façam os bons mal aos maus, que o ataque é a melhor defesa!

1.18.2011

Petrarca Reincidente


Assim tinham adormecido: o olhar dele estava fixo nos lírios. Flores que ele lhe tinha comprado a um vendedor de rua no dia antes de aquilo ter acontecido – a purificação das sepulturas. Na semana passada tinham sido as rosas. Rosas vermelhas, enroladas como guarda-chuvas; as rosas têm o cheiro do sexo, disse ela, os lírios têm a forma: ele descobria todas essas delícias enquanto estava com ela. Aproximaram-se um do outro, sob sentidos amplificados.”
In A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, tradução de Ana Patrão

Q uando Shara decide algo sobre mim, não há meio de contornar a questão nem desobedecer-lhe. Ela diz que não é obediência, sequer fidelidade, vassalagem, mas a sensatez que afluiu para reparar os danos da minha obtusidade (momentânea). Não o creio, deveras. E sinceramente; todavia, nunca lho disse abertamente, talvez por temer a contra-argumentação que lhe advirá. Aliás, a experiência recente aconselha-me prudência e tino, caso não queira ver-me espoliado, além dos sonetos e das fotos dela, como já fui, de outras predileções que ainda me restam, por secretas serem e escondidas dela as manter. Tenho as minhas razões…
Por conseguinte, o que importa reter neste àparte, sendo obediência ou não, desta confissão se infere facilmente que a minha vida é um martírio. Se digo que gosto de uma coisa, ela enquanto não me veda o acesso a essa coisa, não descansa. E pelo contrário, se proclamo não gostar de alguém, então faz dessa pessoa a sua companhia favorita e incondicional, elegendo-a como alvo de todos os seus elogios, incluindo os diminutivos mais carinhosos, sempre que se lhe refere, a chama ou a indica como testemunha e cúmplice do seu bom gosto. Por motivos que desconheço e razões que não enxergo, nada lhe dá maior prazer do que contrariar-me e proporcionar-me desprazer.
Com uma particularidade indesmentível: cria armadilhas, encontros, afinidades várias, acontecimentos em que sou obrigado a partilhar a presença e convívio com “essa gente” que, muito atempadamente e bem!, eu classificara de indesejável ou fora de prazo. «É um treino de amadurecimento, queridinho» respondeu-me ela quando corajosamente a interpelei acerca da sua conduta neste capítulo. O que pode ser tão absolutamente verdade como relativamente autêntico, posto que nunca plenamente ou sequer em definitivo, tendo em conta que mal passo a simpatizar com essas pessoas, logo ela lhe encontra defeitos gravíssimos que, saliente-se, «há bastante tempo tinha notado, e esperava pacientemente que também os detectasses; só que, como sempre, andas a leste e a ler por linhas tortas, aquilo que simplesmente se vê nas direitas», reportas tocando em sol maior de discurso avisado, apenas para meu governo, «já que em certos assuntos insistes em ser lerdo e demorado», como gosta de salientar se a oportunidade lhe surge a talho de foice.
Não obstante, se a circunstância surge, o latinório do de gustibus non est disputandum revela-se um importante recurso assim que, por qualquer motivo, enalteço feitos deste ou daquela, atos ou políticas, comportamentos ou silhuetas: «ora, não me apoquentes nem sarrazines a veneta, que bem sabes que os gostos não são discutíveis, embora recentemente, e a este propósito, te tenhas repetidamente manifestado de um mau gosto exorbitante. Como consegues fazer isso? Será que não te ouves? Há prà’i alguma disfunção entre a boca e ouvido, a língua e o cérebro? És disléxico mental? Ou estás unicamente empenhado a lembrar-me que quanto imagino que tens de bom, além de se perder e degradar a olhos vistos, nasceu em mim por falta de ponderação? Arrependo-me!» de lhe pespegar nos acintes e dar-lhe também pela medida grossa, dizer-lhe umas quantas que me andam aqui atravessadas há longa data, todavia as alturas vão-se derreando na inoportunidade circunstancial, remetendo-se invariavelmente para mais tarde, quando estivermos sem ninguém por perto, ou tiver digerido totalmente os reparos, num a vingança serve-se fria que comummente me congela a vontade e o ânimo, adiando-a, adiando-a, adiando-a até finalmente a esquecer – definitivamente.
Ademais, de pouco me serviria… Cada qual nasce prò que nasce, e a minha vida tem sido um tormento inglório. Tento chamar-lhe a atenção para a sua falta de decoro em relação à forma como me trata, a indelicadeza dos seus apartes, as notas de rodapé imerecidas que me aplica por dá cá aquela palha, a inconveniência e inexatidão da maioria das suas críticas, mas a debalde: se mal estava, pior fico, e caiem-me as prédicas no saco roto dos maus ouvintes, daqueles que fazem questão em escutar de cabeça muito direitinha, para que mal as palavras entrem por um ouvido possam sair, à mesma velocidade senão maior, de imediato pelo outro.
Por exemplo, ainda antes de sairmos de casa, após o raspanete que me pregou sobre as fotografias, todas dela, pois: todas tuas!, não se coibiu de judiar do meu semblante cabisbaixo e consternado, triturando-me o ânimo com outro discurso sem fim acerca das mesmas, onde vociferou entredentes sem pundonor, num sussurro azedo que «tudo o que é demais, é moléstia. Meu menino: Uma, duas, quanto muito, três fotografias minhas, selecionadas e atualizadas, ainda vá que não vá, e eu até te podia ajudar na escolha. Algumas são fidedignas, e espelham extraordinariamente bem a minha personalidade, com discrição e qualidade. E uma vez que vais, que vamos, continuar com esta casa, por estar mais perto do meu serviço, e onde tu tens a tua tralha de intelectual, não vejo nenhum obstáculo a que me sintas por perto e atenta, nos períodos em que estejamos “desencontrados” desenvolvendo as atividades profissionais sem as quais nunca poderemos passar. Não somos ricos, nem cultivamos o ócio. Portanto, começa a pensar nas fotografias que preferes manter à vista e dá sumiço às restantes. Ok?»
Meneei a cabeça fazendo «tsche-tsche» com a língua a bater no palato, como quem coça o céu-da-boca duma comichão insuportável, despreguei os olhos do chão, com que varria o soalho à procura de insectos, poeira ou nódoas libertadoras do recado, suspirei atrapalhado e tentei sossegá-la prometendo «fica descansada, que amanhã, assim que aqui chegar, vai ser a primeira coisa que faço. Quando vieres almoçar, já podes escolher aquelas que preferes que tenha de ti. Eu gosto particularmente de duas ou três, mas depois, durante a refeição, faremos a nossa “acareação” de pareceres. Vais ver, que os nossos gostos não diferem tanto como supões…»
Sai-me bem. Não é para me gabar, mas vislumbrei-lhe na face um tique, um breve estremecimento, de quem sustém um sorriso. Apeteceu-me dar um pinote e socar a atmosfera num «Hhhuuuaaaaauuuu!!!!!...» reconstansubstancializador mas evitei-me, sim, apenas para lhe fazer notar que a birra ainda não tinha passado totalmente, e que quando se prende o burro não se desata a corda de repente.
Abri a porta para sairmos com a respiração em suspenso, e desviei-me subtilmente para ela passar. Fê-lo lentamente, muito lentamente, demorando cada gesto da passada, esticando-os até aos limites do suportável, o braço direito a rasar-me o peito, quase a tocar-me sem tocar, contudo obrigando-me a sentir o calor de um contacto pré-anunciado, desejado, embora que na pronúncia acesa das palavras supérfluas e indizíveis. E eu tremi, estremeci sem controlo, tentando esconder a constatação inequívoca de que não me pertenço. Que a vontade que me anima, que essa ideia cujo melhor nome que encontrámos para nomear chamamos “alma”, pode ser a minha, mas habita outro querer. Num amplificado reconhecimento, a que se acrescia a noção exata da minha impotência para contrariar este estado, esta tomada de sentido em toda a sua consciência!

1.15.2011

Segundo Conto da Saga Petrarquiana

A Curva em Desnível

“Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A Fortuna inquieta pôr-lhe noda
Que lha não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.”

(Luís de Camões, in Os Lusíadas, Canto Terceiro, Estrofe 17)

A inda mal me tinha levantado quando a campainha tocou. Eram precisamente dez horas, e o sol entrava pela janela da sala como se fosse um dia de primavera. Mas não o era. Estávamos no pinho do inverno e, lá fora, a temperatura rondava os dois graus negativos.
Portanto, quando sem pressas me dirigi à porta para ver quem assim tocara, estava longe de imaginar que pessoa metera o dedinho no botão, deixando-o lá esquecido na demora de uma eternidade estridente. Insistentemente. Ansiosa. Porque, se nos propusermos ouvir as tonalidades dos toques, distinguimos perfeitamente o estádio de ânimo de quem carrega do outro lado. Eu distingo, e às vezes até sei quem é, dado que os timbres se tornam caracteristicamente identificáveis.
E ao ver-me, assarapantado, Shara sorriu-me de orelha a orelha, num desafio direto à contrariedade chapada no meu rosto. Porém, não se fez minimamente achada ou arrependida, e estampou-me nas ventas um «então queridinho, ainda de ressaca com as novidades de ontem?», que me arrepiou de alto a baixo num estertor de choque eléctrico, semelhante àqueles apanhados à sorrelfa e na calada da noite, quando se assalta o frigorífico ou tenta arrombar o mealheiro do filho mais novo, e se é apanhado com a boca na botija.
As novidades a que se referia estavam relacionadas com a conversa a quatro que tivéramos sobre a nossa vida a dois, durante o jantar em casa dos pais dela… E diziam respeito ao ter-me posto em banho-maria com o meu claro consentimento. O estranho é que a anuência nem tivera a interferência alcoólica, ou a nota persuasiva de uma fraqueza visível. Não estava bêbado nem fragilizado quando dissera que sim, pondo fim à minha liberdade de solteiro e bom rapaz.
Há coisas que nos sucedem sem querermos, outras porque não queremos mas também não nos importamos, e ainda outras, porque além de as querermos fazemos tudo para que nos aconteçam. O jantar não foi nenhuma delas. E a conversa anexa idem. Como diz o povo, tantas vezes vai o cântaro à fonte até que um dia… parte-se!
É claro que de inesperado não tinha nada. E a complacência que me acompanhara na decisão, também não indicava que fora esperada. Mas isso, de me terem sido “proibidos” os sonetos, acho que foi uma exagerada e elevadíssima pena para tão ínfimo e insignificante falta: a de dizer o que sinto por catorze versos. Há quem o faça mais barato, é claro, como se de um haiku se tratasse, porém estas modalidades não fazem muito o meu género…
Bom: o que é certo, afiançado e garantido, é que ela estava ali na minha frente, com cara de grande divertimento na intenção, clara e declarada, de sondar como tinha eu feito a digestão das novidades sofridas, se tinha feito ou ainda precisava de algum auxiliar – de memória? Farmacológico? Corretivo? – que me facilitasse o engolimento das decisões tomadas acerca da minha vontade e estado civil, como de espírito. «Ora, tu bem sabes, que tudo o que decidires, está decidido, e eu não ponho qualquer obstáculo…», fiz-lhe saber, desviando-me da entrada para que Shara atravessasse a ombreira da porta. Dá mau aspecto esse serôdio hábito oitocentista, essa coisa de se discutirem os sonetos em público…
«Mas nada de fintas, verónicas e chicuelinas, que os meus pais têm muito apreço e estima por ti, e desiludi-los será um duro golpe de que dificilmente recuperarão», remataste tu, aquela que possui o nome que é também a chave do meu destino, cuja sorte foi ditada e escrita muito antes do homem ser homem, ou até do menino ser menino.
«Claro» garanti, «podes ficar descansada, que nunca da minha parte haverá a menor razão de queixa, e tudo farei para continuar a merecer a confiança e apreço deles», tentando dar um ar oficial ao juramento para melhor me livrar do teu olhar acutilante, perscrutador e irreverente. Quase irónico, e veladamente ameaçador…
É óbvio que a tua intenção, quer dizer, a intenção de Shara era outra, de subtil natureza e contorcido engenho, que nestas coisas da vontade o feminino não pode passar nunca sem aquele requinte de matreira índole que os incautos e desprevenidos tomam por sedução. Por perspicácia. Salero. Coquetearia. O vos estes sal terrae sem o qual os dias nos seriam tediosamente sonsos. Imagino! Porque é apenas um supor, considerando que até quando não estás me anda inquieta a alma por entre os destroços em que me fica a existência se tal sucede…
Assim, tentei desviar a conversa para outros destinos, visto que a fatalidade me pusera a cabeça à roda, com o fito de equilibrar as ideias e o ânimo num degrau acessível ao amor-próprio sem me esticar muito. «Olha: já reparaste que limpei a casa e arrumei os livros quase todos? Não notas a diferença?» Mas na ânsia de a encaminhar para outros azimutes, descurei milimetricamente a guarda, mostrando-lhe as prateleiras onde eles se enfileiravam, embora que com as lombadas tapadas pelas inúmeras fotografias tuas, quer dizer: dela, nas mais variadas circunstâncias, trajes, fundos, poses, que ao longo dos anos fui colecionando, emoldurando e expondo, desde que houvesse algum espaço vago, ou que ainda não tivesse sido ocupado por uma. Uma vez chegaste mesmo a ironizar, perguntando-me se a figura que se via por toda a casa, tão insistentemente decorativa não seria «alguma Santa a que és devoto, a que prestas culto… Não te sabia tão dado às coisas da fé e da religião!», fazendo-te desentendida sobre quem era essa que somente Shara encarna sem se notar qualquer desacerto nas linhas, suturas e reminiscências.
Lembro-me que te paguei na mesma moeda e não afectei o toque, sem remoque e indiferença. Foi então, enquanto recordava a situação, que me atiraste outro balde água fria, ainda pior do que a proibição dos sonetos, coisa que eu pensava ser a mais terrível e desafortunada que me podia acontecer, e isto depois de teres passado revista aos móveis e estantes, avaliando a decoração, o estado de preenchido anafórico, de onde brotavas como um refrão que se repete a esmo por toda a glosa, sem curvas de desnível, de forma a esfregar com detergente eficaz outra nódoa que ainda me maculasse a alma, o comportamento e a motivação, determinando que «isto não pode continuar assim, durante muito mais tempo. Trata de desfazer, de arrumar esta tralha toda. Faz um álbum, mete-as numa caixa de camisas ou sapatos que tenhas prà’i, no quer que seja. Desenrasca-te. E se tivermos filhos, onde vamos pôr as fotografias deles? És tonto, ou quê?»
Na boca, a língua entaramelou-se, quando tentei ripostar, e nem um pio me saiu dela mal a abri, deixando-a à banda. Ficara de rastos, a corda partida, a pilha gasta, a alma num esfregão. Tudo quanto eu mais temia me estava acontecer. Um tsunami não teria provocado maior devastação. A cara devia ser o espelho da consternação e tempestade que se abateram sobre mim, todavia Shara não evidenciara a menor comoção, pena e dó. Olhei as alturas implorando socorro a todas as divindades, mas nenhuma me atendeu. Fitei o abstrato de nada que é ponto aceso a brilhar no vazio infinito, e nem uma luzinha me piscou no pestanejar da esperança, precisamente no momento em que até um pirilampo me consolaria. Mas nada. Da desfaçatez do cosmos não vieram quaisquer grânulos luminosos ou grãos de pó… o mínimo sinal de esperança ou réstia de razão.
E dada a evidência, contrito e aflito reconheci, que tudo quanto para Petrarca fora somente maldição, calhava-me a mim a dobrar – é que um soneto nunca vem só!

Males de uma idade maior... Ou crise de crescimento?


O Regozijo Nacional

"Os males da idade são postes de sinalização e não destino."
L. Kronenberger

Fico muito contente por saber que os melhores de entre todos nós não valem um pataco, havendo mesmo quem não sequer dê três vinténs por eles. E ninguém me tira da ideia que a pegada social de cada homem há de abranger muito para além de seus filhos e netos, porquanto também comporta a sua pegada ecológica e da sua família, durante bastante tempo depois de morrer e ela se extinguir, deveras contundente na violação das fronteiras e limites, sejam temporais como no espaço, indubitavelmente inerentes ao grupo, comunidade ou povo a que pertence. O nosso está de parabéns. Temos uma nata a toda a prova, incluindo a de sensatez. Ora vamos lá ver: o que prejudica ou não ajuda absolutamente nada este país, não são as conjeturas e alvitres sobre o possível pedido de auxílio à Europa (FEE) ou ao FMI, deste ou daquele civil mais ou menos magoado, e ressentido, com os desmandos da governação, e o estado precário e insustentável da nossa situação geral, é sim a falta de ações concretas e eficazes da parte do Estado e do governo para contrariar a atual situação económica, cultural, social, política e financeira. Esse é que é o maior e mais prejudicial défice de todos... E esse também sabemos todos nós muito bem onde nasceu e quem o fomenta!
Das agruras recentes e da qualificação deste ou daquele candidato, não restam agora as menores dúvidas que quem muito se cala não é só por lhe faltar argumento credível, é para não se comprometer ainda mais do que já se sente estar, receando dizer algo que prejudique ainda mais a sua defesa do que o ficar calado defenderia. Nem sequer é tabu, como aconteceu noutras circunstâncias. E se de estratégia se tratar, então bateu com os burrinhos na lama, uma vez que dia a dia, está a perder notoriamente as vantagens competitivas que o desempenho anterior do cargo lhe conferiu. Os portugueses, daqueles cuja filosofia era o comer e calar, que ovelha que berra é bocado que perde, já restam muito poucos, e desses, e nesses, o descrédito nos políticos e na política, para além das dificuldades de locomoção, a carestia de vida, agravamento das condições de saúde, a abstenção sobe em acelerado contínuo, na razão diretamente inversa ao seu descontentamento e perda de fé. Estão a ficar-se aos magotes como S. Tomé, querem ver para crer, ouvir para acreditar, e do silêncio gritante que ecoa nos seus aparelhos multimédia apenas soçobra o ruído das dificuldades crescentes no quotidiano.
Ninguém perde dúvidas com faltas de esclarecimentos, e aquela arrogância de que foram acusados alguns outros, nomeadamente o candidato à esquerda melhor posicionado, está a assentar como luva através do quem cala consente que acoita todos os desmandos, desde os menores aos mais graves. Em democracia não quem esteja inquestionavelmente acima de qualquer fato, e os fatos que perduram são sempre aqueles que não foram debatidos, escamoteados e esclarecidos. Mandar as pessoas que nem sequer sabem usar com presteza o telemóvel, para ligar aos filhos e netos, consultar o site na internet, e dizer-lhes cara a cara que não conta com eles e prescinde dos seus votos, pois que a única maneira plausível de se manterem informados é ouvir nas rádios e verem nas televisões, aonde esse tipo de informação foi sonegado.
Portanto, se acontecer alguma surpresa, não venham depois com modas de apelidar o povo de ingrato, que para pagar na mesma moeda é que ainda vai rebuscando no fundo dos bolsos os raros níqueis trocados, pois que quando faz perguntas e não ouve respostas, já não acredita logo que está a ficar velho e duro de ouvido, mas antes sim conclui que anda alguém a tentar fazer-lhe o ninho detrás da orelha – outra vez!

1.11.2011

Para Além de Outro Oceano, de Coelho Pacheco


Com a Alma num Puzzle

"NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano
Houve posições dum viver mais claro e mais límpido
E aparências duma cidade de seres
Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez
Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter
A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro
Todos viviam na vida dos restantes
E a maneira de sentir estava no modo de se viver
Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho
A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser
E houve pasmos de toda a realidade ser só isto
Mas a vida era a vida e só era a vida."
– In Para Além de Outro Oceano, de Coelho Pacheco (1)



Quem se esfarela até morrer, corre em riacho de muito seixo e pouca ternura (alcança), que o silêncio do nu apressado, ainda que vertido em multidões de espasmos e suspiros, nunca outra coisa lhe trará do que a solidão de si entre tantos, ilha sem pontes nem portos seguros que no vasto e perdido oceano lhe há de ficar. Ao buscarmo-nos fora de nós, como metáfora matriz do universo, desde Bhavicyottarapuräna ("água, tu és a fonte de todas as coisas e de toda a existência") ao Alcorão ("Não vêem os infiéis [...] que com a água demos vida a tudo?"), quer para nos purificarmos como para nos regenerarmos, é impossível que não caiamos no intempestuoso oceano da dúvida, da lágrima, da representação ou do júbilo, numa tentativa de retornarmos às águas primordiais, ao líquido amniótico, precisamente aquelas que antecederam a (nossa) realidade, a notificaram e convocaram para dela ajuizarmos, lhe mataram a sede e a dissolveram na fantasia e no sonho, no conto e teoria de vida, onde se estabeleceram e formataram os sentidos e veículos/ferramentas para a sua conveniente apropriação, que é, enfim, a vida de cada qual. Esporadicamente nessa tomada de posse, tivemos que saltar fora de nós (heteronímia), para nos podermos ver e observarmos (uns aos outros) como outros, capazes das ousadias que temíamos, enquanto mergulhávamos no líquido original e genesíaco, pré-diluviano, bem como quais eram os gestos peculiares e expressões com que reiniciávamos essa navegação essencial. O outro que nós éramos, experimentava assim aquilo que podíamos – ou queríamos – ser, sem correr os riscos e adversidades consequentes ao salto no escuro cometido, e sem perdermos da mão o telecomando imaginário com que nos iludíamos de ter sob controlo essa perigosa constatação de existir, que raiando o desdobramento da personalidade toca explicitamente as margens da loucura. Estávamos ali de corpo e alma, de fato e (e)feito indesmentível, porém, dela o víamos a cumprir os desígnios ordenados como se fossem por ele estipulados e decididos, leis executadas sem apelo nem agravo duma vassalagem indecorosa mas irresistível.
Coelho Pacheco – ou Fernando Pessoa, quem sabe?!?... – descreve/exemplifica um desses momentos de mergulho sem escafandro com que o homem-rã se propõe a submergir nas suas próprias águas. A dificuldade deste tipo modalidade ou de exercício de natação não está no peso da bagagem, escafandro e profundidade que almejamos, mas na qualidade e natureza das águas, porquanto elas são as nossas, revoltosas umas vezes, calmas e serenas outras, porém sempre turvas e a que a nossa lente de autoestima, disponibilidade, lucidez, objetividade e ideal/teoria de vida não acrescenta nenhuma transparência, antes as obscurece mais de acordo com a medida da nossa ansiedade e insegurança. E a corda bamba de Nietzsche, e Zaratustra, neste panorama não passa de uma brincadeira de crianças superprotegidas para quem o risco reside na correspondência direta com o volume do alarido de aviso, ou aconselhamento, que o bando protetor emite por alerta e prevenção.
É óbvio que depois de passarmos por semelhante experiência, voo ou mergulho que seja, tendo-nos acontecido o mesmo que sucede quando acordamos de um pesadelo infernal, o riso e o alívio serão quase inevitáveis, como quando vencemos uma barreira intransponível sem a mínima beliscadura, em que não obstante o pior já ter passado, o que é certo, é que jurámos jamais metermo-nos noutra igual para conseguir coragem e alento, e até ajuda divina, e não temos a certeza se essa emersão salvadora das aflições em que estávamos, se deveu aos nossos esforços e força de músculo, capacidade intelectual e motivação, se à intervenção divina para a qual implorámos e nos encomendámos, numa dívida inegável. Quando os sentimentos são só o desejo de os ter dificilmente saberemos se são reais ou apenas hipotéticos, consentidos ou imperiosos, inevitáveis ou relevantes, se são nossos ou de outrem, estão activos ou não passam de recordação, fantasia e alucinação, pondo-nos em igual plano com a suscetível irrealidade, pelo que deixamos de saber com certeza quem somos, se somos reais ou imaginados, autênticos ou fictícios, seres nomeáveis ou reclusos de uma maldição qualquer, emitida para corromper o espírito de outros seres, esses sim capazes de sentir e usufruir de sentimentos. E ninguém merece, por maior e mais hediondo que tenha sido o seu crime, tamanha condenação!
Febre de ser para além doutras águas, não destas que lavam e purificam, não destas que são genesíacas e originais, não destas que compõem os oitenta e tal por cento do nosso corpo, nem da superfície terrena ou global, que todas são impuras e normais, mas onde a pureza e a nudez se diluem lívidas de impossibilidade. Onde fica isso, que mares e oceanos são esses? O Purgatório tem alguma liquidez nessa perceção? Bom... Qualquer leitura atenta da totalidade do poema, creio, deve bastar para responder a esta questão.
E se não responder?



FICÇÕES DO INTERLÚDIO/3:
PARA ALÉM DO OUTRO OCEANO

DE C[OELHO] PACHECO


NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano
Houve posições dum viver mais claro e mais límpido
E aparências duma cidade de seres
Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez
Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter
A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro
Todos viviam na vida dos restantes
E a maneira de sentir estava no modo de se viver
Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho
A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser
E houve pasmos de toda a realidade ser só isto
Mas a vida era a vida e só era a vida.
O meu pensamento muitas vezes trabalha silenciosamente
Com a mesma doçura duma máquina untada que se move sem fazer barulho
Sinto-me bem quando ela assim vai e ponho-me imóvel
Para não desmanchar o equilíbrio que me faz tê-lo desse modo
Pressinto que é nesses momentos que o meu pensamento é claro
Mas eu não o oiço e silencioso ele trabalha sempre de mansinho
Como uma máquina untada movida por uma correia
E não posso ouvir senão o deslizar sereno das peças que trabalham
Eu lembro-me às vezes de que todas as outras pessoas devem sentir isto como eu
Mas dizem que lhes dói a cabeça ou sentem tonturas
Esta lembrança veio-me como me podia vir outra qualquer
Como por exemplo a de que eles não sentem esse deslizar
E não pensam em que o não sentem
Neste salão antigo em que as panóplias de armas cinzentas
São a forma dum arcaboiço em que há sinais doutras eras
Passeio o meu olhar materializado e destaco de escondido nas armaduras
Aquele segredo de alma que é a causa de eu viver
Se fito na panóplia o olhar mortificado em que há desejos de não ver
Toda a estrutura férrea desse arcaboiço que eu pressinto não sei por quê
Se apossa do meu senti-la como um clarão de lucidez
Há som no serem iguais dois elmos que me escutam
A sombra das lanças de ser nítida marca a indecisão das palavras
Dísticos de incerteza bailam incessantemente sobre mim
Oiço já as coroações de heróis que hão de celebrar-me
E sobre este vício de sentir encontro-me nos mesmos espasmos
Da mesma poeira cinzenta das armas em que há sinais doutras eras
Quando entro numa sala grande e nua à hora do crepúsculo
E que tudo é silêncio ela tem para mim a estrutura duma alma
É vaga e poeirenta e os meus passos têm ecos estranhos
Como os que ecoam na minha alma quando eu ando
Por suas janelas tristes entra a luz adormecida de lá de fora
E projeta na parede escura em frente as sombras e as penumbras
Uma sala grande e vazia é uma alma silenciosa
E as correntes de ar que levantam pó são os pensamentos
Um rebanho de ovelhas é uma coisa triste
Porque lhe não devemos poder associar outras ideias que não sejam tristes
E porque assim é e só porque assim é porque é verdade
Que devemos associar ideias tristes a um rebanho de ovelhas
Por esta razão e só por esta razão é que as ovelhas são realmente tristes
Eu roubo por prazer quando me dão um objeto de valor
E eu dou em troca uns bocados de metal. Esta ideia não é comum nem banal
Porque eu encaro-a de modo diferente e não há relação entre um metal e outro objeto
Se eu fosse comprar latão e desse alcachofras prendiam-me
Eu gostava de ouvir qualquer pessoa expor e explicar
O modo como se pode deixar de pensar em que se pensa que se faz uma coisa
E assim perderia o receio que tenho de que um dia venha a saber
Que o pensar eu em coisas e no pensar não passa duma coisa material e perfeita
A posição dum corpo não é indiferente para o seu equilíbrio
E a esfera não é um corpo porque não tem forma
Se é assim e se todos ouvimos um som em qualquer posição
Infiro que ele não deve ser um corpo
Mas os que sabem por intuição que o som não é um corpo
Não seguiram o meu raciocínio e essa noção assim não lhes serve para nada
Quando me lembro que há pessoas que jogam as palavras para fazerem espírito
E se riem por isso e contam casos particulares da vida de cada um
Para assim se desenfastiarem e que acham graça aos palhaços de circo
E se incomodam por lhes cair uma nódoa de azeite no fato novo
Sinto-me feliz por haver tanta coisa que eu não compreendo
Na arte de cada operário vejo toda uma geração a esbater-se
E por isso eu não compreendo arte nenhuma e vejo essa geração
O operário não vê na sua arte nada duma geração
E por isso ele é operário e conhece a sua arte
O meu físico é muitas vezes causa de eu me amargurar
Eu sei que sou uma coisa e porque não sou diferente de uma coisa qualquer
Sei que as outras coisas serão como eu e têm de pensar que eu sou uma coisa comum
Se portanto assim é eu não penso mas julgo que penso
E esta maneira de me eu acondicionar é boa e alivia-me
Eu amo as alamedas de árvores sombrias e curvas
E ao caminhar em alamedas extensas que o meu olhar afeiçoa
Alamedas que o meu olhar afeiçoa sem que eu saiba como
Elas são portas que se abrem no meu ser incoerente
E são sempre alamedas que eu sinto quando o pasmo de ser assim me distingue
Muitas vezes oculto-me sensações e gostos
E então elas variam e estão em acordo com as dos outros
Mas eu não as sinto e também não sei que me engano
Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver
Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é
Mas porque não posso viver figuradamente
E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar
A condição da poesia é ignorar como se pode senti-la
Há coisas belas que são belas em si
Mas a beleza íntima dos sentimentos espelha-se nas coisas
E se elas são belas nós não as sentimos
Na sequência dos passos não posso ver mais que a sequência dos passos
E eles seguem-se como se eu os visse seguirem-se realmente
Do fato deles serem tão iguais a si mesmo
E de não haver uma sequência de passos que o não seja
É que eu vejo a necessidade de nos não iludirmos sobre o sentido claro das coisas
Assim havíamos de julgar que um corpo inanimado sente e vê diferentemente de nós
E esta noção pode ser admissível demais seria incómoda e fútil
Se quando pensamos podemos deixar de fazer movimento e de falar
Para que é preciso supor que as coisas não pensam
Se esta maneira de as ver é incoerente e fácil para o espírito?
Devemos supor e este é o verdadeiro caminho
Que nós pensamos pelo fato de o podermos fazer sem nos mexermos nem falar
Como fazem as coisas inanimadas
Quando me sinto isolado a necessidade de ser uma pessoa qualquer surge
E redemoinha em volta de mim em espirais oscilantes
Esta maneira de dizer não é figurada
E eu sei que ela redemoinha em volta de mim como uma borboleta em volta de uma luz
Vejo-lhe sintomas de cansaço e horrorizo-me quando julgo que ela vai cair
Mas de nunca suceder isso acontece eu estar às vezes isolado
Há pessoas a quem o arranhar das paredes impressiona
E outras que se não impressionam
Mas o arranhar das paredes é sempre igual
E a diferença vem das pessoas. Mas se há diferença entre este sentir
Haverá diferença pessoal no sentir das outras coisas
E quando todos pensem igual duma coisa é porque ela é diferente para cada um
A memória é a faculdade de saber que havemos de viver
Portanto os amnésicos não podem saber que vivem
Mas eles são como eu infelizes e eu sei que estou vivendo e hei de viver
Um objeto que se atinge um susto que se tem
São tudo maneiras de se viver para os outros
Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços
Depois de comer quantas pessoas se sentam em cadeiras de balanço
Ajeitam-se nas almofadas fecham os olhos e deixam-se viver
Não há luta entre o viver e a vontade de não viver
Ou então — e isto é horroroso para mim — se há realmente essa luta
Com um tiro de pistola matam-se tendo primeiro escrito cartas
Deixar-se viver é absurdo como um falar em segredo
Os artistas de circo são superiores a mim
Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo
E dão os saltos só por os dar
E se eu desse um salto havia de querer saber por que o dava —
E não os dando entristecia-me
Eles não são capazes de dizer como é que os dão
Mas saltam como só eles sabem saltar
E nunca perguntaram a si mesmos se realmente saltam
Porque eu quando vejo alguma coisa
Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo
Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo
Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam
E se as visse também podia supor que elas sucediam
Uma ave é sempre bela porque é uma ave
E as aves são sempre belas
Mas uma ave sem penas é repugnante como um sapo
E um montão de penas não é belo
Deste fato tão nu em si não sei induzir nada
E sinto que deve haver nele alguma grande verdade
O que eu penso duma vez nunca pode ser igual ao que eu penso doutra vez
E deste modo eu vivo para que os outros saibam que vivem
Às vezes ao pé dum muro vejo um pedreiro a trabalhar
E a sua maneira de existir e de poder ser visto é sempre diferente do que julgo
Ele trabalha e há um incitamento dirigido que move os seus braços
Como é que acontece estar ele trabalhando por uma vontade que tem disso
E eu não esteja trabalhando nem tenha vontade disso
E não possa ter compreensão dessa possibilidade?
Ele não sabe nada destas verdades mas não é mais feliz do que eu com certeza
Em áleas doutros parques pisando as folhas secas
Sonho às vezes que sou para mim e que tenho de viver
Mas nunca passa este ver-me de ilusão
Porque me vejo afinal nas áleas desse parque
Pisando as folhas secas que me escutam
Se pudesse ao menos ouvir estalar as folhas secas
Sem ser eu que as pisasse ou sem que elas me vissem
Mas as folhas secas redemoinham e eu tenho de as pisar
Se ao menos nesta travessia eu tivesse um outro como toda a gente
Uma obra-prima não passa de ser uma obra qualquer
E portanto uma obra qualquer é uma obra-prima
Se este raciocínio é falso não é falsa a vontade
Que eu tenho de que ele seja de fato verdadeiro
E para os usos do meu pensar isso me basta
Que importa que uma ideia seja obscura se ela é uma ideia
E uma ideia não pode ser menos bela do que outra
Porque não pode haver diferença entre duas ideias
E isto é assim porque eu vejo que isto tem de ser assim
Um cérebro a sonhar é o mesmo que pensa
E os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos
Como outros quaisquer. Se vejo alguém olhando-me
Começo sem querer a pensar como toda a gente
E é tão doloroso isso como se me marcassem a alma a ferro em brasa
Mas como posso eu saber se é doloroso marcar a alma a ferro em brasa
Se um ferro em brasa é uma ideia que eu não compreendo
O descaminho que levaram as minhas virtudes comove-me
Compunge-me sentir que posso notar se quiser a falta delas
Eu gostava de ter as minhas virtudes gostosas que me preenchessem
Mas só para poder gozar e possuí-las e serem minhas essas virtudes
Há pessoas que dizem sentir o coração despedaçado
Mas não entrevistam sequer o que seria de bom
Sentir despedaçarem-nos o coração
Isso é uma coisa que se não sente nunca
Mas não é essa a razão por que seria uma felicidade sentir o coração despedaçado
Num salão nobre de penumbra em que há azulejos
Em que há azulejos azuis colorindo as paredes
E de que o chão é escuro e pintado e com passadeiras de juta
Dou entrada às vezes coerente por demais
Sou naquele salão como qualquer pessoa
Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam
A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrevãos das portas
É uma tristeza feita de silêncio desnivelada
Pelas janelas reticuladas entre a luz quando é dia
Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recantos montões de negrume
Correm às vezes frios ventosos pelos extensos corredores
Mas há cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos salões
E tudo é dolorido neste solar de velharias
Alegra-me às vezes passageiramente pensar que hei de morrer
E serei encerrado num caixão de pau cheirando a resina
O meu corpo há de derreter-se para líquidos espantosos
As feições desfar-se-ão em vários podres coloridos
E irá aparecendo a caveira ridícula por baixo
Muito suja e muito cansada a pestanejar

FIM
DE "PARA ALÉM DOUTRO OCEANO DE C[OELHO] PACHECO"

(1) Pacheco é um episódio heterónimo de Fernando Pessoa de quem se não conhece mais nenhuma produção. Estas notas que assina, com
uma técnica quase futurista de disposição e pontuação, seguem estranhamente próximo o tipo de raciocínio, forçosamente linear e de associações, de Alberto Caeiro. O conteúdo é, no entanto, mais de um gosto, ainda indiscriminado, a Álvaro de Campos. Não é uma composição de primeiro plano, nem como sentido poético nem como expressão estética. Porque não está datado, nada se pode concluir da sua feitura. O estar dedicado à memória de Alberto Caeiro pode apenas querer significar que a tal foi destinado à altura da publicação de Orpheu 3. Mais do que uma influência concreta de Alberto Caeiro, esta composição parece antes um quase e indistinto proto-Caeiro-Campos.

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