La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

6.16.2011

Mudam-se os tempos mas não as tradições e mentalidades...


Das estranhezas que o mundo tem acerca de nós...

Às vezes, se vasculharmos autores e obras antigas, encontramos muitas referências ao que somos, ou pontos prenunciadores de caráter deveras enunciativos daquilo em que nos iríamos tornar, se consumados que fossem os séculos que nos separaram entre a pesquisa e a criação em causa. Talvez sejam apontamentos proféticos. Talvez não. Ao certo, de garantido e afiançado, é que são recuperáveis se para tanto nos assistir, não o engenho e arte, mas a lógica das comparações plausíveis e verificáveis a olho nu, quer dizer, transparentes e desprovidas de percepção motivada.
Por conseguinte, neste universo da ecomimia – repetição automática mais ou menos difusa na mímica dos interlocutores políticos e sociais – semântica, creio ser frutífero desfraldar a surpresa, tal como já noutro tempo fez Nicolau Tolentino acerca das caraterísticas e traços de identificação entre portugueses e outros povos, nomeadamente espanhóis e nórdicos.

“Passei o rio que tornou atrás,
Se acaso é certo o que Camões nos diz,
Em cuja ponte um bando de aguazis
Registam tudo quanto a gente traz.

Segue-se um largo. Em frente dele jaz
Longa fileira de baiúcas vis.
Cigarro aceso, fumo no nariz,
É como a companhia ali se faz.

A cidade por dentro é fraca rês;
As moças põem mantilha e andam sós,
Têm boa cara, mas não têm bons pés.

Isto, coifas de prata e de retrós,
E a cada canto um sórdido marquês,
Foi tudo quanto vi em Badajoz.”

Nicolau Tolentino

[Nota de Rodrigues Lapa acerca do poema, embora com nova redação consentânea ao momento, que merece ser transcrita pela sua acuidade semântica: eis um soneto dos mais perfeitos de Tolentino, soberba descrição dos costumes espanhóis e da cidade de Badajoz, em que não falta sequer a referência ao traço distintivo da sociedade vizinha onde as raparigas, ao contrário da nossa em que mal saíam à rua, andavam frequentemente desacompanhadas. Datará da época em que o poeta esteve em Évora (1765-1767) e terá dado alguma saltada àquela cidade fronteiriça. De salientar a alusão ao conhecido verso de Os Lusíadas, Canto IV, est. 28, " ... e Guadiana / Atrás tomou as ondas de medroso", quando se ouviram, em Aljubarrota, as trombetas castelhanas; ou, como nos fins do século XVIII, ainda não se tinha popularizado o uso de fumar cigarros, sendo antes utilizado, geralmente, para sorver pelo nariz (rapé), ilustrando o hábito com citação, que está na base desta surpresa do autor: «Em Portugal, escrevia C. J. Ruders na carta 18ª da Portugisisk Resa (Stokolm, 1805), o tabaco não é fumado por ninguém, a não ser pela plebe baixa, que se serve, para isso, de grãos de tabaco embrulhados numa tira de papel a que se pega fogo. Cachimbos de barro ou de espuma não são usados senão por estrangeiros, e causam sempre a admiração de todos. Mas o consumo indígena do rapé é muito considerável, porque quase todos os portugueses o cheiram.»]

Ora, recentemente notícia, aconteceu que nos "exames" dos estudantes dos futuros juizes, por estes terem copiado e além disso, sido apanhados a fazê-lo, foi dada a nota de 10 valores a todos, em vez de zero como mereciam. Quem faz batota para poder vir a exercer a magistratura, já muito bem se lhe adivinha o tipo de justiça que há de vir a ministrar...
E isto traz-me à memória o que me contou alguém que foi numa ação complementar de formação a Estocolmo. Com essa pessoa, durante o almoço, alguém junto dela comentou sobre os exames que fizera, entre outras coisas, que não tinha ninguém na sala, além dos alunos, que vigiassem os examinandos. E que tal era habitual, melhor dito: usual e comum, em todos os escalões etários e graus de ensino. Então a portuguesa em causa, surpreendida e incrédula, inquiriu:
«E não copiaste?»
Ao que obteve por resposta um seco «para quê? Quem é que ganha com isso?» que era tudo menos ingénuo e inocente. Antes assertivo e determinativo.
Pelos vistos, os nórdicos podem continuar a achar que somos estranhos desde os tempos em que fazíamos charros com sementes de tabaco. Entre outras generalidades, todos copiamos e até – pasme-se! – ganhamos algo com isso. Ganhamos estatuto. Ganhamos poder. Ganhamos riqueza. Justiça é que não devemos ganhar muita, uma vez que para se ser juiz basta copiar mais um pouco, com expediente e desembaraço, que a nota de dez está garantida para quem for apanhado.
E depois os estrangeiros é que são estranhos!

6.12.2011

O Novo emboçado

O Desavanço do Século XXI

O NOVO EMBOÇADO

Acontece sempre que a cor se oculta
Entre as estevas da madrugada arguta
Que o rosáceo timbre da rosa resoluta
Ao desmaiar na sombra se afirma gruta…

Ponto cardeal interno ao ser se tumultua
E manifesta temido sob a eleita e astuta
Sagacidade da ignara tribo cuja conduta
Remonta às profundidades da ímpia luta.

A uns, que sabida é a ambiciosa receita
Tomam o poder para a outros aplicarem;
E na noite se afoitam como secreta seita

Que aos homens humilham dizendo serem
A salvação na opressão que só lhes querem
Dar; triste fado o de quem a si se enjeita!

(Joaquim Castanho, 12.06.2011)

É ensurdecedora a atitude amuada dos políticos "partidaristas" face à comunicação social depois das eleições de 5 de Junho.
Não restam portanto dúvidas que, além dos quarenta e tal porcento de abstenções, mais os 75 mil nulos, incluindo as mensagens jocosas neles contidas, ficámos mais ou menos todos suficientemente esclarecidos do que pensa a maioria dos portugueses acerca dos políticos que tem e das políticas que implementaram na portugalidade continental e adjacente: que são uma camada inútil e adversa ao desenvolvimento, não servindo a ninguém que se preze, ou que apenas se serviram até hoje a eles próprios e aos partidos que os catapultaram para a ribalta da orgia orçamental.
Mas não só. Há também quem não perceba muito bem como é que as figuras políticas que melhor foram servidas, e se serviram dos órgãos de comunicação social para fazerem a sua propaganda e campanha eleitoral, venham agora, que já foram eleitos ou deseleitos, fechar-se em copas sobre uma avaliação consequente, ou quanto às suas vidas e projectos futuros. Será que se mantém acesa essa ideia brejeira de antanho que a comunicação social é tão-só-e-unicamente uma prostituta que deve estar sempre à mão dos interesses dos poderosos para lhes satisfazer e sublimar as necessidades do ego em alter coudeladas? E que a opinião pública aquela turba de incautos em cujos ninhos quaisquer cucos podem depositar os seus ovos para lhes aumentar a geração?
Infelizmente a resposta a ambas as perguntas avizinha-se-nos óbvia: sim. Sobretudo porque em Portugal se vai enraizando a tradição de votarem somente aqueles que mais desinformados estão e menos habilitações têm. E mesmo desses, apenas os que não tiveram dinheiro ou para onde ir durante o fatídico fim de semana do escrutínio. Até os que anteriormente acharam piada ao rezingar loução, lhe viraram as costas ou fizeram manguito por este se ter posto de fora das negociações da Troika – estava lá para trabalhar, e faltou ao emprego, dizem...
Depois, o toque a rebate do CDS e do PCP surtiu o efeito desejado, por temerem a emergência dos Tiriricas e Zé Manéis, que coelhos há muitos embora nem a todos se lhe possa tirar a pele do mesmo jeito: votaram todos e, como são dos portugueses os mais endinheirados, até deram gorjeta aos que lhe seguiram o exemplo.
Portanto, enquanto não for instituído o voto electrónico em Portugal e a Democracia estiver nas mãos dos que assinam de cruz, podemos tirar da ideia querer implantar a democracia da participação e da cidadania neste litoralzinho que o mar vai comento aos poucos e onde os senhores feudais se aliviam nas arribas da cagança à vista de todos e sem o mínimo recato ou pudor. Porque qualquer passo dado em frente será sempre feito em direção ao abismo seguinte.
Então, um dia, veremos que patinhámos no Fundo do fundo quando quisemos caminhar... Porém, não haverá Troika que nos dê a mão, nem lama (corrupção) em que enterrar as botas para ensaiar os passos. E aí, sim, aí, nem o Camões nos há de salvar. Nem o Futre!

6.10.2011

Será que agora é que isto muda?

O Interior e a Sorte-Grande

"Não tomando em desprezo o escuro estado
em que me pôs Fortuna e Natureza,
olhastes sem horror minha baixeza
e fizestes sentar-me ao vosso lado.

Então, de ingrata obrigação chamado
deixei à força a companhia e a mesa;
e inda cheio de ideias de grandeza,
vim dar por tema um verbo conjugado.

Não sei com dous opostos conformar-me;
sofrem-me os grandes, sou taful e moço,
não sei a «senhor mestre» costumar-me.

Tais extremos, Senhor, unir não posso;
de dous génios não sou. Mandai fechar-me
ou a minha aula, ou o palácio vosso."

Nicolau Tolentino, poeta português do século XVIII


A principal característica do Interior é que continua a ser Interior mesmo quando fica de fora. De fora do discurso político; de fora do desenvolvimento sócio-económico; de fora de mão, quando se empreende caminho rumo ao futuro.
Tanto quanto me apercebi, dos discursos presidencial como do do comissário da celebração do 10 de Junho, o primeiro recado de ambos foi dirigido aos políticos e, se Barreto recomendou que estes devem falar mais e desavirem-se menos, da parte do nosso presidente da República reiterou a recomendação repetindo que devem entender-se melhor. Anibal Cavaco Silva, não se ficou porém pelo alvitre e indicou mesmo em que direção esse entendimento deveria ser feito: no sentido de encontrar soluções para sairmos da crise e colmatar as assimetrias interior versus litoral.
A preocupação é serôdia. Não é de agora que o despovoamento, um dos maiores passos para a desertificação, se aliado a ele vierem as alterações climáticas, está na ordem do dia, e nem assim se evitou a sangria da população ativa do eixo norte-sul fronteiriço a Espanha, além do que não basta eleger dois ou três eventos nacionais, dois ou três produtos de qualidade desta ou daquela parcela do território, para que daí resultem melhorias substanciais na qualidade de vida das pessoas e desenvolvimento sustentado nessas regiões. Descobrir o interior sem ter apostas contundentes e continuadas em estratégias ou planos/programas de marketing territorial seriamente gizados e executáveis, é o mesmo que ir ao contrário do já anteriormente afirmado por Séneca e citado pelo nosso presidente um dia antes, a propósito e em homenagem a um douto de Castelo Branco, onde se sublinha o facto de quem não sabe para onde ruma nenhum vento lhe é favorável.
Estranho, porém, que há, se feitas as contas em baixa, coisa de vinte/vinte e cinco anos a constatação tenha servido periodicamente de assunto e retórica de quase todos os quadrantes políticos com assento parlamentar, sobretudo durante o tempo em que havia dinheiro para "engordar" o litoral, quer em população como em infra-estruturas, no tecido empresarial como nas linhas de produção de mão-de-obra especializada a que comummente chamamos universidades, e que apenas agora, que estamos em crise económica-financeira, política e ética, é que o interior esteja a ser convocado para contribuir com o seu esforço e sacrifício para a estabilização nacional... Porque será? É certo que estamos a 200 quilómetros do litoral, mais propriamente de Lisboa, o que é comum a grande parte do país, cujos caminhos vão sempre dar ao mesmo sítio – a capital. Agora vá uma empresa sediar-se em Santa Eulália, que para pôr os seus produtos à venda na Beirã, tem maiores custos de transporte do que se forem pròs Restauradores!
O interior está servido de estruturas rodoviárias, é óbvio. Mas para qualquer empresa deste interior tão propalado fazer a distribuição dos seus produtos precisa de uma frota transportadora que o encarece e o torna não-competitivo com os congéneres do mercado. Que adianta falar no interior português no dia de todos nós se amanhã continuarmos com as mesmas dificuldades que já tínhamos há vinte e cinco anos? O meu concelho já teve 28 mil habitantes e agora tem 23. O meu distrito já elegeu três deputados para a Assembleia da República e agora só dois. O meu Alentejo já foi quase uma região, até teve uma CCRA, e muitas das freguesias têm os dias contados, alguns concelhos serão fundidos e a reforma administrativa ou territorial irá dar-lhe novos contornos e limites conforme prescrição da Troika. Apenas uma consolação nos resta: é que venha o que vier, diga-se o que se disser, havemos de continuar a ser sempre o interior de que se fala.
E falarem da gente é uma grande coisa... Uma sorte!

6.08.2011

Regresso ao Passado Imaturo

Voto e votarei, que ao rancho e ao pré, nunca faltarei


A democracia participativa e da cidadania pode ou não assentar na democracia directa embora, disso não restam quaisquer dúvidas, ambas reconheçam que a representatividade seja um princípio para a democracidade sistemática e plena, um caminho para algo superior, e não um fim político em si mesmo. A abstenção é o antónimo inequívoco dela. A incompetência o seu descendente directo. O caos, a bancarrota, a destruição da sociedade e suas instituições fundamentais, a desumanização e as tiranias, as ditaduras e a destruição do Estado de Direito, a sua magna realização.
Enquanto a matreirice e a esperteza saloia forem os valores premiados pela política portuguesa, dificilmente este país – tão desprezado por quem dele subsiste... – encontrará um rumo positivo e eficaz ou eficiente com destino ao desenvolvimento e sustentabilidade. E, independentemente das facilidades de acesso, crescente valorização na formação e desempenho, êxito na conclusão do ensino superior, o que verificamos indesmentivelmente é que os conhecimentos administrados se perdem pelo ralo da mediocridade, mal de lá saiam aqueles que tiveram o privilégio de o frequentar, quase nada é retido e muito menos praticado, nomeadamente no quanto à constitucionalidade, civismo, cidadania, pensar, agir e querer objectivos, uma vez que continuam a insurgir-se e reivindicar precisamente aquilo que queriam os mais ignaros do pré-25 A: Rancho e Pré garantidos, de forma vitalícia, se possível for.
Ora isto é sintomático de como funcionam as grandes mentalidades por ele formadas e dele saídas... E de onde meteram os pilares fundamentais da democracia: a defesa das liberdades, a solidariedade, a justiça, a responsabilidade, a consciência partilhada, a emancipação, a autonomia, a inovação e o conhecimento, a transparência e a honestidade, a igualdade e a cidadania activa. No lixo, e sem qualquer preocupação de reciclagem.
E de como usam as máquinas topo de gama das TIC que os papás e vovós lhes compraram, no seu acérrimo combate ao minúsculo e democrata Magalhães, a que são invariavelmente contra, por puro despeito, já que no seu tempo de ensino básico não lhe tiveram acesso: só para jogar na Quintinha do Facebook, posto que na grande maioria nem o Word utilizam corretamente ou sabem para que serve um motor de busca, dos mais divulgados e conhecidos, como o Google.
Todavia, são os primeiros a saber como os demais devem escrever e o que escrever, como devem publicá-lo – em suporte papel, pois claro!, que um escritor sem livros "físicos" é inconcebível –, e que conteúdos abarcar ou desenvolver, que personagens e ambientes retratar, as siglas a promover e a semiótica contemplada. Mas não só: outorgam-se ainda com direito a definir depreciativamente quem escolhe ler o que escrevo como "à rasca" e de gosto duvidoso.
Nem sentiram qualquer pejo em votar em partidos que já tinham anunciado a extinção do Ministério da Cultura, depois do anterior governo já ter extinguido a "Secretaria de Estado do Livro, da Leitura e das Bibliotecas"... E o que é que isso quer dizer? Como é que alguém que quer acabar com a cultura se autoriza a defini-la? Como é que alguém se considera com direito a exigir que não vá o tocador além do rabecão? Por falta de cultura, e de cultura democrática, que é assim que se comporta quem está tal e qual como caiu do sobreiro: sente prazer em dar à ignorância um estatuto exemplar... Depois queixa-se que a vida lhe corre mal.
Ah, canudo!

6.07.2011

Do cientismo popular...


Só Vendo!

Em Portugal ninguém dá nada, nem troca, nem avalia, nem compara – só vende. Vende a alma, vende a esperança, vende o voto, vende o conhecimento, vende a amizade, vende a companhia, vende o prazer, a noite e o dia – e até a agonia. Haja o que houver, que ninguém pergunte por ou para quê: está à venda.
Pese embora haja quem ainda insista em trautear, a propósito de tudo e de nada, o "ó tempo volta pra trás", as eleições nunca serviram, não servem, nem jamais servirão para enaltecer os passados, ideias ou tempos que sejam, mas sim para escolher os futuros; e muito menos serão qualquer boletim de totobola em que marcamos com X a equipa que achamos que irá ganhar, ou aquela que melhor castigará os adversários, sobretudo aquele que é o alvo favorito dos nossos desafetos, e a que somos afincadamente contra, pouco nos importando o porquê disso ou sequer tenhamos a certeza de ser exatamente por isso; antes sim, para eleger o projecto que melhor reaja às circunstância sócio-económicas e políticas do nosso tempo na exata medida que a sustentabilidade impõe, a qualidade de vida subscreve e a inteligência aconselha.
Mas não se pense que elas, as eleições, possam por si só, tendo os seus resultados como motor e energia, como que por decreto, que estes sejam suficientes para transformar o mau em bom, o medíocre em suficiente e o péssimo em excelente, porque isso apenas será possível se a propalada mudança também tiver incluída a alteração dos modos de agir e operar anteriormente estipulados como convenientes, a perspicácia dos diagnósticos e a forma de procurar as soluções que, por estarmos numa democracia, têm sempre e irremediavelmente em si a participação ativa do foco problemático.
Há quem estranhe o sermão, aí?
Pois bem: quem mete o coração nos negócios, raramente consegue ganhar mais do que o suficiente para sobreviver. Os portugueses nunca votam a favor de projecto nenhum principalmente porque para votar a favor de algo é necessário compreendê-lo e, ou não lho souberam explicar ou eles não foram capazes de entender, o que é certo, é que votar contra, por ódio que seja, os liberta de remorsos e de reconhecer a sua iletracia política. Logo, só saberão no que votaram quando depois lhe constatarem a prática. Então, aqui d'El Rei, mánifes prà'qui, processos prà'li e o diabo a sete, e somente porque perceberam que ao efeito em carambola da Troika não têm como escapar, e que os sacrifícios anunciados em campanha, afinal, não são como o totobola, que só sai aos outros (e desconhecidos). Desta vez é com eles, com todos nós, e ninguém tem estofo nem preparação para os fazer – aos sacrifícios – sem ganhar nada em troca. E não adianta prometerem-lhes um futuro melhor, mais democracia, mais qualidade de vida, maiores rendimentos, que não acreditam e – mesmo assim – preferem continuar a votar no só vendo!
O que, contado, ninguém acredita... (!)

6.03.2011

Apontamentos sem resposta...


Os Novos Considerandos de Uma Lei Que Nos Desconsidera Consideravelmente



Este tempo não é, garantidamente, o mesmo tempo em que os ditos revolucionários de então convulsionaram o mundo e romperam as amarras do seu tempo: é outro, e os que agora lutam são igualmente outros, batem-se por outros valores e conquistas, bem como assumem as suas responsabilidades diferentemente porquanto a motivação e objetivos almejados têm muito pouco dos da década de setenta do século passado.
Há também quem suponha que as amarras de que se libertou estão definitivamente submersas sob os plafons (virtuais) da derrota, nomeadamente nos decretados pela Troika(:carestia, perda de poder de compra e sobrecarga nas contribuições, subida das taxas de juro, inflação e desemprego agravados, redução do Estado e consequente Reforma Administrativa), o que é outra descarada mentira, bem-intencionada certamente, todavia não o estão, mas sim alteradas noutras estirpes, quais bactérias e vírus sociais que ganharam novos formatos e requintadas modalidades, subtilezas de género e influências de meio que as encapotam e a dissimulam sob a capa dos politicamente corretos como das coisas que é feio ou fica mal abordar. Aliás, os nossos pepinos foram sempre venenosos, porque a democracia em Portugal nunca foi democrática (qual pepino de digestão difícil), a não ser para a algazarra da propaganda ou como reivindicação para atingir o poder e depois fazerem o que lhes desse na gana, tipo Maio dos pequeninos num 1926 de se lhe tirar o chapéu, a capa e a carteira. Ainda me lembro do quanto me diziam os mais velhos sobre as saladas do dito cujo, que afirmavam só ser bom depois de lavado em sete águas e atirado de seguida para o caldeiro dos porcos…
A maior parte dos jovens estão inegavelmente encalacrados pela educação que receberam, pela formação que lhes foi impingida, pelas expectativas que as gerações dos progenitores neles depositou e pelas condições político-económicas que lhes obstaculiza o futuro, e lhes indica a acomodação ao seio familiar como opção segura de continuar a sobreviver. Os mais velhos sabem isso, mas regozijam-se com a constatação vingando-se pela muita idade que os coloca em desvantagem competitiva, pelo abandono votado e pelo pouco caso que lhe fazem acerca dos reparos e ordens.
Ora, considerando que a maioria dos que estão mal não querem fazer absolutamente nada para melhorar a sua condição e os que estão bem se preparam para ficar ainda consideravelmente melhor, à custa dos votos em branco e nulos dos à rasca, não nos resta alternativa senão concluir que neste país só a mentira vinga porque ninguém quer ver a verdade.
E qual é ela?

5.16.2011

As Eleições continuam a fazer-se à moda antiga...

Vergonhosamente lamentável!


A Lei (Eleitoral) 14/79, de 16 de Maio, reflete a mentalidade e sentido prático já obsoletos na época da sua redação, em que a divulgação da informação político-administrativa se fazia nos adros, rossios, tabernas e mercearias, através de editais ou recados estampados nas portas. Vai daí, algumas juntas de freguesia para lixar a concorrência e pôr os partidos menores em notória desvantagem competitiva, resolveram segui-la à letra, excluindo-os das reuniões de delegados em que seriam apresentados os nomes das pessoas propostas para as mesas de voto, que é a mais elementar das participações democráticas remuneradas. Entre elas figura, lamentável e vergonhosamente, a Junta de Freguesia em que estou recenseado – a Junta de Freguesia da Sé, em Portalegre.
Devo, porém, salientar que esta apenas foi mais uma das muitas deste algures do Alentejo profundo que assim procederam, uma vez que só as Juntas de Freguesia de S. Lourenço, Alagoa, Reguengo e S. Julião, se dignaram, por carta ou telefone, a comunicar ao mandatário do partido pelo qual concorro, como independente, a deputado pelo círculo de Portalegre nestas eleições legislativas, a data e horários da realização das ditas reuniões. Entre o número infinito delas que o distrito de Portalegre tem, e não obstante várias terem mais do que duas assembleias de voto, somente quatro adequaram os procedimentos à democracia "tendente" atual, continuando as demais a manter aceso o modus operandi do provincianismo obscurantista dos salazarismos gonçalvistas, conforme se pautem pelo seguimento dos modelos do antes ou do após 25 de Abril.
A classe política andou ocupada com outras coisas mais importantes, sobretudo os deputados das maiorias mais maiorzinhas e das maiorias mais pequeninihas com assento na Assembleia da República, preferindo divertir-se e conviver uns com os outros no messenger do que apresentar projectos e propostas de modernização da estrutura político-administrativa da sociedade portuguesa, atirar ao boneco com suas línguas de trapo do que inquirir o governo e os ministérios acerca dos comos e porquês da implementação dos programas e projectos anteriormente aprovados, invectivar o Magalhães do que saber em que pés andavam o Simplex e o Plano Tecnológico, a navegar nas águas sórdidas da baixeza bairrista dos poderes central e local do que a efectuar autênticas avaliações sobre a eficácia de algumas políticas e a eficiência dos agentes envolvidos na sua prossecução. E porquê? Porque tinham ordenado chorudo e garantido, mai-las suas ajudas de custo, deslocações, banquetes comemorativos e o diabo a quatro, pagos pelos contribuintes e consumidores, munícipes e cidadãos, somente considerados gente e ouvidos nas campanhas eleitorais, que depois de terem apertado os cintos anos e anos, se viram agora obrigados a empenhá-lo ao FEIF e FMI para andar de calças na mão durante mais uma década. Porque aprenderam que a impunidade é um privilégio adquirido desde as nomeações do Estado Novo Corporativista e da ANP em que se não deve mexer se se quer manter o lugar marcado na Assembleia da República. Porque da democracia só lhes servem alguns caminhos e atalhos, não os destinos e muito menos os trabalhos.
Isto nem merecia reparo, pois todos sabemos que é assim desde sempre, como se se tivessem instituído as exceções à democracia como únicas regras que ainda vamos cumprindo (habilidosamente). Todavia a Junta de Freguesia exagerou na dose, e até fez melhor, para que não nos esqueçamos a quem pertencia o governo que nos afundou pràs bolsas do FMI e FEIF. Ainda mal a lista com as força políticos a escrutínio tinha chegado do Governo Civil, já a reuniãozinha estava marcada e feita, com os “clientes” do costume nos seus lugares e acomodados nas mesinhas de voto. Pelo que nos quedamos e batemos a chapelada ao efeito do esclarecimento, ficando definitivamente certos daquilo que suspeitávamos há muito, e que é o fato de nem só nas sondagens haverem Zandigas, polvos adivinhadores e demais acéfalos do prognóstico e do palpite, porquanto a política nacional é também o seu resultado e edição.
Ou seja, nem parece que existimos num país europeu, onde há atualmente tantos licenciados (desempregados), quantos eram então os analfabetos. Se foi para fazer outra trambiquice deste quilate, porque andaram a proclamar o 25 de Abril? Pois não restam agora dúvidas, que tanto agitaram as bandeirinhas e sacudiram os megafones, que engoliram o trapo!

5.04.2011

A Lei dos Profetas



Pôr o Peixe a Render...

“Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti”
– Regra de Ouro (Universal) – Diálogos de Confúcio, XV, 23

Quando temos de fazer uma escolha e a preterimos ou adiamos, estamos necessariamente já a escolher algo que não é lana-caprina a respeito do conteúdo profundo dela, mas antes a operar na esfera da sua contabilidade e na medida exata dos preconceitos e resistências envolvidas nessa decisão que, em si mesma, é causa e consequência dessa escolha. Os meus avós diziam que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, e contavam uma história com moral acerca dessa atitude, com a devida ilustração retirada à vida real, quiçá temendo que um dia eu viesse a cair na mesma patetice. Fizeram bem, foi uma escolha acertada, pois se assim não me tivessem avisado, muito dificilmente lhe teria dado ouvidos, e talvez agora nem já existisse para cronicar sobre esta ou possíveis, como restantes, momentos e versões da História. Sobretudo porque parece que há políticos que assumem e tomam posições radicais – sim, porque abater um governo e dissolver a Assembleia da República não passa por moderado em lado nenhum! – mas depois se esquecem do que fizeram e vêm apodar as pessoas que defendem a sustentabilidade económica, social e ambiental de extremistas e perigosos radicais… Ora, cozam-se! – como dizia o Barnabiças do Altino do Tojal.
Até há bem pouco tempo vivíamos, e ainda vivemos, numa sociedade em que o conhecimento não se conservava, embalava e comercializava melhor do que o peixe – conforme a propósito salientou A. N. Whitehead, no seu The Aims of Education –, isto é, em papel, de jornal ou vegetal, cuchê ou bíblia, não importa, porquanto se tratava de reatualizar e reavivar, rejuvenescer sob empacotamento – marketing quase tudo e uma mancha (gráfica) de imaculada sujidade –, um tipo de sabedoria e beleza que, sem "a magia" da educação e do ensino, ficariam irremediavelmente perdidas num passado mais ou menos remoto.
O peixinho, na gíria dos ganzados ervistas e haxixinos diz-se "o peixe", embora não haja ninguém que duvide que um é tão-só e unicamente a metáfora para o outro, qual eufemismo para amaneirar a toxidade do dito, era ingerido, assimilado, por aqueles que lhe podiam chegar, tal como ao ensino superior na modernidade laica e talibanizada se apresenta, e depois de servido pelas mais inusitadas pedagogias, era mastigado à pressa, sob a frugalidade de um Bolonha mal entendido e pior gizado, engolido por compêndio ou sebenta, e vomitado em relatórios ou exames, após o que seria processado burocraticamente para, finalmente, sair em canudos mais ou menos espessos ou grossos, que serviam para tudo, desde a fertilização dos solos inóspitos e bárbaros das terras fracas do além-mar, até à fabricação de telescópios de ir longe na carreira ou ver Braga à mão de colher.
Porém, aconteceu que uma madrugada qualquer, muito diferente da outra em mudanças e vontades, surgiu a crise montada num cavalo branco da coudelaria de São Bento, a escoucear no empedrado da vida, paralelo aqui, para Lelo ali, entre as necessidades e os prazeres, os carmos e as trindades, e eis que na desventura arrastou consigo os eleitores que gostam de jogar em tudo que meta um Xis, assinatura ou totobola, para elegerem novamente para os mesmíssimos lugares e cargos aqueles que exclusivamente contribuíram para a sua dissolução, coisa estranha e absurda, uma vez que não há tino a bater certo que acredite serem os mesmos que geraram a atual crise política quem está melhor preparado para a resolver.
Ora é precisamente a isto que me refiro quando digo que andam a fazer render o peixe quando se aplica um diploma para enganar os demais da pátria, seja ela do Algarve ao Minho ou do Minho até Timor, ainda que língua como almejava Pessoa, atribuindo-lhes o estatuto de pategos e não de pessoas, que o foram elas e eles, e há muito que lhe tinham feito já o manguito do fiado, no caviar do queres o voto, TOMA, de lamber os bêços depois de uma boa feijoada regadinha a tinto de lei, que isso de decidir sem a barriga bem forrada por dentro, ainda que seja para escolher os que lhe hão de vir a fazer o ninho detrás da orelha, não é coisa que se faça de ânus leve. É preciso ter canudo.
Então não atenteiem bem, e depois queixem-se, que nem as canábis vos hão de valer!

4.16.2011

Graças a Deus

Constitucionalidades… – e quem as não quer!

Houve um “célebre” constitucionalista português que se pronunciou recentemente acerca daquilo que outros governantes e parlamentares de outros países da EU pensam sobre os nossos governantes e parlamentares, dando o principal destaque ao fato de estes não se entenderem na Assembleia da República, bem como à circunstância de que o governo como o maior partido da oposição tudo terem feito de quanto estava ao seu alcance para não convergirem no quer que seja, sobretudo no quanto à aprovação do PEC 4 dizia respeito, numa tentativa (já serôdia) de amenizar o impacto da entrada do FEIF/FMI na nossa economia e qualidade de vida.
Estava no seu direito, porquanto o melindre nacionalista de versão estalinista como hitleriano ainda funcionam no equívoco da defesa patriótica, porém não podemos deixar de notar que os políticos desses países não os atiraram para uma crise económica prenunciada pelo despesismo, nem criaram depois uma crise política provocando eleições antecipadas desnecessárias e de suspeita ou maquiavélica índole, com vista a engrossar as suas expressões parlamentares pelo apuramento de maiorias forjadas no exterior, explorando o cansaço do eleitorado e o descrédito da população em geral na classe política, que leva os portugueses a considerar todos iguais, tenham ou não projetos diferentes e alternativos, na medida em que estão habituados à receita do prometem-prometem-mas-assim-que-lá-se-apanham-fazem-como-os-que já-lá-estavam.
Pois bem: não me lembro do nome desse constitucionalista, e a contar pelo afirmado não deve ser levado a sério por ninguém que se paute pela honestidade intelectual, considerando que se o diagnóstico estava certo que importância tem que a receita venha de fora ou não, uma vez que é lá fora que se vai buscar o dinheiro para pagar os juros da dívida que esses políticos que não se entendem criaram, desbaratam e aumentaram? Por melhor que uma pessoa esteja, vir a terreiro defender o errado apenas porque isso lhe interessa partidariamente, é uma coisa feia e desonesta senhor constitucionalista! Não o sabia…? Ah, tem razão: você ainda é do tempo em que formavam as pessoas para saber-fazer e saber aprender/ensinar, mas se esqueceram de lhe ensinar a aprender a ser e aprender a estar, deixando-as tal e qual como antes de terem os canudos, que isso, sim, que é ser civilizado e estar entre humanos, vai lá vai… Temos pena. Só que desta vez, não são os estrangeiros que estão errados: quem não foi responsável, consciente e precavido fomos nós – e tanto é de um desleixe irreparável.
Ora, se há alguma coisa que temos a fazer, não é condená-los ou recriminá-los pelos recados e reparos que nos fizeram. É agradecer-lhes (os eufemismos) por terem calado quanto todos nós sabemos acerca dos nossos políticos, desde o traficar de influências no ministério da cunha até ao usufruir de benefícios fiscais e ajudas que mais ninguém tem. E tanto, além de desleixados, dava-nos direito a epítetos muito mais ofensivos, corrosivos e de trambiqueira índole, que nem vale a pena aqui referir, aind’assim não nos caia em cima o copy past.

4.10.2011

Com o perdão de V. Exas.

Os Imaculados do Sistema…

Os Loucos

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala só.

O idiota que se baba,
Explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
O que nos governa.

O depressivo que salva
O mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(O mais intratável) que não desiste
E escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
Que ri, manso, pela rua, de felicidade.

In A Ignorância da Morte, de António Osório

“A mensagem é o médium.”

Mac Luhan

“Por vezes, ouvimos falar de um processo por danos contra o médico incompetente que deformou um membro partido em vez de o tratar. Mas o que dizer das centenas de milhares de espíritos deformados para sempre pelos inaptos insignificantes que pretendiam formá-los!”

Charles Dickens (em 1848)


Conforme tem vindo a lume ultimamente, Portugal está prestes a virar presunto (1) histórico, isto é, país que não obstante os seus oito séculos de História não é capaz de resolver e pagar as contas da sua sobrevivência, o que o obriga a pedir emprestado para conseguir manter-se a funcionar – nos mínimos. E a coisa não é de agora, que já há muito que se sabia. A mim, e a este propósito, aquando da “terminal” rodada de Crónicas (In)Divisas, no jornal Fonte Nova – e que podem ser constatadas aqui no http://escribalistas.blogspot.com – fiz das tripas coração e – de borla! – alertei para exatamente essa possibilidade, nomeadamente avisando que ou tomávamos medidas restritivas ao esbanjamento geral voluntariamente ou, então, seríamos obrigados a tomá-las no futuro, pela medida do tem-que-ser, ainda me devem declaradas desculpas todos quantos me invetivaram de iluminado e profeta, bem como os que alardearam serem elas frutos de uma imaginação catastrofista.
Mais tarde, aceitei candidatar-me às legislativas pelo POUS 4 porque vi a oportunidade ótima para realçar o significado e urgência da sustentabilidade, da biodiversidade e da cidadania participativa no aprofundar da democracia e cimentar aquilo que pode chamar-se um sentimento político consciente e responsável, com vista estabelecer um projeto – ou desígnio – nacional suficientemente reparador das irregularidades passadas. Fi-lo nas melhores das intenções, mas aqueles que presentemente mais sentem na pele os efeitos desta crise política, social e económica, propalaram que o que eu queria era mama. Actualmente, poderia dizer quando se lamentam «bem-feita, cada um tem aquilo que criou», porém não o digo pois há muita gente que nem votou e também vai pagar pela medida grossa a entrada do Fundo Europeu e FMI, e seu respectivo pacote de austeridadezinhas para os que menos podem – sim, porque para aqueles que podem as restrições serão apenas uma questão (de aumento) de preço…
No plano das autarquias, alertei para o desregramento e desperdício energético que então sucedia. Pois bem, agora estão totalmente às escuras alguns dos jardins que brilhavam e resplandeciam como se fossem carrosséis de feira! Falei nas questões das acessibilidades e transportes para todos, na necessidade de evitarmos – por uma questão de emissões de CO2 e alterações climáticas – a viatura particular e atendermos mais a meios públicos e coletivos. Pois toma: agora a gasolina subiu, os rendimentos diminuíram e a população envelheceu, e está tudo por fazer e com muitas contas por pagar, incluindo os juros do capital a que recorremos para fazer porcarias que têm que ser “abatidas” por inúteis e prejudiciais. E em que ficamos? As mesmas pessoas que criaram o presente estado de coisas vêm-nos propor que lhe renovemos o voto e a confiança para solucionar os problemas… E sabem-no? Se sim, como nos querem fazer crer, então porque deixaram chegar isto onde chegou?
Repeti incondicionalmente como era imprescindível que se atendessem as diretivas para o ensino e educação portugueses enunciadas no Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação: Educação – um Tesouro a descobrir, vulgarmente conhecido pelo Relatório Jacques Delors, que faz incidir a aprendizagem sobre os quatro pilares – ou saberes fundamentais – do saber-fazer, saber-aprender/ensinar, saber-ser e saber-estar. Pois bem, continuaram a transmitir a mesma lateirice anterior do na terra do bom viver faz-se o que se vê fazer, e agora andam a contas com o mais elevado número de desordens e crimes, assaltos e atividades agressivas das franjas indesejáveis e psico e sociopatias de que há memória em Portugal.
Insisti na criação e fomento de Comunidades de Leitores e/ou Grupos de Leitura, e desde que me conheço já frequentei diversas que acabaram por falta de quórum e meios financeiros. Porque a literacia não é saber soletrar mas também interpretar, analisar e valorizar um texto. Pois bem: há pessoas com cursos superiores que não conseguem entender um texto sem bonecos com mais 1000 carateres. Acham muito. E que se perdem a partir da terceira linha.
Contudo, os corporativistas e mentores da ignorância continuam a jurar que o culpado dos seus problemas sou eu, por ser radical, pobre, honesto e transparente, e porque em vez de enaltecer e propagandear o pormenorzito que têm de bom, prefiro apontar o incalculável volume de asneiras e montanha desperdícios que caraterizou os seus PEC’s, PRODEP’s, PDM’s, PIDAC’s, OE’s, etc.,etc. e QREN’s, por exemplo. As suas negociatas entre sectores públicos e privados, a que chamam parcerias, quando não o são, mas sim favorecimentos financeiros avulso branqueados por PIN’s e quejandos. Que os problemas atuais só são problemas porque são vistos e contados por alguém, pois caso contrário, se ninguém os denunciasse até seriam virtudes dos nossos imaculados e bem-formados dominadores da República. Ora, imaculem-se!


(1) Na gíria policial/detectivesca “literária” presunto significava cadáver.

4.02.2011

Genialidades


As Receitas e o Estilo



"E, no entanto, já Horácio se referia a tal trabalho através da alegoria da abelha que recolhe o néctar de todas as flores. Esta exegese plural irá ao encontro de um princípio que se designa por multiplex imitatio, ao qual hão-de ser favoráveis os movimentos humanistas que tão receptivos foram aos clássicos; mas acaba por ganhar outras implicações quando se admite que na referencialidade literária temos que considerar o envolvimento cultural da obra. É a escrita própria do seu tempo, os compromissos retóricos, a estilização paródica, as citações, a recorrência das figuras, enfim todo um conjunto de referências ao corpus literário em que tal obra se situa. Falaríamos de intertextualidade. E a intertextualidade é também memória. Há reminiscências ou vestígios diversos que se actualizam: e o sentido de uma obra resultará desses múltiplos e emergentes sentidos."

– In Fernando Guimarães, A Obra de Arte e o Seu Mundo (pp 45,46)


"Tal como a abelha pousa de flor em flor, lhe retira o néctar, o pólen e a seiva, para depois a abandonar sem lhe ter provocado qualquer dano, assim o sábio passeia pela aldeia."

– Provérbio Popular Chinês (PPC)


Há quem insista, pessoas bem formadas, a tal ponto que chegam a ser formadores de (de)formadores, que as estórias apenas são válidas, quiçá preciosas, pela sua inutilidade didáctica e pedagógica, moral e socialmente, ética e esteticamente. Não porque à semelhança do sábio do PPC vão recolhendo os seus autores entre as gentes remotas lições de vida, costumes e atitudes, que depois lhe devolvem em obras de arte por palavras compostas, mas sim porque pensam que o grau zero de qualquer coisa é a máxima (perfeição) metafórica da sua carreira, do seu carácter, do seu conhecimento e do seu ideal. Fazem na tela, como na vida, um borrão de tinta amarela, sobre a qual colocam de seguida quatro pintelhos, a que chamam adivinha do qual é a coisa qual é ela, e não se evitam, nem hesitam, em propalar que essa miscelânea é o suprassumo do bom gosto e do bom senso, sabendo todos nós, quantos calcorreámos os campos à procura de espargos ou tortulhos, que a isso que eles apelidam de arte, demos muitas vezes pontapés, por não passarem de bufas-de-lobo *.


Ora, esta acuidade intelectual é o néctar de que se alimentam as almas do pão sem sal, os apologistas do quando não percebo marro, ou do não me comprometas que o meu narcisismo já me dá trabalho de sobra, com que tentam impingir a sua falta de saber estar e saber ser, justificando-a pelo esforço que despenderam quando tentaram aprender a fazer e aprender a aprender que lhes garantiu a cátedra. Carência essa, aliás, que foi gerada precisamente pelo não consumo dessas estórias que tanto condenam, o que facilitou a formação de Quasimodos em vez de pessoas socialmente desejáveis.


A literatura, os contos, as pequenas narrativas, não apareceram por acaso. Foram a escola da noite quando as crianças eram uma mão-de-obra imprescindível às famílias, como às comunidades, que se sentavam ao redor de quem as contava junto ao fogo, se era Inverno, ou ao Luar se pela estação quente. Fizeram com que a humanidade se tornasse mais humana, expedita e funcional. Ensinaram-lhe o valor do outro como o reconhecimento de si. Povoaram-lhe o imaginário, como lhe edificaram os sonhos e utopias. Trouxeram-lhe a vida para além da realidade. Transportaram para esta coisas que eram da fantasia e do espírito, e criaram ideias e formas essenciais com elementos da realidade que depois elevaram à categoria de "coisas" espirituais, como as noções de ética e de moral, de mensagem e conteúdo, de significado e referente.


Portanto, deixem de impingir o vosso gosto e prazer em macaquear a vacuidade insana, como se ela fosse a bandeira da sabedoria, uma vez que ela não passa de um farrapo de mediocridade parasitária intelectualóide. Sejam homens e mulheres e deixem as crianças aprender a sê-lo também. Que mal pode haver numa estória que tem como fundo a própria História senão dá-la a conhecer, propô-la nas discussões e na ordem do dia? É preferível contar e ouvir estórias, edificando sociedades e indivíduos, do que gerar filhos da puta enquanto clones da má-formação dos formadores de (de)formadores. Deixem zunir as abelhas e metam os insecticidas no canudo que os habilitou a serem inúteis – mas bem pagos por isso. Pagos por uma sociedade que compra assim a sua própria destruição e insustentabilidade.


E, convenhamos, é engraçado haver uma comunidade que assalaria indivíduos que ensinem "doutores" para destruí-la... Só mesmo cá!

Ah, calino: é de génio!

*Bufa, do italiano buffo (jocoso, cómico), foi o nome dado às operas burlescas, cujo género musical foi criado por S. Landi, com La Morte d'Orfeo, e seguidamente muito cultivado pelo teatro napolitano, tendo alcançado a sua maior perfeição nas obras de Pergolesi e Alexandre Scarlatti.

3.28.2011

Muito Pode Quem Não cala


O Poder da Fala

"É preciso um espírito muito especial para analisar o que é óbvio."

– A. N. Whitehead

Entre o provérbio e o verbo pró (ou contra), não há apenas o conceito de espaço-quando, nem sequer a manifesta intenção de acondicionar o saber de experiência feito numa embalagem linguística passível de ser acatada pelo maior número possível de utilizadores – ou falantes –, mas antes a noção ética que reflecte na íntegra o inconsciente colectivo que o gerou, nas mais profundas e arreigadas inspirações da criação engajada numa civilização, demonstrando assim a qualidade semântica de uma tese que, por si só, não obstante os registos "literários" em que eclodiu, detonou também a antítese que lhe corresponde e a síntese que é o produto de ambas. Logo, ao analisar os provérbios de um povo, de uma língua, de uma cultura, de uma região, de uma espiritualidade, nós não obtemos somente o espelho vivo desse povo, dessa cultura, dessa mentalidade, dessa língua, desse território ou desse universo de sentidos e conteúdos, como igualmente a sua capacidade de gerar modelos de pensamento, lições de vida e constructos mentais úteis no futuro, garantindo consequentemente a sustentabilidade da civilização que comporta.

Quem ateia fogo à noite, de manhã respira-lhe as cinzas. E ninguém está fora dos provérbios por mais cursos que tenha e não obstante as áreas curriculares que estes abranjam. Podem tergiversar, argumentar em contrário quanto lhes aprouver, e ainda que esporadicamente a mentira dita, possa ser tão bem arquitectada, em estilo nobre, cimentado, lógico e convincente, que por assim mesmo a consideremos merecer ser verdade, não há de ser por isso que em tal se tornará. Pois não é pelo facto de a sabedoria ser popular que deixa de ser sabedoria, nem um qualquer provérbio que nasceu das práticas e observações milenares por obsoleto fique, e isto aconteça simplesmente porque a nossa modernidade e falta de experiência o não reconhece, nem valor lhe atribua.

Os homens e as mulheres sabem-no, independentemente de lhe ter acontecido, ou não. Principalmente as mulheres, a quem as consequências dos seus actos, lhe ficam vincadas no corpo como na alma, apesar de quantos avisos e contracepções a que tenham recorrido. Ou a Lua as omita da vigilância natural com que lhes ferve as hormonas ao lume brando do mistério na congeminação da vida. Bem como os adultos de todos os continentes que devem aquilo que verdadeiramente são às crianças que foram e educação que receberam, cuja qualidade enquanto seres humanos reflecte o saber fazer e o saber aprender que os habilitou para as suas profissões, é inegável, ou o saber ser e saber estar que lhes providenciou o estatuto social que actualmente estão a usufruir – e desempenhar. E muito mais que uma sentença, uma determinação do destino, uma conclusão inevitável, eis que essa sabedoria geral se lucubra* na multidisciplinariedade (curricular ou envolvente) que lhe dirige o sentido comum, como cliché ou frase feita, é óbvio, não porque o uso a desgaste e o abuso a esvazie de acutilância crítica, porventura diminuindo-lhe a sagacidade, pertinácia e agudeza de espírito, senão porque o seu peso significativo é tão grande que passou a ser aplicada por tudo e por nada, conforme as necessidades de cada um e em resultado do seu limitado conhecimento, ou desconhecimento, já que as pessoas lhe recorrem e a aplicam em lugar de outras e outros de que não se "lembram" ao momento.

Até pode ser consequência directa das derivas polissémicas que fomenta e inspira, uma espécie de boomerang sofrido por almejar estender o seu significado (extensão) muito para além do reduto sémico em que eclodiu (intenção). Caprichou; lixou-se! Todavia, ao prestar-se como metáfora – aquela palavra ou frase que mete o seu significado fora de si, no ainda além da Taprobana da lusofonia –, enxertando a raiz com um garfo que lhe é estranho, embora não lhe seja adverso, explícita exemplarmente a sua riqueza lexical, denuncia o ensejo colonial e expansionista de uma cultura, que reside inequivocamente na tentativa de monopolizar tudo quanto se possa dizer acerca de um assunto, recorrendo-lhe. Obrigando ao reconhecimento geral de que a totalidade das coisas ditas e enunciados sobre aquilo que está em causa, somente o corroboram – e sublinham. Pelo que, imbuirá de idêntico poder ao que detém, o falante que o emprega, transportando para essa pessoa o seu poder, força que lhe advém dos resultados estatísticos, originando com que aquele que fala diga o que um sem-número de pessoas pensa. Porque esse é o mister da democracia, ou quando a vontade de todos é expressa pela boca de um – o seu líder. Em resumo, um provérbio que ecoa repetindo as mentalidades da generalidade pela fala de cada um. E quando cada qual emite o seu parecer, está a partilhar e participar simultaneamente, contribuindo com o seu voto para melhorar as decisões do seu povo ou da sua pátria. Que o mesmo é afirmar, muito pode quem não cala!

*Lucubrar: 1 – trabalhar ou estudar de noite; 2 – meditar profundamente; 3 – dedicar-se a longos trabalhos intelectuais

3.21.2011

Conto do Dia da (falta de) Poesia


Negócios Corruptos “O melhor favor é o que se faz o mais depressa possível.” Provérbio egípcio Não há justiça nenhuma neste mundo… Um soneto tão bem esgalhado, e aquela criatura só me pagou 0,50€ por ele, dinheiro esse que afinal era meu, que eu tinha investido no sector dos transportes, camionagem e obras lúdicas, em que só não conto quanto não me diverti nelas por vergonha e pudor, e ela, essa abominável carantonha da franja em onda para surfistas mal instruídos, ainda teve o descaramento de tripudiar em cima do meu desalento e infortúnio, acrescentando-lhe como juros uns míseros 0,03€ ao investimento, juros esses que nem chegam aos calcanhares daqueles que a portugalidade vai ter que pagar pela dívida a quem lha comprou. Francamente! Se isto não é martírio, o que é que vamos chamar à Páscoa? Pois. Sobretudo porque entre o culto da água e a água do (o)culto, existe uma enorme diferença que nada tem a ver com questões de liquidez – nem igual grau de pureza ou salubridade: é nela que germina a vida, sendo assim os bastidores e staff operacional da Primavera. Para nos renovarmos como povo e língua, bebê-la é apenas o primeiro passo para uma recuperação (dolorosa) prolongada mas duradoura. Portanto quando recuperei do desastre sofrido na mesa redonda do ajuste de contas, tentei manifestar o meu pesar, outorgando-me vítima magoada das suas ocultas mas destiladas suspeitas. Armei em melindrado, pus nas ventas aquele semblante de poucos amigos que acompanha as tragédias mais tenebrosas do narcisismo molestado, e disse-lhe confrangido que «foste demasiado dura comigo. Aquele sonetinho não tinha mais que catorze versos de cavalheirismo bem-intencionado, de elogio à alegria e beleza, e tu inventaste uma ameaça nele, incluindo um romper de compromissos assumidos em diversas circunstâncias» como se advogasse, não uma defesa da dignidade ofendida, mas antes um direito à inocência e ao usufruir de uma liberdade garantida – e inalienável. Só que tu eriçaste-te, reagiste de supetão com o verbo afiado reclamando que «essa coisinha dos sonetos é mais grave do que parece, meu menino. Não me venhas cá com arrevesadas de vitimização, pois não colam comigo – e já devias sabe-lo. O soneto é apenas a parte superior visível do icebergue das tuas intenções e tendências, submersas no inconsciente, contudo refletidas nas tuas atitudes e comportamentos dos últimos dias. Quando estás à rasca, frágil, a precisar de colo e com a identidade nublosa, eis que vens simpático e prestativo, com prendas e recompensas, solícito, meigo, amistoso, que é uma ternura ver-te nos modos e sensibilidade, palavras e sorrisos. Todavia, mal recuperas do abalo e o ânimo regressa, o equilíbrio recuperado, ficando capaz do prazer e da alegria, então é um regalo ver-te a cirandar de flor em flor, na galhofa, a arreganhares-te para tudo quanto veste saias, ou mesmo não as vestido, evidencia sob as calças os dotes do belo género, como se tudo em ti tivesse nascido precisamente para tal, fosse gentileza donjuanina, expedita e sedutora, oferta generosa de sexo e prazer, maravilha e sonho, realização plausível de todas as fantasias, incluindo as mais ousadas, inauditas, exóticas e recônditas. Em resumo, para te reerguer o ego e reconstruir a confiança, a autoestima e espírito de iniciativa, recorres a mim e à minha ajuda; agora, para usufruir dos prazeres que essa boa-disposição proporciona, preferes recorrer a qualquer gaja, qualquer uma, menos a mim. A mim evitas-me, até no olhar, mostras as trombas características de que toda gente te deve e ninguém paga, fazes-te caro, fino e quezilento, e isso quando não evidencias enorme enfado ou desgosto ao ver-me, mal me aproximo de ti, seja pelo que for. Para te ajudar, sirvo e cá estou; mas para foder e gozar, dispensas bem, e seria a última pessoa de que te lembrarias para o efeito. Quem não cuida e preza aquilo que tem, arrisca-se a perdê-lo, mais tarde ou mais cedo, como tu sabes muito bem. E esta é uma das poucas certezas que este mundo de incertezas tem, como constante. Ok?» Fiquei sem pinga de sangue. Onde é que ela ia buscar aquelas conclusões? Um soneto, um simples e alegre sonetinho, podia sugerir isso tudo! Shara não podia socorrer-me ali, disso tinha noção, sobretudo porque desconfiava que ela te estava a guiar ditando-te as palavras e inspirando-te nas conclusões… Enfim, estava entre a espada e a parede, e se uma tinha a lâmina afiada, a outra era feita de espinhos bicudos e inquebráveis. Para ganhar tempo fui fazer dois cafezinhos, não daqueles intensos e apaladados, antes suaves, de sabor adocicado e subtil, delicado, dois deliQatus da Delta Q, período durante o qual me lembrei do sermão que tua mãe me dera a propósito da sua escolha e variedade sublinhada, onde demorei aquela parte da eternidade que à eternidade ainda falta, e nos faz ansiar para que o tempo voe, o que é um contrassenso, considerando que quanto mais depressa ele passar mais depressa também a nossa durabilidade expirará, quando fui salvo – é exatamente esse o termo apropriado! – pela entrada em casa de teu pai, que nesse sexta-feira saíra do serviço mais cedo precisamente por ser o Dia do Pai, e reparou no meu ar macambúzio se solidarizou imediatamente comigo, prontificando-se a levar os dois cafés para ti e tua mãe, e propondo-me acompanhá-lo numa cervejola preta, fresquinha e saborosa, como nunca tinha bebido até àquele momento. Aceitei com alívio na alma. Porém desconfio que quando ele as foi buscar à cozinha, levando na ida o café de tua mãe, ela deve tê-lo alertado para a gravidade das circunstâncias, visto que voltou de lá com um sorriso de quem estava a par das novidades, dizendo depois, enquanto erguíamos as bejeckas num brinde de empáticas condolências, «meu rapaz, agora tiveste a honra de reconhecer, e padecer, que aquilo que eu digo sobre o ir com elas às compras não é mentira nenhuma. Quando me calha a mim, perco em duas ou três horas muitos anos de vida, e tenho a certeza que grande parte destes cabelos brancos foi ganha nessas idas. Por cada vez que isso sucedeu, a vida nunca mais me foi o que antes fora. Como eu te compreendo…» Tu ouviste tudo mas nem pestanejaste com a confidência. Sequer lhe respondeste, defendo-te ou defendendo-a, a tua mãe, que por retirada na despensa não ouvira o que ele dissera. Eu fixei-te à Benfica, sobretudo quando lhe chamam glorioso depois de sofrida substancial derrota, com vontade de te aplicar o típico «vês, escuta aqui a voz da razão, ou toma lá esta que é de borla», a sondar os efeitos da solidariedade numa refrega de dois contra um, que, como minha avó costumava afirmar, metem-lhe uma palha no cu. Porque fora essa a vantagem que auferiras na viatura, e logo de seguida, em casa, quando me chacinaste com as divagações sobre o género poético em formato de soneto. Jamais o esquecerei. Então, a minha surpresa aumentou descomunalmente, pela reação do teu pai, que insistiu em abraçar-me reparando «venham para cá esses ossos, companheiro. A partir de hoje sei que testemunhaste o meu martírio de mais de 32 dois anos, e que não lhe és indiferente» para, ao mesmo tempo que me jungia segredar-me «preciso de um favor teu. Que vás ao café, e digas lá ao meu pessoal que não contem comigo no petisco desta noite, pois elas as duas com a história do Dia do Pai, armaram-me a arapuca. Vais?» E eu anui, abanando a cabeça no sim-sim do costume com que as mulas comem a ração. E fui, dando por desculpa, ir meter o Euromilhões. Uma mão lava a outra, e com as duas lavamos a cara, como é apanágio do sentimento mafioso mais antigo que a Serra de Ossa, e que devia ter vindo para cá precisamente na altura em que essa montanha era uma mina romana de extração de metais. Tinha sido corrompido, não havia a mínima dúvida, e fechado negócio por uma cervejinha, à semelhança da cumplicidade tasqueira entre dasafortunados do mesmo destino, pagando o favor que ele me fizera, com o cumprimento imediato de outro favor que em troca me pedira. Era a política à portuguesa a ajeitar os laços familiares e matrimoniais… E ainda antes de irmos viver para S. Mamede, homónimo local ao que tivera a batalha que determinou a nossa origem, e foi o princípio de quase nove séculos de História. Seria isso um prenúncio, ou uma repetição das tragédias familiares que, de crise em crise, temos vindo a assistir, numa novela muito mal contada, onde as Xarazades se revezam a contá-la. À História, claro. Até quando estão com ela!

3.17.2011

Conto da Semana - Os Cêntimos Contados

Tudo Por Uns Trocos

“A ocupação de poeta
É nobre por natureza;
Mas todo o ofício tem ossos,
E os deste são a pobreza.”

Nicolau Tolentino, 1740-1811
Arrumadas as compras no porta-bagagem, apressei-me a sentar-me no lugar do morto, de copiloto na navegação em melhores horas, do pendura ou daquele que à boleia se aventura, mas que ao instante, a primeira função assentava na perfeição, dado que me sentia, à vontade e por defeito no arredondamento, dez furos abaixo de jumento em vias de virar cadáver putrefacto.
«Estás tão macambúzio, porquê… O que é que se passa?», quiseste saber mal nos instalámos no carro, enquanto tua mãe foi estacionar o carrinho das compras entre as baias para o efeito, e recuperar os 0,50€ com que eu entrara para o respetivo frete.
«Não se passa absolutamente nada.»
«Nada?!?», estranhou Shara através do teu sorriso matreiro de gozada expressão ou de circunspecta diversão.
«Pronto» consenti eu, elucidando a jovem inquisidora em que te transformaras momentaneamente. «É que ali a senhora», e apontei para tua mãe que vinha na nossa direção, «também já ganhou a mania, de me chamar de Joaquim Maria!»
«Eh, pá! Então, a coisa foi grave: mas o que é que tu fizeste desta vez??»
«Nada, já disse» uma vez que a tua teimosia é um baluarte, sobretudo quando se trata de arrancar-me respostas indizíveis sobre questões inconfessáveis, e volto agora a repeti-lo para que conste publicamente a natureza do meu martírio e os contornos de tortura pidesca que o enquadram. «Absolutamente nada», mas tu não ficaste pelos ajustes, e logo que D. Catarina se acomodou no banco traseiro, eis que a inquiriste sobre as modalidades de convívio com ela na tua ausência.
«Vá minha mãe, conte lá, que tal lhe decorreu a tarde pelo estabelecimento da sua predileção… Aqui o freguês, portou-se bem?»
«Oh, claro, claro. Aí o pendura, portou-se à altura.»
«À altura?!?», indignei-me defendendo a geração, porém à rasca verifiquei, que a maioria vigente não ligou a mínima atenção à manifestação de protesto com que as brindei.
«Sim, à altura… Das funções. Fez-me muito boa companhia, como qualquer Joaquim Maria»
«Faria», aproveitaste tu, para reforçar a rima, ainda assim não caísse ela em soneto mal escondido e com as sílabas ao léu.
Eu suei, nesse entrementes, que nem um Cristo na subida ao Calvário da Paixão e da Agonia, qual Senhor dos Passos com afrontamentos de andropausa, procurando a todo o custo outro rumo prà conversa que tinha enveredado pelo pior dos piores atalhos nas azinhagas existenciais. Até fiz ouvidos de mercador. Colei os mirantes à risca do centro da estrada e contei carros amarelos, azuis e vermelhos, todavia sem nenhum resultado na abstração, considerando que passavam em vertigem e dado me esquecer da cor de cada um no imediato à sua passagem, cruzando-se connosco nesta viagem de ida (e volta atormentada) ao hipermercado das conduções entre o labirinto das iguarias e demais substâncias nutritivas, calóricas e com 10% de desconto, consumindo-me os tutanos e a paciência, coisa que não afectou minimamente as duas, mãe e filha, que se conheciam há tanto tempo que uma nem precisava de dizer mata para a outra esfolar imediatamente e sem quaisquer contemplações.
Entretanto arquitetei um plano de recuperar a autoestima e galhardia. Não trazia grandes garantias de sucesso, porém estava à mão e, se não me facilitasse um ascendente racional sobre elas, pelo menos, oferecia uma hipótese de ganhar tempo para melhores estratégias na luta pela recompostura face à descompostura sofrida. «Ah, D. Catarina… Não se está a esquecer de nada, pois não? A moedinha do carrinho quem a investiu fui eu… Pode ficar com os juros, mas devolva-me o investimento, se faz favor. Ou será que anda a treinar para administradora do BPN?»
«Não, não esqueci. Só que esta moeda faz-me falta. E ela» apontou para a condutora, «lá em casa, dá-te os cinquenta cêntimos. E os juros!»
«Ai, pois dou. Está descansado. Temos que pôr as contas em dia…»
Mau! A minha alma encarquilhou-se de consternado temor e mau-pressentimento. Apalpei a testa e pareceu-me deveras quente, com sintomas de febre. Estaria a chocar alguma gripinha manhosa? O povo inventou essa de um mal nunca vir só, mas sendo eu povo como sou, desconfio das invenções por defeito, pois que, desde manhã até ao fim da tarde unicamente me aconteceram desgraças.
Portanto, assolapei-me. O trânsito, pelas horas que eram, demonstrava o frenesim típico do fim de um dia de trabalho, embora o tráfego fluísse com desenvoltura e sem contratempos, nem precisão de manobras perigosas ou desvios suplementares. E como a distância entre a casa de Shara e o hipermercado rondava o par de quilómetros, a viagem resumiu-se apenas a alguns minutos de cu tremido, sobretudo na Estrada da Ponte, onde os paralelos formam socalcos notórios e uma trepidação constante. Mas finalmente aportámos, termo aliás exato, uma vez que tu estacionaste precisamente em frente à portas de casa, isto é, no nº 32 da Rua da Igreja, paredes meias com o Tonel Bar, que é a melhor tasca de Casal Parado, terra de tradição tasqueira, e localidade onde tudo acontece daquilo que não sucede em nenhum outro lugar (nacional ou estrangeiro). Porque não querem, ou porque não podem, essa será outra questão que não é prà’qui chamada.
No transporte dos produtos do carro para casa cruzámo-nos os três diversas vezes com o vaivém, sem que nenhum pormenor de monta mereça ser contado, excepto quando me lamentei acerca do fato, de quer uma, como a outra, deixarem sempre os sacos mais pesados para mim, lamento esse que D. Catarina ouviu muito bem, aproveitando a ocasião para renovar as suas suspeitas quanto à maneira com que costumas tratar-me das frescuras, aconselhando-me «’tá com essas lamúrias, ‘tá, que se ela ouve, arranjas a fresca!», o que resultou de pleno, porquanto durante o resto do acarreto jamais abri o bico, nem sequer para bafejar as mãos que esfriaram no balanço.
Porém, o petisco já estava ao lume de há muito, brandamente congeminado pela tua cabecinha maquiavélica e maléfica, e não tive que esperar “demasiado” para que me fosse servido com esmero e requintadamente.
«Mãezinha, arrume isto como só você sabe, que aqui apenas atrapalhamos, e nós vamos para a sala conferir as faturas, ok?»
«Vai lá, vai lá, que isto agora, até ao jantar, ainda demora na arrumação. Esta vida é mesmo um tirar e pôr… Foi primeiro das prateleiras prò carrinho, do carrinho prò carro, do carro prà cozinha, e agora da cozinha para os armários e estantes. Nestes dias pareço uma fiel… de armazém!»
Fomos. Quer dizer, ela foi para a sala, e levou-me a reboque. Ainda tentei resistir, mas para não agravar o contencioso, fi-lo com pouco convicção e sem empenho na refrega. Sentámo-nos à mesa redonda, tu puseste o porta-moedas entre os dois, com a mão direita sobre ele, como se estivesses a jurar sobre a Bíblia, e começaste a prédica mais arrevesada que alguma vez te ouvi: «Meu menino», conforme a tua fórmula habitual para os puxões de orelhas, «meu menino, a minha amiga X9», e aqui confesso ter retirado ao discurso dela o nome próprio que mencionou, apenas para salvaguarda dessa pessoa, diga-se a propósito «veio contar-me, que uma amiga dela lhe contou que lhe enviaste um soneto, por sinal muito expedito, escorreito e galhardo, onde lhe retratavas excelentemente o sorriso e as covinhas das faces – entre outros dotes “espirituais”. Foi obradura de qualidade e preceito a que ninguém pode botar defeito. Porém, uma coisa tinha já sido esclarecida e definida entre nós: que tinham findado os sonetos. O que tu prometeste fazer, com evidente relutância, é óbvio, mas que te comprometeste a cumprir em nome da harmonia, salutar e agradável convivência entre nós. Esse conto que a minha amiga me contou, é só fantasia ou tem algum fundamento verídico?»
De sístole em diástole o meu sistema circulatório convulsionou-se confusamente, dando àquilo a que chamamos vulgarmente por ritmo de pulsação, uma espécie de tempestade sob controversos e contraditórios movimentos dos elementos naturais, com suores frios e quentes, que me invadiam avassaladoramente, e que me atirou num mar de aflições que nunca julguei possível existir, nem mesmo nas minhas deambulações literárias pelo géneros fantásticos do suspense e do terror, da aventura e do misticismo paranormal. Portanto, de tanto querer fugir dali o corpo colou-se à cadeira, a língua colou-se ao céu-da-boca e a vermelhidão facial, característica de uma pele em brasa, latiu que nem mil cães infernais num ardor demoníaco. E, claro, não respondi.
«Sim, que dizes?», insististe. E eu continuei de bico fechado.
«Ora, é verdade, não é? Quem cala consente.»
Filosofias!
E reiterou: «Mas considerando que foi uma obra bem esgalhada, vou abrir a exceção que se impõe. Em vez do castigo que mereces, vou antes brindar-te com um pequeno tesouro, que não duvido estimarás, amealhando-o para piores dias. Aqui tens – e porque é de um soneto que falamos, passo a especificar o valor de estrofe na estrutura: pela primeira quadra, 15 cêntimos, em moedinhas de um cêntimo cada; pela segunda quadra, outros 15 cêntimos, sendo seis moedinhas de dois cêntimos, e as restantes três de um cêntimo cada; pelo primeiro terceto, quatro moedas de dois cêntimos e duas de um; e finalmente, porque a melhor das estrofes é indubitavelmente o segundo terceto, como que a fechar com chave de ouro, que neste caso é níquel de primeiríssima qualidade, cinco moedas de dois cêntimos. No todo, perfaz exatamente os 50 cêntimos que a minha mãe te devia. E agora, mais estes três cêntimos de juros pelo investimento que fizestes. Satisfeito com o conto das contas? Hum?!?»
A contabilidade tinha água no bico, disso não me restava a menor dúvida. Peguei nas moedas sem levantar ondas, e enfiei-as no bolso. Punhada a punhada, a farpela ficava-me cada vez mais pesada. A minha faceta petrarquiana tinha sofrido forte abalo, e reconheci como é dolorosa a incompreensão da arte e dos artistas. Até as pessoas mais chegadas a tratam com desprezo. Todavia, o pior mesmo, foi o ter consciência, que catorze versos não valiam mais que 6% de €, o que vistas as condições e os juros sobre a venda da dívida portuguesa, ainda lhe ficam muito aquém. É como um fado camoniano – nenhum engenho e arte vai além da Taprobana por mais esforçados que os poetas da portugalidade sejam, ou perigos e guerras que atravessem. E a história repetia-se, enfim…
Tanto mar, tantos mundos ao mundo, ao desbarato de três tostões. O que equivale a dizer, tanta sílaba soletrada, tanta métrica perfeita, tanta música perdida… e tudo, só por uns trocados!

3.12.2011

Conto de Amanhã, dia 13, dia da Estrela

A Pequena Estrela (cor-de-rosa)

“Em nada à verdade falto,
A dor me aviva a memória;
E, por não entrar de salto,
Deixai, Senhor, que esta história
Tome o fio de mais alto.”

In Memorial a Sua Alteza, de Nicolau Tolentino

“A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.”

In Voz e Aroma, Folhas Caídas, de Almeida Garrett


Estamos disponíveis para nós mesmos se aos demais convocamos como desejáveis, preferidos e imprescindíveis. Até insubstituíveis. Nenhuma pessoa é como outra pessoa. Há algo que identifica aquela pessoa como favorita se lhe conhecemos o pormenor ínfimo que a diferencia da multidão de aqueloutras iguais a si, sem destrinça de cor ou feitio, fala ou cultura, costumes e trajes, princípios e atitude social, pessoal ou ideológica. A preferência dissolve-se e multiplica-nos depois como desejados e… inevitáveis à vida de quem assim nos rotulou. Marcou. Inventou. Assumiu. E acolheu.
Mas não é fácil sê-lo. Principalmente quando nos nomeiam soletrando o nome de alto a baixo, vincando cada sílaba como se estivessem a bater sola de ruim defunto. E D. Catarina fê-lo pelo menos quatro vezes, que foram as que mais “doeram”. A primeira, foi na sequência de me ter incumbido de escolher os pimentos. Fi-lo com galhardia e desenvoltura. Alegre e contente, cantando e rindo. Três exemplares escorreitos, imaculados de um verde não muito carregado, elegantes no porte e esguios no formato. E foi um queres vê-la a matraquear-me o juízo com «mas que é isto, Joaquim Maria?! Pedi-te pimentos e tu trazes-me palmilhas de pantufa quase transparentes que nem um cortinado de pilheira? Anda cá, a ver se aprendes!»
Eu fui, sob protesto mas fui, que era para tanto que ali estava e a acompanhava. Afinal, D. Catarina era o general em campo da filha. E quando chegámos aos frescos enxuguei calado na audição da mestra.
«Vê bem: pega num pimento dos que escolheste, e agora neste. Qual a diferença?»
«No peso, na cor, até na forma… Este parece um cepo de vide, contorcido e atarracado. Pelo peso, como é maior, e isto paga-se a peso, também será mais caro. Pois» argumentei eu, para ela ficar ciente de que nisso do saber rústico e rural não me faltavam estudos – nem sentenças. Mas ela engalfinhou-se no «errado valdevinos! Este pimento está feito, está formado, logo tem todas as qualidades desenvolvidas, sabor, textura, sementes, odor, e começa a ganhar aquela pigmentação vermelha que lhe atesta a maturidade. Por conseguinte, dará o respetivo aroma e sabor
aos cozinhados, conforme se espera que faça. Compreendido?»
«Claro. Tem razão, eu precipitei-me na escolha, foi o que foi.»
«Ótimo. Então, agora traz aí umas laranjas.»
Fui-me a elas. Havia-as em barda, avulso e em caixas, daqui e dali, em sacos de rede, umas grandes e outras pequenas, com o laranja mais desbotado ou carregado, mas todas, sem exceção, que nisso primavam pela unanimidade, todas cor-de-laranja, ainda que algumas se aparentassem na vestimenta com limões azedos. Calculei que as mais em conta seriam umas, rechonchudas, redondas de fazer inveja ao pôr-do-sol, casca encorpada e volumosa, e meti no saco de plástico, à vontade, quatro/cinco quilitos delas, rumando depois à viatura das mercadorias, na qual tinha investido 0,50€ só para armar em cavalheiro perante a mãe da dama dos meus celtiberos enredos. E foi com notório júbilo que as empunhei no ar, antes de as acomodar no carrinho, exibindo-as à generalíssima pessoa, tentando recuperar o amor-próprio abalado na anterior demanda. E aí a coisa deu-se. Dona Catarina dos meus tormentos, pôs as mãos na cabeça como quem se aflige por algum flagelo incontornável e lamentou-se num rogo condoído às criaturas divinas mais propícias ao lugar:
«Meu Deus; mas o que é isso, Joaquim Maria? Isso são lá laranjas! Achas que vamos comer cascabulho à sobremesa? Achas?»
Era óbvio que não achava, porém se lho confessasse que adiantaria? Quando ela se põe a rogar às alturas que intercedam em compaixão e dó para lhe melhorar a sua vida nesta terra, não há como ficarmos desatendidos e desadmirados ou des-surpreendidos com a tamanha fé e devoção que ela coloca nas suas preces. A minha cara de orgulho, antes, desceu num ápice às profundidades da vergonha, cujo semblante ensombreceu como se uma nuvem negra e tempestuosa tivesse cruzado os tetos da grande superfície e ofuscado as lâmpadas fosforescentes que os habitam. Ainda atalhei «mas D. Catarina, que mal pode haver em frutinhas tão vistosas e desempenadas…?», contudo ela cortou-me o pio com «não há mas, nem meio mas. Isto não presta, e não vou permitir que se leve para casa, fruta inchada que passou sede na sua criação, tal e qual como a barriga dos meninos do terceiro mundo, que se tornam barrigudos à força da fome que sofreram. Percebido?»
Amuei, e nem respondi. Responder o quê? Ainda não tinha enxugado a cara da última
ensaboadela, ia logo de seguida arriscar-me a levar outra, por causa da resposta… Vai lá, vai!
Todavia, ela nem sequer notou o cuidado com que evitava demais agruras, e adiantou-se para as pedagogias levando-me a reboque que nem charrueco empanado. «Olha só: estas laranjas, têm muita casca, são airosas, mas não têm sumo nenhum. Já estas, vês, de casca fininha, pouco enrugada, como camisas agarradas ao corpo, são pesadas e, se forem doces, como suponho que sejam, serão bastante sumarentas, dando para comer gomo a gomo, como em sumo, para acompanhar as refeições… Vês a diferença?»
Vocês viram? Assim vi eu! Porém, não tugi nem mugi, que as sondagens não andavam lá muito abonatórias prò meu lado, ultimamente. Ainda me passou pela cabeça sublinhar o momento de carinho (idílio) familiar com o típico «obrigado, mamã» dos famosos óscares da cinefilia, contudo meti a viola no saco, temendo ser mal compreendido na gratidão e reconhecimento invocados. Deambulámos em par por entre estantes e prateleiras, na estiva da transferências de garrafas e enlatados prò veículo, ela fazendo reparos, eu ouvindo atento e compenetrado, sem novidade significativa.
Não obstante, a terceira nomeação não se fez rogada na demora. E foi dura. «Enquanto vou ali à carne, vai tu buscar o café, senão ela há de sair do serviço e nós com metade das compras por fazer. Ok?»
Fui. Escolhi seis embalagens do Delta Q, que é a máquina de serviço, tanto na casa dela como na minha, três Qalidus, intensidade máxima, e três Qharacter, com intensidade 9, imediatamente inferior à do Qalidus, e acondicionei-as junto às restantes mercearias. E quase recuperei o ânimo quando D. Catarina voltou, depositando os sacos com as carnes em sus sítio, como seria lógico que fizesse. Fomos ambos aos queijos, ovos e restantes lacticínios, sem a mínima altercação. Contudo, quando ela me explicava precisamente porque convinha levar mais latas de tomate cortado aos cubinhos do que em polpa ou somente pelados, eis que reparou nos cafés e pronto, deflagrou outro aceso discurso sobre o benefício da diversidade. «Joaquim Maria, para que é que queremos seis embalagens só de dois lotes e sabores? Não respondas, que eu sei bem porque é: porque é só desses que tu costumas beber. Esqueces, meu menino, que lá em casa não és só tu que bebes café, além do que nem somente bebemos café depois das refeições, e que durante a tarde ou as manhãs, com um biscoito ou bolachas, também molhamos o bico com este estimulante, sobretudo quando precisamos de arejar um pouco do que se está a fazer. E que nessas alturas, o conveniente, é baixarmos a intensidade à beberagem, nomeadamente para um aQtivus, Qonvictus, Qonvivium, e até um deQafeinatus, se preferirmos abster-nos de excitações contraproducentes. Se a grande vantagem deste tipo de máquinas está em podermos variar nas preferências porque é que vamos usar sempre o mesmo sabor, intensidade e aroma? Para isso tínhamos comprado uma máquina daquelas em que seja qual for o café que se mete no cachimbo sai sempre igual. Ou não?»
Não faço a mínima ideia da cara com que fiquei… Mas suponho que a terei contorcido numas quantas caretas de dor e sofrimento, consternação e angústia, bem esclarecedoras do tormento que se abatera sobre mim, porquanto a tua mãe se condoeu a pontos de me perguntar «estás bem? Estás doente? O que é que se passa contigo?» que me obrigou a descansá-la com o tradicional «não é nada. São só umas cólicas intestinais, se calhar causadas pelo almoço, em que abusei um pouquinho do tintol», fato plausível se atendermos às migas engolidas à pressão de copo repetidamente cheio pelos 14,5º de volume na velocidade do enquanto o diabo esfrega um olho.
E a coisa não tinha sido grave se não tivéssemos entrado no capítulo da portugalidade gastronómica. Coisa tradicional, o bacalhau, havia de me dar – finalmente – hipótese de brilhar. Havia mas não haveu, porque não deu! Eu conto: saído a salvo pelas ventas, salvo-seja: pelas expressões faciais, foi a vez de irmos ao peixe, incumbindo-me a excelsa senhora de entrar na fila do fiel amigo para nos aprovisionarmos do mesmo. Calhou-me, e eu esmerei-me. Fui-me ao mais caro, mais alto e de maior “copa”. Branquinho de pureza e salgadinho de quase fresco, ainda húmido. Estava já com ele na mão para entregar à empregada prò pesar e cortar em postas, quando D. Catarina me abordou com o «deixa ver, se vale a pena», e então o tsunami aconteceu. A pena virou vergasta e acertou-me no ego na máxima pujança. «Joaquim Maria, Joaquim Maria, então tu foste escolher a pior coisa que havia na banca? Tu não vês que vais pagar água e sal ao preço do bacalhau, e que este depois de cozido se esfiará como estopa para atacar cartuchos de bacamarte? Não vês que além de não estar curado é alto e depois leva dois dias, pelo menos, a dessalar cada posta? O bacalhau quer-se creme, seco, daquele que depois de cozido a posta se separará em lascas de gomosa espessura, saborosas e sem sal de assoprar nas tensões arteriais… Ok?»
Eu okezei de anuimento, disse que sim que entendia, mas tinha-me distraído com qualquer coiseca, fora o que fora, todavia ela suspirou um «ora, ´ta-se mesmo a ver que foi isso» de quem não acreditou nadinha nas desculpas, o que reiterou o combalimento de que ainda não recuperara. E implorei para que Shara aparecesse. Não ajoelhei implorando, mas pouco faltou. Até que as preces foram ouvidas e tu entraste no meu ângulo de visão, equipada a preceito com o teu gabão cor-de-rosa, a mala a tiracolo, as chaves do carro na mão esquerda, o dedo indicador direito sobre os lábios,
num gesto pensativo, reflexivo, atenteando entre as fileiras de produtos à nossa procura. Não resisti. Chamei-te a plenos pulmões. Era como se no firmamento das minhas preocupações tivesse surgido uma estrela anunciadora, uma Boa Nova de libertação entre os enlatados e a bruma que evoluía dos congelados.
«Olha, olha, estamos aqui!»
E estávamos. Pelo menos eu estava, reconhecido e grato pela aparição. Podias ser um cometa, algo que aparece e desaparece seguidamente, mas não eras. Eras um raio luminoso na minha esperança fortemente vergastada pelas circunstâncias intempestivas da experiência consumidora que se tornou saber.
Calado agradeci às profundidades da alma ter-te por perto. E ao beijar-te, na saudação de boas-vindas, demorei a respirar o odor do teu cabelo e o “aroma” do teu olhar de alegria. Em verdade, o ramo (familiar) agitado que tanto, durante toda a tarde, cantara era o de tua mãe, mas a felicidade que me preenchera no fim dela, esse, sim, era totalmente teu, e por mais que tivesse a ver com o seu canto, nunca perderia o encanto que há em reencontrar-te.
E essa seria a singela novidade que Shara haveria de ter em conta quando te contasse a partida que me pregara – através das tuas ordens e chefia. Porque, pese embora, eu estranhar quando me tratas por Joaquim Maria, tu tinhas dias que nunca o fazias, e semanas até sem recorreres ao citado nomeamento. O que já não se podia dizer de tua mãe, que numa só tarde, quer dizer: duas horitas dela, por tal me nomeara pelo menos quatro vezes, e de forma bem sublinhada na soletração.

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