Conversas Por Acabar
Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta
8.05.2009
O Escriba e as Bonecas - Terceiro Caderno
Terceiro Caderno (Galope)
«Não compreendes porque te esforças em não o querer, nem o conseguir. Pois é bem claro: os pais, ao notarem que o seu bebezinho único logo que deixava de estar sob a minha alçada e tutela directa, coisa que subtilmente me empenhei em demonstrar-lhes, fazia burrada da grossa, desaparecia de casa durante dois ou três dias, pedia dinheiro emprestado a comerciantes conhecidos sem autorização do pai, e para este pagar!, drogava-se até ao descontrolado comportamento e demais tristes figuras, optaram por convencer-me de que o mais cristão e menos pecaminoso seria consentir casar com ele. Por dois ângulos ou pontos de vista: porque desconfiavam da existência de relações sexuais pré-matrimoniais; e segundo, que ele viesse a assentar à custa dos desígnios da novel responsabilidade de vir a ser chefe de família. Casamento em que mui modestamente consenti, deixando imediatamente de tomar a pílula para lhes facilitar a sempre nobre esperança de virem a ser avós, com brevidade e sem esperas prolongadas. Recompensa merecidíssima pelo esforço que despenderam em me proporcionar tão importante passo para a meta que me impus. Truque duplo. Doble num tiro.
«E a maternidade aconteceu?»
«Aconteceu sim. Precisamente ao décimo mês de casamento nasceu o Filipe. E para Pedro, os três meses que antecederam o parto mais os nove que se lhe seguiram, foi o ano de todos os anos... O dinheiro das prendas de casamento ainda durava, pois quem abonou com todas as outras despesas (mobília de casa, jantar e copo d’água do casamento, instalações para o aviário, de que era suposto virmos a tirar os rendimentos para tocarmos a vidinha prà frente), foram os nossos pais, e estes, com o surgimento do neto, deram-lhe carta branca em tudo, esquecendo-se inclusive que ele existia, excepto quando aprontava alguma da qual eu o não conseguia esconder ou ilibar. Quer os meus pais, quer os dele, vinham frequentemente a nossa casa no declarado pretexto de verem o Filipe, mas raramente se cruzavam com o Pedro. Ele, o estava com os amiguinhos dos xutos, ou estava no aviário, mas sobretudo estava carregado na cama. “A descansar do serviço no aviário”, dizia eu às famílias embevecidas, se acontecia perguntarem-mo.»
«Os amiguinhos?... Alguns junkies, não?...»
«Qual quê!! Não; eram caveiras mesmo, e a valer. Eram dois ou três mais mortos que vivos, que nem alimentar-se queriam, preferindo a heroína a qualquer outro acepipe. Em fase de muito adiantado estado de degradação, de destruição, e que, contudo, se safaram com vida através de consecutivos internamentos clínicos para desintoxicação e alguns retiros (espirituais) no Le Patriarche. Os mesminhos com quem começou a fumar haxixe, aliás. Companhia de quem eu o não podia proibir, já que tinha sido eu a arranjar-lha!...»
«Nem querias
«Bingo!! Com as boas graças dos sogros, pelo feito heróico de lhes haver renovado os motivos e a esperança de vida, com um neto, apenas deixava e precisava de deixar correr o marfim, facilitando a Pedro o acesso aos dinheiros do fundo de maneio familiar. E depois ia queixar-me à mãe dele, ou ao pai, por ele gastar todo o dinheiro que fazia falta para o filho e despesas domésticas “sabe-se lá onde”, mas pondo a pairar no ar a sublinhada suspeita de saber muito bem para que fim, onde, com quem e no quê o gastava. Eles também: embora adiando sempre no mais possível a verificação e comprovação das suas suspeitas. Uma fé esperançosa de um por mil, em não estarem certos nas mesmas.»
«E a tua família estava a par disso? Como reagia ela ao facto de vos ter dado o aviário para vocês não precisarem de pedir dinheiro a ninguém, e vocês não se governarem de lá? Ela estava ao corrente de tudo quanto se estava a passar convosco? Não me parece que sabendo, aceitassem a situação de ânimo leve...»
«O curioso é que a minha família, não só sabia de tudo (pela santa boca da minha sogra, claro está), como também se estava literalmente nas tintas para o comportamento de Pedro. Diziam que não era para preocupações; que era só uma fase ruim, uma fase passageira. Levavam a coisa na berlinda. Mas, no final, foram eles que, com o agravamento da dependência, e numa altura em que Pedro vendera todas as sacas de ração para os galináceos, a quase de metade do preço que haviam custado a meu pai, não só deixando os bichos a passar fome como fazendo uma dívida impagável para com o sogro, alertaram os compadres para a necessidade do filho se ter que submeter a um tratamento de desintoxicação e reabilitação.»
«E Pedro fê-lo?...»
«Fez pois. Só que a abstinência apenas lhe durou o tempo de internamento. À primeira vez que veio a casa, e notando-o um tanto ou quanto agitado, eu própria lhe preparei uma dose de cavalo, das dez que tinha comprado na sua ausência para o efeito... Foi tiro e queda! A partir desse dia, e se antes do tratamento andava a precisar de três doses diárias, passou a necessitar de cinco ou seis.»
«E não te pesava na consciência pelo que estavas a fazer?!...»
«Não. Eu só queria o bem dele. E para que não sofresse! Aliás, fora ele quem implorara por elas!... E tinha medo que ele se tornasse agressivo se eu lhas negasse...»
«Era o que argumentarias junto dos pais dele se, não?...»
«Uma espécie disso, perfeitamente. Mas acima de tudo, eram os comentários que concedia às minhas amigas da nossa geração, que pretendiam apelar ao meu bom senso... Que aliás compreendiam divinalmente!»
«Porquê? Elas inquiriam-te? Preocupavam-se ou tentavam intervir na tua vida matrimonial?»
«Não era bem interferir. A minha desgraça é que era do domínio público. Interessavam-se, era o termo mais adequado. Quando nos encontrávamos no café, no supermercado, viajávamos juntos de ou para Casal Parado e Vale de Burros, conversávamos normalmente das nossas vidas, dos nossos filhos, dos nossos maridos. Era coisa comum, que não evitávamos nem escondíamos. É como falar da tropa quando se está na recruta. Ou de política quando nos inscrevemos há pouco no partido. E esporadicamente lamentava-me, e à sorte que tinha tido pelo marido que me calhara... Visto que numa terra tão pequena, é impossível guardar segredo sobre muitas coisas íntimas e familiares, durante um período superior a oito dias!...»
«E como é que elas apelavam ao teu bom senso?... Não percebo bem como é que isso se faz!»
«Ora toma. Era o que faltava!... Apelavam ao meu bom senso quando me aconselhavam a separar-me dele, caso ele não deixasse de se drogar. A impedi-lo por todos os meios de consumir drogas. A não lhe facilitar dinheiro para comprar droga. E etc., etc. e tal.»
«’Tá lógico.»
«Lógico, não. Está verdadeiro. O que tem de ter lógica e coerência são os romances e demais ficções. A vida raramente a tem ou o é, percebes? A vida real é real e cruel como a verdade, nada mais. Nem lógica, nem coerente. Nem qualquer oportunidade para o dourar da pílula.»
«Pois; siga.»
«Por instantes pensei que era teu intento irritar-me. Tirar-me do sério. Não?... Com que finalidade? Ah, ainda desconfias de mim!»
«Não desconfio. Sou simplesmente de difícil compreensão... Em nada creio às primeiras.»
«Estás no teu direito, mas não abstraias conclusões antes de eu acabar, que é para isso que comecei. Eu ainda não sou como o meu ex-; eu quando começo algo é para ir até ao fim. É da minha natureza...»
«Do carácter asténico, diz antes...»
«Certo. Ou isso! Como queiras. Agora nota, que os pais de Pedro andando como andavam, embobados pelo neto, nem se davam conta de que o filho regressara do tratamento com mais necessidade de dinheiro do que quando fora. As doses dobraram. E triplicaram. Até que um dia foram visitar o netinho e depararam com a sala de estar e de jantar sem mobília nenhuma. Fizeram um escarcéu dos infernos. A custo, intimidada, submissa, obediente, lá lhes contei que o filho as havia vendido para pagar a droga que já tinha consumido desde que voltara, e comprara fiado. Foi um desgosto danado!... Ficaram inconformáveis! Pesarosos e abalados com a notícia!»
«E foi o que acontecera efectivamente?»
«Em parte sim, embora não fosse toda a verdade. Acrescentei, desculpando-o aparentemente, em atenuante, que a culpa provavelmente não tinha sido exclusivamente dele, mas dos traficantes e companhias com que se voltou a dar. Que os formigas o haviam ameaçado de morte, e ao filho, se ele lhes não pagasse rápido. & etc. Mas a verdade fora outra. Eu é que lhe tinha fornecido a ideia de vender as mobílias das salas, com aparelhagens sonoras e de vídeo incluídas, a fim de pagar as dívidas e ficar ainda com algum para as próximas “receitas”. Disse-lhe inclusive, convenci-o mesmo disso, que os pais andavam tão contentes com o neto que eram bem capazes de relevar, de lhe perdoar tudo a ele, só para não prejudicarem afectivamente a criança, nem a traumatizarem psicológica e familiarmente. E ele caiu!... Que nem um patinho. Em resultado: os pais dele reenviaram-no para nova desintoxicação mais consequente reabilitação no Le Patriarche, dessa tirada para a Suíça, nos frescos e bons ares dos Alpes.
«E deu efeito? Quando voltou, veio recuperado?»
«Recuperadíssimo!... (À moda do não.) Nem falar conseguia, normalmente; unicamente aos supetões. E nem assim saíam duas direitas! Debaixo de uma tensão angustiosa de cortar a alma... Tive pena. Doeu-me o coração. Meteu-me dó... Não resisti.»
«O quê?! Tiveste pena!!! Quer dizer: voltaste a dar-lhe heroína, comprada por ti, do teu bolso?...»
«Sim. Quer dizer: foi exactamente isso que fiz. E em pouco menos dum mês estava ele a vender o que restava do aviário, num descuido de vigilância de meu pai, que era quem o tutelava e mantinha em funcionamento, depois da venda das rações, e por lhe estar mais próximo de casa do que a meus sogros. E como lhe não bastasse, passou também a patacos o material de construção civil, que o meu pai e o dele andavam amealhando para nos fazer uma vivenda. Foi tudo pràs urtigas!... Até os vinte quilos de pregos!...»
«Não acredito.»
«Então não acredites. O incrédulo és tu!... Mas foi como te disse. Nem mais, nem menos uma vírgula.»
«E tu? Que fazias? Que dizias?»
«Bom: a ele, quando sós, dizia que não havia problema, que tudo se iria resolver. Se os pais estavam presentes desculpava-o, e maeuticamente levava-o a prometer que jamais voltaria a usar uma agulha (de costura). Não convencia ninguém mas era um indicador precioso do quanto eu me esforçava e sacrificava para levar o casamento a bom porto, e feliz rumo. Quando estava sem ele presente, sozinha com meus pais ou com os dele, transformava-me numa madalena chorosa, lamentando que não conseguia suportar mais aquele calvário, que ele estava a arruinar-me os nervos e a pôr em risco a futura saúde do filho. Que estava sujeita a deixar-me contaminar por alguma doença mortal, contagiosa, que ele pegasse no convívio e utilização das seringas dos outros “sidosos” com quem tanto gostava de acompanhar e privar...»
«De forma decidida e conformada?»
«Tão convicta que a iniciativa de me divorciar de Pedro e abandoná-lo, retirando-lhe também a tutela do filho, partiu deles. Os meus pais, porque eram meus pais e não queriam que eu sofresse. Os dele, porque estavam saturados e queriam salvaguardar a saúde, segurança e estabilidade psicológica e emocional do neto.»
«Ao que tu...»
«A que eu obedeci pesarosamente... E a que só me submeti depois de instada a que se o não fizesse, eles me abandonariam também. Que deixariam de querer saber de mim. Que me retirariam o Filipe, e me deixariam à mercê do destino... E de Pedro.»
«E fariam-no?...»
«Não; provavelmente, não. Mas eu preferi não arriscar. Lavei as minhas mãos. Como Pilatos. A partir dessa altura, tudo quanto viesse a acontecer com Pedro, passaria a não dizer-me respeito. A responsabilidade seria exclusivamente dos quatro. Eles é que haviam decidido e me obrigado. Apenas tive que submeter-me ao aceitável... E imperativo. Era ele ou eu...»
«E?...»
«... E numa quinta-feira à noite, ouvi baterem-me à janela do quarto que fiquei a ocupar em casa dos meus pais. O divórcio estava em curso, mas ainda não tínhamos sido notificados com o deferimento e decisão definitiva e oficialmente, por escrito. Abri. Era Pedro. Com delirium tremens, arrasado, suplicando que o ajudasse. Fi-lo compreender que não podia fazer nada, que não tinha dinheiro nenhum, e que eles mo não davam pois temiam que ele mo tirasse. A não ser que... A não ser que...»
«A não ser o quê?!»
«A não ser que lhe desse as chaves do carro que me pai nos havia comprado, em substituição do jipe que Pedro vendera, mas que avariou, e nós metemos na oficina, o que afinal o salvou de também ter sido passado a patacos. E que, como não tivéssemos dinheiro para pagar o arranjo, o pagou ele, recuperando o automóvel para si, por conta do pagamento do conserto e mais uns contos de réis pelas rações das galinhas. Carro esse que ainda estava em nosso nome!»
«Queres ver que me vais dizer, que lhe deste as chaves e o carro, e que ele se despenhou, morrendo no acidente... Não?... Já vi esse filme!»
«Não. Não foi assim. O que foi, foi sim que ele levou o carro e o vendeu por quanto pôde e lhe deram a pronto, em dinheiro batido na mão, em troca do livrete que meu pai ainda não tinha recuperado de mim. Depois comprou heroína suficiente para arrumar dez cavalos, e morreu de overdose. Tão simplesmente quanto isso. Não aguentou a pedalada. Tão-só. E apenas. Encontraram-no sexta-feira, ao meio-dia, no chão da garagem do pai, encostado à roda do tractor com a seringa ao lado e o garrote caído do braço, descambando lasso...»
O grande plano da minha surpresa e incredulidade esbate-se gradualmente, ficando em sua substituição o plano geral da rua com o largo em fundo, sob um trânsito de hora de ponto. A luz é menos aberta, e apercebe-se bem que a tarde está a entrar no seu término. É a agonia do dia em trabalho de parto.
«Pronto», concluí eu. «Partamos do princípio que me deixei enrolar com a veracidade desta história macabra. Que o teu marido depois de endividado, viciado, e votado ao ostracismo, se deixou abater e se suicidou por excesso de dose. Seja. E o corpo? E o cadáver? E o defunto? Será que existe mesmo alguma viúva? Não o creio. Até porque no teu B.I., em que reparei sorrateiramente enquanto procuraste na carteira o dinheiro para pagar o café, o estado civil constante é o de divorciada. E se assim, como contas, tivesse sido, constaria lá escrito viúva!»
Regresso a um americano de ambos. Ela tira o Bilhete de Identidade da malinha de mão, de sobre a mesa. E confirma.
«Tens razão. É que me esqueci de dizer que, naquela quinta-feira à tarde foi quando o corpo judicial deferiu o pedido de divórcio. Eu na realidade não sou viúva: sou divorciada. E já estava divorciada há um dia quando o meu ex-marido se suicidou.»
«E o suicídio também não é garantido... Provavelmente foi engano de dose, um acidente, sei lá!...»
«Sim. Eventualmente... Mas sublinhe-se que ele estava muito bem informado nesse capítulo. Era um barra na matéria. Um expert. Um acidente só podia acontecer para cúmulo do “acidentalmente”. Muito pouco plausível.» (Silêncio. A câmara fixa-se-lhe no rosto, a que o pensamento empresta um ar meditativo e enigmático. Até que, com um piparote na mesa, ela destrava:) «E o cadáver está no cemitério de A-dos-Tansos. Por acaso sinto vontade de visitar a campa. Acompanhas-me? Queres vir? Se negares, concluirei que a tua incredulidade é bluff!...»
Voltamos a mais um plano médio dos dois. A levantarmo-nos
* * * * *
(Atenção à elipse.)
enquanto nos sentamos à mesma mesa, exactamente nos mesmos lugares, as sombras provocadas pelo candeeiro que nos fica atrás, anunciam um bailado singular: o assentar das formas, como se estas fossem poeira que se cola às coisas. É noite já. É a hora da bica do jantar. Chegámos como quem vem dele, e como qualquer assíduo frequentador concluiria automaticamente. Mas não o tomáramos. Estivemos no cemitério.
«Porque é que as pessoas quando falam a fazer qualquer outra coisa nos parecem mais sinceras?» Pergunto eu, a provocar polémica. «Já em minha mãe essa sensação se me afigurava. Se ela queria dizer qualquer coisa importante levava-me sempre para a cozinha, e enquanto cozinhava ou descascava batatas, a bomba ia despejando.»
«Porque dizes isso agora. Logo agora?... Não percebo.»
«Bom. É simples.» E o plano americano dá lugar a uma sequência de grandes planos alternados de mim e dela. «É que durante o tempo em que conduzias, tanto na ida a A-dos-Tansos, como no regresso, me soaste menos a falsete do que quando aqui estivemos à tarde. Estavas mais preocupada em que eu amasse a mesma paisagem que tu. Falavas dos vinhedos e pomares, não como se fossem coisas, matéria vegetal, mas sim seres vivos em vias de extinção. Preciosos e insubstituíveis. Dos ondeados de vales e de montes como se da tua própria pele se tratasse. Dos moinhos, como de entes queridos desaparecidos.»
«Se dizes isso, é porque ainda não ouviste nada!... Deixa-me só começar a falar da Serra de Todo O Sempre! Da Ermida e Convento de Nossa Senhora dos Flocos! Da Real Fábrica do Sorvete! Da Igreja Matriz de Casal Parado! Do Castro de Vale de Burros! Da Igreja Paroquial de A-dos-Tansos! Da minha vila! Da minha vida! Da minha história! Das minhas paixões!»
«Porquê? Esse entusiasmo tem raízes em algo profundo que ainda não conheça?...»
«Talvez. Se o quiseres interpretar assim. É que ao notar e compreender como a minha vida sexual e afectiva se tornara miserável, agarrei-me à única centelha de amor que em mim ainda se não tinha extinto: o amor à minha terra. Acreditava que assim salvaguardaria a promessa de que essa semente viesse a frutificar e desenvolver-se, evoluir até transformar gradualmente esse apego à terra e passado dela, em amor ao presente e às pessoas que nela vivem, incluindo a mim mesma...»
No seu grande plano podemos notar que a frontalidade intelectual foi descurada. Há até duas lágrimas a nascer hesitantes em seus olhos, agora húmidos e brilhantes. A testa foi atirada para trás e o queixo, antes recolhido duma animalidade em stand by, aproveita o inclinado perfil para reaparecer miúdo e interferente no espaço. Inclusive a própria pose de sentada com as pernas cruzadas, já não exibe a rigidez e contenção anteriores; é abandonada e leve, alongando-se nas curvas, sem a brutalidade das articulações contraídas em esforço. É como se o corpo nos desse a ver a facilidade com que o sangue lhe circula dentro, em pulsação ritmada e entusiástica. Grata por cumprir-se.
«E terá resultado?»
«Sem dúvida. Apercebi-me de que resultou quando me abraçaste no cemitério. Quando senti um imenso, imperioso e verdadeiro desejo de te beijar e acariciar, tal como o de permitir e desejar que me fizesses o mesmo. Até quando...»
Flashback: “ O cemitério de A-dos-Tansos é um receptáculo rectangular de medir o poente, que se lhe estampa frontal. Deitado preguiçosamente na encosta leste do Rio Tramóia, que como rio é a vergonha da família, pois além de nunca ter caudal superior a um reles ribeiro, inclusive no pinho do Inverno, único período em que tem água entre as margens, corre ao contrário da maioria dos seus congéneres, marcha contra a corrente, de Sul para Norte, de baixo para cima, como que a querer demonstrar que lhe sobra em coragem aquilo que lhe falta em ser, em circunstâncias físicas e líquidas. Paradoxos que a natureza tece e o homem nomeia!
E ao canto superior direito, em ponta de fila, das outras restantes idêntica, a campa de Pedro remata o ângulo. Em nada difere das demais, com cabeceira de pedra calcária branca, polida, em forma de Bíblia aberta, encaixe para a fotografia do inquilino, nome completo e datas biográficas: nascimento e morte. Sobre a sepultura uma outra pedra branca, comprida, mas de mármore. E ao fundo dela Palmira, braços caídos ao longo do corpo, pernas afastadas, que nem um cowboy ou pistoleiro preparado para mais um duelo mortal. Tem espasmos e convulsões de choro e raiva: «Maldito!... Maldito!...» Repete inconscientemente. O vestido, devido à posição das pernas, sobe-lhe mais um pouco e, de tão curto, quase se vê o desenho curvo do princípio das nádegas. Aproximo-me-lhe por detrás e acaricio-lhe os ombros. Insinuo-me, beijo-lhe o pescoço. Deixo as mãos, os dedos, percorrerem-lhe os braços, até os entrelaçar nos seus, sobrepondo as palmas das minhas às costas de suas mãos. «Maldito!... Maldito!...» E enquanto o diz ergue os braços ao céu, chorando espasmodicamente. Mas ao fazê-lo puxa-me para a frente, içando igualmente os meus braços e comprimindo-me também de encontro ao seu corpo. «Maldito!... Maldito!...» Vocifera. Sob o meu peito descoberto pelo abotoado da camisa, os seus ombros e dorso flectiam convulsos, e as suas coxas e nádegas alçadas anichavam-se de encontro ao meu sexo, procurando-o e submetendo-o, em pura animalidade ciosa. «Maldito!... Maldito!...» E chorava.
Por detrás de nós o sol cruzava a linha do esquecimento e escondia-se. Sobre o ondulado dos montes distantes uma estrada alaranjada marginava a terra, marcava a fogo os limites do dia. «Maldito!... Maldito!...» Proferia Palmira, entretanto se virando no desenclavinhar dos dedos, procurando-me a nuca e pescoço com eles, sôfregos e curtos e cárneos de carinho e ternura contida. Nervosos e cegos: agitados, e insaciados. «Maldito!... Maldito!...» Desabafava. E eu beijei-lhe os olhos. Bebi-lhe as lágrimas. Acariciei-lhe as costas, numa ânsia de protegê-la da luz, do mundo, das recordações, da dor. E nesse gesto continuado até ao despir-lhe das cuequinhas brancas, que lhe caíram aos pés no fundo da campa, qual noiva branca oca e vazia abandonada no chão da morte. Então, coloquei todo o meu libidinoso desespero na busca da resolução dos mistérios da tarde que quer ser noite, da noite que quer ser madrugada, na esperança de vir a ser dia, e ali a sentei sobre a pedra fria, de coxas separadas, vestido subido, para entre elas me ajoelhar na terra seca e esfarelada, em prece, beijando-lhe os lábios frementes de choro enraivecido, o pescoço crispado, o peito arfante. Até à penetração total e plena, que a fez, de olhos esgazeados, atirar-se para trás levando-me consigo; olhos que cerravam à medida que descíamos para a horizontal do mármore, e se esqueceram fechados até quando...”
Fim do flashback e retomar do grande plano anterior a ele. Mas ao falar Palmira gesticula. Mexe-se ao ritmo das palavras. Aviva-as. Baila com elas. Dá-lhes espaço habitacional. Empresta-lhe o próprio corpo!
«... voltei a abrir os olhos e concluí que tudo se tinha passado noutra dimensão. Que a luta não tinha sido luta. Que o planalto relvado a findar em abismo nunca existiu. Que a queda no precipício e explosão sofrida enquanto ela, não acontecera. E sim que a realidade era tão simples e natural como o teu olhar morno, meigo e grato no escurecer ocasional, e o esquecimento tranquilo de teus beijos lânguidos e cansados. Demorados. Perdidos numa demora em busca de retenção. De eternidade.»
Inicia-se então, com também a minha tomada do plano, em figura de centro, a última sequência de alternados, segundo a quem calha estar no uso da palavra.
«Mas essa luta no planalto relvado em que te debateste, rolando e contorcendo até cair no precipício, é igualmente real. Tão real que também eu a tive e partilhei. Tão autêntica que dos meus últimos dias e por muitos anos, irá ser a única recordação que perdurará. Tão real como a gratidão do meu olhar, porque ela era devida ao facto de, quando após termos descuidado o abismo e a sua proximidade, num desesperante debater aflito em contorções e arremetidas, nele caindo, teres sido tu aquela a quem me agarrei em ânsias de afogado para não embater no fundo frio e agreste e rude de pedra e vácuo do infinito em forma de abismo. Porque ao segurar-me em volta de ti te absorvi, e ambos explodimos num Big Bang virtual que nos aspergiu pelo cosmos. Agora podemos ter a certeza de ser pertença do mundo. Agradecido por teres sido a primeira pessoa que vi depois de ter assistido ao estilhaçar explodido de toda a argila recozida e escura da minha armadura existencial. A primeira a testemunhar o espectáculo de inocência, o núcleo de amor, com que recomecei a viver. A que me ajudou a recolher a nudez de minha alma viva e renascida, para mais uma era de crescimento e morte, em cumprimento da lei que nos comanda e executa.»
Palmira ri. Não sorri; ri mesmo, em gargalhadas jocosas e estridentes. Lança as mãos para a frente, para as minhas mãos, e diz:
«Não sei porquê, mas não me sinto com idade suficiente para compreender o que queres dizer. Foi verdade: mais ou menos palavra, foi também essa queda irreversível que vivi e senti. Esse espalhar de mim pelo universo. Mas não quero, nem sou capaz de compreender. Finalmente sinto-me livre para poder ser eu. Sinto-me que nem uma criança, sem passado, apenas presente e a certeza de que o futuro é algo inadiável, que não vejo como evitá-lo ou por que pensar nele. Acho que voltei a ser pequena, frágil, despreocupada, aberta, disponível, inocente e confiante. Que finalmente regressei ao corpo nu que abandonei um dia, enquanto este batia desesperadamente e humilhado a uma porta irremediavelmente fechada. Trancada. Teimosa e cruelmente selada.»
«De arrecadação?...»
«Não. De prisão, de túnel. De aço cromado e frio, gélido, espelhado e inabalável.»
«De ficção...»
«Sim, de ficção. Ou por outra, como as portas das prisões dos filmes de ficção científica, onde até o improvável é possível. E o possível pouco provável.»
A avenida cambaleia na luz eléctrica. Por vezes um carro passa devagar, em velocidade de ronda, para não abanar cenário. Há alguns reclames luminosos a colorir a noite. Mas o principal movimento é o das pessoas a entrar e sair do café, às famílias completas, com pai, mãe, filho e/ou filha, a quem não faltam o cão nem a boneca. E um agrupamento superiormente notório nas escadas de acesso à porta do cinema.
Aparentemente é uma noite igual a tantas outras de Junho ou Setembro. No clima. No traje e frequência dos frequentadores. E a expressão dos rostos que apreciam o descanso.
Mas essencialmente é o remate, o nó de uma linha que perdeu o fio de cor. Que tem de mudar de novelo e de tom. Que recomeçar é isso: é voltar a pintar o mesmo desenho com diferente paleta, com outras cores, que preferencialmente temos por mais adaptadas, reais e motivadoras. Como num ritual encenável, repetidamente representado, irremediável e consecutivamente pelos mesmos actores. Um palimpsesto reciclado. Repetidamente reciclado. Até à exaustão. Até à velhice. Até à morte, que é a falta de coragem e força para insistir uma vez mais nos gestos tantas vezes feitos em vão. Porque só morremos quando ficamos em estado de não aguentar outra reciclagem.
E as bicas vieram, quentes e fumegantes, aromáticas e cremosas. Que bebemos em silêncio. Religiosamente. Como em silêncio se extinguiu a imagem, que a cada golo de café escorria para o mais brumoso, cinzento, pardo, escuro, escuríssimo, preto, negro do quadro da ausência. Das ausências.
RODAPÉ: Ah, quase esquecia de me apresentar! Fisilogicamente sou um gémeo perfeito do Ribeirinho, um Woody Allen à portuguesa, no filme de sua autoria, O PÁTIO DAS CANTIGAS (Francisco Ribeiro, 1941 ), rodado em Lisboa, embora que um tanto mais baixo e magro – que a época não perdoa. Visto um casaco aos quadrados brancos e pretos, que nem um tabuleiro de xadrez, camisa amarela de colarinhos com enormes bicos e desabotoada até ao cinto; calças de veludo grená, e uma cartola empoleirada no cocuruto da cabeça. E Palmira é igualmente uma boneca.
Os sapatos que uso? Esses ficam totalmente a vosso critério (e gozo).
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O Escriba e as Bonecas
7.28.2009
Carta Europeia da Liberdade de Imprensa

Comissária Reding congratula-se com a nova Carta Europeia da Liberdade de Imprensa
A Comissária Viviane Reding encontrou-se hoje com Hans-Ulrich J ö rges, chefe de redacção da revista alemã Stern e promotor da Carta Europeia da Liberdade de Imprensa. Esta Carta, assinada em 25 de Maio por 48 jornalistas europeus de 19 países com o objectivo de proteger a imprensa contra interferências dos governos e assegurar o acesso dos jornalistas às fontes de informação, enuncia os principais valores que as autoridades públicas devem respeitar nas suas relações com os jornalistas, tendo sido hoje apresentada e transmitida por Hans-Ulrich J ö rges à Comissária Viviane Reding, que saudou a sua adopção pelos jornalistas.
" A Carta da Liberdade de Imprensa, promovida pela comunidade dos jornalistas europeus, constitui uma importante reafirmação dos valores fundamentais, nomeadamente o pluralismo dos media e a liberdade de expressão e de informação, que são alicerces das tradições democráticas da Europa e estão consagradas em textos jurídicos fundamentais. Serve também para lembrar que só pode haver verdadeira liberdade de imprensa se as autoridades públicas desempenharem o seu papel, ou seja, se estiverem prontas para proteger a liberdade de expressão e promover o seu desenvolvimento", afirmou Viviane Reding, a Comissária Europeia para a sociedade da informação e os media . "A Carta constitui, pois, um passo importante para o reforço destes valores e direitos fundamentais, permitindo que os jornalistas os invoquem contra governos ou autoridades públicas sempre que sintam que a liberdade do seu trabalho está abusivamente ameaçada".
Hans-Ulrich J ö rges, chefe de redacção da revista alemã Stern e promotor da Carta, acrescentou: “Estamos muito gratos pelo apoio incondicional manifestado desde o início por Viviane Reding à ideia de uma Carta Europeia da Liberdade de Imprensa. Partimos, pois, do princípio de que a Comissão Europeia também respeitará esta Carta e contribuirá activamente para a sua promoção em toda a Europa. Ao mesmo tempo, expressamos a esperança de que, em futuras negociações de alargamento, o reconhecimento da Carta passe a ser uma condição para a adesão dos países candidatos. A preocupação principal da Carta reside em unificar a Europa também de um ponto de vista jornalístico e permitir que todos os nossos colegas possam invocar os seus princípios em caso de violação da liberdade de imprensa”.
Os dez artigos da Carta enunciam princípios fundamentais que os governos têm de respeitar nas suas relações com os jornalistas, nomeadamente a proibição de censura, o livre acesso às fontes nacionais e estrangeiras dos media e a liberdade de recolha e difusão de informações. A Carta sublinha ainda a necessidade de proteger os jornalistas para que não sejam vigiados nem espiados e exige um sistema judicial eficaz que proteja os direitos dos jornalistas (ver o texto integral da Carta no anexo). A Carta existe já em oito línguas (inglês, francês, alemão, dinamarquês, croata, russo, polaco e romeno), estando disponível em linha e aberta à assinatura dos jornalistas interessados.
A ideia da Carta da Liberdade de Imprensa nasceu em 2007, durante uma reunião entre a Comissária Reding, Hans-Ulrich Jörges e outros chefes de redacção de jornais e revistas europeus ( IP/07/713 ). Estes diálogos a alto nível entre a imprensa escrita e a Comissão são organizados anualmente, desde 2005, pelo Grupo de Trabalho da Comissão para os media , incidindo em diferentes temas (ver igualmente IP/05/1164 , IP/06/1445 e IP/08/1091 ). Este grupo é responsável pela análise de todo o material produzido pela Comissão, para que as iniciativas desta não afectem involuntariamente a liberdade editorial ou comercial da imprensa escrita. A Carta da Liberdade de Imprensa é um resultado concreto destas discussões frutuosas entre diversos media e a Comissão Europeia.
A Carta Europeia da Liberdade de Imprensa e a lista dos signatários estão disponíveis em http://www.pressfreedom.eu .
" A Carta da Liberdade de Imprensa, promovida pela comunidade dos jornalistas europeus, constitui uma importante reafirmação dos valores fundamentais, nomeadamente o pluralismo dos media e a liberdade de expressão e de informação, que são alicerces das tradições democráticas da Europa e estão consagradas em textos jurídicos fundamentais. Serve também para lembrar que só pode haver verdadeira liberdade de imprensa se as autoridades públicas desempenharem o seu papel, ou seja, se estiverem prontas para proteger a liberdade de expressão e promover o seu desenvolvimento", afirmou Viviane Reding, a Comissária Europeia para a sociedade da informação e os media . "A Carta constitui, pois, um passo importante para o reforço destes valores e direitos fundamentais, permitindo que os jornalistas os invoquem contra governos ou autoridades públicas sempre que sintam que a liberdade do seu trabalho está abusivamente ameaçada".
Hans-Ulrich J ö rges, chefe de redacção da revista alemã Stern e promotor da Carta, acrescentou: “Estamos muito gratos pelo apoio incondicional manifestado desde o início por Viviane Reding à ideia de uma Carta Europeia da Liberdade de Imprensa. Partimos, pois, do princípio de que a Comissão Europeia também respeitará esta Carta e contribuirá activamente para a sua promoção em toda a Europa. Ao mesmo tempo, expressamos a esperança de que, em futuras negociações de alargamento, o reconhecimento da Carta passe a ser uma condição para a adesão dos países candidatos. A preocupação principal da Carta reside em unificar a Europa também de um ponto de vista jornalístico e permitir que todos os nossos colegas possam invocar os seus princípios em caso de violação da liberdade de imprensa”.
Os dez artigos da Carta enunciam princípios fundamentais que os governos têm de respeitar nas suas relações com os jornalistas, nomeadamente a proibição de censura, o livre acesso às fontes nacionais e estrangeiras dos media e a liberdade de recolha e difusão de informações. A Carta sublinha ainda a necessidade de proteger os jornalistas para que não sejam vigiados nem espiados e exige um sistema judicial eficaz que proteja os direitos dos jornalistas (ver o texto integral da Carta no anexo). A Carta existe já em oito línguas (inglês, francês, alemão, dinamarquês, croata, russo, polaco e romeno), estando disponível em linha e aberta à assinatura dos jornalistas interessados.
A ideia da Carta da Liberdade de Imprensa nasceu em 2007, durante uma reunião entre a Comissária Reding, Hans-Ulrich Jörges e outros chefes de redacção de jornais e revistas europeus ( IP/07/713 ). Estes diálogos a alto nível entre a imprensa escrita e a Comissão são organizados anualmente, desde 2005, pelo Grupo de Trabalho da Comissão para os media , incidindo em diferentes temas (ver igualmente IP/05/1164 , IP/06/1445 e IP/08/1091 ). Este grupo é responsável pela análise de todo o material produzido pela Comissão, para que as iniciativas desta não afectem involuntariamente a liberdade editorial ou comercial da imprensa escrita. A Carta da Liberdade de Imprensa é um resultado concreto destas discussões frutuosas entre diversos media e a Comissão Europeia.
A Carta Europeia da Liberdade de Imprensa e a lista dos signatários estão disponíveis em http://www.pressfreedom.eu .
Liberdade de imprensa é essencial para uma sociedade democrática. Todos os governos devem defender, proteger e respeitar a diversidade dos media em todas as suas formas e políticas sociais e culturais.
Artigo 2
Artigo 2
A censura deve ser absolutamente proibida. Deve haver garantia de que o jornalismo independente em todos os meios é livre de perseguição, repressão e da interferência política ou regulatória por parte dos governos. Imprensa e media em linha não devem estar sujeitos a licenciamento do estado.
Artigo 3
Artigo 3
O direito dos jornalistas e dos meios de comunicação de reunir e divulgar informações e opiniões não deve ser ameaçado, restrito ou sujeito a punição.
Artigo 4
Artigo 4
A protecção das fontes jornalísticas deve ser rigorosamente amparada. Investigações nas redacções ou em outras instalações jornalísticas, vigilância ou interceptação de comunicações de jornalistas com o objectivo de identificar as fontes de informação ou infringir a confidencialidade editorial são inaceitáveis. Artigo 5Todos os estados devem garantir que os meios de comunicação gozem da protecção integral de um sistema judicial independente no exercício das suas funções. Isto aplica-se, em particular, à defesa dos jornalistas de agressões físicas e constrangimentos. As violações destes direitos e eventuais ameaças devem ser cuidadosamente investigados e punidos pelo Poder Judiciário.
Artigo 6
Artigo 6
A vida económica dos meios de comunicação não deve ser ameaçada ou controlada por parte do Estado, de instituições ou de outras organizações. A ameaça de sanções económicas é inaceitável. A iniciativa privada tem de respeitar a independência dos meios de comunicação e de se abster de obscurecer a distinção entre publicidade e conteúdo editorial.
Artigo 7
Artigo 7
O Estado não deve impedir a liberdade de acesso dos jornalistas e dos meios de informação. Ele é obrigado a apoiá-los na sua missão de prestar informações.
Artigo 8
Artigo 8
Meios de comunicação social e jornalistas têm o direito de livre acesso a todas as notícias e fontes de informação, incluindo os estrangeiros. Para isso, devem ser fornecidos aos jornalistas estrangeiros vistos, credenciais e outros documentos necessários sem demora.
Artigo 9
Artigo 9
Ao público de qualquer Estado deve ser garantido o livre acesso a todos os meios de comunicação nacionais e estrangeiros e às fontes de informações.
Artigo 10
Artigo 10
O estado não deve restringir ingresso na profissão de jornalismo.
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Notícias do Ocidente Ocidental
6.27.2009
Dum Vivimus, Vivamos
Enquanto Vivemos, Vivamos"Cada tres minutos, una mujer es golpeada.
Cada dez minutos, una muchacita es acosada...
Cada día aparecen en callejones,
En sus lechos,
En el rellano de la escalera, cuerpos de mujer."
– Ntozake Shange
Moderação, inteligência, partilha, são mais que slogans políticos da actualidade, ideias base ou valores da nova ética, democrática por assim dizer, desde que ousemos ser radicais, e se não quisermos sucumbir ao fado afonsino do vira o disco e toca o mesmo dos bailaricos saloios nas caves do provincianismo serôdio que já foi moderno, sim, no tempo da mola na calça para não nos sujarmos na corrente e dos Nicolaus-Trindades que pedalaram, entre perigos e guerras esforçados, mais
do que permitia a razão humana, para triunfo dos botas de elástico e consequentes comensais da lusofonia, em acérrimo leilão da portugalidade. Porque são enfim, deste tempo, outrossim, a marca de qualidade com que cada um pode cunhar a moeda de troca ao câmbio da sustentabilidade imediata, sem mediatismos, mas profundamente arreigada aos que preferem viver enquanto vivermos.Num carrão enorme, p.e., topo de lama do gamar enquanto dá, onde caberiam à vontadinha, pelo menos cinco pessoas, vai só uma e é de muito suspeita humanidade. Eis o principal fotograma, o frame típico e característico, retirado da película do nosso dia-a-dia, como uma das fundamentais atitudes industriais/transformativas (produzir monóxido de carbono unicamente a partir de dióxido de carbono, espécie de descoberta da pólvora prò fósforo) com que o Homo Popas nos vais corroendo a Rua Sésamo, até já esta não abrir para tesouro nenhum mas antes, salvo seja, desembocar num Rossio urbano, qual fórum constituinte onde mil e um ladrões arengam ser os legítimos eleitos Alibabás da política nacional. Mas anda acurar-se – diz-se, à boca pequena, em novas oportunidades de boca grande, na devoração do erário público–, porquanto frequenta os banhos quentes à propina numa estância (filial) de Bolonha e fermentação de leveduras rápidas, que ainda hão-de levar os hip-hip hurras à memória da pátria e seus egrégios cós, cãs e cá-cás para as foz e ribeiras, com firmes e tesas intenções de gramar com o canudo fita e laçarote de preceito, coisa que com sorte até pode ser habilitação suficiente para ingressar na carreira de caixa em qualquer hipermercado que mantenha a tradição de empregar por cunha e fazer concurso por aparência física, tipo miss de experimentar e deitar fora, como a pastilha elástica dos Taxi. E Gigélia Hirondina foi uma das afortunadas... Consegui-o!
F
ilha de Abril, gerada por geraldina em manif do MFA sob a palavra de ordem que garantia que as vacas são do povo, deram-lhe duro os pais para que nunca nada a ela faltasse, sobretudo das coisas que se vissem, e de inveja no uso comum lá na terra dos confins da (se)gregação, para escalas em socalcos vinhateiros de culto a Baco, sob as frondes mais viçosas e destemidas dos chorões açambarcadores e pedintes das gotas de água ao céu, do florbelino espancamento, para gáudio dos mocetões e arrelia da mulheraça. Só que ao cair do berço d'oiro aterrissou mal e saiu pencuda, que mais parecia descendente directa do Bocage, olhos desmedidos no sopé da cuja-dita, e dentes que, ao crescerem apertados, encavalitados em hora de fala impetuosa e incendiária, em hora de ponta empurrados prà saída da boca, à laia de lebre mal amanhada e com muita carqueja para não saber a gato, a quem o lábio inferior não se desenvolvera com desenvoltura e à-vontade, plantara-lhe o trejeito de Santa Bárbara bendita a rogar por melhores trovoadas, para raios e tridentes no bulício de trincar tubérculos e raízes várias, com receita Doc em Vale de Perdizes.Vai daí que um dia, cansada de apanhar no trombil, queixou-se à republicana do seu Xico, mas eles riram-se que nem uns perdigueiros, pois desconfiavam que ela gostava dos carinhos, andava é com modernices por ouvir às demais que os seus também lhe davam pra tabaco, mas tinham mão frouxa no enrolar da mortalha. «Pode lá ser», repetia Gigélia ao ouvir as vizinhas, sobre a cobardia e senilidade de seus machos já com as hastes a meia haste. «O meu zurze-me valentemente, mas ainda é home» garantia, quando elas vaconsigo no café, ou tasca da esquina, a moderação
dos costumes caseiros, e de como elas inteligentemente reivindicavam os seus direitos, nomeadamente o de apanhar com vigor, nada dessas mariquices de votar ao centro, que as incitava à cantoria do ele bate, bate, mas o jeep é meu, e aplaudir Tonho das Veredas nos arraiais e romarias dos santos pó-pulares.E com razão, esclareça-se como seu esclarecido argumento, que a elas ninguém pinta a manta, muito menos se «vierem para cá com latinórios e espanholices. Até porque se isso fosse importante prà gente», acrescentavam elas, «então porque é que o não dizem em língua que se perceba!?...»
O que me leva a concluir que a violência doméstica só é violenta conforme o dialecto em que se pratica. Que se for moderada, usada com inteligência e partilhada, outra coisa nunca será além de tradição, cultura e costume secular, que deve ser respeitado por antigo, ensinado por devoção e partilhado para regalo de quem se não esquece, nem permite, que de um momento para outro se apaguem mais de oitocentos anos de História. Nem mais. Ora, Eça!
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Crónicas dos Luís Não Vás
6.22.2009
Lançamento de Livro
S. Tomé e PríncipeProblemas e perspectivas para o seu desenvolvimento
Data e Local: 23 de Junho às 18.30 horas
Auditório Víctor de Sá
Universidade Lusófona
Av. do Campo Grande, 380-B, Lisboa
Data e Local: 23 de Junho às 18.30 horas
Auditório Víctor de Sá
Universidade Lusófona
Av. do Campo Grande, 380-B, Lisboa
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Notícias do Ocidente Ocidental
6.12.2009
Erro de Cidadania
"Tudo quanto é necessário para o triunfo do mal,é que os homens bons não façam nada."
E.Burke
Pode a alguns parecer que isto é uma questão de somenos, uma bagatela para entreter moleskines, um preciosismo intelectualóide, um comentário sobre insignificâncias, só que não o é, não é não, senhora, que é um alto lá de se lhe tirar o chapéu, desbarretar a careca, a coroa, porquanto é a ténue linha divisória entre a democracia representativa corporativista e democracia participativa da cidadania, confusão negligenciada a que se deve a maior fatia do nosso atraso, daquele que já temos mai-lo o outro que há-de vir, quer com as crises como endossado directamente das catacumbas e calabouços da insustentabilidade; ora, dizia eu, isto de se ser democrata não é para todos, não é nenhuma pêra doce, tem muito que se lhe diga, não nasce com a gente, ao contrário da bestialidade egocêntrica e hiperautoritária, microcéfala e criancista, que essa sim nos manda prà cova tal e qual viemos ao mundo, medíocres e lamechas, o que torna o facto grave, muito grave, deveras grave, mas tão grave, que nos põe nas "mãos" um problema agudo, acutilante e a
glutinador do bem-estar futuro, do desenvolvimento do amanhã, quero eu salientar, porquanto ninguém pode ser responsabilizado pelas más governações e piores políticas, nacionais, locais ou europeias, péssimas acções legislativas e parlamentares, sensaboronas presidências e catastróficas gestões autárquicas, visto que cada um que vota e elegeu os elementos, ou partidos que usufruem os respectivos poderes, fê-lo e fá-lo sempre de forma irresponsável, dado estar momentaneamente privado de consciência cívica, subtraído da sua identidade, falho de qualquer sentido ou juízo ético e de entidade, incapaz de responder por si e muito menos capaz de convocar a consciência dos que vai eleger, face à incontestável alienação da cidadania que é o facto de ter entregado, passado para as mãos de outrem, neste caso os componentes da mesa de voto, o seu (BI) Bilhete de Identidade, coisa que suponho deve estar à margem da lei, uma vez que o BI de qualquer pessoa é pessoal e intransmissível, tem que acompanhar sempre a indivíduo para onde quer que este vá, e não podendo ficar à mercê de estranhos, por maior que seja a credibilidade e honesta fama entre os demais cidadãos da urbe.Aliás, quem está nas mesas de voto pode aproveitar para pôr a sua coscuvilhice em dia, tirar dívidas acerca dos dados pessoais deste ou daquele eleitor, nomeadamente quanto à sua filiação, naturalidade, estado civil, idade, servir-se dessas informações no dia-a-dia futuro, quer para usufruir vantagens competitivas entre os congéneres da praça pública ou comercial, quer para ganhar protagonismo nos salões de cabeleireiro, cafés de afiar a língua, redutos de quadrilhice generalizada, incluindo os locais de trabalho da sua função de nada fazer além de trocar figurinhas e tricas com os colegas de sua igualha, sobre quem passa ou se detém fazendo algo onde lhe interrompem os ócios, impedem desfrute da mordomia e ameaçam tomar conhecimento e (até) contar alguns atentados às leis ou sensatez.
Portanto, onde está a estranheza pela elevada abstenção que em quaisquer eleições, não somente nas europeias, se verifica e ocorre? Que tipo de democracia é esta que põe a pessoa refém de uma mesa de voto, mesa essa que lhe confiscou momentaneamente a cidadania? Vivemos ainda no terceiro mundo ou aquilo que se apregoa na Constituição da República, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, não passa de mais uma demonstração da propaganda e
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Crónicas dos Luís Não Vás
6.06.2009
O Rosto e as Máscaras

“O poder é o domínio sobre outrem; ao poder sobre si próprio chama-se liberdade.”
Denis Rougemont
“Todas as histórias são autobiográficas. Só que umas começam por EU NASCI EM BUENOS AIRES, e outras começam por ERA UMA VEZ UMA RAINHA.”
Jorge Luís Borges
«Anda a monte. Dói-lhe a careca por dentro», garantiu Ludomila a Barnabiças e Ruffino, quando estes lhe perguntaram pelo sabichão das caligrafias, narrador dos sete entrecostados fritos, migas de pão e tintol sempre alumiado. «Se calhar, carregou a gorpelha, ontem?!?...», cepticou Ruffino, a quem as ausências do literato faziam transtorno na agenda. «Ele desconhece os limites, e depois... estranha!»
Companheiros e amigos, eu fiquei estupefacto, ou de facto feito estúpido, com o que acabava de ouvir, entrementes abri a porta da sala. Mais uma vez as minhas personagens «senhores, sim» sim, as minhas personagens estavam a trair-me, a criar enredos, a tecer imbróglios, a quadrilhar enfim, nas minhas costas. É como digo: não se pode confiar em ninguém. Nem na tinta da nossa tinta, gema do nosso ovo, clara da nossa santa intenção (transparente).
É óbvio que Ludomila sabe coisas sobre mim que nem eu próprio sei, ou desconfio saber. Além do que reconhece que só as mulheres muito bem vestidas merecem ser bem despidas e que há uma grande diferença (institucional ou não), entre ser-se uma menina boa e uma boa menina. Como igualmente sabe que eu desconheço a dissemelhança entre umas e outras e tomo muitas (bebidas). Mas isso não lhe dá o direito (ou esquerdo) de me boatar ao digníssimo esposo nem ao desnobre alimentador, apenas porque me demorei um tantinho superior na casa de banho, em abluções essenciais matutinas, orando pràs mecas, não!...Uma pessoa precisa de tempo para obrar se quer que o best-seller saia com cagança, apurado e perfeito!... Pois. Não pode andar por aí, com ideias de caca, a alardear-se em herói!... Não pode abastecer-se de fluxo comercial e querer qualidade! Nem ser culturalmente imberbe e exigir que os demais lhe prestem vassalagem.
Portanto – confesso... – quando me sentei à mesa de trabalho, de tão enfurecido e irado após a revelação, estava disposto a matar os três (mas especialmente a ela), e com mais do que uma morte torturadora e cruel para cada um, com pelo menos quatro garantidas para esta, a mila dos ludos, a ver se aprendia a não fazer bluffs com quem tanto lhe quer!... Todavia, recalcitrei, respirei fundo, ingeri a poeirada da 1º de Maio, assumi a postura de buda da felicidade, esbajeei um paivante de enrola caseira, e optei por mantê-la debaixo de olho em banho-barnabiças. Isso mesmo, ali, a mamar nos nabos do costume. Havia de engolir a sopinha toda, desse por onde desse, sem poder cuspir uma gotinha, sequer.
Por conseguinte disse-lhes, nas ventas «já é a segunda vez, que vocês me armam a ratoeira para apanhar o gato em contragarra. É bom que se compenetrem que somos uma equipa e não uma telenovela tipo ‘Dallas’, senão levam-nas. Uma equipa coesa, interessada no enredo e fortemente empenhada na narrativa. Ninguém recebe ordens lá de fora nem cá de dentro, como não são permitidas insurgências contra a estrutura romanesca actual. Quem se quiser amotinar ou frequentar outro formato deve sair da história e não levantar palha. Se querem guerrear entre vós quem mais pode, nunca se esqueçam do ditado chinês que diz que entre aquele que na batalha venceu milhares de milhares de homens e aquele que se venceu a si mesmo, este último é o grande vencedor, mas apresentem trabalho e façam a sopinha conforme a trama exige, e não segundo interesses exteriores estabelecidos partidariamente. Aqui não há vedetas nem discriminações de sedimentar e segmentar a colectividade. Deixem-se de panelinhas amaricadas e cumpram a vossa missão. Ok?!?»
O recado estava dado. Os restantes figurantes da tramóia foram entrando um a um, disfarçando o ar de caso que a grossura da atmosfera impunha. Pessoa não veio por andar com os heterónimos constipados (e contundidos); contudo, o era uma vez não se sentiu minimamente prejudicado, indo em frente, na sua determinação de dar de contar. A postos finalmente, entreolharam-se. Das suas entranhas adivinhava-se, dando à tona, o «bué de esquizo» usual em situações que tais, mas não me comovi. Às vezes é preciso ser duro, género Jorge Luís Borges de irredutível sombra, se se quer ditar as regras da história. Sobretudo porque brincadeira não é arte, antes treino, e deviam provar que estavam prontos prò que der e vier da acção literária, capazes de engendrar e assumir as maiores metáforas. Maduros para pertencer à grande família dos que não existem e sem-abrigo. É que senão, isto espalha-se... E depois? Moleza tem nome. E a ela se devem as maiores alcunhas, tantas e afamadas, que muitas chegaram inclusive a ter assento e assinatura nos anais da urbe, entre as demais nobrezas do registo civil. Porque entre a máscara e a pele vai uma distância tão curta que ninguém consegue discernir exactamente onde uma começa e acaba a outra, que chega a haver olhos que até do que vêem desconfiam, e em frente de si mesmos ao espelho jamais souberam se fitam ou são fitados. Se pertencem a uma máscara ou a um rosto... E mais não sabem da vida do que a solidão do ser!
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Reposições
5.29.2009
Famílias!
“Os quatro cunhados saem com frequência e vão até ao vale, aos viveiros de cravos, onde vivem as irmãs suas esposas. Por lá travam duelos misteriosos com as brigadas negras, fazem emboscadas e vendette como se levassem a cabo uma guerra por conta própria, por antigas rivalidades de família.”Ítalo Calvino, In O Atalho dos Ninhos de Aranha
(D. Quixote, p. 131, tradução de Maria do Carmo Abreu)
Embora tenha terminado o prazo de validade ao celebérrimo modelo das ordenanças para toda a vida, cuja suprema sabedoria consistia em tirar o curso, ser admitido na Ordem para depois fazer o que lhe desse na gana, típico do com que máfia aqui, máfia ali, cá vamos subtraindo e roendo o colectivo, o que parece é que a coisa continua activa por aí, dando nas vistas, descaradamente e retouçando nas barbas das chefias, caso estas intentem alterar o status quo.
A família, se transfigurada em modelo de grupo, deixa de ser família e passa a ser a célula primária do corporativismo. Transforma as relações humanas em relações mafiosas de marca, interesse, conveniência, defesa de honra, prestígio e autoridade, principalmente se estas se desenrolarem nos meandros dos poderes, quer sejam institucionais, periféricos, locais, regionais, como centrais; basta ao mafioso de Estado repetir (a senha) que a sua empresa, a sua corporação, a sua secretaria, a sua igreja, a sua congregação, o seu grémio, a sua confraria, a sua tuna, a sua tertúlia, o seu departamento, a sua escola é, ou funciona como uma grande família, para ficar de imediato subscrito no universo dos subentendimentos que sustenta o corporativismo para, enfim, participar de facto no espírito e da unidade que essa rede de organismos congrega, fingindo assim ignorar que há nela, no organismo ou corporação que tutela qualquer divisão de interesses entre chefes e subalternos, tal e qual como na Idade Média sucedia acerca dos escravos das grandes casas senhoriais, que teriam um estatuto de superiores até dos homens livres das pequenas casas.
Digamos que a efabulação profana do poder cria estatutos e escalas e graduações hierárquicas, mas que essas e esses apenas são válidos no interior do corpo, na definição das relações internas, pois que para o exterior cada um que tem a marca ou a chancela (na lapela) é um representante desse todo, a que os demais membros
honram com solidariedade absoluta, faça o que fizer, cometa o crime que cometer, o desvio, o roubo, o abuso de poder, o abandono de cliente, atropele Os Direitos Humanos, contra-aconselhe em vez de defender o seu constituinte, tenha uma atitude mercenária e de empenho na causa conforme aquilo que o cliente lhe possa pagar, não observe as normas éticas e/ou deontológicas da classe profissional, incentive ao crime os seus representados e aja socialmente na mira de sabotar a democracia e o Estado de Direito que na Constituição se nos instituiu, pactue com outras corporações ao abrigo do sigilo profissional retirando benefícios disso além da comum e ortodoxo troca de favores e tráfico de influências que lhes costumam estar associadas e são complementares, que o ditado popular do "uma mão lava a outra e as duas limpam a cara" tão magnificamente traduz e significa.Portanto, quando alguém diz "falar em nome de", ou representar determinada agremiação sindical, política, religiosa, étnica, territorial, classe, grupo, corrente estética, linha de pensamento ou teoria de vida, não está só a pregar-nos uma peta do tamanho da légua da Póvoa, mas também a camuflar a sua falta de argumento sobre o item em causa, a tentar crescer para além da sua (in)significância através do degrau da diferença que a pertença a uma organização ilusoriamente lhe confere. A cada momento de presença no colectivo ninguém representa mais ninguém a não ser a si mesmo, e é pelo seus actos, palavras, atitudes e pensamentos que responde, que é responsável, pois que sendo maior e emancipado e consciente é igualmente livre, ainda que esteja a representar um papel que o palco social lhe conferiu no teatro das acções colectivas, porque o indivíduo é uno e único na sua entidade jurídica, e não se pode considerar esta como um prolongamento oportuno e interessado da identidade social que lhe é própria.
Se há alguém que, por temor, receio e perda de estatuto, anda a tentar impressionar e manipular a opinião pública de que o chefe de uma corporação ou Ordem não defende os interesses dos seus "ordenados", dos seus membros e companheiros de confraria, porque este pactua com ilegalidades dentro de um Estado de Direito, então a grande falta não está no presidente dessa Ordem que cumpre o pressuposto de ninguém haver acima da Lei, exigindo que os seus membros também a cumpram, mas sim em quem tenta fazer malabarismos retóricos de iludir as perspectivas de realidade e adaptá-las aos seus códigos de honra, omitindo e tripudiando no código de ética que deviam professar e respeitar, seguir e afirmar. Porque isso sim, fazer de uma corporação profissional uma família, onde qualquer criminoso detém o mesmo grau de consanguinidade, direito a/efectivo em igualdade e respeito hierárquico, é extrapolar os limites e competências da corporação para o âmbito da máfia siciliana, de associação de associais, enfim, dar-lhe o estatuto de grupo de gangsters em vez de organização que agrupa, da base ao topo, todos os membros de uma mesma profissão, porquanto membro de uma profissão só o é, de facto, se agir em
conformidade com o código de ética e deontológico aprovado democraticamente pelos membros dela. E isto é válido também para os jornalistas, mesmo para os ditos das televisões igualmente ditas independentes.Marinho Pinto não precisa do meu apoio e solidariedade nesta sua demanda pela liberdade, democracia e Direitos Humanos, mas eu como homem livre só me sentirei verdadeiramente livre enquanto mantiver acesa a esperança que a advocacia é o primeiro passo da minha Liberdade, quer para mantê-la, como para sustentá-la. E, de fora, cada vez sinto mais que a cada palavra sua essa esperança me cresce.
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5.28.2009
LANÇAMENTO DO LIVRO:
LIVRO DE LINHAGENS DA VILA DE NISA – Um Mapa de Identidades, de Filipe Manuel Louro Carita e João Maria Melato CaritaApresentação: Dr. José Dinis Murta
Data: 31 de Maio às 17.00 horas
Local: Biblioteca Municipal de Nisa

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5.27.2009
Lançamento de Livro

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher
Data e Local: 27 de Maio às 18.00 horas
Fundação Calouste Gulbenkian – Auditório 3
Av. de Berna, 45A, Lisboa
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5.26.2009
Cláudia e Rafael
Soneto a duas tartarugas (que eu conheço)
Desexilado sou agora que me nomeaste aqui
Entroncamento de sentidos alerta na esquina
Adorno andrino no dorso da cidade imo de si
Estatueta breve em marfim ao Sol de Arina.
Da água a seiva húmida de coligir a pele senti
Sede sob a concha o corpo aos membros ensina
Que no frio é casa ou no estio o meio que escolhi
De guardar a asa do lento voo pelos rios acima.
Até à nascente do inclinado sol, o raio, a luz, a seta
Que a estrela que busco entra pela janel@ abert@
E torna cada segundo contigo mais que a hora certa.
Porém, o melhor da desibernação é este asterisco
Por cuja mão cresce o astro ou se clarifica a meta
E sacia o vício dando-me na boca precioso marisco!
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Sem Metros Barreiras
5.15.2009
Um poema de Al-Mutamid
Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena no papel escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.
Al-Mutamid (Beja, século XI)
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena no papel escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.
Al-Mutamid (Beja, século XI)
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Poemas Alheios
LIBERDADE
Liberdade, que estás no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão nosso de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem se ouvia.
Liberdade, que estás na terra
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei outro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
LIBERDADE, QUE ESTÁS EM MIM;
SANTIFICADO SEJA O TEU NOME.
Miguel Torga
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão nosso de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem se ouvia.
Liberdade, que estás na terra
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei outro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
LIBERDADE, QUE ESTÁS EM MIM;
SANTIFICADO SEJA O TEU NOME.
Miguel Torga
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Poemas Alheios
Player before Birth, por Louis Macneice
Súplica Antes de Nascer
(Player before Birth)

Ainda não nasci; escutem-me!
Não deixem nunca o morcego sanguissedento ou a ratazana ou a doninha ou o vampiro de pés aleijados chegarem ao pé de mim.
Ainda não nasci; consolem-me.
Temo que a raça humana com altas paredes me emparede, com drogas fortes venha a drogar-me, com enganos sábios enganar-me, em negras prateleiras e em banhos de sangue ensopar-me.
Ainda não nasci; dêem-me
Água para embalar-me, erva a crescer para mim, árvores que falem comigo, céu que cante para mim, pássaros e uma luz viva atrás do meu espírito, para me guiarem.
Ainda não nasci; desculpem-me
Os pecados que o mundo em mim vai cometer, as minhas falas quando me falarem, meus pensamentos quando me pensarem, minha traição engendrada por traidores atrás de mim, minha vida quando assassinarem por meio de minhas mãos, minha morte quando vivam por mim.
Ainda não nasci; contem-me
Os papéis que hei-de desempenhar, as minhas deixas quando os velhos me admoestem, burocratas me maltratem, os montes me façam má cara, amantes se riam de mim, as brancas ondas queiram entontecer-me, quando o deserto me chame para condenar, o mendigo recuse a minha esmola e os filhos me maldigam.
Ainda não nasci; oh! escutem-me,
Não deixem que se aproxime de mim o homem brutal ou o que se julga Deus.

Ainda não nasci; encham-me
De força contra aqueles que queiram congelar a minha humanidade, constranger-me a ser autómato letal, que queiram fazer de mim dente de uma engrenagem, uma coisa com face, uma coisa, e contra aqueles que queiram dissipar o meu todo, queiram assoprar-me como lã de cardo, para cá, para lá, ou pra cá pra lá, como água apanhada nas mãos, queiram entornar-me.
Não deixem que façam de mim uma pedra ou me entornem.
Caso contrário, matem-me.
Louis Macneice – 1907-
(Player before Birth)
Ainda não nasci; escutem-me!
Não deixem nunca o morcego sanguissedento ou a ratazana ou a doninha ou o vampiro de pés aleijados chegarem ao pé de mim.
Ainda não nasci; consolem-me.
Temo que a raça humana com altas paredes me emparede, com drogas fortes venha a drogar-me, com enganos sábios enganar-me, em negras prateleiras e em banhos de sangue ensopar-me.
Ainda não nasci; dêem-me
Água para embalar-me, erva a crescer para mim, árvores que falem comigo, céu que cante para mim, pássaros e uma luz viva atrás do meu espírito, para me guiarem.
Ainda não nasci; desculpem-me
Os pecados que o mundo em mim vai cometer, as minhas falas quando me falarem, meus pensamentos quando me pensarem, minha traição engendrada por traidores atrás de mim, minha vida quando assassinarem por meio de minhas mãos, minha morte quando vivam por mim.
Ainda não nasci; contem-me
Os papéis que hei-de desempenhar, as minhas deixas quando os velhos me admoestem, burocratas me maltratem, os montes me façam má cara, amantes se riam de mim, as brancas ondas queiram entontecer-me, quando o deserto me chame para condenar, o mendigo recuse a minha esmola e os filhos me maldigam.
Ainda não nasci; oh! escutem-me,
Não deixem que se aproxime de mim o homem brutal ou o que se julga Deus.
Ainda não nasci; encham-me
De força contra aqueles que queiram congelar a minha humanidade, constranger-me a ser autómato letal, que queiram fazer de mim dente de uma engrenagem, uma coisa com face, uma coisa, e contra aqueles que queiram dissipar o meu todo, queiram assoprar-me como lã de cardo, para cá, para lá, ou pra cá pra lá, como água apanhada nas mãos, queiram entornar-me.
Não deixem que façam de mim uma pedra ou me entornem.
Caso contrário, matem-me.
Louis Macneice – 1907-
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Poemas Alheios
5.14.2009
Os Remakes e a Posteridade
Remakes e posteridades: a 
TV e a cultura – eis mais uma contradição perfeita
“A televisão é o único soporífero que se toma pelos olhos.”
Vittorio de Sica
Muitos são os hábitos que a humanidade tem perdido ultimamente: entre eles, o de conversar, o de conviver pensando, criticando, apreciando, estabelecendo laços para além das conveniências, para além do bota-abaixismo do narcismo frustrado e da peste emocional, da rigidez caracterial e dos fundamentalismos vários com que os terroristas da cultura e da religiosidade tentam cumprir o seu medo e desconfiança pelo outro, por menos que o conheçam, sobretudo se ele não bate palminhas a toda a porcaria que geram, gerem e propalam, a confirmar o pressuposto do antigo ditado, antigo é claro mas jamais desactualizado, que "quem se mistura com merda fica sempre cagado". Aquele conversar entre amigos, no café, ainda que muitos o não sejam e não passem de inimigos com problemas de motivação, de que falavam o Aquilino ou o Raul Brandão no auge da nossa republicanidade e a propósito dos despropósitos das monarquiazinhas imperialistas que os egos deste e daquele regimental sistemático ia tentando implantar nesta ou naquela repartição. O de conversar entre colegas, no trabalho. Mas sobretudo, o de conversar em família sem parecer nem copiar as afamadas marcelistas (ou marceladas) Conversas em Família sobre o estado do Estado corporativista, que anteciparam e inspiraram os tempos de antena dos partidos do Bloco Central na televisão oficial portuguesa (RTP 1), dos domingos e segundas-feiras como sobremesa estragada para os telejornais cozinhados às três pancadas do "isto vai ou racha" nacional.
Bom: rachou... Tempos houve em que os serões se passavam à lareira, os novos embevecidos pelas histórias, peripécias, magicações, pilhérias, anedotas, fantasias, casos da vida real ou invenções dos espíritos menos atreitos no terra a terra, escutavam os mais velhos e experientes tentando com eles compreender-lhes a vida, mas também as práticas, ou reprogramando o seu software para gasto no futuro, tentando encontrar razão e absolvência por aquilo que nunca tivera justificação alguma, no entanto aconteceram de pleno e convictamente. Todavia, hoje isso é raro, penoso, pouco in e altamente condenável ou suspeito, se não houverem umas gajas a despirem-se enroladas ao varão ou uns musculosos labregos a darem à nalga de tanga. E será cada vez mais raro porque cada vez mais haverá mais televisão nas nossas vidas, remetendo para incomunicabilidade as horas de almoço ou jantar em família, cuja sopa se sorve entre um beijo lânguido da telenovela e um chuto patriótico do Cristiano Ronaldo, ou o bacalhau que derrapa no azeite da discórdia política acerca do preço das portagens, dos casos de polícia, das desavenças entre cristãos e mouros, meninos e meninas, Belas Vistas e burgos amuralhados de novo com ou sem Fórum Comercial, doutores e futricas de copinho de plástico e charro em riste. Trocou-se o quentinho do borralho pelo conforto do ar condicionado, assim como se trocaram as palavras caprichadas e subtis, pelos arrazoados da notícia brejeira ou a volúpia das galas do glamour, de mostrar a cuequinha aos marialvas da trapalhice no desfile das cornucópias e cornicópios em rodopio musical de karaoke e agência de espectáculos, aliás sumariamente contratada para os efeitos secundários e genéricos do receituário de Pedro e Paulo a dar as usuais Papas e bolos ao povo, com que se enganam os tolos.
A família, espaço de convívio e consanguinidade, de afecto e partilha, deixou portanto de ser uma unidade solidária para passar a ser um conjunto de pessoas indiferentes umas perante as outras, e destas perante todas as demais, mas apenas dependuradas pelos olhos do mesmo canal, ou talvez simplesmente agrupadas no mesmo apartamento, fechadas nos seus quartos a absorver a sua droga preferida, satisfazendo o seu apetite de televiciados incorrigíveis. Segundo alguns pensadores, como por exemplo John Condry, que afirma, no livro que fez em parceria com Karl Popper sobre o assunto, intitulado Televisão: um perigo para a democracia, editado entre nós pela Gradiva, em 1995, que a perturbação das crianças de hoje se deve “em parte ao passarem demasiado tempo em frente da televisão. Todo esse tempo é tempo roubado; a televisão rouba às crianças um tempo precioso para aprenderem a conhecer o mundo em que vivem e o lugar que nele ocupam” – como a escola rouba a capacidade que cada um tem de saber ser e saber estar, para melhor saber fazer e saber obedecer sem refilar ou pensar nos porquês que os sustentam e motivam.
É, por conseguinte, lógica esta preocupação crescente da cultura com os efeitos da TV, visto que ao assistirmos à descaracterização da família e dos seus hábitos, estamos consequentemente a assistir ao seu resultado, que é o da descaracterização da sociedade, porém a dita cultura é cada vez menos culta, menos artística e mais monástica, mística e terapêutica, tipo de ajudar velhinhos e velhinhas a manterem a forma psicológica à custa daqueles que tradicionalmente e toda a vida prejudicaram, acrescentado que a sociedade é também cada vez menos sociedade e mais seita gerontológica em que a supragenialidade assenta no gagaísmo dos seus conceituados membros. O que é preciso é estar gá-gá e cagar postas de pescada acerca dos bons velhos tempos, tal e qual como estou a fazer agora, para ser considerado genial e nobelizado, pois que o que é bom, sempre bom, para lá de óptimo como dizem nas novelas brasileiras, é aquilo e são aqueles que não prestam para mais nada, a não ser para serem bons, embora se desconheça para quê e, principalmente, em quê!
E vós, irmãos e irmãs, já vistes que bom que eu sou?!... Então não percam a oportunidade e informem-me de como podem (e até conseguem...) ser ainda melhores do que eu, em absolutamente tudo, que por assim dizer, só terá um lógico e equivalente significado, que é o mesmo e exactamente em nada. Quem diria!

TV e a cultura – eis mais uma contradição perfeita
“A televisão é o único soporífero que se toma pelos olhos.”
Vittorio de Sica
Muitos são os hábitos que a humanidade tem perdido ultimamente: entre eles, o de conversar, o de conviver pensando, criticando, apreciando, estabelecendo laços para além das conveniências, para além do bota-abaixismo do narcismo frustrado e da peste emocional, da rigidez caracterial e dos fundamentalismos vários com que os terroristas da cultura e da religiosidade tentam cumprir o seu medo e desconfiança pelo outro, por menos que o conheçam, sobretudo se ele não bate palminhas a toda a porcaria que geram, gerem e propalam, a confirmar o pressuposto do antigo ditado, antigo é claro mas jamais desactualizado, que "quem se mistura com merda fica sempre cagado". Aquele conversar entre amigos, no café, ainda que muitos o não sejam e não passem de inimigos com problemas de motivação, de que falavam o Aquilino ou o Raul Brandão no auge da nossa republicanidade e a propósito dos despropósitos das monarquiazinhas imperialistas que os egos deste e daquele regimental sistemático ia tentando implantar nesta ou naquela repartição. O de conversar entre colegas, no trabalho. Mas sobretudo, o de conversar em família sem parecer nem copiar as afamadas marcelistas (ou marceladas) Conversas em Família sobre o estado do Estado corporativista, que anteciparam e inspiraram os tempos de antena dos partidos do Bloco Central na televisão oficial portuguesa (RTP 1), dos domingos e segundas-feiras como sobremesa estragada para os telejornais cozinhados às três pancadas do "isto vai ou racha" nacional.

Bom: rachou... Tempos houve em que os serões se passavam à lareira, os novos embevecidos pelas histórias, peripécias, magicações, pilhérias, anedotas, fantasias, casos da vida real ou invenções dos espíritos menos atreitos no terra a terra, escutavam os mais velhos e experientes tentando com eles compreender-lhes a vida, mas também as práticas, ou reprogramando o seu software para gasto no futuro, tentando encontrar razão e absolvência por aquilo que nunca tivera justificação alguma, no entanto aconteceram de pleno e convictamente. Todavia, hoje isso é raro, penoso, pouco in e altamente condenável ou suspeito, se não houverem umas gajas a despirem-se enroladas ao varão ou uns musculosos labregos a darem à nalga de tanga. E será cada vez mais raro porque cada vez mais haverá mais televisão nas nossas vidas, remetendo para incomunicabilidade as horas de almoço ou jantar em família, cuja sopa se sorve entre um beijo lânguido da telenovela e um chuto patriótico do Cristiano Ronaldo, ou o bacalhau que derrapa no azeite da discórdia política acerca do preço das portagens, dos casos de polícia, das desavenças entre cristãos e mouros, meninos e meninas, Belas Vistas e burgos amuralhados de novo com ou sem Fórum Comercial, doutores e futricas de copinho de plástico e charro em riste. Trocou-se o quentinho do borralho pelo conforto do ar condicionado, assim como se trocaram as palavras caprichadas e subtis, pelos arrazoados da notícia brejeira ou a volúpia das galas do glamour, de mostrar a cuequinha aos marialvas da trapalhice no desfile das cornucópias e cornicópios em rodopio musical de karaoke e agência de espectáculos, aliás sumariamente contratada para os efeitos secundários e genéricos do receituário de Pedro e Paulo a dar as usuais Papas e bolos ao povo, com que se enganam os tolos.
A família, espaço de convívio e consanguinidade, de afecto e partilha, deixou portanto de ser uma unidade solidária para passar a ser um conjunto de pessoas indiferentes umas perante as outras, e destas perante todas as demais, mas apenas dependuradas pelos olhos do mesmo canal, ou talvez simplesmente agrupadas no mesmo apartamento, fechadas nos seus quartos a absorver a sua droga preferida, satisfazendo o seu apetite de televiciados incorrigíveis. Segundo alguns pensadores, como por exemplo John Condry, que afirma, no livro que fez em parceria com Karl Popper sobre o assunto, intitulado Televisão: um perigo para a democracia, editado entre nós pela Gradiva, em 1995, que a perturbação das crianças de hoje se deve “em parte ao passarem demasiado tempo em frente da televisão. Todo esse tempo é tempo roubado; a televisão rouba às crianças um tempo precioso para aprenderem a conhecer o mundo em que vivem e o lugar que nele ocupam” – como a escola rouba a capacidade que cada um tem de saber ser e saber estar, para melhor saber fazer e saber obedecer sem refilar ou pensar nos porquês que os sustentam e motivam.
E vós, irmãos e irmãs, já vistes que bom que eu sou?!... Então não percam a oportunidade e informem-me de como podem (e até conseguem...) ser ainda melhores do que eu, em absolutamente tudo, que por assim dizer, só terá um lógico e equivalente significado, que é o mesmo e exactamente em nada. Quem diria!
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Crónicas dos Luís Não Vás
5.13.2009
Poema de Natália Correia

(De) SETE MOTIVOS DO CORPO
por Natália Correia
por Natália Correia
6.
Quando em halo de fêmea húmida e quente
São íntimas ao fogo as ancas sábias,
Está o corpo maduro no seu tempo
Aromático de rosas esmagadas.
São as Circes: fogueiras reclinadas
Como panteras em nuvens de magnólias;
Coxas versadas em abrir às lavas
Do desejo confins de lassas glórias.
Do amor, lúcida e plena anatomia;
Magníficas mulheres com flor e fruto;
Corpos de vagarosa fantasia
Que a febre afunda em estrelas de veludo.
Num esplendor de poentes envolvidas,
Sentadas têm pálpebras de violetas;
Mas erguem-se abrasadas; e despidas
São um verão a sair de meias pretas.
E aos seus leitos de prata e tílias altas
Ébrios de lua sobem os mancebos.
Elas enterram-se nuas como espadas
Nas suas virilhas e armam-nos cavaleiros.
Ó sazonada carne que circunda
De asas, abismos e suados cumes
O mistério do ovo, dando sombra
Ao pénis que procura o fim do mundo.
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Poemas Alheios
5.12.2009
Natal de Junho
Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo euromilhões e totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações: Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incóginto. Disseram-no de seguida ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara Bendita em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso, da ordem, da família e de São Tinto, e de como ele iria condicionar a posteridade delas, num futuro senão próximo, pelo menos com prazo certo ou ainda em vida de ambas.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas) muito para além da mercearia na esquina da rua.
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se acertava como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.
Ao princípio magoara-lhe a sina tida, doeram-lhe assim por dentro as entranhas, todavia com o correr das cortinas conformou-se, habituou-se ao costume de arrear o hábito, abriu-se de escancaras às benfeitorias do rancho untado na tulha farta da patroa, montou esteira com horário nobre (das 15 às 23:50 horas - excepto aos domingos, que eram dias santos) no quarto dos fundos, entre os fardos de bacalhau e sacos de arroz, e abotoou-se com as gorjetas dos que achavam que ela merecia mais do que os 20 paus que a taberneira apreçara por cada visita. Alguns foram tão bem servidos que lhe puseram outro tanto em mãos, só para darem uma marca de marxismo ao lenocinismo explorador da proprietária do estabelecimento. Gratos. E revolucionários.
Outros, depois da coisa feita ainda regateavam a carestia do serviço, atidos pela semelhança na função, público da reserva pública era o que era, que só mostrava bons modos quando precisava que lhe aprovassem os orçamentos para a engenharia dos dias, mas a quem, logo que obras em vias, cortava nos materiais para ajustes e garantia dos respectivos complementos profissionais...
Só que, é claro, o nascimento soou-se na freguesia, e os hipotéticos ou possíveis pais, organizaram visitas de estudo ao rebentinho a ver se era seu descendente. Uns que sim; outros, que não. Instalou-se a dúvida e confusão em muitas consciências, para as quais o peso, nem sempre era contrabalançado pelo tamanho dos cornos das esposas, umas mais sentidas que outras, quer católicas e bragantinas como devassas desde o berço amuralhado nos vímaros henriquinos do condado. Então fizeram-se apostas, sondagens e, finalmente, foi-se a votos, para definir em definitivo o provisório direito da paternidade. Restaram três, de quantos por experiência no ir às gajas, aparentavam melhor nas feições e tiques no mamar, que é conduta com que se acondutam as promessas de futuro que, embora se aperfeiçoam no colo da amamentação, tem as suas origens nos códigos e livros brancos da pré-natalidade. Ora, como terceiro, não era arde nem reich, puseram-no de fora por falha do sistema, restaram dois candidatos de peso.
De coimbrã académica salteou-se a parlamentária alfacinha, que de futrica aproveitara há muito o f... em legislaturas várias. Porém, a mãe e avó insatisfeitas, avaliaram as expectativas, abonos, contas-correntes, vantagens competitivas, facilidades na educação, oportunidades formativas, directivas póstumas na controvérsia dos planos e tratados, estratégias e estratagemas missionários, e a mãe optou por conceder o voto de qualidade à descendente e herdeira detentora do cargo em título, sem quarentena para qualquer gripe, e única com registo incontestável no xarope da verdade: «Diz tu filha, tu é que sabes, tu é que viste o desempenho que cada um teve, nesse dia...»
Então ela disse «foram os dois mãezinha, foram os dois a meias», como todos puderam ouvir, enfim testemunhar, que aqui não se mente, «sim mãezinha, foram os dois, foram os dois, que naquele dia não trabalhei para mais ninguém, e mesmo assim não 'tive um bocadinho parada».
Era a vitória do bloco central. E os demais montaram-se nos seus lindos carrinhos para desfilar em voltas e voltas aos burgos, buzinando embandeirados cantando o hino e gritando Viva República!
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TRÊS POEMAS JAPONESES
1.
Eis que hoje estou pensado:
Valho menos que qualquer.
Para o que vá perdoando
Comprarei
E levarei
Flores a minha mulher.
– Ishikana Takuboku
2.
É manhã de Verão. Mas já as folhas
Da figueira que seca se enferrujam
E murmuram no vento
E nos ramos que lhe tremem que lhes fujam.
Dormir ou não dormir? Os fios eléctricos,
Neles cigarras cantam, vão pelo céu acima;
Murchas, as folhas tremem e os ramos temem
O fim que se aproxima.
Dormir ou não dormir? Quieto e escuro o céu,
O céu que os fios cortam,
Nuvens cobrindo o sol com seu véu.
Cigarras tão distantes a meus ouvidos.
E os que eu amo – perdidos.
– Mamayara Chuya
3.
As costas da mulher no espelho se espelhando
Brilho macio de cera. Castanha, a cabeleira,
No dorso seu tão liso luz de fosforescência.
Borla de pó caída no lençol que, formando
Com rugas de seu pano a carta marinheira
De águas mediterrâneas, a Abril representa
Em sua ausente essência.
E o transe da mulher. Como cantava
Com as linhas do corpo ruas de sua aldeia
E a ladeira do porto e o vinho que espumava
E a concertina
E até a chuva sobre o polido corpo se passeia.
Pela janela atira a borla. Da janela atirada
Lá vai como flor que o sol espera
E é luar mediterrâneo e perfume no ar a Primavera.
– Kondo Azuma
Eis que hoje estou pensado:
Valho menos que qualquer.
Para o que vá perdoando
Comprarei
E levarei
Flores a minha mulher.
– Ishikana Takuboku
2.
É manhã de Verão. Mas já as folhas
Da figueira que seca se enferrujam
E murmuram no vento
E nos ramos que lhe tremem que lhes fujam.
Dormir ou não dormir? Os fios eléctricos,
Neles cigarras cantam, vão pelo céu acima;
Murchas, as folhas tremem e os ramos temem
O fim que se aproxima.
Dormir ou não dormir? Quieto e escuro o céu,
O céu que os fios cortam,
Nuvens cobrindo o sol com seu véu.
Cigarras tão distantes a meus ouvidos.
E os que eu amo – perdidos.
– Mamayara Chuya
3.
As costas da mulher no espelho se espelhando
Brilho macio de cera. Castanha, a cabeleira,
No dorso seu tão liso luz de fosforescência.
Borla de pó caída no lençol que, formando
Com rugas de seu pano a carta marinheira
De águas mediterrâneas, a Abril representa
Em sua ausente essência.
E o transe da mulher. Como cantava
Com as linhas do corpo ruas de sua aldeia
E a ladeira do porto e o vinho que espumava
E a concertina
E até a chuva sobre o polido corpo se passeia.
Pela janela atira a borla. Da janela atirada
Lá vai como flor que o sol espera
E é luar mediterrâneo e perfume no ar a Primavera.
– Kondo Azuma
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4.29.2009
Integração Europeia, Relações Ibéricas e Política de Regionalização

LANÇAMENTO DO LIVRO:
Integração Europeia, Relações Ibéricas e Política de Regionalização
Coesão, diversidade e cooperação territorial na União Europeia
da autoria de António Covas

Integração Europeia, Relações Ibéricas e Política de Regionalização
Coesão, diversidade e cooperação territorial na União Europeia
da autoria de António Covas

Data e Local: 30 de Abril às 18.30 horas no Auditório Afonso de BarrosISCTE – Alameda das Forças Armadas, Lisboa
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Notícias do Ocidente Ocidental
4.23.2009
Efeméride
Publicada por
Joaquim Maria Castanho
em
10:25 AM
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3.27.2009
Feijão Padre
"Quando um homem tem a liberdade de proceder como quer,em geral, imita os outros."
E. Hoffer
Porém, se cinquenta milhões de pessoas disserem uma tolice, não há-de ser por isso que ela vai deixar de ser tolice (como Bertrand Russel disse). Aliás, eu nunca me repito; e, contudo, digo sempre a mesma coisa... É que, de onde moro, alcanço Alentejo até à linha do horizonte; e tudo quanto existe no mundo é um retrato do mundo: a poesia, a prosa, o cinema, a pintura, a fotografia, a arquitectura, a Lei, a religião, os sonhos, a ciência, o símbolo, o mito, o simples e pequeno escaravelho, a preciosa e requintada esmeralda fluorescente, a verdade da vontade ou mesmo a mentira por bem e sem querer. Tudo. Agora, o que resta definir, é se ele é a corpo inteiro ou apenas de uma fracção dele, bem como se sobre o retratado o zoom aplicado é de aumentar ou para diminuir... para esclarecer as sombras, ou obscurecer as luminosidades, os brilhos reflexos ou as concavidades brumosas sob o acumulado dos vértices.
Em resumo: parece óbvio que promoveram o Carnaval à custa do Magalhães, mas não igualmente o Magalhães a expensas do Carnaval, como seria respeitável à luz das relações de troca (directa) em que subsiste o mercado das ideias e iniciativas no quorum social, com efeito prático na edificação identitária de um povo, a quem os cincos dias de Entrudo não chegaram para aporrinhar o parceiro nem parodiar as bazófias da actualidade, ou sequer para exercer o seu mister inquisitório de missionário moderno excomungando à direita e à esquerda, como quem vai dando milho aos pombos, pataca-a-ti, pataca-a-mim, coisa sobejamente pura e cristã, no combate aos pecadores do santíssimo sacramento que querem casar não para procriar mas para fornicar, coitados, porquanto acham merecerem autorização de o fazer às escancaras, às claras, não na escuridão carmelita da unidade do facto, mas na iluminação imaculada do registo civil, sabendo-se, como se sabe, que se lhe tirarem esse pendor proibido ao fruto ele deixará de ser o mais apetecido, logo fugaz e de somenos, até nos confessionários da meia luz ou nas sacristias de branco caiadas sob o beato pincel, que isso do casados de fresco não para todos e todas, a não ser que tenham tabuleta para assentar no cui-dado da santa madre, tal e qual como aconteceu ao Charlin Chaplim quando ganhou um andar novo na Rua dos Dez Pràs Duas.
Ora o identi-kit, método de construção dos traços fisionómicos de um indivíduo, mediante fontes díspares, usualmente empregue pela polícia criminal, aponta as responsabilidades da acção obscura de "denegrição" do Magalhães para os industriais da Farinha 33, número também conhecido na esotérica linguagem tipográfica por K
K, não só por serem eles os principais Anteros lesados com a evolução das TIC, mas também por verem nele, no Magalhães, o princípio do fim do seu império (e monopólio) na exploração dos manuais didácticos em suporte-papel, que tem sido a sua galinha dos ovos de ouro nos últimos cem anos em Portugal, e na Europa desde Pedro Ramus o que, no mínimo, é tosse, arre-pio de Bastilha, traque de quem comeu banana podre sobre a mesa dos paramentos. Catarro de carroceiro, que duas voltas ao mundo dadas e bastos diplomas no cu-rrículo vital, continua a beber a mesma aguardente JB e a escarrar no passeio dos caminhos de casa!... A impor a sua ignorância como supra-sumo do conhecimento dos demais, a fazer clones dos blogues de sucesso para ter alguma audiência, a abordar infantilmente a realidade na esperança de que ninguém note o seu envelhecimento, a sua caducidade e o seu narcisismo murcho, aviagrado para vingancinhas de mafioso desempregado ou empresário à beira de um ataque de servos. Vai daí, vejam bem, bate com o punho na palma do bem-feita a dizer asneiras entredentes, esconjuro antigo que ajudou muitos a prender o burro, e ainda ajuda, é claro, na argola dos arcos e portas, sobretudo se ele se põe à solta na torna baldia, a mostrar a doença nas manhãs de sol, para se especar melhor ante a brisa nos outeiros, semear a inveja nos homens e colher o suspiro das mulheres, aquele "ai" que vem do fundo que só ele alcançaria, caso o pecado não acarretasse também o bocado maior. Todavia, das duas caras que já não tem, apenas lhe ficou a mais negra da batina, nas surrobecas das Tunas, quando estendidas no chão da memória para os gloriosos passarem, somente servem de esfregão para limpar a calçada portuguesa do vomitado etílico dos pobres de espírito, numa feijoada demente, e pela qual rezamos, para que dela não fique semente... Quer dizer: sujidade, restos da peste emocional e rigidez caracterial que empestam a humanidade!
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3.26.2009
Ecologia Política

Desde há muito tempo que os arrivistas políticos têm vindo a usar a ecologia como biombo e trampolim de impulsão, na tentativa de ascenderem aos mais altos cargos da nação. A coisa não é novidade nenhuma, e já em 1981, António Elói, na rubrica Ponto de Encontro, que era aquela secção aberta à participação dos leitores, na Revista Sobreviver, apontava as linhas gerais desse contencioso que o tempo, ao contrário do esperado, por tudo resolver, apenas agravou. Dada a pertinência e desenvoltura do texto, em seguido o transcrevo, para que não restem dúvidas a quem pensa que está agora a descobrir a pólvora pròs fósforos, que essa atitude foi bastante comum em precoces datas, andaria ainda a ecologia de fraldas e gatinhas, arriscando sérias quedas dos bordos da democracia portuguesa, também ela sobejamente imberbe e de faces extraordinariamente salpicadas pelo acne da abrilenta adolescência política. Ei-lo:
O MOVIMENTO DA ECOLOGIA POLÍTICA
A luta ecológica não é um fim em si, é um meio
1.
A ecologia, não obstante o seu carácter difuso e pouco teorizável, não obstante ter uma pequena dimensão, a dimensão das coisas e das pessoas, foi, é, vai sendo apropriada por técnicos e políticos.
A ecologia vai sendo roubada àqueles que passeiam, ao longo do rio e sabem que o amor é uma mão, um olhar que troca. Àqueles que transformaram o cor-de-rosa dos sonhos em realidades.
Técnicos e políticos apoderaram-se da ecologia. Uns transformaram-na em dados frios e escuros de números e estatísticas, em coeficientes e projectos antipoluição. Outros encontram aí o maná de Canaã, a receita contra o esquecimento; a novidade e inovação que falta a quem não tem imaginação...
E nós? Vamos deixar de ser ecologistas? Vamos superar o actual estado de fraqueza e dispersão em que nos encontramos? Que fazer?, para glosar um velho político.
A resposta é individual, mas é pensada em termos de um colectivo. É a ocupação de um espaço de vida. É o tempo e o movimento.
2.
As experiências e vivências de outros podem ser-nos úteis, mas quando buscamos nuns lábios outros infinitos é sempre diferente. O sangue que percorre o nosso corpo vai-se renovando em cada momento. Temos de encontrar o nosso momento, o tempo de transformar. Eu. Tu. A Vida.
A teoria é o abstracto que se vive: são os nossos desejos pensados em fórmulas. Há que dar aos desejos realidade. A ecologia política é o assumir dessa realidade. É a recusa da ecologia como cantinho das novidades dos políticos. É dizer Nós e significar que os políticos são uma parte, o passado da vida. O futuro é amanhã.
Para Nós a ecologia política não precisa de se definir. É o espaço de cada um e de todos. Das mulheres em luta pelo seu ser. Dos poetas em luta contra o nuclear. Das flores, da não-violência em luta contra o barulho. O espaço do sonho onde cabe a antipsiquiatria e o dissidente soviético, a cultura e o guerrilheiro afegão, os sábados livres e o operário polaco, a diferença e os indígenas americanos. E cabem todos aqueles que lutam individual e colectivamente pela justiça. O salvadorenho, o negro do Soweto, a mulher somali e tantos, todos os outros. E esses, somos nós que queremos viver Hoje e Aqui.
3.
A ecologia política é um espaço muito grande, mas à medida de cada um, porque a ecologia política não é uma doutrina, um credo, não é tão-pouco uma referência. É uma prática.
Como todas as práticas é polimorfa e contraditória. É um local onde podemos concordar ou discordar, mas onde fundamentalmente podemos empreender a gestão colectiva da nossa vida e, essa, é sempre diferente.
O Movimento da Ecologia Política não precisa de programa, nem de declaração de princípios, esses são aquilo que cada um entenda. Os estatutos do Movimento são um quadro amplo onde os colectivos se encontram, funcionam como protecção jurídica e política.
Na Alemanha o Movimento Verde, em Itália o Partido Radical, em França o movimento embrionário que surge a partir do colectivo Gueule e do movimento autogestionário são algumas das referências que podem servir de parâmetros ao Movimento em Portugal. Ter em conta a distância cultural, sociológica e política é essencial, assim como é essencial ter em conta que a vida, o amor é sempre diferente e sempre um.
4.
Os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas fantasias convertem-se numa realidade. No movimento da ecologia política. Aqui, hoje, estamos solitários face ao papel branco. Amanhã, quando percorrer as ruas cinzentas da nossa cidade, vou-me recordar que a vida não é só as bandas desenhadas que lemos no nosso divã, nem se esgota no fumo que sai dos meus olhos. Está também nos sentimentos. Num sorriso, numa carícia. E que a revolução é uma festa de cada dia. É o sonho com as noites cálidas da Primavera...
Obrigado António Elói, e desculpa esta quase indevida apropriação das tuas palavras: é que elas hoje ainda nos fazem falta!
O MOVIMENTO DA ECOLOGIA POLÍTICA
A luta ecológica não é um fim em si, é um meio
1.
A ecologia, não obstante o seu carácter difuso e pouco teorizável, não obstante ter uma pequena dimensão, a dimensão das coisas e das pessoas, foi, é, vai sendo apropriada por técnicos e políticos.
A ecologia vai sendo roubada àqueles que passeiam, ao longo do rio e sabem que o amor é uma mão, um olhar que troca. Àqueles que transformaram o cor-de-rosa dos sonhos em realidades.
Técnicos e políticos apoderaram-se da ecologia. Uns transformaram-na em dados frios e escuros de números e estatísticas, em coeficientes e projectos antipoluição. Outros encontram aí o maná de Canaã, a receita contra o esquecimento; a novidade e inovação que falta a quem não tem imaginação...
E nós? Vamos deixar de ser ecologistas? Vamos superar o actual estado de fraqueza e dispersão em que nos encontramos? Que fazer?, para glosar um velho político.
A resposta é individual, mas é pensada em termos de um colectivo. É a ocupação de um espaço de vida. É o tempo e o movimento.
2.
As experiências e vivências de outros podem ser-nos úteis, mas quando buscamos nuns lábios outros infinitos é sempre diferente. O sangue que percorre o nosso corpo vai-se renovando em cada momento. Temos de encontrar o nosso momento, o tempo de transformar. Eu. Tu. A Vida.
A teoria é o abstracto que se vive: são os nossos desejos pensados em fórmulas. Há que dar aos desejos realidade. A ecologia política é o assumir dessa realidade. É a recusa da ecologia como cantinho das novidades dos políticos. É dizer Nós e significar que os políticos são uma parte, o passado da vida. O futuro é amanhã.
Para Nós a ecologia política não precisa de se definir. É o espaço de cada um e de todos. Das mulheres em luta pelo seu ser. Dos poetas em luta contra o nuclear. Das flores, da não-violência em luta contra o barulho. O espaço do sonho onde cabe a antipsiquiatria e o dissidente soviético, a cultura e o guerrilheiro afegão, os sábados livres e o operário polaco, a diferença e os indígenas americanos. E cabem todos aqueles que lutam individual e colectivamente pela justiça. O salvadorenho, o negro do Soweto, a mulher somali e tantos, todos os outros. E esses, somos nós que queremos viver Hoje e Aqui.
3.
A ecologia política é um espaço muito grande, mas à medida de cada um, porque a ecologia política não é uma doutrina, um credo, não é tão-pouco uma referência. É uma prática.
Como todas as práticas é polimorfa e contraditória. É um local onde podemos concordar ou discordar, mas onde fundamentalmente podemos empreender a gestão colectiva da nossa vida e, essa, é sempre diferente.O Movimento da Ecologia Política não precisa de programa, nem de declaração de princípios, esses são aquilo que cada um entenda. Os estatutos do Movimento são um quadro amplo onde os colectivos se encontram, funcionam como protecção jurídica e política.
Na Alemanha o Movimento Verde, em Itália o Partido Radical, em França o movimento embrionário que surge a partir do colectivo Gueule e do movimento autogestionário são algumas das referências que podem servir de parâmetros ao Movimento em Portugal. Ter em conta a distância cultural, sociológica e política é essencial, assim como é essencial ter em conta que a vida, o amor é sempre diferente e sempre um.
4.
Os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas fantasias convertem-se numa realidade. No movimento da ecologia política. Aqui, hoje, estamos solitários face ao papel branco. Amanhã, quando percorrer as ruas cinzentas da nossa cidade, vou-me recordar que a vida não é só as bandas desenhadas que lemos no nosso divã, nem se esgota no fumo que sai dos meus olhos. Está também nos sentimentos. Num sorriso, numa carícia. E que a revolução é uma festa de cada dia. É o sonho com as noites cálidas da Primavera...
Obrigado António Elói, e desculpa esta quase indevida apropriação das tuas palavras: é que elas hoje ainda nos fazem falta!
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Poemas Alheios
3.24.2009
Na Curva da àgua Férrea

(Crónica Literária publicada em O Distrito de Portalegre)
"Uma coisa é certa quando tende para preservar a integridade, a estabilidade
e a beleza da comunidade biótica. E é errada quando tende no sentido oposto."
Aldo Leopoldo, in A Ética da Terra
Cruzam-se novos rumos ao infinito (das bocas). Em vésperas de partilha e confraternização, insolentes por sofreguidão de afectos, eis que os factos se levantam a repique, e a aldeia amanhece global, como num dia de festa. Do coreto, um adufe que não se cansa, alicerça seu toque ao ritmo do coração da planície, e empresta-lhe o balanceado vaivém do cante, que os jornaleiros pendulam de braço dado, para adormecer o menino que ainda lhes não morreu dentro. Um, dois, um, dois, um, dois, passo a passo, o poeta das auroras verdes chega para sublinhar que se alguém perguntar por mim, diz que não estou, que fui prò jardim, com a saudade que dele me ficou...
Todavia, da curva do tempo, os nomes, sempre os nomes, plantados aqui e ali, no recato de qualquer esquina entre as vielas da urbe, regados pela Água Férrea que brota da serra, num murmúrio de Arina escondida, soerguem-se à vez, como lacrimoso mas colorido eco, nos alegretes de luz, e perfilam-se à volta das muralhas, num labirinto de invocações, porque nenhuma nomeação lhe é alheia. Minha avó me disse um dia, que aquilo que escorria, da fonte dos caminhos, água não seria porventura, mas lágrimas choradas, pela moura encantada, que na Penha enclausurada, assim dava notícia da sua amargura. Ora, não obstante a espécie que me fazia, tal receio ou constatação, o que é certo é que havia, quando se aproximava o Verão, mão anónima que lhe punha à volta da bica, nobre laço de junça tenra, e a água antes férrea, então benta lhe corria.
Pouca pode ser a significação, porém ela afirmava, que essa dita invenção, já a avó dela lha referia, por tê-la ouvido também à avó da bisavó um dia, em que a ela foram dessendentar-se num lusco-fusco de S. João. E talvez por isso, hoje eu lhe reconheça razão, é que se com aquele laço de verdura, em torno do metálico cano, santificada não estaria, era contudo geral a opinião, pela sua frescura, que quanto mais calor estivesse, mais brotava ela fria.
Jamais alguém lá voltou a matar a sede. Contudo eu, logo que da cidade avisto tal curva, dou por mim a recordá-la e vê-la, não como se fosse ontem, mas hoje. Agora. E, pese embora, nem sei bem porquê...
Deve ser grande a aflição
Para a Moura chorar assim,
Que também eu morro de mouro
Mas a Moura não chora por mim!
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exactamente hoje,
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