La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

7.11.2011

Bernstein e a Social-Democracia

Mudar com a mudança do mudar


“(…)

Sentirás quanto amarga; quanto anseia
O sal de estranho pão; que é dura estrada
Subir, descer degraus da escada alheia.

Tua angústia há de ser mais agravada.
Te acompanhará no vale do exílio, vendo
Ignóbil gente, estólida, malvada.”

In XVII Canto do Paraíso, de Dante Alighieri (1265-1321)

Entendamos a mudança como a inequívoca transição entre dois Estados estáveis e distintos. Embora esta se tenha feito de forma lenta, tardia e com o serôdio de uma crise que começou a cumprir-se quando a maioria a entendia apenas como uma ameaça, o que é certo, é que o Estado, cujo governo saiu da batuta do PSD e de Passos Coelho, não é o mesmo que o PS e José Sócrates orquestraram (de tão requiem tom). E a sociedade também. Se quando ela muda exige novo governo, a verdade é que quando tem novo governo este a motiva para nova mudança. Bernstein, ao aperceber-se da dinâmica constante inerente a esta mudança, sentiu a necessidade de esclarecer-se conforme a evolução socioeconómica e abandonou os dogmatismos simplificadores das teorias marxistas e nacionalistas, fundamentais, aprofundando-a, dando uma nova expressão ao socialismo, excluindo o caráter finalista deste, e quiçá escatológica, de uma sociedade perfeita para justificar o deitar mão de todos e quaisquer expedientes ou meios que a consolidem, e colocou o acento tónico na via da execução das reformas graduais e adaptadas permanentemente à realidade, promovendo assim a mudança que a si mesma se vai mudando dentro da estabilidade gradualmente conseguida, dando a este modelo evolutivo o nome de social-democracia.
É preciso encontrar as soluções que melhor se adeqúem ao momento histórico que agora atravessamos, e não basta o Mayor dos municípios, Ruas de nome mas de rotundas pronúncias, retóricas e efeitos, vir à praça pública puxar as brasas prà sua sardinha, propalando que a parcela da dívida da generalidade das autarquias não se deve aos custos com pessoal, porque deve!, e não como circunstância direta da transferência de competências de alguns ministérios – educação, quase todos! – para as autarquias, ou que a percentagem dessa dívida comparada com a do poder central ser diminuta – 20% –, porque também não é, considerando o elevado número de câmaras municipais (380) que há em Portugal, pretendendo defender a sua corporação atacando as outras, além do posto que nela tem e desempenha, para que se possa acreditar minimamente que a responsabilidade no défice não lhes cabe com elevada relevância, uma vez que as autarquias, conforme é observável a olhos vistos – conforme a proximidade revela! –, têm vindo a satisfazer clientelismos políticos que, na prática e no terreno, faz disso uma descarada inverdade, pela numerosa quantidade de pessoas sem préstimos, funções, nem habilitações que albergam, e nada fazem, além de alguns "mandados" pràs chefias deste ou daquele sector, que apaparicam com mimos e presentes vários, sempre que a coisa está mais tremida, que desde que entram até que saem apenas se dedicam à quadrilhice pura e desabrida, fazendo comentários gratuitos acerca de quem chega e de quem parte, difamando este e aquele, apontando defeitos pessoais, handicaps ou companhias, e que continuamente vão "deambulando" nas bibliotecas municipais, nos centros de arte e espetáculos, nos museus e serviços municipalizados, como se às dificuldades que ao país acometem fossem superiores, alheios e, sobretudo, delas únicos beneficiários.
E soluções inovadoras. Posto que, politicamente, a inovação significa reforma, reforma das pessoas como reforma do sistema social, consequente adaptação e modernização das estruturas do poder, solidariedade entre as franjas sociais, grupos e comunidades, bem como o inequívoco assumir dos novos valores, nomeadamente o da sustentabilidade e da biodiversidade, isto é, um intercâmbio de identificação plena entre a inovação em si mesma e as noções teóricas e práticas, efetivas e profundas da social-democracia, que é o único caminho e modelo de desenvolvimento socioeconómico que conjuga a criatividade individual, o respeito pela pessoa humana, os mecanismos de decisão e as necessidades sociais e individuais com acuidade soberana no exercício efetivo da democracia da participação e da cidadania, com inigualável êxito, até hoje conhecido, reconhecido e valorizado no nosso país, eleitoralmente pelo menos, se atendermos não só às últimas legislativas mas também a quantas desde a implantação da República nele aconteceram.
Ou seja, é preciso reformar inovando, mas inovar às vezes significa apenas fazer justiça para criar uma sociedade mais harmonizada, ter da política uma visão estética (Francisco Sá Carneiro), o que passa irremediavelmente por convidar essas pessoas a sair, a reformarem-se, pondo assim definitivamente fim à injustiça social praticada e evidente com a sua admissão, e não vale a pena argumentar que a sua reforma será onerosa porquanto todos sabemos, segundo as últimas notícias, a maior parte dos rendimentos mínimos, subsídios disto e daquilo que o Ministério dos Assuntos Sociais e demais organismos de assistência social emitiram nos últimos anos foram ilegalidades com custos elevados, e que dificilmente serão recuperáveis. Ou disto também são as agências de rating, na sua manifesta má vontade americana, as responsáveis?
Cá me queria parecer! Quanto mais depressa acabarem com a mentira a que chamam política mais depressa também se ganhará a confiança dos mass media, dos mercados, dos investidores, da banca, das agências internacionais de notação, dos eleitores, dos portugueses e europeus, dos críticos e intelectuais, dos trabalhadores e seus representantes, se honestos forem; enfim, mais depressa chegaremos ao espírito reformista de uma social-democracia em mudança dentro da estabilidade imprescindível e harmoniosa. Uma sociedade mais bonita e feliz!

7.07.2011

A Indiferença só prolifera onde falta a Diferença


Pedro e o Lobo

“ – A minha ambição não é pessoal – dizia-me [Francisco Sá Carneiro] em Berlim e foi-mo repetindo nos anos que se seguiram. – A minha ambição é estética. Quero chegar, democraticamente, ao poder para que as coisas funcionem com harmonia, para que acabem as aberrações e as originalidades à portuguesa. Acredito numa sociedade portuguesa moderna, livre, europeia, capaz de se transformar a si própria, através de reformas sucessivas que não se limitem aos aspetos políticos, mas abranjam também o plano económico e social.”
In Francisco Pinto Balsemão, A Conversa de Berlim e o Estudo que Está por Fazer, Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 3, Vol. II, Junho de 1984.

A história é bastante antiga. Tão velha, mas tanto, que a maior parte das pessoas já lhe conhece a moral de nascença, algo que lhe vem por via genética. Está-lhes no sangue, e por herança. Portanto, repetir que as ações de cosmética político-sistemática já não pegam, tornou-se numa espécie de cliché.
E o recado das agências internacionais de mercado que foi dado a Portugal não poderia ter sido mais claro do que foi: a dívida soberana portuguesa é, simples e inequivocamente, LIXO. Ora, se a Europa conhece Portugal melhor que as agências de rating, como se depreende do “discurso” de Durão Barroso, quando diz que nós – e esse nós deve ser o majestático para BCE, FMI e Comissão Europeia… – “conhecemos melhor Portugal do que as agências internacionais”, então não restam dúvidas que o melindre é totalmente injustificado. O mercado não se deixa enganar, nem mesmo quando prefere demonstrar que engoliu a fava na boa e sem qualquer ressaibo. O mercado, e o algodão!
Presentemente tem que se ir mais longe fazendo melhor, porque a época é diferente das que anteriormente vivemos, a conjuntura e as circunstâncias são outras, a Sociedade é diferente – e a função do Estado também. Já lá vai o tempo em que as interrogações de José Luís Aranguren eram, além de pertinentes, uma incompreendida ousadia. Porquanto hoje ninguém desconhece que se a “historiografia do século XIX foi a dos Estados nacionais, e a do século XX a dos internacionalismos, então a historiografia do século XXI é a historiografia do supranacional”. Num país ou num partido político, numa região ou num qualquer organismo público, num órgão de soberania como numa instituição, o direito de existir implica a obrigação de agir e atuar. O direito à diferença obriga a ser diferente, e isso só se nota quando se alteram significativamente as condições e os recursos.
E Portugal tem que sê-lo (diferente), não pela arruaça e fuga para a frente, pela batota da renegociação sem termos nada para oferecer em troca de facilidades, mas pelo sentido de responsabilidade e compromisso, pelo empenho e criatividade, pelo empreendedorismo e capacidade de inventar novas soluções para os novos problemas que em catadupa nos hão de surgir. Andar a difamar os árbitros para contestar os resultados não é uma atitude adulta e muito menos democrática. Adiar a amputação total de alguns órgãos contaminados pelo corporativismo obsoleto e cancerígeno apenas nos vai prolongar a agonia e espalhar mais metástases pelos demais órgãos “ainda úteis e saudáveis”, e não erradicar o défice existente. Portanto, o caminho a seguir é sobejamente claro e óbvio!
Ou seja, as medidas para inglês ver não pegam. Não se pode continuar a fazer mudanças do tipo faz-de-conta para tudo ficar na mesma; mudanças do género “outras” caras, outras chefias, outros nomes para as instituições e organismos públicos, outra maneira de contabilizar os gastos e os custos, a que comummente chamam investimento, ou outras políticas e diretrizes. Não pega, e pronto. É preciso agir, concretizar no terreno as promessas assumidas do memorando da troika, e para isso, não basta transformá-las em Programa de Governo, XIX ao caso, e só no fim é que alguém dirá, talvez desta vez não seja mais um bluff para sacar umas massas aos tutores financeiros. Em matéria de convergência se não tivemos mau, foi porque tivemos quem nos puxou para medíocre. No capítulo do desenvolvimento sustentado, baldamo-nos categoricamente – e ainda baldamos. Na política socioeconómica, aí é que sentimos profundamente as alterações climáticas: metemos água que dava (para) três sismos/tsunamis com epicentro na Trafaria.
Política não é como o futebol onde, quando perdemos ou o resultado não é aquele que esperávamos, a culpa é sempre do árbitro. Das agências de avaliação ou rating. Não foram tomadas as medidas adequadas e depois culpamos as agências internacionais, invectivando-as de defenderem interesses americanos e obscuros. De serem mal-intencionadas e maliciosas. E esquecemos que já Natália Correia classificava tal conduta de criancismo… Quem é queremos enganar? As agências e mercados internacionais ou a nós mesmos?
Provavelmente não temos cura. Só sabemos sacudir a água do capote. De preferência para cima do vizinho do lado. Agora, se os espanhóis fizerem o mesmo, aqui d’El Rei! São murros no estômago prà’qui, pontapés no cu prà’li, rasteiras acolá.
Haja vergonha na cara. Os mercados precisam de ver os números do défice a baixar, não por consequência da alteração das fórmulas de cálculo, mas por observarem no terreno que os parasitas ligados ao SNS, à Educação, ao poder local, à Cultura, ao Turismo, ao Ensino Superior, à Justiça e Segurança, aos Assuntos Sociais, à Administração Central, Regional e Local, enfim, às circunscrições da coisa pública, sobretudo os inúteis e disfuncionais, os sem habilitações e menos consciência cívica, os irresponsáveis e incompetentes, estão a ir para outras bandas, de preferência para emigração que é o destino para onde estão a empurrar os recém-formados sem colocação neste país. Acabou o tempo das coreografias de mudar de caras e continuar com a mesma vergonha (nacional).
Em resumo, se o lobo é maior e a história é outra, então, porque é que o Pedro é o mesmo? Frontalidade, objetividade e coragem política, como a cautela e os caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém e, pelo contrário, podem até fazer o bem.
Desde há milénios que sempre foi a falta de diferença que gerou a indiferença. É essa a particularidade da arte. Incluindo a de governar, como apontou Maquiavel. E o que é preciso, é ambição estética!
Pois.

7.05.2011

É preciso descolonizar o Estado

De quando os exemplos não passem disso mesmo…e até possam vir de cima!



“Abre mão das poesias,
que nenhum préstimo têm,
e cuida em sólidos meios
de ganhar algum vintém.

Se dizes que contra os versos
em verso uma carta ordeno
e que aqui me contradigo,
praticando o que condeno,

A teu forçoso argumento
respondo com Frei Tomás:
faze o que o pregador diz,
não faças o que ele faz. "

Nicolau Tolentino (1740-1811)



Tal como na indústria e comercialização de produtos electrónicos e de comunicações, estar doente em Portugal precisa de um autêntico curso de utente do SNS, de operador burocrático e/ou de descodificação dos diversos manuais de utilizador, livros de instruções que impreterivelmente andam anexos à área afetada, do género faça você mesmo ou como complicar tudo aquilo que é fácil e óbvio, desobviar toda e qualquer clareza processual existente, em nome do rigor, do corporativismo, da racionalização de recursos e da (in)competência modelar, sistemática e doutrinal. Até porque ninguém duvida da razão que aconselha descolonizar o Estado desse corporativismo abjeto que gerou a “situação explosiva” em que nos encontramos e que nos impede de nos libertarmos da grelha que está a apertar-nos cada dia mais, ajudada pelo défice e endividamento do país.
Senão, vejamos. Aprofundar a democracia, o que inclui aumentar o número de democratas por metro quadrado do nosso território, seja essa democracia social ou socialista, bem como contribuir para a definição clara e inequívoca da sociedade do conhecimento e da informação, passa imprescindivelmente pelo reconhecimento humanizado das dificuldades, limites e circunstâncias do outro, na direta contemplação da Constituição da República, do Tratado Europeu e dos Direitos do Homem que lhes está apensada. E a ideia nem é nova, visto que já Francisco Sá Carneiro a enunciava no último Conselho Nacional do PSD em que participou, precisamente em 18 de Outubro de 1980, reiterando que tinha para si que se impunha ao Partido Social Democrata “uma reflexão sobre o que é que deve ser a social-democracia em Portugal, quais os valores fundamentais a prosseguir, como prossegui-los, quais as implicações para os diversos estratos, desde a juventude aos socioprofissionais, às empresas, à orientação económica, à orientação da política social. Tudo isso tem que ser aprofundado entre nós.”
Ora, aconteceu que o imponderável surgiu sob a forma duma fatalidade, e não pôde Sá Carneiro ir além das palavras, concretizando as suas teses em políticas e práticas efetivas, embora o ideal social-democrata não tenha perecido com ele, pelo menos a considerar pelas vezes que foi o partido por ele fundado arauto da governação, como anteriormente esteve com a AD e Aníbal Cavaco Silva, quer como oposição empenhada e responsável, à semelhança do que sucedeu antes destas eleições que lhe trouxeram, sob as orientações e estratégias de Passos Coelho, novamente o ónus – ou, tendo em conta o atual estado da economia e do país, será mais adequado dizer o handicap – da administração do Estado e do governo.
É provável que Mário Soares noutras alturas e por diferentes motivos tenha dito exatamente o mesmo por parecidas palavras, mas a propósito do socialismo democrático, o que não retira valor nenhum ao atrás enunciado nem acrescenta coisa alguma ao que adiante se dirá. Sobretudo porque não interessa de onde venham as boas ideias, desde que venham em formato de ideias e não de ordens ou ultimatos, e se verifique que a sociedade portuguesa estará sempre disponível para rever as ideias já tomadas como para se insuflar e adoptar as novas, segundo salientou Passos Coelho na Assembleia da República, aquando da apresentação do Programa do XIX Governo, registo positivo sem dúvida alguma, e que nos aconselha de como convém relembrar as palavras de Francisco Sá Carneiro no Discurso de Abertura do I Congresso do PPD, em 1974, em que punha acento tónico e imperativo no fato de que “nunca nos definiremos por negação ou ataque às outras correntes políticas, sejam elas quais forem. [Mas] sim pela afirmação clara da única via que, de
acordo com o que mostra a História, permite pôr termo às desigualdades e injustiças existentes nas sociedades europeias sem pôr em risco as liberdades fundamentais e a dignidade da Pessoa Humana”, para que o “cumprimento dos objetivos do programa de ajustamento da economia portuguesa[, que] terá precedência sobre quaisquer outros objetivos” (Passos Coelho), se faça de forma a contribuir para o fim do atual estado de coisas, em que os portugueses com habilitações próprias e escolaridade mais que suficiente deixem de ser obrigados a emigrar para arranjar emprego, enquanto os/as graxistas e lambe-botas amesendados na função pública, inábeis para o serviço, admitidos por cunha ou rotativismo político-eleitoral, lhe estão a ocupar os postos de trabalho, prejudicando seriamente o país, a governação e os utentes/utilizadores dos ditos serviços, nomeadamente na área da saúde, que é onde esse flagelo mais se faz notar.
Eu sei que qualquer governante gostaria de manter os funcionários públicos calados e contentes, por mais imprestáveis que muitos sejam e careçam do saber estar e saber ser que observe o estipulado pelos Direitos Humanos, pela Constituição da República e pelo Tratado da União, todavia é impossível mudar de rumo e alcançar progressos no combate às injustiças e desigualdades em prol da dignidade da Pessoa Humana, se essa expurga dos maus funcionários não se verificar em tempo útil e de forma acelerada, se não quisermos falhar os compromissos constantes do memorando da Troika, aumentando a insustentabilidade económica, social e política, conforme traduziu a inquietação do nosso presidente da República nas últimas declarações aos mass media nacionais, o que não espelha qualquer alarmismo mas antes uma prudência ganha naquele tipo de saber de experiência feito que de acordo com o que mostra a História nos pode – e deve! – gizar as linhas do futuro.
Nem mais, que pensar e agir de outro modo seria poesia (de má índole e piores efeitos, por muita irrealidade e ilusão acender), ou retórica de Frei Tomás cuja qualidade suprema somente residia no que dizia mas nunca no que fazia. E quem não quer ser frade, não lhe usa o hábito!

6.21.2011

E Viva a Cultura!



As Lavadeiras de Caneças


"A esperança é tão necessária ao homem como o próprio pão; comer pão sem esperança equivale a ir morrendo de fome a pouco e pouco.
(...) (...) (...)
(...) Mas se toda a mocidade se achasse satisfeita consigo própria e sem aspirações, então é que sem dúvida deixaria de haver esperanças quanto ao futuro da Humanidade. A esperança da Humanidade assenta na rebelião dos jovens contra o egoísmo individual, o nacionalismo e as desigualdades do presente. É no profundo descontentamento dos jovens de todos os países que deposito a minha fé. Peço-lhes, por isso, que se mostrem descontentes, imploro-lhes que se revoltem contra o que anda errado, não por meio de fracos e negativos queixumes mas por meio de fortes afirmações acerca dos direitos de toda a Humanidade.
O maior prejuízo infligido aos jovens reside na educação que lhes têm ministrado. Com efeito, torna-se extremamente difícil lutar contra aquilo que nos ensinaram. (...)"
In Para As Minhas Filhas Com Amor, de Pearl S. Buck, trad. de Virgínia Mota, Edição «Livros do Brasil» Lisboa – (Título original: To My Daughters With Love – 1946)

Fomos desacostumados de pensar e agora estranhamos a lodosa apatia que nos assoberba. Todos sabemos que estamos nas lonas, que temos de alterar os nossos quotidianos e hábitos, expectativas, conhecimentos e valores, porém não mexemos uma palha nesse sentido. A minha avó dizia que a Preguiça(1) era a única divindade que aqui tinha culto crescente, tão promissora e na moda, que até os fiéis dos outros credos lhe seguiam o catecismo e lhe celebraram eucaristias, sobretudo entre os lusitanos da portugalidade evanescente. Gostava de exagerar, é certo, por muita leitura de Camilo e de Eça, a quem a desgraça e a ironia eram o pão nosso de cada dia, nem sempre sob os mais recreados propósitos no entretenimento bucólico e campesino do Monte da Tapada da Casa, onde a melhor parte do serão era também o do folhetim radiofónico d’O Conde de Monte Cristo ou de O Monte dos Vendavais, conforme a época do ano e a imaculada direção de programas da Emissora Nacional estipulavam para gáudio dos arredados do cosmopolitismo e do Teatro de Revista, do cinema e da TV (a preto e branco).
Não seria incomum aparecerem igualmente pelo mesmo veículo um Love Story ou As Pupilas do Sr. Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Miguel Strogof – penso ser assim que se escreve... – ou O Retrato de Ricardina e o Simplesmente Maria, embora com menos assiduidade e frequência entre os devotos do género não-Corin Tellado. Não diziam naquele tempo que audiência baixava, não senhora, mas que os ouvintes se dispersavam mais para os Discos Pedidos do Rádio Clube Português quando os ditos eram ditos e falados. Seria? Não seria? Fosse como fosse, é que os CTT também tinham larga quota de interesse nessa programação, porquanto os discos ainda eram pedidos por bilhete-postal, coisa substancial nas finanças da mala-posta que ainda alimentava os cavalos a pão-de-ló. Eram critérios!
Como hoje. E os critérios indicam que a Cultura vai ser tutelada pelo chefe do governo numa secretaria com cómodos junto ao seu gabinete. Coisa maneirinha e aconchegante, tipo casa portuguesa com (certeza) fotografias do presidente e do primeiro-ministro a ladear o crucifixo, modelo tirado ao calvário com Cristo entre criminosos, pelo que José Saramago deve estar contentíssimo, lá debaixo da oliveira da Azinhaga e contaminar de cochinilha os bicos da Fundação... A cultura, a língua, a arte, a literatura, a ética e a estética vão finalmente estar próximas do poder central, do poder sobre o poder, a bem dizer, e talvez venham a partilhar das benesses e mordomias da vizinhança. Como mulher-a-dias, por exemplo!
A gramática do Estado, a lógica da organização e a retórica do programa eleito, hão de ditar o bom gosto e o bom senso conforme as questões sociais assim o inspirarem, a Troika o impuser e a Assembleia da República não conseguir evitar. As lavadeiras de Caneças é que não poderão estar presentes que andam a braços com as novas oportunidades e os maiores de 23. A roupa suja terá que ser repartida pelos condóminos, segundo o Método de Hondt, e de acordo com os critérios notoriamente sublinhados pelas forças conservadoras adeptas do faz-de-conta que vivemos depois do 25 de Abril com que nos temos divertido há, pelo menos, trinta anos e trinta moedas, que foi por quanto os judas deste país o venderam à banca internacional e ao BCE.
Portanto, é provável que voltemos ao folhetim se a cultura aguentar esta doce magistratura no recato bucólico da confiança e paciência que costuma ser argumento válido para os novos, para os estúpidos e para o insuficientes mentais. Do tipo Love Storyamar é nunca ter que pedir desculpa, sentença linda e kitsch como um repolho do Bordalo, que um personagem, lembro-me ainda, terá dito a páginas tantas ao outro com quem aparelhava nos varais da narrativa, não sei se ele a ela ou se ela a ele, mas desconfio que pelo prevenir do borrar da pintura seria do macho prà fêmea, que naquele tempo dependia muito da sorte o ser considerada não-coisa, não-propriedade de género – que foi um rasgo de modernidade marcelista, onde ela, pobre, bibliotecária ou ajudante disso, que mais tarde morreria de doença incurável (cancro), e ele, rico e playboy, a vítima sofredora sob as mãos de um amor infinito e de um destino implacável, o direto contemplado pela fatalidade gritante – o coitadinho e incompreendido pelos deuses – e que veio temperar a lamechice pacóvia com as matizes do “mundo avançado” das ideias e dos progressos, alguns deles de natureza científica e tratados como fait-divers domingueiros nas conversas de café antes da missa, entre os matemáticos do sistema com matriz nos totobolas e lotarias por estratégias.
O que era uma vingança, e uma demonstração de democracia. Porque a crueldade da dor, da doença, da perda, do destino, eram democráticas e não queriam saber das mordomias sociais desta ou daquela classe mais favorecida. A morte e a desgraça ceifavam a eito, tanto carecidos e minguados como abastecidos e afortunados, embora que por diferentes motivos e na sequência de causas muito díspares, uns pelos excessos e outros pelas faltas – o que desconheço se estava ou não conforme a obra literária, que nisso das adaptações radiofónicas os criativos pontuavam, ajeitando-as à portugalidade conforme entendiam sem passar cavaco às determinações dos autores. Mas no fim, não obstante a condição social, o resultado ficava sempre no ela por ela: sete palmos de terra e um sermão encomendador.
Nisso as lavadeiras de Caneças estavam de acordo. Enquanto espanejam as roupas dos senhores aproveitavam para lavar também os olhos lacrimejando sobre o ingrato desfecho do folhetim. Viradas prò rio, a roupa suja diluia-se entre nuvens de condoída retórica acerca da juventude que em vez de estudar e ajudar a família, anda na moina e a bandeirar palavras de ordem nas irrequietas arruaças do reivindicar melhores dias. Quando o fez contra o Magalhães tinha carradas de razão. Porém agora, que recusa colaborar nas políticas da corrupção e da insustentabilidade, pode vir a ser apelidada de terrorista ou, pior ainda, conforme se viu na Assembleia da República acerca da deseleição de Fernando Nobre, de independente. E isso, essa classificação, vai ser indubitavelmente um ato de cultura. E que cultura!


(1)Personagem mítica que morreu à sede junto a uma fonte só para não esticar o pescoço para saciar-se

6.16.2011

Mudam-se os tempos mas não as tradições e mentalidades...


Das estranhezas que o mundo tem acerca de nós...

Às vezes, se vasculharmos autores e obras antigas, encontramos muitas referências ao que somos, ou pontos prenunciadores de caráter deveras enunciativos daquilo em que nos iríamos tornar, se consumados que fossem os séculos que nos separaram entre a pesquisa e a criação em causa. Talvez sejam apontamentos proféticos. Talvez não. Ao certo, de garantido e afiançado, é que são recuperáveis se para tanto nos assistir, não o engenho e arte, mas a lógica das comparações plausíveis e verificáveis a olho nu, quer dizer, transparentes e desprovidas de percepção motivada.
Por conseguinte, neste universo da ecomimia – repetição automática mais ou menos difusa na mímica dos interlocutores políticos e sociais – semântica, creio ser frutífero desfraldar a surpresa, tal como já noutro tempo fez Nicolau Tolentino acerca das caraterísticas e traços de identificação entre portugueses e outros povos, nomeadamente espanhóis e nórdicos.

“Passei o rio que tornou atrás,
Se acaso é certo o que Camões nos diz,
Em cuja ponte um bando de aguazis
Registam tudo quanto a gente traz.

Segue-se um largo. Em frente dele jaz
Longa fileira de baiúcas vis.
Cigarro aceso, fumo no nariz,
É como a companhia ali se faz.

A cidade por dentro é fraca rês;
As moças põem mantilha e andam sós,
Têm boa cara, mas não têm bons pés.

Isto, coifas de prata e de retrós,
E a cada canto um sórdido marquês,
Foi tudo quanto vi em Badajoz.”

Nicolau Tolentino

[Nota de Rodrigues Lapa acerca do poema, embora com nova redação consentânea ao momento, que merece ser transcrita pela sua acuidade semântica: eis um soneto dos mais perfeitos de Tolentino, soberba descrição dos costumes espanhóis e da cidade de Badajoz, em que não falta sequer a referência ao traço distintivo da sociedade vizinha onde as raparigas, ao contrário da nossa em que mal saíam à rua, andavam frequentemente desacompanhadas. Datará da época em que o poeta esteve em Évora (1765-1767) e terá dado alguma saltada àquela cidade fronteiriça. De salientar a alusão ao conhecido verso de Os Lusíadas, Canto IV, est. 28, " ... e Guadiana / Atrás tomou as ondas de medroso", quando se ouviram, em Aljubarrota, as trombetas castelhanas; ou, como nos fins do século XVIII, ainda não se tinha popularizado o uso de fumar cigarros, sendo antes utilizado, geralmente, para sorver pelo nariz (rapé), ilustrando o hábito com citação, que está na base desta surpresa do autor: «Em Portugal, escrevia C. J. Ruders na carta 18ª da Portugisisk Resa (Stokolm, 1805), o tabaco não é fumado por ninguém, a não ser pela plebe baixa, que se serve, para isso, de grãos de tabaco embrulhados numa tira de papel a que se pega fogo. Cachimbos de barro ou de espuma não são usados senão por estrangeiros, e causam sempre a admiração de todos. Mas o consumo indígena do rapé é muito considerável, porque quase todos os portugueses o cheiram.»]

Ora, recentemente notícia, aconteceu que nos "exames" dos estudantes dos futuros juizes, por estes terem copiado e além disso, sido apanhados a fazê-lo, foi dada a nota de 10 valores a todos, em vez de zero como mereciam. Quem faz batota para poder vir a exercer a magistratura, já muito bem se lhe adivinha o tipo de justiça que há de vir a ministrar...
E isto traz-me à memória o que me contou alguém que foi numa ação complementar de formação a Estocolmo. Com essa pessoa, durante o almoço, alguém junto dela comentou sobre os exames que fizera, entre outras coisas, que não tinha ninguém na sala, além dos alunos, que vigiassem os examinandos. E que tal era habitual, melhor dito: usual e comum, em todos os escalões etários e graus de ensino. Então a portuguesa em causa, surpreendida e incrédula, inquiriu:
«E não copiaste?»
Ao que obteve por resposta um seco «para quê? Quem é que ganha com isso?» que era tudo menos ingénuo e inocente. Antes assertivo e determinativo.
Pelos vistos, os nórdicos podem continuar a achar que somos estranhos desde os tempos em que fazíamos charros com sementes de tabaco. Entre outras generalidades, todos copiamos e até – pasme-se! – ganhamos algo com isso. Ganhamos estatuto. Ganhamos poder. Ganhamos riqueza. Justiça é que não devemos ganhar muita, uma vez que para se ser juiz basta copiar mais um pouco, com expediente e desembaraço, que a nota de dez está garantida para quem for apanhado.
E depois os estrangeiros é que são estranhos!

6.12.2011

O Novo emboçado

O Desavanço do Século XXI

O NOVO EMBOÇADO

Acontece sempre que a cor se oculta
Entre as estevas da madrugada arguta
Que o rosáceo timbre da rosa resoluta
Ao desmaiar na sombra se afirma gruta…

Ponto cardeal interno ao ser se tumultua
E manifesta temido sob a eleita e astuta
Sagacidade da ignara tribo cuja conduta
Remonta às profundidades da ímpia luta.

A uns, que sabida é a ambiciosa receita
Tomam o poder para a outros aplicarem;
E na noite se afoitam como secreta seita

Que aos homens humilham dizendo serem
A salvação na opressão que só lhes querem
Dar; triste fado o de quem a si se enjeita!

(Joaquim Castanho, 12.06.2011)

É ensurdecedora a atitude amuada dos políticos "partidaristas" face à comunicação social depois das eleições de 5 de Junho.
Não restam portanto dúvidas que, além dos quarenta e tal porcento de abstenções, mais os 75 mil nulos, incluindo as mensagens jocosas neles contidas, ficámos mais ou menos todos suficientemente esclarecidos do que pensa a maioria dos portugueses acerca dos políticos que tem e das políticas que implementaram na portugalidade continental e adjacente: que são uma camada inútil e adversa ao desenvolvimento, não servindo a ninguém que se preze, ou que apenas se serviram até hoje a eles próprios e aos partidos que os catapultaram para a ribalta da orgia orçamental.
Mas não só. Há também quem não perceba muito bem como é que as figuras políticas que melhor foram servidas, e se serviram dos órgãos de comunicação social para fazerem a sua propaganda e campanha eleitoral, venham agora, que já foram eleitos ou deseleitos, fechar-se em copas sobre uma avaliação consequente, ou quanto às suas vidas e projectos futuros. Será que se mantém acesa essa ideia brejeira de antanho que a comunicação social é tão-só-e-unicamente uma prostituta que deve estar sempre à mão dos interesses dos poderosos para lhes satisfazer e sublimar as necessidades do ego em alter coudeladas? E que a opinião pública aquela turba de incautos em cujos ninhos quaisquer cucos podem depositar os seus ovos para lhes aumentar a geração?
Infelizmente a resposta a ambas as perguntas avizinha-se-nos óbvia: sim. Sobretudo porque em Portugal se vai enraizando a tradição de votarem somente aqueles que mais desinformados estão e menos habilitações têm. E mesmo desses, apenas os que não tiveram dinheiro ou para onde ir durante o fatídico fim de semana do escrutínio. Até os que anteriormente acharam piada ao rezingar loução, lhe viraram as costas ou fizeram manguito por este se ter posto de fora das negociações da Troika – estava lá para trabalhar, e faltou ao emprego, dizem...
Depois, o toque a rebate do CDS e do PCP surtiu o efeito desejado, por temerem a emergência dos Tiriricas e Zé Manéis, que coelhos há muitos embora nem a todos se lhe possa tirar a pele do mesmo jeito: votaram todos e, como são dos portugueses os mais endinheirados, até deram gorjeta aos que lhe seguiram o exemplo.
Portanto, enquanto não for instituído o voto electrónico em Portugal e a Democracia estiver nas mãos dos que assinam de cruz, podemos tirar da ideia querer implantar a democracia da participação e da cidadania neste litoralzinho que o mar vai comento aos poucos e onde os senhores feudais se aliviam nas arribas da cagança à vista de todos e sem o mínimo recato ou pudor. Porque qualquer passo dado em frente será sempre feito em direção ao abismo seguinte.
Então, um dia, veremos que patinhámos no Fundo do fundo quando quisemos caminhar... Porém, não haverá Troika que nos dê a mão, nem lama (corrupção) em que enterrar as botas para ensaiar os passos. E aí, sim, aí, nem o Camões nos há de salvar. Nem o Futre!

6.10.2011

Será que agora é que isto muda?

O Interior e a Sorte-Grande

"Não tomando em desprezo o escuro estado
em que me pôs Fortuna e Natureza,
olhastes sem horror minha baixeza
e fizestes sentar-me ao vosso lado.

Então, de ingrata obrigação chamado
deixei à força a companhia e a mesa;
e inda cheio de ideias de grandeza,
vim dar por tema um verbo conjugado.

Não sei com dous opostos conformar-me;
sofrem-me os grandes, sou taful e moço,
não sei a «senhor mestre» costumar-me.

Tais extremos, Senhor, unir não posso;
de dous génios não sou. Mandai fechar-me
ou a minha aula, ou o palácio vosso."

Nicolau Tolentino, poeta português do século XVIII


A principal característica do Interior é que continua a ser Interior mesmo quando fica de fora. De fora do discurso político; de fora do desenvolvimento sócio-económico; de fora de mão, quando se empreende caminho rumo ao futuro.
Tanto quanto me apercebi, dos discursos presidencial como do do comissário da celebração do 10 de Junho, o primeiro recado de ambos foi dirigido aos políticos e, se Barreto recomendou que estes devem falar mais e desavirem-se menos, da parte do nosso presidente da República reiterou a recomendação repetindo que devem entender-se melhor. Anibal Cavaco Silva, não se ficou porém pelo alvitre e indicou mesmo em que direção esse entendimento deveria ser feito: no sentido de encontrar soluções para sairmos da crise e colmatar as assimetrias interior versus litoral.
A preocupação é serôdia. Não é de agora que o despovoamento, um dos maiores passos para a desertificação, se aliado a ele vierem as alterações climáticas, está na ordem do dia, e nem assim se evitou a sangria da população ativa do eixo norte-sul fronteiriço a Espanha, além do que não basta eleger dois ou três eventos nacionais, dois ou três produtos de qualidade desta ou daquela parcela do território, para que daí resultem melhorias substanciais na qualidade de vida das pessoas e desenvolvimento sustentado nessas regiões. Descobrir o interior sem ter apostas contundentes e continuadas em estratégias ou planos/programas de marketing territorial seriamente gizados e executáveis, é o mesmo que ir ao contrário do já anteriormente afirmado por Séneca e citado pelo nosso presidente um dia antes, a propósito e em homenagem a um douto de Castelo Branco, onde se sublinha o facto de quem não sabe para onde ruma nenhum vento lhe é favorável.
Estranho, porém, que há, se feitas as contas em baixa, coisa de vinte/vinte e cinco anos a constatação tenha servido periodicamente de assunto e retórica de quase todos os quadrantes políticos com assento parlamentar, sobretudo durante o tempo em que havia dinheiro para "engordar" o litoral, quer em população como em infra-estruturas, no tecido empresarial como nas linhas de produção de mão-de-obra especializada a que comummente chamamos universidades, e que apenas agora, que estamos em crise económica-financeira, política e ética, é que o interior esteja a ser convocado para contribuir com o seu esforço e sacrifício para a estabilização nacional... Porque será? É certo que estamos a 200 quilómetros do litoral, mais propriamente de Lisboa, o que é comum a grande parte do país, cujos caminhos vão sempre dar ao mesmo sítio – a capital. Agora vá uma empresa sediar-se em Santa Eulália, que para pôr os seus produtos à venda na Beirã, tem maiores custos de transporte do que se forem pròs Restauradores!
O interior está servido de estruturas rodoviárias, é óbvio. Mas para qualquer empresa deste interior tão propalado fazer a distribuição dos seus produtos precisa de uma frota transportadora que o encarece e o torna não-competitivo com os congéneres do mercado. Que adianta falar no interior português no dia de todos nós se amanhã continuarmos com as mesmas dificuldades que já tínhamos há vinte e cinco anos? O meu concelho já teve 28 mil habitantes e agora tem 23. O meu distrito já elegeu três deputados para a Assembleia da República e agora só dois. O meu Alentejo já foi quase uma região, até teve uma CCRA, e muitas das freguesias têm os dias contados, alguns concelhos serão fundidos e a reforma administrativa ou territorial irá dar-lhe novos contornos e limites conforme prescrição da Troika. Apenas uma consolação nos resta: é que venha o que vier, diga-se o que se disser, havemos de continuar a ser sempre o interior de que se fala.
E falarem da gente é uma grande coisa... Uma sorte!

6.08.2011

Regresso ao Passado Imaturo

Voto e votarei, que ao rancho e ao pré, nunca faltarei


A democracia participativa e da cidadania pode ou não assentar na democracia directa embora, disso não restam quaisquer dúvidas, ambas reconheçam que a representatividade seja um princípio para a democracidade sistemática e plena, um caminho para algo superior, e não um fim político em si mesmo. A abstenção é o antónimo inequívoco dela. A incompetência o seu descendente directo. O caos, a bancarrota, a destruição da sociedade e suas instituições fundamentais, a desumanização e as tiranias, as ditaduras e a destruição do Estado de Direito, a sua magna realização.
Enquanto a matreirice e a esperteza saloia forem os valores premiados pela política portuguesa, dificilmente este país – tão desprezado por quem dele subsiste... – encontrará um rumo positivo e eficaz ou eficiente com destino ao desenvolvimento e sustentabilidade. E, independentemente das facilidades de acesso, crescente valorização na formação e desempenho, êxito na conclusão do ensino superior, o que verificamos indesmentivelmente é que os conhecimentos administrados se perdem pelo ralo da mediocridade, mal de lá saiam aqueles que tiveram o privilégio de o frequentar, quase nada é retido e muito menos praticado, nomeadamente no quanto à constitucionalidade, civismo, cidadania, pensar, agir e querer objectivos, uma vez que continuam a insurgir-se e reivindicar precisamente aquilo que queriam os mais ignaros do pré-25 A: Rancho e Pré garantidos, de forma vitalícia, se possível for.
Ora isto é sintomático de como funcionam as grandes mentalidades por ele formadas e dele saídas... E de onde meteram os pilares fundamentais da democracia: a defesa das liberdades, a solidariedade, a justiça, a responsabilidade, a consciência partilhada, a emancipação, a autonomia, a inovação e o conhecimento, a transparência e a honestidade, a igualdade e a cidadania activa. No lixo, e sem qualquer preocupação de reciclagem.
E de como usam as máquinas topo de gama das TIC que os papás e vovós lhes compraram, no seu acérrimo combate ao minúsculo e democrata Magalhães, a que são invariavelmente contra, por puro despeito, já que no seu tempo de ensino básico não lhe tiveram acesso: só para jogar na Quintinha do Facebook, posto que na grande maioria nem o Word utilizam corretamente ou sabem para que serve um motor de busca, dos mais divulgados e conhecidos, como o Google.
Todavia, são os primeiros a saber como os demais devem escrever e o que escrever, como devem publicá-lo – em suporte papel, pois claro!, que um escritor sem livros "físicos" é inconcebível –, e que conteúdos abarcar ou desenvolver, que personagens e ambientes retratar, as siglas a promover e a semiótica contemplada. Mas não só: outorgam-se ainda com direito a definir depreciativamente quem escolhe ler o que escrevo como "à rasca" e de gosto duvidoso.
Nem sentiram qualquer pejo em votar em partidos que já tinham anunciado a extinção do Ministério da Cultura, depois do anterior governo já ter extinguido a "Secretaria de Estado do Livro, da Leitura e das Bibliotecas"... E o que é que isso quer dizer? Como é que alguém que quer acabar com a cultura se autoriza a defini-la? Como é que alguém se considera com direito a exigir que não vá o tocador além do rabecão? Por falta de cultura, e de cultura democrática, que é assim que se comporta quem está tal e qual como caiu do sobreiro: sente prazer em dar à ignorância um estatuto exemplar... Depois queixa-se que a vida lhe corre mal.
Ah, canudo!

6.07.2011

Do cientismo popular...


Só Vendo!

Em Portugal ninguém dá nada, nem troca, nem avalia, nem compara – só vende. Vende a alma, vende a esperança, vende o voto, vende o conhecimento, vende a amizade, vende a companhia, vende o prazer, a noite e o dia – e até a agonia. Haja o que houver, que ninguém pergunte por ou para quê: está à venda.
Pese embora haja quem ainda insista em trautear, a propósito de tudo e de nada, o "ó tempo volta pra trás", as eleições nunca serviram, não servem, nem jamais servirão para enaltecer os passados, ideias ou tempos que sejam, mas sim para escolher os futuros; e muito menos serão qualquer boletim de totobola em que marcamos com X a equipa que achamos que irá ganhar, ou aquela que melhor castigará os adversários, sobretudo aquele que é o alvo favorito dos nossos desafetos, e a que somos afincadamente contra, pouco nos importando o porquê disso ou sequer tenhamos a certeza de ser exatamente por isso; antes sim, para eleger o projecto que melhor reaja às circunstância sócio-económicas e políticas do nosso tempo na exata medida que a sustentabilidade impõe, a qualidade de vida subscreve e a inteligência aconselha.
Mas não se pense que elas, as eleições, possam por si só, tendo os seus resultados como motor e energia, como que por decreto, que estes sejam suficientes para transformar o mau em bom, o medíocre em suficiente e o péssimo em excelente, porque isso apenas será possível se a propalada mudança também tiver incluída a alteração dos modos de agir e operar anteriormente estipulados como convenientes, a perspicácia dos diagnósticos e a forma de procurar as soluções que, por estarmos numa democracia, têm sempre e irremediavelmente em si a participação ativa do foco problemático.
Há quem estranhe o sermão, aí?
Pois bem: quem mete o coração nos negócios, raramente consegue ganhar mais do que o suficiente para sobreviver. Os portugueses nunca votam a favor de projecto nenhum principalmente porque para votar a favor de algo é necessário compreendê-lo e, ou não lho souberam explicar ou eles não foram capazes de entender, o que é certo, é que votar contra, por ódio que seja, os liberta de remorsos e de reconhecer a sua iletracia política. Logo, só saberão no que votaram quando depois lhe constatarem a prática. Então, aqui d'El Rei, mánifes prà'qui, processos prà'li e o diabo a sete, e somente porque perceberam que ao efeito em carambola da Troika não têm como escapar, e que os sacrifícios anunciados em campanha, afinal, não são como o totobola, que só sai aos outros (e desconhecidos). Desta vez é com eles, com todos nós, e ninguém tem estofo nem preparação para os fazer – aos sacrifícios – sem ganhar nada em troca. E não adianta prometerem-lhes um futuro melhor, mais democracia, mais qualidade de vida, maiores rendimentos, que não acreditam e – mesmo assim – preferem continuar a votar no só vendo!
O que, contado, ninguém acredita... (!)

6.03.2011

Apontamentos sem resposta...


Os Novos Considerandos de Uma Lei Que Nos Desconsidera Consideravelmente



Este tempo não é, garantidamente, o mesmo tempo em que os ditos revolucionários de então convulsionaram o mundo e romperam as amarras do seu tempo: é outro, e os que agora lutam são igualmente outros, batem-se por outros valores e conquistas, bem como assumem as suas responsabilidades diferentemente porquanto a motivação e objetivos almejados têm muito pouco dos da década de setenta do século passado.
Há também quem suponha que as amarras de que se libertou estão definitivamente submersas sob os plafons (virtuais) da derrota, nomeadamente nos decretados pela Troika(:carestia, perda de poder de compra e sobrecarga nas contribuições, subida das taxas de juro, inflação e desemprego agravados, redução do Estado e consequente Reforma Administrativa), o que é outra descarada mentira, bem-intencionada certamente, todavia não o estão, mas sim alteradas noutras estirpes, quais bactérias e vírus sociais que ganharam novos formatos e requintadas modalidades, subtilezas de género e influências de meio que as encapotam e a dissimulam sob a capa dos politicamente corretos como das coisas que é feio ou fica mal abordar. Aliás, os nossos pepinos foram sempre venenosos, porque a democracia em Portugal nunca foi democrática (qual pepino de digestão difícil), a não ser para a algazarra da propaganda ou como reivindicação para atingir o poder e depois fazerem o que lhes desse na gana, tipo Maio dos pequeninos num 1926 de se lhe tirar o chapéu, a capa e a carteira. Ainda me lembro do quanto me diziam os mais velhos sobre as saladas do dito cujo, que afirmavam só ser bom depois de lavado em sete águas e atirado de seguida para o caldeiro dos porcos…
A maior parte dos jovens estão inegavelmente encalacrados pela educação que receberam, pela formação que lhes foi impingida, pelas expectativas que as gerações dos progenitores neles depositou e pelas condições político-económicas que lhes obstaculiza o futuro, e lhes indica a acomodação ao seio familiar como opção segura de continuar a sobreviver. Os mais velhos sabem isso, mas regozijam-se com a constatação vingando-se pela muita idade que os coloca em desvantagem competitiva, pelo abandono votado e pelo pouco caso que lhe fazem acerca dos reparos e ordens.
Ora, considerando que a maioria dos que estão mal não querem fazer absolutamente nada para melhorar a sua condição e os que estão bem se preparam para ficar ainda consideravelmente melhor, à custa dos votos em branco e nulos dos à rasca, não nos resta alternativa senão concluir que neste país só a mentira vinga porque ninguém quer ver a verdade.
E qual é ela?

5.16.2011

As Eleições continuam a fazer-se à moda antiga...

Vergonhosamente lamentável!


A Lei (Eleitoral) 14/79, de 16 de Maio, reflete a mentalidade e sentido prático já obsoletos na época da sua redação, em que a divulgação da informação político-administrativa se fazia nos adros, rossios, tabernas e mercearias, através de editais ou recados estampados nas portas. Vai daí, algumas juntas de freguesia para lixar a concorrência e pôr os partidos menores em notória desvantagem competitiva, resolveram segui-la à letra, excluindo-os das reuniões de delegados em que seriam apresentados os nomes das pessoas propostas para as mesas de voto, que é a mais elementar das participações democráticas remuneradas. Entre elas figura, lamentável e vergonhosamente, a Junta de Freguesia em que estou recenseado – a Junta de Freguesia da Sé, em Portalegre.
Devo, porém, salientar que esta apenas foi mais uma das muitas deste algures do Alentejo profundo que assim procederam, uma vez que só as Juntas de Freguesia de S. Lourenço, Alagoa, Reguengo e S. Julião, se dignaram, por carta ou telefone, a comunicar ao mandatário do partido pelo qual concorro, como independente, a deputado pelo círculo de Portalegre nestas eleições legislativas, a data e horários da realização das ditas reuniões. Entre o número infinito delas que o distrito de Portalegre tem, e não obstante várias terem mais do que duas assembleias de voto, somente quatro adequaram os procedimentos à democracia "tendente" atual, continuando as demais a manter aceso o modus operandi do provincianismo obscurantista dos salazarismos gonçalvistas, conforme se pautem pelo seguimento dos modelos do antes ou do após 25 de Abril.
A classe política andou ocupada com outras coisas mais importantes, sobretudo os deputados das maiorias mais maiorzinhas e das maiorias mais pequeninihas com assento na Assembleia da República, preferindo divertir-se e conviver uns com os outros no messenger do que apresentar projectos e propostas de modernização da estrutura político-administrativa da sociedade portuguesa, atirar ao boneco com suas línguas de trapo do que inquirir o governo e os ministérios acerca dos comos e porquês da implementação dos programas e projectos anteriormente aprovados, invectivar o Magalhães do que saber em que pés andavam o Simplex e o Plano Tecnológico, a navegar nas águas sórdidas da baixeza bairrista dos poderes central e local do que a efectuar autênticas avaliações sobre a eficácia de algumas políticas e a eficiência dos agentes envolvidos na sua prossecução. E porquê? Porque tinham ordenado chorudo e garantido, mai-las suas ajudas de custo, deslocações, banquetes comemorativos e o diabo a quatro, pagos pelos contribuintes e consumidores, munícipes e cidadãos, somente considerados gente e ouvidos nas campanhas eleitorais, que depois de terem apertado os cintos anos e anos, se viram agora obrigados a empenhá-lo ao FEIF e FMI para andar de calças na mão durante mais uma década. Porque aprenderam que a impunidade é um privilégio adquirido desde as nomeações do Estado Novo Corporativista e da ANP em que se não deve mexer se se quer manter o lugar marcado na Assembleia da República. Porque da democracia só lhes servem alguns caminhos e atalhos, não os destinos e muito menos os trabalhos.
Isto nem merecia reparo, pois todos sabemos que é assim desde sempre, como se se tivessem instituído as exceções à democracia como únicas regras que ainda vamos cumprindo (habilidosamente). Todavia a Junta de Freguesia exagerou na dose, e até fez melhor, para que não nos esqueçamos a quem pertencia o governo que nos afundou pràs bolsas do FMI e FEIF. Ainda mal a lista com as força políticos a escrutínio tinha chegado do Governo Civil, já a reuniãozinha estava marcada e feita, com os “clientes” do costume nos seus lugares e acomodados nas mesinhas de voto. Pelo que nos quedamos e batemos a chapelada ao efeito do esclarecimento, ficando definitivamente certos daquilo que suspeitávamos há muito, e que é o fato de nem só nas sondagens haverem Zandigas, polvos adivinhadores e demais acéfalos do prognóstico e do palpite, porquanto a política nacional é também o seu resultado e edição.
Ou seja, nem parece que existimos num país europeu, onde há atualmente tantos licenciados (desempregados), quantos eram então os analfabetos. Se foi para fazer outra trambiquice deste quilate, porque andaram a proclamar o 25 de Abril? Pois não restam agora dúvidas, que tanto agitaram as bandeirinhas e sacudiram os megafones, que engoliram o trapo!

5.04.2011

A Lei dos Profetas



Pôr o Peixe a Render...

“Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti”
– Regra de Ouro (Universal) – Diálogos de Confúcio, XV, 23

Quando temos de fazer uma escolha e a preterimos ou adiamos, estamos necessariamente já a escolher algo que não é lana-caprina a respeito do conteúdo profundo dela, mas antes a operar na esfera da sua contabilidade e na medida exata dos preconceitos e resistências envolvidas nessa decisão que, em si mesma, é causa e consequência dessa escolha. Os meus avós diziam que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, e contavam uma história com moral acerca dessa atitude, com a devida ilustração retirada à vida real, quiçá temendo que um dia eu viesse a cair na mesma patetice. Fizeram bem, foi uma escolha acertada, pois se assim não me tivessem avisado, muito dificilmente lhe teria dado ouvidos, e talvez agora nem já existisse para cronicar sobre esta ou possíveis, como restantes, momentos e versões da História. Sobretudo porque parece que há políticos que assumem e tomam posições radicais – sim, porque abater um governo e dissolver a Assembleia da República não passa por moderado em lado nenhum! – mas depois se esquecem do que fizeram e vêm apodar as pessoas que defendem a sustentabilidade económica, social e ambiental de extremistas e perigosos radicais… Ora, cozam-se! – como dizia o Barnabiças do Altino do Tojal.
Até há bem pouco tempo vivíamos, e ainda vivemos, numa sociedade em que o conhecimento não se conservava, embalava e comercializava melhor do que o peixe – conforme a propósito salientou A. N. Whitehead, no seu The Aims of Education –, isto é, em papel, de jornal ou vegetal, cuchê ou bíblia, não importa, porquanto se tratava de reatualizar e reavivar, rejuvenescer sob empacotamento – marketing quase tudo e uma mancha (gráfica) de imaculada sujidade –, um tipo de sabedoria e beleza que, sem "a magia" da educação e do ensino, ficariam irremediavelmente perdidas num passado mais ou menos remoto.
O peixinho, na gíria dos ganzados ervistas e haxixinos diz-se "o peixe", embora não haja ninguém que duvide que um é tão-só e unicamente a metáfora para o outro, qual eufemismo para amaneirar a toxidade do dito, era ingerido, assimilado, por aqueles que lhe podiam chegar, tal como ao ensino superior na modernidade laica e talibanizada se apresenta, e depois de servido pelas mais inusitadas pedagogias, era mastigado à pressa, sob a frugalidade de um Bolonha mal entendido e pior gizado, engolido por compêndio ou sebenta, e vomitado em relatórios ou exames, após o que seria processado burocraticamente para, finalmente, sair em canudos mais ou menos espessos ou grossos, que serviam para tudo, desde a fertilização dos solos inóspitos e bárbaros das terras fracas do além-mar, até à fabricação de telescópios de ir longe na carreira ou ver Braga à mão de colher.
Porém, aconteceu que uma madrugada qualquer, muito diferente da outra em mudanças e vontades, surgiu a crise montada num cavalo branco da coudelaria de São Bento, a escoucear no empedrado da vida, paralelo aqui, para Lelo ali, entre as necessidades e os prazeres, os carmos e as trindades, e eis que na desventura arrastou consigo os eleitores que gostam de jogar em tudo que meta um Xis, assinatura ou totobola, para elegerem novamente para os mesmíssimos lugares e cargos aqueles que exclusivamente contribuíram para a sua dissolução, coisa estranha e absurda, uma vez que não há tino a bater certo que acredite serem os mesmos que geraram a atual crise política quem está melhor preparado para a resolver.
Ora é precisamente a isto que me refiro quando digo que andam a fazer render o peixe quando se aplica um diploma para enganar os demais da pátria, seja ela do Algarve ao Minho ou do Minho até Timor, ainda que língua como almejava Pessoa, atribuindo-lhes o estatuto de pategos e não de pessoas, que o foram elas e eles, e há muito que lhe tinham feito já o manguito do fiado, no caviar do queres o voto, TOMA, de lamber os bêços depois de uma boa feijoada regadinha a tinto de lei, que isso de decidir sem a barriga bem forrada por dentro, ainda que seja para escolher os que lhe hão de vir a fazer o ninho detrás da orelha, não é coisa que se faça de ânus leve. É preciso ter canudo.
Então não atenteiem bem, e depois queixem-se, que nem as canábis vos hão de valer!

4.16.2011

Graças a Deus

Constitucionalidades… – e quem as não quer!

Houve um “célebre” constitucionalista português que se pronunciou recentemente acerca daquilo que outros governantes e parlamentares de outros países da EU pensam sobre os nossos governantes e parlamentares, dando o principal destaque ao fato de estes não se entenderem na Assembleia da República, bem como à circunstância de que o governo como o maior partido da oposição tudo terem feito de quanto estava ao seu alcance para não convergirem no quer que seja, sobretudo no quanto à aprovação do PEC 4 dizia respeito, numa tentativa (já serôdia) de amenizar o impacto da entrada do FEIF/FMI na nossa economia e qualidade de vida.
Estava no seu direito, porquanto o melindre nacionalista de versão estalinista como hitleriano ainda funcionam no equívoco da defesa patriótica, porém não podemos deixar de notar que os políticos desses países não os atiraram para uma crise económica prenunciada pelo despesismo, nem criaram depois uma crise política provocando eleições antecipadas desnecessárias e de suspeita ou maquiavélica índole, com vista a engrossar as suas expressões parlamentares pelo apuramento de maiorias forjadas no exterior, explorando o cansaço do eleitorado e o descrédito da população em geral na classe política, que leva os portugueses a considerar todos iguais, tenham ou não projetos diferentes e alternativos, na medida em que estão habituados à receita do prometem-prometem-mas-assim-que-lá-se-apanham-fazem-como-os-que já-lá-estavam.
Pois bem: não me lembro do nome desse constitucionalista, e a contar pelo afirmado não deve ser levado a sério por ninguém que se paute pela honestidade intelectual, considerando que se o diagnóstico estava certo que importância tem que a receita venha de fora ou não, uma vez que é lá fora que se vai buscar o dinheiro para pagar os juros da dívida que esses políticos que não se entendem criaram, desbaratam e aumentaram? Por melhor que uma pessoa esteja, vir a terreiro defender o errado apenas porque isso lhe interessa partidariamente, é uma coisa feia e desonesta senhor constitucionalista! Não o sabia…? Ah, tem razão: você ainda é do tempo em que formavam as pessoas para saber-fazer e saber aprender/ensinar, mas se esqueceram de lhe ensinar a aprender a ser e aprender a estar, deixando-as tal e qual como antes de terem os canudos, que isso, sim, que é ser civilizado e estar entre humanos, vai lá vai… Temos pena. Só que desta vez, não são os estrangeiros que estão errados: quem não foi responsável, consciente e precavido fomos nós – e tanto é de um desleixe irreparável.
Ora, se há alguma coisa que temos a fazer, não é condená-los ou recriminá-los pelos recados e reparos que nos fizeram. É agradecer-lhes (os eufemismos) por terem calado quanto todos nós sabemos acerca dos nossos políticos, desde o traficar de influências no ministério da cunha até ao usufruir de benefícios fiscais e ajudas que mais ninguém tem. E tanto, além de desleixados, dava-nos direito a epítetos muito mais ofensivos, corrosivos e de trambiqueira índole, que nem vale a pena aqui referir, aind’assim não nos caia em cima o copy past.

4.10.2011

Com o perdão de V. Exas.

Os Imaculados do Sistema…

Os Loucos

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala só.

O idiota que se baba,
Explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
O que nos governa.

O depressivo que salva
O mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(O mais intratável) que não desiste
E escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
Que ri, manso, pela rua, de felicidade.

In A Ignorância da Morte, de António Osório

“A mensagem é o médium.”

Mac Luhan

“Por vezes, ouvimos falar de um processo por danos contra o médico incompetente que deformou um membro partido em vez de o tratar. Mas o que dizer das centenas de milhares de espíritos deformados para sempre pelos inaptos insignificantes que pretendiam formá-los!”

Charles Dickens (em 1848)


Conforme tem vindo a lume ultimamente, Portugal está prestes a virar presunto (1) histórico, isto é, país que não obstante os seus oito séculos de História não é capaz de resolver e pagar as contas da sua sobrevivência, o que o obriga a pedir emprestado para conseguir manter-se a funcionar – nos mínimos. E a coisa não é de agora, que já há muito que se sabia. A mim, e a este propósito, aquando da “terminal” rodada de Crónicas (In)Divisas, no jornal Fonte Nova – e que podem ser constatadas aqui no http://escribalistas.blogspot.com – fiz das tripas coração e – de borla! – alertei para exatamente essa possibilidade, nomeadamente avisando que ou tomávamos medidas restritivas ao esbanjamento geral voluntariamente ou, então, seríamos obrigados a tomá-las no futuro, pela medida do tem-que-ser, ainda me devem declaradas desculpas todos quantos me invetivaram de iluminado e profeta, bem como os que alardearam serem elas frutos de uma imaginação catastrofista.
Mais tarde, aceitei candidatar-me às legislativas pelo POUS 4 porque vi a oportunidade ótima para realçar o significado e urgência da sustentabilidade, da biodiversidade e da cidadania participativa no aprofundar da democracia e cimentar aquilo que pode chamar-se um sentimento político consciente e responsável, com vista estabelecer um projeto – ou desígnio – nacional suficientemente reparador das irregularidades passadas. Fi-lo nas melhores das intenções, mas aqueles que presentemente mais sentem na pele os efeitos desta crise política, social e económica, propalaram que o que eu queria era mama. Actualmente, poderia dizer quando se lamentam «bem-feita, cada um tem aquilo que criou», porém não o digo pois há muita gente que nem votou e também vai pagar pela medida grossa a entrada do Fundo Europeu e FMI, e seu respectivo pacote de austeridadezinhas para os que menos podem – sim, porque para aqueles que podem as restrições serão apenas uma questão (de aumento) de preço…
No plano das autarquias, alertei para o desregramento e desperdício energético que então sucedia. Pois bem, agora estão totalmente às escuras alguns dos jardins que brilhavam e resplandeciam como se fossem carrosséis de feira! Falei nas questões das acessibilidades e transportes para todos, na necessidade de evitarmos – por uma questão de emissões de CO2 e alterações climáticas – a viatura particular e atendermos mais a meios públicos e coletivos. Pois toma: agora a gasolina subiu, os rendimentos diminuíram e a população envelheceu, e está tudo por fazer e com muitas contas por pagar, incluindo os juros do capital a que recorremos para fazer porcarias que têm que ser “abatidas” por inúteis e prejudiciais. E em que ficamos? As mesmas pessoas que criaram o presente estado de coisas vêm-nos propor que lhe renovemos o voto e a confiança para solucionar os problemas… E sabem-no? Se sim, como nos querem fazer crer, então porque deixaram chegar isto onde chegou?
Repeti incondicionalmente como era imprescindível que se atendessem as diretivas para o ensino e educação portugueses enunciadas no Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação: Educação – um Tesouro a descobrir, vulgarmente conhecido pelo Relatório Jacques Delors, que faz incidir a aprendizagem sobre os quatro pilares – ou saberes fundamentais – do saber-fazer, saber-aprender/ensinar, saber-ser e saber-estar. Pois bem, continuaram a transmitir a mesma lateirice anterior do na terra do bom viver faz-se o que se vê fazer, e agora andam a contas com o mais elevado número de desordens e crimes, assaltos e atividades agressivas das franjas indesejáveis e psico e sociopatias de que há memória em Portugal.
Insisti na criação e fomento de Comunidades de Leitores e/ou Grupos de Leitura, e desde que me conheço já frequentei diversas que acabaram por falta de quórum e meios financeiros. Porque a literacia não é saber soletrar mas também interpretar, analisar e valorizar um texto. Pois bem: há pessoas com cursos superiores que não conseguem entender um texto sem bonecos com mais 1000 carateres. Acham muito. E que se perdem a partir da terceira linha.
Contudo, os corporativistas e mentores da ignorância continuam a jurar que o culpado dos seus problemas sou eu, por ser radical, pobre, honesto e transparente, e porque em vez de enaltecer e propagandear o pormenorzito que têm de bom, prefiro apontar o incalculável volume de asneiras e montanha desperdícios que caraterizou os seus PEC’s, PRODEP’s, PDM’s, PIDAC’s, OE’s, etc.,etc. e QREN’s, por exemplo. As suas negociatas entre sectores públicos e privados, a que chamam parcerias, quando não o são, mas sim favorecimentos financeiros avulso branqueados por PIN’s e quejandos. Que os problemas atuais só são problemas porque são vistos e contados por alguém, pois caso contrário, se ninguém os denunciasse até seriam virtudes dos nossos imaculados e bem-formados dominadores da República. Ora, imaculem-se!


(1) Na gíria policial/detectivesca “literária” presunto significava cadáver.

4.02.2011

Genialidades


As Receitas e o Estilo



"E, no entanto, já Horácio se referia a tal trabalho através da alegoria da abelha que recolhe o néctar de todas as flores. Esta exegese plural irá ao encontro de um princípio que se designa por multiplex imitatio, ao qual hão-de ser favoráveis os movimentos humanistas que tão receptivos foram aos clássicos; mas acaba por ganhar outras implicações quando se admite que na referencialidade literária temos que considerar o envolvimento cultural da obra. É a escrita própria do seu tempo, os compromissos retóricos, a estilização paródica, as citações, a recorrência das figuras, enfim todo um conjunto de referências ao corpus literário em que tal obra se situa. Falaríamos de intertextualidade. E a intertextualidade é também memória. Há reminiscências ou vestígios diversos que se actualizam: e o sentido de uma obra resultará desses múltiplos e emergentes sentidos."

– In Fernando Guimarães, A Obra de Arte e o Seu Mundo (pp 45,46)


"Tal como a abelha pousa de flor em flor, lhe retira o néctar, o pólen e a seiva, para depois a abandonar sem lhe ter provocado qualquer dano, assim o sábio passeia pela aldeia."

– Provérbio Popular Chinês (PPC)


Há quem insista, pessoas bem formadas, a tal ponto que chegam a ser formadores de (de)formadores, que as estórias apenas são válidas, quiçá preciosas, pela sua inutilidade didáctica e pedagógica, moral e socialmente, ética e esteticamente. Não porque à semelhança do sábio do PPC vão recolhendo os seus autores entre as gentes remotas lições de vida, costumes e atitudes, que depois lhe devolvem em obras de arte por palavras compostas, mas sim porque pensam que o grau zero de qualquer coisa é a máxima (perfeição) metafórica da sua carreira, do seu carácter, do seu conhecimento e do seu ideal. Fazem na tela, como na vida, um borrão de tinta amarela, sobre a qual colocam de seguida quatro pintelhos, a que chamam adivinha do qual é a coisa qual é ela, e não se evitam, nem hesitam, em propalar que essa miscelânea é o suprassumo do bom gosto e do bom senso, sabendo todos nós, quantos calcorreámos os campos à procura de espargos ou tortulhos, que a isso que eles apelidam de arte, demos muitas vezes pontapés, por não passarem de bufas-de-lobo *.


Ora, esta acuidade intelectual é o néctar de que se alimentam as almas do pão sem sal, os apologistas do quando não percebo marro, ou do não me comprometas que o meu narcisismo já me dá trabalho de sobra, com que tentam impingir a sua falta de saber estar e saber ser, justificando-a pelo esforço que despenderam quando tentaram aprender a fazer e aprender a aprender que lhes garantiu a cátedra. Carência essa, aliás, que foi gerada precisamente pelo não consumo dessas estórias que tanto condenam, o que facilitou a formação de Quasimodos em vez de pessoas socialmente desejáveis.


A literatura, os contos, as pequenas narrativas, não apareceram por acaso. Foram a escola da noite quando as crianças eram uma mão-de-obra imprescindível às famílias, como às comunidades, que se sentavam ao redor de quem as contava junto ao fogo, se era Inverno, ou ao Luar se pela estação quente. Fizeram com que a humanidade se tornasse mais humana, expedita e funcional. Ensinaram-lhe o valor do outro como o reconhecimento de si. Povoaram-lhe o imaginário, como lhe edificaram os sonhos e utopias. Trouxeram-lhe a vida para além da realidade. Transportaram para esta coisas que eram da fantasia e do espírito, e criaram ideias e formas essenciais com elementos da realidade que depois elevaram à categoria de "coisas" espirituais, como as noções de ética e de moral, de mensagem e conteúdo, de significado e referente.


Portanto, deixem de impingir o vosso gosto e prazer em macaquear a vacuidade insana, como se ela fosse a bandeira da sabedoria, uma vez que ela não passa de um farrapo de mediocridade parasitária intelectualóide. Sejam homens e mulheres e deixem as crianças aprender a sê-lo também. Que mal pode haver numa estória que tem como fundo a própria História senão dá-la a conhecer, propô-la nas discussões e na ordem do dia? É preferível contar e ouvir estórias, edificando sociedades e indivíduos, do que gerar filhos da puta enquanto clones da má-formação dos formadores de (de)formadores. Deixem zunir as abelhas e metam os insecticidas no canudo que os habilitou a serem inúteis – mas bem pagos por isso. Pagos por uma sociedade que compra assim a sua própria destruição e insustentabilidade.


E, convenhamos, é engraçado haver uma comunidade que assalaria indivíduos que ensinem "doutores" para destruí-la... Só mesmo cá!

Ah, calino: é de génio!

*Bufa, do italiano buffo (jocoso, cómico), foi o nome dado às operas burlescas, cujo género musical foi criado por S. Landi, com La Morte d'Orfeo, e seguidamente muito cultivado pelo teatro napolitano, tendo alcançado a sua maior perfeição nas obras de Pergolesi e Alexandre Scarlatti.

3.28.2011

Muito Pode Quem Não cala


O Poder da Fala

"É preciso um espírito muito especial para analisar o que é óbvio."

– A. N. Whitehead

Entre o provérbio e o verbo pró (ou contra), não há apenas o conceito de espaço-quando, nem sequer a manifesta intenção de acondicionar o saber de experiência feito numa embalagem linguística passível de ser acatada pelo maior número possível de utilizadores – ou falantes –, mas antes a noção ética que reflecte na íntegra o inconsciente colectivo que o gerou, nas mais profundas e arreigadas inspirações da criação engajada numa civilização, demonstrando assim a qualidade semântica de uma tese que, por si só, não obstante os registos "literários" em que eclodiu, detonou também a antítese que lhe corresponde e a síntese que é o produto de ambas. Logo, ao analisar os provérbios de um povo, de uma língua, de uma cultura, de uma região, de uma espiritualidade, nós não obtemos somente o espelho vivo desse povo, dessa cultura, dessa mentalidade, dessa língua, desse território ou desse universo de sentidos e conteúdos, como igualmente a sua capacidade de gerar modelos de pensamento, lições de vida e constructos mentais úteis no futuro, garantindo consequentemente a sustentabilidade da civilização que comporta.

Quem ateia fogo à noite, de manhã respira-lhe as cinzas. E ninguém está fora dos provérbios por mais cursos que tenha e não obstante as áreas curriculares que estes abranjam. Podem tergiversar, argumentar em contrário quanto lhes aprouver, e ainda que esporadicamente a mentira dita, possa ser tão bem arquitectada, em estilo nobre, cimentado, lógico e convincente, que por assim mesmo a consideremos merecer ser verdade, não há de ser por isso que em tal se tornará. Pois não é pelo facto de a sabedoria ser popular que deixa de ser sabedoria, nem um qualquer provérbio que nasceu das práticas e observações milenares por obsoleto fique, e isto aconteça simplesmente porque a nossa modernidade e falta de experiência o não reconhece, nem valor lhe atribua.

Os homens e as mulheres sabem-no, independentemente de lhe ter acontecido, ou não. Principalmente as mulheres, a quem as consequências dos seus actos, lhe ficam vincadas no corpo como na alma, apesar de quantos avisos e contracepções a que tenham recorrido. Ou a Lua as omita da vigilância natural com que lhes ferve as hormonas ao lume brando do mistério na congeminação da vida. Bem como os adultos de todos os continentes que devem aquilo que verdadeiramente são às crianças que foram e educação que receberam, cuja qualidade enquanto seres humanos reflecte o saber fazer e o saber aprender que os habilitou para as suas profissões, é inegável, ou o saber ser e saber estar que lhes providenciou o estatuto social que actualmente estão a usufruir – e desempenhar. E muito mais que uma sentença, uma determinação do destino, uma conclusão inevitável, eis que essa sabedoria geral se lucubra* na multidisciplinariedade (curricular ou envolvente) que lhe dirige o sentido comum, como cliché ou frase feita, é óbvio, não porque o uso a desgaste e o abuso a esvazie de acutilância crítica, porventura diminuindo-lhe a sagacidade, pertinácia e agudeza de espírito, senão porque o seu peso significativo é tão grande que passou a ser aplicada por tudo e por nada, conforme as necessidades de cada um e em resultado do seu limitado conhecimento, ou desconhecimento, já que as pessoas lhe recorrem e a aplicam em lugar de outras e outros de que não se "lembram" ao momento.

Até pode ser consequência directa das derivas polissémicas que fomenta e inspira, uma espécie de boomerang sofrido por almejar estender o seu significado (extensão) muito para além do reduto sémico em que eclodiu (intenção). Caprichou; lixou-se! Todavia, ao prestar-se como metáfora – aquela palavra ou frase que mete o seu significado fora de si, no ainda além da Taprobana da lusofonia –, enxertando a raiz com um garfo que lhe é estranho, embora não lhe seja adverso, explícita exemplarmente a sua riqueza lexical, denuncia o ensejo colonial e expansionista de uma cultura, que reside inequivocamente na tentativa de monopolizar tudo quanto se possa dizer acerca de um assunto, recorrendo-lhe. Obrigando ao reconhecimento geral de que a totalidade das coisas ditas e enunciados sobre aquilo que está em causa, somente o corroboram – e sublinham. Pelo que, imbuirá de idêntico poder ao que detém, o falante que o emprega, transportando para essa pessoa o seu poder, força que lhe advém dos resultados estatísticos, originando com que aquele que fala diga o que um sem-número de pessoas pensa. Porque esse é o mister da democracia, ou quando a vontade de todos é expressa pela boca de um – o seu líder. Em resumo, um provérbio que ecoa repetindo as mentalidades da generalidade pela fala de cada um. E quando cada qual emite o seu parecer, está a partilhar e participar simultaneamente, contribuindo com o seu voto para melhorar as decisões do seu povo ou da sua pátria. Que o mesmo é afirmar, muito pode quem não cala!

*Lucubrar: 1 – trabalhar ou estudar de noite; 2 – meditar profundamente; 3 – dedicar-se a longos trabalhos intelectuais

3.21.2011

Conto do Dia da (falta de) Poesia


Negócios Corruptos “O melhor favor é o que se faz o mais depressa possível.” Provérbio egípcio Não há justiça nenhuma neste mundo… Um soneto tão bem esgalhado, e aquela criatura só me pagou 0,50€ por ele, dinheiro esse que afinal era meu, que eu tinha investido no sector dos transportes, camionagem e obras lúdicas, em que só não conto quanto não me diverti nelas por vergonha e pudor, e ela, essa abominável carantonha da franja em onda para surfistas mal instruídos, ainda teve o descaramento de tripudiar em cima do meu desalento e infortúnio, acrescentando-lhe como juros uns míseros 0,03€ ao investimento, juros esses que nem chegam aos calcanhares daqueles que a portugalidade vai ter que pagar pela dívida a quem lha comprou. Francamente! Se isto não é martírio, o que é que vamos chamar à Páscoa? Pois. Sobretudo porque entre o culto da água e a água do (o)culto, existe uma enorme diferença que nada tem a ver com questões de liquidez – nem igual grau de pureza ou salubridade: é nela que germina a vida, sendo assim os bastidores e staff operacional da Primavera. Para nos renovarmos como povo e língua, bebê-la é apenas o primeiro passo para uma recuperação (dolorosa) prolongada mas duradoura. Portanto quando recuperei do desastre sofrido na mesa redonda do ajuste de contas, tentei manifestar o meu pesar, outorgando-me vítima magoada das suas ocultas mas destiladas suspeitas. Armei em melindrado, pus nas ventas aquele semblante de poucos amigos que acompanha as tragédias mais tenebrosas do narcisismo molestado, e disse-lhe confrangido que «foste demasiado dura comigo. Aquele sonetinho não tinha mais que catorze versos de cavalheirismo bem-intencionado, de elogio à alegria e beleza, e tu inventaste uma ameaça nele, incluindo um romper de compromissos assumidos em diversas circunstâncias» como se advogasse, não uma defesa da dignidade ofendida, mas antes um direito à inocência e ao usufruir de uma liberdade garantida – e inalienável. Só que tu eriçaste-te, reagiste de supetão com o verbo afiado reclamando que «essa coisinha dos sonetos é mais grave do que parece, meu menino. Não me venhas cá com arrevesadas de vitimização, pois não colam comigo – e já devias sabe-lo. O soneto é apenas a parte superior visível do icebergue das tuas intenções e tendências, submersas no inconsciente, contudo refletidas nas tuas atitudes e comportamentos dos últimos dias. Quando estás à rasca, frágil, a precisar de colo e com a identidade nublosa, eis que vens simpático e prestativo, com prendas e recompensas, solícito, meigo, amistoso, que é uma ternura ver-te nos modos e sensibilidade, palavras e sorrisos. Todavia, mal recuperas do abalo e o ânimo regressa, o equilíbrio recuperado, ficando capaz do prazer e da alegria, então é um regalo ver-te a cirandar de flor em flor, na galhofa, a arreganhares-te para tudo quanto veste saias, ou mesmo não as vestido, evidencia sob as calças os dotes do belo género, como se tudo em ti tivesse nascido precisamente para tal, fosse gentileza donjuanina, expedita e sedutora, oferta generosa de sexo e prazer, maravilha e sonho, realização plausível de todas as fantasias, incluindo as mais ousadas, inauditas, exóticas e recônditas. Em resumo, para te reerguer o ego e reconstruir a confiança, a autoestima e espírito de iniciativa, recorres a mim e à minha ajuda; agora, para usufruir dos prazeres que essa boa-disposição proporciona, preferes recorrer a qualquer gaja, qualquer uma, menos a mim. A mim evitas-me, até no olhar, mostras as trombas características de que toda gente te deve e ninguém paga, fazes-te caro, fino e quezilento, e isso quando não evidencias enorme enfado ou desgosto ao ver-me, mal me aproximo de ti, seja pelo que for. Para te ajudar, sirvo e cá estou; mas para foder e gozar, dispensas bem, e seria a última pessoa de que te lembrarias para o efeito. Quem não cuida e preza aquilo que tem, arrisca-se a perdê-lo, mais tarde ou mais cedo, como tu sabes muito bem. E esta é uma das poucas certezas que este mundo de incertezas tem, como constante. Ok?» Fiquei sem pinga de sangue. Onde é que ela ia buscar aquelas conclusões? Um soneto, um simples e alegre sonetinho, podia sugerir isso tudo! Shara não podia socorrer-me ali, disso tinha noção, sobretudo porque desconfiava que ela te estava a guiar ditando-te as palavras e inspirando-te nas conclusões… Enfim, estava entre a espada e a parede, e se uma tinha a lâmina afiada, a outra era feita de espinhos bicudos e inquebráveis. Para ganhar tempo fui fazer dois cafezinhos, não daqueles intensos e apaladados, antes suaves, de sabor adocicado e subtil, delicado, dois deliQatus da Delta Q, período durante o qual me lembrei do sermão que tua mãe me dera a propósito da sua escolha e variedade sublinhada, onde demorei aquela parte da eternidade que à eternidade ainda falta, e nos faz ansiar para que o tempo voe, o que é um contrassenso, considerando que quanto mais depressa ele passar mais depressa também a nossa durabilidade expirará, quando fui salvo – é exatamente esse o termo apropriado! – pela entrada em casa de teu pai, que nesse sexta-feira saíra do serviço mais cedo precisamente por ser o Dia do Pai, e reparou no meu ar macambúzio se solidarizou imediatamente comigo, prontificando-se a levar os dois cafés para ti e tua mãe, e propondo-me acompanhá-lo numa cervejola preta, fresquinha e saborosa, como nunca tinha bebido até àquele momento. Aceitei com alívio na alma. Porém desconfio que quando ele as foi buscar à cozinha, levando na ida o café de tua mãe, ela deve tê-lo alertado para a gravidade das circunstâncias, visto que voltou de lá com um sorriso de quem estava a par das novidades, dizendo depois, enquanto erguíamos as bejeckas num brinde de empáticas condolências, «meu rapaz, agora tiveste a honra de reconhecer, e padecer, que aquilo que eu digo sobre o ir com elas às compras não é mentira nenhuma. Quando me calha a mim, perco em duas ou três horas muitos anos de vida, e tenho a certeza que grande parte destes cabelos brancos foi ganha nessas idas. Por cada vez que isso sucedeu, a vida nunca mais me foi o que antes fora. Como eu te compreendo…» Tu ouviste tudo mas nem pestanejaste com a confidência. Sequer lhe respondeste, defendo-te ou defendendo-a, a tua mãe, que por retirada na despensa não ouvira o que ele dissera. Eu fixei-te à Benfica, sobretudo quando lhe chamam glorioso depois de sofrida substancial derrota, com vontade de te aplicar o típico «vês, escuta aqui a voz da razão, ou toma lá esta que é de borla», a sondar os efeitos da solidariedade numa refrega de dois contra um, que, como minha avó costumava afirmar, metem-lhe uma palha no cu. Porque fora essa a vantagem que auferiras na viatura, e logo de seguida, em casa, quando me chacinaste com as divagações sobre o género poético em formato de soneto. Jamais o esquecerei. Então, a minha surpresa aumentou descomunalmente, pela reação do teu pai, que insistiu em abraçar-me reparando «venham para cá esses ossos, companheiro. A partir de hoje sei que testemunhaste o meu martírio de mais de 32 dois anos, e que não lhe és indiferente» para, ao mesmo tempo que me jungia segredar-me «preciso de um favor teu. Que vás ao café, e digas lá ao meu pessoal que não contem comigo no petisco desta noite, pois elas as duas com a história do Dia do Pai, armaram-me a arapuca. Vais?» E eu anui, abanando a cabeça no sim-sim do costume com que as mulas comem a ração. E fui, dando por desculpa, ir meter o Euromilhões. Uma mão lava a outra, e com as duas lavamos a cara, como é apanágio do sentimento mafioso mais antigo que a Serra de Ossa, e que devia ter vindo para cá precisamente na altura em que essa montanha era uma mina romana de extração de metais. Tinha sido corrompido, não havia a mínima dúvida, e fechado negócio por uma cervejinha, à semelhança da cumplicidade tasqueira entre dasafortunados do mesmo destino, pagando o favor que ele me fizera, com o cumprimento imediato de outro favor que em troca me pedira. Era a política à portuguesa a ajeitar os laços familiares e matrimoniais… E ainda antes de irmos viver para S. Mamede, homónimo local ao que tivera a batalha que determinou a nossa origem, e foi o princípio de quase nove séculos de História. Seria isso um prenúncio, ou uma repetição das tragédias familiares que, de crise em crise, temos vindo a assistir, numa novela muito mal contada, onde as Xarazades se revezam a contá-la. À História, claro. Até quando estão com ela!

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