La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

8.01.2011

Presságio

PRESSÁGIO


Ao contrário daquilo que pretendo fazer-vos crer
Nem tudo em mim é pura e singela transparência
Também tenho segredos alguns inconfessáveis
Difíceis de dizer, de calar, de escrever, de expelir
De deixar esquecidos numa qualquer rua, esquina
De grafitar nas paredes de alguma casa em ruínas
De abandonar em banco de jardim ou gare ferroviária
De acondicionar entre os livros da biblioteca pública
De encaixotar no sótão com demais trastes e bibelôs
De meter na gaveta das trivialidades preciosas
Junto aos cromos da bola, aos porta-chaves, fotografias
Calendários pornográficos, bilhetes de teatro ou concertos
Recortes de fait-divers, catálogos de exposição, clipes
Botões invulgares, relógios avariados e colchetes ímpares,
Embora me tenha esforçado capciosa e exaustivamente
Rasteirando-me amiúde ou tentando desmascarar-me
Pra nada permitir oculto de mim e de meus semelhantes.


Mas ontem à noite, ao deitar-me, tinha uma aranha
Pequena e quase negra sobre a colcha branca da cama
Por cuja pose serena, pacificadora, sem o mínimo temor
Sem qualquer expressão de surpresa parecia aguardar-me
Que não tive coragem de afugentar e muito menos de matar
E a quem fiz com que me subisse prà concha da mão direita
A fim de pô-la num lugar da casa raramente frequentado
Num dos quartos vagos e sem serventia que me sobram.


Foi um momento solene, de sublime suspensão religiosa
E sustida respiração com receio que ao expirar a incomodasse
O ar exalado viesse inquietá-la ou lhe inspirasse a fuga
O susto, o pânico, algo lhe subtraísse a letargia apaziguadora.
Contornei móveis, transpus portas, percorri salas e corredores
Todavia, como se adivinhado tivesse a solidão dos quartos
A prisão de silêncio para que estava disposto a atirá-la
Ei-la num ápice saltando sem que pudesse evitar-lhe o sumiço
Deixando-me estático para que a não pisasse sem ver
A molestasse involuntariamente ou, enfim, a matasse
No precipitado comum dos gestos irreversíveis e fatais.


Adormeci com a porta do quarto entreaberta... Mas demorei
Custou-me adormecer e passei a noite em sobressalto
Sonhando acidentes vários, tempestades, desertos gelados
Catástrofes mais que perfeitas me obrigaram a acordar
E, durante todo o dia de hoje, andei na casa em bicos de pés
À coca, com cuidado e atentando bem ao dar os passos
Compungido e ansioso por reencontrá-la e trazê-la de volta
Depo-la novamente no meu quarto, rogando-lhe perdão...


Sei que vos pode parecer esquisito este clima de segredo
Este suspeitoso ar de mistério e culpa por um ser ínfimo
Insignificante de quatro pares de patas e baba de seda
Não obstante gregos e egípcios em sua teia revejam o destino
E os cristãos lhe concedam as tramas e ciladas de satanás
Ou o sustentáculo do conjunto da vida como querem os celtas,
Casa e tabernáculo da Grande Mãe devoradora de fomes e homens
Insaciável poço de vertigem, sofreguidão e imperiosas urgências.

* * *
Sete dias se passaram convém não esquecer, sei-o muito bem
Porém também não desconheço que a culpa não foi minha
Mas da alma que me arregoou em todos os sentidos possíveis
De júbilo, de alívio, de euforia, de arrebatamento, enfim de tudo
Pois voei de mim desde que a voltei a encontrar, inconfundível
Precisamente ao canto esquerdo do espelho rectangular, de manhã
Na casa de banho quando fui barbear-me, lavar inclusive o rosto,
E ali ficou a olhar-me, vendo-me a ver-me na limpeza diária das faces
Ou a iluminar-me de outra luz para além daquela jorrada da lâmpada
Semeando-me enxadas digitais para softwares de enredo e mistério
Tecendo-me a realidade com diferentes pontos e linhas num morse
De seda cinza onde adivinhar e domesticar frágeis sinas ou futuros
Rumos pendulares, parabólicas intercepções oscilantes entre céus
Reinos da alma fugida, exilada do corpo durante os sonos da noite
Contudo recuperada pela aurora no canto esquerdo do plano reflexo,
Espelho esse que mais tarde abandonou para subir ao tecto
Instalar-se como estrela de oito pontas no vértice superior direito
Exactamente no ângulo feito entre as paredes e o estuque cimeiro.

* *
Agora deixei, é certo, de andar na casa com receio de pisá-la
E a desenvoltura nas lides ganhou aquela lesta espontaneidade
De quem não necessita de se resguardar da terra que habita
Do chão que pisa, da pele que o envolve, do querer que o anima.
No entanto, sempre que saio de casa tenho de confirmar onde fica,
Mal regresso é a primeira coisa que faço, a ver se ainda lá está,
E nunca me deito ou adormeço sem antes lhe ir desejar boas noites.

Pensei que fosse superstição, ritual de incorporar alguém querido
De quem sinto a ausência e me prendeu nessa teia de palavras
Onde germinam e proliferam as essências secretas dos predicados
A alquimia dos verbos que transitam entre os planos semânticos
E faz fluir a eternidade tornando-a una e transversal às gerações.

Supus ser a tecedeira da rede de afectos que me pescou a alma
A cerziu em passagens serenas e assimétricas de emalhar sentidos
Cruzar pontos, atar hífens, justapor ritmos e rimas da paleta sonora
Ou preencher o vazio do cosmos com as linhas que o sustenham
Réplicas do DNA universal comum a todos os elos da espiral da vida,
As ligações que irmanam os seres e espécies da casa na geografia
Interior a que axónios íntimos jamais negaram a sinapse das falas.

Acreditei que fosse o espírito ancestral congeminando as sortes
Os anseios de olhar o céu que nos tornam únicos porque adoramos
Infringimos a lei dos deuses roubando-lhe o fogo de forjar a matéria
E a vontade, moldando sobre a bigorna do tempo os próprios símbolos
Véu de ilusão, ovo de Maya, expressão da prodigiosa criação da beleza
Lídia dotada, efémera Aracne tecelã dos amores dos deuses pelos mortais
Ferida por Atena e sua lançadeira no castigo da ambição demiúrgica,
Qual Anansé que amassou e moldou a farinha dos primeiros homens
Que criou o sol e as estrelas, força realizadora da meditação intuitiva
Primórdio inicial de todos os seres e interioridade preciosa do cosmos.

Porém, nenhuma justificação me satisfez... Nem o seu consentimento
Me foi dado observar, até que subi ao bordo da banheira e observei
De muito perto, tão perto que os seus cinco olhos me fitaram de viés
Me saudaram num ínfimo pestanejar de assentimento pacificador,
Ditaram que no pentágono dos sentidos o núcleo governa o todo
E esse é tido e ordenado pelo soslaio que emite aos quatro cantos
Aos quatro elementos naturais, terra, ar, fogo e água, carne, respiração,
Calor e sangue, cérebro, pensamento, sexo e amor, língua, cultura,
Arte e poema, aliás simples e trôpega cópia do teu olhar na segunda fila
No balcão dos conteúdos escondidos em cifra humana e literária
Metáforas vivas da arca de acácia onde a humanidade guarda o sonho
Que nos sonha, inventando-nos à sua imagem e dela testemunhas.


Indubitavelmente o teu soslaio, magma que te esculpe o sorriso
No rosa cintilante das faces sob os arcos lunares dos cabelos castanhos
Tensos mas tombados como um manto, duplo véu de Vénus
Moldura de enigma e mistério, seda de abrigo para Moura Encantada.

*

Nem tudo em mim é simples e pura transparência como supõem...
E quero fazer crer. Por exemplo, acabei agora de dizer o teu nome
Como presságio de reencontro, e somente tu o saberás ouvir, ler
Reconhecer entre todas as palavras que vagueiam e se espraiam
Na enseada da voz, no delta da fala, à sombra dos oásis do poema.

7.31.2011

Fábulas Fantásticas, de Ambrose Bierce


O DESTINO DO POETA

Jornadeava um Objeto pela estrada real, repleto de meditações e munido de mais coisa nenhuma, quando de súbito se viu ante as portas de uma grande cidade. Tendo pedido autorização para entrar foi preso sob a suspeita de acreditar em ritos e levado à presença do Rei.
– Quem é o senhor e que profissão é a sua? – Perguntou-lhe o Soberano.
– Sou Carlos, o Larápio, gatuno de esticão – respondeu o Objeto com grande rapidez de inventiva.
O Rei ia-o mandar soltar quando o Primeiro-Ministro sugeriu o exame aos dedos do detido. Verificou-se que eram muito achatados e calosos.
– Ah! – exclamou o Monarca – eu bem vos tinha dito! O nosso homem dedica-se a contar sílabas. É poeta. Entreguem-no ao Grande Dissuasor do Hábito de ter uma Cabeça.
– Se Vossa Majestade mo permitisse – saiu-se, então, o Inventor Ordinário dos Castigos Engenhosos – eu proporia uma pena mais pesada.
– Diga, diga – assentiu o Rei.
– Que ele conserve a cabeça!
E assim foi ordenado.

In Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral

Soneto de Filinto Elísio (1734-1819)

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o com o pesar de um desgraçado,
A quem nem feições lembram da ventura.

Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Na negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água.

Consolar-me só podem já pesares;
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa!


(Nota: Caraterístico das almas românticas, o sentimento do noturno, aparece em Filinto Elísio e adquire neste soneto uma das suas mais belas expressões. Se salientarmos o tom veemente e exagerado predominante na composição, que culmina na redundância final ao encher de mágoa universal a mágoa particular do autor, notamos sobremaneira como os efeitos puramente românticos ainda continuam a funcionar no arrebatamento inicial das leituras atuais.)

7.24.2011

Conto de Terka Lux


PAULO
Conto de Terka Lux **

Perto das nove horas da noite, Paulo bateu à porta da casa do seu tio médico. Paulo era um rapaz de vinte e sete anos. O tio tinha cinquenta e cinco. Era um solteirão rabugento, meticuloso avaro de palavras.
Os dois parentes raras vezes se viam, e o médico ficou muito surpreendido com aquela aparição inesperada, feita de noite.
– Estás doente? – Perguntou, olhando para o sobrinho, de pé, diante dele, com o rosto transtornado e o olhar triste.
– É muito provável – respondeu Paulo –, e queria consultá-lo.
– Senta-te e vejamos o que tens.
Paulo sentou-se. Em frente, na secretária, estava uma caveira. Com um gesto nervoso, tapou-a com um jornal e depois, num tom a princípio baço e monótono e em seguida veemente, em frases cortantes, disse:
– Há dois anos que cortejo uma excelente e honesta rapariga. Trabalhava numa casa de costura. Eu, como sabe, estou há quatro anos num armazém de sedas. Ela é órfã, tem a minha idade, é digníssima na conduta, hábil e corajosa perante a vida, mas tão pobre como eu. É-me muito dedicada. Tenho por ela grande simpatia e, de boa vontade, a tornaria minha mulher, se a rapariga dispusesse pelo menos de cinco mil pengos. Não... contentava-me com menos... Bastava que tivesse três mil. Nem tanto. Dois mil chegavam-me. Dois mil, para poder tomar qualquer iniciativa. Mas ela não tem dinheiro e todos os dias suplica que casemos. Passa horas inteiras a chorar, enquanto discorremos sobre a vida. Digo-lhe:
"– Sossega, Julieta, peço-te encarecidamente.
– Mas eu estou sossegada – diz ela.
– Então não chores.
– É uma vontade que não te posso fazer. Isso apertar-me-ia o coração. Bem sei que nunca casarás comigo.
– Neste momento é-me impossível.
– E noutra ocasião qualquer também não poderás.
– Esperemos, Julieta.
– Esperemos, o quê? – soluça ela. – Temos vinte e sete anos. Os vinte já lá vão, e a vida que passa não recomeça. Não seremos amanhã mais ricos do que hoje e Deus não gosta das pessoas que hesitam. Não se deve levar anos a pensar no casamento. Gosto de ti, tu gostas de mim, que mais é preciso? O amor, a estima e o trabalho é que são indispensáveis. O dinheiro? Se o temos tanto melhor, mas, se o não há, é isso razão para que os pobres não se casem?"
– É assim que ela fala. É esta a sua filosofia. E isto continua assim todos os dias. Não posso mais.
– Tenho um colega – continuou Paulo –, um rapaz que vive com desafogo. Acaba de abrir um armazém numa rua de grande movimento. Dava-me sociedade se eu casasse com a irmã dele, que tem cinco mil pengos de dote. Insiste muito comigo. Quanto a Julieta, casava com ela apenas por dois mil. Sou pobre e, no casamento, os pobres não procuram o amor, mas a base da existência. Apesar disso, preferia casar com a pobre Julieta. Ela contentava-se com um quarto e cozinha, ao passo que para a outra seriam necessários dois com todo o conforto moderno, uma criada para todo o serviço, sem falar do casaco de peles, do teatro, da vida de sociedade e de toda a espécie de frivolidades. Para Julieta não é preciso nada, e do seu amor por mim tenho provas. A outra, não a conheço, e é possível que seja uma pessoa tão complicada, que me tornarei calvo depois de a conhecer a fundo. A comodidade também entra em linha de conta. Todas as raparigas, aquelas com quem casamos ou aquelas com quem não se casa, gostam de ser conquistadas primeiro. Temos de andar bem barbeados, bem vestidos, oferecer-lhes flores e mostrarmo-nos apaixonados. É aborrecido e estúpido. Faz-se isso uma ou duas vezes. Julieta é a terceira. Mas, à Quarta, ataca-nos o tédio. E receio também que digam nas minhas costas: "Este canalha seduz mulheres. Encheu de desgosto a pobre Julieta, que ficou com o coração estilhaçado como um vidro apedrejado por um garoto." E, contudo, não posso. Sou pobre...
O médico encarou-o com dureza.
– Então, que queres? Com certeza queres alguma coisa.
– Sim, quero alguma coisa – gaguejou Paulo.
– Queres casar com a rapariga rica?
– Queria.
– E a Julieta?
– Há de consolar-se.
– Suicida-se.
– Então casa com ela.
– Não posso.
– Que queres que te faça?
– Procurei-te justamente para to perguntar, por seres um homem sensato e instruído. Dá-me um conselho.
O médico encolheu os ombros.
– Não te posso dar conselho nenhum. Querias ser bom, e não podes. Querias ser mau, e também não és capaz... Nem sequer és uma dessas ovelhas que vão para onde o pastor as leva. Não podes ser nada: nem pequeno, nem grande; nem sensato, nem louco; nem ébrio, nem sóbrio. Não passas de um pateta e da pior espécie. Volta para casa e mete-te na tua cama.
O médico ergueu-se, e Paulo viu o desdém nos seus olhos frios e inteligentes. Levantou-se, por seu turno. Sentiu que praticara, ao procurá-lo, um disparate sem nome. Pegou no chapéu e saiu muito embaraçado.
O médico olhou, demoradamente, para a porta por onde Paulo saíra. Recordações antigas entravam por ela.
A sua irmã mais velha, mãe de Paulo, morrera há tempos. Era de pequena estatura, testa deprimida, olhos oblíquos e a pele amarela. Parecia chinesa. As outras duas irmãs eram bonitas e casaram cedo. E, já em nova, Madalena dava a impressão de que nunca seria feliz. Era costureira e trabalhava numa casa de modas, sob a direção de um costureiro que talhava os fatos pelos figurinos ingleses. Era marreco. Usava, como os artistas, os cabelos compridos. A cara era simpática e pálida, apesar de ter duas manchas vermelhas. Como passara três anos em Paris, falava corretamente o francês. Madalena apaixonara-se por ele ao ouvi-lo, pela primeira vez, falar francês com a dona da casa. E decidiu que casaria com o marreco. Tinha uma tão grande força de vontade, ao contrário do costureiro, alma débil, doentia e indiferente, que conseguiu o que queria. Ele morreu pouco tempo depois. Tal eram o pai e mãe de Paulo.
Sentado, no escritório, o médico acendeu um cigarro e, através do fumo, uma cena antiga se reconstituiu:
Madalena era já há muito tempo viúva. Trabalhava sozinha na sua pequena habitação, numa rua estreita. Era uma noite de Verão. A porta da cozinha encontrava-se aberta e, como Madalena adoecera, fora visitá-la. No quarto, não o ouviram entrar. Ela cosia perto da lâmpada, e Paulo, que contava então doze anos, estava sentado com os livros na frente. A mãe repreendia-o e o médico ouviu tudo o que ela lhe dizia.
– És tão estúpido, que me envergonhas. De todas as crianças dos nossos vizinhos e das pessoas das nossas relações não conheço nenhuma tão pateta. Os outros são todos rapazes inteligentes, desembaraçados... E tu?... Atrapalhas-te com tudo. Quebras a cabeça com coisas que nunca te darão o menor proveito. Os outros rapazes são simples, naturais, razoáveis; são como toda a gente. E tu?... Tu não és como os outros. Que posso fazer de ti? Ninguém te estima. Nem eu própria morro de amores por ti. Fazes sempre perguntas a que ninguém pode responder. Para quê? Não tens amigos. Como te arranjarás para viver? Estás sempre a dizer: «isto não é justo». Que coisa estúpida será, em tua opinião, a justiça? Que necessidade tens dela? Queres que toda a gente se afaste de ti? Os teus próprios professores não podem contigo. Trata mas é de estudar e de arranjar uma boa colocação. Os teus professores dizem que tu não tens nada de burro. Não acredito. Um homem inteligente não se preocupa com o que é bom para os outros, mas sim com o que a ele lhe pode interessar. Seja o que for que te digam, respondes sempre: «Examinemos isso com cuidado...» Onde já se ouviu dizer semelhante coisa? Para que queres examinar cuidadosamente coisas que ninguém examinou? Todos os garotos, incluindo o petiz do vizinho, que tem oito anos, gostam de dinheiro e de fazer negócios. Tu nunca terás para os negócios o menor jeito. Morrerás de fome. Neste mundo, hoje, todos querem arranjar dinheiro. De que raça és tu? O que tens pertence-te, mas um homem inteligente consegue também o que não está ao seu alcance. Tu... Quando chegar a vez de teres que ganhar a vida, morrerás de fome! Idiota!...
As lágrimas de Paulo rolavam-lhe pelos livros. O médico retirou-se, sem ninguém dar por ele, e foi-se embora... Tal era Paulo noutro tempo... E agora era um Paulo totalmente diferente, que saíra por aquela porta...
Nesse momento, o médico lamentava ter-lhe falado com tanta rudeza. Resolveu mandá-los chamar no dia seguinte, a ele e à rapariga. Queria ver essa Julieta. E, para que Paulo tivesse um lar, estava disposto a dar-lhe dois mil pengos. E mais mil para a sua casinha. Três mil, ao todo. E foi-se deitar.
Paulo passeou toda a noite nas margens do Danúbio. Estava uma noite escura, sem estrelas. Ele tinha medo daquela água profunda. Ao dealbar, o Danúbio tinha um aspeto muito agradável. O sol surgiu, por entre um nevoeiro cor-de-rosa, as ruas animavam-se, e Paulo deitou ao mundo um último olhar, um olhar de despedida.

** Modernista Húngaro dos princípios do século passado.

7.20.2011

Ela Partiu, conto de Tchekov

ELA PARTIU
(Conto de Tchekov – 1883)

Tinham acabado de almoçar. Da parte dos estômagos havia um bem-estar delicioso. As bocas abriam-se em bocejos e os olhos começavam a fechar-se sob uma sonolência beatífica. O marido acendeu charuto, espreguiçou-se e deixou-se cair no sofá. A esposa sentou-se a seu lado e principiou a ronronar... Eram ambos muito felizes.
– Conta-me qualquer coisa – disse ele, bocejando.
– Que hei de contar-te? Hum... Ah, sim; já sabes? Sofia casou-se ontem com o... Como se chama?... Von Tramb. É um escândalo!
– Um escândalo, porquê?
– Porque esse Von Tramb é um crápula. Um patife, um homem sem escrúpulos, sem o menor princípio! Um monstro de imoralidade. Foi administrador do conde e encheu as algibeiras, agora é empregado nos caminhos-de-ferro e desfalca. Despojou a irmã. Numa palavra, é um biltre e um ladrão. E casar-se com semelhante indivíduo! Viver com ele! Tanto mais que se trata de uma rapariga decente. Por nada deste mundo eu casaria com tal homem. Ainda que fosse milionário e mais bonito do que ninguém, eu mandava-o... passear! Nem posso conceber a ideia de um marido tão desonesto.
Levantou-se num pulo e, vermelha de indignação, começou a andar de cá para lá na sala. A cólera brilhava-lhe nos olhos. Era evidente a sua sinceridade.
– Que tipo aquele Von Tramb! E mil vezes tolas, mil vezes cobardes, as mulheres que se ligam a semelhantes cavalheiros!
– Hum... Não serias tu, com certeza, que casarias... mas se soubesses agora que também sou um patife... Que farias?
– Eu?! Deixava-te! Não ficava contigo nem mais um segundo. Só posso amar um homem honesto. Se soubesse que fazias a centésima parte do que fez Von Tramb dizia-te Adeus sem perda de um instante.
– Ah, sim? Que mulher eu tenho aqui! E eu que nem suspeitava... Ah, ah, ah! As mulheres mentem sem sequer corar!
– Eu nunca minto. Experimenta cometer um ato indigno e verás!
– Para quê experimentar? Tu própria o sabes... Sou muito mais velhaco que esse Von Tramb. Comparado comigo ele é um insignificante. Arregalas os olhos? É extraordinário. – Pausa. – Quanto ganho?
– Três mil rublos por ano.
– E o colar que te comprei a semana passada, quanto custou? Dois mil, não foi? E o vestido, ontem? Quinhentos... A casa de campo? Dois mil... Ah, ah, ah! Ontem o teu papá apanhou-me mais mil rublos...
– Mas, Piotr, os teus rendimentos suplementares?
– Os cavalos... O médico da família... As contas das modistas... Há três dias perdeste cem rublos às cartas.
O marido endireitou-se e, cruzando as mãos sob o queixo, relatou, até ao fim, a lista das suas proezas. Em seguida foi ao escritório e mostrou à mulher algumas provas materiais.
– Como vês, querida, o teu Von Tramb não é mais que uma brincadeira, um ladrãozinho, ao pé de mim. Adeus! Vai-te embora e, de futuro, abstém-te de julgar.
Terminei. Talvez o leitor me pergunte:
– E ela partiu?
Sim, partiu... para a sala contígua.

7.19.2011

Um conto de Marie Berde

O JARDIM AINDA O IGNORA
Conto de Marie Berde*


O jardim era tratado com o carinho que uma mulher apaixonada costuma dispensar ao seu ninho de amor. Assemelhava-se a um templo de ritos secretos, a um leito nupcial com recolhimento: era misterioso, faustoso e puro. As janelas do prédio que deitavam para as traseiras estavam ocultas pela abóbada da folhagem das tuias [árvores coníferas]. Em frente do terraço, viam-se platibandas [bordaduras dos canteiros de um jardim], as áleas de areia dourada e grossa, tapetes de verdura reluzentes como esmeraldas, cujo brilho instável anunciava a Primavera, com a brancura terna das flores de fogo desaparecidas sob a geada.
Mas, apesar disso, havia no jardim mais verdura do que flores. No meio das platibandas e nos recantos viam-se pequenas palmeiras e piteiras que ostentavam a sua rígida beleza de plantas do Sul, e, em volta de vasos de mármore com veios cor-de-rosa, as rosas dos rochedos concentravam-se em montículos escarlates.
Para além das platibandas, os silvados formavam, confundindo-se, áleas compridas, onde imperava uma luz verde. Ali, os pássaros, estavam como em sua casa, quer os canoros como os silenciosos, de que apenas se ouvia o suave murmúrio e o ruflar das asas ao rés da folhagem...
Tal era o jardim em cujo terraço se sentaram pela primeira vez, depois de terem trocado beijos de amor sob as estrelas, para que elas, que nunca desaparecerão, fossem as testemunhas do seu encontro. Ali, até ao terra, à direita, havia a sombra dos caramanchões, onde eles liam os livros em que se encontravam a si próprios. Era lá que ela cerrava os olhos sobre os sofrimentos inverosimilmente belos do jovem Werther, e que, lendo Baudelaire, escondia o rosto na massa sedosa de que o fresco perfume evocava os bálsamos opulentos da casca do abeto fendido.
À esquerda, por entre os pinheiros, havia uma rede. Quantas vezes ele ali a encontrara! Sentava-se ao lado dela, e talvez nunca tivesse passado horas tão belas como aquelas em esperava o seu despertar...
Ou provavelmente a mais bela de todas teria sido uma em que lhe viu brilhar a primeira lágrima. Não foi do seu amor que ela brotou, mas da doença de uma criança, um dos seus parentes, a quem nunca vira e por quem reaprendera as orações da sua infância, só para ver um sorriso nos lábios da amada.
A vida era encantadora, rica e imutável, ao pé dela.
Os anos passaram sem causar dano à sua beleza, à sua bondade e ao seu encanto. O seu amor por ela tornou-se um verdadeiro culto insubstituível.
Naquele dia apareceram de novo no terraço, e nunca, nem o jardim, nem a mulher, tinham sido tão belos, em sua pompa colorida. As orlas dos canteiros cintilavam como se fossem iluminadas de baixo para cima. As flores pareciam hesitar entre o branco e o azul primaveris, e as orgias de amarelo e de vermelho outonais.
Da tonalidade mais suave do ponto extremo do céu, que avistava, ao azul vertiginoso do zénite, ao cor-de-rosa resplandecente dos botões rústicos, passando pela rosa lilás, as campânulas prodigalizavam a sua beleza, e as dedaleiras acendiam, em volta delas, chamas vermelhas e amarelas.
Agora o homem compreendia porque lhe barrara ela, durante tanto tempo, a porta do jardim.
Reservava-lhe, como surpresa, a floração estival. Dir-se-ia que toda aquela pompa se repetia nela: sobre a brancura imaculada da testa, a linha azulada das têmporas, a cara rosa pela emoção, os lábios avermelhados pelos beijos. O seu vestido também parecia copiar, num verde mais delicado, as ervas mais claras, e o veludo dos seus olhos dir-se-ia querer lutar com as pétalas dos pensamentos. Para os seus cabelos não encontra matizes semelhantes, nem nas manchas de ocre vermelho das énulas [Plantas vivazes da família das Compostas. Têm raízes grossas, caules robustos até dois metros de altura, folhas caulinares sésseis, amplexicaules e flores amarelas dispostas em grandes capítulos. Cultivadas como ornamentais em Portugal, são conhecidas na Europa desde a Antiguidade pelas propriedades medicinais das suas raízes], nem no pólen das rosas desfolhadas. Durante o longo e mudo êxtase que se seguiu, a mulher tornou-se lentamente sombria.
– O jardim ainda o ignora... – disse ela, e a voz estrangulou-se-lhe.
– Ignora, o quê?
Como resposta, ela pegou-lhe na mão, e fê-lo caminhar a seu lado. Não encontrou resistência; além disso, quando ele sentia a sua mão, nunca lhe perguntava para onde o conduzia. Do outro lado dos canteiros, em que se abria o primeiro corredor de verdura, a hera pendia em compridas abóbadas. As folhas eram espessas, duras, de um verde-escuro, e dir-se-ia que nas suas nervuras brancas corriam um sangue puro e fresco.
Estendeu a mão para a hera, puxou-a para si e designou uma folha dum amarelo d cera:
– A primeira... – disse ela suavemente.
Largou a hera, que lhe roçou os cabelos, desmanchando-lhos. Quis alisá-los suavemente. E, então, algo atraiu o seu olhar. Um cabelo curto, que ficara solto, da cor de um fio de prata, na massa de um castanho metálico.
– O jardim ignora ainda – repetiu a mulher –, que o Outono abriu nele uma clareira.
E prosseguiu:
– Uma clareira, não; uma pequena fenda, um postigo por onde observa o jogo de cores, antes de as varrer.
Enquanto falava, continuava a caminhar, de cabeça baixa, seguida pelo homem.
Sentaram-se num banco. O homem estava pálido como a folha da hera amarelecida.
– Sinto-me cansado – disse ele.
Deitou-se no banco, reclinou a cabeça sobre os joelhos da mulher, e fechou os olhos, para não ser obrigado a falar...
Uma imagem começava a atormentá-lo... Via-a, em frente do espelho, quando ela notasse o primeiro cabelo branco.
Ela nunca lhe pedira – pelo menos nunca em tal lhe falara – que abandonasse a paz do seu lar, a sua mulher e os seus filhos, e lhe desse o que sobrevive a um amor passageiro: um filho.
Fora do seu amor, ela nada tinha. Diante do seu primeiro cabelo branco, estremeceria de medo, do medo inconfessado de perder o seu único bem, pelo qual tudo sacrificara.
Via debater-se esta esbelta e magnífica criatura, que ele conhecia como uma harmonia perfeita. Debater-se e talvez, algum dia, inexplicavelmente, dizer-lhe Adeus, depois de um combate travado na sua alma. De cabelos brancos pode ser-se esposa e mãe, digna de amor, respeito, veneração, mas à amante, à amante magnífica, só dizer-se-lhe Adeus sem um queixume.
Apertava-se-lhe o coração e só uma ideia o consolava.
Um sentimento difuso, a custo definido: que não era por ele próprio, mas por ela, que o coração se lhe oprimia; por ela, que ele via na sua frente, com um vestido sombrio como o das religiosas, quando só lhe restasse o rito funerário do passado.
Entretanto, ele não tardaria a depor um beijo na testa da filha, no dia em que ela casasse, e a apertar a mão ao filho, no começo da sua carreira. E o andar ágil dos netos daria a medida das suas alegrias domésticas, enquanto, para ela, a neve cairia no seu jardim e alastraria... alastraria num amplo lençol, porque não havia ninguém para a pisar. Só as patinhas minúsculas dos pássaros lhe imprimiriam pequenas estrelas...
A tristeza da mulher passou como a sombra da nuvem, sobre a qual a profundidade das cores ressaltava ainda mais vigorosamente. A languidez delicada, quase agradável, da sua melancolia só se transmudou em emoção, quando ouviu o homem suspirar. E foi então, ao inclinar-se para ele, que viu no canto dos seus olhos lágrimas que não podiam correr.
– Diz-me, em nome do céu: causei-te tristeza por causa desta primeira folha amarela?
Baixou, quase imperceptivelmente, os olhos e fez-lhe um sinal afirmativo. E sentiu naquele olhar a moleza de um lenço: suavemente, num tom maternal, como a um doente, ao qual se quer ocultar pormenores entristecedores.
– Escondamos as tuas lágrimas. Não quero que o jardim saiba que choraste. Que ele continue a florir por mais algum tempo, tranquilamente, sem desconfiar que a sua beleza já foi atingida...
No pequenino lenço de cambraia, recolheu as suas lágrimas e, como se tivesse brotado pelo que havia para ela de mais precioso no mundo, ocultou-as no seu peito, que escaldava.


* Nasceu em 1889, na Transilvânia (Kacho). Foi nos seus primeiros tempos, antes de ingressar numa carreira literária, professora de escola profissional, tendo sido conhecida principalmente como romancista e dramaturga. Nas suas obras refletem-se o caos trágico da vida moderna e a introspeção dos seres solitários e simples. Entre os seus mais populares romances destacam-se O Filme Eterno, Dança Macabra e Vergonha Sagrada.

7.12.2011

Piafé e marcar passo são andamentos de não ir a lado algum

Não Mais o Stop and Go


"O exercício do poder consiste tanto em lutar democraticamente pela sua conquista, como em saber sair do poder por mais que se invoque o interesse nacional como único motivo para dele não sair."
In Francisco Pinto Balsemão, Exercício do Poder e "Jogo de Vulgaridades", Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 4, Volume II, Setembro/Dezembro de 1984.

Tal como Roma, Mora e Pavia não se fizeram num só dia, também Portugal não sairá da cepa torta de um momento para o outro, por mais que os governos se esforcem a implementar as medidas enunciadas no plano (ou memorando) da Troika, adoptadas como programa de governo, sobretudo se para tanto não for acompanhado por uma onda de empenho e solidariedade dos demais cidadãos portugueses, sem responsabilidades administrativas e de gestão, é óbvio, mas que se subscrevem na linha de uma participação ativa, emancipada, consciente e amadurecida no exemplar reconhecimento das dificuldades com que nos iremos deparar no futuro próximo, tão próximo, que em nada não se distingue do presente. É urgente que esta tomada de consciência se faça com prontidão e não se atenha somente às forças políticas do arco governativo, antes pelo contrário assuma a dimensão de um desígnio nacional abrangente, rigoroso e sem ressentimentos. Desafetos políticos, objetivos eleitoralistas ou regionalismos divisórios. Eu próprio, que fui candidato à Assembleia da República por uma força da esquerda progressista não me coíbo de apoiar este governo em tudo o que for a favor da sustentabilidade, do equilíbrio das contas públicas, da resolução dos problemas estruturais e do emprego, de combate ao défice e investimento para o crescimento, do desenvolvimento humano, da segurança, da imagem externa e do recuperar da confiança dos mercados, do relacionamento entre Portugal e demais membros da CPLP, da biodiversidade, património, do racional ordenamento do território e da cidadania. E não me caem os parêntesis na lama por isso!
Entre o Bogio e a Boca do Inferno não há meio-termo, precisamente porque enquanto se discute e procuram bodes expiatórios as dificuldades aumentam, cavalgam, endurecem nas caraterísticas e especializam-se na eficácia. Não podemos continuar a fingir que tudo está bem e se recomenda, só para ganhar vantagens competitivas de lana-caprina e lugar de abençoado nas simpatias dos encarregados de secção, nem jogar de arrepio e tabela seca, dando garantias de uma coisa ser boa, ou óptima, só porque é nacional ou quem a vende morar na nossa rua, quando lhe vemos defeito e consequências nefastas, embora estas não nos prejudiquem diretamente mas a terceiros, pois não é pelo fato de estarmos todos mal que alguns têm que ficar ainda pior para beneficiar quem sempre se esteve nas tintas para quem estava mal quando nós andávamos a apanhar bonés. Uma crise não é uma esponja para apagar passados, nem muito menos um salvo-conduto para quem se conduziu no desmérito. Se há algo que antes era abominável, continua a sê-lo, e agora com muitos mais razões para o rejeitarmos. Porém, devemos abdicar de preconceitos e fatalismos, uma vez que temos que romper com aquilo que reforça sobremaneira a inércia portuguesa à inovação, reforma e mudança, sobretudo devido a estas se encontrarem ainda bloqueadas em três níveis distintos:
Bloqueadas culturalmente pela típica e tradicional da tenebrosa aversão ao risco, alicerçada nas rotinas e modos “estereotipados” e obsoletos de operar, escorados pela memória e reputação (narcísica), enciclopédicos, que impedem e obstaculizam à criatividade, originalidade e modernização;
Bloqueados administrativamente em consequência do inúmero e respectiva multiplicação de organismos públicos/fundações/secretarias/direções/agências e similares com competências mal definidas (e duplicadas), insustentáveis num Estado ainda simultaneamente centralizado que coexiste com feto raquítico dos corpos regionais, misturando competências e serviços numa amálgama sem lógica nem localização racional;
E bloqueadas politicamente porque o sistema eleitoral, a começar pela Lei nº 14/79, de 16 de Março, atiram o país para o ritmo de reformas do stop and go que é uma forma de parecer que muda ficando tudo na mesma, e às vezes até pior, a marcar passo num piafé de fraca escola e rafeiro estilo.
Enfim, a sociedade portuguesa que se apresta neste entrementes para se consolidar nos quadros interno, europeu e mundial, como uma sociedade amadurecida e emancipada à custa do esforço consciente dos cidadãos responsáveis, quer dizer, sofrido e adulto, dos próximos anos, será indiscutivelmente diferente daquela a que sobrevivemos caracterizada pelo laxismo, chico-espertismo e bairrismo corporativista serôdio, das últimas décadas, e ainda bem; sobretudo porque não nos podemos dar mais ao luxo do desenvolvimento por solavancos e arremetidas de alternância do vira-o-disco-e-toca-o-mesmo em que o stop and go nos solfeja as políticas, nem cair em propensas desforras à custa da qualidade de vida, bem-estar e progresso deste povo que não pediu para ser português mas não se importa, como até se orgulha disso.
Portanto, temos um governo e um enorme problema entre as mãos. Não é que não possamos falhar, nem tenhamos qualquer obrigação de fazer aquilo que outros ostensivamente destruíram. Mas temos cara, e queremos andar por todo o mundo sem vergonha da mostrar destapada, aberta e resplandecente. É essa a nossa vitória: consegui-lo. Entre outras menores e momentâneas, que as mais das vezes caem no ridículo… E, se for preciso, mudar outra vez, fazemo-lo, sem desprimor para ninguém. A nossa soberania não se trespassa em mercado ideológico nenhum desde que o tempo se começou a medir por badaladas lusitanas!

7.11.2011

Bernstein e a Social-Democracia

Mudar com a mudança do mudar


“(…)

Sentirás quanto amarga; quanto anseia
O sal de estranho pão; que é dura estrada
Subir, descer degraus da escada alheia.

Tua angústia há de ser mais agravada.
Te acompanhará no vale do exílio, vendo
Ignóbil gente, estólida, malvada.”

In XVII Canto do Paraíso, de Dante Alighieri (1265-1321)

Entendamos a mudança como a inequívoca transição entre dois Estados estáveis e distintos. Embora esta se tenha feito de forma lenta, tardia e com o serôdio de uma crise que começou a cumprir-se quando a maioria a entendia apenas como uma ameaça, o que é certo, é que o Estado, cujo governo saiu da batuta do PSD e de Passos Coelho, não é o mesmo que o PS e José Sócrates orquestraram (de tão requiem tom). E a sociedade também. Se quando ela muda exige novo governo, a verdade é que quando tem novo governo este a motiva para nova mudança. Bernstein, ao aperceber-se da dinâmica constante inerente a esta mudança, sentiu a necessidade de esclarecer-se conforme a evolução socioeconómica e abandonou os dogmatismos simplificadores das teorias marxistas e nacionalistas, fundamentais, aprofundando-a, dando uma nova expressão ao socialismo, excluindo o caráter finalista deste, e quiçá escatológica, de uma sociedade perfeita para justificar o deitar mão de todos e quaisquer expedientes ou meios que a consolidem, e colocou o acento tónico na via da execução das reformas graduais e adaptadas permanentemente à realidade, promovendo assim a mudança que a si mesma se vai mudando dentro da estabilidade gradualmente conseguida, dando a este modelo evolutivo o nome de social-democracia.
É preciso encontrar as soluções que melhor se adeqúem ao momento histórico que agora atravessamos, e não basta o Mayor dos municípios, Ruas de nome mas de rotundas pronúncias, retóricas e efeitos, vir à praça pública puxar as brasas prà sua sardinha, propalando que a parcela da dívida da generalidade das autarquias não se deve aos custos com pessoal, porque deve!, e não como circunstância direta da transferência de competências de alguns ministérios – educação, quase todos! – para as autarquias, ou que a percentagem dessa dívida comparada com a do poder central ser diminuta – 20% –, porque também não é, considerando o elevado número de câmaras municipais (380) que há em Portugal, pretendendo defender a sua corporação atacando as outras, além do posto que nela tem e desempenha, para que se possa acreditar minimamente que a responsabilidade no défice não lhes cabe com elevada relevância, uma vez que as autarquias, conforme é observável a olhos vistos – conforme a proximidade revela! –, têm vindo a satisfazer clientelismos políticos que, na prática e no terreno, faz disso uma descarada inverdade, pela numerosa quantidade de pessoas sem préstimos, funções, nem habilitações que albergam, e nada fazem, além de alguns "mandados" pràs chefias deste ou daquele sector, que apaparicam com mimos e presentes vários, sempre que a coisa está mais tremida, que desde que entram até que saem apenas se dedicam à quadrilhice pura e desabrida, fazendo comentários gratuitos acerca de quem chega e de quem parte, difamando este e aquele, apontando defeitos pessoais, handicaps ou companhias, e que continuamente vão "deambulando" nas bibliotecas municipais, nos centros de arte e espetáculos, nos museus e serviços municipalizados, como se às dificuldades que ao país acometem fossem superiores, alheios e, sobretudo, delas únicos beneficiários.
E soluções inovadoras. Posto que, politicamente, a inovação significa reforma, reforma das pessoas como reforma do sistema social, consequente adaptação e modernização das estruturas do poder, solidariedade entre as franjas sociais, grupos e comunidades, bem como o inequívoco assumir dos novos valores, nomeadamente o da sustentabilidade e da biodiversidade, isto é, um intercâmbio de identificação plena entre a inovação em si mesma e as noções teóricas e práticas, efetivas e profundas da social-democracia, que é o único caminho e modelo de desenvolvimento socioeconómico que conjuga a criatividade individual, o respeito pela pessoa humana, os mecanismos de decisão e as necessidades sociais e individuais com acuidade soberana no exercício efetivo da democracia da participação e da cidadania, com inigualável êxito, até hoje conhecido, reconhecido e valorizado no nosso país, eleitoralmente pelo menos, se atendermos não só às últimas legislativas mas também a quantas desde a implantação da República nele aconteceram.
Ou seja, é preciso reformar inovando, mas inovar às vezes significa apenas fazer justiça para criar uma sociedade mais harmonizada, ter da política uma visão estética (Francisco Sá Carneiro), o que passa irremediavelmente por convidar essas pessoas a sair, a reformarem-se, pondo assim definitivamente fim à injustiça social praticada e evidente com a sua admissão, e não vale a pena argumentar que a sua reforma será onerosa porquanto todos sabemos, segundo as últimas notícias, a maior parte dos rendimentos mínimos, subsídios disto e daquilo que o Ministério dos Assuntos Sociais e demais organismos de assistência social emitiram nos últimos anos foram ilegalidades com custos elevados, e que dificilmente serão recuperáveis. Ou disto também são as agências de rating, na sua manifesta má vontade americana, as responsáveis?
Cá me queria parecer! Quanto mais depressa acabarem com a mentira a que chamam política mais depressa também se ganhará a confiança dos mass media, dos mercados, dos investidores, da banca, das agências internacionais de notação, dos eleitores, dos portugueses e europeus, dos críticos e intelectuais, dos trabalhadores e seus representantes, se honestos forem; enfim, mais depressa chegaremos ao espírito reformista de uma social-democracia em mudança dentro da estabilidade imprescindível e harmoniosa. Uma sociedade mais bonita e feliz!

7.07.2011

A Indiferença só prolifera onde falta a Diferença


Pedro e o Lobo

“ – A minha ambição não é pessoal – dizia-me [Francisco Sá Carneiro] em Berlim e foi-mo repetindo nos anos que se seguiram. – A minha ambição é estética. Quero chegar, democraticamente, ao poder para que as coisas funcionem com harmonia, para que acabem as aberrações e as originalidades à portuguesa. Acredito numa sociedade portuguesa moderna, livre, europeia, capaz de se transformar a si própria, através de reformas sucessivas que não se limitem aos aspetos políticos, mas abranjam também o plano económico e social.”
In Francisco Pinto Balsemão, A Conversa de Berlim e o Estudo que Está por Fazer, Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 3, Vol. II, Junho de 1984.

A história é bastante antiga. Tão velha, mas tanto, que a maior parte das pessoas já lhe conhece a moral de nascença, algo que lhe vem por via genética. Está-lhes no sangue, e por herança. Portanto, repetir que as ações de cosmética político-sistemática já não pegam, tornou-se numa espécie de cliché.
E o recado das agências internacionais de mercado que foi dado a Portugal não poderia ter sido mais claro do que foi: a dívida soberana portuguesa é, simples e inequivocamente, LIXO. Ora, se a Europa conhece Portugal melhor que as agências de rating, como se depreende do “discurso” de Durão Barroso, quando diz que nós – e esse nós deve ser o majestático para BCE, FMI e Comissão Europeia… – “conhecemos melhor Portugal do que as agências internacionais”, então não restam dúvidas que o melindre é totalmente injustificado. O mercado não se deixa enganar, nem mesmo quando prefere demonstrar que engoliu a fava na boa e sem qualquer ressaibo. O mercado, e o algodão!
Presentemente tem que se ir mais longe fazendo melhor, porque a época é diferente das que anteriormente vivemos, a conjuntura e as circunstâncias são outras, a Sociedade é diferente – e a função do Estado também. Já lá vai o tempo em que as interrogações de José Luís Aranguren eram, além de pertinentes, uma incompreendida ousadia. Porquanto hoje ninguém desconhece que se a “historiografia do século XIX foi a dos Estados nacionais, e a do século XX a dos internacionalismos, então a historiografia do século XXI é a historiografia do supranacional”. Num país ou num partido político, numa região ou num qualquer organismo público, num órgão de soberania como numa instituição, o direito de existir implica a obrigação de agir e atuar. O direito à diferença obriga a ser diferente, e isso só se nota quando se alteram significativamente as condições e os recursos.
E Portugal tem que sê-lo (diferente), não pela arruaça e fuga para a frente, pela batota da renegociação sem termos nada para oferecer em troca de facilidades, mas pelo sentido de responsabilidade e compromisso, pelo empenho e criatividade, pelo empreendedorismo e capacidade de inventar novas soluções para os novos problemas que em catadupa nos hão de surgir. Andar a difamar os árbitros para contestar os resultados não é uma atitude adulta e muito menos democrática. Adiar a amputação total de alguns órgãos contaminados pelo corporativismo obsoleto e cancerígeno apenas nos vai prolongar a agonia e espalhar mais metástases pelos demais órgãos “ainda úteis e saudáveis”, e não erradicar o défice existente. Portanto, o caminho a seguir é sobejamente claro e óbvio!
Ou seja, as medidas para inglês ver não pegam. Não se pode continuar a fazer mudanças do tipo faz-de-conta para tudo ficar na mesma; mudanças do género “outras” caras, outras chefias, outros nomes para as instituições e organismos públicos, outra maneira de contabilizar os gastos e os custos, a que comummente chamam investimento, ou outras políticas e diretrizes. Não pega, e pronto. É preciso agir, concretizar no terreno as promessas assumidas do memorando da troika, e para isso, não basta transformá-las em Programa de Governo, XIX ao caso, e só no fim é que alguém dirá, talvez desta vez não seja mais um bluff para sacar umas massas aos tutores financeiros. Em matéria de convergência se não tivemos mau, foi porque tivemos quem nos puxou para medíocre. No capítulo do desenvolvimento sustentado, baldamo-nos categoricamente – e ainda baldamos. Na política socioeconómica, aí é que sentimos profundamente as alterações climáticas: metemos água que dava (para) três sismos/tsunamis com epicentro na Trafaria.
Política não é como o futebol onde, quando perdemos ou o resultado não é aquele que esperávamos, a culpa é sempre do árbitro. Das agências de avaliação ou rating. Não foram tomadas as medidas adequadas e depois culpamos as agências internacionais, invectivando-as de defenderem interesses americanos e obscuros. De serem mal-intencionadas e maliciosas. E esquecemos que já Natália Correia classificava tal conduta de criancismo… Quem é queremos enganar? As agências e mercados internacionais ou a nós mesmos?
Provavelmente não temos cura. Só sabemos sacudir a água do capote. De preferência para cima do vizinho do lado. Agora, se os espanhóis fizerem o mesmo, aqui d’El Rei! São murros no estômago prà’qui, pontapés no cu prà’li, rasteiras acolá.
Haja vergonha na cara. Os mercados precisam de ver os números do défice a baixar, não por consequência da alteração das fórmulas de cálculo, mas por observarem no terreno que os parasitas ligados ao SNS, à Educação, ao poder local, à Cultura, ao Turismo, ao Ensino Superior, à Justiça e Segurança, aos Assuntos Sociais, à Administração Central, Regional e Local, enfim, às circunscrições da coisa pública, sobretudo os inúteis e disfuncionais, os sem habilitações e menos consciência cívica, os irresponsáveis e incompetentes, estão a ir para outras bandas, de preferência para emigração que é o destino para onde estão a empurrar os recém-formados sem colocação neste país. Acabou o tempo das coreografias de mudar de caras e continuar com a mesma vergonha (nacional).
Em resumo, se o lobo é maior e a história é outra, então, porque é que o Pedro é o mesmo? Frontalidade, objetividade e coragem política, como a cautela e os caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém e, pelo contrário, podem até fazer o bem.
Desde há milénios que sempre foi a falta de diferença que gerou a indiferença. É essa a particularidade da arte. Incluindo a de governar, como apontou Maquiavel. E o que é preciso, é ambição estética!
Pois.

7.05.2011

É preciso descolonizar o Estado

De quando os exemplos não passem disso mesmo…e até possam vir de cima!



“Abre mão das poesias,
que nenhum préstimo têm,
e cuida em sólidos meios
de ganhar algum vintém.

Se dizes que contra os versos
em verso uma carta ordeno
e que aqui me contradigo,
praticando o que condeno,

A teu forçoso argumento
respondo com Frei Tomás:
faze o que o pregador diz,
não faças o que ele faz. "

Nicolau Tolentino (1740-1811)



Tal como na indústria e comercialização de produtos electrónicos e de comunicações, estar doente em Portugal precisa de um autêntico curso de utente do SNS, de operador burocrático e/ou de descodificação dos diversos manuais de utilizador, livros de instruções que impreterivelmente andam anexos à área afetada, do género faça você mesmo ou como complicar tudo aquilo que é fácil e óbvio, desobviar toda e qualquer clareza processual existente, em nome do rigor, do corporativismo, da racionalização de recursos e da (in)competência modelar, sistemática e doutrinal. Até porque ninguém duvida da razão que aconselha descolonizar o Estado desse corporativismo abjeto que gerou a “situação explosiva” em que nos encontramos e que nos impede de nos libertarmos da grelha que está a apertar-nos cada dia mais, ajudada pelo défice e endividamento do país.
Senão, vejamos. Aprofundar a democracia, o que inclui aumentar o número de democratas por metro quadrado do nosso território, seja essa democracia social ou socialista, bem como contribuir para a definição clara e inequívoca da sociedade do conhecimento e da informação, passa imprescindivelmente pelo reconhecimento humanizado das dificuldades, limites e circunstâncias do outro, na direta contemplação da Constituição da República, do Tratado Europeu e dos Direitos do Homem que lhes está apensada. E a ideia nem é nova, visto que já Francisco Sá Carneiro a enunciava no último Conselho Nacional do PSD em que participou, precisamente em 18 de Outubro de 1980, reiterando que tinha para si que se impunha ao Partido Social Democrata “uma reflexão sobre o que é que deve ser a social-democracia em Portugal, quais os valores fundamentais a prosseguir, como prossegui-los, quais as implicações para os diversos estratos, desde a juventude aos socioprofissionais, às empresas, à orientação económica, à orientação da política social. Tudo isso tem que ser aprofundado entre nós.”
Ora, aconteceu que o imponderável surgiu sob a forma duma fatalidade, e não pôde Sá Carneiro ir além das palavras, concretizando as suas teses em políticas e práticas efetivas, embora o ideal social-democrata não tenha perecido com ele, pelo menos a considerar pelas vezes que foi o partido por ele fundado arauto da governação, como anteriormente esteve com a AD e Aníbal Cavaco Silva, quer como oposição empenhada e responsável, à semelhança do que sucedeu antes destas eleições que lhe trouxeram, sob as orientações e estratégias de Passos Coelho, novamente o ónus – ou, tendo em conta o atual estado da economia e do país, será mais adequado dizer o handicap – da administração do Estado e do governo.
É provável que Mário Soares noutras alturas e por diferentes motivos tenha dito exatamente o mesmo por parecidas palavras, mas a propósito do socialismo democrático, o que não retira valor nenhum ao atrás enunciado nem acrescenta coisa alguma ao que adiante se dirá. Sobretudo porque não interessa de onde venham as boas ideias, desde que venham em formato de ideias e não de ordens ou ultimatos, e se verifique que a sociedade portuguesa estará sempre disponível para rever as ideias já tomadas como para se insuflar e adoptar as novas, segundo salientou Passos Coelho na Assembleia da República, aquando da apresentação do Programa do XIX Governo, registo positivo sem dúvida alguma, e que nos aconselha de como convém relembrar as palavras de Francisco Sá Carneiro no Discurso de Abertura do I Congresso do PPD, em 1974, em que punha acento tónico e imperativo no fato de que “nunca nos definiremos por negação ou ataque às outras correntes políticas, sejam elas quais forem. [Mas] sim pela afirmação clara da única via que, de
acordo com o que mostra a História, permite pôr termo às desigualdades e injustiças existentes nas sociedades europeias sem pôr em risco as liberdades fundamentais e a dignidade da Pessoa Humana”, para que o “cumprimento dos objetivos do programa de ajustamento da economia portuguesa[, que] terá precedência sobre quaisquer outros objetivos” (Passos Coelho), se faça de forma a contribuir para o fim do atual estado de coisas, em que os portugueses com habilitações próprias e escolaridade mais que suficiente deixem de ser obrigados a emigrar para arranjar emprego, enquanto os/as graxistas e lambe-botas amesendados na função pública, inábeis para o serviço, admitidos por cunha ou rotativismo político-eleitoral, lhe estão a ocupar os postos de trabalho, prejudicando seriamente o país, a governação e os utentes/utilizadores dos ditos serviços, nomeadamente na área da saúde, que é onde esse flagelo mais se faz notar.
Eu sei que qualquer governante gostaria de manter os funcionários públicos calados e contentes, por mais imprestáveis que muitos sejam e careçam do saber estar e saber ser que observe o estipulado pelos Direitos Humanos, pela Constituição da República e pelo Tratado da União, todavia é impossível mudar de rumo e alcançar progressos no combate às injustiças e desigualdades em prol da dignidade da Pessoa Humana, se essa expurga dos maus funcionários não se verificar em tempo útil e de forma acelerada, se não quisermos falhar os compromissos constantes do memorando da Troika, aumentando a insustentabilidade económica, social e política, conforme traduziu a inquietação do nosso presidente da República nas últimas declarações aos mass media nacionais, o que não espelha qualquer alarmismo mas antes uma prudência ganha naquele tipo de saber de experiência feito que de acordo com o que mostra a História nos pode – e deve! – gizar as linhas do futuro.
Nem mais, que pensar e agir de outro modo seria poesia (de má índole e piores efeitos, por muita irrealidade e ilusão acender), ou retórica de Frei Tomás cuja qualidade suprema somente residia no que dizia mas nunca no que fazia. E quem não quer ser frade, não lhe usa o hábito!

6.21.2011

E Viva a Cultura!



As Lavadeiras de Caneças


"A esperança é tão necessária ao homem como o próprio pão; comer pão sem esperança equivale a ir morrendo de fome a pouco e pouco.
(...) (...) (...)
(...) Mas se toda a mocidade se achasse satisfeita consigo própria e sem aspirações, então é que sem dúvida deixaria de haver esperanças quanto ao futuro da Humanidade. A esperança da Humanidade assenta na rebelião dos jovens contra o egoísmo individual, o nacionalismo e as desigualdades do presente. É no profundo descontentamento dos jovens de todos os países que deposito a minha fé. Peço-lhes, por isso, que se mostrem descontentes, imploro-lhes que se revoltem contra o que anda errado, não por meio de fracos e negativos queixumes mas por meio de fortes afirmações acerca dos direitos de toda a Humanidade.
O maior prejuízo infligido aos jovens reside na educação que lhes têm ministrado. Com efeito, torna-se extremamente difícil lutar contra aquilo que nos ensinaram. (...)"
In Para As Minhas Filhas Com Amor, de Pearl S. Buck, trad. de Virgínia Mota, Edição «Livros do Brasil» Lisboa – (Título original: To My Daughters With Love – 1946)

Fomos desacostumados de pensar e agora estranhamos a lodosa apatia que nos assoberba. Todos sabemos que estamos nas lonas, que temos de alterar os nossos quotidianos e hábitos, expectativas, conhecimentos e valores, porém não mexemos uma palha nesse sentido. A minha avó dizia que a Preguiça(1) era a única divindade que aqui tinha culto crescente, tão promissora e na moda, que até os fiéis dos outros credos lhe seguiam o catecismo e lhe celebraram eucaristias, sobretudo entre os lusitanos da portugalidade evanescente. Gostava de exagerar, é certo, por muita leitura de Camilo e de Eça, a quem a desgraça e a ironia eram o pão nosso de cada dia, nem sempre sob os mais recreados propósitos no entretenimento bucólico e campesino do Monte da Tapada da Casa, onde a melhor parte do serão era também o do folhetim radiofónico d’O Conde de Monte Cristo ou de O Monte dos Vendavais, conforme a época do ano e a imaculada direção de programas da Emissora Nacional estipulavam para gáudio dos arredados do cosmopolitismo e do Teatro de Revista, do cinema e da TV (a preto e branco).
Não seria incomum aparecerem igualmente pelo mesmo veículo um Love Story ou As Pupilas do Sr. Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Miguel Strogof – penso ser assim que se escreve... – ou O Retrato de Ricardina e o Simplesmente Maria, embora com menos assiduidade e frequência entre os devotos do género não-Corin Tellado. Não diziam naquele tempo que audiência baixava, não senhora, mas que os ouvintes se dispersavam mais para os Discos Pedidos do Rádio Clube Português quando os ditos eram ditos e falados. Seria? Não seria? Fosse como fosse, é que os CTT também tinham larga quota de interesse nessa programação, porquanto os discos ainda eram pedidos por bilhete-postal, coisa substancial nas finanças da mala-posta que ainda alimentava os cavalos a pão-de-ló. Eram critérios!
Como hoje. E os critérios indicam que a Cultura vai ser tutelada pelo chefe do governo numa secretaria com cómodos junto ao seu gabinete. Coisa maneirinha e aconchegante, tipo casa portuguesa com (certeza) fotografias do presidente e do primeiro-ministro a ladear o crucifixo, modelo tirado ao calvário com Cristo entre criminosos, pelo que José Saramago deve estar contentíssimo, lá debaixo da oliveira da Azinhaga e contaminar de cochinilha os bicos da Fundação... A cultura, a língua, a arte, a literatura, a ética e a estética vão finalmente estar próximas do poder central, do poder sobre o poder, a bem dizer, e talvez venham a partilhar das benesses e mordomias da vizinhança. Como mulher-a-dias, por exemplo!
A gramática do Estado, a lógica da organização e a retórica do programa eleito, hão de ditar o bom gosto e o bom senso conforme as questões sociais assim o inspirarem, a Troika o impuser e a Assembleia da República não conseguir evitar. As lavadeiras de Caneças é que não poderão estar presentes que andam a braços com as novas oportunidades e os maiores de 23. A roupa suja terá que ser repartida pelos condóminos, segundo o Método de Hondt, e de acordo com os critérios notoriamente sublinhados pelas forças conservadoras adeptas do faz-de-conta que vivemos depois do 25 de Abril com que nos temos divertido há, pelo menos, trinta anos e trinta moedas, que foi por quanto os judas deste país o venderam à banca internacional e ao BCE.
Portanto, é provável que voltemos ao folhetim se a cultura aguentar esta doce magistratura no recato bucólico da confiança e paciência que costuma ser argumento válido para os novos, para os estúpidos e para o insuficientes mentais. Do tipo Love Storyamar é nunca ter que pedir desculpa, sentença linda e kitsch como um repolho do Bordalo, que um personagem, lembro-me ainda, terá dito a páginas tantas ao outro com quem aparelhava nos varais da narrativa, não sei se ele a ela ou se ela a ele, mas desconfio que pelo prevenir do borrar da pintura seria do macho prà fêmea, que naquele tempo dependia muito da sorte o ser considerada não-coisa, não-propriedade de género – que foi um rasgo de modernidade marcelista, onde ela, pobre, bibliotecária ou ajudante disso, que mais tarde morreria de doença incurável (cancro), e ele, rico e playboy, a vítima sofredora sob as mãos de um amor infinito e de um destino implacável, o direto contemplado pela fatalidade gritante – o coitadinho e incompreendido pelos deuses – e que veio temperar a lamechice pacóvia com as matizes do “mundo avançado” das ideias e dos progressos, alguns deles de natureza científica e tratados como fait-divers domingueiros nas conversas de café antes da missa, entre os matemáticos do sistema com matriz nos totobolas e lotarias por estratégias.
O que era uma vingança, e uma demonstração de democracia. Porque a crueldade da dor, da doença, da perda, do destino, eram democráticas e não queriam saber das mordomias sociais desta ou daquela classe mais favorecida. A morte e a desgraça ceifavam a eito, tanto carecidos e minguados como abastecidos e afortunados, embora que por diferentes motivos e na sequência de causas muito díspares, uns pelos excessos e outros pelas faltas – o que desconheço se estava ou não conforme a obra literária, que nisso das adaptações radiofónicas os criativos pontuavam, ajeitando-as à portugalidade conforme entendiam sem passar cavaco às determinações dos autores. Mas no fim, não obstante a condição social, o resultado ficava sempre no ela por ela: sete palmos de terra e um sermão encomendador.
Nisso as lavadeiras de Caneças estavam de acordo. Enquanto espanejam as roupas dos senhores aproveitavam para lavar também os olhos lacrimejando sobre o ingrato desfecho do folhetim. Viradas prò rio, a roupa suja diluia-se entre nuvens de condoída retórica acerca da juventude que em vez de estudar e ajudar a família, anda na moina e a bandeirar palavras de ordem nas irrequietas arruaças do reivindicar melhores dias. Quando o fez contra o Magalhães tinha carradas de razão. Porém agora, que recusa colaborar nas políticas da corrupção e da insustentabilidade, pode vir a ser apelidada de terrorista ou, pior ainda, conforme se viu na Assembleia da República acerca da deseleição de Fernando Nobre, de independente. E isso, essa classificação, vai ser indubitavelmente um ato de cultura. E que cultura!


(1)Personagem mítica que morreu à sede junto a uma fonte só para não esticar o pescoço para saciar-se

6.16.2011

Mudam-se os tempos mas não as tradições e mentalidades...


Das estranhezas que o mundo tem acerca de nós...

Às vezes, se vasculharmos autores e obras antigas, encontramos muitas referências ao que somos, ou pontos prenunciadores de caráter deveras enunciativos daquilo em que nos iríamos tornar, se consumados que fossem os séculos que nos separaram entre a pesquisa e a criação em causa. Talvez sejam apontamentos proféticos. Talvez não. Ao certo, de garantido e afiançado, é que são recuperáveis se para tanto nos assistir, não o engenho e arte, mas a lógica das comparações plausíveis e verificáveis a olho nu, quer dizer, transparentes e desprovidas de percepção motivada.
Por conseguinte, neste universo da ecomimia – repetição automática mais ou menos difusa na mímica dos interlocutores políticos e sociais – semântica, creio ser frutífero desfraldar a surpresa, tal como já noutro tempo fez Nicolau Tolentino acerca das caraterísticas e traços de identificação entre portugueses e outros povos, nomeadamente espanhóis e nórdicos.

“Passei o rio que tornou atrás,
Se acaso é certo o que Camões nos diz,
Em cuja ponte um bando de aguazis
Registam tudo quanto a gente traz.

Segue-se um largo. Em frente dele jaz
Longa fileira de baiúcas vis.
Cigarro aceso, fumo no nariz,
É como a companhia ali se faz.

A cidade por dentro é fraca rês;
As moças põem mantilha e andam sós,
Têm boa cara, mas não têm bons pés.

Isto, coifas de prata e de retrós,
E a cada canto um sórdido marquês,
Foi tudo quanto vi em Badajoz.”

Nicolau Tolentino

[Nota de Rodrigues Lapa acerca do poema, embora com nova redação consentânea ao momento, que merece ser transcrita pela sua acuidade semântica: eis um soneto dos mais perfeitos de Tolentino, soberba descrição dos costumes espanhóis e da cidade de Badajoz, em que não falta sequer a referência ao traço distintivo da sociedade vizinha onde as raparigas, ao contrário da nossa em que mal saíam à rua, andavam frequentemente desacompanhadas. Datará da época em que o poeta esteve em Évora (1765-1767) e terá dado alguma saltada àquela cidade fronteiriça. De salientar a alusão ao conhecido verso de Os Lusíadas, Canto IV, est. 28, " ... e Guadiana / Atrás tomou as ondas de medroso", quando se ouviram, em Aljubarrota, as trombetas castelhanas; ou, como nos fins do século XVIII, ainda não se tinha popularizado o uso de fumar cigarros, sendo antes utilizado, geralmente, para sorver pelo nariz (rapé), ilustrando o hábito com citação, que está na base desta surpresa do autor: «Em Portugal, escrevia C. J. Ruders na carta 18ª da Portugisisk Resa (Stokolm, 1805), o tabaco não é fumado por ninguém, a não ser pela plebe baixa, que se serve, para isso, de grãos de tabaco embrulhados numa tira de papel a que se pega fogo. Cachimbos de barro ou de espuma não são usados senão por estrangeiros, e causam sempre a admiração de todos. Mas o consumo indígena do rapé é muito considerável, porque quase todos os portugueses o cheiram.»]

Ora, recentemente notícia, aconteceu que nos "exames" dos estudantes dos futuros juizes, por estes terem copiado e além disso, sido apanhados a fazê-lo, foi dada a nota de 10 valores a todos, em vez de zero como mereciam. Quem faz batota para poder vir a exercer a magistratura, já muito bem se lhe adivinha o tipo de justiça que há de vir a ministrar...
E isto traz-me à memória o que me contou alguém que foi numa ação complementar de formação a Estocolmo. Com essa pessoa, durante o almoço, alguém junto dela comentou sobre os exames que fizera, entre outras coisas, que não tinha ninguém na sala, além dos alunos, que vigiassem os examinandos. E que tal era habitual, melhor dito: usual e comum, em todos os escalões etários e graus de ensino. Então a portuguesa em causa, surpreendida e incrédula, inquiriu:
«E não copiaste?»
Ao que obteve por resposta um seco «para quê? Quem é que ganha com isso?» que era tudo menos ingénuo e inocente. Antes assertivo e determinativo.
Pelos vistos, os nórdicos podem continuar a achar que somos estranhos desde os tempos em que fazíamos charros com sementes de tabaco. Entre outras generalidades, todos copiamos e até – pasme-se! – ganhamos algo com isso. Ganhamos estatuto. Ganhamos poder. Ganhamos riqueza. Justiça é que não devemos ganhar muita, uma vez que para se ser juiz basta copiar mais um pouco, com expediente e desembaraço, que a nota de dez está garantida para quem for apanhado.
E depois os estrangeiros é que são estranhos!

6.12.2011

O Novo emboçado

O Desavanço do Século XXI

O NOVO EMBOÇADO

Acontece sempre que a cor se oculta
Entre as estevas da madrugada arguta
Que o rosáceo timbre da rosa resoluta
Ao desmaiar na sombra se afirma gruta…

Ponto cardeal interno ao ser se tumultua
E manifesta temido sob a eleita e astuta
Sagacidade da ignara tribo cuja conduta
Remonta às profundidades da ímpia luta.

A uns, que sabida é a ambiciosa receita
Tomam o poder para a outros aplicarem;
E na noite se afoitam como secreta seita

Que aos homens humilham dizendo serem
A salvação na opressão que só lhes querem
Dar; triste fado o de quem a si se enjeita!

(Joaquim Castanho, 12.06.2011)

É ensurdecedora a atitude amuada dos políticos "partidaristas" face à comunicação social depois das eleições de 5 de Junho.
Não restam portanto dúvidas que, além dos quarenta e tal porcento de abstenções, mais os 75 mil nulos, incluindo as mensagens jocosas neles contidas, ficámos mais ou menos todos suficientemente esclarecidos do que pensa a maioria dos portugueses acerca dos políticos que tem e das políticas que implementaram na portugalidade continental e adjacente: que são uma camada inútil e adversa ao desenvolvimento, não servindo a ninguém que se preze, ou que apenas se serviram até hoje a eles próprios e aos partidos que os catapultaram para a ribalta da orgia orçamental.
Mas não só. Há também quem não perceba muito bem como é que as figuras políticas que melhor foram servidas, e se serviram dos órgãos de comunicação social para fazerem a sua propaganda e campanha eleitoral, venham agora, que já foram eleitos ou deseleitos, fechar-se em copas sobre uma avaliação consequente, ou quanto às suas vidas e projectos futuros. Será que se mantém acesa essa ideia brejeira de antanho que a comunicação social é tão-só-e-unicamente uma prostituta que deve estar sempre à mão dos interesses dos poderosos para lhes satisfazer e sublimar as necessidades do ego em alter coudeladas? E que a opinião pública aquela turba de incautos em cujos ninhos quaisquer cucos podem depositar os seus ovos para lhes aumentar a geração?
Infelizmente a resposta a ambas as perguntas avizinha-se-nos óbvia: sim. Sobretudo porque em Portugal se vai enraizando a tradição de votarem somente aqueles que mais desinformados estão e menos habilitações têm. E mesmo desses, apenas os que não tiveram dinheiro ou para onde ir durante o fatídico fim de semana do escrutínio. Até os que anteriormente acharam piada ao rezingar loução, lhe viraram as costas ou fizeram manguito por este se ter posto de fora das negociações da Troika – estava lá para trabalhar, e faltou ao emprego, dizem...
Depois, o toque a rebate do CDS e do PCP surtiu o efeito desejado, por temerem a emergência dos Tiriricas e Zé Manéis, que coelhos há muitos embora nem a todos se lhe possa tirar a pele do mesmo jeito: votaram todos e, como são dos portugueses os mais endinheirados, até deram gorjeta aos que lhe seguiram o exemplo.
Portanto, enquanto não for instituído o voto electrónico em Portugal e a Democracia estiver nas mãos dos que assinam de cruz, podemos tirar da ideia querer implantar a democracia da participação e da cidadania neste litoralzinho que o mar vai comento aos poucos e onde os senhores feudais se aliviam nas arribas da cagança à vista de todos e sem o mínimo recato ou pudor. Porque qualquer passo dado em frente será sempre feito em direção ao abismo seguinte.
Então, um dia, veremos que patinhámos no Fundo do fundo quando quisemos caminhar... Porém, não haverá Troika que nos dê a mão, nem lama (corrupção) em que enterrar as botas para ensaiar os passos. E aí, sim, aí, nem o Camões nos há de salvar. Nem o Futre!

6.10.2011

Será que agora é que isto muda?

O Interior e a Sorte-Grande

"Não tomando em desprezo o escuro estado
em que me pôs Fortuna e Natureza,
olhastes sem horror minha baixeza
e fizestes sentar-me ao vosso lado.

Então, de ingrata obrigação chamado
deixei à força a companhia e a mesa;
e inda cheio de ideias de grandeza,
vim dar por tema um verbo conjugado.

Não sei com dous opostos conformar-me;
sofrem-me os grandes, sou taful e moço,
não sei a «senhor mestre» costumar-me.

Tais extremos, Senhor, unir não posso;
de dous génios não sou. Mandai fechar-me
ou a minha aula, ou o palácio vosso."

Nicolau Tolentino, poeta português do século XVIII


A principal característica do Interior é que continua a ser Interior mesmo quando fica de fora. De fora do discurso político; de fora do desenvolvimento sócio-económico; de fora de mão, quando se empreende caminho rumo ao futuro.
Tanto quanto me apercebi, dos discursos presidencial como do do comissário da celebração do 10 de Junho, o primeiro recado de ambos foi dirigido aos políticos e, se Barreto recomendou que estes devem falar mais e desavirem-se menos, da parte do nosso presidente da República reiterou a recomendação repetindo que devem entender-se melhor. Anibal Cavaco Silva, não se ficou porém pelo alvitre e indicou mesmo em que direção esse entendimento deveria ser feito: no sentido de encontrar soluções para sairmos da crise e colmatar as assimetrias interior versus litoral.
A preocupação é serôdia. Não é de agora que o despovoamento, um dos maiores passos para a desertificação, se aliado a ele vierem as alterações climáticas, está na ordem do dia, e nem assim se evitou a sangria da população ativa do eixo norte-sul fronteiriço a Espanha, além do que não basta eleger dois ou três eventos nacionais, dois ou três produtos de qualidade desta ou daquela parcela do território, para que daí resultem melhorias substanciais na qualidade de vida das pessoas e desenvolvimento sustentado nessas regiões. Descobrir o interior sem ter apostas contundentes e continuadas em estratégias ou planos/programas de marketing territorial seriamente gizados e executáveis, é o mesmo que ir ao contrário do já anteriormente afirmado por Séneca e citado pelo nosso presidente um dia antes, a propósito e em homenagem a um douto de Castelo Branco, onde se sublinha o facto de quem não sabe para onde ruma nenhum vento lhe é favorável.
Estranho, porém, que há, se feitas as contas em baixa, coisa de vinte/vinte e cinco anos a constatação tenha servido periodicamente de assunto e retórica de quase todos os quadrantes políticos com assento parlamentar, sobretudo durante o tempo em que havia dinheiro para "engordar" o litoral, quer em população como em infra-estruturas, no tecido empresarial como nas linhas de produção de mão-de-obra especializada a que comummente chamamos universidades, e que apenas agora, que estamos em crise económica-financeira, política e ética, é que o interior esteja a ser convocado para contribuir com o seu esforço e sacrifício para a estabilização nacional... Porque será? É certo que estamos a 200 quilómetros do litoral, mais propriamente de Lisboa, o que é comum a grande parte do país, cujos caminhos vão sempre dar ao mesmo sítio – a capital. Agora vá uma empresa sediar-se em Santa Eulália, que para pôr os seus produtos à venda na Beirã, tem maiores custos de transporte do que se forem pròs Restauradores!
O interior está servido de estruturas rodoviárias, é óbvio. Mas para qualquer empresa deste interior tão propalado fazer a distribuição dos seus produtos precisa de uma frota transportadora que o encarece e o torna não-competitivo com os congéneres do mercado. Que adianta falar no interior português no dia de todos nós se amanhã continuarmos com as mesmas dificuldades que já tínhamos há vinte e cinco anos? O meu concelho já teve 28 mil habitantes e agora tem 23. O meu distrito já elegeu três deputados para a Assembleia da República e agora só dois. O meu Alentejo já foi quase uma região, até teve uma CCRA, e muitas das freguesias têm os dias contados, alguns concelhos serão fundidos e a reforma administrativa ou territorial irá dar-lhe novos contornos e limites conforme prescrição da Troika. Apenas uma consolação nos resta: é que venha o que vier, diga-se o que se disser, havemos de continuar a ser sempre o interior de que se fala.
E falarem da gente é uma grande coisa... Uma sorte!

6.08.2011

Regresso ao Passado Imaturo

Voto e votarei, que ao rancho e ao pré, nunca faltarei


A democracia participativa e da cidadania pode ou não assentar na democracia directa embora, disso não restam quaisquer dúvidas, ambas reconheçam que a representatividade seja um princípio para a democracidade sistemática e plena, um caminho para algo superior, e não um fim político em si mesmo. A abstenção é o antónimo inequívoco dela. A incompetência o seu descendente directo. O caos, a bancarrota, a destruição da sociedade e suas instituições fundamentais, a desumanização e as tiranias, as ditaduras e a destruição do Estado de Direito, a sua magna realização.
Enquanto a matreirice e a esperteza saloia forem os valores premiados pela política portuguesa, dificilmente este país – tão desprezado por quem dele subsiste... – encontrará um rumo positivo e eficaz ou eficiente com destino ao desenvolvimento e sustentabilidade. E, independentemente das facilidades de acesso, crescente valorização na formação e desempenho, êxito na conclusão do ensino superior, o que verificamos indesmentivelmente é que os conhecimentos administrados se perdem pelo ralo da mediocridade, mal de lá saiam aqueles que tiveram o privilégio de o frequentar, quase nada é retido e muito menos praticado, nomeadamente no quanto à constitucionalidade, civismo, cidadania, pensar, agir e querer objectivos, uma vez que continuam a insurgir-se e reivindicar precisamente aquilo que queriam os mais ignaros do pré-25 A: Rancho e Pré garantidos, de forma vitalícia, se possível for.
Ora isto é sintomático de como funcionam as grandes mentalidades por ele formadas e dele saídas... E de onde meteram os pilares fundamentais da democracia: a defesa das liberdades, a solidariedade, a justiça, a responsabilidade, a consciência partilhada, a emancipação, a autonomia, a inovação e o conhecimento, a transparência e a honestidade, a igualdade e a cidadania activa. No lixo, e sem qualquer preocupação de reciclagem.
E de como usam as máquinas topo de gama das TIC que os papás e vovós lhes compraram, no seu acérrimo combate ao minúsculo e democrata Magalhães, a que são invariavelmente contra, por puro despeito, já que no seu tempo de ensino básico não lhe tiveram acesso: só para jogar na Quintinha do Facebook, posto que na grande maioria nem o Word utilizam corretamente ou sabem para que serve um motor de busca, dos mais divulgados e conhecidos, como o Google.
Todavia, são os primeiros a saber como os demais devem escrever e o que escrever, como devem publicá-lo – em suporte papel, pois claro!, que um escritor sem livros "físicos" é inconcebível –, e que conteúdos abarcar ou desenvolver, que personagens e ambientes retratar, as siglas a promover e a semiótica contemplada. Mas não só: outorgam-se ainda com direito a definir depreciativamente quem escolhe ler o que escrevo como "à rasca" e de gosto duvidoso.
Nem sentiram qualquer pejo em votar em partidos que já tinham anunciado a extinção do Ministério da Cultura, depois do anterior governo já ter extinguido a "Secretaria de Estado do Livro, da Leitura e das Bibliotecas"... E o que é que isso quer dizer? Como é que alguém que quer acabar com a cultura se autoriza a defini-la? Como é que alguém se considera com direito a exigir que não vá o tocador além do rabecão? Por falta de cultura, e de cultura democrática, que é assim que se comporta quem está tal e qual como caiu do sobreiro: sente prazer em dar à ignorância um estatuto exemplar... Depois queixa-se que a vida lhe corre mal.
Ah, canudo!

6.07.2011

Do cientismo popular...


Só Vendo!

Em Portugal ninguém dá nada, nem troca, nem avalia, nem compara – só vende. Vende a alma, vende a esperança, vende o voto, vende o conhecimento, vende a amizade, vende a companhia, vende o prazer, a noite e o dia – e até a agonia. Haja o que houver, que ninguém pergunte por ou para quê: está à venda.
Pese embora haja quem ainda insista em trautear, a propósito de tudo e de nada, o "ó tempo volta pra trás", as eleições nunca serviram, não servem, nem jamais servirão para enaltecer os passados, ideias ou tempos que sejam, mas sim para escolher os futuros; e muito menos serão qualquer boletim de totobola em que marcamos com X a equipa que achamos que irá ganhar, ou aquela que melhor castigará os adversários, sobretudo aquele que é o alvo favorito dos nossos desafetos, e a que somos afincadamente contra, pouco nos importando o porquê disso ou sequer tenhamos a certeza de ser exatamente por isso; antes sim, para eleger o projecto que melhor reaja às circunstância sócio-económicas e políticas do nosso tempo na exata medida que a sustentabilidade impõe, a qualidade de vida subscreve e a inteligência aconselha.
Mas não se pense que elas, as eleições, possam por si só, tendo os seus resultados como motor e energia, como que por decreto, que estes sejam suficientes para transformar o mau em bom, o medíocre em suficiente e o péssimo em excelente, porque isso apenas será possível se a propalada mudança também tiver incluída a alteração dos modos de agir e operar anteriormente estipulados como convenientes, a perspicácia dos diagnósticos e a forma de procurar as soluções que, por estarmos numa democracia, têm sempre e irremediavelmente em si a participação ativa do foco problemático.
Há quem estranhe o sermão, aí?
Pois bem: quem mete o coração nos negócios, raramente consegue ganhar mais do que o suficiente para sobreviver. Os portugueses nunca votam a favor de projecto nenhum principalmente porque para votar a favor de algo é necessário compreendê-lo e, ou não lho souberam explicar ou eles não foram capazes de entender, o que é certo, é que votar contra, por ódio que seja, os liberta de remorsos e de reconhecer a sua iletracia política. Logo, só saberão no que votaram quando depois lhe constatarem a prática. Então, aqui d'El Rei, mánifes prà'qui, processos prà'li e o diabo a sete, e somente porque perceberam que ao efeito em carambola da Troika não têm como escapar, e que os sacrifícios anunciados em campanha, afinal, não são como o totobola, que só sai aos outros (e desconhecidos). Desta vez é com eles, com todos nós, e ninguém tem estofo nem preparação para os fazer – aos sacrifícios – sem ganhar nada em troca. E não adianta prometerem-lhes um futuro melhor, mais democracia, mais qualidade de vida, maiores rendimentos, que não acreditam e – mesmo assim – preferem continuar a votar no só vendo!
O que, contado, ninguém acredita... (!)

6.03.2011

Apontamentos sem resposta...


Os Novos Considerandos de Uma Lei Que Nos Desconsidera Consideravelmente



Este tempo não é, garantidamente, o mesmo tempo em que os ditos revolucionários de então convulsionaram o mundo e romperam as amarras do seu tempo: é outro, e os que agora lutam são igualmente outros, batem-se por outros valores e conquistas, bem como assumem as suas responsabilidades diferentemente porquanto a motivação e objetivos almejados têm muito pouco dos da década de setenta do século passado.
Há também quem suponha que as amarras de que se libertou estão definitivamente submersas sob os plafons (virtuais) da derrota, nomeadamente nos decretados pela Troika(:carestia, perda de poder de compra e sobrecarga nas contribuições, subida das taxas de juro, inflação e desemprego agravados, redução do Estado e consequente Reforma Administrativa), o que é outra descarada mentira, bem-intencionada certamente, todavia não o estão, mas sim alteradas noutras estirpes, quais bactérias e vírus sociais que ganharam novos formatos e requintadas modalidades, subtilezas de género e influências de meio que as encapotam e a dissimulam sob a capa dos politicamente corretos como das coisas que é feio ou fica mal abordar. Aliás, os nossos pepinos foram sempre venenosos, porque a democracia em Portugal nunca foi democrática (qual pepino de digestão difícil), a não ser para a algazarra da propaganda ou como reivindicação para atingir o poder e depois fazerem o que lhes desse na gana, tipo Maio dos pequeninos num 1926 de se lhe tirar o chapéu, a capa e a carteira. Ainda me lembro do quanto me diziam os mais velhos sobre as saladas do dito cujo, que afirmavam só ser bom depois de lavado em sete águas e atirado de seguida para o caldeiro dos porcos…
A maior parte dos jovens estão inegavelmente encalacrados pela educação que receberam, pela formação que lhes foi impingida, pelas expectativas que as gerações dos progenitores neles depositou e pelas condições político-económicas que lhes obstaculiza o futuro, e lhes indica a acomodação ao seio familiar como opção segura de continuar a sobreviver. Os mais velhos sabem isso, mas regozijam-se com a constatação vingando-se pela muita idade que os coloca em desvantagem competitiva, pelo abandono votado e pelo pouco caso que lhe fazem acerca dos reparos e ordens.
Ora, considerando que a maioria dos que estão mal não querem fazer absolutamente nada para melhorar a sua condição e os que estão bem se preparam para ficar ainda consideravelmente melhor, à custa dos votos em branco e nulos dos à rasca, não nos resta alternativa senão concluir que neste país só a mentira vinga porque ninguém quer ver a verdade.
E qual é ela?

5.16.2011

As Eleições continuam a fazer-se à moda antiga...

Vergonhosamente lamentável!


A Lei (Eleitoral) 14/79, de 16 de Maio, reflete a mentalidade e sentido prático já obsoletos na época da sua redação, em que a divulgação da informação político-administrativa se fazia nos adros, rossios, tabernas e mercearias, através de editais ou recados estampados nas portas. Vai daí, algumas juntas de freguesia para lixar a concorrência e pôr os partidos menores em notória desvantagem competitiva, resolveram segui-la à letra, excluindo-os das reuniões de delegados em que seriam apresentados os nomes das pessoas propostas para as mesas de voto, que é a mais elementar das participações democráticas remuneradas. Entre elas figura, lamentável e vergonhosamente, a Junta de Freguesia em que estou recenseado – a Junta de Freguesia da Sé, em Portalegre.
Devo, porém, salientar que esta apenas foi mais uma das muitas deste algures do Alentejo profundo que assim procederam, uma vez que só as Juntas de Freguesia de S. Lourenço, Alagoa, Reguengo e S. Julião, se dignaram, por carta ou telefone, a comunicar ao mandatário do partido pelo qual concorro, como independente, a deputado pelo círculo de Portalegre nestas eleições legislativas, a data e horários da realização das ditas reuniões. Entre o número infinito delas que o distrito de Portalegre tem, e não obstante várias terem mais do que duas assembleias de voto, somente quatro adequaram os procedimentos à democracia "tendente" atual, continuando as demais a manter aceso o modus operandi do provincianismo obscurantista dos salazarismos gonçalvistas, conforme se pautem pelo seguimento dos modelos do antes ou do após 25 de Abril.
A classe política andou ocupada com outras coisas mais importantes, sobretudo os deputados das maiorias mais maiorzinhas e das maiorias mais pequeninihas com assento na Assembleia da República, preferindo divertir-se e conviver uns com os outros no messenger do que apresentar projectos e propostas de modernização da estrutura político-administrativa da sociedade portuguesa, atirar ao boneco com suas línguas de trapo do que inquirir o governo e os ministérios acerca dos comos e porquês da implementação dos programas e projectos anteriormente aprovados, invectivar o Magalhães do que saber em que pés andavam o Simplex e o Plano Tecnológico, a navegar nas águas sórdidas da baixeza bairrista dos poderes central e local do que a efectuar autênticas avaliações sobre a eficácia de algumas políticas e a eficiência dos agentes envolvidos na sua prossecução. E porquê? Porque tinham ordenado chorudo e garantido, mai-las suas ajudas de custo, deslocações, banquetes comemorativos e o diabo a quatro, pagos pelos contribuintes e consumidores, munícipes e cidadãos, somente considerados gente e ouvidos nas campanhas eleitorais, que depois de terem apertado os cintos anos e anos, se viram agora obrigados a empenhá-lo ao FEIF e FMI para andar de calças na mão durante mais uma década. Porque aprenderam que a impunidade é um privilégio adquirido desde as nomeações do Estado Novo Corporativista e da ANP em que se não deve mexer se se quer manter o lugar marcado na Assembleia da República. Porque da democracia só lhes servem alguns caminhos e atalhos, não os destinos e muito menos os trabalhos.
Isto nem merecia reparo, pois todos sabemos que é assim desde sempre, como se se tivessem instituído as exceções à democracia como únicas regras que ainda vamos cumprindo (habilidosamente). Todavia a Junta de Freguesia exagerou na dose, e até fez melhor, para que não nos esqueçamos a quem pertencia o governo que nos afundou pràs bolsas do FMI e FEIF. Ainda mal a lista com as força políticos a escrutínio tinha chegado do Governo Civil, já a reuniãozinha estava marcada e feita, com os “clientes” do costume nos seus lugares e acomodados nas mesinhas de voto. Pelo que nos quedamos e batemos a chapelada ao efeito do esclarecimento, ficando definitivamente certos daquilo que suspeitávamos há muito, e que é o fato de nem só nas sondagens haverem Zandigas, polvos adivinhadores e demais acéfalos do prognóstico e do palpite, porquanto a política nacional é também o seu resultado e edição.
Ou seja, nem parece que existimos num país europeu, onde há atualmente tantos licenciados (desempregados), quantos eram então os analfabetos. Se foi para fazer outra trambiquice deste quilate, porque andaram a proclamar o 25 de Abril? Pois não restam agora dúvidas, que tanto agitaram as bandeirinhas e sacudiram os megafones, que engoliram o trapo!

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