Segundo Caderno (Trote)
esperando que todos os outros se fossem embora, e de cujas artimanhas uma era o refugiar-me na casa de banho. Num dia frio-friíssimo, daqueles dias de Janeiro em que o ar corta que nem gelo, contava eu, os demais saíram debandando em correria e eu deixei-me atrasar, aproveitando o reboliço da saída para passar despercebida e entrei na casa de banho, a fim de prolongar o atraso para reforçar a confiança... Até aí a estratégia tinha sortido efeito! Só que naquele dia, em desespero, o fiasco deu-se: ao trancar a porta por dentro fiquei à mercê de quem quer que estivesse por fora! Alguém, que a porta abre-se para fora dado o espaço exíguo da casa de banho, um quadrículo onde malmente cabia a sanita, após ter colocado um pedaço de madeira em cunha por baixo da porta, sem que me tivesse apercebido da marosca na fisga, e porque a empregada de limpeza houvesse deixado a mangueira de lavagem de lavabos e alpendre de recreio ligada, embora que fechada na torneira, enfiou pelos buracos de ventilação sobre a porta a dita mangueira, abrindo seguidamente a torneira da água ao máximo da pressão possível. A água batia-me com toda a força sobre a cabeça, os ombros, fria e opressiva, acutilante, sufocante, asfixiante; e eu, também com toda a força que a ânsia e o desespero emprestam aos fracos, arremessava-me de cabeça contra a porta enquanto a mãos ambas empurrava e abria o fecho interior. A debalde. Batia e gritava. Berrava e chorava de raiva e impotência, quando a água embatia nas paredes e sanita, alagava o cubículo do WC e me ensopava, me enregelava... E àquela hora somente duas classes continuavam em aulas! As dos maiores; terceira e quarta, na outra banda do edifício escolar!...»
O plano geral da rua mantém-se. Figurantes aparecem e desaparecem consoante as suas entradas e saídas das portas e comércios, e inversamente. A luz é aberta, e a tarde estival. O off vigora, impessoal.
«Atirava-me contra a porta com quantas ganas tinha... Empurrava com o tronco, batia com os punhos e gritava, gritava, gritava... Até que quase abatida e sacudida pelos espasmos, ouvi alguém indignado do outro lado: era a empregada que ia arrecadar a mangueira. Foi ela quem me encontrou e abriu a porta, depois de haver fechado a água na torneira!»
A objectiva aproxima-se, subindo a avenida. Pára. É um grande plano de Palmira. O rosto pétreo apenas denuncia revolta pelo olhar. Parecem faiscar os olhos castanhos, paralelos, que em momentos outros sugerem ternura, fidelidade, segurança, compreensão. Mas são os dela, e isso acarreta-lhe o anexo da experiência e a história da sua dona. No grande plano do busto a boca mexe-se em câmara lenta, enquanto a voz off mantém a velocidade natural, o que provoca uma sensação de desapego, pois que as palavras ouvidas actuais não correspondem ao momento presente nos lábios, mas sim reportam a um movimento passado próximo, já ouvido, que nos obriga a um costurar de retomar o ponto atrasado, recuado, do pensamento.
«Ao descobrirem-me, a indignação foi geral. Ninguém suspeitou de ninguém, tal como também pessoa alguma seria capaz de conceber que houvesse alguém em A-dos-Tansos que o tivesse feito, perversamente e de propósito. Quanto muito, talvez por brincadeira, sem consciência dos riscos e prejuízos prà saúde. De mau gosto, é certo; mas de brincadeirinha. Não obstante dela tenha resultado uma constipação complicadíssima, que me obrigou a ficar de cama durante quinze dias. Depois deles, e segundo um período de tempo suficiente para esquecer o acontecido, jamais me deixaram andar sozinha. Mesmo dentro da escola, alguém maior faziam por estar sempre por perto. Recomendações de meu pai, possivelmente. E, tirando eu, mais ninguém soube efectivamente quem tinha feito a heresia. Todavia eu soube... Um dia, antes das férias do Carnaval, fiquei certa de que tinha sido ele, o Pedro: num comentário indirecto, mas em voz suficientemente alta para eu ouvir, esclareceu sorrindo sarcasticamente: “É muito asseada, não haja dúvida! Até toma banho frio de chuveiro no Inverno!...” E fitou-me desafiadoramente de soslaio, vitorioso, provocante, em malévola sedução entendida pelos outros coleguinhas dele! E houve risinhos abafados...»
O grande plano alterna para mim. Mas em velocidade normal. Há no meu rosto expectativa, mas também interrogação suspeitosa e insatisfeita.
«E não contaste a ninguém de quem suspeitavas? Não foi feito nada para o castigar?»
«Não.» Continuou ela, retomando o centro de cena em evidência no plano. «Não. Além de a minha irmã, não. E que por sinal nutria iguais conjecturas em relação à mesma pessoa, quando lhe contei o meu encontro com Pedro e o que ouvi da boca dele. Também de que serviria nós contarmos? Ele era o menino prodígio, bonito e bem comportado que todos os adultos aplaudiam... Como concebê-lo capaz de tais actos, não é?!... Por mim, tinha a certeza de que todos me recambiariam com um retumbante “estás parva” da praxe!... Inclusive meus pais, para já não falar nos dos dele!..»
Escuto. O meu rosto transfigurou-se num papiro com mapa de latitude nenhuma. Nele não há lugar a sentimentos nem emoções. É um plano de ausência. Uma carapaça marmórea que esconde o ser. Apenas ouvidos, nada mais. A câmara intercala de um para o outro. E ela inscreve-se no mesmo figurino que eu. Somente com uma diferença: enquanto eu sou todo ouvidos, ela é unicamente boca. Fala. Instrumento de precisão.
«Depois deste incidente, tive uns meses de paz consentida. Alguns rapazes e raparigas, influenciados ou não pelos mais velhos, condoeram-se pelo ostracismo a que fora votada e aproximaram-se mais de mim. Criei novas amizades, tentei uma vida normal, e adesivei-me superlativamente ainda mais à minha irmã. Tornámo-nos boas companheiras e amigas, além das boas irmãs que já éramos, não obstante a diferença de idades. E a necessidade de o matar apurou, engrossou, fez-se autónoma, a lume brando dentro e mim. Até à obsessão. Fez-se ritmo pulsante, mas calculado, da vida, do quotidiano. Para mais, no último dia de aulas, ao vir para casa só, Ana Isabel e Pedro cruzaram-se comigo. Chamaram-me nomes ordinários (flashback), provocam-me e atiram-me pedras. Fujo. Mas em vão, pois perseguem-me e cortam-me as saídas. E fazem-no obrigando-me a entrar num beco. Sou forçada a lutar e defender-me. Com ela podia eu bem, não fosse ele! Então, a um dos cantos vejo um pau, um resto de cabo enxada ou forquilha. Sem que eles se apercebam pego nele e desanco-os a quantas ganas tenho. Acredito que se na altura (fim do flashback), não fugissem, cada um para seu lado, não mais o poderiam voltar a fazer, já que a minha vontade era matá-los a ambos, ali, esmagar-lhes as cabeças cruelmente, como a vilões, que nem a duas cobras venenosas. Desfazer-lhes os crânios até verterem os miolos no chão, e o ódio que me tinham com eles. Todavia, mais tarde, depois de atacada ainda fui castigada por me haver defendido...»
«Como assim?!» Retorqui.
«Foi. Quando cheguei a casa já a mãe de Pedro havia telefonado a meu pai, contando-lhe, segundo a versão de Ana Isabel e do primo, como eu os tinha esperado traiçoeiramente à esquina tal com um pau e os espancara selvaticamente. Coisa que (palavras dela), além de pecado e pôr a vida dos outros em risco, fica muito mal a uma menina da minha idade. E família. Como balancete do sucedido ainda apurei umas boas correadas além de um fim-de-semana de quarto, do qual apenas podia sair para ir comer ou à casa de banho. Tudo o mais vedado, por castigo. Tanto ver televisão, como brincar com minha irmã. Unicamente no quarto, em solitário destilar de vinganças...»
O grande plano fixa-se nela.
«Finalmente vieram as férias de Verão. Só lá para Outubro o meu pesadelo recomeçaria novamente. Eram mais de três meses de descanso!... Nunca umas férias me souberam tão bem! Além do mais, durante elas, foi um elaborar de planos em que vingar-me, a matá-lo. As brincadeiras com minha irmã funcionavam como laboratório. Nelas, a principal, era uma a que chamávamos de “matar o maldito”. Sendo o maldito o nome de código que entre nós significava Pedro, para despistar ingerências adultas... Mas a cada dia de brincadeira, sempre a matá-lo de mais uma maneira diferente, reconhecíamos a enorme dificuldade que era fazê-lo sem deixar provas de termos sido nós... E matámo-lo de todas as maneiras e feitios! Desde a pedrada na cabeça ao envenenamento, passando pelo afogamento, atropelamento e a tiro, tudo ensaiámos. A debalde!... Infrutífera pesquisa.»
Novo replay com a voz em off.
«Contudo, não sei se por distracção, se por esquecimento dele, após o findar das férias e no recomeço das aulas do ano lectivo seguinte, os ataques odiosos de Pedro cessaram. Mais tarde compreendi que foram o cansaço e incapacidade de levar as coisas até ao fim que o fizeram esquecer-me. Nele, mesmo o manter dum sentimento tão forte como o ódio durante mais de nove meses, era exageradamente superior às suas forças. Para Pedro qualquer ideia, sentimento ou vocação, só seria útil e aproveitável se fosse descartável e de tara perdida, do tipo usar imediatamente e deitar fora... Tudo o mais eram desperdício de tempo e de boa vontade!... Até na memória essa preguiça se fazia valer: se fosse preciso recuar mais do que uma semana no tempo, a recordar qualquer situação ou ensinamento adquirido, encontrava logo dificuldades e forjava obstáculos sem fim. E que raramente ultrapassava. O mais comum nele eram o excessivo entusiasmo em começar algo de novo, assim como a rapidez com que disso desistia!... Nele até o prazer da novidade era efémero!»
«E conseguiste discernir tudo isso sobre ele nessa idade?»
O silêncio fez-se. Todavia a imagem, atrasada que está em relação ao verbo, mantém-se durante alguns (muitos) segundos mais.
«Não. Só posteriormente», e o grande plano esbate-se pouco a pouco. E também lentamente substitui-se por um geral da rua com o Largo da Rotunda Sul em fundo. A voz impõe-se em off, «enquanto estudava psicologia e me preparava para fazer bem o que tinha de ser feito...» Alguns bombeiros, cinco ou seis, sobem a avenida. Gesticulam, falam alto, sacodem as pernas, batem as botas. A mancha azul-escura da ganga dos macacões, à distância, ora aproximando-se, ora afastando-se do núcleo, em pulsar ritmado e entusiástico, estabelece uma dança estranha e sombria dum enorme polvo a diluir-se à medida que sobe no separar das formas, individualizando-as e aos corpos. «Mas estou a precipitar-me!... Já lá vamos!»
A câmara acompanha o grupo de bombeiros na subida. Quando estes se cruzam connosco, nos ultrapassam, deixa-os. Ficamos nós em plano americano.
«O que se passou, foi que durante a quarta classe, ciclo preparatório e escola secundária, eu me tornei, para além da melhor aluna de A-dos-Tansos, na mais cuidada e bonita também. Embora que neste capítulo fosse mais honesto e justo dar o lugar a minha irmã! Era bem mais bonita que eu! E asseada! Que, aliás, nunca mas disputou, mas sim antes, se alguém acendia a competição, logo se prontificava a esclarecer favorecendo-me, evidenciando desprimores na sua apresentação, e referindo que a qualificação me assentava melhor do que a ela...»
Passagem a mais um grande plano de Palmira, como fotograma inicial de uma sequência alternativa de planos comigo, conforme se sou eu ou ela quem está no uso da palavra.
«Esses anos foram, todavia, bastante cinzentos para mim. Como todos os outros mais, aliás. Depois dos fatídicos acontecimentos de que fora alvo e vítima, fiquei como que morta e oca por dentro. Desmobilizada. Não fosse a sede ansiosa e obsessiva de vingar-me com a morte dele, creio que me teria apagado totalmente. Para melhor compreenderes digo-te que até esta data e idade nunca senti qualquer prazer sexual, nunca tive um orgasmo, do mais pequeno e subtil grau que fosse!... Nunca.»
«Mas estudavas e cuidavas-te... Não foi o que disseste? Algum motivo havias de ter para isso! Não desejavas ser amada? Desejada?»
«Sim, estudava; e muito. Porque foi a estudar que consegui reconquistar a admiração e respeito, tanto dos meus colegas, como dos meus pais e professores. E também usurpar a Pedro o primeiro lugar no podium dos meninos prodígio. Nos anos que se seguiram tornou-se vulgaríssima e banal a sua pouco dotada perspicácia e sabedoria. Revelou-se um modesto aluno que conseguia os mínimos para passar de ano, ou um nadinha mais, e quase sempre esforçadamente. Vantagem que explorei exaustivamente, como não poderia deixar de ser!»
«Assim, de repente. Dum momento para o outro?...»
«Não. Gradualmente. É como se a inteligência dele fosse inversamente proporcional à idade: à medida que crescia menores se tornavam a sua memória, objectividade, lucidez e diligência. É como se tivesse crescido e evoluído tudo em acelerado, até aos 8/9 anos, e ficasse com uma idade mental bastante superior aos seus oito/nove anos, mas que também de repente parara de crescer aí, ficasse estagnado nessa idade e atitude mental. E memória.»
«Enquanto tu...»
«Enquanto eu mantive os meus índices de crescimento na mesma. Enquanto para ele única e aparentemente só podia haver degradação, para mim havia realmente evolução, contínua e gradual. No aspecto físico, importa salientar, que ainda não frequentava o ciclo preparatório, pois fora nas férias grandes que antecederam a entrada nele, quando me veio o primeiro período menstrual. Nas leituras também fui precoce! Nesse mesmo ano li, na íntegra, Os Lusíadas.»
«E com algum motivo especial? Com algum objectivo explícito para o fazer?»
«Não. Li-o, porque naquele ano e àquele tempo lia tudo o que fosse livro, e me viesse parar às mãos. Sem qualquer motivo nem critério! Era apanhar qualquer livro que fosse, que só o largava quando terminado. Não precisava de justificação alguma. Agora penso, que era uma atitude lógica dentro do plano que inconscientemente tecera para acabar com Pedro. Como fazem os caçadores: estudar os hábitos, comportamentos, características e habitas dos animais que pretendem capturar, além de rentabilizar a busca diminui as possibilidades de falhar no tiro ou no aprisionamento. Conhecer a sua vítima o melhor possível é uma tarefa do predador que se preza. E a leitura fornece inúmeros acontecimentos, relatos e conhecimentos sobre a natureza geral e particular do homem... Ou não é?!»
«Também creio que sim. É sempre do homem enquanto homem, do seu relacionamento consigo mesmo ou com os outros, com as coisas ou com os animais, com as ideias ou com o ambiente, que se fala quando se escreve, ou quando se lê. Os livros são uns bons ficheiros de registos de ser; testemunhos de experiências em situação... Penso.»
«E estás muito certo. Os livros são feitos por homens, e estes falam sempre de si mesmos, até quando pretendem falar doutras coisas. Além de facilitarem e serem um bom pretexto e ocupação para a solidão inventiva. Eu conto. Em resumo, o que me mantinha viva e a funcionar era a vingança que somente se consumaria com a morte de Pedro. Desde o matá-lo eu própria, com faca, pistola, veneno, objecto contundente, etc., etc., até ao contratar ou sugestionar quem o fizesse por mim, tudo me passou e foi revisto inúmeras vezes pela cabeça. Mas sempre com um senão: dificilmente escaparia impune por tal, num ambiente tão restrito e limitado. Até por minha irmã eu corria o risco de vir a ser apanhada. Qualquer desabafo ou fraqueza que ela pudesse vir a ter que revelassem o conteúdo das nossas brincadeiras, principalmente a de jogar ao “matar o maldito”, denunciar-me-iam e fragilizavam-me. A televisão, nas séries e filmes, mormente nos policiais, depressa me alertou para o significado e risco que corre quem pratica a justiça por mão própria: é-se consequentemente condenado por ela ou em nome dela. Por conseguinte...»
«E ele imaginava ou sabia de alguma coisa? Como é que tu te relacionavas com ele? Contaste-lhe ou deste-lhe alguma vez motivos para desconfiança?»
«Até mais ou menos ao final do preparatório não me aproximei muito dele. E por isso mesmo: porque tinha medo de vir a trair-me, por um lado dando-lhe pistas que o prevenissem, e por outro, com medo de o desculpar pelo reavivar dos sentimentos (nobres) que havia nutrido por ele. Mas no fossilizar dos meus propósitos fui ganhando à-vontade e ousadia. E certeza. Até que, em consequência disso, me convenci de que temos de estar o mais perto possível daqueles a quem queremos destruir, se queremos que a oportunidade surja eficaz e descomprometida...»
«E ele?»
«Ele tinha-se esquecido de tudo: tanto do que me fez, como do que pensava e sentia sobre mim. Depois de três ou quatro anos de separação efectiva ou de diminuto contacto, pouco ou nada manifestava saber acerca de mim. Apenas que andara na mesma classe e sala que ele. E que os rapazes mais velhos me cortejavam descaradamente, e sem tréguas!... E que o estar comigo e gozar das minhas atenções e conversas, provocava inveja, admiração, sei lá!, da parte deles. Lhe dava um estatuto superior e mais atenções, principalmente dos maiores, a quem imitava e lhe inspiravam temor e superioridade. Foi daí que nasceu o primeiro fio da teia em que se enredou...»
«E tu já reconhecias isso naquele tempo? Conscientemente?...»
«Não; mais tarde. Àquela altura do campeonato a única coisa de que tinha plena consciência era de que iria matá-lo, como aliás aconteceu, mas não sabia com o quê nem quando. Nem o que fazer para o conseguir. Apenas reconhecia que tinha que esconder bem o que pretendia, e que para o fazer devia representar muito bem o contrário. Talvez que mais por imposição do meu inconsciente. Eu autoprogramara-me heuristicamente, e a entrada de dados e de informações era funcionalmente feita e interiorizada segundo os objectivos estipulados, da mesma forma que os rectificavam e (re)actualizavam à luz dos novos conhecimentos recentemente adquiridos e se reposicionavam pragmaticamente. O meu corpo era um biombo que escondia e enfeitava o software da morte, que depois de accionado, activado, procedia de acordo com uma cadeia automática de atitudes e comportamentos para a qual a minha livre vontade pouca importância tinha. Tanto faz que se considere que aquele acto era ou não consciente; que aquele pensamento fosse lógico ou não; que tal memória fosse espontânea ou provocada; porque o certo, o certo mesmo, é que ele teria a validade que merece ter um dado parafuso na estrutura geral duma determinada máquina, ou duma particular e pontual peça no puzzle que a inscreve. Nesse universo essencial, e em que fora dele não vale nada.»
«Por exemplo!...»
«Por exemplo a minha curiosidade e predilecção por livros e filmes policiais, assim como o ter começado a estudar psicologia ainda no oitavo ano, extracurrículo, e às escondidas quase, quando apenas viria a ter a disciplina no 10º ano. Esta antecipação de dois anos, foi uma resposta condicionada pelo programa, que por sua vez o condicionou... Uma consequência influenciável que o influenciou... Topas?!»
«Claro; é um ponto de vista. Mas também não podemos deixar que a parte tome o lugar do todo. Tu, provavelmente, como toda a outra gente, estavas inclusive sujeita a imposições e influências sócio-familiares, a responder às expectativas dos adultos e das outras crianças, como da tua irmã e etc., etc. e tal.»
«Isso é o que se pensa! E erradamente. Ninguém nos ensina nada: nós é que aprendemos. E aprendemos o que queremos, não o que esperam que nós queiramos, nem o que nos querem ensinar. Só vemos e ouvimos o que queremos ver e ouvir, em matéria de aprendizagem. E se não tivermos onde encaixar um dado conhecimento, tanto faz explicarem-no-lo uma vez como um milhão de vezes, que o não memorizamos. Que o esquecemos assim que viramos costas. Sobretudo, tão-só retemos aquilo que consideramos útil e funcional para o motivo, preocupação e preposição que assumimos. E é esse princípio objectivado que selecciona e classifica a informação, não nós, embora que de acordo com o desenrolar evolutivo na gradação crescente de realizar-se.»
«É uma maneira de dizer... Uma opinião.»
«Não é, não; é a pura verdade. Por exemplo, a Caixa de Skiner. Como é que eu aos catorze anos podia conscientemente reconhecer o valor dos reforçamentos na determinação dos comportamentos humano e animal? Como consegui eu associar e adaptar o procedimento para influenciar e levar o Pedro a fazer o que eu queria? Porque o recompensava sexualmente logo após ele ter tido uma manifestação de dependência em relação a mim? De dependência escolar/cognitiva ou financeira. Mas eu fazia-o. E sentia que era a única coisa que estava certa de querer e devia fazer.»
«É um tanto vago... Não é?»
«Parece. Como muitas outras associações, aliás. Mas não é. É antes essencial. Se ou não se, eis que. A uma atitude certa a recompensa apropriada, estabelece quase sempre a possibilidade de repetição duma conduta que preferimos, mesmo que não seja desejável moral e sexualmente. Biologicamente. Foi o caso da droga, em que se meteu da mesma forma e modo com que começou a fumar tabaco e se lhe viciou. Assim: primeiro comecei por semear ao deus-dará uns quantos “sinto mais desejos por homens que fumam”, “nem sei como me contive ao sentir-lhe o cheiro a suor e tabaco”, “um homem que não fume não é totalmente homem”, “fulano é suficientemente maricas, para nem fumar” e quejandos, enquanto o submetia a um longo período de terapia de choque pelo método do balde de água fria, de meles e entusiasmos repentinamente interrompidos, além do negar-me a satisfazer sexualmente os seus apetites ansiosos mais audazes que a carícia refreada e o linguado incompleto. Principiou a andar nervoso e deprimido. Depois, num dia comprei um maço de tabaco. A que acrescentei o efeito fruto proibido, mostrando-lho, enquanto languidamente lhe inspirava o odor e o cheirava libidinosamente, às escondidas, mas unicamente onde e quando soubesse que ia ser apanhada por ele a fazê-lo. Duas, três, quatro vezes, e o resto foi fácil: ele mesmo se informou junto dos mais velhos, e deu com eles as primeiras fumaças de iniciação. No dia em que se aproximou de mim a tresandar a tabaco, confessando-me orgulhoso o acto de haver fumado, fui caprichosamente gentil com ele. Lubrifiquei-me com vaselina e fiz-lhe sentir as delícias do coito sexual completo, numa penetração plena, em que o ajudei excepcionalmente, acompanhada de ejaculação abandonada. Tiro e queda. Foi infalível. Com a repetição regrada do aperitivo, em pouco menos de um mês tornou-se um fumador exímio, assim como me deu a ganhar mais um ponto de recurso no segredo guardado e escondido dos pais dele.»
«Mas tu falaste também em droga...»
«Pois falei. Falei porque o método foi idêntico, embora que com as nuanças correspondentes no passar das leves para as pesadas, do haxixe à heroína, em aceleração pausada mas crescente. Um crescendo que o tempo ajudou. E a hiperdependência dele consolidou.»
«Não acredito que um efeito tenha apenas e somente uma causa. Numa atitude determinada e tomada por um homem, incorrem sempre não uma, mas diversas circunstâncias...»
«Nem eu. Nunca o afirmei; nem sequer o pretendi. Aliás a operação D&TP (Droga & Tabaco em Pedro), não teve como única responsável a minha pessoa, não obstante tenha sido eu a dar o empurrão inicial, tal como a ajustar acelerações e ritmos sempre que o sentia afrouxar nas suas utilizações e consumos. Tive ajudas. Nesse sentido, devo muito aos pais dele, a dois ou três amigos e colegas, à minha irmã até, à filosofia do sistema de ensino português e a alguns professores autoritários e casmurros, o tê-lo conseguido com tamanho êxito. Sem eles e ao chamamento da diferença, ao apelo interior da originalidade narcísica, ao desejo ansioso de ser continuamente amado e vangloriado, nunca me teria sido possível fragilizá-lo a ponto de o reprogramar motivacionalmente. E essa fragilização começa precisamente pelo facto de ele ser filho único, com um pai benevolente, mole, católico praticante ao nível da beatice, moralista das aparências e apóstolo do “dever ser”, mas cobrador de expectativas, e uma mãe hipocondríaca, propensa a lamentações, lamechismos e lamúrias, assim como sempre pronta a assumir o papel de invariável vítima sob os mais variáveis pretextos, onde ambos depositavam o objectivo e motivo de viver, além da única razão de ser para continuarem juntos maritalmente, em consentido e mútuo sacrifício, no manter dum casamento em que nunca houve amor, mas sim interesse e submissão. Ou seja, pela frouxidão dos pais, nunca aprendeu a querer para ter, tal como também nunca se preparou e autopreveniu contra a hipótese de haver alguém capaz de lhe fazer frente de se opor aos seus pretensos caprichos teimosa e inteligentemente. O mimo e superprotecção de “o menino quer, o menino tem” de ambos foi um óptimo fertilizante para o desenvolvimento e crescimento dos meus propósitos. Reconheço...»
O alternado de grandes planos continua actual. Todavia uma diferença: por vezes o câmbio é contrariado por alguns americanos simples ou dos dois, para normalizar os créditos na ideia de que o diálogo se mantém à escala do desafio, do debate, na competição de e por argumentos persuasores e sugestivos.
«Antes de te adiantares, gostava que soubesses que não sou fácil de convencer... Principalmente quando o absurdo se me depara.»
«Não sou vulnerável a ironias. Posso continuar?»
«Claro. Desculpa.»
«Desde muito cedo me apercebi que o êxito da OMP ( Operação Matar Pedro), dependia em grande parte de transformar a sua hiperdependência aos pais numa dependência, de igual calibre se não superior em grau, em relação a mim. O que foi canja! O moralismo hipócrita e convencional auxiliou bastante!... Por outro lado, o fundamentalismo conceitual no referente ao tabaco, droga e sexualidade, raiando o puritanismo vitoriano, assim como à noção de segurança financeira pelo mínimo gasto igual a máxima poupança - de no poupar é que está o ganho –, vieram condimentar q.b. o cozinhado de cumplicidades entre nós dois. E haverá melhor dependência que a cumplicidade?... Melhor amarra que a corda invisível?...»
«Não. Realmente o secreto ilícito partilhado foi a génese da nossa civilização: note-se a história de Adão e Eva, a do comer o fruto da árvore proibida do paraíso...»
«Eis exactamente a ideia... Primeiro meti-o no tabaco e escondi o caso dos pais dele. Depois dei-lhe dinheiro para o comprar quando eles o não faziam indirectamente. Mais tarde, levei-os a admitirem que Pedro fumasse tal como lhe custeassem o vício, no soltar duma amarra, no folgar da pressão, no descansar da boca afrouxando as rédeas do freio... O êxito desta tarefa, com o benefício da recompensa sexual, em breve garantiria que eu pudesse iniciar com igual efeito a fase “droga”. O primeiro capítulo do resto. Pois que nessa altura já ambos andávamos no décimo ano, e aí pelos 17 ou 18 anos cada um!»
«Quer dizer... Saídos de fresco da adolescência, não?!»
«Tal e qualmente. (Quão perverso és também!...) E as suas principais vítimas tinham sido os pais dele: haviam fraquejado e desbaratado quase todas as sua munições antivício na batalha preliminar. O que os deixara estropiados e agonizantes enquanto família. O tabaco não merecia tanto, é claro. Mas a eles, desprevenidos, pois que nunca haviam sonhado que tivessem de se debater com semelhante problema, não lhes passou pela cabeça que precisariam delas para outra batalha mais pujante: a droga. Principal elo para fechar o ciclo de morte que eu havia elaborado e instituído à volta de Pedro. A OMP era, em verdade, uma roleta viciada. E o croupier era eu... Os pais dele, os professores, os colegas, os conselheiros morais e psicológicos, não passavam de simples jogadores com fichas contadas e limitadas, e que tampouco sabiam a que (ou se) estavam a jogar!...»
«Lógico. Peculiar... Mas pouco convincente, convenhamos.»
«Se pouco convincente ou não, não sei, nem importa. Creio, ou ao contrário, não creio que só uma causa tenha um efeito. (Aliás, como afirmaste anteriormente!...) O efeito X é sempre resultante não só de uma, mas de nY de causas. Ou seja: Para Pedro se deixar convencer, sem sequer notar que estava a ser levado a isso, e começar a fumar haxixe foi necessário um empurrão coincidente (e eficaz) em várias frentes. Pelo que me diz respeito, rodeei-me de uns quantos fumadores já experimentados, que gostavam, e não lhes regateei elogios e atenções. Facilitei-lhes dinheiro e até participei em algumas queimadas, puxando fumaça. Fiz-lhes os trabalhos de casa e participações em grupos disciplinares, visto que naquele tempo serem moda os trabalhos de grupo em quase todas as disciplinas curriculares. E limpei-lhe sempre a barra, se havia caso com os pais dele, que viam em mim mais uma filha ( a filha desejada, e que não tiveram) pelo meu aprumo, interesse e notas escolares, asseio, etiqueta e delicadeza de exemplo a seguir. Além, é claro, da consumação do futuro do filho, com um casamento desde muito novos engendrado pelas duas famílias.»
«E aos pais dele, como conseguias ludibriá-los? Olha que não é fácil atentar contra o filho duma mãe-galinha!... Ainda das que eternamente chocas!...»
«Não sei se com provas, se com testes especializados, ou qualquer outra facilidade de diagnóstico, mas eles sabiam das dificuldades do filho: da fraca memória, da falta de talento, da excessiva de pendência, fraqueza de vontade e pueril carácter... e talvez por isso viam em mim a outra parte, a metade que faltava, a capaz de compensar e equilibrar as coisas. Era o exemplo que ele deveria seguir, copiar. E conheces alguém que ponha em causa ou critique os seus modelos e eleitos?!... Então, eu fiz jogo duplo. Além de me tornar no principal intermediário/intérprete entre eles e o filho, logo que Pedro se começou a afastar progressivamente deles, dando-lhes também a possibilidade de controlo e influência sobre ele, a baixo custo, alinhando nas suas maquiavélicas tendências para o educar conforme os seus cânones. Se eles queriam que ele fosse a determinado lugar ou acontecimento, então deixava-os iludirem-se de que me convenciam a lá ir, para que eu lhes levasse o filho comigo, ou para levarem o filho sob o pretexto de eu também aí estar. Como foi no caso do evento anual dos grupos e Convivas da Juventude Católica. Tornei-me seu alibi e cúmplice, pelo menos nas suas tentativas de moldar o seu objectivo de vida em orgulho de viver, o seu doce e queridinho rebento. É que eles sempre foram um fungo, um musgo, uma espécie de parasitas do filho: viviam dele, embora convencidos e convencendo todos de que o faziam para ele.»
«Mas não há aí complexidade a mais...? Não te parece isso bastante complicado para já ser compreensível a uma garota de dezasseis, dezassete anos?... Francamente! Mais velho sou eu e não o vejo lá muito claro!...»
«Eu naquela altura não compreendia o que estava a fazer. Simplesmente sabia que estava a contribuir com qualquer coisa para alcançar o que queria. Nem tinha plena consciência de que eles eram assim. Era o meu inconsciente que captava e transformava a informação útil em prática. Não carecia de compreender o quer que fosse; precisava é de reagir conforme os ventos e acertar as rotas pelo meu rumo. Era a heurística do meu programa a funcionar, nada mais. Como no judo: quando alguém nos empurra devemos aproveitar a força desse empurrão e puxar decididamente, a fim de que esse alguém seja obrigado a dar uma cambalhota por cima de nós, e ir estatelar-se no chão, nas nossas costas. E flexibilidade e sentido de oportunidade nunca me faltaram!»
«Contudo, continuo a não perceber bem como é que uns pais superprotectores abdicaram assim do seu filhinho, e logo nas tuas mãos... »
Conversas Por Acabar
Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta
8.05.2009
O Escriba e as Bonecas - Terceiro Caderno
Terceiro Caderno (Galope)
«Não compreendes porque te esforças em não o querer, nem o conseguir. Pois é bem claro: os pais, ao notarem que o seu bebezinho único logo que deixava de estar sob a minha alçada e tutela directa, coisa que subtilmente me empenhei em demonstrar-lhes, fazia burrada da grossa, desaparecia de casa durante dois ou três dias, pedia dinheiro emprestado a comerciantes conhecidos sem autorização do pai, e para este pagar!, drogava-se até ao descontrolado comportamento e demais tristes figuras, optaram por convencer-me de que o mais cristão e menos pecaminoso seria consentir casar com ele. Por dois ângulos ou pontos de vista: porque desconfiavam da existência de relações sexuais pré-matrimoniais; e segundo, que ele viesse a assentar à custa dos desígnios da novel responsabilidade de vir a ser chefe de família. Casamento em que mui modestamente consenti, deixando imediatamente de tomar a pílula para lhes facilitar a sempre nobre esperança de virem a ser avós, com brevidade e sem esperas prolongadas. Recompensa merecidíssima pelo esforço que despenderam em me proporcionar tão importante passo para a meta que me impus. Truque duplo. Doble num tiro.
«E a maternidade aconteceu?»
«Aconteceu sim. Precisamente ao décimo mês de casamento nasceu o Filipe. E para Pedro, os três meses que antecederam o parto mais os nove que se lhe seguiram, foi o ano de todos os anos... O dinheiro das prendas de casamento ainda durava, pois quem abonou com todas as outras despesas (mobília de casa, jantar e copo d’água do casamento, instalações para o aviário, de que era suposto virmos a tirar os rendimentos para tocarmos a vidinha prà frente), foram os nossos pais, e estes, com o surgimento do neto, deram-lhe carta branca em tudo, esquecendo-se inclusive que ele existia, excepto quando aprontava alguma da qual eu o não conseguia esconder ou ilibar. Quer os meus pais, quer os dele, vinham frequentemente a nossa casa no declarado pretexto de verem o Filipe, mas raramente se cruzavam com o Pedro. Ele, o estava com os amiguinhos dos xutos, ou estava no aviário, mas sobretudo estava carregado na cama. “A descansar do serviço no aviário”, dizia eu às famílias embevecidas, se acontecia perguntarem-mo.»
«Os amiguinhos?... Alguns junkies, não?...»
«Qual quê!! Não; eram caveiras mesmo, e a valer. Eram dois ou três mais mortos que vivos, que nem alimentar-se queriam, preferindo a heroína a qualquer outro acepipe. Em fase de muito adiantado estado de degradação, de destruição, e que, contudo, se safaram com vida através de consecutivos internamentos clínicos para desintoxicação e alguns retiros (espirituais) no Le Patriarche. Os mesminhos com quem começou a fumar haxixe, aliás. Companhia de quem eu o não podia proibir, já que tinha sido eu a arranjar-lha!...»
«Nem querias
«Bingo!! Com as boas graças dos sogros, pelo feito heróico de lhes haver renovado os motivos e a esperança de vida, com um neto, apenas deixava e precisava de deixar correr o marfim, facilitando a Pedro o acesso aos dinheiros do fundo de maneio familiar. E depois ia queixar-me à mãe dele, ou ao pai, por ele gastar todo o dinheiro que fazia falta para o filho e despesas domésticas “sabe-se lá onde”, mas pondo a pairar no ar a sublinhada suspeita de saber muito bem para que fim, onde, com quem e no quê o gastava. Eles também: embora adiando sempre no mais possível a verificação e comprovação das suas suspeitas. Uma fé esperançosa de um por mil, em não estarem certos nas mesmas.»
«E a tua família estava a par disso? Como reagia ela ao facto de vos ter dado o aviário para vocês não precisarem de pedir dinheiro a ninguém, e vocês não se governarem de lá? Ela estava ao corrente de tudo quanto se estava a passar convosco? Não me parece que sabendo, aceitassem a situação de ânimo leve...»
«O curioso é que a minha família, não só sabia de tudo (pela santa boca da minha sogra, claro está), como também se estava literalmente nas tintas para o comportamento de Pedro. Diziam que não era para preocupações; que era só uma fase ruim, uma fase passageira. Levavam a coisa na berlinda. Mas, no final, foram eles que, com o agravamento da dependência, e numa altura em que Pedro vendera todas as sacas de ração para os galináceos, a quase de metade do preço que haviam custado a meu pai, não só deixando os bichos a passar fome como fazendo uma dívida impagável para com o sogro, alertaram os compadres para a necessidade do filho se ter que submeter a um tratamento de desintoxicação e reabilitação.»
«E Pedro fê-lo?...»
«Fez pois. Só que a abstinência apenas lhe durou o tempo de internamento. À primeira vez que veio a casa, e notando-o um tanto ou quanto agitado, eu própria lhe preparei uma dose de cavalo, das dez que tinha comprado na sua ausência para o efeito... Foi tiro e queda! A partir desse dia, e se antes do tratamento andava a precisar de três doses diárias, passou a necessitar de cinco ou seis.»
«E não te pesava na consciência pelo que estavas a fazer?!...»
«Não. Eu só queria o bem dele. E para que não sofresse! Aliás, fora ele quem implorara por elas!... E tinha medo que ele se tornasse agressivo se eu lhas negasse...»
«Era o que argumentarias junto dos pais dele se, não?...»
«Uma espécie disso, perfeitamente. Mas acima de tudo, eram os comentários que concedia às minhas amigas da nossa geração, que pretendiam apelar ao meu bom senso... Que aliás compreendiam divinalmente!»
«Porquê? Elas inquiriam-te? Preocupavam-se ou tentavam intervir na tua vida matrimonial?»
«Não era bem interferir. A minha desgraça é que era do domínio público. Interessavam-se, era o termo mais adequado. Quando nos encontrávamos no café, no supermercado, viajávamos juntos de ou para Casal Parado e Vale de Burros, conversávamos normalmente das nossas vidas, dos nossos filhos, dos nossos maridos. Era coisa comum, que não evitávamos nem escondíamos. É como falar da tropa quando se está na recruta. Ou de política quando nos inscrevemos há pouco no partido. E esporadicamente lamentava-me, e à sorte que tinha tido pelo marido que me calhara... Visto que numa terra tão pequena, é impossível guardar segredo sobre muitas coisas íntimas e familiares, durante um período superior a oito dias!...»
«E como é que elas apelavam ao teu bom senso?... Não percebo bem como é que isso se faz!»
«Ora toma. Era o que faltava!... Apelavam ao meu bom senso quando me aconselhavam a separar-me dele, caso ele não deixasse de se drogar. A impedi-lo por todos os meios de consumir drogas. A não lhe facilitar dinheiro para comprar droga. E etc., etc. e tal.»
«’Tá lógico.»
«Lógico, não. Está verdadeiro. O que tem de ter lógica e coerência são os romances e demais ficções. A vida raramente a tem ou o é, percebes? A vida real é real e cruel como a verdade, nada mais. Nem lógica, nem coerente. Nem qualquer oportunidade para o dourar da pílula.»
«Pois; siga.»
«Por instantes pensei que era teu intento irritar-me. Tirar-me do sério. Não?... Com que finalidade? Ah, ainda desconfias de mim!»
«Não desconfio. Sou simplesmente de difícil compreensão... Em nada creio às primeiras.»
«Estás no teu direito, mas não abstraias conclusões antes de eu acabar, que é para isso que comecei. Eu ainda não sou como o meu ex-; eu quando começo algo é para ir até ao fim. É da minha natureza...»
«Do carácter asténico, diz antes...»
«Certo. Ou isso! Como queiras. Agora nota, que os pais de Pedro andando como andavam, embobados pelo neto, nem se davam conta de que o filho regressara do tratamento com mais necessidade de dinheiro do que quando fora. As doses dobraram. E triplicaram. Até que um dia foram visitar o netinho e depararam com a sala de estar e de jantar sem mobília nenhuma. Fizeram um escarcéu dos infernos. A custo, intimidada, submissa, obediente, lá lhes contei que o filho as havia vendido para pagar a droga que já tinha consumido desde que voltara, e comprara fiado. Foi um desgosto danado!... Ficaram inconformáveis! Pesarosos e abalados com a notícia!»
«E foi o que acontecera efectivamente?»
«Em parte sim, embora não fosse toda a verdade. Acrescentei, desculpando-o aparentemente, em atenuante, que a culpa provavelmente não tinha sido exclusivamente dele, mas dos traficantes e companhias com que se voltou a dar. Que os formigas o haviam ameaçado de morte, e ao filho, se ele lhes não pagasse rápido. & etc. Mas a verdade fora outra. Eu é que lhe tinha fornecido a ideia de vender as mobílias das salas, com aparelhagens sonoras e de vídeo incluídas, a fim de pagar as dívidas e ficar ainda com algum para as próximas “receitas”. Disse-lhe inclusive, convenci-o mesmo disso, que os pais andavam tão contentes com o neto que eram bem capazes de relevar, de lhe perdoar tudo a ele, só para não prejudicarem afectivamente a criança, nem a traumatizarem psicológica e familiarmente. E ele caiu!... Que nem um patinho. Em resultado: os pais dele reenviaram-no para nova desintoxicação mais consequente reabilitação no Le Patriarche, dessa tirada para a Suíça, nos frescos e bons ares dos Alpes.
«E deu efeito? Quando voltou, veio recuperado?»
«Recuperadíssimo!... (À moda do não.) Nem falar conseguia, normalmente; unicamente aos supetões. E nem assim saíam duas direitas! Debaixo de uma tensão angustiosa de cortar a alma... Tive pena. Doeu-me o coração. Meteu-me dó... Não resisti.»
«O quê?! Tiveste pena!!! Quer dizer: voltaste a dar-lhe heroína, comprada por ti, do teu bolso?...»
«Sim. Quer dizer: foi exactamente isso que fiz. E em pouco menos dum mês estava ele a vender o que restava do aviário, num descuido de vigilância de meu pai, que era quem o tutelava e mantinha em funcionamento, depois da venda das rações, e por lhe estar mais próximo de casa do que a meus sogros. E como lhe não bastasse, passou também a patacos o material de construção civil, que o meu pai e o dele andavam amealhando para nos fazer uma vivenda. Foi tudo pràs urtigas!... Até os vinte quilos de pregos!...»
«Não acredito.»
«Então não acredites. O incrédulo és tu!... Mas foi como te disse. Nem mais, nem menos uma vírgula.»
«E tu? Que fazias? Que dizias?»
«Bom: a ele, quando sós, dizia que não havia problema, que tudo se iria resolver. Se os pais estavam presentes desculpava-o, e maeuticamente levava-o a prometer que jamais voltaria a usar uma agulha (de costura). Não convencia ninguém mas era um indicador precioso do quanto eu me esforçava e sacrificava para levar o casamento a bom porto, e feliz rumo. Quando estava sem ele presente, sozinha com meus pais ou com os dele, transformava-me numa madalena chorosa, lamentando que não conseguia suportar mais aquele calvário, que ele estava a arruinar-me os nervos e a pôr em risco a futura saúde do filho. Que estava sujeita a deixar-me contaminar por alguma doença mortal, contagiosa, que ele pegasse no convívio e utilização das seringas dos outros “sidosos” com quem tanto gostava de acompanhar e privar...»
«De forma decidida e conformada?»
«Tão convicta que a iniciativa de me divorciar de Pedro e abandoná-lo, retirando-lhe também a tutela do filho, partiu deles. Os meus pais, porque eram meus pais e não queriam que eu sofresse. Os dele, porque estavam saturados e queriam salvaguardar a saúde, segurança e estabilidade psicológica e emocional do neto.»
«Ao que tu...»
«A que eu obedeci pesarosamente... E a que só me submeti depois de instada a que se o não fizesse, eles me abandonariam também. Que deixariam de querer saber de mim. Que me retirariam o Filipe, e me deixariam à mercê do destino... E de Pedro.»
«E fariam-no?...»
«Não; provavelmente, não. Mas eu preferi não arriscar. Lavei as minhas mãos. Como Pilatos. A partir dessa altura, tudo quanto viesse a acontecer com Pedro, passaria a não dizer-me respeito. A responsabilidade seria exclusivamente dos quatro. Eles é que haviam decidido e me obrigado. Apenas tive que submeter-me ao aceitável... E imperativo. Era ele ou eu...»
«E?...»
«... E numa quinta-feira à noite, ouvi baterem-me à janela do quarto que fiquei a ocupar em casa dos meus pais. O divórcio estava em curso, mas ainda não tínhamos sido notificados com o deferimento e decisão definitiva e oficialmente, por escrito. Abri. Era Pedro. Com delirium tremens, arrasado, suplicando que o ajudasse. Fi-lo compreender que não podia fazer nada, que não tinha dinheiro nenhum, e que eles mo não davam pois temiam que ele mo tirasse. A não ser que... A não ser que...»
«A não ser o quê?!»
«A não ser que lhe desse as chaves do carro que me pai nos havia comprado, em substituição do jipe que Pedro vendera, mas que avariou, e nós metemos na oficina, o que afinal o salvou de também ter sido passado a patacos. E que, como não tivéssemos dinheiro para pagar o arranjo, o pagou ele, recuperando o automóvel para si, por conta do pagamento do conserto e mais uns contos de réis pelas rações das galinhas. Carro esse que ainda estava em nosso nome!»
«Queres ver que me vais dizer, que lhe deste as chaves e o carro, e que ele se despenhou, morrendo no acidente... Não?... Já vi esse filme!»
«Não. Não foi assim. O que foi, foi sim que ele levou o carro e o vendeu por quanto pôde e lhe deram a pronto, em dinheiro batido na mão, em troca do livrete que meu pai ainda não tinha recuperado de mim. Depois comprou heroína suficiente para arrumar dez cavalos, e morreu de overdose. Tão simplesmente quanto isso. Não aguentou a pedalada. Tão-só. E apenas. Encontraram-no sexta-feira, ao meio-dia, no chão da garagem do pai, encostado à roda do tractor com a seringa ao lado e o garrote caído do braço, descambando lasso...»
O grande plano da minha surpresa e incredulidade esbate-se gradualmente, ficando em sua substituição o plano geral da rua com o largo em fundo, sob um trânsito de hora de ponto. A luz é menos aberta, e apercebe-se bem que a tarde está a entrar no seu término. É a agonia do dia em trabalho de parto.
«Pronto», concluí eu. «Partamos do princípio que me deixei enrolar com a veracidade desta história macabra. Que o teu marido depois de endividado, viciado, e votado ao ostracismo, se deixou abater e se suicidou por excesso de dose. Seja. E o corpo? E o cadáver? E o defunto? Será que existe mesmo alguma viúva? Não o creio. Até porque no teu B.I., em que reparei sorrateiramente enquanto procuraste na carteira o dinheiro para pagar o café, o estado civil constante é o de divorciada. E se assim, como contas, tivesse sido, constaria lá escrito viúva!»
Regresso a um americano de ambos. Ela tira o Bilhete de Identidade da malinha de mão, de sobre a mesa. E confirma.
«Tens razão. É que me esqueci de dizer que, naquela quinta-feira à tarde foi quando o corpo judicial deferiu o pedido de divórcio. Eu na realidade não sou viúva: sou divorciada. E já estava divorciada há um dia quando o meu ex-marido se suicidou.»
«E o suicídio também não é garantido... Provavelmente foi engano de dose, um acidente, sei lá!...»
«Sim. Eventualmente... Mas sublinhe-se que ele estava muito bem informado nesse capítulo. Era um barra na matéria. Um expert. Um acidente só podia acontecer para cúmulo do “acidentalmente”. Muito pouco plausível.» (Silêncio. A câmara fixa-se-lhe no rosto, a que o pensamento empresta um ar meditativo e enigmático. Até que, com um piparote na mesa, ela destrava:) «E o cadáver está no cemitério de A-dos-Tansos. Por acaso sinto vontade de visitar a campa. Acompanhas-me? Queres vir? Se negares, concluirei que a tua incredulidade é bluff!...»
Voltamos a mais um plano médio dos dois. A levantarmo-nos
* * * * *
(Atenção à elipse.)
enquanto nos sentamos à mesma mesa, exactamente nos mesmos lugares, as sombras provocadas pelo candeeiro que nos fica atrás, anunciam um bailado singular: o assentar das formas, como se estas fossem poeira que se cola às coisas. É noite já. É a hora da bica do jantar. Chegámos como quem vem dele, e como qualquer assíduo frequentador concluiria automaticamente. Mas não o tomáramos. Estivemos no cemitério.
«Porque é que as pessoas quando falam a fazer qualquer outra coisa nos parecem mais sinceras?» Pergunto eu, a provocar polémica. «Já em minha mãe essa sensação se me afigurava. Se ela queria dizer qualquer coisa importante levava-me sempre para a cozinha, e enquanto cozinhava ou descascava batatas, a bomba ia despejando.»
«Porque dizes isso agora. Logo agora?... Não percebo.»
«Bom. É simples.» E o plano americano dá lugar a uma sequência de grandes planos alternados de mim e dela. «É que durante o tempo em que conduzias, tanto na ida a A-dos-Tansos, como no regresso, me soaste menos a falsete do que quando aqui estivemos à tarde. Estavas mais preocupada em que eu amasse a mesma paisagem que tu. Falavas dos vinhedos e pomares, não como se fossem coisas, matéria vegetal, mas sim seres vivos em vias de extinção. Preciosos e insubstituíveis. Dos ondeados de vales e de montes como se da tua própria pele se tratasse. Dos moinhos, como de entes queridos desaparecidos.»
«Se dizes isso, é porque ainda não ouviste nada!... Deixa-me só começar a falar da Serra de Todo O Sempre! Da Ermida e Convento de Nossa Senhora dos Flocos! Da Real Fábrica do Sorvete! Da Igreja Matriz de Casal Parado! Do Castro de Vale de Burros! Da Igreja Paroquial de A-dos-Tansos! Da minha vila! Da minha vida! Da minha história! Das minhas paixões!»
«Porquê? Esse entusiasmo tem raízes em algo profundo que ainda não conheça?...»
«Talvez. Se o quiseres interpretar assim. É que ao notar e compreender como a minha vida sexual e afectiva se tornara miserável, agarrei-me à única centelha de amor que em mim ainda se não tinha extinto: o amor à minha terra. Acreditava que assim salvaguardaria a promessa de que essa semente viesse a frutificar e desenvolver-se, evoluir até transformar gradualmente esse apego à terra e passado dela, em amor ao presente e às pessoas que nela vivem, incluindo a mim mesma...»
No seu grande plano podemos notar que a frontalidade intelectual foi descurada. Há até duas lágrimas a nascer hesitantes em seus olhos, agora húmidos e brilhantes. A testa foi atirada para trás e o queixo, antes recolhido duma animalidade em stand by, aproveita o inclinado perfil para reaparecer miúdo e interferente no espaço. Inclusive a própria pose de sentada com as pernas cruzadas, já não exibe a rigidez e contenção anteriores; é abandonada e leve, alongando-se nas curvas, sem a brutalidade das articulações contraídas em esforço. É como se o corpo nos desse a ver a facilidade com que o sangue lhe circula dentro, em pulsação ritmada e entusiástica. Grata por cumprir-se.
«E terá resultado?»
«Sem dúvida. Apercebi-me de que resultou quando me abraçaste no cemitério. Quando senti um imenso, imperioso e verdadeiro desejo de te beijar e acariciar, tal como o de permitir e desejar que me fizesses o mesmo. Até quando...»
Flashback: “ O cemitério de A-dos-Tansos é um receptáculo rectangular de medir o poente, que se lhe estampa frontal. Deitado preguiçosamente na encosta leste do Rio Tramóia, que como rio é a vergonha da família, pois além de nunca ter caudal superior a um reles ribeiro, inclusive no pinho do Inverno, único período em que tem água entre as margens, corre ao contrário da maioria dos seus congéneres, marcha contra a corrente, de Sul para Norte, de baixo para cima, como que a querer demonstrar que lhe sobra em coragem aquilo que lhe falta em ser, em circunstâncias físicas e líquidas. Paradoxos que a natureza tece e o homem nomeia!
E ao canto superior direito, em ponta de fila, das outras restantes idêntica, a campa de Pedro remata o ângulo. Em nada difere das demais, com cabeceira de pedra calcária branca, polida, em forma de Bíblia aberta, encaixe para a fotografia do inquilino, nome completo e datas biográficas: nascimento e morte. Sobre a sepultura uma outra pedra branca, comprida, mas de mármore. E ao fundo dela Palmira, braços caídos ao longo do corpo, pernas afastadas, que nem um cowboy ou pistoleiro preparado para mais um duelo mortal. Tem espasmos e convulsões de choro e raiva: «Maldito!... Maldito!...» Repete inconscientemente. O vestido, devido à posição das pernas, sobe-lhe mais um pouco e, de tão curto, quase se vê o desenho curvo do princípio das nádegas. Aproximo-me-lhe por detrás e acaricio-lhe os ombros. Insinuo-me, beijo-lhe o pescoço. Deixo as mãos, os dedos, percorrerem-lhe os braços, até os entrelaçar nos seus, sobrepondo as palmas das minhas às costas de suas mãos. «Maldito!... Maldito!...» E enquanto o diz ergue os braços ao céu, chorando espasmodicamente. Mas ao fazê-lo puxa-me para a frente, içando igualmente os meus braços e comprimindo-me também de encontro ao seu corpo. «Maldito!... Maldito!...» Vocifera. Sob o meu peito descoberto pelo abotoado da camisa, os seus ombros e dorso flectiam convulsos, e as suas coxas e nádegas alçadas anichavam-se de encontro ao meu sexo, procurando-o e submetendo-o, em pura animalidade ciosa. «Maldito!... Maldito!...» E chorava.
Por detrás de nós o sol cruzava a linha do esquecimento e escondia-se. Sobre o ondulado dos montes distantes uma estrada alaranjada marginava a terra, marcava a fogo os limites do dia. «Maldito!... Maldito!...» Proferia Palmira, entretanto se virando no desenclavinhar dos dedos, procurando-me a nuca e pescoço com eles, sôfregos e curtos e cárneos de carinho e ternura contida. Nervosos e cegos: agitados, e insaciados. «Maldito!... Maldito!...» Desabafava. E eu beijei-lhe os olhos. Bebi-lhe as lágrimas. Acariciei-lhe as costas, numa ânsia de protegê-la da luz, do mundo, das recordações, da dor. E nesse gesto continuado até ao despir-lhe das cuequinhas brancas, que lhe caíram aos pés no fundo da campa, qual noiva branca oca e vazia abandonada no chão da morte. Então, coloquei todo o meu libidinoso desespero na busca da resolução dos mistérios da tarde que quer ser noite, da noite que quer ser madrugada, na esperança de vir a ser dia, e ali a sentei sobre a pedra fria, de coxas separadas, vestido subido, para entre elas me ajoelhar na terra seca e esfarelada, em prece, beijando-lhe os lábios frementes de choro enraivecido, o pescoço crispado, o peito arfante. Até à penetração total e plena, que a fez, de olhos esgazeados, atirar-se para trás levando-me consigo; olhos que cerravam à medida que descíamos para a horizontal do mármore, e se esqueceram fechados até quando...”
Fim do flashback e retomar do grande plano anterior a ele. Mas ao falar Palmira gesticula. Mexe-se ao ritmo das palavras. Aviva-as. Baila com elas. Dá-lhes espaço habitacional. Empresta-lhe o próprio corpo!
«... voltei a abrir os olhos e concluí que tudo se tinha passado noutra dimensão. Que a luta não tinha sido luta. Que o planalto relvado a findar em abismo nunca existiu. Que a queda no precipício e explosão sofrida enquanto ela, não acontecera. E sim que a realidade era tão simples e natural como o teu olhar morno, meigo e grato no escurecer ocasional, e o esquecimento tranquilo de teus beijos lânguidos e cansados. Demorados. Perdidos numa demora em busca de retenção. De eternidade.»
Inicia-se então, com também a minha tomada do plano, em figura de centro, a última sequência de alternados, segundo a quem calha estar no uso da palavra.
«Mas essa luta no planalto relvado em que te debateste, rolando e contorcendo até cair no precipício, é igualmente real. Tão real que também eu a tive e partilhei. Tão autêntica que dos meus últimos dias e por muitos anos, irá ser a única recordação que perdurará. Tão real como a gratidão do meu olhar, porque ela era devida ao facto de, quando após termos descuidado o abismo e a sua proximidade, num desesperante debater aflito em contorções e arremetidas, nele caindo, teres sido tu aquela a quem me agarrei em ânsias de afogado para não embater no fundo frio e agreste e rude de pedra e vácuo do infinito em forma de abismo. Porque ao segurar-me em volta de ti te absorvi, e ambos explodimos num Big Bang virtual que nos aspergiu pelo cosmos. Agora podemos ter a certeza de ser pertença do mundo. Agradecido por teres sido a primeira pessoa que vi depois de ter assistido ao estilhaçar explodido de toda a argila recozida e escura da minha armadura existencial. A primeira a testemunhar o espectáculo de inocência, o núcleo de amor, com que recomecei a viver. A que me ajudou a recolher a nudez de minha alma viva e renascida, para mais uma era de crescimento e morte, em cumprimento da lei que nos comanda e executa.»
Palmira ri. Não sorri; ri mesmo, em gargalhadas jocosas e estridentes. Lança as mãos para a frente, para as minhas mãos, e diz:
«Não sei porquê, mas não me sinto com idade suficiente para compreender o que queres dizer. Foi verdade: mais ou menos palavra, foi também essa queda irreversível que vivi e senti. Esse espalhar de mim pelo universo. Mas não quero, nem sou capaz de compreender. Finalmente sinto-me livre para poder ser eu. Sinto-me que nem uma criança, sem passado, apenas presente e a certeza de que o futuro é algo inadiável, que não vejo como evitá-lo ou por que pensar nele. Acho que voltei a ser pequena, frágil, despreocupada, aberta, disponível, inocente e confiante. Que finalmente regressei ao corpo nu que abandonei um dia, enquanto este batia desesperadamente e humilhado a uma porta irremediavelmente fechada. Trancada. Teimosa e cruelmente selada.»
«De arrecadação?...»
«Não. De prisão, de túnel. De aço cromado e frio, gélido, espelhado e inabalável.»
«De ficção...»
«Sim, de ficção. Ou por outra, como as portas das prisões dos filmes de ficção científica, onde até o improvável é possível. E o possível pouco provável.»
A avenida cambaleia na luz eléctrica. Por vezes um carro passa devagar, em velocidade de ronda, para não abanar cenário. Há alguns reclames luminosos a colorir a noite. Mas o principal movimento é o das pessoas a entrar e sair do café, às famílias completas, com pai, mãe, filho e/ou filha, a quem não faltam o cão nem a boneca. E um agrupamento superiormente notório nas escadas de acesso à porta do cinema.
Aparentemente é uma noite igual a tantas outras de Junho ou Setembro. No clima. No traje e frequência dos frequentadores. E a expressão dos rostos que apreciam o descanso.
Mas essencialmente é o remate, o nó de uma linha que perdeu o fio de cor. Que tem de mudar de novelo e de tom. Que recomeçar é isso: é voltar a pintar o mesmo desenho com diferente paleta, com outras cores, que preferencialmente temos por mais adaptadas, reais e motivadoras. Como num ritual encenável, repetidamente representado, irremediável e consecutivamente pelos mesmos actores. Um palimpsesto reciclado. Repetidamente reciclado. Até à exaustão. Até à velhice. Até à morte, que é a falta de coragem e força para insistir uma vez mais nos gestos tantas vezes feitos em vão. Porque só morremos quando ficamos em estado de não aguentar outra reciclagem.
E as bicas vieram, quentes e fumegantes, aromáticas e cremosas. Que bebemos em silêncio. Religiosamente. Como em silêncio se extinguiu a imagem, que a cada golo de café escorria para o mais brumoso, cinzento, pardo, escuro, escuríssimo, preto, negro do quadro da ausência. Das ausências.
RODAPÉ: Ah, quase esquecia de me apresentar! Fisilogicamente sou um gémeo perfeito do Ribeirinho, um Woody Allen à portuguesa, no filme de sua autoria, O PÁTIO DAS CANTIGAS (Francisco Ribeiro, 1941 ), rodado em Lisboa, embora que um tanto mais baixo e magro – que a época não perdoa. Visto um casaco aos quadrados brancos e pretos, que nem um tabuleiro de xadrez, camisa amarela de colarinhos com enormes bicos e desabotoada até ao cinto; calças de veludo grená, e uma cartola empoleirada no cocuruto da cabeça. E Palmira é igualmente uma boneca.
Os sapatos que uso? Esses ficam totalmente a vosso critério (e gozo).
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O Escriba e as Bonecas
7.28.2009
Carta Europeia da Liberdade de Imprensa

Comissária Reding congratula-se com a nova Carta Europeia da Liberdade de Imprensa
A Comissária Viviane Reding encontrou-se hoje com Hans-Ulrich J ö rges, chefe de redacção da revista alemã Stern e promotor da Carta Europeia da Liberdade de Imprensa. Esta Carta, assinada em 25 de Maio por 48 jornalistas europeus de 19 países com o objectivo de proteger a imprensa contra interferências dos governos e assegurar o acesso dos jornalistas às fontes de informação, enuncia os principais valores que as autoridades públicas devem respeitar nas suas relações com os jornalistas, tendo sido hoje apresentada e transmitida por Hans-Ulrich J ö rges à Comissária Viviane Reding, que saudou a sua adopção pelos jornalistas.
" A Carta da Liberdade de Imprensa, promovida pela comunidade dos jornalistas europeus, constitui uma importante reafirmação dos valores fundamentais, nomeadamente o pluralismo dos media e a liberdade de expressão e de informação, que são alicerces das tradições democráticas da Europa e estão consagradas em textos jurídicos fundamentais. Serve também para lembrar que só pode haver verdadeira liberdade de imprensa se as autoridades públicas desempenharem o seu papel, ou seja, se estiverem prontas para proteger a liberdade de expressão e promover o seu desenvolvimento", afirmou Viviane Reding, a Comissária Europeia para a sociedade da informação e os media . "A Carta constitui, pois, um passo importante para o reforço destes valores e direitos fundamentais, permitindo que os jornalistas os invoquem contra governos ou autoridades públicas sempre que sintam que a liberdade do seu trabalho está abusivamente ameaçada".
Hans-Ulrich J ö rges, chefe de redacção da revista alemã Stern e promotor da Carta, acrescentou: “Estamos muito gratos pelo apoio incondicional manifestado desde o início por Viviane Reding à ideia de uma Carta Europeia da Liberdade de Imprensa. Partimos, pois, do princípio de que a Comissão Europeia também respeitará esta Carta e contribuirá activamente para a sua promoção em toda a Europa. Ao mesmo tempo, expressamos a esperança de que, em futuras negociações de alargamento, o reconhecimento da Carta passe a ser uma condição para a adesão dos países candidatos. A preocupação principal da Carta reside em unificar a Europa também de um ponto de vista jornalístico e permitir que todos os nossos colegas possam invocar os seus princípios em caso de violação da liberdade de imprensa”.
Os dez artigos da Carta enunciam princípios fundamentais que os governos têm de respeitar nas suas relações com os jornalistas, nomeadamente a proibição de censura, o livre acesso às fontes nacionais e estrangeiras dos media e a liberdade de recolha e difusão de informações. A Carta sublinha ainda a necessidade de proteger os jornalistas para que não sejam vigiados nem espiados e exige um sistema judicial eficaz que proteja os direitos dos jornalistas (ver o texto integral da Carta no anexo). A Carta existe já em oito línguas (inglês, francês, alemão, dinamarquês, croata, russo, polaco e romeno), estando disponível em linha e aberta à assinatura dos jornalistas interessados.
A ideia da Carta da Liberdade de Imprensa nasceu em 2007, durante uma reunião entre a Comissária Reding, Hans-Ulrich Jörges e outros chefes de redacção de jornais e revistas europeus ( IP/07/713 ). Estes diálogos a alto nível entre a imprensa escrita e a Comissão são organizados anualmente, desde 2005, pelo Grupo de Trabalho da Comissão para os media , incidindo em diferentes temas (ver igualmente IP/05/1164 , IP/06/1445 e IP/08/1091 ). Este grupo é responsável pela análise de todo o material produzido pela Comissão, para que as iniciativas desta não afectem involuntariamente a liberdade editorial ou comercial da imprensa escrita. A Carta da Liberdade de Imprensa é um resultado concreto destas discussões frutuosas entre diversos media e a Comissão Europeia.
A Carta Europeia da Liberdade de Imprensa e a lista dos signatários estão disponíveis em http://www.pressfreedom.eu .
" A Carta da Liberdade de Imprensa, promovida pela comunidade dos jornalistas europeus, constitui uma importante reafirmação dos valores fundamentais, nomeadamente o pluralismo dos media e a liberdade de expressão e de informação, que são alicerces das tradições democráticas da Europa e estão consagradas em textos jurídicos fundamentais. Serve também para lembrar que só pode haver verdadeira liberdade de imprensa se as autoridades públicas desempenharem o seu papel, ou seja, se estiverem prontas para proteger a liberdade de expressão e promover o seu desenvolvimento", afirmou Viviane Reding, a Comissária Europeia para a sociedade da informação e os media . "A Carta constitui, pois, um passo importante para o reforço destes valores e direitos fundamentais, permitindo que os jornalistas os invoquem contra governos ou autoridades públicas sempre que sintam que a liberdade do seu trabalho está abusivamente ameaçada".
Hans-Ulrich J ö rges, chefe de redacção da revista alemã Stern e promotor da Carta, acrescentou: “Estamos muito gratos pelo apoio incondicional manifestado desde o início por Viviane Reding à ideia de uma Carta Europeia da Liberdade de Imprensa. Partimos, pois, do princípio de que a Comissão Europeia também respeitará esta Carta e contribuirá activamente para a sua promoção em toda a Europa. Ao mesmo tempo, expressamos a esperança de que, em futuras negociações de alargamento, o reconhecimento da Carta passe a ser uma condição para a adesão dos países candidatos. A preocupação principal da Carta reside em unificar a Europa também de um ponto de vista jornalístico e permitir que todos os nossos colegas possam invocar os seus princípios em caso de violação da liberdade de imprensa”.
Os dez artigos da Carta enunciam princípios fundamentais que os governos têm de respeitar nas suas relações com os jornalistas, nomeadamente a proibição de censura, o livre acesso às fontes nacionais e estrangeiras dos media e a liberdade de recolha e difusão de informações. A Carta sublinha ainda a necessidade de proteger os jornalistas para que não sejam vigiados nem espiados e exige um sistema judicial eficaz que proteja os direitos dos jornalistas (ver o texto integral da Carta no anexo). A Carta existe já em oito línguas (inglês, francês, alemão, dinamarquês, croata, russo, polaco e romeno), estando disponível em linha e aberta à assinatura dos jornalistas interessados.
A ideia da Carta da Liberdade de Imprensa nasceu em 2007, durante uma reunião entre a Comissária Reding, Hans-Ulrich Jörges e outros chefes de redacção de jornais e revistas europeus ( IP/07/713 ). Estes diálogos a alto nível entre a imprensa escrita e a Comissão são organizados anualmente, desde 2005, pelo Grupo de Trabalho da Comissão para os media , incidindo em diferentes temas (ver igualmente IP/05/1164 , IP/06/1445 e IP/08/1091 ). Este grupo é responsável pela análise de todo o material produzido pela Comissão, para que as iniciativas desta não afectem involuntariamente a liberdade editorial ou comercial da imprensa escrita. A Carta da Liberdade de Imprensa é um resultado concreto destas discussões frutuosas entre diversos media e a Comissão Europeia.
A Carta Europeia da Liberdade de Imprensa e a lista dos signatários estão disponíveis em http://www.pressfreedom.eu .
Liberdade de imprensa é essencial para uma sociedade democrática. Todos os governos devem defender, proteger e respeitar a diversidade dos media em todas as suas formas e políticas sociais e culturais.
Artigo 2
Artigo 2
A censura deve ser absolutamente proibida. Deve haver garantia de que o jornalismo independente em todos os meios é livre de perseguição, repressão e da interferência política ou regulatória por parte dos governos. Imprensa e media em linha não devem estar sujeitos a licenciamento do estado.
Artigo 3
Artigo 3
O direito dos jornalistas e dos meios de comunicação de reunir e divulgar informações e opiniões não deve ser ameaçado, restrito ou sujeito a punição.
Artigo 4
Artigo 4
A protecção das fontes jornalísticas deve ser rigorosamente amparada. Investigações nas redacções ou em outras instalações jornalísticas, vigilância ou interceptação de comunicações de jornalistas com o objectivo de identificar as fontes de informação ou infringir a confidencialidade editorial são inaceitáveis. Artigo 5Todos os estados devem garantir que os meios de comunicação gozem da protecção integral de um sistema judicial independente no exercício das suas funções. Isto aplica-se, em particular, à defesa dos jornalistas de agressões físicas e constrangimentos. As violações destes direitos e eventuais ameaças devem ser cuidadosamente investigados e punidos pelo Poder Judiciário.
Artigo 6
Artigo 6
A vida económica dos meios de comunicação não deve ser ameaçada ou controlada por parte do Estado, de instituições ou de outras organizações. A ameaça de sanções económicas é inaceitável. A iniciativa privada tem de respeitar a independência dos meios de comunicação e de se abster de obscurecer a distinção entre publicidade e conteúdo editorial.
Artigo 7
Artigo 7
O Estado não deve impedir a liberdade de acesso dos jornalistas e dos meios de informação. Ele é obrigado a apoiá-los na sua missão de prestar informações.
Artigo 8
Artigo 8
Meios de comunicação social e jornalistas têm o direito de livre acesso a todas as notícias e fontes de informação, incluindo os estrangeiros. Para isso, devem ser fornecidos aos jornalistas estrangeiros vistos, credenciais e outros documentos necessários sem demora.
Artigo 9
Artigo 9
Ao público de qualquer Estado deve ser garantido o livre acesso a todos os meios de comunicação nacionais e estrangeiros e às fontes de informações.
Artigo 10
Artigo 10
O estado não deve restringir ingresso na profissão de jornalismo.
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Notícias do Ocidente Ocidental
6.27.2009
Dum Vivimus, Vivamos
Enquanto Vivemos, Vivamos"Cada tres minutos, una mujer es golpeada.
Cada dez minutos, una muchacita es acosada...
Cada día aparecen en callejones,
En sus lechos,
En el rellano de la escalera, cuerpos de mujer."
– Ntozake Shange
Moderação, inteligência, partilha, são mais que slogans políticos da actualidade, ideias base ou valores da nova ética, democrática por assim dizer, desde que ousemos ser radicais, e se não quisermos sucumbir ao fado afonsino do vira o disco e toca o mesmo dos bailaricos saloios nas caves do provincianismo serôdio que já foi moderno, sim, no tempo da mola na calça para não nos sujarmos na corrente e dos Nicolaus-Trindades que pedalaram, entre perigos e guerras esforçados, mais
do que permitia a razão humana, para triunfo dos botas de elástico e consequentes comensais da lusofonia, em acérrimo leilão da portugalidade. Porque são enfim, deste tempo, outrossim, a marca de qualidade com que cada um pode cunhar a moeda de troca ao câmbio da sustentabilidade imediata, sem mediatismos, mas profundamente arreigada aos que preferem viver enquanto vivermos.Num carrão enorme, p.e., topo de lama do gamar enquanto dá, onde caberiam à vontadinha, pelo menos cinco pessoas, vai só uma e é de muito suspeita humanidade. Eis o principal fotograma, o frame típico e característico, retirado da película do nosso dia-a-dia, como uma das fundamentais atitudes industriais/transformativas (produzir monóxido de carbono unicamente a partir de dióxido de carbono, espécie de descoberta da pólvora prò fósforo) com que o Homo Popas nos vais corroendo a Rua Sésamo, até já esta não abrir para tesouro nenhum mas antes, salvo seja, desembocar num Rossio urbano, qual fórum constituinte onde mil e um ladrões arengam ser os legítimos eleitos Alibabás da política nacional. Mas anda acurar-se – diz-se, à boca pequena, em novas oportunidades de boca grande, na devoração do erário público–, porquanto frequenta os banhos quentes à propina numa estância (filial) de Bolonha e fermentação de leveduras rápidas, que ainda hão-de levar os hip-hip hurras à memória da pátria e seus egrégios cós, cãs e cá-cás para as foz e ribeiras, com firmes e tesas intenções de gramar com o canudo fita e laçarote de preceito, coisa que com sorte até pode ser habilitação suficiente para ingressar na carreira de caixa em qualquer hipermercado que mantenha a tradição de empregar por cunha e fazer concurso por aparência física, tipo miss de experimentar e deitar fora, como a pastilha elástica dos Taxi. E Gigélia Hirondina foi uma das afortunadas... Consegui-o!
F
ilha de Abril, gerada por geraldina em manif do MFA sob a palavra de ordem que garantia que as vacas são do povo, deram-lhe duro os pais para que nunca nada a ela faltasse, sobretudo das coisas que se vissem, e de inveja no uso comum lá na terra dos confins da (se)gregação, para escalas em socalcos vinhateiros de culto a Baco, sob as frondes mais viçosas e destemidas dos chorões açambarcadores e pedintes das gotas de água ao céu, do florbelino espancamento, para gáudio dos mocetões e arrelia da mulheraça. Só que ao cair do berço d'oiro aterrissou mal e saiu pencuda, que mais parecia descendente directa do Bocage, olhos desmedidos no sopé da cuja-dita, e dentes que, ao crescerem apertados, encavalitados em hora de fala impetuosa e incendiária, em hora de ponta empurrados prà saída da boca, à laia de lebre mal amanhada e com muita carqueja para não saber a gato, a quem o lábio inferior não se desenvolvera com desenvoltura e à-vontade, plantara-lhe o trejeito de Santa Bárbara bendita a rogar por melhores trovoadas, para raios e tridentes no bulício de trincar tubérculos e raízes várias, com receita Doc em Vale de Perdizes.Vai daí que um dia, cansada de apanhar no trombil, queixou-se à republicana do seu Xico, mas eles riram-se que nem uns perdigueiros, pois desconfiavam que ela gostava dos carinhos, andava é com modernices por ouvir às demais que os seus também lhe davam pra tabaco, mas tinham mão frouxa no enrolar da mortalha. «Pode lá ser», repetia Gigélia ao ouvir as vizinhas, sobre a cobardia e senilidade de seus machos já com as hastes a meia haste. «O meu zurze-me valentemente, mas ainda é home» garantia, quando elas vaconsigo no café, ou tasca da esquina, a moderação
dos costumes caseiros, e de como elas inteligentemente reivindicavam os seus direitos, nomeadamente o de apanhar com vigor, nada dessas mariquices de votar ao centro, que as incitava à cantoria do ele bate, bate, mas o jeep é meu, e aplaudir Tonho das Veredas nos arraiais e romarias dos santos pó-pulares.E com razão, esclareça-se como seu esclarecido argumento, que a elas ninguém pinta a manta, muito menos se «vierem para cá com latinórios e espanholices. Até porque se isso fosse importante prà gente», acrescentavam elas, «então porque é que o não dizem em língua que se perceba!?...»
O que me leva a concluir que a violência doméstica só é violenta conforme o dialecto em que se pratica. Que se for moderada, usada com inteligência e partilhada, outra coisa nunca será além de tradição, cultura e costume secular, que deve ser respeitado por antigo, ensinado por devoção e partilhado para regalo de quem se não esquece, nem permite, que de um momento para outro se apaguem mais de oitocentos anos de História. Nem mais. Ora, Eça!
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Crónicas dos Luís Não Vás
6.22.2009
Lançamento de Livro
S. Tomé e PríncipeProblemas e perspectivas para o seu desenvolvimento
Data e Local: 23 de Junho às 18.30 horas
Auditório Víctor de Sá
Universidade Lusófona
Av. do Campo Grande, 380-B, Lisboa
Data e Local: 23 de Junho às 18.30 horas
Auditório Víctor de Sá
Universidade Lusófona
Av. do Campo Grande, 380-B, Lisboa
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Notícias do Ocidente Ocidental
6.12.2009
Erro de Cidadania
"Tudo quanto é necessário para o triunfo do mal,é que os homens bons não façam nada."
E.Burke
Pode a alguns parecer que isto é uma questão de somenos, uma bagatela para entreter moleskines, um preciosismo intelectualóide, um comentário sobre insignificâncias, só que não o é, não é não, senhora, que é um alto lá de se lhe tirar o chapéu, desbarretar a careca, a coroa, porquanto é a ténue linha divisória entre a democracia representativa corporativista e democracia participativa da cidadania, confusão negligenciada a que se deve a maior fatia do nosso atraso, daquele que já temos mai-lo o outro que há-de vir, quer com as crises como endossado directamente das catacumbas e calabouços da insustentabilidade; ora, dizia eu, isto de se ser democrata não é para todos, não é nenhuma pêra doce, tem muito que se lhe diga, não nasce com a gente, ao contrário da bestialidade egocêntrica e hiperautoritária, microcéfala e criancista, que essa sim nos manda prà cova tal e qual viemos ao mundo, medíocres e lamechas, o que torna o facto grave, muito grave, deveras grave, mas tão grave, que nos põe nas "mãos" um problema agudo, acutilante e a
glutinador do bem-estar futuro, do desenvolvimento do amanhã, quero eu salientar, porquanto ninguém pode ser responsabilizado pelas más governações e piores políticas, nacionais, locais ou europeias, péssimas acções legislativas e parlamentares, sensaboronas presidências e catastróficas gestões autárquicas, visto que cada um que vota e elegeu os elementos, ou partidos que usufruem os respectivos poderes, fê-lo e fá-lo sempre de forma irresponsável, dado estar momentaneamente privado de consciência cívica, subtraído da sua identidade, falho de qualquer sentido ou juízo ético e de entidade, incapaz de responder por si e muito menos capaz de convocar a consciência dos que vai eleger, face à incontestável alienação da cidadania que é o facto de ter entregado, passado para as mãos de outrem, neste caso os componentes da mesa de voto, o seu (BI) Bilhete de Identidade, coisa que suponho deve estar à margem da lei, uma vez que o BI de qualquer pessoa é pessoal e intransmissível, tem que acompanhar sempre a indivíduo para onde quer que este vá, e não podendo ficar à mercê de estranhos, por maior que seja a credibilidade e honesta fama entre os demais cidadãos da urbe.Aliás, quem está nas mesas de voto pode aproveitar para pôr a sua coscuvilhice em dia, tirar dívidas acerca dos dados pessoais deste ou daquele eleitor, nomeadamente quanto à sua filiação, naturalidade, estado civil, idade, servir-se dessas informações no dia-a-dia futuro, quer para usufruir vantagens competitivas entre os congéneres da praça pública ou comercial, quer para ganhar protagonismo nos salões de cabeleireiro, cafés de afiar a língua, redutos de quadrilhice generalizada, incluindo os locais de trabalho da sua função de nada fazer além de trocar figurinhas e tricas com os colegas de sua igualha, sobre quem passa ou se detém fazendo algo onde lhe interrompem os ócios, impedem desfrute da mordomia e ameaçam tomar conhecimento e (até) contar alguns atentados às leis ou sensatez.
Portanto, onde está a estranheza pela elevada abstenção que em quaisquer eleições, não somente nas europeias, se verifica e ocorre? Que tipo de democracia é esta que põe a pessoa refém de uma mesa de voto, mesa essa que lhe confiscou momentaneamente a cidadania? Vivemos ainda no terceiro mundo ou aquilo que se apregoa na Constituição da República, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, não passa de mais uma demonstração da propaganda e
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Crónicas dos Luís Não Vás
6.06.2009
O Rosto e as Máscaras

“O poder é o domínio sobre outrem; ao poder sobre si próprio chama-se liberdade.”
Denis Rougemont
“Todas as histórias são autobiográficas. Só que umas começam por EU NASCI EM BUENOS AIRES, e outras começam por ERA UMA VEZ UMA RAINHA.”
Jorge Luís Borges
«Anda a monte. Dói-lhe a careca por dentro», garantiu Ludomila a Barnabiças e Ruffino, quando estes lhe perguntaram pelo sabichão das caligrafias, narrador dos sete entrecostados fritos, migas de pão e tintol sempre alumiado. «Se calhar, carregou a gorpelha, ontem?!?...», cepticou Ruffino, a quem as ausências do literato faziam transtorno na agenda. «Ele desconhece os limites, e depois... estranha!»
Companheiros e amigos, eu fiquei estupefacto, ou de facto feito estúpido, com o que acabava de ouvir, entrementes abri a porta da sala. Mais uma vez as minhas personagens «senhores, sim» sim, as minhas personagens estavam a trair-me, a criar enredos, a tecer imbróglios, a quadrilhar enfim, nas minhas costas. É como digo: não se pode confiar em ninguém. Nem na tinta da nossa tinta, gema do nosso ovo, clara da nossa santa intenção (transparente).
É óbvio que Ludomila sabe coisas sobre mim que nem eu próprio sei, ou desconfio saber. Além do que reconhece que só as mulheres muito bem vestidas merecem ser bem despidas e que há uma grande diferença (institucional ou não), entre ser-se uma menina boa e uma boa menina. Como igualmente sabe que eu desconheço a dissemelhança entre umas e outras e tomo muitas (bebidas). Mas isso não lhe dá o direito (ou esquerdo) de me boatar ao digníssimo esposo nem ao desnobre alimentador, apenas porque me demorei um tantinho superior na casa de banho, em abluções essenciais matutinas, orando pràs mecas, não!...Uma pessoa precisa de tempo para obrar se quer que o best-seller saia com cagança, apurado e perfeito!... Pois. Não pode andar por aí, com ideias de caca, a alardear-se em herói!... Não pode abastecer-se de fluxo comercial e querer qualidade! Nem ser culturalmente imberbe e exigir que os demais lhe prestem vassalagem.
Portanto – confesso... – quando me sentei à mesa de trabalho, de tão enfurecido e irado após a revelação, estava disposto a matar os três (mas especialmente a ela), e com mais do que uma morte torturadora e cruel para cada um, com pelo menos quatro garantidas para esta, a mila dos ludos, a ver se aprendia a não fazer bluffs com quem tanto lhe quer!... Todavia, recalcitrei, respirei fundo, ingeri a poeirada da 1º de Maio, assumi a postura de buda da felicidade, esbajeei um paivante de enrola caseira, e optei por mantê-la debaixo de olho em banho-barnabiças. Isso mesmo, ali, a mamar nos nabos do costume. Havia de engolir a sopinha toda, desse por onde desse, sem poder cuspir uma gotinha, sequer.
Por conseguinte disse-lhes, nas ventas «já é a segunda vez, que vocês me armam a ratoeira para apanhar o gato em contragarra. É bom que se compenetrem que somos uma equipa e não uma telenovela tipo ‘Dallas’, senão levam-nas. Uma equipa coesa, interessada no enredo e fortemente empenhada na narrativa. Ninguém recebe ordens lá de fora nem cá de dentro, como não são permitidas insurgências contra a estrutura romanesca actual. Quem se quiser amotinar ou frequentar outro formato deve sair da história e não levantar palha. Se querem guerrear entre vós quem mais pode, nunca se esqueçam do ditado chinês que diz que entre aquele que na batalha venceu milhares de milhares de homens e aquele que se venceu a si mesmo, este último é o grande vencedor, mas apresentem trabalho e façam a sopinha conforme a trama exige, e não segundo interesses exteriores estabelecidos partidariamente. Aqui não há vedetas nem discriminações de sedimentar e segmentar a colectividade. Deixem-se de panelinhas amaricadas e cumpram a vossa missão. Ok?!?»
O recado estava dado. Os restantes figurantes da tramóia foram entrando um a um, disfarçando o ar de caso que a grossura da atmosfera impunha. Pessoa não veio por andar com os heterónimos constipados (e contundidos); contudo, o era uma vez não se sentiu minimamente prejudicado, indo em frente, na sua determinação de dar de contar. A postos finalmente, entreolharam-se. Das suas entranhas adivinhava-se, dando à tona, o «bué de esquizo» usual em situações que tais, mas não me comovi. Às vezes é preciso ser duro, género Jorge Luís Borges de irredutível sombra, se se quer ditar as regras da história. Sobretudo porque brincadeira não é arte, antes treino, e deviam provar que estavam prontos prò que der e vier da acção literária, capazes de engendrar e assumir as maiores metáforas. Maduros para pertencer à grande família dos que não existem e sem-abrigo. É que senão, isto espalha-se... E depois? Moleza tem nome. E a ela se devem as maiores alcunhas, tantas e afamadas, que muitas chegaram inclusive a ter assento e assinatura nos anais da urbe, entre as demais nobrezas do registo civil. Porque entre a máscara e a pele vai uma distância tão curta que ninguém consegue discernir exactamente onde uma começa e acaba a outra, que chega a haver olhos que até do que vêem desconfiam, e em frente de si mesmos ao espelho jamais souberam se fitam ou são fitados. Se pertencem a uma máscara ou a um rosto... E mais não sabem da vida do que a solidão do ser!
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Reposições
5.29.2009
Famílias!
“Os quatro cunhados saem com frequência e vão até ao vale, aos viveiros de cravos, onde vivem as irmãs suas esposas. Por lá travam duelos misteriosos com as brigadas negras, fazem emboscadas e vendette como se levassem a cabo uma guerra por conta própria, por antigas rivalidades de família.”Ítalo Calvino, In O Atalho dos Ninhos de Aranha
(D. Quixote, p. 131, tradução de Maria do Carmo Abreu)
Embora tenha terminado o prazo de validade ao celebérrimo modelo das ordenanças para toda a vida, cuja suprema sabedoria consistia em tirar o curso, ser admitido na Ordem para depois fazer o que lhe desse na gana, típico do com que máfia aqui, máfia ali, cá vamos subtraindo e roendo o colectivo, o que parece é que a coisa continua activa por aí, dando nas vistas, descaradamente e retouçando nas barbas das chefias, caso estas intentem alterar o status quo.
A família, se transfigurada em modelo de grupo, deixa de ser família e passa a ser a célula primária do corporativismo. Transforma as relações humanas em relações mafiosas de marca, interesse, conveniência, defesa de honra, prestígio e autoridade, principalmente se estas se desenrolarem nos meandros dos poderes, quer sejam institucionais, periféricos, locais, regionais, como centrais; basta ao mafioso de Estado repetir (a senha) que a sua empresa, a sua corporação, a sua secretaria, a sua igreja, a sua congregação, o seu grémio, a sua confraria, a sua tuna, a sua tertúlia, o seu departamento, a sua escola é, ou funciona como uma grande família, para ficar de imediato subscrito no universo dos subentendimentos que sustenta o corporativismo para, enfim, participar de facto no espírito e da unidade que essa rede de organismos congrega, fingindo assim ignorar que há nela, no organismo ou corporação que tutela qualquer divisão de interesses entre chefes e subalternos, tal e qual como na Idade Média sucedia acerca dos escravos das grandes casas senhoriais, que teriam um estatuto de superiores até dos homens livres das pequenas casas.
Digamos que a efabulação profana do poder cria estatutos e escalas e graduações hierárquicas, mas que essas e esses apenas são válidos no interior do corpo, na definição das relações internas, pois que para o exterior cada um que tem a marca ou a chancela (na lapela) é um representante desse todo, a que os demais membros
honram com solidariedade absoluta, faça o que fizer, cometa o crime que cometer, o desvio, o roubo, o abuso de poder, o abandono de cliente, atropele Os Direitos Humanos, contra-aconselhe em vez de defender o seu constituinte, tenha uma atitude mercenária e de empenho na causa conforme aquilo que o cliente lhe possa pagar, não observe as normas éticas e/ou deontológicas da classe profissional, incentive ao crime os seus representados e aja socialmente na mira de sabotar a democracia e o Estado de Direito que na Constituição se nos instituiu, pactue com outras corporações ao abrigo do sigilo profissional retirando benefícios disso além da comum e ortodoxo troca de favores e tráfico de influências que lhes costumam estar associadas e são complementares, que o ditado popular do "uma mão lava a outra e as duas limpam a cara" tão magnificamente traduz e significa.Portanto, quando alguém diz "falar em nome de", ou representar determinada agremiação sindical, política, religiosa, étnica, territorial, classe, grupo, corrente estética, linha de pensamento ou teoria de vida, não está só a pregar-nos uma peta do tamanho da légua da Póvoa, mas também a camuflar a sua falta de argumento sobre o item em causa, a tentar crescer para além da sua (in)significância através do degrau da diferença que a pertença a uma organização ilusoriamente lhe confere. A cada momento de presença no colectivo ninguém representa mais ninguém a não ser a si mesmo, e é pelo seus actos, palavras, atitudes e pensamentos que responde, que é responsável, pois que sendo maior e emancipado e consciente é igualmente livre, ainda que esteja a representar um papel que o palco social lhe conferiu no teatro das acções colectivas, porque o indivíduo é uno e único na sua entidade jurídica, e não se pode considerar esta como um prolongamento oportuno e interessado da identidade social que lhe é própria.
Se há alguém que, por temor, receio e perda de estatuto, anda a tentar impressionar e manipular a opinião pública de que o chefe de uma corporação ou Ordem não defende os interesses dos seus "ordenados", dos seus membros e companheiros de confraria, porque este pactua com ilegalidades dentro de um Estado de Direito, então a grande falta não está no presidente dessa Ordem que cumpre o pressuposto de ninguém haver acima da Lei, exigindo que os seus membros também a cumpram, mas sim em quem tenta fazer malabarismos retóricos de iludir as perspectivas de realidade e adaptá-las aos seus códigos de honra, omitindo e tripudiando no código de ética que deviam professar e respeitar, seguir e afirmar. Porque isso sim, fazer de uma corporação profissional uma família, onde qualquer criminoso detém o mesmo grau de consanguinidade, direito a/efectivo em igualdade e respeito hierárquico, é extrapolar os limites e competências da corporação para o âmbito da máfia siciliana, de associação de associais, enfim, dar-lhe o estatuto de grupo de gangsters em vez de organização que agrupa, da base ao topo, todos os membros de uma mesma profissão, porquanto membro de uma profissão só o é, de facto, se agir em
conformidade com o código de ética e deontológico aprovado democraticamente pelos membros dela. E isto é válido também para os jornalistas, mesmo para os ditos das televisões igualmente ditas independentes.Marinho Pinto não precisa do meu apoio e solidariedade nesta sua demanda pela liberdade, democracia e Direitos Humanos, mas eu como homem livre só me sentirei verdadeiramente livre enquanto mantiver acesa a esperança que a advocacia é o primeiro passo da minha Liberdade, quer para mantê-la, como para sustentá-la. E, de fora, cada vez sinto mais que a cada palavra sua essa esperança me cresce.
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5.28.2009
LANÇAMENTO DO LIVRO:
LIVRO DE LINHAGENS DA VILA DE NISA – Um Mapa de Identidades, de Filipe Manuel Louro Carita e João Maria Melato CaritaApresentação: Dr. José Dinis Murta
Data: 31 de Maio às 17.00 horas
Local: Biblioteca Municipal de Nisa

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5.27.2009
Lançamento de Livro

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher
Data e Local: 27 de Maio às 18.00 horas
Fundação Calouste Gulbenkian – Auditório 3
Av. de Berna, 45A, Lisboa
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5.26.2009
Cláudia e Rafael
Soneto a duas tartarugas (que eu conheço)
Desexilado sou agora que me nomeaste aqui
Entroncamento de sentidos alerta na esquina
Adorno andrino no dorso da cidade imo de si
Estatueta breve em marfim ao Sol de Arina.
Da água a seiva húmida de coligir a pele senti
Sede sob a concha o corpo aos membros ensina
Que no frio é casa ou no estio o meio que escolhi
De guardar a asa do lento voo pelos rios acima.
Até à nascente do inclinado sol, o raio, a luz, a seta
Que a estrela que busco entra pela janel@ abert@
E torna cada segundo contigo mais que a hora certa.
Porém, o melhor da desibernação é este asterisco
Por cuja mão cresce o astro ou se clarifica a meta
E sacia o vício dando-me na boca precioso marisco!
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Sem Metros Barreiras
5.15.2009
Um poema de Al-Mutamid
Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena no papel escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.
Al-Mutamid (Beja, século XI)
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena no papel escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.
Al-Mutamid (Beja, século XI)
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Poemas Alheios
LIBERDADE
Liberdade, que estás no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão nosso de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem se ouvia.
Liberdade, que estás na terra
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei outro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
LIBERDADE, QUE ESTÁS EM MIM;
SANTIFICADO SEJA O TEU NOME.
Miguel Torga
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão nosso de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem se ouvia.
Liberdade, que estás na terra
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei outro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
LIBERDADE, QUE ESTÁS EM MIM;
SANTIFICADO SEJA O TEU NOME.
Miguel Torga
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Poemas Alheios
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