La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

10.30.2012


ZÉ-PENDETE, O CULTIVADOR DE RESSENTIMENTOS

“Um perito é aquele que sabe cada vez mais a respeito de cada vez menos.”
                                                                                 N. BUTLER

No tempo dos bons e dos maus [também] havia bons que eram maus e maus que eram bons; mas Zé-Pendente sempre fora um assim-assim desde pequenino. Politicamente correto umas vezes, chico-esperto outras, nunca se opunha nem cumpria, que a meio das vontades tinha a sua no mais coisa, menos coisa, com que se ia safando no dia-a-dia. Porém, em dada altura, em que quase todos se formaram também tirou a formatura, outorgando-se digno de chapelada e demais tratos que a populaça a partir de então lhe concedeu.
Hoje, é licenciado, embora faça exatamente a mesmas coisas que antes fazia – e de igual maneira. Tem as mesmas atitudes perante a vida, a natureza, os animais, as leis, a ética e os alheios, de que se apropria avidamente sempre que a oportunidade lhe é propícia. Continua a dizer «há des» em vez de «hás de» e «trazi-os» em vez de «trá-los», agora com mais segurança e convicção, é óbvio, dado ter em mão um diploma que lhe garante o direito de errar sem admoestação, que é para tanto que servem os melhores como os piores canudos.
Da ingratidão conhece o termo, que aplica apodando quem quer ou que lhe não acate os desplantes e dislates, porém nunca a prática, já que desconsidera veementemente sempre que pode quem lhe fez quase todos trabalhos, sobretudo aqueles em que teve uma nota exemplar ou acima da mediania. É autoconvencido a pontos de achar que toda a gente o admira e dele gosta superlativamente, embora não reconheça o mínimo valor a ninguém que não vista melhor que ele, tenha um carro de superior cilindrada e casa mais afamada e farta. Todavia, tem qualidades, raras, diga-se a propósito: sabe quase todas as frases que devem empregar-se para parecer inteligente quando solicitado a dar sua opinião, como "a questão não entra por aí", "sim, é bonito", "não fica bem", "condiz com o programado", entre outras de igual quilate, que vai aplicando aqui e ali, disseminando o culto da sagacidade arguta e vivaz que sobremaneira desfruta entre nabos e nabiças de suas intimidades cúmplices. Valha a verdade!

Acabei agora mesmo de tomar café com ele... Esteve todo o tempo em que estivemos juntos com aquele ligeiro semblante de quem está mas não está, tipo cumprindo uma missão, coisa que fez com a exatidão que correspondia ao seu interesse, pois precisava de um slogan para uma ação de promoção de uma atividade em que estava empenhado; pediu-me que lho arranjasse – Mas sem ser em verso, que não gosto de slogans a rimar –, exigiu.
– Então, fá-lo tu – respondi-lhe. – Quem sabe tão bem o que quer, muito abalizado está para o fazer.
Amuou. Sei que não vai voltar a falar-me a não ser na presença de terceiros, em consideração aos que se sinta obrigado, ou que volte a precisar de meus préstimos. E que dirá cobras e lagartos acerca de mim, se alguém lhe pedir parecer ou calhar em conversa. É assim que se ganham inimigos nesta vida!    

8.29.2012


PREFÁCIO 


Sou um autor de ficção científica e um historiador. A combinação não é tão invulgar como parece – para citar só alguns exemplos, Barabara Hambly, Katherine Kurtz, Judith Tarr, Susan Shwartz e John F. Carr usaram o que estudaram no colégio para dar profundidade e autenticidade aos mundos que criaram. No meu caso a ligação entre as duas coisas é ainda mais estreita. Se não fosse um leitor de ficção científica, provavelmente nunca teria acabado por ser um estudioso de história bizantina. Andava no liceu quando li LEST DARKNESS FALL, o clássico de L. Sprague du Camp, em que ele lançava um arqueólogo moderno na Itália do século sexto. Comecei a tentar descobrir quanto era inventado e quanto era real, e fui apanhado. O resto, de várias maneiras, é história.
Este livro, portanto, assenta fortemente no meu fundo académico. Passa-se no começo do século catorze de um mundo alternativo em que Maomé, em vez de fundar o islão, se convertera ao cristianismo numa missão comercial no interior da Síria. Em consequência, a grande exploração árabe dos séculos sétimo e oitavo, que no nosso espalhou o islamismo desde o Atlântico até às fronteiras da China, nunca aconteceu. O Império Romano (a que na sua forma medieval, oriental, damos o nome de Império Bizantino) nunca perdeu a Síria, a Palestina, o Egito, e o Norte de África para os invasores, nunca teve de lutar pela sua sobrevivência na Ásia Menor ou de defender Constantinopla num sítio que, se perdido, teria levado o Império a cair em ruínas.
Libertado dessa desesperada pressão do Leste, o Império teria tido uma intervenção mais ativa na europa Ocidental do que teve no nosso universo. Através dos séculos retomaria a Espanha aos visigodos, a Itália aos lombardos, a maior parte do sul de França aos francos. Para os estados ocidentais que mantinham a sua liberdade, Constantinopla seria tão invejável quanto temível.
A leste, a história da Pérsia, a antiga rival de Roma, também diferia muito do seu destino no nosso mundo. Sem as invasões árabes a deitá-la por terra, continuaria a ser a outra grande potência no mundo a oeste da China, a única nação que poderia tratar o Império como igual. Por vezes os dois estados entrechocar-se-iam abertamente; com maior frequência manobrariam para ganhar uma vantagem ali, para fomentar problemas nas que o outro ali tinha. Cada um de sua parte, continuaria a sonhar e a trabalhar para a vitória final que nenhum deles alguma vez vira. 
Tal seria o mundo de Basil Argyros, soldado e agente do Império. Um mundo talvez mais conservador do que o nosso, pelo menos no sentido de ter mudado menos drasticamente desde os tempos clássicos. Mas nenhum mundo, como Argyros sabia (nem sequer para meu conforto), se mantém sempre o mesmo.
Uma nota final na cronologia: os bizantinos não usavam muito frequentemente a Incarnação como o ponto de partida para a sua era. O ETOS KOSMOU (ano do mundo) corria de 1 de setembro a 31 de agosto e era contado da Criação, que os estudiosos bizantinos datavam de 1 de setembro de 5509 a.C. Portanto, o etos kosmou 6814, o ano em que esta história começa, decorre de 1 de setembro de 1305 a 31 de agosto de 1306.

In HARRY TURTLEDOVE, Agente de Bizâncio, título original Agent of Bizantium, trad. Eurico da Fonseca, col. Argonauta, Edição «Livros do Brasil» Lisboa. Dois volumes.

6.10.2012


UM PONTO DE VISTA...


O pseudónimo Luzia é uma espécie de autor exterior ao universo confessional da narrativa, distanciado, no intuito de absorver e relatar a (peculiar) aventura interior humana, mas nunca tanto que impeça, ou venha a impedir que seja continuamente confundida com o autor implícito (Luísa Grande) para, assim, elevar, esclarecer, conseguir, a máxima objetividade textual dentro da (inevitável) subjetividade intrínseca ao género lírico e intimista cultivado pelos parnasianos. As cartas, as observações quotidianas, a experiência de vida, a infância que Luzia quer servir/mostrar ao leitor, são as mesmas que Luísa Grande viveu, experienciou, teve, e quiçá terá registado nos seus diários; Luzia foi buscá-los, deu-lhe a redação que entendeu, embutiu-os quase como flashbacks no texto que estava a redigir/compor ao momento e consoante a estrutura que lhe definira. Os seus melhores textos sobre Portalegre provavelmente foram escritos no Funchal – e vice-versa. Também as confissões mais custosas e profundas de Luísa foram feitas por Luzia – e vice-versa.
Nos romances epistolares Luzia mete-se também de fora (de si) e quem executa as missivas é uma ou várias personagens, e à vez, contando-nos algo que está inequivocamente à distância de todos, do leitor, do escritor, do pseudónimo e de alguns personagens, embora lhes pertença igualmente – e por inteiro. E nesta atitude é mais que óbvia a intenção artística e literária (exploração do labirinto original, em espiral que parte dela, ou o escrever concêntrico de pedrinha que cai na água de Proust, originando um número infinito de ondas circulares em volta desse momento) de Luísa Grande, declarada sobretudo com a criação do pseudónimo Luzia, que outra não é senão si mesma, em que tudo o que esta publicou/editou é inegavelmente arte e artifício, perfilando uma obra literária – e de excelência!
Todos os seus livros enfermam de uma notória mestria (intencional) bocacciana e quase barroca (no discurso), que está sempre fora do discurso normal e ordinário, corrente e comum, logo a-literário da lusofonia do seu tempo, e até europeu, recorrendo frequentemente ao entalhe, ao embutido, ao palimpsesto do recuado em sua vida como no discurso literário nacional, para atualizar a compreensão do presente – que então era ainda futuro – mas que já estava enunciado (no passado) no estilo, retórica e conteúdo das prédicas/sermões do Padre Afonso Lopes Vieira.
Luzia não é só um pseudónimo; também é um narrador, compilador, organizador, fazedor de livros ou coleções de textos com um fio narrativo a ligá-los entre si. Compila cartas, bilhetes-postais, crónicas avulsas, relatos de vivências e lugares, retratos de tipos sociais e de pessoas reais/irreais, de pontos de vista, de quotidianos, e autentifica-os sob a autoridade de uma personagem precisa, Luísa Grande, atribuindo-lhes conforme as exigências da narrativa, um lugar, um papel e estatuto próprio e explícito naquela determinada narrativa. Portalegre, Funchal, Pau, Paris, Ribeira de Nisa, Lisboa, não são apenas sítios ou terras por onde passou, mas pontos de vista identificáveis e inequívocos. São marcos de uma biografia que Luzia usou para dar verosimilhança e verdade ao seu discurso, e isto, repito-o com um propósito implícito de criar outra realidade que, como diria Eça de Queiroz seria o manto diáfano da fantasia sobre a realidade primeira e original que era a intenção literária e criativa de Luísa Grande. Ou seja, Luzia, para garantir mais credibilidade à sua postura e papel chega a usar retalhos de um suposto e hipotético diário (Jornal) de Luísa Grande, sua criadora e a quem deve a maternidade direta, traindo-a com confissões incontáveis, talvez abusando da sua confiança, demonstrando assim como esta criação ganhara vida e vontade próprias, tomando as rédeas não só do seu destino, mas também do de ambas. Porque se nós (leitores) sabemos da existência de uma é pela criação da outra – e vice-versa. 
Todo o artista é um contrabandista. Luzia é a transportadora de conhecimentos, de conceitos e de estéticas, ao serviço de três mundos distintos, cruzando-lhe as fronteiras: o mundo ideal (dos valores humanos, da natureza e das formas puras ou inocentes, das infância mágicas e felizes); o mundo real (da escrita e do leitor, do momento histórico e ambiente político, urbano, campesino, ilhéu, social); e do mundo imaginário e literário ocidental, nosso ancestral como de Luísa Grande pejado de fadas e alquimistas, de sábios e romances, de Quixotes e Sharazades, de Cervantes e Mil e Uma Noites – com as características inovadoras inerentes à afirmação da mulher no tempo e sociedade, no empenho artístico e literário, sobretudo de inspiração francófona. Mas também anglo-saxónica via Shaskespeare.
Há, portanto, já uma polifonia propositada e intencional na escrita de Luzia, que surge muito depois de duas outras experiências – igualmente intencionais e propositadas – de criação de pseudónimos (Sónia e Lady Baterffly), e que traduzem uma lírica polifónica, porquanto é só o autor a falar, sim, mas com diversas vozes, pronuncias e máscaras. É como uma caixa que tem outra caixa dentro que tem outra caixa dentro que tem outra caixa, assim por diante, até ao infinito... Luzia é o duplicado ao espelho de Luísa Grande, que também foi Gracinha, logo Sónia, logo Lady B., logo Guida, logo todas as personagens/remetentes epistolares das cartas e viagens feitas e por fazer mas contadas (narradas).
Aquilo que Luísa Grande faz é o mesmo que Fernando Pessoa fez com os heterónimos, Jorge Luís Borges com os seus heróis, ou José Maria do Reis Pereira com José Régio: inventou-se a si mesma como outra, e sentaram-se as duas frente a frente, metendo um espelho enorme ao seu lado direito em frente a outro igual ao seu lado esquerdo, refletindo ambas até ao infinito. É nesse jogo de espelhos, em que as duas (se) escrevem, que elas jogam também escrevendo cada uma acerca da outra. Luísa escreve acerca de Luzia que escreve sobre Luísa que inventa Luzia escrevendo, até cada uma delas já estar a escrever o leitor que escreve outro leitor de tempo diferente ao seu que escreve como tu ou como eu... Que, afinal, também vemos o mesmo pôr-do-sol lilás ou o mesmo mar, ou o mesmo Jardim (do Mar) que ela viu... Então o autor morre? Sim, exatamente; senão como renasceria continuamente? O autor morre e a sua alma multiplica-se, transforma-se numa máquina de criar que se transforma numa máquina de ver (ou ler), e desse texto renasce para voltar a transformar-se em alma (Psique, borboleta, mariposa) máquina de voar numa cadeia de transformações ou metamorfoses – como diria Kafka, cujo nome significa «gralha das torres». Ou ave que repete continuamente as mesmas frases, as mesma imagens, as mesmas metáforas, o mesmo refrão...
Assim, à pergunta: será a obra de Luísa Grande meritória do estatuto de obra imprescindível no painel da literatura nacional e europeia? Só há uma resposta: sem qualquer dúvida.   
         

5.20.2012


Dia 28 de Maio, pelas 18 horas, sessão do Grupo de Leitura READCOM de Portalegre, na Biblioteca Municipal sobre obra de Jorge Luis Borges 


O Grupo de Leitura READCOM – ou, numa terminologia mais corporativista, o CLUBE de LEITURA READCOM – de Portalegre, teve o seu período de arranque entre 2005 e 2008, no qual foram abordados, com relativa acuidade e crítica, conforme a oportunidade, aproximadamente 40 livros doutros tantos autores. Foi uma viagem por temas como a identidade, a diferença, o género e a literatura. Seguiu-se uma recapitulação do formato, que culminou na mudança de lugar e cenário para esses encontros com os livros. E desde então, periódica e regularmente, de mês a mês, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, têm vindo a suceder-se… Desceu-se pelo continente africano num ano, entrou-se na América Latina no outro, com visitas guiadas a diversos autores e nações. Os últimos foram Chile e Argentina. Esta com Jorge Luis Borges, sobre a obra Ficções, que estará na mesa das operações analíticas, dia 28 de Maio de 2012, pelas 18 horas.

ODISSEIA, LIVRO VIGÉSIMO TERCEIRO


Já com a espada de ferro executou
O devido trabalho da vingança
E com ásperos dardos e a lança
O sangue do perverso espalhou.

A despeito de um deus e de seus mares
A seu reino e rainha voltou Ulisses
A despeito de um deus e dos difíceis
Ventos e do estrépito de Ares.

Já no amor do compartilhado leito
Dorme a clara rainha sobre o peito
Do seu rei, mas onde está o homem

Que nos dias e noites da separação
Errava pelo mundo como um cão
E dizia que Ninguém era o seu nome.

(Jorge Luis Borges)

Quem for aficionado destas andanças, e quiser participar, será bem acolhido e não dará por mal-empregado o seu tempo; essa, lhe afianço! :D

LANÇAMENTO DA REVISTA PLÁTANO nº 5, dia 23 de Maio de 2012, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre

 Sob a iniciativa do coordenador e responsável editorial, Mário Casa Nova Martins, a revista PLÁTANO, revista de arte e crítica de Portalegre, nasceu em má maré mas tem-se aguentado. Tanto assim que já vai no nº 5, e surge num momento histórico algo anorético para a carteira da maioria. A adivinhar pela capa e colaborações, propondo uma grelha eclética e diversificada. Vai ser apresentada ao público, dia 23 de Maio, pelas 16 horas, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre. Talvez não seja uma oportunidade a desperdiçar para quem, depois de um almoço de feriado a meio da semana, esteja recetivo às novidades e iniciativas que a sociedade civil portalegrense vai pautando, sem outra aspiração além da participação ativa no seu tempo e território… Que tal?  

4.30.2012



CANTO DE JARDIM


Há, no fundo deste velho jardim, um canto que faz as minhas delícias. Ensombrado pelas árvores dos quintais vizinhos, tem qualquer coisa de misterioso como os bosques… A erva cresce entre o musgo. Aqui e ali, surge, na sua haste delgada, uma papoila vermelha. Contra o muro vivem, exuberantes, a hera, o alegra-campo e, onde pode surpreender um raio de sol, debruça-se, miudinha, clara, uma roseira de toucar. No inverno, cheira a violetas, a terra húmida. Na primavera, tem um perfume especial de erva fresca, de folhas tenras. O rouxinol, que ama o mistério e a sombra, escolheu este canto do jardim, para nele exalar as suas lágrimas musicais, as suas harmoniosas queixas… Se eu tivesse a voz do rouxinol, era ali que chorava, que me queixava também… 

Portalegre, junho 1922.


In LUZIA, Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 37. Lisboa, 1936  

4.16.2012

LUZIA, escritora portalegrense

AQUI VENHO CONTAR-TE AS MINHAS AVENTURAS (E DESVENTURAS)



"Os homens fizeram as leis deste mundo, tudo a seu gosto. Eles são os senhores. Quando mesmo tenham menos talento, menos dotes do que nós, podem aspirar à Glória, ao Poder, a tudo. Nós, a nada. Para sermos alguma, é preciso ficarmos sempre simples mulheres.


Ne soyons rien pour rester quelque chose."

In FELICIANO SOARES, Luzia – Espectadora das Comédias do Mundo, citando Luzia, num excerto de Lições da Vida.

OS QUE SE DIVERTEM e RINDO E CHORANDO ainda não podem ser consideradas obras elucidativas da originalidade literária de Luzia, porquanto o não são, mas sim como exercícios de estilo exemplares onde a autora giza, delineia, aponta e estabelece os pressupostos gerais do seu discurso, que assim é sujeito a uma depuração contínua através da repetição exaustiva, até este se transformar no diamante lapidado cuja mestria de excecional ficionista é observável em ALMAS E TERRAS POR ONDE EU PASSEI, A ÚLTIMA ROSA DE VERÃO e DIAS QUE JÁ LÀ VÂO, que esses são, pois, indubitavelmente livros da sua inconfundível maturidade literária e peças únicas e raras da genialidade da literatura portuguesa de todos os séculos.

Os diálogos, os sketchs, as cartas de Gracinha, por exemplo, os retratos do pitoresc
o cotidiano, os tipos da fauna social elitista lisboeta, que inicialmente evidenciam uma notória influência idealista, sobretudo nos rasgos de denunciada candura de ingénuo teor platónico, em que o masculino e o feminino se encontram destrinçando as essências do amor e da amizade, a natureza da solidão ou da mundanidade solitária, não escondem a sua típica expressão de tentativas socializadas de uma escrita que, marcada pelas desilusões da vida ou do confronto com a realidade, se vai aperfeiçoar, refinando evoluindo a passos largos para outros diálogos a que a distância, a vagabundagem entre lugares e épocas, e seu concomitante isolamento emprestaram um timbre de monólogos – diálogos de si para consigo – mais ou menos quixotescos, mas indubitavelmente cerzidos com as linhas de uma teia de pessoa a braços com a originalidade solitária que a orfandade tornou única, entretecida e escorando-a vida fora, é certo, embora acrescentando sempre novas modalidades ao orfanato original (materno e paterno), das quais, a últimas, até a tornou órfã de si mesma, com a perda de vista, que não só a amputou da observação dos outros e do mundo, como a impediu igualmente de se ver entre eles e nesse mundo, num isolamento infinitamente ímpar a que só a memória – enfim, preclara no Jornal ou Diário – permitiu aquela ligação essencial à vida e ao ser humano sem a qual a pessoa deixa de existir, nomeadamente para o seu autor ou criador, desde que espelhada (narrada) pelo discurso de um pseudónimo.

Os diálogos são a matriz do discurso luziano. É neles que Luísa inicialmente regi
sta o seu testemunho e observações acerca da vida, das coisas, das ideias, da natureza e do mundo. É neles que ensaia e reflete os seus relacionamentos e afetos, pelo menos enquanto há alguma relação de proximidade e convívio entre si e as pessoas representadas, a que supostamente dá outra nome que não o da sua realidade. Mas essa proximidade, como aliás todas as proximidades, é efémera, breve, limitada, passageira... Portanto, ocasiona que Luísa (ou Luzia) sinta necessidade de prolongar o contato mesmo para além da proximidade, quando a distância a separa delas e se torna incontornável. Como? Escrevendo cartas, se se dirige a uma só pessoa, que Luzia transforma em personagem, ou crónicas, artigos, quadros, bilhetes-postais, quando se quer dirigir a várias, díspares e diversas mas que podemos referir como uma só pessoa coletiva, o destinatário, leitores e leitoras, alvo preferencial de todas as escritas.

Recordemos a este propósito O ESTILO EPISTOLAR DE GRACINHA, que integra OS QUE SE DIVERTEM.

"Lisboa – Março de 1920.

Minha querida Ritinha

Aqui venho contar-te as minhas aventuras, nesta grande capital.
Isto vai por cá uma trapalhada, uma desordem que ninguém se entende!
Na rua andam esquadrões de cavalaria, a correr atrás da gente e diz que é por causa das bombas, que atiram os civis da construção, que são os que querem dar vivas à Rússia e o sr. Batista, que é um gordo, que leva tudo à valent
ona, não quer que eles dêem vivas e eles então deitam bombas, que caem em cima dos cavalos e essa é que é a minha aflição, que já ontem ficou um ferido numa patinha.
E além da questão social, que é o perigo bolchevista de virarem o mundo de pernas para o ar, acontecem todos os dias coisas esquisitas.
Esta manhã, a mãe, que tem aquele génio que não gosta de incomodar os seus criados, quanto mais os alheios, mandou-me entregar uma carta à tia Thereza, que mora aqui defronte, numa casa cor-de-rosa, que tem um jardim e muitas trepadeiras. Eu então pus o chapéu da quinta, aquele que é todo cheio de papoulas encarnadas e
fui entregar a carta...
Depois, como a manhã estava tão bonita que até a cidade parecia um campo, apeteceu-me passear na rua. Então um senhor de uma certa idade, com um ar assim muito respeitável e muito bem vestido, com luvas cor de canário e umas botas que luziam que nem um espelho, começou a seguir-me...
Eu parava, ele parava, eu apressava o passo, ele apressava o passo e eu sempre a voltar-me para trás a ver se ele vinha e quanto mais eu me voltava, mais ele se aproximava, até que veio ao pé de mim e disse-me:
– Permite que a acompanhe?
Eu antes queria ir só, para poder parar à minha vontade a ver as coisas, que é muito divertida uma rua de manhã; há as varinas, que são as que apregoam a pescada, numa voz muito bonita, mas tão triste que até parece que vão chorar e o tio Jorge diz que é por causa da melancolia nacional; e as mulheres da hortaliça, que são as que vendem os legumes; e o homem do azeite doce; mas a mãe recomenda-me se
mpre que seja atenciosa com as pessoas de idade, porque pode acontecer que a gente envelheça um dia e então eu respondi: – Se não lhe dá muito incómodo...
O senhor até se fez vermelho e exclamou: – A menina bem vê que nisso está a minha ventura!...
E depois disse muitas coisas, sempre com todo respeito... Chamou-me flor, jóia, que se eu correspondesse ao seu afeto, a sua generosidade igualaria os meus encantos...
E subimos e descemos umas poucas de vezes a rua. E como eu ando muito depressa, o senhor já assoprava de cansado. E perguntou-me onde vivia e eu disse-lhe que não era de Lisboa e ele perguntou-me se eu gostava de Lisboa e eu respondi: assi
m, assim, e ele aconselhou-me que viesse para cá, porque aqui tinha mais futuro, podia colocar-me melhor e que prometia a sua proteção e que me punha uma casa, se fosse da minha vontade... E depois, como eu já estava farta de correr, rua abaixo, rua acima, e o homem parecia que deitava os bofes pela boca, vim para casa e, já se vê, à porta disse-lhe: – Se V. Exa. quer entrar...
O senhor respondeu: – O quê, será possível tanta ventura? – Mas depois, pôs-se a olhar muito desconfiado para o jardim, para a casa e perguntou ao guarda-portão: – Quem mora aqui? – E quando o guarda-portão lhe disse o nome da tia Maria do Céu, o senhor tirou o chapéu, com um gesto muito comprido, quase até aos pés, e tão vermelho que até imaginei que o sangue ia espirrar-lhe pelo nariz, disse: – Perdão, minha senhora. Foi um lamentável equívoco!
Depois, ao almoço, a mãe ralhou comigo por eu me ter demorado tanto e então eu contei que tinha andado com aquele senhor e que não o podia deixar assim de repente, que era uma desfeita, e a tia Maria do Céu disse:
– Bem-feito, que eu já te recomendei tantas vezes que não deixes a pequena sai
r só...
E a tias Mariquinhas, que é a que doirou o tio Paulo quando casou pela conveniência – chama-se casar pela conveniência quando uma mulher é assim um estafermo e tem automóveis e oiro e então casamento de amor é casar com um pelintra e ir viver na cabana do Pinheiro –, mas então a tia Mariquinhas resmungou: – A mim nunca me seguem... – E o tio Jorge disse, assim entre dentes: – Pudera... E o tio Paulo disse que o senhor era o Sátiro... E depois todos riram...
E, depois, eu e a minha mãe fomos a casa da senhora triste, chamada Josefina, que estava pondo rosas brancas dentro de copos e a cara dela estava assim tão branca como as rosas e como a gente está habituada à tia Maria do Céu, que põe aquela
s pomadas encarnadas nas bochechas, até fazia aflição e parecia que ela não tinha pinga de sangue e que ia morrer ali mesmo, com as mãos a mexer nas rosas...
E estava lá um homem muito alto, muito trigueiro, com uns olhos claros que não dizem com a cara escura, mas, ao mesmo tempo, se alguém lhos tirasse, eu pedia que os pusessem lá outra vez, porque apesar de não dizerem, ficam-lhe bem, e que já deve ter idade porque tem o cabelo a embranquecer nas fontes, mas quando ri, parece que não é, e então ninguém sabe se é... E a mãe disse para eu o chamar tio Pedro...
E depois, a mãe e a Josefina começaram a falar de quando andavam num convento, que a República deitou ao chão e duma cerca, onde havia rosinhas de todo o ano e duma capelinha, onde punham lírios, e de mais coisas, e riam com os olhos cheios de lágrimas, que até me lembrou aquela trapalhada do mês de abril, quando chove e faz sol ao mesmo tempo...
E eu cá estava a olhar para o tio Pedro, porque me faz uma confusão a
queles olhos azuis naquela cara que parecia assim quando as pessoas andaram no campo, sem chapéu, e então ficaram todas queimadas e assim uma espécie de doiradas... E depois, o tio Pedro disse à mãe e à Josefina:
– Falem à sua vontade e não se importem connosco, que nós também temos muito que conversar...
E não fez como os outros, que falam só em coisas que não me interessam, nem entendo, perguntou-me primeiro de que eu gostava, e eu então disse que gostava de cães e de cabras e de cavalos, e de pessoas que têm infelicidades, e de campos, e de águas, e de ouvir histórias de terras onde se vai por mar...
E ele então contou-me que tinha corrido muitas terras dessa qualidade, quand
o era oficial de marinha e que agora já não era, porque a República embirrava com ele ou ele é que embirrava com a República, porque a República tinha indisciplinado a marinha, ou a marinha tinha indisciplinado a República, isso é que eu já não me lembro bem como foi, e que tinha estado no Japão, onde há mulheres iguais às das jarras chinesas, mas verdadeiras, que andam e comem arroz e as cigarras sempre a cantar e as cerejeiras sempre em flor... E tudo muito poético... E depois, na Índia onde há leões bravos, sem ser em jaulas como os do Jardim Zoológico...
E quando ele falava, eu não podia tirar os olhos daquela claridade azul, que são os olhos dele – felizmente que é costume cá de Lisboa a gente pasmar uns para os outros, senão o tio Pedro havia de achar esquisito, mas é verdade que ele também olhava para mim, assim muito terno, como a dizer aos meus olhos: – Não façam cerimónia... Deixem-se ficar...

E então estávamos todos muito bem...
Mas nisto chegou a tia Thereza, que mais parecia um tufão e disse: – Viva a bela sociedade! – E depois, nunca mais se calou, muito excitada, por causa da carestia dos géneros, que são os objetos e outras coisas, e que ninguém devia furar a greve dos consumidores e que até era patriótico, e que então ela, parta não furar a greve, só tinha mandado fazer três pares de sapatos, e para aproveitar uma renda, que tinha em casa, ia comprar seis metros de cetim e para aproveitar o forro do casaco, ia encomendar um tailleur de que não precisava, mas era só por causa da economia do forro e para fazer pirraça ao comércio, e que assim é que todos deviam imitá-la.
E agora tenho que deixar-te, porque a mãe diz que estou sempre a escrevinhar e que faz ideia das tolices que aqui vão, porque ainda escrevo pior do que falo.
E então recebe muitas saudades que manda a
Gracinha

Março, 1920. "


AQUI VENHO CONTAR-TE AS MINHAS AVENTURAS é como uma fórmula universal que atira o leitor para fora do texto. A partir daqui fica-se a saber que vamos contatar com grandes e inimagináveis odisseias, impensáveis peregrinações, descobertas ímpares, viagens fantásticas – maravilhosas, horrendas, fabulosas, oníricas ou profundamente humanas e dolorosas –, como a arriscadas e sublimes missões, além das demais demandas que ao espírito humano é propiciado desfrutar e sofrer, sejam elas à volta de casa, rua abaixo, rua acima, como em toda a costa mediterrânea ou na rota das especiarias, ao fundo do mar como às cidades invisíveis de Marco polo, à Utopia como à Ribeira Formosa, à Cidade do Sol como à Serra de Portalegre, a Pau como ao Jardim do Mar, à Rua Direita ou ao Chiado, à Ibéria quixotesca como à Paris da moda e das fadas dos bulevares, à familiar Rua do Lá Vai Um como a Cascais da elite e da aristocracia. E Luzia fá-lo como quem vagabundeia, sobretudo na língua e literatura portuguesa, ora acompanhando Almeida Garrett em viagens à nossa terra, ora encetando outras rotas com Fernão Mendes Pinto e o tio Pedro, D. Quixote, Cândido (ou Pangloss de Voltaire), o mercador de Veneza, o Amadis de Gaula, Jacinto da Cidade e as Serras, a Menina e Moça de Bernardim, os infernos de Dante e da neurastenia, a loucura de Erasmo de Roterdão ou a dos convivas de Hameau e do Colégio das Salesas; todavia sob o testemunho, ilustração e o relato que Luísa Grande terá esboçada anteriormente no seu diário de bordo, qual capitão-de-fragata que ao deus-dará da vida, ora se perde como se encontra na busca dos tempos perdidos desenhados como dias passados e que já lá vão na correnteza dessa água que é sempre outra dum rio inalterável: o tempo.

Por isso as suas epístolas são mais que simples cartas entre personagens ou entre narradora e seus parceiros de espaço-quando: são recados, balizas, aditamentos ao futuro de um passado ancestral que ambas (Luísa/Luzia) herdaram, povoado por homens e mulheres de autenticidade inegável como a seres fabulosos de não menos e inegável pertinência e atualidade. Porque foram sobretudo eles que atravessaram o tempo e os tempos (passado, presente e futuro), divertindo-se e jogando, livres e intocáveis, enquanto a elas só estiveram reservadas a dor e as rezas, o assinar cheques e escrituras, letras a pagar e penhoras, sem mais nada de seu além do sonho e da fantasia, da imaginação das fadas e das deusas – quer dizer, estátuas – do jardim da quinta alentejana (Vénus e Minerva), a quem a primeira terá ainda feito uma visita ao Jardim do Mar para salvar a sua protegida do exílio e da solidão avassaladora, nesse primeiro inverno que passou na Ilha.

Passou, quem? Luísa Grande ou Luzia? Tanto faz... Enquanto uma escrevia a outra vivia, sim as aventuras que somente aos homens estavam reservadas a serem vividas, pelo menos a dar fé no que nos resta depreender de suas Lições de Vida. Porque o que conta em literatura é a intenção literária e estética da linguagem, do discurso, da poética e da narrativa, pois tudo o mais são tão-só palavras, todas elas muito bem esclarecidas e alinhadas como podemos constatar em qualquer dicionário, ou as construções frásicas de podemos encontrar muito mais perfeitas, explícitas e exímias noutras tantas gramáticas – mas apenas palavras. E dessa intenção está a obra de Luzia repleta, até nos espaços entre elas, as palavras, e alinhadas muito para lá de suas linhas... Sim, nas entrelinhas que se cruzam connosco e com o nosso tempo em ponto cruz de maiores tapeçarias!


Portalegre, 15 de abril de 2012

4.08.2012

Convite para todos e todas a participar em Momentos de Poesia


JOAQUIM CASTANHO E LÍDIA GODINHO em MOMENTOS DE POESIA

Conforme tem sido habitual, de algum tempo a esta parte, acontecem Momentos de Poesia todos os meses na Biblioteca Municipal de Portalegre, mais precisamente ao segundo Sábado de cada mês, pelas 16 horas, sob a generalizada coordenação de Deolinda Milhano.

Para essas sessões, segundo também o que normalmente tem acontecido, são convidados alguns autores portalegrenses – mas não só –, poetas – maioritariamente, mas não só – para participar e assim prestar seu contributo, lendo ou declamando os seus textos, de acordo com a livre escolha e estilo de cada um, e no formato que melhor lhes convém.

Desta feita, calhou a sorte, no próximo Sábado, dia 14 de abril de 2012, a Joaquim Castanho, escritor natural de Portalegre, que terá iniciado a sua atividade literária exatamente com o género poético, e que conta já com um considerável número de títulos originais e inéditos, entre os quais quatro de poesia ( EUCLASIA, CAPAS NEGRAS, FAIT-DIVERS e O ESCRIBALISTA E SEUS ESCRIBALISMO PRETÉRITO).

Todavia, não será somente por isso que esta edição de MOMENTOS DE POESIA se antevê como uma sessão extraordinária... Antes sim pelo formato e pela preciosa colaboração que Joaquim Castanho irá ter – a de sua amiga de longa data LÍDIA GODINHO, também ela natural deste distrito, embora atualmente a residir em Lisboa e a trabalhar na Amadora, que conhece a sua poesia como mais ninguém e desde os tempos de estudante nesta cidade, onde frequentou o ensino secundário e superior.

Ou seja, além do universo poético e habitat inequívoco de sentimentos e emoções, memórias e metáforas, registos ideológicos e apontamentos do quotidiano, se vai nela ter igualmente oportunidade de constatar o efeito direto desse outro grande afeto que é a AMIZADE, e de como ele transforma os sons, as imagens e as palavras, em exemplos vivos de pronúncia humana, cujo timbre e ritmo é indubitavelmente o do mútuo reconhecimento e apreço, uma "musicalidade" quase perdida nos dias de hoje mas tão necessária como urgente neles.

Portanto, o convite aqui fica a todas e todos que queiram testemunhar essa simbiose das falas apenas, possível numa língua em que o sotaque alentejano arrasta consigo fiapos da alma lusitana, que se hão de entretecer numa malha de afetos vincadamente universais com que se se subscrevem todos os reencontros humanos – a ternura, a empatia e a amizade.

Porque a arte é por excelência um veículo de transporte e celebração de afetos, também a vossa participação é, sempre foi e há de continuar a ser, o nosso melhor poema!

1.30.2012

LUZIA, uma escritora que amava a sua terra, mas ela nunca lhe reconheceu a sua arte e personalidade...

CARTAS DE UMA VAGABUNDA
a LUZIA

Que belas cartas! Que suaves linhas!
São «Vagabundas», boa amiga? Qual!
Todas se voltam para Portugal,
Como voltam de longe as andorinhas.

Ora, tão altas, como as estrelinhas,
Em viva nebulosa espiritual;
Ora soluços de água; ou roseiral;
Ou sol cantando entre a seara e as vinhas.

Senhora de Lourdes e de França
Acaso entende a nossa língua? Alcança
Que falam dela? Talvez não, talvez…


Mande-lhe as “Cartas”, Santo António é luso
E lhe dirá: – «Deixai, que eu vos traduzo…
Que pena não saberdes português!»

ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA

1.13.2012

LUZIA, uma escritora portalegrense que os portalegrenses quase desconhecem...

Ribeira Formosa – 6 de Outubro

Aqui estou enfim, saboreando as apetitosas migas, esquecendo a civilização e fazendo as pazes com a vida. Não sei se a Joanninha anda de bem com ela… Eu andava de mal há muito tempo. Os homens – que é como quem diz também as mulheres… – tinham-nos indisposto.
Estas árvores, esta divina solidão, no abençoado silêncio, a saudade mais viva «das queridas vozes que se calaram» e… tantas outras coisas deliciosamente indefinidas, estão-nos reconciliando.
Por amor da beleza da terra perdoo a fealdade do coração dos homens – pode sempre acrescentar mulheres, que, entre os dois…
E pela doçura de tudo o que fica, esqueço a amargura de tudo o que passa. Não será duas vezes o mesmo coração em que pus o meu desejo, a minha esperança, mas daqui a muitos anos, se eu voltar, as mesmas sombras discretas me acolherão e, como agora, a terra me sorrirá pacificadora e linda.
Il fait bon… Sirvo-me da doce expressão francesa porque não encontro nenhuma em português que diga tanto. Il fait bon… As manhãs são azuis, luminosas. Não há uma nuvem no céu. De tarde toda a quinta fica banhada em luz cor-de-rosa, a luz dos incomparáveis poentes alentejanos.
Passo o dia na mais vergonhosa ociosidade. Nem sequer leio. Ando em lua-de-mel com este campo, que é o meu. Outro pode deslumbrar os meus olhos, outro posso eu achar mais bonito, porém só a este eu chamo meu… E sabe decerto, Joanninha, que infinita ternura encerra tão pequenina palavra!
Há entre o Alentejo e a minha pessoa mil afinidades. Já reparou quanto influe na nossa maneira de ser a paisagem em que nascemos?
Conheço à légua o alfacinha autêntico que, no colo da ama, frequentava já a Rua do Ouro, subia o Chiado e adormecia ao som dos pregões plangentes…
Conheço o minhoto, conheço o algarvio, conheço o beirão. Todos têm a sua marca inconfundível, mas nenhum é tanto da sua província como o alentejano e nenhum quer tanto à sua província. Corra ele o vasto mundo, passe anos sem a ver… Nunca a esquece. Nunca consegue desenraizar-se. Em toda a parte se acha estranho, tem a nostalgia das longas, desoladas planícies, onde a vista se perde, das charnecas áridas onde só desabrocha a flor da Xara, pequenina rosa selvagem, que se desfolha ao menor contato e dos campos de oliveiras de prata e dos campos de sobreiros com os velhos troncos ensanguentados, e da tristeza que tudo isso exala, tristeza-saudade, ansiosa e vaga; um não sei quê me encanta e faz mal…
A quinta da Ribeira Formosa foi cuidada e linda há… mil anos, quando aqui passei parte da minha alegre e endiabrada infância. Hoje é quase um bosque abandonado que o calor e a seca deste verão ardentíssimo devastaram ainda. Não há uma flor. Muitas árvores morreram. Já não cantam as alegres levadas. Calaram-se as fontes. Na ribeira corre apenas um manso fio de água, mas, à sombra dos pinheiros, está-se bem ainda. O olival conserva o seu bonito loiro cendrado. A vinha enfeita-se de tons vermelhos e quentes.
Demoro-me aqui até quinze ou vinte. Depois vamos para a cidade. Em princípios de novembro estarei em Lisboa.
Hei de ve-la muito. Hei de… Hei de…
Deliciosa coisa fazer planos, embora eles se desmoronem como os castelos de cartas que Therezinha constrói ao meu lado.
In LUZIA, Cartas do Campo e da Cidade, Portugália Editora. Lisboa, 1923

1.09.2012

E viva a língua portuguesa de torna-viagem!

O PÁSSARO EXÓTICO E A ABELHINHA SALOIA

Em egípcio, gato diz-se «miau». Ora, a novidade!... Isso, até os nossos bebés gatinhantes sabem! Afinal, não é essa a onomatopeia que mais usam para o chamar? Ao gato – digo eu!
Não há dia nenhum que não aconteça algo imprevisível a quem anda ao deus-dará. Ora lhe calha implicarem-lhe com os costumes, ora com as expressões, como com as companhias. O certo é desagradar a muitos, ser indiferente para alguns, tolerado pelos demais, e estimado pela família (mais chegada, ou dos que diretamente de si dependem). Porém, isso não aquenta nem arrefenta quem tem o brio e autoestima levantados ao pulso da cegueira de quem não sabe que, como reitera a voz popular, é bem pior do a que de quem não vê.
Não havendo a mínima razão para gostarmos de nós, sobretudo pelo que de inconfessável acerca de nós mesmos sabemos, desde as observações escatológicas aos erros e vergonhas inauditas, tentamos enlamear os nossos vizinhos com a peçonha de nosso existir, e vai daí que esfregamos trampa por todas as frontarias mais ou menos imaculadas com que nos deparamos. Se nos acertam, nem damos importância ao ocorrido, só para disfarçar e afastar o mau-cheiro. Erguemos as trombas ao céu, e desancamos quem se intrometa entre nós e a ideia que fazemos de nós próprios.
E se quando aprendemos a falar e escrever era suposto estarmos a prestar um enorme serviço à nação e à língua portuguesa, o que por ora salta à vista é que podemos limpar as ventas ao serviço que lhe prestámos. Porque há bestas pra tudo, e a língua não fica de fora. Os puristas do galaico são os maiores e afamados, sobretudo quando se insurgem contra o acordo ortográfico apenas porque se acham os herdeiros diretos da faladura lusitana… E pensam ao litro: isto é – se falam de vinho, duma zurrapa qualquer que foi ao Brasil, Angola, Guiné, Timor ou Moçambique, mas ninguém comprou e teve que voltar, dizem que ganhou qualidade superior tornando-o num torna-viagem de estalar os beiços e dar aos gorgomilos; agora se foi o léxico, a ortografia e gramática da língua pátria que foi aos mesmíssimos lugares distantes e voltou com novas expressões, aperfeiçoada nas fonéticas e valorizada na polissemia, com roupa nova na ortografia e sem maneirismos afetados nas gramáticas, então é um «aqui d’el rei» de achincalhar as repúblicas.
É óbvio que os puristas da língua são os mesmos que quando vão a encontros internacionais, em vez de falar o bom dialeto lusitano se travestem de poliglotas assumidos discursando no inglês de vender pentes e broches, acusando os chefes de Estado dos países de língua oficial portuguesa de não saberem inglês se se dirigem aos presentes em português, como já aconteceu com o Lula da Silva que numa Cimeira Internacional falou português e o nosso político representante da nação usou o inglês técnico dum curso intensivo de fim-de-semana… Mas isso não conta pra nada. Os brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, timorenses, goenses, são-tomenses, sentem orgulho em falar e escrever em português, cultivando o idioma dentro e fora de seus países, apetrechando-o de novos termos com cruzamentos indígenas e demais “procriações” alheias aos estrageirismos academicistas e cagofónicos habituais.
Portanto, a coisa está clara e óbvia. O acordo ortográfico veio pra ficar depois de muito jogar lama contra a parede de 170 milhões de falantes por três ou quatro gatos-pingados do negócio da palavra e criação literária. E agora, se querem ser lidos apenas têm que escrever de forma a que nós os entendamos, e não sintamos vontade de atirar os pasquins borda-fora logo ao primeiro parágrafo. Se não, miau!...
Coisa que tanto os nossos bebés como os eruditos egípcios sabem fazer com conhecimento do significado próprio, sobretudo quando reconhecem que aqui há gato escondido com a garrafa de fora…

11.14.2011

Há felinos com sorte macaca


O ISCO DO ERRO

"– Já sei o que houve – exclamou. – Este gato
acaba de anunciar o que aconteceu."

In JONH STEINBECK, As Vinhas da Ira

Há pessoas perante as quais me engano propositada e frequentemente, quer em nomes e datas, como em títulos e autores, correntes literárias e ideologias. Há outras frente às quais nem sequer preciso já de o fazer, a não ser para confirmar se continuam – ou não – a pensar acerca de mim o que antes pensavam, ou se a sua perceção motivada se mantém acesa e lhe incendeia a visão que a meu respeito têm. Em ambos os casos, porém, concedo-lhes uma vantagem, um atalho para se manterem à frente ou acima de mim, para nunca as perder de vista. Não são de confiança e, normalmente, isso perdura até que lhes dou o golpe de misericórdia, abatendo-as do meu cardápio de conhecidos.
São pessoas que se reputam de nunca admitir que qualquer outra que saiba mais do que elas possa estar certo. Singelas no ofício da maledicência, complicam o que é notório e vêem claramente visto quanto há de mais obscuro, nomeadamente na adivinhação das intenções alheia, projetando as suas. Estas são aquelas para quem a perversão é uma linha de conduta, medida de bom gosto e exemplo de sensatez. Com a experiência de vida perderam a inocência em vez da ingenuidade, quando devia ter sido o contrário, e não esporadicamente até o propalam aos quatro ventos. Ainda há bem tempo um político de nomeada o reiterou em declarações à imprensa, na sequência de um comício.
Mas a magnitude da problemática é geral, quer nos estejamos a referir nacionalmente como a nível europeu. Os gregos fizeram disso uma retórica e os romanos disseminaram-na pelo império, onde teve o seu inegável clímax durante o obscurantismo medieval. E embora o de hoje, não passe de um palimpsesto dessa época, o que é indesmentível é que continua a imperar, a decidir, enfim, a dar cartas onde quer que seja. A literatura não lhe foge à regra. Os ambientes culturais, artísticos, literários, também. E, por mais que nos doa a contradição, é exatamente neles onde a sua manifestação tem superior incidência.
Ainda não faz um mês, tive oportunidade de voltar a usar o erro como isco. Esfaimadas e sequiosas de desforra foram repetir o que eu dissera, e por elas considerado uma gafe monumental. Tiveram azar. Afinal, estava correta a minha afirmação... A lama que pretendiam atirar-me caiu-lhes toda em cima. Agora, andam amuados e ofendidos. Dizem que eu os enganei. Apenas o gato se mantém a tratar-me do mesmo jeito com que anteriormente me tratava, sem sofrer retaliações por tal. Ele continua meigo para mim, e essas pessoas não o tratam mais mal por isso, continuando a dar-lhe os mesmos mimos e atenções. O que é estranho, convenhamos; afinal, foi o gato que me anunciou o que sucedeu...
Há felinos com sorte!

8.19.2011

Fato literário


O Fato Literário

“Costuma andar seguro hum desarmado
Entre gente esforçada & generosa,
Que não ofende o forte ao descuidado.”

In Francisco Rodrigues Lobo, Égloga VI: Carta ao Leitor, com a Égloga seguinte contra a murmuração

Não importa que algo seja uma declarada mentira, ou que nos afiancem ser uma autêntica peta, daquelas coisas em que o impossível e o desfasado da realidade mais se revelem, em que nem o Diabo acredita, adiantamos, mas se estiver tão bem contada que, para nós, até mereça ser verdade, então a literatura acontece. Os escritores odeiam a realidade e declaram guerra aos desimaginados da vida. E os leitores, é precisamente por isso que os apreciam, ficam em suspenso das suas obras, as tornam na parcela de atualidade onde melhor se acomodam e repousam. Mesmo quando elas os inquietam, agitam e denunciam perante a mundanidade vigente.
Portanto, pretender que a literatura tem fins definidos e está ao serviço de causas maiores, até de ideologias que seja, é desconhecer em absoluto o que é um fato literário, isto é, desconhece que este é tão-só um transporte (veículo) de ideia, sentimento, emoção, artefacto, produto cultural, sensação, deleite ou provação, entre um mundo e o outro, entre o universo dos espíritos e das essências e o universo da matéria e das formas. Escrever é fazer aparecer ou desaparecer coisas que antes não existiam, ou existindo, ninguém as via dessa maneira. É milagre; é – mas não desses que transcendem o ser e migram para as esferas do divino e do paranormal. É milagre; é – mas somente porque embriaga sem álcool ter. E todavia, mesmo quando nada muda e nada altera, tudo muda em nós como fora, incluindo quanto do assim que fora sempre e imutável parecera, mas de um momento para o outro se transfigurou e assumiu qualidades jamais observadas.
Isto é, porque um fato pode ser um fato mas também é literário, o que faz toda a diferença. Ter uma fotografia de uma terra ou uma descrição das vivências tidas nessa terra, embora a mão que registou ambas seja exatamente a mesma, torna-as caprichosamente díspares, podendo nelas haver igualmente aquela intenção estética que transforma uma fotografia numa obra de arte, ou uma reportagem numa peça literária. Quanto escuto um fato literário, sem que ninguém haja pronunciado qualquer som ou palavra, faço uma coisa muito diferente de ler um enunciado escrito numa das línguas que consigo decifrar. Escuto-o com imagens que não me estão acessíveis pela visão. Compreendo-o, deixo que ele altere todo o meu sistema consciente e inconsciente, os meus órgãos, vísceras, sentidos, ânimo, atividade cerebral e motivação, reagem-lhe, às vezes até de forma aversiva, mas eu não posso fazer nada para o evitar. Quanto muito, reconhecerei que gosto ou não gosto, que pode haver ou não coerência entre as suas partes, admitir que lhe correspondem um princípio, meio e fim, bem como uma indivisibilidade insofismável, porém, sem a mínima possibilidade de interferência nesse processo.
Posso até colaborar ou implicar com o autor, reconhecendo-lhe valia ou não; todavia, se a sua literalidade já foi definida, tal como ao seu criador, estou totalmente impotente quanto a inverter ou reiterar essa classificação. É literário, logo ninguém mais terá mão nele. Mete fora do conceito de realidade toda e qualquer noção que dele se possa fazer. Posso mesmo criticá-lo, interpretá-lo, analisá-lo, valorizá-lo, que tudo lhe será indiferente. Os outros podem ainda subescrever a minha crítica, ou serem-lhe opositores, que jamais o beliscaremos.
Ou seja, conforme lembrou Francisco Rodrigues Lobo lá no longínquo da sua Corte de Aldeia, onde o século XVI se espraiava com a espuma dos dias, e o tempo se media pela curvatura do Sol, não carece ao fato literário andar armado em sabichão e pretensioso erudito, nem escorar-se na filosofia das verdades incontestáveis ou (estatísticas) da realidade inegável, para andar seguro e reconhecido, desde que frequente ambientes de gente esforçada e generosa, a quem o mundo nunca acaba na ponta do nariz, para se ver entendido e admirado. Porque ele é o grão de que se há de fazer o pão que saciará os esfaimados de sonho e de esperança, que são os quantos nunca esquecem que das maiores invenções que a humanidade teve conhecimento foi ela mesma. E a literatura o espelho onde pode ver-se, refletir-se, admirar-se, abonecar-se, maquilhar-se, sublinhar-se, repetir-se, distorcer-se, cristalizar-se e sublimar-se. Enfim, o seu argumento essencial…

8.07.2011

Um Conto de Georges Lorinczy

O CADETEZINHO DE FRIBURGO
Georges Lorinczy*
Tradução de Cristiano Lima


Que um herói de romance não seja de condição a encarar, como um modelo exato e preciso, o bom senso na vida é o que, no fim de contas, ninguém melhor do que nós o sabe. O herói do romance está em pé de guerra com tudo o que, na vida representa o bom senso. Mais: ele está tão em pé de guerra com o bom senso como com a vida. O primeiro dever de um herói de romance é ser interessante, senão nem um gato lerá o romance de que ele é herói. E, nesse caso, pergunto-lhes para que serve ser herói de romance e se vale a pena afadigarmo-nos a escrever a sua história, visto que só temos uma preocupação: interessar o leitor. Numa palavra: é necessário que o herói de romance seja um herói dos pés à cabeça. Seja que herói seja, ele só deve ser herói.
O cadetezinho de Friburgo era um herói verdadeiro, um autêntico herói. Ou antes, ele vai tornar-se um herói: herói da vida ou herói de romance, pouco importa. O que é certo é que vale a pena ocuparmo-nos dele. Também, se assim não fosse, não diríamos uma palavra.
O que o cadetezinho de Friburgo nos diz respeito é uma coisa de que não nos sentimos obrigados a dar contas. Todos sabem que, de fato, tudo o que existe sobre o mundo nos interessa. E o cadete de Friburgo com soja razão, pois foi ele que nos ensinou a língua francesa.
Conformando-nos com o velho princípio in medias res, vamos precipitar-nos de um salto para o meio do romance.
A falar a verdade, não foi a meio do romance mas na grande estrada de Tarnocz que o cadetezinho de Friburgo encontrou Simon Simonyi, Simon «o Forte», que não era célebre apenas pela sua força física mas também pela força do seu espírito, à qual deveu ser eleito subprefeito do condado de Bars. É conveniente saber-se que, neste tempo, isto é, em 1861, o único caminho-de-ferro que existia na Hungria era o que ligava as cidades de Peste, Erseknjvar, Pretesburgo, Marchegg e Viena. Os nossos bons primos, os austríacos, que nessa época exerciam ainda, na Hungria, um poder discricionário, tinham mandado construir esta linha única, a qual era para eles tão urgente e necessária como o é uma mosca para uma aranha. Ao enriquecermos, deste modo, o nossos conhecimentos de história natural, resolvemos um velho problema, porque, sabendo como morrem as moscas, ficam igualmente a saber como engordam as aranhas. A estação de caminho-de-ferro mais importante da Hungria do Norte era a de Tarnocz. Ali é que os habitantes da Alta Hungria tomavam o combóio, quer o destino da sua viagem fosse Peste ou Viena. E também ali se apeavam, quer chegassem de Peste como de Viena.
No caso que nos ocupa, Simon Simonyi, Simon «o Forte», chegara de Viena a Tarnocz, onde o cocheiro, de libré de gala, o esperava no seu break igualmente de gala. Simon o subprefeito, Simon «o Forte», saltou rapidamente para o carro, e logo em seguida saltou não menos rapidamente para o chão. Uma charrette tombada barrava o caminho.
Simon Sdimonyi, como homem experimentado, examinou a situação num golpe de vista. Ao lado da charrette voltada, a roda estava no chão. Um homem esforçava-se por a meter no seu lugar. Mas não o conseguia. Simon Simonyi não disse nem uma nem duas: dirigiu-se à charrete e, em trinta segundos, ficou ela assente nas suas quatro rodas. O condutor da charrete trepou para o seu lugar. Simonyi acenou-lhe e disse em tom jovial:
– A estrada está livre.
Do fundo da charrette alguém agradeceu em francês:
– Obrigado, meu caro senhor.
Só então Simon o acrobata olhou para o viajante. E teve um gesto de surpresa:
– Olha quem ele é: o Sr. Pugin!
Reconheceram-se. Coube, então, ao Sr. Pugin a vez de se regozijar.
– Que feliz acaso! Sou eu, de fato, Sr. Chimoni.
Pugin, o francês, era também uma celebridade: um homem elegante que há dez anos ensinava francês, de castelo em castelo, aos húngaros da Alta Hungria. Vinha precisamente de Neczpal, no condado de Turova, onde fora durante dois anos hóspede e professor de francês dos Justh, no seu famoso castelo duplo. Aqui, neste castelo alegre e hospitaleiro, Simon Simonyi e Leon Pugin tinham-se divertido juntos, diversas vezes.
– Eu vou a Peste, Sr. Chimoni – acrescentou ele. – E o senhor?
– Eu vou festejar o aniversário de um amigo. Faria bem em me acompanhar
– E quando regressaríamos?
– Quando tivéssemos cozido a nossa embriaguez. Além disso, o senhor encontra Peste sempre que queira, ao passo que só há no ano um dia de S. Guilherme.
Pugin refletiu. Mas nem a oferta sedutora nem a reflexão foram perdidas, tanto a oferta era vaga quanto sedutora e prometedora de distrações. Nesta época, a juventude não ia ao castelo para dormir, mas para se recrear. Não se ouvia apenas ressoar o pandeiro dos guizos de zíngaro mas também as esporas. E nem um nem as outras convidavam a dormir, mas a folgar. Pugin acabou por saltar para o break de Simonyi. Nem perguntou onde o levava nem onde se festejava S. Guilherme. O que era bom para Simonyi não podia ser mau para Pugin. Uma hora depois, apeavam-se em Ivanka, em casa de Guilherme Toth.
A festa em Ivanka durou muito tempo para o cadete de Friburgo. Pugin passou perto de dez anos em Ivanka. Ensinou francês a Guilherme Toth, a sua mulher e aos seus três lindos filhos e, mais tarde, aos três netos, os três lindos rapazes de Turocz.
Nesse tempo as velhas terras nobiliárias húngaras estavam ainda integralmente nas mãos dos húngaros, como todas as virtudes e todo o encanto ancestral dos castelos. Graças à sua hospitalidade serena e amável, o estrangeiro tinha logo nos primeiros momentos a impressão de que estava em sua casa. Guilherme Toth, que foi mais tarde ministro do Interior, depois presidente do Tribunal de Contas e, enfim, membro da câmara dos Magnates; que foi o braço direito e o íntimo de Francisco Deak, era, então, apenas o jovem deputado pelo círculo de Nyitra, na Dieta húngara, mas, na opinião pública, o herdeiro e a esperança de uma carreira fulgurante. Sua mulher, uma Kossovich, era o encanto e o espírito personificado.
O nosso amigo francês, o honrado Pugin, o cadete de Friburgo, era uma individualidade ainda mais complicada, quanto mais não fosse, pelo seu passado movimentado. Batizámo-lo de «cadetezinho de Friburgo», porque o romance tumultuoso da sua existência principiara nesta qualidade e neste sentido, pois ele começara a vida na escola de cadetes, em Friburgo. Nascido na Suíça francesa, aos doze anos era já cadete da escola de Friburgo. Era já, nessa época, um aluno atleta: a sua bela cabeça de leão coroava um corpo vigoroso. A cidade de Friburgo estava então envolvida na guerra civil. A população revoltada cercara a fortaleza onde tinham instalado a escola, e nesta encontrava-se o cadetezinho de Friburgo, Leon Pugin. Foi ele que, uma noite, descobrindo que os insurretos preparavam um assalto, deu o alarme. Avisou a guarda, e toda a escola militar, com seu pessoal e a tropa, repeliu vitoriosamente a investida dos assaltantes. É claro que o nosso cadetezinho de Friburgo tomou parte neste combate noturno, e portou-se heroicamente.
Após a batalha, o comandante da praça ofereceu-lhe uma espingarda de honra, a título de distinção, de recompensa e de recordação de um irmão de armas.
O cadetezinho de Friburgo tomara parte no combate apenas para satisfazer a sua ânsia de aventuras. Fugiu depois da escola de cadetes. Foi parar à Polónia russa e viu-se envolvido numa aventura espantosa, na corte de não sei que espécie de grã-duquesa russa, na sua qualidade de professor de francês. O grão-duque era um autêntico grão-duque de opereta: ciumento e brutal. Mandava guardar por cossacos a sua mulher, uma polaca nova e linda.
A bela infortunada detestava naturalmente seu amo e senhor. O nosso cadetezinho, de coração muito inflamável, tornara-se um lindo rapaz, e o elegante mestre de francês, mestre não só na linguagem como na sedução. Não havia ninguém como ele para saber contar uma anedota. Acompanhava, com os gestos e uma fogosa mímica, as suas narrações variadas, e exercia um encanto mágico sobre a sua bela auditora, educada no ambiente das formas glaciais do cerimonial aristocrático.
O romance complica-se. O grão-duque não está em casa. É meia-noite. Tudo dorme. Os dois cossacos, guardas da fé conjugal na antecâmara da grã-duquesa, dormem também. No corredor tenebroso, alguém desliza a passo de lobo para o quarto da bela prisioneira. Com precaução, passa por cima do corpo dos cossacos adormecidos. E depois… Traição!... Como numa opereta… Os traidores caem sobre os amorosos, no momento em que eles menos esperavam. Em recordação deste perigo mortal, a mulher meteu um anel no dedo do cavalheiresco francês. E o cavalheiresco francês atirou-se cavalheirescamente de uma janela. Foi direito a casa do pope da aldeia. Era o único homem que tinha um cavalo. Deu-lho para ele fugir. O outro dirigiu-se para a floresta. Através de montes e vales, saltou fossos e toda a espécie de obstáculos, sem mesmo saber o que fazia. No seu encalço, cercando-o de perto, os cossacos lançaram-se em sua perseguição… Esfomeado, transtornado, esgotado, com o fato em farrapos, depois de dias sem repouso e de noites sem dormir, chegou a território húngaro. E foi só em Neczpal, no condado de Turocz, que ele pode finalmente descansar e recomeçar uma vida digna de um homem.
Nos dias de tranquilidade que depois teve, gostava de contar as suas atribulações e aventuras, muitas vezes num tom de satisfação e de alegria, ao mesmo tempo subtil e sonhador. Mas às vezes entusiasmava-se com a narrativa. Soltava profundos suspiros e sacudia a sua bela cabeça de leão, principalmente se lhe sucedia falar com a grã-duquesa.
– E o que é feito desse famoso anel? – Perguntei-lhe um dia.
O olhar de Pugin encheu-se de melancolia. Pareceu-me que, sobre a testa, lhe passavam nuvens.
– Ah, o anel? Ela tirou-mo…
– A grã-duquesa?
– Não. A primeira ribeira da Polónia que atravessei a vau… Deixei-o cair no Dunajec…

* Nasceu em 1860. Enquanto membro da Academia Petofi, foi um escritor de tendência acentuadfamente naturalista. Entre os seus melhores romances figuram Os Potentados da Aldeia, Sobre a Minha Terra e O Monte de Vidro.

8.04.2011

Troikas à portuguesa


Toma, que é prò tabaco!

“O Estado terá de ser mais flexível e versátil, para acomodar os pequenos impérios de diferenças que nos vão sendo revelados e a atitude cultural em que se consubstanciam.”
In Francisco Pinto Balsemão, Progresso Social e Democracia, nº 3/4

Acabou o tempo do fazer política brincando ao fingir que está tudo bem, derramando ilusão por todos os meios, estatais e públicos, como privados ou corporativos, alimentando o regabofe e ramboia de uns à custa dos demais, incluindo daqueles que nasceram há pouco ou ainda nem sequer foram congeminados. Segundo o ministro da economia, o seu ministério, só em carrões e respetivos choferes, além de outras ostentações inequivocamente ofensivas para os cidadãos comuns que entraram obrigatoriamente nas ações de austeridade nacional, o glamour e finess do palacete e seus palacianos, é de bradar aos céus. Neste, caso, à Troika bendita, por cujo memorando nos vamos alinhar nesta legislatura; porque quem deve, tem que pagar, e quem se compromete tem obrigatoriamente de cumprir, coisa que o Estado com o establishment português apenas entendia como à moda das scuts de sentido único: se for pessoa, contribuinte, cidadão lá vem penhora e juros de mora, mas se for instituição pública, autarquia, fundação e ministério, é tão-só modalidade normal, tradicional e modus operandi estabelecido e “legal” – atrasos e contas, só os nossos e no pagar.
É claro, que os senhores da logística e do capital lhe franziu o nariz. Não gosta de coisas simples, efetivas, eficazes, baratas, sustentáveis, honestas, francas, diretas e sem percentagem à vista por derivados e afins. Isto está mau, mas também não é para tanto. Erros qualquer um comete, que é para isso que somos humanos, defendemos o humanismo e reivindicamos o antropocentrismo, e não entremos agora a alardear com exigências de responsabilidade, rigor e resolução do défice e do endividamento, senão ficamos sem nada pra fazer nem onde ganhar a vida – pensam eles, não o dizendo, claro está, mas deixando que a expressão e o semblante fale por eles.
Outros, aqueles que votaram no Salazar para personalidade do século passado, desabafam entre si que murumurando um «porra: isto do Salazar, era a brincar, só pra chatear os comunas…», mais ou menos convicto, tentando inverter a marcha, alguns mesmo afiançando estarem deveras arrependidos com a expulsão do Sócrates para outras cicutas e Sorbones. Se razão lhes assiste, é no não terem pensado antes, porém, considerando que nunca fizeram de outro jeito, não se vislumbra maneira de alterar o provérbio popular que enuncia que burro velho não aprende línguas, porquanto todos sabemos não haverem outros veículos mais eficazes para materializar, realizar, demonstrar o pensamento – as ditas e cujas com que se fala. Nem melhor reforma do que aquela que é ministrada pelos reformadores que, como todos sabemos desde que E. Hubbard o disse, “são aqueles que educam o povo a apreciar aquilo de que precisam”.
Provavelmente, aqueles que leram as minhas crónicas no Fonte Nova devem estar lembrados do lá se dizia. Foi até por elas que alguns me chamaram de iluminado, pondo ênfase precisamente no termo, daquela forma brilhante que o português lhes propicia afirmar o contrário de uma coisa nomeando-a. Alberto João Jardim deu-lhes a resposta agora, através da SIC como suplemento vitamínico madeirense prò continente e seus continentais adjacentes. Não perderam pela demora!
Ou seja, os portugueses espertaram, e já não se deixam comer por trouxas por todos aqueles que dizem defender as suas ideologias, que ter partido ou abanar a bandeirinha não é mais livre-trânsito para a função, nem o tripudiar dos utentes/utilizadores um abono de garantia no posto de trabalho, quer se esteja anexo às autarquias como ao poder central – ou paralelo. A flexibilidade deve reger-se pela competência, e os incompetentes têm que deixar de ser um ativo na administração nacional. Se não, ficamos todos troikados!

8.01.2011

Presságio

PRESSÁGIO


Ao contrário daquilo que pretendo fazer-vos crer
Nem tudo em mim é pura e singela transparência
Também tenho segredos alguns inconfessáveis
Difíceis de dizer, de calar, de escrever, de expelir
De deixar esquecidos numa qualquer rua, esquina
De grafitar nas paredes de alguma casa em ruínas
De abandonar em banco de jardim ou gare ferroviária
De acondicionar entre os livros da biblioteca pública
De encaixotar no sótão com demais trastes e bibelôs
De meter na gaveta das trivialidades preciosas
Junto aos cromos da bola, aos porta-chaves, fotografias
Calendários pornográficos, bilhetes de teatro ou concertos
Recortes de fait-divers, catálogos de exposição, clipes
Botões invulgares, relógios avariados e colchetes ímpares,
Embora me tenha esforçado capciosa e exaustivamente
Rasteirando-me amiúde ou tentando desmascarar-me
Pra nada permitir oculto de mim e de meus semelhantes.


Mas ontem à noite, ao deitar-me, tinha uma aranha
Pequena e quase negra sobre a colcha branca da cama
Por cuja pose serena, pacificadora, sem o mínimo temor
Sem qualquer expressão de surpresa parecia aguardar-me
Que não tive coragem de afugentar e muito menos de matar
E a quem fiz com que me subisse prà concha da mão direita
A fim de pô-la num lugar da casa raramente frequentado
Num dos quartos vagos e sem serventia que me sobram.


Foi um momento solene, de sublime suspensão religiosa
E sustida respiração com receio que ao expirar a incomodasse
O ar exalado viesse inquietá-la ou lhe inspirasse a fuga
O susto, o pânico, algo lhe subtraísse a letargia apaziguadora.
Contornei móveis, transpus portas, percorri salas e corredores
Todavia, como se adivinhado tivesse a solidão dos quartos
A prisão de silêncio para que estava disposto a atirá-la
Ei-la num ápice saltando sem que pudesse evitar-lhe o sumiço
Deixando-me estático para que a não pisasse sem ver
A molestasse involuntariamente ou, enfim, a matasse
No precipitado comum dos gestos irreversíveis e fatais.


Adormeci com a porta do quarto entreaberta... Mas demorei
Custou-me adormecer e passei a noite em sobressalto
Sonhando acidentes vários, tempestades, desertos gelados
Catástrofes mais que perfeitas me obrigaram a acordar
E, durante todo o dia de hoje, andei na casa em bicos de pés
À coca, com cuidado e atentando bem ao dar os passos
Compungido e ansioso por reencontrá-la e trazê-la de volta
Depo-la novamente no meu quarto, rogando-lhe perdão...


Sei que vos pode parecer esquisito este clima de segredo
Este suspeitoso ar de mistério e culpa por um ser ínfimo
Insignificante de quatro pares de patas e baba de seda
Não obstante gregos e egípcios em sua teia revejam o destino
E os cristãos lhe concedam as tramas e ciladas de satanás
Ou o sustentáculo do conjunto da vida como querem os celtas,
Casa e tabernáculo da Grande Mãe devoradora de fomes e homens
Insaciável poço de vertigem, sofreguidão e imperiosas urgências.

* * *
Sete dias se passaram convém não esquecer, sei-o muito bem
Porém também não desconheço que a culpa não foi minha
Mas da alma que me arregoou em todos os sentidos possíveis
De júbilo, de alívio, de euforia, de arrebatamento, enfim de tudo
Pois voei de mim desde que a voltei a encontrar, inconfundível
Precisamente ao canto esquerdo do espelho rectangular, de manhã
Na casa de banho quando fui barbear-me, lavar inclusive o rosto,
E ali ficou a olhar-me, vendo-me a ver-me na limpeza diária das faces
Ou a iluminar-me de outra luz para além daquela jorrada da lâmpada
Semeando-me enxadas digitais para softwares de enredo e mistério
Tecendo-me a realidade com diferentes pontos e linhas num morse
De seda cinza onde adivinhar e domesticar frágeis sinas ou futuros
Rumos pendulares, parabólicas intercepções oscilantes entre céus
Reinos da alma fugida, exilada do corpo durante os sonos da noite
Contudo recuperada pela aurora no canto esquerdo do plano reflexo,
Espelho esse que mais tarde abandonou para subir ao tecto
Instalar-se como estrela de oito pontas no vértice superior direito
Exactamente no ângulo feito entre as paredes e o estuque cimeiro.

* *
Agora deixei, é certo, de andar na casa com receio de pisá-la
E a desenvoltura nas lides ganhou aquela lesta espontaneidade
De quem não necessita de se resguardar da terra que habita
Do chão que pisa, da pele que o envolve, do querer que o anima.
No entanto, sempre que saio de casa tenho de confirmar onde fica,
Mal regresso é a primeira coisa que faço, a ver se ainda lá está,
E nunca me deito ou adormeço sem antes lhe ir desejar boas noites.

Pensei que fosse superstição, ritual de incorporar alguém querido
De quem sinto a ausência e me prendeu nessa teia de palavras
Onde germinam e proliferam as essências secretas dos predicados
A alquimia dos verbos que transitam entre os planos semânticos
E faz fluir a eternidade tornando-a una e transversal às gerações.

Supus ser a tecedeira da rede de afectos que me pescou a alma
A cerziu em passagens serenas e assimétricas de emalhar sentidos
Cruzar pontos, atar hífens, justapor ritmos e rimas da paleta sonora
Ou preencher o vazio do cosmos com as linhas que o sustenham
Réplicas do DNA universal comum a todos os elos da espiral da vida,
As ligações que irmanam os seres e espécies da casa na geografia
Interior a que axónios íntimos jamais negaram a sinapse das falas.

Acreditei que fosse o espírito ancestral congeminando as sortes
Os anseios de olhar o céu que nos tornam únicos porque adoramos
Infringimos a lei dos deuses roubando-lhe o fogo de forjar a matéria
E a vontade, moldando sobre a bigorna do tempo os próprios símbolos
Véu de ilusão, ovo de Maya, expressão da prodigiosa criação da beleza
Lídia dotada, efémera Aracne tecelã dos amores dos deuses pelos mortais
Ferida por Atena e sua lançadeira no castigo da ambição demiúrgica,
Qual Anansé que amassou e moldou a farinha dos primeiros homens
Que criou o sol e as estrelas, força realizadora da meditação intuitiva
Primórdio inicial de todos os seres e interioridade preciosa do cosmos.

Porém, nenhuma justificação me satisfez... Nem o seu consentimento
Me foi dado observar, até que subi ao bordo da banheira e observei
De muito perto, tão perto que os seus cinco olhos me fitaram de viés
Me saudaram num ínfimo pestanejar de assentimento pacificador,
Ditaram que no pentágono dos sentidos o núcleo governa o todo
E esse é tido e ordenado pelo soslaio que emite aos quatro cantos
Aos quatro elementos naturais, terra, ar, fogo e água, carne, respiração,
Calor e sangue, cérebro, pensamento, sexo e amor, língua, cultura,
Arte e poema, aliás simples e trôpega cópia do teu olhar na segunda fila
No balcão dos conteúdos escondidos em cifra humana e literária
Metáforas vivas da arca de acácia onde a humanidade guarda o sonho
Que nos sonha, inventando-nos à sua imagem e dela testemunhas.


Indubitavelmente o teu soslaio, magma que te esculpe o sorriso
No rosa cintilante das faces sob os arcos lunares dos cabelos castanhos
Tensos mas tombados como um manto, duplo véu de Vénus
Moldura de enigma e mistério, seda de abrigo para Moura Encantada.

*

Nem tudo em mim é simples e pura transparência como supõem...
E quero fazer crer. Por exemplo, acabei agora de dizer o teu nome
Como presságio de reencontro, e somente tu o saberás ouvir, ler
Reconhecer entre todas as palavras que vagueiam e se espraiam
Na enseada da voz, no delta da fala, à sombra dos oásis do poema.

7.31.2011

Fábulas Fantásticas, de Ambrose Bierce


O DESTINO DO POETA

Jornadeava um Objeto pela estrada real, repleto de meditações e munido de mais coisa nenhuma, quando de súbito se viu ante as portas de uma grande cidade. Tendo pedido autorização para entrar foi preso sob a suspeita de acreditar em ritos e levado à presença do Rei.
– Quem é o senhor e que profissão é a sua? – Perguntou-lhe o Soberano.
– Sou Carlos, o Larápio, gatuno de esticão – respondeu o Objeto com grande rapidez de inventiva.
O Rei ia-o mandar soltar quando o Primeiro-Ministro sugeriu o exame aos dedos do detido. Verificou-se que eram muito achatados e calosos.
– Ah! – exclamou o Monarca – eu bem vos tinha dito! O nosso homem dedica-se a contar sílabas. É poeta. Entreguem-no ao Grande Dissuasor do Hábito de ter uma Cabeça.
– Se Vossa Majestade mo permitisse – saiu-se, então, o Inventor Ordinário dos Castigos Engenhosos – eu proporia uma pena mais pesada.
– Diga, diga – assentiu o Rei.
– Que ele conserve a cabeça!
E assim foi ordenado.

In Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral

Soneto de Filinto Elísio (1734-1819)

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o com o pesar de um desgraçado,
A quem nem feições lembram da ventura.

Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Na negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água.

Consolar-me só podem já pesares;
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa!


(Nota: Caraterístico das almas românticas, o sentimento do noturno, aparece em Filinto Elísio e adquire neste soneto uma das suas mais belas expressões. Se salientarmos o tom veemente e exagerado predominante na composição, que culmina na redundância final ao encher de mágoa universal a mágoa particular do autor, notamos sobremaneira como os efeitos puramente românticos ainda continuam a funcionar no arrebatamento inicial das leituras atuais.)

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