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Conto da Semana - Nem Vale a Pena Contar

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Nem Vale a Pena Contar!... “Era a noite da loucura, Da sedução, do prazer, Que em sua mantilha escura Costuma tanta ventura, Tantas glórias esconder. “ In Aquela Noite , de Folhas Caídas , por Almeida Garrett O s olhos faiscantes de Shara acompanharam-me e perduraram na noite enquanto me dirigia para casa, atravessando a única rua que precisava de ser atravessada para o efeito. E pese embora, em Casal Parado, elas não sejam assim tão largas como avenidas, creio que essa passagem durou muito mais do que seria plausível, esticando cada minuto além da sua extensão própria de sessenta segundos, quase pude assistir (intacto) a um autêntico concerto de estrelas despencando dos alto cimos do breu, como uma chuva de fogo-de-artifício, que somente findou quando a luz se acendeu, de repente, no quarto da vizinha sob a moldura encortinada da janela, cujo reposteiro de tule e seda azul-turquesa, bordados com motivos geométricos em dourado e prateado, partindo do centro superior descia afastando-s...

Conto da Semana

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Nos Condomínios do Cálice Único “Mais tarde estenderam se sobre a cama amigavelmente com o calor da tarde lá fora, ele a ler e ela com os auscultadores do seu minigravador (o teu diadema; chamava lhe ele) enterrado no cabelo húmido e puxado para trás como gavinhas de videira à volta dos dedos dele que giravam distraidamente. De vez em quando, sem falar, ela tirava de repente os auscultadores e encostava um ao ouvido dele, fechando os olhos e cerrando a sua boca macia, arrebatada pelo que estava a ouvir.” In A História de Meu Filho , de Nadine Gordimer “Rosas sem fim. Flores caídas Num chão amassado por rodas, Sem outras forças para lidas Que não as que nos restam, tidas Como perdidas, quase todas.” In http://escribalista.blogspot.com/ , de Joaquim Castanho Pressinto que nunca conseguirei trair-te. Até quando o faço contigo mesma, quando me dirijo a ti para dizer coisas a Shara, ou vice-versa, quando lhe digo algo que te é exclusivamente dirigido, toma-me um mal-estar insuportável que ...

Conto da Semana - e do dia 14!

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Petrarca Reincidente II E nas noites a terra pesada cai De todas as estrelas para a solidão. Todos caímos. Esta mão cai E olha os outros: está em todos. E contudo há Alguém que detém, Infinitamente suave, este cair nas suas mãos. (Excerto de um poema de Rainer Maria Rilke, incluído por Nadine Gordimer, no seu romance Um Mundo de Estranhos ) É nas alturas menos convenientes, quando a solidão rasga seus sulcos entre os minutos da espera, e ecoam as últimas palavras que nos dissemos, que os olhos se perdem no infinito como se este fosse a sua primeira casa, o estado de origem a que a matriz nos reporta na impaciência do reencontro. Quando demoras a passar sou eu quem fica sem jeito, aquele que te trai com Shara, e que trai Shara contigo, embora tu e ela a mesma pessoa sejam. O acaso me dita que medite nesta constatação irrevogável… Contudo, tenho que reconhecer, que as duas muitas vezes se unem contra mim, fazendo-me sentir a dolorosa mão pesada de uma solidão duplamente solitária! Reconh...

Os Liliputianos e o Fado: Ai, Mouraria!

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Os Liliputianos das Grandezas “E entretanto, deixe-se que a polícia e a tropa negoceiem, de um modo mais eficaz, com os grevistas e os manifestantes, com os eloquentes agitadores, pretos e brancos, dentro do país. E se não conseguirem, há porém outra maneira de negociar: nunca apanhar aqueles que eliminam os agitadores, matando por detrás de rostos tapados e disparando de carros em andamento.” In A História de Meu Filho , de Nadine Gordimer , pág. 244. Nem tudo o que se diz é luz. Embora o silêncio cúmplice e tácito acerca de todas as matérias que incomodam o status quo , seja ainda mais negro que o ignaro breu, mais escuro que toda a ignorância oriunda das trevas do Hades da Antiguidade Clássica, precisamente aquela que gerou e foi causa direta do obscurantismo (escolástico) medieval. Naquele tempo ainda só havia bons e maus, e o grande desígnio nacional – ou patriótico! – residia em conseguir agremiar os bons num clube, ginásio, partido, associação, escola, castelo, convento, quartel...

Petrarca Reincidente

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“ Assim tinham adormecido: o olhar dele estava fixo nos lírios. Flores que ele lhe tinha comprado a um vendedor de rua no dia antes de aquilo ter acontecido – a purificação das sepulturas. Na semana passada tinham sido as rosas. Rosas vermelhas, enroladas como guarda-chuvas; as rosas têm o cheiro do sexo, disse ela, os lírios têm a forma: ele descobria todas essas delícias enquanto estava com ela. Aproximaram-se um do outro, sob sentidos amplificados .” In A História de Meu Filho , de Nadine Gordimer, tradução de Ana Patrão Q uando Shara decide algo sobre mim, não há meio de contornar a questão nem desobedecer-lhe. Ela diz que não é obediência, sequer fidelidade, vassalagem, mas a sensatez que afluiu para reparar os danos da minha obtusidade (momentânea). Não o creio, deveras. E sinceramente; todavia, nunca lho disse abertamente, talvez por temer a contra-argumentação que lhe advirá. Aliás, a experiência recente aconselha-me prudência e tino, caso não queira ver-me espoliado, além dos ...

Segundo Conto da Saga Petrarquiana

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A Curva em Desnível “Eis aqui se descobre a nobre Espanha, Como cabeça ali de Europa toda, Em cujo senhorio e glória estranha Muitas voltas tem dado a fatal roda; Mas nunca poderá, com força ou manha, A Fortuna inquieta pôr-lhe noda Que lha não tire o esforço e ousadia Dos belicosos peitos que em si cria.” (Luís de Camões, in Os Lusíadas , Canto Terceiro, Estrofe 17) A inda mal me tinha levantado quando a campainha tocou. Eram precisamente dez horas, e o sol entrava pela janela da sala como se fosse um dia de primavera. Mas não o era. Estávamos no pinho do inverno e, lá fora, a temperatura rondava os dois graus negativos. Portanto, quando sem pressas me dirigi à porta para ver quem assim tocara, estava longe de imaginar que pessoa metera o dedinho no botão, deixando-o lá esquecido na demora de uma eternidade estridente. Insistentemente. Ansiosa. Porque, se nos propusermos ouvir as tonalidades dos toques, distinguimos perfeitamente o estádio de ânimo de quem carrega do outro lado. Eu d...

Males de uma idade maior... Ou crise de crescimento?

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O Regozijo Nacional "Os males da idade são postes de sinalização e não destino." L. Kronenberger Fico muito contente por saber que os melhores de entre todos nós não valem um pataco, havendo mesmo quem não sequer dê três vinténs por eles. E ninguém me tira da ideia que a pegada social de cada homem há de abranger muito para além de seus filhos e netos, porquanto também comporta a sua pegada ecológica e da sua família, durante bastante tempo depois de morrer e ela se extinguir, deveras contundente na violação das fronteiras e limites, sejam temporais como no espaço, indubitavelmente inerentes ao grupo, comunidade ou povo a que pertence. O nosso está de parabéns. Temos uma nata a toda a prova, incluindo a de sensatez. Ora vamos lá ver: o que prejudica ou não ajuda absolutamente nada este país, não são as conjeturas e alvitres sobre o possível pedido de auxílio à Europa (FEE) ou ao FMI, deste ou daquele civil mais ou menos magoado, e ressentido, com os desmandos da governação, e...

Para Além de Outro Oceano, de Coelho Pacheco

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Com a Alma num Puzzle "NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano Houve posições dum viver mais claro e mais límpido E aparências duma cidade de seres Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro Todos viviam na vida dos restantes E a maneira de sentir estava no modo de se viver Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser E houve pasmos de toda a realidade ser só isto Mas a vida era a vida e só era a vida." – In Para Além de Outro Oceano , de Coelho Pacheco (1) Quem se esfarela até morrer, corre em riacho de muito seixo e pouca ternura (alcança), que o silêncio do nu apressado, ainda que vertido em multidões de espasmos e suspiros, nunca outra coisa lhe trará do que a solidão de si entre tantos, ilha sem pontes nem portos seguros que no vasto ...

Assim a modos da fala no sentir da gente...

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As Maneiras de Dizer Não vás ao monte, Nise, com teu gado, Que lá vi que Cupido te buscava; Por ti somente a todos perguntava, No gesto menos plácido que irado. Ele publica, enfim, que lhe hás roubado Os melhores farpões de sua aljava; E com um dardo ardente assegurava Trespassar esse peito delicado. Fuge de ver-te lá nesta aventura, Porque, se contra ti o tens iroso, Pode ser que te alcance com mão dura. Mas ai! Que em vão te advirto temeroso Se à tua incomparável formosura Se rende o dardo seu mais temeroso! Luís Vaz de Camões Quando pretendemos meter as mãos nos bolsos de alguém, tripudiar sobre o seu carácter, modos de comportamento ou personalidade, integridade física e moral, dignidade, crenças e valores, afirmamos qualquer coisa sobre essa pessoa que se enquadra naquelas expressões (clichés) a que é comum chamar « maneiras de dizer ». Fazemos de conta que quanto dizemos não é o que queríamos afirmar mas outra coisa muito diferente e ala, cá vai mais uma daquelas que até os cães...