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Mostrando postagens com o rótulo Poemas Alheios
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RETALHOS DE OUTRAS OUTRAS ÉPOCAS, OUTROS MOTIVOS ÉCLOGA DE JANO E FRANCO (extrato) Dizem que havia um pastor Entre Tejo e Odiana, Que era perdido de amor Per ûa moça Joana. Joana patas guardava Pela ribeira do Tejo, Seu pai acerca morava, E o pastor, de Alentejo Era e Jano se chamava. Quando as fomes grandes foram, Que Alentejo foi perdido, Da aldeia que chamam o Torrão Foi esse pastor fugido. Levava um pouco de gado, Que lhe ficou doutro muito Que lhe morreu de cansado: Que Alentejo era enxuito D’água e mui seco de prado. Toda a terra foi perdida; No campo do Tejo só Achava o gado guarida: Ver Alentejo era um dó! E jano, para salvar O gado que lhe ficou Foi esta terra buscar; E um cuidado levou, Outro foi além achar. BERNARDIM RIBEIRO ( Bernardim Ribeiro , considerado por muitos o patriarca da ficção portuguesa, nasceu na vila do Torrão, em 1482. Passou a infância em Castela, onde o seu pai se exilara dev...

Soneto de Filinto Elísio (1734-1819)

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Estende o manto, estende, ó noite escura, Enluta de horror feio o alegre prado; Molda-o com o pesar de um desgraçado, A quem nem feições lembram da ventura. Nubla as estrelas, céu, que esta amargura Em que se agora ceva o meu cuidado, Gostará de ver tudo assim trajado Na negra cor da minha desventura. Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares, Rebente o mar em vão n’ocos rochedos, Solte-se o céu em grossas lanças de água. Consolar-me só podem já pesares; Quero nutrir-me de arriscados medos, Quero saciar de mágoa a minha mágoa! (Nota: Caraterístico das almas românticas, o sentimento do noturno, aparece em Filinto Elísio e adquire neste soneto uma das suas mais belas expressões. Se salientarmos o tom veemente e exagerado predominante na composição, que culmina na redundância final ao encher de mágoa universal a mágoa particular do autor, notamos sobremaneira como os efeitos puramente românticos ainda continuam a funcionar no arrebatamento inicial das leituras atuais.)

Para Além de Outro Oceano, de Coelho Pacheco

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Com a Alma num Puzzle "NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano Houve posições dum viver mais claro e mais límpido E aparências duma cidade de seres Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro Todos viviam na vida dos restantes E a maneira de sentir estava no modo de se viver Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser E houve pasmos de toda a realidade ser só isto Mas a vida era a vida e só era a vida." – In Para Além de Outro Oceano , de Coelho Pacheco (1) Quem se esfarela até morrer, corre em riacho de muito seixo e pouca ternura (alcança), que o silêncio do nu apressado, ainda que vertido em multidões de espasmos e suspiros, nunca outra coisa lhe trará do que a solidão de si entre tantos, ilha sem pontes nem portos seguros que no vasto ...
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Idílio (1) Praias que banha o Tejo caudaloso, Ondas que sobre a areia estais quebrando, Ninfas que ides escumas levantando, Escutai os suspiros de um saudoso. E vós também, ó côncavos rochedos, Que dos ventos em vão sois combatidos, Ouvi o triste som dos meus gemidos, Já que de amor calais tantos segredos. Ai, amada Tirceia, se eu pudera Os teus formosos olhos ver agora, Que depressa o pesar, que esta alma chora, No gosto mais feliz se convertera! Oh, como então ficaras conhecendo Quanto te amo, se visses a violência Com que estão dos meus olhos, nesta ausência, As saudosas lágrimas correndo! Tanto neste pesar, que estou sentindo, O triste coração se desfalece, E tanto me atormenta, que parece, Que ao sofrimento a alma vai fugindo! Mas oh! Qual há de ser a crueldade Deste terrível mal em que ando envolto, Se a qualquer parte, enfim, que os olhos volto Imagens estou vendo de saudade! Uma serena tarde, já sol-posto, Te vi sobre esta penha estar sentada; Ali naquela fonte prateada (2) Est...

Cantata de Dido

Já no roxo ambiente branqueado, As prenhes velas da troiana frota Entre as vagas azuis do mar dourado Sobre as asas dos ventos se escondiam. A misérrima Dido Pelos paços reais vaga ululando (1) C’os turvos olhos inda em vão procura O fugitivo Eneas. Só ermas as ruas, só desertas praças A recente Cartago lhe apresenta. Com medonho fragor, na praia nua, Fremem de noite as solitárias ondas; E nas douradas grimpas (2) Das cúpulas soberbas Piam noturnas, agoureiras aves. Do marmóreo sepulcro, Atónita imagina Que mil vezes ouviu as frias cinzas Do defunto Siqueu, com débeis vozes, Suspirando chamar: -- Elisa! Elisa! (3) D’Orco (4) aos tremendos numens Sacrifícios prepara; Mas viu, esmorecida, Em torno dos turícremos (5) altares Negra escuma ferver nas ricas taças, E o derramado vinho Em pélagos de sangue converter-se. Frenética delira, Pálido o rosto lindo, A madeixa subtil desentrançada; Já com trémulo pé entra sem tino No ditoso aposento, Onde do infido amante Ouviu, enternecida, Magoados ...

Como ontem e sempre, ámen!

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Tenho uma comunicação muito grave a fazer a Vossas Excelências pior que o meu estado de saúde é a corrupção nas altas esferas eu já andava apreensivo com as notícias nas gazetas o que almoça um director-geral quem ateia fogos nas florestas (e aqui chegado vão-me permitir que abra um curtíssimo parêntesis não acredito que esses incendiários sejam todos doentes da cabeça mas enfim de que há-de viver a nossa pobre e triste imprensa quando se atrasa o cometa Halley e o Entrudo é um longo bocejo) neste particular não invento nada fala-se de escândalo nos gabinetes a verdade é que algumas histórias são simplesmente de estarrecer haveria mesmo ignóbeis luvas e outras espórtulas financeiras indignas de um país virtuoso enquanto Estado de Direito façam Vossas Excelências a fineza de acreditar que não exagero por alegada oposição ao regime ou propensão para o devaneio é claro que noutra oportunidade avançarei com pormenores concretos por agora limito-me a alertar reservando os nomes dessa gente ...

Um poema de Al-Mutamid

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Só eu sei quanto me dói a separação! Na minha nostalgia fico desterrado À míngua de encontrar consolação. À pena no papel escrever não é dado Sem que a lágrima trace, caindo teimosa, Linhas de amor na página da face. Se o meu orgulho não obstasse Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado De visita às pétalas da rosa. Al-Mutamid (Beja, século XI)

LIBERDADE

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Liberdade, que estás no céu... Rezava o padre nosso que sabia, A pedir-te, humildemente, O pão nosso de cada dia. Mas a tua bondade omnipotente Nem se ouvia. Liberdade, que estás na terra E a minha voz crescia De emoção. Mas um silêncio triste sepultava A fé que ressumava Da oração. Até que um dia, corajosamente, Olhei outro sentido, e pude, deslumbrado, Saborear, enfim, O pão da minha fome. LIBERDADE, QUE ESTÁS EM MIM; SANTIFICADO SEJA O TEU NOME. Miguel Torga

Player before Birth, por Louis Macneice

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Súplica Antes de Nascer (Player before Birth) Ainda não nasci; escutem-me! Não deixem nunca o morcego sanguissedento ou a ratazana ou a doninha ou o vampiro de pés aleijados chegarem ao pé de mim. Ainda não nasci; consolem-me. Temo que a raça humana com altas paredes me emparede, com drogas fortes venha a drogar-me, com enganos sábios enganar-me, em negras prateleiras e em banhos de sangue ensopar-me. Ainda não nasci; dêem-me Água para embalar-me, erva a crescer para mim, árvores que falem comigo, céu que cante para mim, pássaros e uma luz viva atrás do meu espírito, para me guiarem. Ainda não nasci; desculpem-me Os pecados que o mundo em mim vai cometer, as minhas falas quando me falarem, meus pensamentos quando me pensarem, minha traição engendrada por traidores atrás de mim, minha vida quando assassinarem por meio de minhas mãos, minha morte quando vivam por mim. Ainda não nasci; contem-me Os papéis que hei-de desempenhar, as minhas deixas quando os velhos me admoestem, burocratas m...

Payton Geldi, por Zara

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Payton Geldi Payton geldi meyhaneye dayandi Siyah gömlek al kantara boyandi Garip annen oy buna nasil dayandi Aglama çakirim alir alir giderin seni Arar isen yar gönlünde bul beni Gide gide gitmez oldu dizlerim Aglamaklan görmez oldu gözlerim Nazli yare geçmez oldu sözlerim

Poema de Natália Correia

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(De) SETE MOTIVOS DO CORPO por Natália Correia 6. Quando em halo de fêmea húmida e quente São íntimas ao fogo as ancas sábias, Está o corpo maduro no seu tempo Aromático de rosas esmagadas. São as Circes: fogueiras reclinadas Como panteras em nuvens de magnólias; Coxas versadas em abrir às lavas Do desejo confins de lassas glórias. Do amor, lúcida e plena anatomia; Magníficas mulheres com flor e fruto; Corpos de vagarosa fantasia Que a febre afunda em estrelas de veludo. Num esplendor de poentes envolvidas, Sentadas têm pálpebras de violetas; Mas erguem-se abrasadas; e despidas São um verão a sair de meias pretas. Capelines que lendas insinuam, De segredos os olhos lhes sombreiam. Dos ombros pendem-lhes mantos de volúpias São fábulas que os moços estonteiam. E aos seus leitos de prata e tílias altas Ébrios de lua sobem os mancebos. Elas enterram-se nuas como espadas Nas suas virilhas e armam-nos cavaleiros. Ó sazonada carne que circunda De asas, abismos e suados cumes O mistério d...

TRÊS POEMAS JAPONESES

1. Eis que hoje estou pensado: Valho menos que qualquer. Para o que vá perdoando Comprarei E levarei Flores a minha mulher. – Ishikana Takuboku 2. É manhã de Verão. Mas já as folhas Da figueira que seca se enferrujam E murmuram no vento E nos ramos que lhe tremem que lhes fujam. Dormir ou não dormir? Os fios eléctricos, Neles cigarras cantam, vão pelo céu acima; Murchas, as folhas tremem e os ramos temem O fim que se aproxima. Dormir ou não dormir? Quieto e escuro o céu, O céu que os fios cortam, Nuvens cobrindo o sol com seu véu. Cigarras tão distantes a meus ouvidos. E os que eu amo – perdidos. – Mamayara Chuya 3. As costas da mulher no espelho se espelhando Brilho macio de cera. Castanha, a cabeleira, No dorso seu tão liso luz de fosforescência. Borla de pó caída no lençol que, formando Com rugas de seu pano a carta marinheira De águas mediterrâneas, a Abril representa Em sua ausente essência. E o transe da mulher. Como cantava Com as linhas do corpo ruas de sua aldeia ...

Ecologia Política

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Desde há muito tempo que os arrivistas políticos têm vindo a usar a ecologia como biombo e trampolim de impulsão, na tentativa de ascenderem aos mais altos cargos da nação. A coisa não é novidade nenhuma, e já em 1981, António Elói, na rubrica Ponto de Encontro , que era aquela secção aberta à participação dos leitores, na Revista Sobreviver , apontava as linhas gerais desse contencioso que o tempo, ao contrário do esperado, por tudo resolver, apenas agravou. Dada a pertinência e desenvoltura do texto, em seguido o transcrevo, para que não restem dúvidas a quem pensa que está agora a descobrir a pólvora pròs fósforos, que essa atitude foi bastante comum em precoces datas, andaria ainda a ecologia de fraldas e gatinhas, arriscando sérias quedas dos bordos da democracia portuguesa, também ela sobejamente imberbe e de faces extraordinariamente salpicadas pelo acne da abrilenta adolescência política. Ei-lo: O MOVIMENTO DA ECOLOGIA POLÍTICA A luta ecológica não é um fim em si, é um meio 1. ...

Dizer a Liberdade

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Dizer "Aqui reina a liberdade" é sempre um erro ou então mentira: A liberdade não reina Erich Fried

Cinco Sonetos de Florbela Espanca

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Cinco Sonetos de Florbela Espanca O livro que ora se apresenta, das edições ITAU, custou 7$50, com oito páginas, algumas em branco é claro, que para cinco sonetos não eram precisas tantas, ainda que do tamanho de uma cautela da lotaria nacional: 10 x 14,5 cm (sem gralhas). Ou pouco maior, mas são sonetos, carago, e isso doura sobremaneira a coisa, mesmo para aqueles que não gostam de poesia, e preferem versos. Pois. FLORBELA ESPANCA "... Pelo seu apurado instinto de beleza formal, tão raro em mulheres até boas escritoras; pelo seu excepcional temperamento e vibrante sensibilidade; pela profundeza da sua alma revolta e ardente; pelo poder de comunicação com que, nos seus versos, se exprime o seu drama pessoal e o da paisagem que tão bem sentiu – Florbela Espanca é a maior poetisa portuguesa de qualquer tempo e um dos grandes nomes da nossa poesia moderna. Ninguém pode honrar Florbela Espanca; – ela é que nos honra. Ela é que honra as letras portuguesas." JOSÉ RÉGIO 1. Gosto de...

Sono de Homem

Quando "isso" – um homem quer lutar, pode lutar sem tréguas Dias e dias, léguas após léguas, O corpo a apodrecer, mas a alma no olhar. Mais pode resistir que a máquina mais firme Do desgaste, até ao último limite Quem ele tem em si qualquer coisa, em verdade, Que o ilumina Porque ele – o homem, floresce em claridade. Um homem, se amargurado E sem remédio destroçado Fica em suor, arquejante, imundo E não se sabe o que resta no fundo Dele; talvez, a aurora, a tremer, da besta, o essencial... Seu olhar abandona as fontes de altos fundos Para contemplar, dias a fio, sua mão que julgara imortal. Quando vencido e a dormir, um homem verdadeiro Dorme com a boca em terra Na primitiva argila e nu, sobre o mato rasteiro Braços em cruz contendo seus desertos. Tão frágil é, sepultado no sono Como no mar profundo Que a respirar não faz tremer vermelhas sombras E somente seus dedos, cheios de relva, se colam sempre ao mundo. Mas às vezes o vencido que dorme solta um grito Profundo de tormen...

Cantiga de Abril - Jorge de Sena

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal "Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade" Jorge de Sena Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha. Quase, quase cinqüenta anos reinaram neste país, e conta de tantos danos, de tantos crimes e enganos, chegava até à raíz. Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha. Tantos morreram sem ver o dia do despertar! Tantos sem poder saber com que letras escrever, com que palavras gritar! Qual a cor da liberdade? ...

Maria Anna Accioaioli Tamagnini

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Eis dois poemas daquela que considero uma das mulheres de excepção do século passado, com escrita límpida, de uma imagética ímpar, umas vezes a voar nos pressupostos do universo de Camilo Pessanha, outras, a navegar entre a expressão continental de Cesário Verde e o "crioulo" sentir de Venceslau de Moraes. Aqui ficam, portanto, como aperitivo para melhores e futuras abordagens... Não espelham o meu pensar nem, provavelmente o da autora, mas são bem o exemplo daquilo que um estilo cristalino pode fazer às palavras, tornando-as estrelinhas cintilantes num mar de magia ou céu de sons que nos entretecem. FOLHAS DE LÓTUS Sobre folhas de lótus escrevi As letras do teu nome, meu amor, Naquelas folhas que a sorrir colhi Ao debruçar-me sobre o lago em flor. Sobre as folhas de lótus desenhei O mais risonho trecho da cidade; E esse leve desenho que tracei Dir-se-ia uma paisagem feita em jade. O teu nome mais belo se fizera No relvo das letras bem gravadas. A paisagem lembrava a Primaver...