Alterações de Espírito

Estranhamente observável na sessão inaugural, Sinais de Fogo – que fogo? Amigo? Inimigo? De artifício? Ou apenas de fumo? –, pela nomenclatura, formato e coreografia, este boletim talk show dos pequeninos pareceu um recado encomendado pela questão coimbrã, em versão eleitoral semi-presendialista, para não contrariar o regime, com o fim de cortar à faca afiada da retórica e da semiótica social-democrata das primaveras marcelinas, em declarada versão remix das Conversas Em Família com direito a visitas (especiais ou espaciais, não se sabe bem...), condimentada com um apimentado gosto pelas quezílias comezinhas e domésticas, tipo marceladas em sofisticada bancada gastronómica da ML Modesto, na insensatez da guerra (fratricida) entre géneros, com vista a pôr os bons e os maus no mesmo plano (familiar), dando-lhe voz, é indesmentível, mas fazendo a inevitável separação consequente à evidentemente clara diferença que entre eles existe: uns, os bons querem retocar apenas a maquilhagem para continuar com o mesmo figurino (socializante); outros, os maus, querem alterar o modelo, embora não se preocupem com os pormenores e rendilhados do traje nem com as marcações do desfile. Erro grado, como é por demais salientado, numa questão onde as vidas, a qualidade delas, a natureza fundamental da democracia, se representativa ou participativa, se corporativa ou da cidadania, não passam, afinal, de mais uma destrinça burguesóide sobre bom senso e bom gosto, entre os quais vem o MST e... escolhe.
Que é recado ninguém contesta, todavia importa saber não quem o dá, mas quem o encomendou e como conseguiu impô-lo no universo da comunicação social lusófona, depois das arrelias, desmandos, incómodos e apoquentações que a Face Oculta tem detonado um pouco por todo o lado, demonstrando quão diferente é denunciar publicamente qualquer coisa ou pôr a boca no trombone, até na Rádio, que desde sempre foi uma espécie de baldio censório fedorento onde se vai afiando a lazulite quadrilheira conforme os interesses publicitários o permitem – leia-se, exigem –, no corta aqui, elimina acolá, no sonybitiano da refrega, que tempo é dinheiro sob as avalanches das crises, este nem lá entra que é para saberem quem é que manda aqui, diz o feijão entalado entre as escarpas da soberba e autoconvencimento, que é coisa que vai sendo esbanjada à torna baldia sob a cagança porreirista de atirar fora a vaca (armar em abastado) e comer depois só as tripas.
Por conseguinte, acerca das carambolas e jigajogas nas Faces Ocultas católicas – sempre gostava de saber que semelhança/ligação é que pode haver entre as cocas portalegrenses, as instituições judiciárias e as burkas islâmincas... –, convém referir aquilo que a Carta Europeia da Liberdade de Imprensa, reiterada no anopassado pela Comissária Europeia para os Media, Viviane Reding, e promovida pela comunidade – ou será tribo? – dos jornalistas europeus, cujos artigos primeiro e segundo sublinham inequivocamente ser a "Liberdade de Imprensa (ou Expressão) essencial para uma sociedade democrática, [onde] todos os governos devem defender, proteger e respeitar a diversidade dos media em todas as suas formas e políticas sociais, [porquanto] a censura deve ser absolutamente proibida". A Fábula da Raposa e das Uvas é mais velha que a Serra d'Ossa, e não basta dizer que as ditas (uvas) não prestam e estão verdes logo que se reconhece que o que caiu foi uma parra, e não um cacho delas, afirmar nunca ter tentado passar a perna à comunicação social incómoda, a disfarçar por ter sido apanhado, uma vez que é essa precisamente a estratégia mais simples e mais divulgada das mais velhas profissões do mundo: tenta-se, mas se algo correr mal, então descaradamente nega-se, se possível com indignação e acusando quem suspeita da marosca de não serem, nem terem a mínima confiança no amigo (desinteressado).
Pelo que resta concluir, visto nenhuma das partes envolvidas estar preocupada com o respeito, ou o desrespeito manifestado, nomeadamente a Justiça, que mais pretende ser secreta e secretista do que justa, à Carta da Liberdade de Imprensa (2007), é que o governo teve azar e foi apanhado (com a boca na botija) por quem sabe muito bem como as coisas se fazem, uma vez que também conhece a modalidade, precisamente porque já a praticou (no passado recente). Zangam-se as comadres, contam-se as verdades, eis o grafite que em rosa-choque e laranja-luminiscente pintalga os muros apodrecidos da identidade secular do (in)consciente colectivo que nos suportam a pátria, e esclarece porque continua a ser evidente que, façam aquilo que fizerem, tapem ou camuflem aquilo que camuflarem, onde há Fumo, há sempre (Sinais de) Fogo.



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