Postagens

O RETORNO DO VENCIDO

Imagem
O  RETORNO  DO  VENCIDO Por JOAQUIM CASTANHO Afinal, somos uma silhueta longínqua, que esforçadamente tentamos distinguir no horizonte... Resumimo-nos no olhar, no gesto, na fala. Em cada três palavras, uma, a de maior expoente, é falsa ou inconsciente. Temos o privilégio da ingenuidade e sabemos a plástica que nos corre nas artérias sinuosas colorindo o anatómico espectro. Possuímo-nos mais quando pertencemos integralmente, em entrega total e absoluta, a alguém, mesmo que continuamente apostemos em mudar, por sabermos que o/a nos não merece (definitivamente). Gostamos de nos distrair com bons oradores, com recordistas, com feitos humanitários e progressistas, com arrebatadoras obras de arte, desde a pintura à música, passando pelas restantes outras, mas o que sincera e profundamente adoramos é o silêncio – a magia do silêncio... Aqui já se acabaram todos os anseios. Liberdade? Sabedoria? Imaginação? Poder? Nada significam! Como a pequena bola que se...

DA NATUREZA DA POESIA

Imagem
DA NATUREZA DA POESIA Poesia não rima com sexismos E nada sabe de sacanagem, Nem das portas fechadas dos ismos Do poder, e moedas em cunhagem. É inocente sem ser ingénua, Vagabunda mas também exigente; É requintada quando ‘tá nua, E vocífera se meiga sente. Cala, sobretudo se muito quer, E diz principalmente por desdém. Mas tem jeito felino de mulher… E se cicia «sou tua » pensa «de ninguém ». J Maria Castanho

FLOR D'ENTARDECER

Imagem
FLOR D’ENTARDECER Pernoita-me o ser Num leito fulgente, Onde a lava a correr É saudade de gente… E ainda mais além Dessa profunda cor Aí me ateio também Por tua sede em flor. Pernoita-me o ser Aceso docemente Na flor d’entardecer Como se fosse gente! J Maria Castanho http://www.facebook.com/evolui.verde

O QUARTO CIGARRO

Imagem
O QUARTO CIGARRO                                      Por:                                      Joaquim Castanho Por hábito, ou por vício – que o quotidiano é composto de rotinas –, a hora da bica tornou-se uma referência quase mítica à minha maneira de estar em cada dia. Tanto pelo que novo, às vezes conseguia acrescentar; como pela ausência de novidades. E, porque aquilo que ontem foi variante à força de repetir-se se transformou em constante, saciando a neofilia, “assimilar desconhecidos”, pela frequência dos encontros, em conhecidos, tornou-se irrelevante quanto ao facto de estar presente. Dito e feito. Assim, o silencioso mistério que o aparecimento de Inês provocou, desvaneceu-se, e de...

DA INSEGURA SEGURANÇA DO AMOR

Imagem
DA INSEGURA SEGURANÇA DO AMOR Amar não é fácil para ninguém, E, muito menos, coisa para amadores; Que após ausência, a saudade vem Plantar incertezas, ânsias e dores. Amar é difícil, e se o fazemos bem, Ou com jeito cuidamos de nossas flores, Não raro vem a falta de jeito de alguém Fazer (re)florir novas plantas e cores. Amar é um (des)andar na corda bamba Contínuo, ou por tudo, e até por nada; Que mesmo que se a alma ginga e samba Logo o corpo entra em outra roubada. Amar dá arrepios, securas, rubores, E exige engenho e arte aos amadores.   J Maria Castanho

ORAÇÃO

Imagem
ORAÇÃO Hoje, sobre ti a Lua-Nova abre O seu cálice de ouro e sigilo, Quase copo de adaga ou sabre Afiado gume e gélido brilho. É cálice de renascida intenção A transbordar sombra de lado, Onde cabe humana condição Tecida esperança e tido eito Do verbo quer ser conjugado. Nada me digo. Ponho as mãos E cerro os olhos com respeito Ante teu sonho assim desejado, E à noite abro todo meu peito Pra que nele seja enfim tatuado. Ponho as mãos, mas o coração Esse, fica sempre do teu lado. J Maria Castanho   

A TRAGÉDIA

Imagem
    A   TRAGÉDIA Por JOAQUIM MARIA CASTANHO     Juvêncio Pernas nunca foi homem de falas desperdiçadas, nem palavras sabidas em ró-có-cós e caganeirices. Mas deu-lhe a vida, por mor de muita andança e surpresas várias, aquele semblante desconfiado e o cenho franzido de olhar os outros sob a pala do boné de bombazina castanha, que só tirava para dormir, e as mais das vezes nem para isso, pondo-o sobre a fronte, se de alguma sesta à sombra de árvore mais frondosa o calor e cansaço lhe impunham. As pressas o não impediam. E à companha dava jeito. Nado e curtido nas charnecas de outrora, nunca se adaptara solidamente às sociedades que a longevidade lhe fez atravessar: na de produção negou-se à prisão condicional dum emprego fixo e horário rígido; à de consumo, recusou a corrida sem tempo de olhar os campos, as aves, os riachos e os arvoredos; e tão-só da de comunicação quis aproveitar mais do que alguma musiquinha brejeira nas noites de sábad...