La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

6.16.2017

REGANHAR A PASSADA




(RE)GANHAR A PASSADA 

Plo óculo do infinito
Na descoberta incolor
Sonhos travam, e o atrito
Se refaz próprio propor 
E propósitos propõem
As singelas alegrias
Que pouco a pouco compõem 
Pegadas pra pegar os dias… 

Então, o verbo floresce
Pelas pétalas completo
No beijo que não esquece 
Carinhos d'avó e neto.

Joaquim Maria Castanho 

6.02.2017

Guerra Junqueiro, dizendo de si e de OS SIMPLES




“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessavam um mundo de misérias e injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas labaredas de oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana. E, depois de uma existência de sacrifício e pureza, de abnegação e bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram. 
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.” 

14 de Maio de 1892

Guerra Junqueiro  - Excerto da NOTA à edição de OS SIMPLES

4.21.2017

OS RAIOS DIGITAIS DE ARINA




RAIOS DIGITAIS 


São os ires e voltares de Arina na areia em raios X quem ilumina
E há no tempo altares de abrires a íris ante os milagres que vires
Relógios biológicos dos noves redondos às novidades da gravidez
Porque a dança dos números na cadeia da existência exige tua tez
Neles há elos que entrelaçam a urgência alfanumérica na sensatez
Se despem dos caprichos sulcando nichos de fluorescência e canto
Verdes ramos de silene nas frinchas do manto em retalhos multicor
Esculpidos nas escarpas do ser ainda investido da perfeição divina
Falésias fustigadas pelas marés do amor que a si mesmo se ensina
Quanto só se ama amando na vereda feita por quem muito caminha
Autoestradas a uma outra Roma sem César nem o incendiário Nero
Novo calendário onde os setembros são noves e o nove apenas zero
Recinto aberto dos deuses que duros não fogem e muros esfarelam
Quando as humanidades às vezes fiéis a seus poderes divinos apelam
Mulheres e homens tão-só sem os absolutos corcéis da exigida voz
Idades médias da refrega em laços redutos de refúgio e pura entrega
Socalcos na arena onde perante o temor o último reduto somos nós
A sós feitos nós da rede as mãos damos nas Íris conforme vamos
Assim a noite ensombre o dia e a sombra do mar na terra maresia
Que todo o ph está apenas no fósforo em Pi rico desta filosophi@
Dita nas Ágoras invisíveis e fóruns de ouro dos sentimentos vivos
Como seguro SOS da liberdade nos W que vítreos vencem os e-crãs
Transparentes almas à solta e triplo salto do sonho em solfejo digital
De esgar em esgar repartido sem instante nem o requerer consumido
Das exigências típicas ao profanar da liberdade e dessas liberdades
Pequenas de cada qual que tornam grande e valorosa a que é essencial
E única e múltipla e fecunda e transparente como o meu olhar em ti 
Às vezes insistente, às vezes inquieto, mas sempre forma de chamar-te
Pra mais perto, pra requerer-te como quem quer teu ser de mulher.

Joaquim Maria castanho

FILHO ÉS, PAI SERÁS; PAI FOSTE, FILHOS TERÁS




[FILHO ÉS, PAI SERÁS; PAI FOSTE, FILHOS TERÁS.]


“De acordo com João dos Santos, e muito anteriormente, Alfred Brauner, in Les Enfants des Confins, as crianças que foram vítimas de maus tratos são hoje pais que maltratam (igualmente) os seus filhos. Os que os não têm, ou sentem pudor em fazê-lo, descarregam a sua agressividade sobre os que lhes são mais fracos e/ou mais pobres. Forma-se assim, na sociedade, um círculo de irracionalidade, perversão e violência, camuflada ou latente, explícita ou operativa, a que é cada dia mais difícil pôr cobro. A não ser que as autoridades, a lei, os sistemas de saúde e educativo, reajam em conformidade, e imponham definitivamente o cumprimento dos Direitos do Homem e da Criança, criem maquinismos de resolução para a imaturidade e estabeleçam programas educativos que “reprogramem” os homens do futuro com a empatia e propriocepção necessárias ao viver em sociedade. Lamentavelmente até hoje, muito pouco tem sido feito nesse sentido. A educação tem estado centrada no ensinar a ensinar e/ou aprender, como no ensinar a fazer. É imprescindível que se progrida no sentido de estabelecer modus operandi educativos, não só que valorizem o indivíduo por aquilo que ele é, mas inclusive que o qualifiquem para o reconhecimento dos outros. A liberdade, sem estas estratégias de manutenção, pode transformar-se num pomo civilizador seco e estéril. O que sem dúvida negará a História da Humanidade, que desde os imemoriais e fantásticos tempos bíblicos, como dos da evolução biológica, assentou nela. A relatou. A consolidou. E a inspirou. 
A lei, a arte, são igualmente duas formas de organizar, de administrar, de executar, de gerir essa liberdade. O amor é a sua mais bela versão prática. Só os seres livres são capazes de nutrir semelhante sentimento uns pelos outros. Quando lutamos pela nossa liberdade, fazemo-lo principalmente para potencializar a nossa capacidade de amar. Quando faço um romance, um poema, um conto, uma crónica, tento apetrechar-me de mais uma prova irrefutável de como os outros são importantes para mim. De como eles integram a minha liberdade, lhe dão uma finalidade e me regozijam com a sua existência. Ao reconhecer que te amo, ao entregar-me de cabeça a esse amor, ao reforçá-lo com o pensamento e razão, estou não só a valorizar-te como pessoa, como também a reinventar-te dentro de mim, a acarinhar-te como se fosses o órgão mais importante do meu ser, ou o único que tem poder não somente para pôr os demais órgãos a funcionar, mas inclusive aquele que lhes atribui um sentido, uma direcção, um objectivo para o fazerem, para se cumprirem enquanto órgãos (vitais e essenciais). E bem, de forma saudável, se possível!”

In JOAQUIM CASTANHO
A Virtude Assassina, página 44

8.18.2016

E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA?




E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA? 

Se “a lei pune os funcionários públicos e os titulares de cargos políticos, que, no exercício das suas funções ou por causa delas, solicitarem ou aceitarem, vantagem patrimonial ou não patrimonial, que não lhes seja devida” (conforme afirma NARCISO MACHADO, juiz desembargador jubilado, no artigo de opinião A lei e ética como limites da acção política, constante do jornal Público nº 9620, do XXVII ano, de 18 de Agosto de 2016), então é, no mínimo, absurdo que ao abrigo dos usos e costumes tal não aconteça, em Portugal, com a regularidade e frequência necessárias e suficientes para sairmos dos lugares cimeiros do ranking dos países mais corruptos da Europa. Principalmente porque a “autorização legisladora” nacional, de acordo com a ordem (constitucional) vigente recai e está centrada na Assembleia da República e no Governo, o que indicia, consequentemente, que foram os políticos, instituições e altos funcionários do Estado, no exercício democrático de que estavam imbuídos, que legislaram para os poderes executivos, igualmente democráticos, e em usufruto de um direito que lhes foi outorgado/consagrado, aplicarem na prática da governancia, quer institucional, quer governativa.  

Ou seja, em abono da verdade, ou à luz da sensatez, consciência cívica e ética de um Estado de Direito, que aconselha que sejam exatamente os políticos e funcionários públicos os primeiros a cumprir as leis, não somente para não perderem a autoridade moral que lhes concede o direito (merecido) de as imporem aos demais, mas também para emitirem um sinal de transparência e honestidade democrática aos paisanos do establishment, sociedade civil e tecido económico/empresarial, fazendo a pedagogia do exemplo, eis que são incontornavelmente estes a fugir à lei, a fintar a justiça, a ludibriar as intenções do legislador, fazendo da ordem jurídica letra morta. 

O caso voltou a ser verificável hoje, na proposta administrativa governamental para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), em que das 19 personalidades que a integravam, só 11 foram aceitadas pela entidade reguladora para o fim em causa, o Banco Central Europeu (BCE), ou, mais rigorosamente 10,5 – uma vez que o próprio presidente da CGD se encontra em estado de exceção, acumulando à presidência do Conselho Administrativo da Caixa também a presidência da Comissão Executiva da mesma CGD, o que nos sugere haver já em ascensão uma nova estirpe de “donos disto tudo”. Digamos que tivemos sorte desta vez, porquanto fomos obrigados a cumprir a nossa lei, não porque fosse vontade expressa dos responsáveis nacionais, mas porque a Europa tutela neste capítulo da área financeira, o que nos deixa com a pulga atrás da orelha, pois se não fosse o BCE a interpretar e aplicar a lei, certamente esta seria cilindrada pelos célebres usos e costumes da tradição do, não obstante ela, a lei, “na terra do bom viver, faz-se como se vê fazer”, filosofia nascida do igualmente tradicional “uma das mãos lava a outra, e com as duas lava-se a cara”, e da cumplicidade pacóvia do “tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei”, tão ao gosto dos brexistas à portuguesa. 

É caso para dizermos que, felizmente, ainda vivemos em democracia e ainda integramos a UE – União Europeia… Que remédio! 

Joaquim Castanho

8.04.2016

ALMAS UNIDAS NUM SÓ ESPÍRITO




ALMAS UNIDAS NUM SÓ ESPÍRITO… 
Aguarelas de poesia e Encontro de poetas 2015/16
Coletânea – Edição de Autor

“Que tenho sereias que se despem de peixe
 Assim, na exata latitude de teu ser…”
In Joaquim Castanho
IÇADO (OURIÇO) DO MAR 
(Página 106)

Da explícita (ou implícita) simbiose que há entre a pintura e a poesia, nasceu um projeto que se configurou numa sequência de ações, eventos ou exposições, e que, finalmente, sob a coordenação de David Marques, revisão gráfica de Teresa Carvalho e patrocínio direto da Câmara Municipal de Torres Vedras e Junta de Freguesia Santa Maria, São Pedro e Matacães, se traduziu na edição de um livro de 298 páginas onde se reúnem e integram as colaborações a propósito de cerca de meia centena de poetas, dez pintores e algumas outras participações avulso, cujo resultado global é valorativamente superior à soma das partes, não só pelo seu contributo para a cultura do lugar, como também para a poesia, a língua portuguesa, a palavra escrita ou dita enquanto veículo de valores identitários e filosóficos, instrumento de marketing territorial, expoente de criatividade e estesia, ou elo de ligação entre gentes, localidades e regiões. 

Estruturado em VII Capítulos (Resumo biográfico dos poetas, Resumo biográfico dos pintores Aguarelas poéticas, O olhar interpretativo/poético sobre Aguarelas do Encontro Internacional de Aguarelistas 2015 – Santa Cruz, Olhar poético sobre o Município de Torres Vedras, Tema livre – De asas ao vento, Avaliação poética do Encontro de Poetas e O olhar interpretativo/poético sobre a Exposição “Aguarelas com Poesia”, de 19 de março a 2 de abril de 2016, integrada no Encontro de Poetas), tem o grande mérito de trazer para a ribalta do momento alguns poetas e algumas poetisas já nossos conhecidos, como igualmente muitos outros de que dificilmente ouviríamos falar ou, mais grave ainda, desconheceríamos o poetar, não fora esta oportunidade, como o são Abílio Manuel Carreira Santos, Ana Matias, Ana Rosa Pinto, António Alberto Teixeira Santos (Alberto Cuddel), António José Rebocho Arranhado Portela, António Manuel Esteves Henriques, António Matos Lopes Belo, Augusto Manuel Molarinho Andrade, Áurea Maria Justo, Carla Tavares, Carlos Cardoso Luís, Carlos Manuel Fernandes, David António Fonseca Marques, Elisa Pereira, Emanuel Lomelino, Florinda Timóteo Miguel Dias, Francisco de Assis Machado da Cunha (Frassino Machado), Hélder Neto, Helena Rocha Pereira, Joaquim Maria Castanho, Joaquim Ramos Pereira, Jorge Paulino-Pereira, José Alves Merello, José António Carreira Santos, José António de Jesus Gomes Adriano, José Vicente Faria, Liska Azevedo, Lucília Maria Barros Galhardo de Carvalho, Manuel Filipe Carvalho de Almeida, Maria Aline Mamede Rocha, Maria da Conceição Marques, Maria do Pilar Santos, Maria do Sameiro Matos, Maria Emília Lopes, Maria Graça Melo, Maria João Pedro, Maria Manuela Reis Frade, Maria Sousa, Marta Roml, Nicol Carmen Peceli, Olívia Maria de Andrade Guapo Ribeiro Faria, Renato Manuel Valadeiro, Rosa Martins e Vítor-Luís Grilo. Enfim, uma longa lista que corresponde a outros tantos poemas feitos com balizas determinadas e sob inspiração particular que, de uma forma ou de outra, nuns mais acentuadamente que noutros, se vão pouco a pouco libertando dos pomos pontuais motivadores para ingressar na esfera dos universais valorativos.  

Joaquim Maria Castanho 

4.06.2016

POUSO, de MARILU FAGUNDES




POUSO

"Entranhas da terra mãe / Abraçadas às filhas com afinco", as palavras/os signos e os seus referentes, concorrem para a preterição final: dizer através da negação do dito, revelando-lhe o avesso, as costuras. Não é fragilidade alguma, não é uma confidência ou lamento, não é uma carência de inspiração, não é um faz de conta, não é um truque de prestidigitação, não é uma afetação de estilo, não é um maneirismo palimpsestuoso: é a exposição (assumida) do timbre lúdico e mágico da poesia, essa pretensa coisa abstrata que apenas acontece quando a condição material sine qua non se concretiza, se mostra nas suas múltiplas facetas, particularidades que preenchem o vazio que lhes está reservado no cantinho estético-ético pluriforme e polissémico, que é apanágio instaurado e instituído no topo da pauta de valores, caraterísticas e potencialidades da espécie humana (a espiritualidade), da qual cada, uma ou um de nós, é humilde exemplar, sobretudo por que sensíveis ao reconhecimento do espanto, da dúvida e da comoção (JASPERS). 

A preterição (figura de retórica pela qual se declara não dizer, não fazer, não demonstrar/mostrar algo, mas que a própria declaração já encerra em si mesma), é uma arma que nunca é vã ou abusiva; é um anseio feito conquista. É um silêncio que se nota só quando é quebrado, por algo que estala, por exemplo, que cai, que pintalga, que eclode, que ecoa. É o traço meigo de cada passo a sublinhar o movimento no estático e parado espaço. 

Portanto, Marilu Gonçalves Fagundes (MF), entra na casa da poesia pela porta dos fundos (a folha branca), perante o espanto ao testemunhar o pouso das folhas e pétalas que sucumbiram aos elementos da natureza, microcosmos e reduções moleculares das estações do ano que buscam o abrigo do chão, a quietude, o refúgio final que as há de transformar pelo abraço maternal da fertilidade em partes íntimas (entranhas) da terra mãe, da qual se ergueram uma vez já à procura dos sublimes e etéreos cumes. Entra com muitas reticências, com estrofes pejadas de dúvidas, experiências que não se acomodaram às afirmadas e perentórias certezas, ou que não se satisfazem com a pré-interpretação do constado, do constatado, seja cheiro ou sabor, tato ou emoção. Porquê? Porque entra comovida com o que vê, com o arrastar do dia (ou da vida), com a compreensão (sorriso de mãe-terra quando repara nas ações dos filhos e filhas) das peripécias das estações nele, e de como o vão colorindo conforme a apetência elementar da ecosfera. E fá-lo por nós, para nos dizer que não é insensato ou indecoroso frequentar a beleza suprema (da poesia, do sublime, do ideal, do mágico arrebatamento, do êxtase) pela porta da experiência, da perceção, do material, da constatação pura e dura, do factual e reconhecido (fora de nós). Além de nós. Enfim, da metáfora... palavra, folha, flor, que nos atira para fora e a nós regressa depois num valor acrescentado insofismável, ilógico, que inebria (embriaga) inevitavelmente. Obrigado, minha amiga, pela compartilha dessa emoção e sentimento superior a que maeuticamente me conduziu (também). Ou por me ter feito perder o pé... Cair... Pousar... E ainda que não tenha feito sido declaradamente essa a sua intenção... _/|\_ Namastê _/|\_     
https://www.facebook.com/PoesiasDaNaturezaDeMariluGoncalvesFagundes/photos/a.440340856010035.113052.440202506023870/1133698943340886/?type=3&pnref=story

Arquivo do blog

A pessoa entre as sombras de ser