La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

1.30.2012

LUZIA, uma escritora que amava a sua terra, mas ela nunca lhe reconheceu a sua arte e personalidade...

CARTAS DE UMA VAGABUNDA
a LUZIA

Que belas cartas! Que suaves linhas!
São «Vagabundas», boa amiga? Qual!
Todas se voltam para Portugal,
Como voltam de longe as andorinhas.

Ora, tão altas, como as estrelinhas,
Em viva nebulosa espiritual;
Ora soluços de água; ou roseiral;
Ou sol cantando entre a seara e as vinhas.

Senhora de Lourdes e de França
Acaso entende a nossa língua? Alcança
Que falam dela? Talvez não, talvez…


Mande-lhe as “Cartas”, Santo António é luso
E lhe dirá: – «Deixai, que eu vos traduzo…
Que pena não saberdes português!»

ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA

1.13.2012

LUZIA, uma escritora portalegrense que os portalegrenses quase desconhecem...

Ribeira Formosa – 6 de Outubro

Aqui estou enfim, saboreando as apetitosas migas, esquecendo a civilização e fazendo as pazes com a vida. Não sei se a Joanninha anda de bem com ela… Eu andava de mal há muito tempo. Os homens – que é como quem diz também as mulheres… – tinham-nos indisposto.
Estas árvores, esta divina solidão, no abençoado silêncio, a saudade mais viva «das queridas vozes que se calaram» e… tantas outras coisas deliciosamente indefinidas, estão-nos reconciliando.
Por amor da beleza da terra perdoo a fealdade do coração dos homens – pode sempre acrescentar mulheres, que, entre os dois…
E pela doçura de tudo o que fica, esqueço a amargura de tudo o que passa. Não será duas vezes o mesmo coração em que pus o meu desejo, a minha esperança, mas daqui a muitos anos, se eu voltar, as mesmas sombras discretas me acolherão e, como agora, a terra me sorrirá pacificadora e linda.
Il fait bon… Sirvo-me da doce expressão francesa porque não encontro nenhuma em português que diga tanto. Il fait bon… As manhãs são azuis, luminosas. Não há uma nuvem no céu. De tarde toda a quinta fica banhada em luz cor-de-rosa, a luz dos incomparáveis poentes alentejanos.
Passo o dia na mais vergonhosa ociosidade. Nem sequer leio. Ando em lua-de-mel com este campo, que é o meu. Outro pode deslumbrar os meus olhos, outro posso eu achar mais bonito, porém só a este eu chamo meu… E sabe decerto, Joanninha, que infinita ternura encerra tão pequenina palavra!
Há entre o Alentejo e a minha pessoa mil afinidades. Já reparou quanto influe na nossa maneira de ser a paisagem em que nascemos?
Conheço à légua o alfacinha autêntico que, no colo da ama, frequentava já a Rua do Ouro, subia o Chiado e adormecia ao som dos pregões plangentes…
Conheço o minhoto, conheço o algarvio, conheço o beirão. Todos têm a sua marca inconfundível, mas nenhum é tanto da sua província como o alentejano e nenhum quer tanto à sua província. Corra ele o vasto mundo, passe anos sem a ver… Nunca a esquece. Nunca consegue desenraizar-se. Em toda a parte se acha estranho, tem a nostalgia das longas, desoladas planícies, onde a vista se perde, das charnecas áridas onde só desabrocha a flor da Xara, pequenina rosa selvagem, que se desfolha ao menor contato e dos campos de oliveiras de prata e dos campos de sobreiros com os velhos troncos ensanguentados, e da tristeza que tudo isso exala, tristeza-saudade, ansiosa e vaga; um não sei quê me encanta e faz mal…
A quinta da Ribeira Formosa foi cuidada e linda há… mil anos, quando aqui passei parte da minha alegre e endiabrada infância. Hoje é quase um bosque abandonado que o calor e a seca deste verão ardentíssimo devastaram ainda. Não há uma flor. Muitas árvores morreram. Já não cantam as alegres levadas. Calaram-se as fontes. Na ribeira corre apenas um manso fio de água, mas, à sombra dos pinheiros, está-se bem ainda. O olival conserva o seu bonito loiro cendrado. A vinha enfeita-se de tons vermelhos e quentes.
Demoro-me aqui até quinze ou vinte. Depois vamos para a cidade. Em princípios de novembro estarei em Lisboa.
Hei de ve-la muito. Hei de… Hei de…
Deliciosa coisa fazer planos, embora eles se desmoronem como os castelos de cartas que Therezinha constrói ao meu lado.
In LUZIA, Cartas do Campo e da Cidade, Portugália Editora. Lisboa, 1923

1.09.2012

E viva a língua portuguesa de torna-viagem!

O PÁSSARO EXÓTICO E A ABELHINHA SALOIA

Em egípcio, gato diz-se «miau». Ora, a novidade!... Isso, até os nossos bebés gatinhantes sabem! Afinal, não é essa a onomatopeia que mais usam para o chamar? Ao gato – digo eu!
Não há dia nenhum que não aconteça algo imprevisível a quem anda ao deus-dará. Ora lhe calha implicarem-lhe com os costumes, ora com as expressões, como com as companhias. O certo é desagradar a muitos, ser indiferente para alguns, tolerado pelos demais, e estimado pela família (mais chegada, ou dos que diretamente de si dependem). Porém, isso não aquenta nem arrefenta quem tem o brio e autoestima levantados ao pulso da cegueira de quem não sabe que, como reitera a voz popular, é bem pior do a que de quem não vê.
Não havendo a mínima razão para gostarmos de nós, sobretudo pelo que de inconfessável acerca de nós mesmos sabemos, desde as observações escatológicas aos erros e vergonhas inauditas, tentamos enlamear os nossos vizinhos com a peçonha de nosso existir, e vai daí que esfregamos trampa por todas as frontarias mais ou menos imaculadas com que nos deparamos. Se nos acertam, nem damos importância ao ocorrido, só para disfarçar e afastar o mau-cheiro. Erguemos as trombas ao céu, e desancamos quem se intrometa entre nós e a ideia que fazemos de nós próprios.
E se quando aprendemos a falar e escrever era suposto estarmos a prestar um enorme serviço à nação e à língua portuguesa, o que por ora salta à vista é que podemos limpar as ventas ao serviço que lhe prestámos. Porque há bestas pra tudo, e a língua não fica de fora. Os puristas do galaico são os maiores e afamados, sobretudo quando se insurgem contra o acordo ortográfico apenas porque se acham os herdeiros diretos da faladura lusitana… E pensam ao litro: isto é – se falam de vinho, duma zurrapa qualquer que foi ao Brasil, Angola, Guiné, Timor ou Moçambique, mas ninguém comprou e teve que voltar, dizem que ganhou qualidade superior tornando-o num torna-viagem de estalar os beiços e dar aos gorgomilos; agora se foi o léxico, a ortografia e gramática da língua pátria que foi aos mesmíssimos lugares distantes e voltou com novas expressões, aperfeiçoada nas fonéticas e valorizada na polissemia, com roupa nova na ortografia e sem maneirismos afetados nas gramáticas, então é um «aqui d’el rei» de achincalhar as repúblicas.
É óbvio que os puristas da língua são os mesmos que quando vão a encontros internacionais, em vez de falar o bom dialeto lusitano se travestem de poliglotas assumidos discursando no inglês de vender pentes e broches, acusando os chefes de Estado dos países de língua oficial portuguesa de não saberem inglês se se dirigem aos presentes em português, como já aconteceu com o Lula da Silva que numa Cimeira Internacional falou português e o nosso político representante da nação usou o inglês técnico dum curso intensivo de fim-de-semana… Mas isso não conta pra nada. Os brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, timorenses, goenses, são-tomenses, sentem orgulho em falar e escrever em português, cultivando o idioma dentro e fora de seus países, apetrechando-o de novos termos com cruzamentos indígenas e demais “procriações” alheias aos estrageirismos academicistas e cagofónicos habituais.
Portanto, a coisa está clara e óbvia. O acordo ortográfico veio pra ficar depois de muito jogar lama contra a parede de 170 milhões de falantes por três ou quatro gatos-pingados do negócio da palavra e criação literária. E agora, se querem ser lidos apenas têm que escrever de forma a que nós os entendamos, e não sintamos vontade de atirar os pasquins borda-fora logo ao primeiro parágrafo. Se não, miau!...
Coisa que tanto os nossos bebés como os eruditos egípcios sabem fazer com conhecimento do significado próprio, sobretudo quando reconhecem que aqui há gato escondido com a garrafa de fora…

11.14.2011

Há felinos com sorte macaca


O ISCO DO ERRO

"– Já sei o que houve – exclamou. – Este gato
acaba de anunciar o que aconteceu."

In JONH STEINBECK, As Vinhas da Ira

Há pessoas perante as quais me engano propositada e frequentemente, quer em nomes e datas, como em títulos e autores, correntes literárias e ideologias. Há outras frente às quais nem sequer preciso já de o fazer, a não ser para confirmar se continuam – ou não – a pensar acerca de mim o que antes pensavam, ou se a sua perceção motivada se mantém acesa e lhe incendeia a visão que a meu respeito têm. Em ambos os casos, porém, concedo-lhes uma vantagem, um atalho para se manterem à frente ou acima de mim, para nunca as perder de vista. Não são de confiança e, normalmente, isso perdura até que lhes dou o golpe de misericórdia, abatendo-as do meu cardápio de conhecidos.
São pessoas que se reputam de nunca admitir que qualquer outra que saiba mais do que elas possa estar certo. Singelas no ofício da maledicência, complicam o que é notório e vêem claramente visto quanto há de mais obscuro, nomeadamente na adivinhação das intenções alheia, projetando as suas. Estas são aquelas para quem a perversão é uma linha de conduta, medida de bom gosto e exemplo de sensatez. Com a experiência de vida perderam a inocência em vez da ingenuidade, quando devia ter sido o contrário, e não esporadicamente até o propalam aos quatro ventos. Ainda há bem tempo um político de nomeada o reiterou em declarações à imprensa, na sequência de um comício.
Mas a magnitude da problemática é geral, quer nos estejamos a referir nacionalmente como a nível europeu. Os gregos fizeram disso uma retórica e os romanos disseminaram-na pelo império, onde teve o seu inegável clímax durante o obscurantismo medieval. E embora o de hoje, não passe de um palimpsesto dessa época, o que é indesmentível é que continua a imperar, a decidir, enfim, a dar cartas onde quer que seja. A literatura não lhe foge à regra. Os ambientes culturais, artísticos, literários, também. E, por mais que nos doa a contradição, é exatamente neles onde a sua manifestação tem superior incidência.
Ainda não faz um mês, tive oportunidade de voltar a usar o erro como isco. Esfaimadas e sequiosas de desforra foram repetir o que eu dissera, e por elas considerado uma gafe monumental. Tiveram azar. Afinal, estava correta a minha afirmação... A lama que pretendiam atirar-me caiu-lhes toda em cima. Agora, andam amuados e ofendidos. Dizem que eu os enganei. Apenas o gato se mantém a tratar-me do mesmo jeito com que anteriormente me tratava, sem sofrer retaliações por tal. Ele continua meigo para mim, e essas pessoas não o tratam mais mal por isso, continuando a dar-lhe os mesmos mimos e atenções. O que é estranho, convenhamos; afinal, foi o gato que me anunciou o que sucedeu...
Há felinos com sorte!

8.19.2011

Fato literário


O Fato Literário

“Costuma andar seguro hum desarmado
Entre gente esforçada & generosa,
Que não ofende o forte ao descuidado.”

In Francisco Rodrigues Lobo, Égloga VI: Carta ao Leitor, com a Égloga seguinte contra a murmuração

Não importa que algo seja uma declarada mentira, ou que nos afiancem ser uma autêntica peta, daquelas coisas em que o impossível e o desfasado da realidade mais se revelem, em que nem o Diabo acredita, adiantamos, mas se estiver tão bem contada que, para nós, até mereça ser verdade, então a literatura acontece. Os escritores odeiam a realidade e declaram guerra aos desimaginados da vida. E os leitores, é precisamente por isso que os apreciam, ficam em suspenso das suas obras, as tornam na parcela de atualidade onde melhor se acomodam e repousam. Mesmo quando elas os inquietam, agitam e denunciam perante a mundanidade vigente.
Portanto, pretender que a literatura tem fins definidos e está ao serviço de causas maiores, até de ideologias que seja, é desconhecer em absoluto o que é um fato literário, isto é, desconhece que este é tão-só um transporte (veículo) de ideia, sentimento, emoção, artefacto, produto cultural, sensação, deleite ou provação, entre um mundo e o outro, entre o universo dos espíritos e das essências e o universo da matéria e das formas. Escrever é fazer aparecer ou desaparecer coisas que antes não existiam, ou existindo, ninguém as via dessa maneira. É milagre; é – mas não desses que transcendem o ser e migram para as esferas do divino e do paranormal. É milagre; é – mas somente porque embriaga sem álcool ter. E todavia, mesmo quando nada muda e nada altera, tudo muda em nós como fora, incluindo quanto do assim que fora sempre e imutável parecera, mas de um momento para o outro se transfigurou e assumiu qualidades jamais observadas.
Isto é, porque um fato pode ser um fato mas também é literário, o que faz toda a diferença. Ter uma fotografia de uma terra ou uma descrição das vivências tidas nessa terra, embora a mão que registou ambas seja exatamente a mesma, torna-as caprichosamente díspares, podendo nelas haver igualmente aquela intenção estética que transforma uma fotografia numa obra de arte, ou uma reportagem numa peça literária. Quanto escuto um fato literário, sem que ninguém haja pronunciado qualquer som ou palavra, faço uma coisa muito diferente de ler um enunciado escrito numa das línguas que consigo decifrar. Escuto-o com imagens que não me estão acessíveis pela visão. Compreendo-o, deixo que ele altere todo o meu sistema consciente e inconsciente, os meus órgãos, vísceras, sentidos, ânimo, atividade cerebral e motivação, reagem-lhe, às vezes até de forma aversiva, mas eu não posso fazer nada para o evitar. Quanto muito, reconhecerei que gosto ou não gosto, que pode haver ou não coerência entre as suas partes, admitir que lhe correspondem um princípio, meio e fim, bem como uma indivisibilidade insofismável, porém, sem a mínima possibilidade de interferência nesse processo.
Posso até colaborar ou implicar com o autor, reconhecendo-lhe valia ou não; todavia, se a sua literalidade já foi definida, tal como ao seu criador, estou totalmente impotente quanto a inverter ou reiterar essa classificação. É literário, logo ninguém mais terá mão nele. Mete fora do conceito de realidade toda e qualquer noção que dele se possa fazer. Posso mesmo criticá-lo, interpretá-lo, analisá-lo, valorizá-lo, que tudo lhe será indiferente. Os outros podem ainda subescrever a minha crítica, ou serem-lhe opositores, que jamais o beliscaremos.
Ou seja, conforme lembrou Francisco Rodrigues Lobo lá no longínquo da sua Corte de Aldeia, onde o século XVI se espraiava com a espuma dos dias, e o tempo se media pela curvatura do Sol, não carece ao fato literário andar armado em sabichão e pretensioso erudito, nem escorar-se na filosofia das verdades incontestáveis ou (estatísticas) da realidade inegável, para andar seguro e reconhecido, desde que frequente ambientes de gente esforçada e generosa, a quem o mundo nunca acaba na ponta do nariz, para se ver entendido e admirado. Porque ele é o grão de que se há de fazer o pão que saciará os esfaimados de sonho e de esperança, que são os quantos nunca esquecem que das maiores invenções que a humanidade teve conhecimento foi ela mesma. E a literatura o espelho onde pode ver-se, refletir-se, admirar-se, abonecar-se, maquilhar-se, sublinhar-se, repetir-se, distorcer-se, cristalizar-se e sublimar-se. Enfim, o seu argumento essencial…

8.07.2011

Um Conto de Georges Lorinczy

O CADETEZINHO DE FRIBURGO
Georges Lorinczy*
Tradução de Cristiano Lima


Que um herói de romance não seja de condição a encarar, como um modelo exato e preciso, o bom senso na vida é o que, no fim de contas, ninguém melhor do que nós o sabe. O herói do romance está em pé de guerra com tudo o que, na vida representa o bom senso. Mais: ele está tão em pé de guerra com o bom senso como com a vida. O primeiro dever de um herói de romance é ser interessante, senão nem um gato lerá o romance de que ele é herói. E, nesse caso, pergunto-lhes para que serve ser herói de romance e se vale a pena afadigarmo-nos a escrever a sua história, visto que só temos uma preocupação: interessar o leitor. Numa palavra: é necessário que o herói de romance seja um herói dos pés à cabeça. Seja que herói seja, ele só deve ser herói.
O cadetezinho de Friburgo era um herói verdadeiro, um autêntico herói. Ou antes, ele vai tornar-se um herói: herói da vida ou herói de romance, pouco importa. O que é certo é que vale a pena ocuparmo-nos dele. Também, se assim não fosse, não diríamos uma palavra.
O que o cadetezinho de Friburgo nos diz respeito é uma coisa de que não nos sentimos obrigados a dar contas. Todos sabem que, de fato, tudo o que existe sobre o mundo nos interessa. E o cadete de Friburgo com soja razão, pois foi ele que nos ensinou a língua francesa.
Conformando-nos com o velho princípio in medias res, vamos precipitar-nos de um salto para o meio do romance.
A falar a verdade, não foi a meio do romance mas na grande estrada de Tarnocz que o cadetezinho de Friburgo encontrou Simon Simonyi, Simon «o Forte», que não era célebre apenas pela sua força física mas também pela força do seu espírito, à qual deveu ser eleito subprefeito do condado de Bars. É conveniente saber-se que, neste tempo, isto é, em 1861, o único caminho-de-ferro que existia na Hungria era o que ligava as cidades de Peste, Erseknjvar, Pretesburgo, Marchegg e Viena. Os nossos bons primos, os austríacos, que nessa época exerciam ainda, na Hungria, um poder discricionário, tinham mandado construir esta linha única, a qual era para eles tão urgente e necessária como o é uma mosca para uma aranha. Ao enriquecermos, deste modo, o nossos conhecimentos de história natural, resolvemos um velho problema, porque, sabendo como morrem as moscas, ficam igualmente a saber como engordam as aranhas. A estação de caminho-de-ferro mais importante da Hungria do Norte era a de Tarnocz. Ali é que os habitantes da Alta Hungria tomavam o combóio, quer o destino da sua viagem fosse Peste ou Viena. E também ali se apeavam, quer chegassem de Peste como de Viena.
No caso que nos ocupa, Simon Simonyi, Simon «o Forte», chegara de Viena a Tarnocz, onde o cocheiro, de libré de gala, o esperava no seu break igualmente de gala. Simon o subprefeito, Simon «o Forte», saltou rapidamente para o carro, e logo em seguida saltou não menos rapidamente para o chão. Uma charrette tombada barrava o caminho.
Simon Sdimonyi, como homem experimentado, examinou a situação num golpe de vista. Ao lado da charrette voltada, a roda estava no chão. Um homem esforçava-se por a meter no seu lugar. Mas não o conseguia. Simon Simonyi não disse nem uma nem duas: dirigiu-se à charrete e, em trinta segundos, ficou ela assente nas suas quatro rodas. O condutor da charrete trepou para o seu lugar. Simonyi acenou-lhe e disse em tom jovial:
– A estrada está livre.
Do fundo da charrette alguém agradeceu em francês:
– Obrigado, meu caro senhor.
Só então Simon o acrobata olhou para o viajante. E teve um gesto de surpresa:
– Olha quem ele é: o Sr. Pugin!
Reconheceram-se. Coube, então, ao Sr. Pugin a vez de se regozijar.
– Que feliz acaso! Sou eu, de fato, Sr. Chimoni.
Pugin, o francês, era também uma celebridade: um homem elegante que há dez anos ensinava francês, de castelo em castelo, aos húngaros da Alta Hungria. Vinha precisamente de Neczpal, no condado de Turova, onde fora durante dois anos hóspede e professor de francês dos Justh, no seu famoso castelo duplo. Aqui, neste castelo alegre e hospitaleiro, Simon Simonyi e Leon Pugin tinham-se divertido juntos, diversas vezes.
– Eu vou a Peste, Sr. Chimoni – acrescentou ele. – E o senhor?
– Eu vou festejar o aniversário de um amigo. Faria bem em me acompanhar
– E quando regressaríamos?
– Quando tivéssemos cozido a nossa embriaguez. Além disso, o senhor encontra Peste sempre que queira, ao passo que só há no ano um dia de S. Guilherme.
Pugin refletiu. Mas nem a oferta sedutora nem a reflexão foram perdidas, tanto a oferta era vaga quanto sedutora e prometedora de distrações. Nesta época, a juventude não ia ao castelo para dormir, mas para se recrear. Não se ouvia apenas ressoar o pandeiro dos guizos de zíngaro mas também as esporas. E nem um nem as outras convidavam a dormir, mas a folgar. Pugin acabou por saltar para o break de Simonyi. Nem perguntou onde o levava nem onde se festejava S. Guilherme. O que era bom para Simonyi não podia ser mau para Pugin. Uma hora depois, apeavam-se em Ivanka, em casa de Guilherme Toth.
A festa em Ivanka durou muito tempo para o cadete de Friburgo. Pugin passou perto de dez anos em Ivanka. Ensinou francês a Guilherme Toth, a sua mulher e aos seus três lindos filhos e, mais tarde, aos três netos, os três lindos rapazes de Turocz.
Nesse tempo as velhas terras nobiliárias húngaras estavam ainda integralmente nas mãos dos húngaros, como todas as virtudes e todo o encanto ancestral dos castelos. Graças à sua hospitalidade serena e amável, o estrangeiro tinha logo nos primeiros momentos a impressão de que estava em sua casa. Guilherme Toth, que foi mais tarde ministro do Interior, depois presidente do Tribunal de Contas e, enfim, membro da câmara dos Magnates; que foi o braço direito e o íntimo de Francisco Deak, era, então, apenas o jovem deputado pelo círculo de Nyitra, na Dieta húngara, mas, na opinião pública, o herdeiro e a esperança de uma carreira fulgurante. Sua mulher, uma Kossovich, era o encanto e o espírito personificado.
O nosso amigo francês, o honrado Pugin, o cadete de Friburgo, era uma individualidade ainda mais complicada, quanto mais não fosse, pelo seu passado movimentado. Batizámo-lo de «cadetezinho de Friburgo», porque o romance tumultuoso da sua existência principiara nesta qualidade e neste sentido, pois ele começara a vida na escola de cadetes, em Friburgo. Nascido na Suíça francesa, aos doze anos era já cadete da escola de Friburgo. Era já, nessa época, um aluno atleta: a sua bela cabeça de leão coroava um corpo vigoroso. A cidade de Friburgo estava então envolvida na guerra civil. A população revoltada cercara a fortaleza onde tinham instalado a escola, e nesta encontrava-se o cadetezinho de Friburgo, Leon Pugin. Foi ele que, uma noite, descobrindo que os insurretos preparavam um assalto, deu o alarme. Avisou a guarda, e toda a escola militar, com seu pessoal e a tropa, repeliu vitoriosamente a investida dos assaltantes. É claro que o nosso cadetezinho de Friburgo tomou parte neste combate noturno, e portou-se heroicamente.
Após a batalha, o comandante da praça ofereceu-lhe uma espingarda de honra, a título de distinção, de recompensa e de recordação de um irmão de armas.
O cadetezinho de Friburgo tomara parte no combate apenas para satisfazer a sua ânsia de aventuras. Fugiu depois da escola de cadetes. Foi parar à Polónia russa e viu-se envolvido numa aventura espantosa, na corte de não sei que espécie de grã-duquesa russa, na sua qualidade de professor de francês. O grão-duque era um autêntico grão-duque de opereta: ciumento e brutal. Mandava guardar por cossacos a sua mulher, uma polaca nova e linda.
A bela infortunada detestava naturalmente seu amo e senhor. O nosso cadetezinho, de coração muito inflamável, tornara-se um lindo rapaz, e o elegante mestre de francês, mestre não só na linguagem como na sedução. Não havia ninguém como ele para saber contar uma anedota. Acompanhava, com os gestos e uma fogosa mímica, as suas narrações variadas, e exercia um encanto mágico sobre a sua bela auditora, educada no ambiente das formas glaciais do cerimonial aristocrático.
O romance complica-se. O grão-duque não está em casa. É meia-noite. Tudo dorme. Os dois cossacos, guardas da fé conjugal na antecâmara da grã-duquesa, dormem também. No corredor tenebroso, alguém desliza a passo de lobo para o quarto da bela prisioneira. Com precaução, passa por cima do corpo dos cossacos adormecidos. E depois… Traição!... Como numa opereta… Os traidores caem sobre os amorosos, no momento em que eles menos esperavam. Em recordação deste perigo mortal, a mulher meteu um anel no dedo do cavalheiresco francês. E o cavalheiresco francês atirou-se cavalheirescamente de uma janela. Foi direito a casa do pope da aldeia. Era o único homem que tinha um cavalo. Deu-lho para ele fugir. O outro dirigiu-se para a floresta. Através de montes e vales, saltou fossos e toda a espécie de obstáculos, sem mesmo saber o que fazia. No seu encalço, cercando-o de perto, os cossacos lançaram-se em sua perseguição… Esfomeado, transtornado, esgotado, com o fato em farrapos, depois de dias sem repouso e de noites sem dormir, chegou a território húngaro. E foi só em Neczpal, no condado de Turocz, que ele pode finalmente descansar e recomeçar uma vida digna de um homem.
Nos dias de tranquilidade que depois teve, gostava de contar as suas atribulações e aventuras, muitas vezes num tom de satisfação e de alegria, ao mesmo tempo subtil e sonhador. Mas às vezes entusiasmava-se com a narrativa. Soltava profundos suspiros e sacudia a sua bela cabeça de leão, principalmente se lhe sucedia falar com a grã-duquesa.
– E o que é feito desse famoso anel? – Perguntei-lhe um dia.
O olhar de Pugin encheu-se de melancolia. Pareceu-me que, sobre a testa, lhe passavam nuvens.
– Ah, o anel? Ela tirou-mo…
– A grã-duquesa?
– Não. A primeira ribeira da Polónia que atravessei a vau… Deixei-o cair no Dunajec…

* Nasceu em 1860. Enquanto membro da Academia Petofi, foi um escritor de tendência acentuadfamente naturalista. Entre os seus melhores romances figuram Os Potentados da Aldeia, Sobre a Minha Terra e O Monte de Vidro.

8.04.2011

Troikas à portuguesa


Toma, que é prò tabaco!

“O Estado terá de ser mais flexível e versátil, para acomodar os pequenos impérios de diferenças que nos vão sendo revelados e a atitude cultural em que se consubstanciam.”
In Francisco Pinto Balsemão, Progresso Social e Democracia, nº 3/4

Acabou o tempo do fazer política brincando ao fingir que está tudo bem, derramando ilusão por todos os meios, estatais e públicos, como privados ou corporativos, alimentando o regabofe e ramboia de uns à custa dos demais, incluindo daqueles que nasceram há pouco ou ainda nem sequer foram congeminados. Segundo o ministro da economia, o seu ministério, só em carrões e respetivos choferes, além de outras ostentações inequivocamente ofensivas para os cidadãos comuns que entraram obrigatoriamente nas ações de austeridade nacional, o glamour e finess do palacete e seus palacianos, é de bradar aos céus. Neste, caso, à Troika bendita, por cujo memorando nos vamos alinhar nesta legislatura; porque quem deve, tem que pagar, e quem se compromete tem obrigatoriamente de cumprir, coisa que o Estado com o establishment português apenas entendia como à moda das scuts de sentido único: se for pessoa, contribuinte, cidadão lá vem penhora e juros de mora, mas se for instituição pública, autarquia, fundação e ministério, é tão-só modalidade normal, tradicional e modus operandi estabelecido e “legal” – atrasos e contas, só os nossos e no pagar.
É claro, que os senhores da logística e do capital lhe franziu o nariz. Não gosta de coisas simples, efetivas, eficazes, baratas, sustentáveis, honestas, francas, diretas e sem percentagem à vista por derivados e afins. Isto está mau, mas também não é para tanto. Erros qualquer um comete, que é para isso que somos humanos, defendemos o humanismo e reivindicamos o antropocentrismo, e não entremos agora a alardear com exigências de responsabilidade, rigor e resolução do défice e do endividamento, senão ficamos sem nada pra fazer nem onde ganhar a vida – pensam eles, não o dizendo, claro está, mas deixando que a expressão e o semblante fale por eles.
Outros, aqueles que votaram no Salazar para personalidade do século passado, desabafam entre si que murumurando um «porra: isto do Salazar, era a brincar, só pra chatear os comunas…», mais ou menos convicto, tentando inverter a marcha, alguns mesmo afiançando estarem deveras arrependidos com a expulsão do Sócrates para outras cicutas e Sorbones. Se razão lhes assiste, é no não terem pensado antes, porém, considerando que nunca fizeram de outro jeito, não se vislumbra maneira de alterar o provérbio popular que enuncia que burro velho não aprende línguas, porquanto todos sabemos não haverem outros veículos mais eficazes para materializar, realizar, demonstrar o pensamento – as ditas e cujas com que se fala. Nem melhor reforma do que aquela que é ministrada pelos reformadores que, como todos sabemos desde que E. Hubbard o disse, “são aqueles que educam o povo a apreciar aquilo de que precisam”.
Provavelmente, aqueles que leram as minhas crónicas no Fonte Nova devem estar lembrados do lá se dizia. Foi até por elas que alguns me chamaram de iluminado, pondo ênfase precisamente no termo, daquela forma brilhante que o português lhes propicia afirmar o contrário de uma coisa nomeando-a. Alberto João Jardim deu-lhes a resposta agora, através da SIC como suplemento vitamínico madeirense prò continente e seus continentais adjacentes. Não perderam pela demora!
Ou seja, os portugueses espertaram, e já não se deixam comer por trouxas por todos aqueles que dizem defender as suas ideologias, que ter partido ou abanar a bandeirinha não é mais livre-trânsito para a função, nem o tripudiar dos utentes/utilizadores um abono de garantia no posto de trabalho, quer se esteja anexo às autarquias como ao poder central – ou paralelo. A flexibilidade deve reger-se pela competência, e os incompetentes têm que deixar de ser um ativo na administração nacional. Se não, ficamos todos troikados!

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A pessoa entre as sombras de ser

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Eis o moleskine oficial de Joaquim Castanho, os textos particularmente na forja, o jornal de parede na oficina de trabalho na escrita dos dias, onde os amigos íntimos podem constatar em primeira mão o que depois será público