La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

8.30.2006

Knopfli, Rui: escriba de esquina

TESES EM CONDOMÍNIO FECHADO

5. As migrações autorais com diferentes sotaques dentro do discurso literário escribalista

Do ponto de vista da utilidade na produção de escrita criativa, os blogs não funcionam como órgãos de comunicação social, abertos e públicos, mas são excelentes instrumentos de trabalho, ferramentas de edição, antecipados prelos, cujo suporte electrónico facilita, quer em termos de flexibilidade como em condições de visibilidade, o programa heurístico e de revisão contínua sem o qual qualquer atelier de literatura não pode passar para melhorar e evoluir dentro da sua performance estilística. São o painel – mas não a agenda ou diário de bordo!, que esses têm uma vocação diacrónica específica de localização datada da obra ou partes dela – de oficina literária onde escritor aponta as primeiras versões do seu trabalho, esclarece os propósitos e intenções que lhe são adjacentes, apenas acessível aos seus leitores íntimos, amigos de confiança de quem não nos importamos que olhem por cima do nosso ombro enquanto se escreve, como antigamente, nos tempos áureos e mais prósperos da literatura portuguesa, acontecia nas tertúlias dos cafés e livrarias, entre quem privava de perto com os actores das letras, que eram os seus primeiros ouvintes e críticos, aos quais o autor senso e gosto prezava. Tal como aconteceu com inúmeras figuras representativas da literatura portuguesa e que por esse facto reforçaram o seu estatuto nela, ganharam quorum social, uma tábua de resistência e ensaio ambiente, consolidação de discurso e análise de teoria de vida, de que são exemplo Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, José Régio, Fernando Pessoa, António Botto, Gomes Leal, Carlos de Oliveira, Almada Negreiros, Cardoso Pires, Manuel da Fonseca, etc., etc., que se encontravam regularmente na Bertrand, na Brasileira, no Gelo, no Central, no Alentejano, para contarem as novidades do seu labor, lendo-as ou dando-as a ler em primeira mão aos seus confrades e compinchas, parceiros de discussão ou adeptos de ideologia, assim hoje cada escriba pode crescer internamente sem se privar do convívio e confrontação gregária que o alicerça na humanidade que constrói e a que simultaneamente está sujeito, não obstante os cafés e salões de chá terem perdido a decoração, a frequência da estirpe intelectualizada, disponibilidade e ambiente convivencial ou tertuliano de pretéritas datas, motivações e estratificação social propícia. Pois “quem somos, senão o que imperfeitamente sabemos de um passado de vultos mal recortados na neblina opaca, imprecisos rostos mentidos nas páginas antigas de tomos cujas palavras não são, de certo, as proferidas, ou reproduzem sequer actos e gestos cometidos? Frases incompletas, vidros quebrados, arestas de estilhaços onde sangramos palavras? Animais inocentes que porfiam na cegueira das trevas a demanda tenaz do seu claro sentido?”

Assim, desse cuidadosamente íntimo entrelinhavar no conflito entre prosa e rima, maquinismo que catapulta a escrita para lá das significações estritamente ordinárias, vulgares ao amanuense como ao filósofo, pejadas de argumentação e retórica do advogado em causa própria, o blog permite estabelecer um grupo permanente de convivas ou cumplicidades externas ao processo de criação literária, no entanto suas integrais testemunhas nunca indiferentes e antes participativas, senão solidárias, críticas, que a abonam ou agregam, revolucionam ou prorrogam, nos ditames subjacentes à estética, corrente ou doutrina interiorizada, acrescentando-lhe a mais-valia da gregaridade, da socialização e da ética, editando-se como bastidor de dimensões supra espaço-quando onde a arte ganha foros de meio de civilização e perde as funcionalidades de apêndice, de acessório na cosmética do narcisismo individualista, não como passaporte electrónico para universalidade literária mas sim, e nomeadamente, enquanto panóplia de opiniões interessadas e afectas ao género que ao momento vigora na imagética do seu actor, imperando sobre o seu par no intermitente contencioso de onde nasce incontornavelmente cada obra.

O escriba acocorado

Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver que se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.

In O Corpo de Atena, de Rui Knopfli

Outro escribalista que a par de António Quadros e Rui Knopfli (RK) merece referência nestas teses de acento convexo, quer pela sua conduta de escrita, quer pelo seu difuso refundir poético na criação romanesca, é Vergílio Ferreira (VF), sobretudo naquela que foi uma das suas mais exemplares experiências no âmbito do escribalismo: Carta a Sandra. No entanto, e por questões de intercepção diacrónica, geográfica e conotativa (ambos conviveram em Lourenço Marques onde editaram, em conjunto, os cadernos Caliban), seria de muito mau tom saltar para VF sem tocar no seu reverso, visto que se neste o prosador vingou foi por ter sido sustentado com discurso do poeta, amamentado pela sua imagética, em RK foi a poesia que se entrincheirou na narrativa pessoal e plástica, deslindando formas esculturais de étimos que à memória só se revelaram pelos sinuosos arrimos do inconsciente, considerando que este canteiro de palavras, cinzeladas no mármore da carne viva, na pedra árdua do palimpsesto, em estrofes penosamente reiteradas no sangue como incessante procura de justiça e de verdade sob o ruído das torrentes subterrâneas, na imemorial mó granítica e circular com que o humano balizou os horizontes do tempo, buscado no espectro da rosa dos ventos não como realidade dum corpo mas antes corpo de verdades e falsas mentiras, enquanto rosto de algoz que inclusivamente é a face da própria vítima, também foi um dos que tiveram de resolver a tirania da bissexualidade genérica consumando o incesto de deixar-se penetrar pelo discurso narrativo na sua poética de quietas estátuas de sal, palavras corrosivas, danosas como vermes que perseguem a ideia, cativando-a e perturbando-a lentamente, subvertendo-lhe a vontade, exaltando-lhe os sentidos e, amorosamente, desfigurando-a, até já nada dela restar senão o poema, intencional e propositadamente fora de qualquer rima, que trabalha dura e dificilmente a madeira rija dos seus versos, sílaba a sílaba, palavra a palavra, mas que não rimam simplesmente para se não violentarem e se sentirem esperadas. Feitos prosa escorreita, se lhe estilhaçarmos a configuração na página para os lermos em linha corrida.

Luís de Sousa Rebelo diz dele – O Escriba Acocorado, livro concebido entre 1971 e 1977, mas somente editado em 1978 –, no prefácio a Memória Consentida: 20 anos de poesia 1959/1979, da Biblioteca de Autores Portugueses, edição da Imprensa Nacional / Casa da Moeda, que é "uma narrativa em treze poemas, delimitados por uma proposição e uma posposição", sob a estruturada ordem de poema épico "onde o acento lírico põe na voz uma mágoa de naufrágios e derrotas cruéis, que impõem o exílio do espaço habitado e bem amado. À perda das areias, das águas e dos rios conhecidos, ao ufanismo de outrora, canto inocente da infância arruinada, impõe-se de novo a consciência da única continuidade sólida na trajectória do seu próprio ser: «... pátria é só a língua em que me digo.»" Já que é "nos desconcertos do mundo, que constitui um dos grandes temas d'O Escriba Acocorado, onde se combinam todos os sofrimentos da humanidade milenária, desde Homero a Sá de Miranda ou Camões, desde a Ilíada à Waste Land de Eliot, com as provações do tempo lusíada, Knopfli não deixa de comentar a ironia dos deuses:
«pergunto-me se o meu destino nisto se concertou:
descer a última vertente sob os plátanos do Mall,
restos de inverno mordendo o ar primaveril.»"

O que é quase a essência do escribalismo, se considerarmos que o exílio do espaço habitado e bem amado que refere, mais não é do que a revelação projectiva daquela outra expulsão interna à língua pátria, em que foi notoriamente coagido, impulsionado, para escolher entre poesia e prosa, mas ele, o autor, porque tentou (e conseguiu!) fazer uma à custa da outra, igualmente transferiu o seu desconcerto interior, o desencontro íntimo, para o mundo real e visão que dele formara: filosofia de vida, conceito de sociedade, percepção do cosmos e teoria originária da vida. Que enformam categoricamente num "centro trágico" preenchido por inúmeras "contradições, angústias, fraquezas e carências" passando ao lado da vida conforme foi apanágio da malta da dialéctica do blusão e das patilhas. Como aliás, ainda é!

Escriba bipátrido que professou a sociologia das esquinas sentado na borda do passeio com os rebeldes do tacão martelado no solo (geração de expatriados moçambicanos que reúne uma imensa plêiade de artistas e intelectuais de onde se destacaram nomes como o de Alberto de Lacerda, Helder Macedo, Virgílio de Lemos, Ruy Guerra, Fernando Gil, Pancho Miranda Guedes, Pepe Diniz, Bertina Lopes, Grabato Dias, Eugénio Lisboa, por exemplo), precisamente no vértice de confluência perpendicular entre o essencialismo de ser e o existencialismo de estar, que nunca se embrenhou empenhadamente e com exclusividade na claridade neótica de qualquer delas, nem sequer intervalarmente, mas antes se instalou naquilo que alguns apelidaram de lirismo lucidamente vigiado, o que verdadeiramente não sei que seja por demais que a alucinação se imiscua nas minhas imagética e teoria da crítica, embora tudo aponte para essa espécie de contrita proclamação de quem em atenta vigília cruza o périplo das noites de olhos perdidos na brancura manchada do papel, recriminando-se delas (brancura e mancha), qual detractor sistemático de si, progredindo com infalível pontaria na pista dos seus modelos (Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Manuel da Fonseca, Vladimir Maiacovsky, Miguel Torga, José Régio, Bertolt Brecht, Alexandre O'Neil, Augusto Gil, António Nobre, João de Deus, Vinícius de Moraes, T. S. Eliot, Robert Lowell, Herberto Helder, Camões, Jorge de Sena, André Vozenesensky, Gunter Eich, Kavafi, Dylan Thomas, Po-Chu-I ou Wilfred Owen), com a teimosa persistência de quem trabalha vigilante (e não esquecer que os vigilantes também podem ser os paisanos do moralismo, policiadores voluntários do bem-pensantismo e da ordem divina...) na oficina escura sem-mais-nada que as arestas vivas, da dureza do diamante, sempre com ar discreto mas minando os poderes instituídos que lhe retribuíram à letra, como se veio a confirmar no final da sua vida pela atitude dos Outros (país em que nascera como uma criança longe) a quem pertenciam as suas duas pátrias – Moçambique e Portugal – mas a que teve de renunciar para se abrigar no cortejo a Sua Majestade, em Inglaterra, como consequência do período pós colonial português (e ultramarino), que o passou a considerar reaccionário e racista, quando no pré-25 A foram lestos e lampeiros em classificá-lo de revolucionário.

Desenraizado de micaia na lapela postara-se na beira do passeio onde as palavras ainda estão chateadas e não têm ilusões. São árvores que não frutificam fantasias, dão flores de sangue e frutos abortivos de dor, no tempo que vai da sístole à diástole. Verdades falsas. Palavras imperfeitas de torna-viagem que se esgueiram e sobem à tona ou penetram doloridas nos espaços oxigenados, quase rostos em que se incendeia a escuridão que habita, essa insónia de velar a uma e outra artéria da escrita, ora a lógica prosaica dos factos, ora a distância indiscritível dos incógnitos anos futuros, caminhando diurnamente mas com os pesadelos nocturnos colados à consciência.

Autodenominando-se medíocre de esquina, o seu rio é de gente, e não de água. É um rio ético, muito próximo do de Camões, do de Pessoa, do de Sena e do de Grabato, no qual ninguém se deve rir dos dentes do jacaré antes de o ter atravessado completamente, habitat de amedrontados bichos humanos que, pelo seu delito da palavra expiam nas trevas a sua própria substância, o anátema da inveja suscitada, pois não obstante o que parece, as aparências iludem de facto, o que transforma a transparência aparente do seu discurso na emanação dessa mesma obscuridade onde, vazados, seus olhares foi sempre para dentro que olharam, tentando ver a essência (... Para quê querer incendiar os astros se, dentro de nós, ainda não acendemos todas as luzes?) humana, aquela que faz de cada homem uma ilha cega na densa cerração.

Se tem tido a ousadia de saltar da esquina, descer o lancil e tomado uma das direcções, podia ter sido um bom poeta; podia até ter sido um bom romancista; assim, foi apenas um óptimo mestiço, cujo verbo de ocidental africano, embora o DNA da página branca tenha confundido os genes da noite escura, que adivinhou o futuro europeu, o impacientasse demorando o sábado que nunca mais era e hoje é. Porque hoje é sábado, dizem os poetas de ahora. Portanto, ouçamo-lo com Naturalidade:
«Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
»

E a Europa é precisamente essa esquina que fica entre a imagem e a descrição, entre o novo e o antigo mundo, entre o gesto e a alma, entre o sonho e a memória descritiva, entre o oriente e o ocidente, entre a tecnologia e a natureza, entre o norte e o sul, entre o conhecimento e a tradição, entre a técnica e a matéria, entre a sílaba e o cifrão, entre o filão aurífero e a euclase, entre o analógico e o alegórico, a que a humanidade convencionou chamar civilização homo sapiens, de onde os escribas da modernidade, acocorados ou não, sentados no chão à índio ou nas esplanadas dos cafés parisienses, pincelando a tela ou dedilhando o Windows do portátil sobre os joelhos, debitarão o word da dúvida criativa entre prosa ou poesia, o cógito metódico entre estar e ser, entre ficção e verdade.

Por outro lado, é mentira que haja dialogismo e polifonia em RK... Se algum diálogo houve terá sido simplesmente aquele possível entre prosador e poeta, resultando irremediavelmente que esse dialogar teria a tonalidade dos ecos, das ressonâncias, dissonâncias e clivagens, a que o escriba fugira determinadamente quando se decidiu pela fusão dialéctica, porque sempre lhe doeu optar por apenas um dos lados, sofreu isso como se de uma Amputação (Algo, em mim, está morto. / O lado direito inerte, ausente, / de mim está alheio. / Do lado esquerdo / o fito, / como se a um outro / olhasse. / Metade de mim persiste, / vive, / e contempla algo, ardendo, / estiolando, / que em mim está morto. / Um perfil que apodrece / e eu vivendo / e vendo ausentar-se de mim / algo que em mim está morto / definitivamente) antecipada se tratasse, e temido de medo da dor enfileirou pela inclusão, pelo meio-dia em ponto, na avenida ensolarada, decidiu ser o homem segurando uma pedra, segurando-a com amor e raiva, integrando o discurso de ambos, tratando-se por tu, transformando-se o amador na cousa amada, inutilizando a conversa entre personagens do mesmo drama, tornando desnecessária qualquer troca de palavras entre si, a menor discussão ou o mínimo galanteio, porque os dois seguram A mesma Pedra no Caminho (: Toma essa pedra em tua mão, / toma esse poliedro imperfeito, / duro e poeirento. Aperta em / tua mão esse objecto frio, / redondo aqui, acolá acerado. // Segura com força esse granito / bruto. Uma pedra, uma arma / em tua mão. Uma coisa inócua / todavia poderosa, tensa, / em sua coesão molecular, / em suas linhas irregulares), sendo ambos a única e mesmíssima pessoa, embora predicado imediato para dois sujeitos possíveis. E a polifonia também não existe pois nunca no seu discurso se cruzam as falas de outros, personagens nem heterónimos, narradores ou alter-egos, individuais ou colectivos, ninguém fala por meio de si, já que tudo quanto dele é dito é de sua inteira lavra e responsabilidade, tal como esclarece em De Constante e Meu (Intermitente um som / retine algures na noite. / Próxima da nossa, embora, / aqui é outra dimensão / de que não suspeitais. // Ao contrário e por dentro / corre um roçagar / de penumbrosa lama / por torturada via. // Do calor e da mão / que trazia na minha / ficou-me o frio inquieto / da ausência pressentida. // Não havia palavras, / apenas um sorriso na berma / do caminho de areia):
«Havia, outro tempo;
tenho a areia e o caminho
e, de constante e meu,
por companhia, a própria voz


O que é, sem a mínima dúvida, a inequívoca e peremptória negação de todo e qualquer resquício de polifonia! Há sim um burilar de hieróglifos, actividade de escriba a tempo inteiro, para quem a intertextualidade é redimida pelo mea culpa tão máxima culpa do acto de Contrição, onde nos esclarece a quem roubou (por pura modéstia ou maneirismo barroco, diz furtou...), porque o fez (e certamente ninguém desconhece, que se os pequenos poetas plagiam, os grandes roubam despudoradamente e com galhardia) e em que sentires, que pensares e que dizeres.

Poesia com poesia se paga

Todavia, no pólo inverso da modalidade genérica de RK, na reflectida imagem desse escriba no remanso do rio que atravessa a aldeia global, e ao contrário dela ou dele, que esculpe, desbasta, lima, a prosa até fazer surgir nela o poema, a ideia, que cinzela e burila com minúcia de ourives a frase até fazer com ela o filigrana que faltava, que junta a areia (palavra de pedra moída) grão a grão, sílaba a sílaba, até dela nascer amoldável o barro, a argila do génesis humano, eis que outros o intentam malhando, sovando na bigorna a lava vulcânica, o metal fundido do pensamento emotivo na incandescência das prosas, quais Hefestos menores martelando incansáveis as palavras quentes, modelador de estrofes rubras, túmidas, incandescentes, tão flamejantes de ira como de entrega passional, acabadas de sair da forja do coração onde se fundiram como minério cerebral em bruto, ora de incontida e humilhante indignação, ora de queixume e devoção a Vénus (deusa Mãe-Terra), assumida Afrodite dos quotidianos, motivação nuclear, atómica, nada abrasador como o sol sobre a planície e a estepe em que nasceram, morna e fértil, cultivada no mosto das milhentas e ocasionais leituras mas sempre oradas a Gea, nas ermidas, nos pequenos oásis da moirama alentejana cercados de silvedos e canaviais das hortas nos montados campesinos, onde pululam o melro e o coelho bravo, a carriça nas paredes do poço, a grama, o junco da ráfia e a macia e translúcida sombra das alfarrobeiras de onde despencam cachos de vagens negras, prenhes de semente chocolate pronta a ferver na água que nos aduba as veias da luta contra o desperdício.

Estranha humanidade…

Recebeste algum aviso, ideia forte
Conselho, qualquer indicação útil
Do que deverias dizer ao vento norte
Quando aflorasse teus lábios cor de sul
Gretados nas secas e alterações climáticas?

Estiveste porventura lá naquele dia
Entre as urgências e os intensivos de Santa Maria
Quando os médicos te diagnosticaram poliomielite
E o teu disse «porra, está fodido o gaiato,
Para toda a vida, mesmo que se salve»?

Ouviste alguma vez os sinos repicarem longe, longe
Mas aproximando-se como comboio rápido aproximando-se
Aproximando-se até te estoirarem o bronze das células
Num dlam-dlam dlam-dlam ensurdecedor parando tudo
Sem voz gritada de “ai!!!...” para desligar o mundo?

Então, deixa-me ficar aqui acocorado longe da tua sabedoria
Da tua mesquinha insignificância de ser ninguém mas com canudo
Cego, insuficiente mesmo se quer ser algo de ver-se
Que não consegue cumprir os ditames que a si ditou
E tem dificuldade em confrontar-se com a igualdade prática
Que faz de muitos, aos milhões, a mesma pátria.

Volta-te prò espelho, palerma unzidor…
Que vês tu? De ti até os fantasmas fugiram,
Se esconderam da dor de ser sombra, arderam
Consumidos na vergonha da própria cor!
(Joaquim Castanho)

Ou seja: nesta perspectiva – e retomando as funcionalidades da bloguística que satisfaz completamente as necessidades do escriba, como o mais flexível e maleável dos papiros que a ciência, a indústria, a técnica e o progresso nos facilitaram –, aquilo que noutros tempos estava apenas acessível a alguns carolas ou eleitos, afortunados pelo ambiente literário onde nasceram ou suficientemente endinheirados para se deslocarem até eles, se considerarmos que a maioria dos blogs são aquilo que a maior parte das pessoas, assíduas frequentadoras de cafés e salões de tertúlia não são: inteligentes – que têm uma heurística, se adaptam facilmente às expectativas do seu mentor e se escondem dos indesejáveis nos motores de busca, logo que alguém tenta violá-los, forçar a entrada na sua intimidade através de arrombamento do username e password.

8.28.2006

escribalismo

TESES EM CONDOMÍNIO FECHADO

1. Quando o escribalismo é confessado pelos seus escribalistas

Poucos conhecerão o prodigioso efeito que uma esferográfica pode ter na mente perversa e alucinada de um poeta… Alguns, para melhor usufruírem dela e a manobrarem conforme o seu prazer e argúcia, até fizeram prosa!
Entre a corrupção e a heresia apenas existe a esbatida fronteira da materialidade profana. Porque dos rituais, tanto de uma como da outra, também chamados de analogias e anáforas, não rezam destrinças de maior. As mais das vezes, nenhumas mesmo. Se nos pomos de contar, raramente conseguimos evitar que a alegoria salte por’í arriba, suba como seiva humedecendo a caligrafia, invada de insistente esperança cada nervura das pincolhas e pendericos, até à vírgula mais distante das folhinhas ternurentas. Altivas. Góticas. Onde moram os botões de florir e cabritar com as cores do arco-íris.
Motivação, arma e corpo de delito, são os três pilares essenciais do homicídio. Definir quem o praticou, é a tarefa fundamental do crítico, do detective, do teórico literário. Se o poeta se aperceber a tempo das intenções assassinas do prosador pode inverter os resultados matando o matador, atraindo-o com a sua entrega, de sedução em sedução, insinuando-se gentilmente, enleando-o em seus fios de metáfora, de imagem, numa teia de estilo; manietando-o primeiro, para em seguida o devorar. E, nesse caso, o argumento de legítima defesa poderá iludir bastante o grau de justiça dos leitores… Sobretudo dos mais expeditos e viciados em polissemia!
No entanto, não é por muitas das testemunhas serem coniventes e cúmplices na negação, que um crime deixa de ser crime. O jogo de ilusão, a artimanha, a rasteira, foram diluídos, os rastos apagados, pela subjectividade dos contornos, imprecisão da luz e relevos do lugar, a "ponta-e-mola" escondida nas bainhas dos recônditos avessos, é certo, mas o cadáver é indesmentível. Está lá. Sem remissão e impossível de tresler, ainda que por linhas tortas. Inexoravelmente. Porque quando a prosa cheira a poeta morto ou a poesia exala o odor do narrador defunto, eis que nos deparamos com uma estesia moribunda à procura do jazigo semântico onde possa repousar em paz. Definitivamente e sem rebuço de frase morta. De texto caído na vala do anonimato e esquecimento, entre as paredes frias e lisas da memória marmorínea.

O processo, agravantes e atenuantes

Sancho e Quixote acompanham-se para melhor se vigiarem (mutuamente). Espiam-se na busca incessante da oportunidade de ouro para desferir o golpe fatal e de inocência garantida. (Não há quem melhor se inocentei do que o crédulo injuriado, o néscio seduzido, o idealista confrontado, o utópico contradito; o narciso ignorado, o moralista demitido, o sonhador defraudado, o político desmentido...) Quais escanções do sublime, como Romeu e Julieta que provocaram a morte mútua, o duplo homicídio, em que a vítima conduz o seu afortunado ao suicídio, demonstrando que embora o crime tenha sido perfeito, para se cometer se tem forçosamente que arriscar a vida muito para além do que é sensato e plausível fazer, conforme qualquer viciado ou toxicodependente sabe bem, palmilham a península enredando tramas, tecendo censuras e sentenças, aglutinando passados de cavalaria em nome de futuros enganos, ou ludibriantes idiotias românticas. Xerazade e Harun Al Rachid. Tristão e Isolda. Pedro e Inês. Dante e Beatriz. Bonnie and Clide. Dr. Jekill e Mr. Hyde. Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Pessoas e Ofélias. E demais indeiscências duma lista que se desenrola para o eterno.
Essa crónica de morte que os íntimos exacerbam com a técnica do esgrima, usando o florete sentimental com a rigorosa precisão do bisturi, teve tão caricatos quão exagerados modelos de denominador comum em conquistadores e serial killers, D. Juans e Jacques Estripadores, Isadoras Ducan e Virgínias Wolf, Hemingwais e Anais Nins, sem conto na quotidianidade das artes e letras com sua vasta panóplia de suportes, arquétipos, correntes e eclosões na germinação da vontade de poder e eternidade; essa crónica (anunciada ou não, tanto faz) do percurso das vítimas até ao seu carrasco, agredidos que também são agressores e agressores que são igualmente vítimas, quer de si como das suas presas, que caminham lado a lado até ao desfecho final, onde definitivamente se separarão ficando irremediavelmente ligados, jungidos e incluídos um no outro; essa contínua peregrinação entre este e essoutro que recorrem à técnica da intercepção para ganhar a hegemonia na palavra que já é sua, e apenas sua, até à ocupação definitiva, capitular, que transforma o autor em colónia de si, território perseguido e possuído muito para além dos limites e fronteiras da razão admissível, na mútua subjugação total pela perspectiva de um orgasmo incandescente de glória e fama, qual Big Bang extra-sensorial, do outro mundo, que lhe desoculte o ser, marque o indício da genialidade, catapulte o seu virtuosismo de executante, imprima a pegada de arte no calcário amolecido da História, testemunhe seu esmero e empenho, enquanto ritual de sacrifício de que o assassino se socorreu para cometer o seu mister; esse desespero das canções apaixonadas, trovas e coplas a que a interpretação semiótica oferece a semântica da fusão em branco, é certamente o grito de quem já não fere mas prefere na morte de tudo ou nada, a câmara escura onde somente o ultravioleta das vozes uníssonas não queima a película dos sonhos andromedais, e o irradie da mistologia genérica onde cada obra mais não é do que um tratado sobre a vida espiritual (e contemplativa) do seu autor, conforme pensa a mole dos críticos ingénuos e humanistas naif, que confunde invariavelmente a feitura com o feitor ou justifica, explica, compreende e avalia apenas do acto a emotiva (ante)mão que o desfere.

Testemunhas e abonatórios

Enfim, essa sina de rixa sem cisão, que em Portugal é particularmente masculina, igualmente testemunhada no percurso de escritores como Júlio Dinis, José Régio, José Gomes Ferreira, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, António Cértima, Amândio César, Isaura Correia dos Santos, António Augusto de Melo Lucena e Quadros (autor dos heterónimos António Quadros e João Pedro Grabato Dias), Marria Anna Acciaoli Tamagnini, Fernando Pessoa, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, José Saramago, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, etc., que se a uns trouxe a voz da poesia e o eco da prosa, noutros o vice-versa, independentemente da ancestralidade que neles vingou, se a do bardo, se a do contista, se a do trovador, se a do repórter, que não acarretou nem dela adveio mal maior ao mundo senão o terem eles arriscado perder um para "salvar" o outro, embora quase nunca tenham evidenciado esse thriller de morte por asfixia, servindo-se dele como tema principal dos seus enredos, o que é certo é que muito se viu ele espelhado e reflectido nas suas teorias da literatura, nas crenças que nela alimentaram, nas conjecturas que dela fizeram, cuja redundância caiu sempre e por atacado na ideia de que escrever não é sinónimo de criar mitos, mas antes um esforço para os esmoronar, cruzando géneros e artes diversas, esbarrondá-los avulso atribuindo-lhe novas sinapses de ligação às díspares vertentes do real, eliminar-lhe os socalcos da significação, os rituais, litanias, limites, pré-ocupações, feudalismos de corrente e palimpsestos, até que em nenhum deles fique vestígio de fé, muralha de palavra sobre palavra, pedra em pé que se corporize, nada que sobressalte a estesia de quem nela se anula e esta, se torne missionária sem "boa nova" por seu turno, se faça indefinível e indissociável do universo onde habita e que a habita, nele se funda como ele em si se fundiu, dilua a culpa que transpira o verbo dos "romancistas" que abortaram os poetas que lhe nasceram dentro, ou os aedos que sepultaram a fome de contar na sede do canto, como quem se demonstra indigno de representar quem foi, quem é, por saber-se um ser erguido sobre o esqueleto de outrem.
Ou, resumindo, autorizando o sonho para lá do acutenáculo em que o acondicionou, incubou, transportou e permitiu reproduzir-se em infinitas agulhas (significantes aguçados, afiados), adagas de transfusão, quais estiletes perfurantes em que a sua cotovia interior se despenhasse cravando o peito. O que nem precisa de ser entendido pela via do que está escrito mas pode (e deve) ser inventando conforme as tendências de cada um... Todavia, de ressaltar, após a escolha entre o (inter)texto ou o subtexto, somente um sobreviverá. E o gesto será todo vosso, pois sereis julgados por ele. A cada assassino a sua culpa!

2. O trigésimo sexagésimo sexto dia do ano ou como a androgenia não é solução prà bissexualidade (literária)

A coexistência entre dois seres que se amam e odeiam, invejam e admiram, partilham o mesmo habitáculo mas por diferentes motivos, nunca foi, é ou será pacífica. Praticam idêntico jogo bélico, utilizam iguais armas, têm semelhantes objectivos mas usam técnicas e regras pouco similares, próprias, obstinadas de originalidade, ainda que no mesmo suporte e em proximidade de registo. Porque se raramente se afastam um do outro sem sucumbir (à saudade ou guerrilha interior), também mais raro é conviverem sem capricharem e competirem pela hegemonia e ascendência, efectiva titularidade de presença e efeito na personalidade criadora, através da posse e submissão do seu par.
Pese embora prosa e poesia não estarem em perpétuo conflito uma com a outra, nem as duas com as demais artes, ou qualquer ciência, religião ou filosofia, a não ser quando este conflito possa gerar mais arte, mais literatura e, principalmente, sirva para intensificar o gosto por elas, implementar o debate sobre as suas criações e relacionamento interdisciplinar, convenha para argumento e motivo de avaliação de melhores narrativas ou poemas, o que é indubitável é que a sua evolução é caracteristicamente biológica, tal e qual como a das árvores de grande porte que, ao crescer, procurando a incidência do sol, o tapam às suas vizinhas de floresta, essencialmente as mais próximas independentemente do seu grau de parentesco e sexualidade, atrofiando-os para as aniquilar gradualmente e sob a sua sombra as levar a perecer.
Porque se a cada texto é dada uma personalidade, ela deriva sobretudo das condições em que é germinada mais do que da apetência de degustadores ou acuidade técnica e laboral que o seu autor lhe concedeu, uma vez que nunca é estruturada em função deles mas como afirmação propositada de género no seio de quem a autorizou, e que, ao abandonar o sexo dos anjos e da indefinição, nele se instaurou, estabeleceu, fortificou, converteu e instituiu, edificando-se e consolidando-se em plenitude pela preterição do seu reverso, mas ganhando-lhe as característica topológicas daquela que abandona, não por traição, antes por assimilação de conquista territorial de capacidades, fronteiras e competências, apropriando-se do léxico e conhecimento gramatical que a ambas pertencia.

À boleia de um adoptante adoptado

Por exemplo, talvez a isso se deva que Maria Alzira Seixo, não tenha evidenciado qualquer hesitação em afirmar, num livro tão pequeno quão fundamental, cujo título redunda no essencial sobre o autor, que “na carreira de José Saramago, ao encontro da palavra poética segue-se o encontro do género privilegiado: o romance. Mas é essa palavra que o funda, semente lírica que faz vibrar a ideia, nessa vibração implicando o escritor que a produz, esse mesmo que é sujeito activo do trabalho de escrita e que vimos erguer-se literariamente diante de nós com força maior nos livros de crónicas, seus traçados essenciais do caminho principal que se abriu na determinação cerrada de Manual de Pintura e Caligrafia. Vimos como o Manual hesitava entre a ficção e a verdade, entre a representação do mundo e do homem (o pintor que escrevia os factos da sua vida) e a produção de um modo específico que é o da arte (criação da obra, reflexão sobre essa criação, sobre a própria linguagem que o veicula), entre o homem e o tempo (o eu que se perde e se recria, e essa duração simultaneamente corrosiva e modeladora que lhe permite ser).”
O que traduz, em súmula, a influência dos resquícios formalistas, para quem era mais importante o aspecto formal do texto do que o seu conteúdo, desrotulando este escritor português de romancista que também fez "versos", conforme quis anunciar e propalou a voz oficial e corriqueira nos cânones do sistema educativo, chocando e fazendo eclodir uma versão que melhor correspondesse ao seu desovar genérico de sociedade de produção e consumo, que intencionalmente declarou a poesia como persona non grata aos avanços da economia, tentando enaltecer e valorizar o prosaico ao invés daquilo que ele realmente é, atendendo a que a nossa "nacionalidade" genérica é a da família de origem onde nascemos, daquele formato literário em que demos os primeiros passos criativos e que, ao caso dele, foi a poesia, obrigando assim afirmar, em abono da verdade e da justiça, que ele é sim um poeta que também fez romance, género ao qual dedicou a maior fatia do seu trabalho, tempo e obra, no qual até terá sido laureado com o maior prémio global dedicado à literatura: o Nobel. Pois se um "poema cadáver" é aquele que mais nada revela do que a "evidente notícia" nele o prosador quis dar, de onde exala a pestilência do género abortado, o que é certo é que a poesia de José Saramago está longe de ser defunta, da mesma forma que a sua prosa não é necrófaga, mas principalmente um enleado jogo de alegorias e associações livres, metáforas desenvolvidas e baladas literárias sem rima que também pertencem e balizam o universo da poética.

Madame de Bovary sou eu

De onde seja legítimo inferir que não há uma pessoa que faz ao mesmo tempo com idêntica acuidade prosa e poesia, pintura e fotografia, cinema e crítica, música e dança, voz e orquestração, mas que há sim alguém que está neles todos, mesmo quando é outros e produz algo que não o iniciado na vocação de si. Os heterónimos, os pseudónimos, as personagens e narradores, não são assim uma dispersão do ser mas uma confluência dele com delimitações de tempo, espaço e modo circunscritos no universo do original – o autor. O primeiro a despertar para a criação, logo aquele ou quem se levantou mais cedo para calçar as botas e… caminhar.
Porque o importante não é escrever muito com pouco sentido, mas dar a cada restrita frase todo o significado possível, o que deveras se denota na célebre afirmação de Flaubert "madame de Bovary sou eu", porquanto cada enunciado é a compressão do seu emissor, em cada verso está o poeta comprimido, como em cada parágrafo há um centro nuclear do seu autor, quase átomo narrativo ou matriz genética daquele que se narra sem ser o narrador propriamente dito.
O que quer dizer, sem apelo nem agravo, que ser uno em matéria de criação literária é ser tantos, se possível todos quanto habitam e povoam o universo textual, o painel de personagens e figurantes que consubstanciam os enredos, as tramas, pois todos eles são aquele que os descreve e o ambiente onde se mexem, ainda que aquele que os produz não o faça com hora marcada para ser um ou ser outros, não se levante um dia personagem, protagonista ou poeta, ou acorde predisposto a "maquilhar-se" mais de novelista do que de tradutor de idílios, não se predefina que entre determinada data e outra posterior o poeta pintará um quadro ou o cineasta congeminará uma crítica, o que não podemos é esquecer que em verdade se estipula que na "vida" dos poetas há um período para descansar de si que normalmente é utilizado para serem outra coisa, tendo alguns sido nele prosadores, primeiro como hobby mas de que não regressaram às origens da poesia, da mesma forma que houve demais profissionais que se especializaram nos seus passatempos a ponto de os passar a exercer profissionalmente.
Ou seja, é difícil acreditar que há (ou havia) dois, três, quatros seres em um só, dado que a criação em nada se assemelha ao estado de gravidez, nem a manifestação artística se equipara à clonagem ou reprodução de si, mas não restam dúvidas que há um ser capaz de se dispersar por todos quantos a sua imaginação concebe, quer poeta como contista, conforme no que inicialmente se afirmou, formatou e se expressou, podendo depois cambiar-se, alternar-se entre um e outro vida fora, repetindo-se e repetindo-se até já não saber qual deles primeiro foi, embora nunca o tenha realmente deixado de ser.
Excepto no 366º dia do ano que por cada ano nos acontece, dia que nos celebra por celebrá-lo e nos atribui o diploma de peritos de ser sonhando, em que os lutadores abrem trégua para se encontrar sorrindo, apertar as mãos num passou-bem à esquina de qualquer frase insignificante que nos significa, nos resume sem saber que melhor o faz do que tudo quanto acreditámos poder fazê-lo, ou que algo houvesse alguma vez com poderes similares, não obstante constantemente reajamos mal às incompreensões mútuas, já que escrever é o acto social mais solitário do mundo, concebível apenas no praticável e concreto diálogo entre a pessoa e ela própria, de si para consigo mesma – mas sempre sempre à vista de todos!

3. A arte como palco de um drama a que a trágica condição humana deu sentido

A literatura, a história dela, bem como as biografias dos seus autores, são óptimos pretextos e matéria prima para fazer e apurar mais literatura sem arriscar cair em controvérsias fúteis que não digam respeito ao universo literário, nomeadamente o dos conteúdos moralistas, políticos, religiosos, ideológicos, académicos, personalistas, xenófobos, sexistas e demais teorias abjectas de vida, pessoais mas alheias às motivações, técnicas e competências artísticas. Pode-se viver muito bem em função do nosso conhecimento em vez de em consequência e por reacção às ignorâncias fundamentais de um mundo que está fora do universo cultural da ética criativa.
Ao criticar as letras está-se simultaneamente a reescrever o alfabeto das emoções, dos sentidos, das ideias, dos pensamentos e valores humanos, todavia não em termos conflituais com outros modos de representar a actualidade e os seus intérpretes, antes conforme as nuanças discursivas, as liberdades, desvios e modalidades de expressão, os significados que podem assumir a palavra, enquanto autonímia (capacidade de unicamente entender uma coisa por outra, a intenção pelo acto, o verbo pelo movimento, a causa pelo efeito, o agente pelo agir, etc.), ou estatuto que encerra em si as características de signo, significante e significado, necessárias à construção de um produto cultural por excelência.
O discurso analítico, o discurso sobre palavras e textos, o arsenal teórico que sustenta a visão literária do objecto literário, são suficientes para fazer evoluir a literatura para patamares mais convenientes à estética e ética criativa, sem precisar de se socorrer daquilo que separa a humanidade, abre roturas na empatia entre emissor e receptor, para cumprir a sua missão comunicativa no seio das comunidades que a subscrevem, garantido a sua utilidade social e socializadora, que a originou e consolidou como parte estruturante do universo cultural humano, legando-lhe o mapa dos afectos, costumes e estruturas fundamentais que a fizeram caracteristicamente humana dentro da humanidade ou dela deram testemunho nos planos diacrónicos e conotativos das línguas em que ganharam vulto.
Assim, do ponto de vista da crítica, o escritor é aquele que se diz pela palavra que é também coração da acção, o que apenas se sente vivo quando a nomeia, nomeando-a para descobrir-se, prolongar-se, resumir-se ou ocultar-se, sob as normas do seu conhecimento, conhecimento esse que é sempre de si para consigo, mesmo quando lhe é exterior ou foi adquirido em formação específica, porquanto somente lhe vem através dela, em consequência dela e por seu meio se valida. Escrever é revelar, desvendar. Incluindo desvendar a ocultação. Produzir na dupla relação palavra-acto um processo de intercepções entre o escritor e ele próprio, dele com os demais, dos outros consigo, dos seus semelhantes entre si, e de todos com o universo.

Gestas de amor e canções desesperadas

Contudo, porque funciona em pessoa carece de paragens (cortes, abstracções, catarses, metáforas, mitopoeses, fixações, prolepses, efabulações, analogias, analepses, invocações, imagens, alegorias, metonímias) no discurso geral, que estabilizem a referência nominativa (união entre signo, significante e significado) de forma a que se particularize, ganhe expressão individual que a diferencie da ordem semântica que comummente lhe é atribuída, gerando a síntese, resultado copulativo entre o seu ser e não-ser, posto que sintetizar é socializar, indicar, significar, integrar num conjunto com funções determinadas e convencionais.
Talvez por via disso, perante a incontingência duma solução para a androgenia da caligrafia criadora que o fazia vacilar entre poeta e prosador, o crítico, arquitecto, cenógrafo, professor, pecuário, jardineiro, maquetista, decorador urbanista, apicultor, António Augusto de Melo Lucena e Quadros (Santiago de Besteiros / Tondela 1933 – 1994), autorizou os heterónimos António Quadros para a sua verve narrativa, de ficção em desenho, pintura, texturas, formas e paleta/tábua de cores, Mutimati Barnabé João (poeta-combatente moçambicano autor de Eu, O Povo), e João Pedro Grabato Dias para a sua verdade primeira e profunda, a da poesia e edição, ou caligrafia da nomeação alfabética, "itinerário de palavras / rumo ao estratificado", conforme dele mesmo havia de dizer em Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada.
Isto é, para exercer todas as profissões que teve, sempre o seu próprio nome lhe bastou. Agora, quando teve que usar as canetas (pincel ou esferógráfica, lápis ou estilete, espátula ou máquina de escrever) e apresentar o trabalho daí resultante, então atribui-se identidades próprias (não clones ou pseudónimos, que são uma espécie de heterónimos que não cortaram o cordão umbilical com a pessoa que os criou), criou personalidades distintas que lhe vincasse e sublinhasse os alfabetos. António pintava quadros, fazia desenhos, expunha, dava conferência e animava ateliers; João Pedro fazia poesia, recuperava e editava manuscritos de familiares, decifrava os palimpsestos da sua formação, as memórias recônditas dos seus genes e ancestrais, que nem John Keats ou Jorge Luís Borges.
Numa prova oportuna que o poeta não faz pintura, não reporta interiores nem exteriores de si, não descreve as paisagens, naturezas mortas ou vivas, nem os portos em que ancorou na sua navegação: conta histórias da palavra e por palavras, arquitecta conspirações simbólicas e dialoga com divindades, profetas e antepassados. Não narra os capítulos e destinos das peregrinações diversas ou fantásticas, nem dá atenção a ilusões sensórias, pois se embrenha na essência individual, aquela que jamais mudará onde quer que esteja, tenha que idade tiver, disponha dos conhecimentos e instrumentos que dispuser, pois aquilo que procura e traduz é homem universal. O sonho mineral que codifica a sua genética espiritual.

E também as glórias, vãs fortunas, esquecimentos

Houve (e há) poetas por vingança e desfaçatez, cujas rimas mais não foram do que verbo azedo com aromas, tipo iogurte de frutas para agoniados e melancólicos lambedores de feridas ou desocupados desenxabidos. E houve prosadores de leite creme e queimado caramelo, qual doce veneno do criancismo do faz-de-conta a brincar aos grandes ideais na gramática do ser. Mas tanto aqueles como estes, continuarão a desemalhar-se, enrolando-se em novelos, mais ou menos volumosos, mas sempre de confusa e complexa estopa, de mínima importância na teia literária que protege e divide, secciona e pintalga a amalgama dos tempos com o registo da alma dos povos; pois não souberam ser o que já eram, acumulando também as funções daquilo que poderiam vir a ser.
Mas felizmente não foram todos assim, dado que alguns se perderam a si para encetar a genialidade, não a de cantarem o bonito, o vitorioso, o poder e as modinhas populares, tecer loas a damas ou cortesãs e lamentos/pedidos de tenças a monarcas, de divertirem a corte e as palatinas audiências, do mercar amizades boémias copofónicas e brilhar nos bastidores do espectáculo, e antes fizeram o que lhes ditou a voz da sagacidade, humor, ironia e audácia, que não derrotam a derrota com encobertas aparições e desejos, como exemplifica Frei Ioannes Garabatus, n'As Quibíricas, editado pela primeira vez em 1972, de forma clandestina, em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, numa tiragem de 1500 exemplares, dos quais 700 voaram para a metrópole, com a conivência dos militares do colonialismo, iludindo a censura e diluindo-se, evaporando-se, instantaneamente nos antros da resistência antifascista. Pela heterónima mão gémea de António Quadros, João Pedro Grabato Dias, co-editor com Rui Knopfli dos cadernos Caliban, nascido e "criado no seco chão duriense, mudo mas prolixo de sons", entretanto cumprindo a sua quota da diáspora lusitana por terras de além mar, recuperando alfim "o manuscrito" em tipo de forma.

4. Como ainda são estranhos os desígnios centenários às publicações lusitanas...

A crítica literária é séria... (Até ao momento em que não nos faz rir.) E jocosa. Se acaso os motivos o justificam. Como aconteceu com Jorge de Sena, camonólogo aposentado da corte celeste, desterrado e a estagiar então na Santa Bárbara americana, quiçá prenúncio das trovoadas que se seguiram, quando terçou valente prefácio Às Quibíricas, poema a uma só mão (Grabato Dias), mas caligrafado com os três pés no ar.
Frei Ioannes Garabatus é o pseudónimo do heterónimo João Pedro Grabato Dias, neto-irmão de pai de outros dois: António Quadros e Mutimati Barnabé João – e todos com assento de paternidade lavrada em António Augusto de Melo Lucena e Quadros, profissional de vários misteres, inúmeras falas e díspares longitudes. (Com respectivos acompanhamentos da geografia do lugar ou latitudes.) E Jorge de Sena, de tombo em Tombo, teceu-lhe o itinerário genealógico, de engano em mentira, de falácia em fingimento, inté ao faz-de-conta do undécimo canto dos dez cantos d'Os Lusíadas. Precisamente o que faltava para que João (e) Pedro (evangelistas e missionários) Grabato (mau leito, catre, graveto ou chamiço) Dias, descendente do frade que o escanhoou em típico linguajar camoniano de retórica (aristotélico-tomista) verve, o deu também à estampa. Quer dizer, Edições Afrontamento, que foi quem por último o publicou, na década de 90, do século passado.
Bom: tanta peta até parece pecado... Mas não é: porque aos Dez Mandamentos também falta um que os obrigue e valide – o 11º. O não mentirás, que Moisés devia ter partido por impossível cumprimento no alto do monte Sinai.
Mas à parte este "soír-se-nos" cada dia repetindo na peugada dos seus antecedentes que é o labor literário, constante procura e constatação das outras margens da palavra, correntes significativas abruptas ou mansas que lhe vão por dentro rendilhando os géneros, encorpando ou recuperando os sentidos das gentes, em realidade As Quibíricas estabelecem um corte, uma fatia, uma frecha de humor nos prelos botaréus da lusitanidade onde o verbo se supõe, antes de qualquer condenação ou avaliação de razões épicas, excelsa analepse de reflexão, distinta da opinião formada, tida e achada pelos camionista da taurina falange que ronda a Europa em versão peninsular.
Outros mui nobres homens de letras e petas terão dificuldade em afidalgar os encantos severinos deste marialvar congénere a Luís Vaz, embora não tão empenhadamente quanto o fez Jorge de Sena, que ainda no pré-25 foi lesto e pronto em atestar-lhe honras condecorativas em pleno peito, cosendo-lhe na lapela um poema que "ressuma amargor satírico e espírito anti-épico" e os elegeu "portugueses que deixaram de acreditar em si mesmos enquanto tais, ou porque os não deixam ser eles mesmos, ou porque lhes não deixam fé que a todos sirva", no preambulo que lhe escribou para melhor entendança da obra dum hipotético alter-égua de Camões, afilhado (ou descendente directo?) do épico portuga e filho da D. Sherazada por quem os Dias andaram aos Gravatos (& gravetos), que o terá resguardado das descompósitas e inquísicas sevícias do santo ofício académico e seus cançoneteiros trombativos. Pois, eu não!

"Prà mentira ser segura / e atingir profundidade, / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade" – António Aleixo

Portanto, as pílulas poéticas que de Alcácer Quibir trouxeram as especiarias da derrota e do desemprego conquistador, para soprarem as pandas imperiais de Henriques, Gamas e Cabrais neste mar de oitavas, desabrocharam como estâncias de sossego para a alma caduca dos étimos de fragrância secular no bafio ébrio, apagado, vinhateiro das armas e varões, que em vis catres desfaleceram perante encantos e esforçados afagos das odaliscas da moirama e da pimenta branca da papoila, também cerziram nas sedas orientais os brocados das gueixas e amornaram os ímpetos tabernais da insana sanha das doenças venéreas ou saudosa melancolia pelas leiras e lameiros do abandonado torrão pátrio.
E é dessa saga que nos dá conta o livrinho mal amado que, "vaya-se" lá saber porquê!..., tanto das bibliotecas é roubado como dos escaparates arredado, tão atreito a compulsivos leitores e impulsivos fãs como excomungado pelos índices da clériga lusofonia. Pois percebê-lo só se for porque "vai nos tempos a fé extremando os homens / em maiores e menores por temporal. / Não bastam ao clero suas ordens / serem ordens de amor universal. / Antes por seu rigor criam desordens / como se o pai comum não fora tal. / E o Santo Ofício de acender espritos / no fogo estruje a carne dos aflitos" –, coisa que o seu autor parecia já bem conhecer disto a quase meio século das rixas entre o cruzado Bush e a islâmica prole petrolífera dos alcaedismos universitários do divino e supremo saber.
Provavelmente por que ao tempo, que era de finta e sacanagem, chico-espertismo, terror relacional, exploração de virgens e agregados, medo institucional, jogo de lixar o próximo ainda que consanguíneo, de ordem e segurança à custa da insegurança alheia, de ser não sendo, só aos bobos ou loucos era concedido aflorar a verdade, feita tabu para os media e tertúlias, porquanto o dizer tudo com'òs malucos saía sempre caro ao dêzedor, a quem, no mínimo, se reservaria o descrédito dos sem-abrigo ou o quartinho nos fundos do Miguel Bombarda; dissabores que muitos não conseguiram evitar e a outros fez hesitar entre mentir e omitir, como é o notório exemplo deste quibírico trovar travesso, que é tão arrevesado, mavioso e contorcido, que até no conto dos cantos anda errado, posto que serão doze e não onze, se contarmos com o outro canto que é o canto da crítica à crítica, o cantinho da entrada que não é menos hilariante que os demais e os prefacia, uma vez que é um franzir de cenho, piscar olho de fazer pontaria e disparar certeiro e acérrimo ataque àquilo que ainda hoje é neste rematado cantinho onde, em matéria de crítica literária só quem é deveras herói destemido sem receio das consequências arrisca referir aquilo que metade de nós sabemos e os restantes desconfiam: que em Portugal é tradição não se lerem as obras sobre as quais tanto se escreve e fala. Pois é saber de cliché académico feito, normalmente assistido pelas práticas da comunicação social, da publicidade, do marketing ou paróquia do primeiro parágrafo, com as palminhas dos dois terços de analfabetos funcionais que nos compõem a gesta.

Prà verdade ser segura / e haver quem a prefira, / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de mentira

Assim triste sina deveras foi o dessas gentes que para poderem dizer quanto pensavam e lhes trazia a alma tolhida, de bobos se tiveram que vestir e o corpo de alheio nome fardar, na esperança que a fome, impedimento, exclusão e mais duras penas fora de si caíssem, e entre pseudos gestos e desfigurantes esgares não obstante conseguiram fazer ouvir que "poetar é pôr luz na treva", com que definiram as ocultas forças de confessar o que "me obrigo e conto, posto em verso / o que é prosa daninha dos que cavam / desaire e perdição do universo; / fique aqui minha ira e seu escarmento / que esta lyra não canta apenas vento", como inúmeros actuais defendem, e entre os quais me subscrevo, pois não entendo como a palavra que esclarece dizendo com ritmo, rima, medida, melodia, ondulação, balanço, beleza e correcção gramatical possa ser crime, neste ou em qualquer outro tempo, a não ser que obscurecidas razões se façam siso e senso.
Poetar que nest’As Quibíricas é “causa de basta e declarada, / justificante em si de uma maior / cautela no erguer da mão armada / que à mão se destinou gesto melhor: / cortando o ar no empunhar da enxada / ou segando na escrita o desrigor / ou guiando o menino que ensaia / ou acenando a amigo que se vaya…”, e decididamente alerta para outra circunstância que se constata dia a dia em Portugal e ilhéus adjacentes, tida por evidente nos idos anos de 60 como agora, que em meio século nenhuma diferença nesse campo se fez e houve: que é preciso saber mentir muito bem a todos para poder dizer toda a verdade apenas a alguns. Visto que os poetas que poetam e não só versejam continuam a ter as mesmas arrelias e dificuldades de broa, censuras, ostracismos, estigma, por tentarem aquilo que não conseguem nem podem calar, como os de anteriores séculos tiveram.
Em resumo, e para terminar usando as palavras do referenciado autor numa causa que nos é comum, por ficarmos a saber como as navegações das letras e poetares continuam iguais aos de antigamente, uma vez que também esta rubrica foi censurada no sítio onde inicialmente terá sido publicada, demonstrando continuar a ser verdade que "pelos estaleiros já só vejo ramas / como palitos de esdentar o siso. / Ou são grabatos pra animar as chamas / ou pra espantalhos de esquentar o riso. / ... Ou travejinhas de espaldar de camas / ou varetas de umbrela de granizo... / Mas se são cavername e aduelas / de caravelas, não embarco eu nelas." Pois o mundo não muda não, mesmo por electrónicas vielas, que querem omitir o pão, a quem trabalha por elas…
Que neste jardim beirão
Anda a ciência cultivada
Como manda a tradição
Numa salsicha pegada!

Reentré à Portuguesa

Estrala a Indesa, há Iberdola no ar…
É a dança do povo na areia da praia.
Mas muito antes ainda que a cana caia
Aproa o cargueiro a pique, a naufragar.

Saltita o pé da gente no tacão e bico
Com a féria do mês sempre a minguar,
E cantamos que “em casa é que não fico”
Mas sair é cá dentro, e petisco… passear.

Adelgaça a varina a roda à saia
Ginga-lhe o corpete no vira virote,
Que peixeira e político são da mesma laia,
Pois pregam em pregão do seu camarote:

“ Quem merca défice fresquinho da costa
Marmota do alto, da rede cosa nostra!!!?...”

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