La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.14.2011

Há felinos com sorte macaca


O ISCO DO ERRO

"– Já sei o que houve – exclamou. – Este gato
acaba de anunciar o que aconteceu."

In JONH STEINBECK, As Vinhas da Ira

Há pessoas perante as quais me engano propositada e frequentemente, quer em nomes e datas, como em títulos e autores, correntes literárias e ideologias. Há outras frente às quais nem sequer preciso já de o fazer, a não ser para confirmar se continuam – ou não – a pensar acerca de mim o que antes pensavam, ou se a sua perceção motivada se mantém acesa e lhe incendeia a visão que a meu respeito têm. Em ambos os casos, porém, concedo-lhes uma vantagem, um atalho para se manterem à frente ou acima de mim, para nunca as perder de vista. Não são de confiança e, normalmente, isso perdura até que lhes dou o golpe de misericórdia, abatendo-as do meu cardápio de conhecidos.
São pessoas que se reputam de nunca admitir que qualquer outra que saiba mais do que elas possa estar certo. Singelas no ofício da maledicência, complicam o que é notório e vêem claramente visto quanto há de mais obscuro, nomeadamente na adivinhação das intenções alheia, projetando as suas. Estas são aquelas para quem a perversão é uma linha de conduta, medida de bom gosto e exemplo de sensatez. Com a experiência de vida perderam a inocência em vez da ingenuidade, quando devia ter sido o contrário, e não esporadicamente até o propalam aos quatro ventos. Ainda há bem tempo um político de nomeada o reiterou em declarações à imprensa, na sequência de um comício.
Mas a magnitude da problemática é geral, quer nos estejamos a referir nacionalmente como a nível europeu. Os gregos fizeram disso uma retórica e os romanos disseminaram-na pelo império, onde teve o seu inegável clímax durante o obscurantismo medieval. E embora o de hoje, não passe de um palimpsesto dessa época, o que é indesmentível é que continua a imperar, a decidir, enfim, a dar cartas onde quer que seja. A literatura não lhe foge à regra. Os ambientes culturais, artísticos, literários, também. E, por mais que nos doa a contradição, é exatamente neles onde a sua manifestação tem superior incidência.
Ainda não faz um mês, tive oportunidade de voltar a usar o erro como isco. Esfaimadas e sequiosas de desforra foram repetir o que eu dissera, e por elas considerado uma gafe monumental. Tiveram azar. Afinal, estava correta a minha afirmação... A lama que pretendiam atirar-me caiu-lhes toda em cima. Agora, andam amuados e ofendidos. Dizem que eu os enganei. Apenas o gato se mantém a tratar-me do mesmo jeito com que anteriormente me tratava, sem sofrer retaliações por tal. Ele continua meigo para mim, e essas pessoas não o tratam mais mal por isso, continuando a dar-lhe os mesmos mimos e atenções. O que é estranho, convenhamos; afinal, foi o gato que me anunciou o que sucedeu...
Há felinos com sorte!

8.19.2011

Fato literário


O Fato Literário

“Costuma andar seguro hum desarmado
Entre gente esforçada & generosa,
Que não ofende o forte ao descuidado.”

In Francisco Rodrigues Lobo, Égloga VI: Carta ao Leitor, com a Égloga seguinte contra a murmuração

Não importa que algo seja uma declarada mentira, ou que nos afiancem ser uma autêntica peta, daquelas coisas em que o impossível e o desfasado da realidade mais se revelem, em que nem o Diabo acredita, adiantamos, mas se estiver tão bem contada que, para nós, até mereça ser verdade, então a literatura acontece. Os escritores odeiam a realidade e declaram guerra aos desimaginados da vida. E os leitores, é precisamente por isso que os apreciam, ficam em suspenso das suas obras, as tornam na parcela de atualidade onde melhor se acomodam e repousam. Mesmo quando elas os inquietam, agitam e denunciam perante a mundanidade vigente.
Portanto, pretender que a literatura tem fins definidos e está ao serviço de causas maiores, até de ideologias que seja, é desconhecer em absoluto o que é um fato literário, isto é, desconhece que este é tão-só um transporte (veículo) de ideia, sentimento, emoção, artefacto, produto cultural, sensação, deleite ou provação, entre um mundo e o outro, entre o universo dos espíritos e das essências e o universo da matéria e das formas. Escrever é fazer aparecer ou desaparecer coisas que antes não existiam, ou existindo, ninguém as via dessa maneira. É milagre; é – mas não desses que transcendem o ser e migram para as esferas do divino e do paranormal. É milagre; é – mas somente porque embriaga sem álcool ter. E todavia, mesmo quando nada muda e nada altera, tudo muda em nós como fora, incluindo quanto do assim que fora sempre e imutável parecera, mas de um momento para o outro se transfigurou e assumiu qualidades jamais observadas.
Isto é, porque um fato pode ser um fato mas também é literário, o que faz toda a diferença. Ter uma fotografia de uma terra ou uma descrição das vivências tidas nessa terra, embora a mão que registou ambas seja exatamente a mesma, torna-as caprichosamente díspares, podendo nelas haver igualmente aquela intenção estética que transforma uma fotografia numa obra de arte, ou uma reportagem numa peça literária. Quanto escuto um fato literário, sem que ninguém haja pronunciado qualquer som ou palavra, faço uma coisa muito diferente de ler um enunciado escrito numa das línguas que consigo decifrar. Escuto-o com imagens que não me estão acessíveis pela visão. Compreendo-o, deixo que ele altere todo o meu sistema consciente e inconsciente, os meus órgãos, vísceras, sentidos, ânimo, atividade cerebral e motivação, reagem-lhe, às vezes até de forma aversiva, mas eu não posso fazer nada para o evitar. Quanto muito, reconhecerei que gosto ou não gosto, que pode haver ou não coerência entre as suas partes, admitir que lhe correspondem um princípio, meio e fim, bem como uma indivisibilidade insofismável, porém, sem a mínima possibilidade de interferência nesse processo.
Posso até colaborar ou implicar com o autor, reconhecendo-lhe valia ou não; todavia, se a sua literalidade já foi definida, tal como ao seu criador, estou totalmente impotente quanto a inverter ou reiterar essa classificação. É literário, logo ninguém mais terá mão nele. Mete fora do conceito de realidade toda e qualquer noção que dele se possa fazer. Posso mesmo criticá-lo, interpretá-lo, analisá-lo, valorizá-lo, que tudo lhe será indiferente. Os outros podem ainda subescrever a minha crítica, ou serem-lhe opositores, que jamais o beliscaremos.
Ou seja, conforme lembrou Francisco Rodrigues Lobo lá no longínquo da sua Corte de Aldeia, onde o século XVI se espraiava com a espuma dos dias, e o tempo se media pela curvatura do Sol, não carece ao fato literário andar armado em sabichão e pretensioso erudito, nem escorar-se na filosofia das verdades incontestáveis ou (estatísticas) da realidade inegável, para andar seguro e reconhecido, desde que frequente ambientes de gente esforçada e generosa, a quem o mundo nunca acaba na ponta do nariz, para se ver entendido e admirado. Porque ele é o grão de que se há de fazer o pão que saciará os esfaimados de sonho e de esperança, que são os quantos nunca esquecem que das maiores invenções que a humanidade teve conhecimento foi ela mesma. E a literatura o espelho onde pode ver-se, refletir-se, admirar-se, abonecar-se, maquilhar-se, sublinhar-se, repetir-se, distorcer-se, cristalizar-se e sublimar-se. Enfim, o seu argumento essencial…

8.07.2011

Um Conto de Georges Lorinczy

O CADETEZINHO DE FRIBURGO
Georges Lorinczy*
Tradução de Cristiano Lima


Que um herói de romance não seja de condição a encarar, como um modelo exato e preciso, o bom senso na vida é o que, no fim de contas, ninguém melhor do que nós o sabe. O herói do romance está em pé de guerra com tudo o que, na vida representa o bom senso. Mais: ele está tão em pé de guerra com o bom senso como com a vida. O primeiro dever de um herói de romance é ser interessante, senão nem um gato lerá o romance de que ele é herói. E, nesse caso, pergunto-lhes para que serve ser herói de romance e se vale a pena afadigarmo-nos a escrever a sua história, visto que só temos uma preocupação: interessar o leitor. Numa palavra: é necessário que o herói de romance seja um herói dos pés à cabeça. Seja que herói seja, ele só deve ser herói.
O cadetezinho de Friburgo era um herói verdadeiro, um autêntico herói. Ou antes, ele vai tornar-se um herói: herói da vida ou herói de romance, pouco importa. O que é certo é que vale a pena ocuparmo-nos dele. Também, se assim não fosse, não diríamos uma palavra.
O que o cadetezinho de Friburgo nos diz respeito é uma coisa de que não nos sentimos obrigados a dar contas. Todos sabem que, de fato, tudo o que existe sobre o mundo nos interessa. E o cadete de Friburgo com soja razão, pois foi ele que nos ensinou a língua francesa.
Conformando-nos com o velho princípio in medias res, vamos precipitar-nos de um salto para o meio do romance.
A falar a verdade, não foi a meio do romance mas na grande estrada de Tarnocz que o cadetezinho de Friburgo encontrou Simon Simonyi, Simon «o Forte», que não era célebre apenas pela sua força física mas também pela força do seu espírito, à qual deveu ser eleito subprefeito do condado de Bars. É conveniente saber-se que, neste tempo, isto é, em 1861, o único caminho-de-ferro que existia na Hungria era o que ligava as cidades de Peste, Erseknjvar, Pretesburgo, Marchegg e Viena. Os nossos bons primos, os austríacos, que nessa época exerciam ainda, na Hungria, um poder discricionário, tinham mandado construir esta linha única, a qual era para eles tão urgente e necessária como o é uma mosca para uma aranha. Ao enriquecermos, deste modo, o nossos conhecimentos de história natural, resolvemos um velho problema, porque, sabendo como morrem as moscas, ficam igualmente a saber como engordam as aranhas. A estação de caminho-de-ferro mais importante da Hungria do Norte era a de Tarnocz. Ali é que os habitantes da Alta Hungria tomavam o combóio, quer o destino da sua viagem fosse Peste ou Viena. E também ali se apeavam, quer chegassem de Peste como de Viena.
No caso que nos ocupa, Simon Simonyi, Simon «o Forte», chegara de Viena a Tarnocz, onde o cocheiro, de libré de gala, o esperava no seu break igualmente de gala. Simon o subprefeito, Simon «o Forte», saltou rapidamente para o carro, e logo em seguida saltou não menos rapidamente para o chão. Uma charrette tombada barrava o caminho.
Simon Sdimonyi, como homem experimentado, examinou a situação num golpe de vista. Ao lado da charrette voltada, a roda estava no chão. Um homem esforçava-se por a meter no seu lugar. Mas não o conseguia. Simon Simonyi não disse nem uma nem duas: dirigiu-se à charrete e, em trinta segundos, ficou ela assente nas suas quatro rodas. O condutor da charrete trepou para o seu lugar. Simonyi acenou-lhe e disse em tom jovial:
– A estrada está livre.
Do fundo da charrette alguém agradeceu em francês:
– Obrigado, meu caro senhor.
Só então Simon o acrobata olhou para o viajante. E teve um gesto de surpresa:
– Olha quem ele é: o Sr. Pugin!
Reconheceram-se. Coube, então, ao Sr. Pugin a vez de se regozijar.
– Que feliz acaso! Sou eu, de fato, Sr. Chimoni.
Pugin, o francês, era também uma celebridade: um homem elegante que há dez anos ensinava francês, de castelo em castelo, aos húngaros da Alta Hungria. Vinha precisamente de Neczpal, no condado de Turova, onde fora durante dois anos hóspede e professor de francês dos Justh, no seu famoso castelo duplo. Aqui, neste castelo alegre e hospitaleiro, Simon Simonyi e Leon Pugin tinham-se divertido juntos, diversas vezes.
– Eu vou a Peste, Sr. Chimoni – acrescentou ele. – E o senhor?
– Eu vou festejar o aniversário de um amigo. Faria bem em me acompanhar
– E quando regressaríamos?
– Quando tivéssemos cozido a nossa embriaguez. Além disso, o senhor encontra Peste sempre que queira, ao passo que só há no ano um dia de S. Guilherme.
Pugin refletiu. Mas nem a oferta sedutora nem a reflexão foram perdidas, tanto a oferta era vaga quanto sedutora e prometedora de distrações. Nesta época, a juventude não ia ao castelo para dormir, mas para se recrear. Não se ouvia apenas ressoar o pandeiro dos guizos de zíngaro mas também as esporas. E nem um nem as outras convidavam a dormir, mas a folgar. Pugin acabou por saltar para o break de Simonyi. Nem perguntou onde o levava nem onde se festejava S. Guilherme. O que era bom para Simonyi não podia ser mau para Pugin. Uma hora depois, apeavam-se em Ivanka, em casa de Guilherme Toth.
A festa em Ivanka durou muito tempo para o cadete de Friburgo. Pugin passou perto de dez anos em Ivanka. Ensinou francês a Guilherme Toth, a sua mulher e aos seus três lindos filhos e, mais tarde, aos três netos, os três lindos rapazes de Turocz.
Nesse tempo as velhas terras nobiliárias húngaras estavam ainda integralmente nas mãos dos húngaros, como todas as virtudes e todo o encanto ancestral dos castelos. Graças à sua hospitalidade serena e amável, o estrangeiro tinha logo nos primeiros momentos a impressão de que estava em sua casa. Guilherme Toth, que foi mais tarde ministro do Interior, depois presidente do Tribunal de Contas e, enfim, membro da câmara dos Magnates; que foi o braço direito e o íntimo de Francisco Deak, era, então, apenas o jovem deputado pelo círculo de Nyitra, na Dieta húngara, mas, na opinião pública, o herdeiro e a esperança de uma carreira fulgurante. Sua mulher, uma Kossovich, era o encanto e o espírito personificado.
O nosso amigo francês, o honrado Pugin, o cadete de Friburgo, era uma individualidade ainda mais complicada, quanto mais não fosse, pelo seu passado movimentado. Batizámo-lo de «cadetezinho de Friburgo», porque o romance tumultuoso da sua existência principiara nesta qualidade e neste sentido, pois ele começara a vida na escola de cadetes, em Friburgo. Nascido na Suíça francesa, aos doze anos era já cadete da escola de Friburgo. Era já, nessa época, um aluno atleta: a sua bela cabeça de leão coroava um corpo vigoroso. A cidade de Friburgo estava então envolvida na guerra civil. A população revoltada cercara a fortaleza onde tinham instalado a escola, e nesta encontrava-se o cadetezinho de Friburgo, Leon Pugin. Foi ele que, uma noite, descobrindo que os insurretos preparavam um assalto, deu o alarme. Avisou a guarda, e toda a escola militar, com seu pessoal e a tropa, repeliu vitoriosamente a investida dos assaltantes. É claro que o nosso cadetezinho de Friburgo tomou parte neste combate noturno, e portou-se heroicamente.
Após a batalha, o comandante da praça ofereceu-lhe uma espingarda de honra, a título de distinção, de recompensa e de recordação de um irmão de armas.
O cadetezinho de Friburgo tomara parte no combate apenas para satisfazer a sua ânsia de aventuras. Fugiu depois da escola de cadetes. Foi parar à Polónia russa e viu-se envolvido numa aventura espantosa, na corte de não sei que espécie de grã-duquesa russa, na sua qualidade de professor de francês. O grão-duque era um autêntico grão-duque de opereta: ciumento e brutal. Mandava guardar por cossacos a sua mulher, uma polaca nova e linda.
A bela infortunada detestava naturalmente seu amo e senhor. O nosso cadetezinho, de coração muito inflamável, tornara-se um lindo rapaz, e o elegante mestre de francês, mestre não só na linguagem como na sedução. Não havia ninguém como ele para saber contar uma anedota. Acompanhava, com os gestos e uma fogosa mímica, as suas narrações variadas, e exercia um encanto mágico sobre a sua bela auditora, educada no ambiente das formas glaciais do cerimonial aristocrático.
O romance complica-se. O grão-duque não está em casa. É meia-noite. Tudo dorme. Os dois cossacos, guardas da fé conjugal na antecâmara da grã-duquesa, dormem também. No corredor tenebroso, alguém desliza a passo de lobo para o quarto da bela prisioneira. Com precaução, passa por cima do corpo dos cossacos adormecidos. E depois… Traição!... Como numa opereta… Os traidores caem sobre os amorosos, no momento em que eles menos esperavam. Em recordação deste perigo mortal, a mulher meteu um anel no dedo do cavalheiresco francês. E o cavalheiresco francês atirou-se cavalheirescamente de uma janela. Foi direito a casa do pope da aldeia. Era o único homem que tinha um cavalo. Deu-lho para ele fugir. O outro dirigiu-se para a floresta. Através de montes e vales, saltou fossos e toda a espécie de obstáculos, sem mesmo saber o que fazia. No seu encalço, cercando-o de perto, os cossacos lançaram-se em sua perseguição… Esfomeado, transtornado, esgotado, com o fato em farrapos, depois de dias sem repouso e de noites sem dormir, chegou a território húngaro. E foi só em Neczpal, no condado de Turocz, que ele pode finalmente descansar e recomeçar uma vida digna de um homem.
Nos dias de tranquilidade que depois teve, gostava de contar as suas atribulações e aventuras, muitas vezes num tom de satisfação e de alegria, ao mesmo tempo subtil e sonhador. Mas às vezes entusiasmava-se com a narrativa. Soltava profundos suspiros e sacudia a sua bela cabeça de leão, principalmente se lhe sucedia falar com a grã-duquesa.
– E o que é feito desse famoso anel? – Perguntei-lhe um dia.
O olhar de Pugin encheu-se de melancolia. Pareceu-me que, sobre a testa, lhe passavam nuvens.
– Ah, o anel? Ela tirou-mo…
– A grã-duquesa?
– Não. A primeira ribeira da Polónia que atravessei a vau… Deixei-o cair no Dunajec…

* Nasceu em 1860. Enquanto membro da Academia Petofi, foi um escritor de tendência acentuadfamente naturalista. Entre os seus melhores romances figuram Os Potentados da Aldeia, Sobre a Minha Terra e O Monte de Vidro.

8.04.2011

Troikas à portuguesa


Toma, que é prò tabaco!

“O Estado terá de ser mais flexível e versátil, para acomodar os pequenos impérios de diferenças que nos vão sendo revelados e a atitude cultural em que se consubstanciam.”
In Francisco Pinto Balsemão, Progresso Social e Democracia, nº 3/4

Acabou o tempo do fazer política brincando ao fingir que está tudo bem, derramando ilusão por todos os meios, estatais e públicos, como privados ou corporativos, alimentando o regabofe e ramboia de uns à custa dos demais, incluindo daqueles que nasceram há pouco ou ainda nem sequer foram congeminados. Segundo o ministro da economia, o seu ministério, só em carrões e respetivos choferes, além de outras ostentações inequivocamente ofensivas para os cidadãos comuns que entraram obrigatoriamente nas ações de austeridade nacional, o glamour e finess do palacete e seus palacianos, é de bradar aos céus. Neste, caso, à Troika bendita, por cujo memorando nos vamos alinhar nesta legislatura; porque quem deve, tem que pagar, e quem se compromete tem obrigatoriamente de cumprir, coisa que o Estado com o establishment português apenas entendia como à moda das scuts de sentido único: se for pessoa, contribuinte, cidadão lá vem penhora e juros de mora, mas se for instituição pública, autarquia, fundação e ministério, é tão-só modalidade normal, tradicional e modus operandi estabelecido e “legal” – atrasos e contas, só os nossos e no pagar.
É claro, que os senhores da logística e do capital lhe franziu o nariz. Não gosta de coisas simples, efetivas, eficazes, baratas, sustentáveis, honestas, francas, diretas e sem percentagem à vista por derivados e afins. Isto está mau, mas também não é para tanto. Erros qualquer um comete, que é para isso que somos humanos, defendemos o humanismo e reivindicamos o antropocentrismo, e não entremos agora a alardear com exigências de responsabilidade, rigor e resolução do défice e do endividamento, senão ficamos sem nada pra fazer nem onde ganhar a vida – pensam eles, não o dizendo, claro está, mas deixando que a expressão e o semblante fale por eles.
Outros, aqueles que votaram no Salazar para personalidade do século passado, desabafam entre si que murumurando um «porra: isto do Salazar, era a brincar, só pra chatear os comunas…», mais ou menos convicto, tentando inverter a marcha, alguns mesmo afiançando estarem deveras arrependidos com a expulsão do Sócrates para outras cicutas e Sorbones. Se razão lhes assiste, é no não terem pensado antes, porém, considerando que nunca fizeram de outro jeito, não se vislumbra maneira de alterar o provérbio popular que enuncia que burro velho não aprende línguas, porquanto todos sabemos não haverem outros veículos mais eficazes para materializar, realizar, demonstrar o pensamento – as ditas e cujas com que se fala. Nem melhor reforma do que aquela que é ministrada pelos reformadores que, como todos sabemos desde que E. Hubbard o disse, “são aqueles que educam o povo a apreciar aquilo de que precisam”.
Provavelmente, aqueles que leram as minhas crónicas no Fonte Nova devem estar lembrados do lá se dizia. Foi até por elas que alguns me chamaram de iluminado, pondo ênfase precisamente no termo, daquela forma brilhante que o português lhes propicia afirmar o contrário de uma coisa nomeando-a. Alberto João Jardim deu-lhes a resposta agora, através da SIC como suplemento vitamínico madeirense prò continente e seus continentais adjacentes. Não perderam pela demora!
Ou seja, os portugueses espertaram, e já não se deixam comer por trouxas por todos aqueles que dizem defender as suas ideologias, que ter partido ou abanar a bandeirinha não é mais livre-trânsito para a função, nem o tripudiar dos utentes/utilizadores um abono de garantia no posto de trabalho, quer se esteja anexo às autarquias como ao poder central – ou paralelo. A flexibilidade deve reger-se pela competência, e os incompetentes têm que deixar de ser um ativo na administração nacional. Se não, ficamos todos troikados!

8.01.2011

Presságio

PRESSÁGIO


Ao contrário daquilo que pretendo fazer-vos crer
Nem tudo em mim é pura e singela transparência
Também tenho segredos alguns inconfessáveis
Difíceis de dizer, de calar, de escrever, de expelir
De deixar esquecidos numa qualquer rua, esquina
De grafitar nas paredes de alguma casa em ruínas
De abandonar em banco de jardim ou gare ferroviária
De acondicionar entre os livros da biblioteca pública
De encaixotar no sótão com demais trastes e bibelôs
De meter na gaveta das trivialidades preciosas
Junto aos cromos da bola, aos porta-chaves, fotografias
Calendários pornográficos, bilhetes de teatro ou concertos
Recortes de fait-divers, catálogos de exposição, clipes
Botões invulgares, relógios avariados e colchetes ímpares,
Embora me tenha esforçado capciosa e exaustivamente
Rasteirando-me amiúde ou tentando desmascarar-me
Pra nada permitir oculto de mim e de meus semelhantes.


Mas ontem à noite, ao deitar-me, tinha uma aranha
Pequena e quase negra sobre a colcha branca da cama
Por cuja pose serena, pacificadora, sem o mínimo temor
Sem qualquer expressão de surpresa parecia aguardar-me
Que não tive coragem de afugentar e muito menos de matar
E a quem fiz com que me subisse prà concha da mão direita
A fim de pô-la num lugar da casa raramente frequentado
Num dos quartos vagos e sem serventia que me sobram.


Foi um momento solene, de sublime suspensão religiosa
E sustida respiração com receio que ao expirar a incomodasse
O ar exalado viesse inquietá-la ou lhe inspirasse a fuga
O susto, o pânico, algo lhe subtraísse a letargia apaziguadora.
Contornei móveis, transpus portas, percorri salas e corredores
Todavia, como se adivinhado tivesse a solidão dos quartos
A prisão de silêncio para que estava disposto a atirá-la
Ei-la num ápice saltando sem que pudesse evitar-lhe o sumiço
Deixando-me estático para que a não pisasse sem ver
A molestasse involuntariamente ou, enfim, a matasse
No precipitado comum dos gestos irreversíveis e fatais.


Adormeci com a porta do quarto entreaberta... Mas demorei
Custou-me adormecer e passei a noite em sobressalto
Sonhando acidentes vários, tempestades, desertos gelados
Catástrofes mais que perfeitas me obrigaram a acordar
E, durante todo o dia de hoje, andei na casa em bicos de pés
À coca, com cuidado e atentando bem ao dar os passos
Compungido e ansioso por reencontrá-la e trazê-la de volta
Depo-la novamente no meu quarto, rogando-lhe perdão...


Sei que vos pode parecer esquisito este clima de segredo
Este suspeitoso ar de mistério e culpa por um ser ínfimo
Insignificante de quatro pares de patas e baba de seda
Não obstante gregos e egípcios em sua teia revejam o destino
E os cristãos lhe concedam as tramas e ciladas de satanás
Ou o sustentáculo do conjunto da vida como querem os celtas,
Casa e tabernáculo da Grande Mãe devoradora de fomes e homens
Insaciável poço de vertigem, sofreguidão e imperiosas urgências.

* * *
Sete dias se passaram convém não esquecer, sei-o muito bem
Porém também não desconheço que a culpa não foi minha
Mas da alma que me arregoou em todos os sentidos possíveis
De júbilo, de alívio, de euforia, de arrebatamento, enfim de tudo
Pois voei de mim desde que a voltei a encontrar, inconfundível
Precisamente ao canto esquerdo do espelho rectangular, de manhã
Na casa de banho quando fui barbear-me, lavar inclusive o rosto,
E ali ficou a olhar-me, vendo-me a ver-me na limpeza diária das faces
Ou a iluminar-me de outra luz para além daquela jorrada da lâmpada
Semeando-me enxadas digitais para softwares de enredo e mistério
Tecendo-me a realidade com diferentes pontos e linhas num morse
De seda cinza onde adivinhar e domesticar frágeis sinas ou futuros
Rumos pendulares, parabólicas intercepções oscilantes entre céus
Reinos da alma fugida, exilada do corpo durante os sonos da noite
Contudo recuperada pela aurora no canto esquerdo do plano reflexo,
Espelho esse que mais tarde abandonou para subir ao tecto
Instalar-se como estrela de oito pontas no vértice superior direito
Exactamente no ângulo feito entre as paredes e o estuque cimeiro.

* *
Agora deixei, é certo, de andar na casa com receio de pisá-la
E a desenvoltura nas lides ganhou aquela lesta espontaneidade
De quem não necessita de se resguardar da terra que habita
Do chão que pisa, da pele que o envolve, do querer que o anima.
No entanto, sempre que saio de casa tenho de confirmar onde fica,
Mal regresso é a primeira coisa que faço, a ver se ainda lá está,
E nunca me deito ou adormeço sem antes lhe ir desejar boas noites.

Pensei que fosse superstição, ritual de incorporar alguém querido
De quem sinto a ausência e me prendeu nessa teia de palavras
Onde germinam e proliferam as essências secretas dos predicados
A alquimia dos verbos que transitam entre os planos semânticos
E faz fluir a eternidade tornando-a una e transversal às gerações.

Supus ser a tecedeira da rede de afectos que me pescou a alma
A cerziu em passagens serenas e assimétricas de emalhar sentidos
Cruzar pontos, atar hífens, justapor ritmos e rimas da paleta sonora
Ou preencher o vazio do cosmos com as linhas que o sustenham
Réplicas do DNA universal comum a todos os elos da espiral da vida,
As ligações que irmanam os seres e espécies da casa na geografia
Interior a que axónios íntimos jamais negaram a sinapse das falas.

Acreditei que fosse o espírito ancestral congeminando as sortes
Os anseios de olhar o céu que nos tornam únicos porque adoramos
Infringimos a lei dos deuses roubando-lhe o fogo de forjar a matéria
E a vontade, moldando sobre a bigorna do tempo os próprios símbolos
Véu de ilusão, ovo de Maya, expressão da prodigiosa criação da beleza
Lídia dotada, efémera Aracne tecelã dos amores dos deuses pelos mortais
Ferida por Atena e sua lançadeira no castigo da ambição demiúrgica,
Qual Anansé que amassou e moldou a farinha dos primeiros homens
Que criou o sol e as estrelas, força realizadora da meditação intuitiva
Primórdio inicial de todos os seres e interioridade preciosa do cosmos.

Porém, nenhuma justificação me satisfez... Nem o seu consentimento
Me foi dado observar, até que subi ao bordo da banheira e observei
De muito perto, tão perto que os seus cinco olhos me fitaram de viés
Me saudaram num ínfimo pestanejar de assentimento pacificador,
Ditaram que no pentágono dos sentidos o núcleo governa o todo
E esse é tido e ordenado pelo soslaio que emite aos quatro cantos
Aos quatro elementos naturais, terra, ar, fogo e água, carne, respiração,
Calor e sangue, cérebro, pensamento, sexo e amor, língua, cultura,
Arte e poema, aliás simples e trôpega cópia do teu olhar na segunda fila
No balcão dos conteúdos escondidos em cifra humana e literária
Metáforas vivas da arca de acácia onde a humanidade guarda o sonho
Que nos sonha, inventando-nos à sua imagem e dela testemunhas.


Indubitavelmente o teu soslaio, magma que te esculpe o sorriso
No rosa cintilante das faces sob os arcos lunares dos cabelos castanhos
Tensos mas tombados como um manto, duplo véu de Vénus
Moldura de enigma e mistério, seda de abrigo para Moura Encantada.

*

Nem tudo em mim é simples e pura transparência como supõem...
E quero fazer crer. Por exemplo, acabei agora de dizer o teu nome
Como presságio de reencontro, e somente tu o saberás ouvir, ler
Reconhecer entre todas as palavras que vagueiam e se espraiam
Na enseada da voz, no delta da fala, à sombra dos oásis do poema.

7.31.2011

Fábulas Fantásticas, de Ambrose Bierce


O DESTINO DO POETA

Jornadeava um Objeto pela estrada real, repleto de meditações e munido de mais coisa nenhuma, quando de súbito se viu ante as portas de uma grande cidade. Tendo pedido autorização para entrar foi preso sob a suspeita de acreditar em ritos e levado à presença do Rei.
– Quem é o senhor e que profissão é a sua? – Perguntou-lhe o Soberano.
– Sou Carlos, o Larápio, gatuno de esticão – respondeu o Objeto com grande rapidez de inventiva.
O Rei ia-o mandar soltar quando o Primeiro-Ministro sugeriu o exame aos dedos do detido. Verificou-se que eram muito achatados e calosos.
– Ah! – exclamou o Monarca – eu bem vos tinha dito! O nosso homem dedica-se a contar sílabas. É poeta. Entreguem-no ao Grande Dissuasor do Hábito de ter uma Cabeça.
– Se Vossa Majestade mo permitisse – saiu-se, então, o Inventor Ordinário dos Castigos Engenhosos – eu proporia uma pena mais pesada.
– Diga, diga – assentiu o Rei.
– Que ele conserve a cabeça!
E assim foi ordenado.

In Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral

Soneto de Filinto Elísio (1734-1819)

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o com o pesar de um desgraçado,
A quem nem feições lembram da ventura.

Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Na negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água.

Consolar-me só podem já pesares;
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa!


(Nota: Caraterístico das almas românticas, o sentimento do noturno, aparece em Filinto Elísio e adquire neste soneto uma das suas mais belas expressões. Se salientarmos o tom veemente e exagerado predominante na composição, que culmina na redundância final ao encher de mágoa universal a mágoa particular do autor, notamos sobremaneira como os efeitos puramente românticos ainda continuam a funcionar no arrebatamento inicial das leituras atuais.)

7.24.2011

Conto de Terka Lux


PAULO
Conto de Terka Lux **

Perto das nove horas da noite, Paulo bateu à porta da casa do seu tio médico. Paulo era um rapaz de vinte e sete anos. O tio tinha cinquenta e cinco. Era um solteirão rabugento, meticuloso avaro de palavras.
Os dois parentes raras vezes se viam, e o médico ficou muito surpreendido com aquela aparição inesperada, feita de noite.
– Estás doente? – Perguntou, olhando para o sobrinho, de pé, diante dele, com o rosto transtornado e o olhar triste.
– É muito provável – respondeu Paulo –, e queria consultá-lo.
– Senta-te e vejamos o que tens.
Paulo sentou-se. Em frente, na secretária, estava uma caveira. Com um gesto nervoso, tapou-a com um jornal e depois, num tom a princípio baço e monótono e em seguida veemente, em frases cortantes, disse:
– Há dois anos que cortejo uma excelente e honesta rapariga. Trabalhava numa casa de costura. Eu, como sabe, estou há quatro anos num armazém de sedas. Ela é órfã, tem a minha idade, é digníssima na conduta, hábil e corajosa perante a vida, mas tão pobre como eu. É-me muito dedicada. Tenho por ela grande simpatia e, de boa vontade, a tornaria minha mulher, se a rapariga dispusesse pelo menos de cinco mil pengos. Não... contentava-me com menos... Bastava que tivesse três mil. Nem tanto. Dois mil chegavam-me. Dois mil, para poder tomar qualquer iniciativa. Mas ela não tem dinheiro e todos os dias suplica que casemos. Passa horas inteiras a chorar, enquanto discorremos sobre a vida. Digo-lhe:
"– Sossega, Julieta, peço-te encarecidamente.
– Mas eu estou sossegada – diz ela.
– Então não chores.
– É uma vontade que não te posso fazer. Isso apertar-me-ia o coração. Bem sei que nunca casarás comigo.
– Neste momento é-me impossível.
– E noutra ocasião qualquer também não poderás.
– Esperemos, Julieta.
– Esperemos, o quê? – soluça ela. – Temos vinte e sete anos. Os vinte já lá vão, e a vida que passa não recomeça. Não seremos amanhã mais ricos do que hoje e Deus não gosta das pessoas que hesitam. Não se deve levar anos a pensar no casamento. Gosto de ti, tu gostas de mim, que mais é preciso? O amor, a estima e o trabalho é que são indispensáveis. O dinheiro? Se o temos tanto melhor, mas, se o não há, é isso razão para que os pobres não se casem?"
– É assim que ela fala. É esta a sua filosofia. E isto continua assim todos os dias. Não posso mais.
– Tenho um colega – continuou Paulo –, um rapaz que vive com desafogo. Acaba de abrir um armazém numa rua de grande movimento. Dava-me sociedade se eu casasse com a irmã dele, que tem cinco mil pengos de dote. Insiste muito comigo. Quanto a Julieta, casava com ela apenas por dois mil. Sou pobre e, no casamento, os pobres não procuram o amor, mas a base da existência. Apesar disso, preferia casar com a pobre Julieta. Ela contentava-se com um quarto e cozinha, ao passo que para a outra seriam necessários dois com todo o conforto moderno, uma criada para todo o serviço, sem falar do casaco de peles, do teatro, da vida de sociedade e de toda a espécie de frivolidades. Para Julieta não é preciso nada, e do seu amor por mim tenho provas. A outra, não a conheço, e é possível que seja uma pessoa tão complicada, que me tornarei calvo depois de a conhecer a fundo. A comodidade também entra em linha de conta. Todas as raparigas, aquelas com quem casamos ou aquelas com quem não se casa, gostam de ser conquistadas primeiro. Temos de andar bem barbeados, bem vestidos, oferecer-lhes flores e mostrarmo-nos apaixonados. É aborrecido e estúpido. Faz-se isso uma ou duas vezes. Julieta é a terceira. Mas, à Quarta, ataca-nos o tédio. E receio também que digam nas minhas costas: "Este canalha seduz mulheres. Encheu de desgosto a pobre Julieta, que ficou com o coração estilhaçado como um vidro apedrejado por um garoto." E, contudo, não posso. Sou pobre...
O médico encarou-o com dureza.
– Então, que queres? Com certeza queres alguma coisa.
– Sim, quero alguma coisa – gaguejou Paulo.
– Queres casar com a rapariga rica?
– Queria.
– E a Julieta?
– Há de consolar-se.
– Suicida-se.
– Então casa com ela.
– Não posso.
– Que queres que te faça?
– Procurei-te justamente para to perguntar, por seres um homem sensato e instruído. Dá-me um conselho.
O médico encolheu os ombros.
– Não te posso dar conselho nenhum. Querias ser bom, e não podes. Querias ser mau, e também não és capaz... Nem sequer és uma dessas ovelhas que vão para onde o pastor as leva. Não podes ser nada: nem pequeno, nem grande; nem sensato, nem louco; nem ébrio, nem sóbrio. Não passas de um pateta e da pior espécie. Volta para casa e mete-te na tua cama.
O médico ergueu-se, e Paulo viu o desdém nos seus olhos frios e inteligentes. Levantou-se, por seu turno. Sentiu que praticara, ao procurá-lo, um disparate sem nome. Pegou no chapéu e saiu muito embaraçado.
O médico olhou, demoradamente, para a porta por onde Paulo saíra. Recordações antigas entravam por ela.
A sua irmã mais velha, mãe de Paulo, morrera há tempos. Era de pequena estatura, testa deprimida, olhos oblíquos e a pele amarela. Parecia chinesa. As outras duas irmãs eram bonitas e casaram cedo. E, já em nova, Madalena dava a impressão de que nunca seria feliz. Era costureira e trabalhava numa casa de modas, sob a direção de um costureiro que talhava os fatos pelos figurinos ingleses. Era marreco. Usava, como os artistas, os cabelos compridos. A cara era simpática e pálida, apesar de ter duas manchas vermelhas. Como passara três anos em Paris, falava corretamente o francês. Madalena apaixonara-se por ele ao ouvi-lo, pela primeira vez, falar francês com a dona da casa. E decidiu que casaria com o marreco. Tinha uma tão grande força de vontade, ao contrário do costureiro, alma débil, doentia e indiferente, que conseguiu o que queria. Ele morreu pouco tempo depois. Tal eram o pai e mãe de Paulo.
Sentado, no escritório, o médico acendeu um cigarro e, através do fumo, uma cena antiga se reconstituiu:
Madalena era já há muito tempo viúva. Trabalhava sozinha na sua pequena habitação, numa rua estreita. Era uma noite de Verão. A porta da cozinha encontrava-se aberta e, como Madalena adoecera, fora visitá-la. No quarto, não o ouviram entrar. Ela cosia perto da lâmpada, e Paulo, que contava então doze anos, estava sentado com os livros na frente. A mãe repreendia-o e o médico ouviu tudo o que ela lhe dizia.
– És tão estúpido, que me envergonhas. De todas as crianças dos nossos vizinhos e das pessoas das nossas relações não conheço nenhuma tão pateta. Os outros são todos rapazes inteligentes, desembaraçados... E tu?... Atrapalhas-te com tudo. Quebras a cabeça com coisas que nunca te darão o menor proveito. Os outros rapazes são simples, naturais, razoáveis; são como toda a gente. E tu?... Tu não és como os outros. Que posso fazer de ti? Ninguém te estima. Nem eu própria morro de amores por ti. Fazes sempre perguntas a que ninguém pode responder. Para quê? Não tens amigos. Como te arranjarás para viver? Estás sempre a dizer: «isto não é justo». Que coisa estúpida será, em tua opinião, a justiça? Que necessidade tens dela? Queres que toda a gente se afaste de ti? Os teus próprios professores não podem contigo. Trata mas é de estudar e de arranjar uma boa colocação. Os teus professores dizem que tu não tens nada de burro. Não acredito. Um homem inteligente não se preocupa com o que é bom para os outros, mas sim com o que a ele lhe pode interessar. Seja o que for que te digam, respondes sempre: «Examinemos isso com cuidado...» Onde já se ouviu dizer semelhante coisa? Para que queres examinar cuidadosamente coisas que ninguém examinou? Todos os garotos, incluindo o petiz do vizinho, que tem oito anos, gostam de dinheiro e de fazer negócios. Tu nunca terás para os negócios o menor jeito. Morrerás de fome. Neste mundo, hoje, todos querem arranjar dinheiro. De que raça és tu? O que tens pertence-te, mas um homem inteligente consegue também o que não está ao seu alcance. Tu... Quando chegar a vez de teres que ganhar a vida, morrerás de fome! Idiota!...
As lágrimas de Paulo rolavam-lhe pelos livros. O médico retirou-se, sem ninguém dar por ele, e foi-se embora... Tal era Paulo noutro tempo... E agora era um Paulo totalmente diferente, que saíra por aquela porta...
Nesse momento, o médico lamentava ter-lhe falado com tanta rudeza. Resolveu mandá-los chamar no dia seguinte, a ele e à rapariga. Queria ver essa Julieta. E, para que Paulo tivesse um lar, estava disposto a dar-lhe dois mil pengos. E mais mil para a sua casinha. Três mil, ao todo. E foi-se deitar.
Paulo passeou toda a noite nas margens do Danúbio. Estava uma noite escura, sem estrelas. Ele tinha medo daquela água profunda. Ao dealbar, o Danúbio tinha um aspeto muito agradável. O sol surgiu, por entre um nevoeiro cor-de-rosa, as ruas animavam-se, e Paulo deitou ao mundo um último olhar, um olhar de despedida.

** Modernista Húngaro dos princípios do século passado.

7.20.2011

Ela Partiu, conto de Tchekov

ELA PARTIU
(Conto de Tchekov – 1883)

Tinham acabado de almoçar. Da parte dos estômagos havia um bem-estar delicioso. As bocas abriam-se em bocejos e os olhos começavam a fechar-se sob uma sonolência beatífica. O marido acendeu charuto, espreguiçou-se e deixou-se cair no sofá. A esposa sentou-se a seu lado e principiou a ronronar... Eram ambos muito felizes.
– Conta-me qualquer coisa – disse ele, bocejando.
– Que hei de contar-te? Hum... Ah, sim; já sabes? Sofia casou-se ontem com o... Como se chama?... Von Tramb. É um escândalo!
– Um escândalo, porquê?
– Porque esse Von Tramb é um crápula. Um patife, um homem sem escrúpulos, sem o menor princípio! Um monstro de imoralidade. Foi administrador do conde e encheu as algibeiras, agora é empregado nos caminhos-de-ferro e desfalca. Despojou a irmã. Numa palavra, é um biltre e um ladrão. E casar-se com semelhante indivíduo! Viver com ele! Tanto mais que se trata de uma rapariga decente. Por nada deste mundo eu casaria com tal homem. Ainda que fosse milionário e mais bonito do que ninguém, eu mandava-o... passear! Nem posso conceber a ideia de um marido tão desonesto.
Levantou-se num pulo e, vermelha de indignação, começou a andar de cá para lá na sala. A cólera brilhava-lhe nos olhos. Era evidente a sua sinceridade.
– Que tipo aquele Von Tramb! E mil vezes tolas, mil vezes cobardes, as mulheres que se ligam a semelhantes cavalheiros!
– Hum... Não serias tu, com certeza, que casarias... mas se soubesses agora que também sou um patife... Que farias?
– Eu?! Deixava-te! Não ficava contigo nem mais um segundo. Só posso amar um homem honesto. Se soubesse que fazias a centésima parte do que fez Von Tramb dizia-te Adeus sem perda de um instante.
– Ah, sim? Que mulher eu tenho aqui! E eu que nem suspeitava... Ah, ah, ah! As mulheres mentem sem sequer corar!
– Eu nunca minto. Experimenta cometer um ato indigno e verás!
– Para quê experimentar? Tu própria o sabes... Sou muito mais velhaco que esse Von Tramb. Comparado comigo ele é um insignificante. Arregalas os olhos? É extraordinário. – Pausa. – Quanto ganho?
– Três mil rublos por ano.
– E o colar que te comprei a semana passada, quanto custou? Dois mil, não foi? E o vestido, ontem? Quinhentos... A casa de campo? Dois mil... Ah, ah, ah! Ontem o teu papá apanhou-me mais mil rublos...
– Mas, Piotr, os teus rendimentos suplementares?
– Os cavalos... O médico da família... As contas das modistas... Há três dias perdeste cem rublos às cartas.
O marido endireitou-se e, cruzando as mãos sob o queixo, relatou, até ao fim, a lista das suas proezas. Em seguida foi ao escritório e mostrou à mulher algumas provas materiais.
– Como vês, querida, o teu Von Tramb não é mais que uma brincadeira, um ladrãozinho, ao pé de mim. Adeus! Vai-te embora e, de futuro, abstém-te de julgar.
Terminei. Talvez o leitor me pergunte:
– E ela partiu?
Sim, partiu... para a sala contígua.

7.19.2011

Um conto de Marie Berde

O JARDIM AINDA O IGNORA
Conto de Marie Berde*


O jardim era tratado com o carinho que uma mulher apaixonada costuma dispensar ao seu ninho de amor. Assemelhava-se a um templo de ritos secretos, a um leito nupcial com recolhimento: era misterioso, faustoso e puro. As janelas do prédio que deitavam para as traseiras estavam ocultas pela abóbada da folhagem das tuias [árvores coníferas]. Em frente do terraço, viam-se platibandas [bordaduras dos canteiros de um jardim], as áleas de areia dourada e grossa, tapetes de verdura reluzentes como esmeraldas, cujo brilho instável anunciava a Primavera, com a brancura terna das flores de fogo desaparecidas sob a geada.
Mas, apesar disso, havia no jardim mais verdura do que flores. No meio das platibandas e nos recantos viam-se pequenas palmeiras e piteiras que ostentavam a sua rígida beleza de plantas do Sul, e, em volta de vasos de mármore com veios cor-de-rosa, as rosas dos rochedos concentravam-se em montículos escarlates.
Para além das platibandas, os silvados formavam, confundindo-se, áleas compridas, onde imperava uma luz verde. Ali, os pássaros, estavam como em sua casa, quer os canoros como os silenciosos, de que apenas se ouvia o suave murmúrio e o ruflar das asas ao rés da folhagem...
Tal era o jardim em cujo terraço se sentaram pela primeira vez, depois de terem trocado beijos de amor sob as estrelas, para que elas, que nunca desaparecerão, fossem as testemunhas do seu encontro. Ali, até ao terra, à direita, havia a sombra dos caramanchões, onde eles liam os livros em que se encontravam a si próprios. Era lá que ela cerrava os olhos sobre os sofrimentos inverosimilmente belos do jovem Werther, e que, lendo Baudelaire, escondia o rosto na massa sedosa de que o fresco perfume evocava os bálsamos opulentos da casca do abeto fendido.
À esquerda, por entre os pinheiros, havia uma rede. Quantas vezes ele ali a encontrara! Sentava-se ao lado dela, e talvez nunca tivesse passado horas tão belas como aquelas em esperava o seu despertar...
Ou provavelmente a mais bela de todas teria sido uma em que lhe viu brilhar a primeira lágrima. Não foi do seu amor que ela brotou, mas da doença de uma criança, um dos seus parentes, a quem nunca vira e por quem reaprendera as orações da sua infância, só para ver um sorriso nos lábios da amada.
A vida era encantadora, rica e imutável, ao pé dela.
Os anos passaram sem causar dano à sua beleza, à sua bondade e ao seu encanto. O seu amor por ela tornou-se um verdadeiro culto insubstituível.
Naquele dia apareceram de novo no terraço, e nunca, nem o jardim, nem a mulher, tinham sido tão belos, em sua pompa colorida. As orlas dos canteiros cintilavam como se fossem iluminadas de baixo para cima. As flores pareciam hesitar entre o branco e o azul primaveris, e as orgias de amarelo e de vermelho outonais.
Da tonalidade mais suave do ponto extremo do céu, que avistava, ao azul vertiginoso do zénite, ao cor-de-rosa resplandecente dos botões rústicos, passando pela rosa lilás, as campânulas prodigalizavam a sua beleza, e as dedaleiras acendiam, em volta delas, chamas vermelhas e amarelas.
Agora o homem compreendia porque lhe barrara ela, durante tanto tempo, a porta do jardim.
Reservava-lhe, como surpresa, a floração estival. Dir-se-ia que toda aquela pompa se repetia nela: sobre a brancura imaculada da testa, a linha azulada das têmporas, a cara rosa pela emoção, os lábios avermelhados pelos beijos. O seu vestido também parecia copiar, num verde mais delicado, as ervas mais claras, e o veludo dos seus olhos dir-se-ia querer lutar com as pétalas dos pensamentos. Para os seus cabelos não encontra matizes semelhantes, nem nas manchas de ocre vermelho das énulas [Plantas vivazes da família das Compostas. Têm raízes grossas, caules robustos até dois metros de altura, folhas caulinares sésseis, amplexicaules e flores amarelas dispostas em grandes capítulos. Cultivadas como ornamentais em Portugal, são conhecidas na Europa desde a Antiguidade pelas propriedades medicinais das suas raízes], nem no pólen das rosas desfolhadas. Durante o longo e mudo êxtase que se seguiu, a mulher tornou-se lentamente sombria.
– O jardim ainda o ignora... – disse ela, e a voz estrangulou-se-lhe.
– Ignora, o quê?
Como resposta, ela pegou-lhe na mão, e fê-lo caminhar a seu lado. Não encontrou resistência; além disso, quando ele sentia a sua mão, nunca lhe perguntava para onde o conduzia. Do outro lado dos canteiros, em que se abria o primeiro corredor de verdura, a hera pendia em compridas abóbadas. As folhas eram espessas, duras, de um verde-escuro, e dir-se-ia que nas suas nervuras brancas corriam um sangue puro e fresco.
Estendeu a mão para a hera, puxou-a para si e designou uma folha dum amarelo d cera:
– A primeira... – disse ela suavemente.
Largou a hera, que lhe roçou os cabelos, desmanchando-lhos. Quis alisá-los suavemente. E, então, algo atraiu o seu olhar. Um cabelo curto, que ficara solto, da cor de um fio de prata, na massa de um castanho metálico.
– O jardim ignora ainda – repetiu a mulher –, que o Outono abriu nele uma clareira.
E prosseguiu:
– Uma clareira, não; uma pequena fenda, um postigo por onde observa o jogo de cores, antes de as varrer.
Enquanto falava, continuava a caminhar, de cabeça baixa, seguida pelo homem.
Sentaram-se num banco. O homem estava pálido como a folha da hera amarelecida.
– Sinto-me cansado – disse ele.
Deitou-se no banco, reclinou a cabeça sobre os joelhos da mulher, e fechou os olhos, para não ser obrigado a falar...
Uma imagem começava a atormentá-lo... Via-a, em frente do espelho, quando ela notasse o primeiro cabelo branco.
Ela nunca lhe pedira – pelo menos nunca em tal lhe falara – que abandonasse a paz do seu lar, a sua mulher e os seus filhos, e lhe desse o que sobrevive a um amor passageiro: um filho.
Fora do seu amor, ela nada tinha. Diante do seu primeiro cabelo branco, estremeceria de medo, do medo inconfessado de perder o seu único bem, pelo qual tudo sacrificara.
Via debater-se esta esbelta e magnífica criatura, que ele conhecia como uma harmonia perfeita. Debater-se e talvez, algum dia, inexplicavelmente, dizer-lhe Adeus, depois de um combate travado na sua alma. De cabelos brancos pode ser-se esposa e mãe, digna de amor, respeito, veneração, mas à amante, à amante magnífica, só dizer-se-lhe Adeus sem um queixume.
Apertava-se-lhe o coração e só uma ideia o consolava.
Um sentimento difuso, a custo definido: que não era por ele próprio, mas por ela, que o coração se lhe oprimia; por ela, que ele via na sua frente, com um vestido sombrio como o das religiosas, quando só lhe restasse o rito funerário do passado.
Entretanto, ele não tardaria a depor um beijo na testa da filha, no dia em que ela casasse, e a apertar a mão ao filho, no começo da sua carreira. E o andar ágil dos netos daria a medida das suas alegrias domésticas, enquanto, para ela, a neve cairia no seu jardim e alastraria... alastraria num amplo lençol, porque não havia ninguém para a pisar. Só as patinhas minúsculas dos pássaros lhe imprimiriam pequenas estrelas...
A tristeza da mulher passou como a sombra da nuvem, sobre a qual a profundidade das cores ressaltava ainda mais vigorosamente. A languidez delicada, quase agradável, da sua melancolia só se transmudou em emoção, quando ouviu o homem suspirar. E foi então, ao inclinar-se para ele, que viu no canto dos seus olhos lágrimas que não podiam correr.
– Diz-me, em nome do céu: causei-te tristeza por causa desta primeira folha amarela?
Baixou, quase imperceptivelmente, os olhos e fez-lhe um sinal afirmativo. E sentiu naquele olhar a moleza de um lenço: suavemente, num tom maternal, como a um doente, ao qual se quer ocultar pormenores entristecedores.
– Escondamos as tuas lágrimas. Não quero que o jardim saiba que choraste. Que ele continue a florir por mais algum tempo, tranquilamente, sem desconfiar que a sua beleza já foi atingida...
No pequenino lenço de cambraia, recolheu as suas lágrimas e, como se tivesse brotado pelo que havia para ela de mais precioso no mundo, ocultou-as no seu peito, que escaldava.


* Nasceu em 1889, na Transilvânia (Kacho). Foi nos seus primeiros tempos, antes de ingressar numa carreira literária, professora de escola profissional, tendo sido conhecida principalmente como romancista e dramaturga. Nas suas obras refletem-se o caos trágico da vida moderna e a introspeção dos seres solitários e simples. Entre os seus mais populares romances destacam-se O Filme Eterno, Dança Macabra e Vergonha Sagrada.

7.12.2011

Piafé e marcar passo são andamentos de não ir a lado algum

Não Mais o Stop and Go


"O exercício do poder consiste tanto em lutar democraticamente pela sua conquista, como em saber sair do poder por mais que se invoque o interesse nacional como único motivo para dele não sair."
In Francisco Pinto Balsemão, Exercício do Poder e "Jogo de Vulgaridades", Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 4, Volume II, Setembro/Dezembro de 1984.

Tal como Roma, Mora e Pavia não se fizeram num só dia, também Portugal não sairá da cepa torta de um momento para o outro, por mais que os governos se esforcem a implementar as medidas enunciadas no plano (ou memorando) da Troika, adoptadas como programa de governo, sobretudo se para tanto não for acompanhado por uma onda de empenho e solidariedade dos demais cidadãos portugueses, sem responsabilidades administrativas e de gestão, é óbvio, mas que se subscrevem na linha de uma participação ativa, emancipada, consciente e amadurecida no exemplar reconhecimento das dificuldades com que nos iremos deparar no futuro próximo, tão próximo, que em nada não se distingue do presente. É urgente que esta tomada de consciência se faça com prontidão e não se atenha somente às forças políticas do arco governativo, antes pelo contrário assuma a dimensão de um desígnio nacional abrangente, rigoroso e sem ressentimentos. Desafetos políticos, objetivos eleitoralistas ou regionalismos divisórios. Eu próprio, que fui candidato à Assembleia da República por uma força da esquerda progressista não me coíbo de apoiar este governo em tudo o que for a favor da sustentabilidade, do equilíbrio das contas públicas, da resolução dos problemas estruturais e do emprego, de combate ao défice e investimento para o crescimento, do desenvolvimento humano, da segurança, da imagem externa e do recuperar da confiança dos mercados, do relacionamento entre Portugal e demais membros da CPLP, da biodiversidade, património, do racional ordenamento do território e da cidadania. E não me caem os parêntesis na lama por isso!
Entre o Bogio e a Boca do Inferno não há meio-termo, precisamente porque enquanto se discute e procuram bodes expiatórios as dificuldades aumentam, cavalgam, endurecem nas caraterísticas e especializam-se na eficácia. Não podemos continuar a fingir que tudo está bem e se recomenda, só para ganhar vantagens competitivas de lana-caprina e lugar de abençoado nas simpatias dos encarregados de secção, nem jogar de arrepio e tabela seca, dando garantias de uma coisa ser boa, ou óptima, só porque é nacional ou quem a vende morar na nossa rua, quando lhe vemos defeito e consequências nefastas, embora estas não nos prejudiquem diretamente mas a terceiros, pois não é pelo fato de estarmos todos mal que alguns têm que ficar ainda pior para beneficiar quem sempre se esteve nas tintas para quem estava mal quando nós andávamos a apanhar bonés. Uma crise não é uma esponja para apagar passados, nem muito menos um salvo-conduto para quem se conduziu no desmérito. Se há algo que antes era abominável, continua a sê-lo, e agora com muitos mais razões para o rejeitarmos. Porém, devemos abdicar de preconceitos e fatalismos, uma vez que temos que romper com aquilo que reforça sobremaneira a inércia portuguesa à inovação, reforma e mudança, sobretudo devido a estas se encontrarem ainda bloqueadas em três níveis distintos:
Bloqueadas culturalmente pela típica e tradicional da tenebrosa aversão ao risco, alicerçada nas rotinas e modos “estereotipados” e obsoletos de operar, escorados pela memória e reputação (narcísica), enciclopédicos, que impedem e obstaculizam à criatividade, originalidade e modernização;
Bloqueados administrativamente em consequência do inúmero e respectiva multiplicação de organismos públicos/fundações/secretarias/direções/agências e similares com competências mal definidas (e duplicadas), insustentáveis num Estado ainda simultaneamente centralizado que coexiste com feto raquítico dos corpos regionais, misturando competências e serviços numa amálgama sem lógica nem localização racional;
E bloqueadas politicamente porque o sistema eleitoral, a começar pela Lei nº 14/79, de 16 de Março, atiram o país para o ritmo de reformas do stop and go que é uma forma de parecer que muda ficando tudo na mesma, e às vezes até pior, a marcar passo num piafé de fraca escola e rafeiro estilo.
Enfim, a sociedade portuguesa que se apresta neste entrementes para se consolidar nos quadros interno, europeu e mundial, como uma sociedade amadurecida e emancipada à custa do esforço consciente dos cidadãos responsáveis, quer dizer, sofrido e adulto, dos próximos anos, será indiscutivelmente diferente daquela a que sobrevivemos caracterizada pelo laxismo, chico-espertismo e bairrismo corporativista serôdio, das últimas décadas, e ainda bem; sobretudo porque não nos podemos dar mais ao luxo do desenvolvimento por solavancos e arremetidas de alternância do vira-o-disco-e-toca-o-mesmo em que o stop and go nos solfeja as políticas, nem cair em propensas desforras à custa da qualidade de vida, bem-estar e progresso deste povo que não pediu para ser português mas não se importa, como até se orgulha disso.
Portanto, temos um governo e um enorme problema entre as mãos. Não é que não possamos falhar, nem tenhamos qualquer obrigação de fazer aquilo que outros ostensivamente destruíram. Mas temos cara, e queremos andar por todo o mundo sem vergonha da mostrar destapada, aberta e resplandecente. É essa a nossa vitória: consegui-lo. Entre outras menores e momentâneas, que as mais das vezes caem no ridículo… E, se for preciso, mudar outra vez, fazemo-lo, sem desprimor para ninguém. A nossa soberania não se trespassa em mercado ideológico nenhum desde que o tempo se começou a medir por badaladas lusitanas!

7.11.2011

Bernstein e a Social-Democracia

Mudar com a mudança do mudar


“(…)

Sentirás quanto amarga; quanto anseia
O sal de estranho pão; que é dura estrada
Subir, descer degraus da escada alheia.

Tua angústia há de ser mais agravada.
Te acompanhará no vale do exílio, vendo
Ignóbil gente, estólida, malvada.”

In XVII Canto do Paraíso, de Dante Alighieri (1265-1321)

Entendamos a mudança como a inequívoca transição entre dois Estados estáveis e distintos. Embora esta se tenha feito de forma lenta, tardia e com o serôdio de uma crise que começou a cumprir-se quando a maioria a entendia apenas como uma ameaça, o que é certo, é que o Estado, cujo governo saiu da batuta do PSD e de Passos Coelho, não é o mesmo que o PS e José Sócrates orquestraram (de tão requiem tom). E a sociedade também. Se quando ela muda exige novo governo, a verdade é que quando tem novo governo este a motiva para nova mudança. Bernstein, ao aperceber-se da dinâmica constante inerente a esta mudança, sentiu a necessidade de esclarecer-se conforme a evolução socioeconómica e abandonou os dogmatismos simplificadores das teorias marxistas e nacionalistas, fundamentais, aprofundando-a, dando uma nova expressão ao socialismo, excluindo o caráter finalista deste, e quiçá escatológica, de uma sociedade perfeita para justificar o deitar mão de todos e quaisquer expedientes ou meios que a consolidem, e colocou o acento tónico na via da execução das reformas graduais e adaptadas permanentemente à realidade, promovendo assim a mudança que a si mesma se vai mudando dentro da estabilidade gradualmente conseguida, dando a este modelo evolutivo o nome de social-democracia.
É preciso encontrar as soluções que melhor se adeqúem ao momento histórico que agora atravessamos, e não basta o Mayor dos municípios, Ruas de nome mas de rotundas pronúncias, retóricas e efeitos, vir à praça pública puxar as brasas prà sua sardinha, propalando que a parcela da dívida da generalidade das autarquias não se deve aos custos com pessoal, porque deve!, e não como circunstância direta da transferência de competências de alguns ministérios – educação, quase todos! – para as autarquias, ou que a percentagem dessa dívida comparada com a do poder central ser diminuta – 20% –, porque também não é, considerando o elevado número de câmaras municipais (380) que há em Portugal, pretendendo defender a sua corporação atacando as outras, além do posto que nela tem e desempenha, para que se possa acreditar minimamente que a responsabilidade no défice não lhes cabe com elevada relevância, uma vez que as autarquias, conforme é observável a olhos vistos – conforme a proximidade revela! –, têm vindo a satisfazer clientelismos políticos que, na prática e no terreno, faz disso uma descarada inverdade, pela numerosa quantidade de pessoas sem préstimos, funções, nem habilitações que albergam, e nada fazem, além de alguns "mandados" pràs chefias deste ou daquele sector, que apaparicam com mimos e presentes vários, sempre que a coisa está mais tremida, que desde que entram até que saem apenas se dedicam à quadrilhice pura e desabrida, fazendo comentários gratuitos acerca de quem chega e de quem parte, difamando este e aquele, apontando defeitos pessoais, handicaps ou companhias, e que continuamente vão "deambulando" nas bibliotecas municipais, nos centros de arte e espetáculos, nos museus e serviços municipalizados, como se às dificuldades que ao país acometem fossem superiores, alheios e, sobretudo, delas únicos beneficiários.
E soluções inovadoras. Posto que, politicamente, a inovação significa reforma, reforma das pessoas como reforma do sistema social, consequente adaptação e modernização das estruturas do poder, solidariedade entre as franjas sociais, grupos e comunidades, bem como o inequívoco assumir dos novos valores, nomeadamente o da sustentabilidade e da biodiversidade, isto é, um intercâmbio de identificação plena entre a inovação em si mesma e as noções teóricas e práticas, efetivas e profundas da social-democracia, que é o único caminho e modelo de desenvolvimento socioeconómico que conjuga a criatividade individual, o respeito pela pessoa humana, os mecanismos de decisão e as necessidades sociais e individuais com acuidade soberana no exercício efetivo da democracia da participação e da cidadania, com inigualável êxito, até hoje conhecido, reconhecido e valorizado no nosso país, eleitoralmente pelo menos, se atendermos não só às últimas legislativas mas também a quantas desde a implantação da República nele aconteceram.
Ou seja, é preciso reformar inovando, mas inovar às vezes significa apenas fazer justiça para criar uma sociedade mais harmonizada, ter da política uma visão estética (Francisco Sá Carneiro), o que passa irremediavelmente por convidar essas pessoas a sair, a reformarem-se, pondo assim definitivamente fim à injustiça social praticada e evidente com a sua admissão, e não vale a pena argumentar que a sua reforma será onerosa porquanto todos sabemos, segundo as últimas notícias, a maior parte dos rendimentos mínimos, subsídios disto e daquilo que o Ministério dos Assuntos Sociais e demais organismos de assistência social emitiram nos últimos anos foram ilegalidades com custos elevados, e que dificilmente serão recuperáveis. Ou disto também são as agências de rating, na sua manifesta má vontade americana, as responsáveis?
Cá me queria parecer! Quanto mais depressa acabarem com a mentira a que chamam política mais depressa também se ganhará a confiança dos mass media, dos mercados, dos investidores, da banca, das agências internacionais de notação, dos eleitores, dos portugueses e europeus, dos críticos e intelectuais, dos trabalhadores e seus representantes, se honestos forem; enfim, mais depressa chegaremos ao espírito reformista de uma social-democracia em mudança dentro da estabilidade imprescindível e harmoniosa. Uma sociedade mais bonita e feliz!

7.07.2011

A Indiferença só prolifera onde falta a Diferença


Pedro e o Lobo

“ – A minha ambição não é pessoal – dizia-me [Francisco Sá Carneiro] em Berlim e foi-mo repetindo nos anos que se seguiram. – A minha ambição é estética. Quero chegar, democraticamente, ao poder para que as coisas funcionem com harmonia, para que acabem as aberrações e as originalidades à portuguesa. Acredito numa sociedade portuguesa moderna, livre, europeia, capaz de se transformar a si própria, através de reformas sucessivas que não se limitem aos aspetos políticos, mas abranjam também o plano económico e social.”
In Francisco Pinto Balsemão, A Conversa de Berlim e o Estudo que Está por Fazer, Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 3, Vol. II, Junho de 1984.

A história é bastante antiga. Tão velha, mas tanto, que a maior parte das pessoas já lhe conhece a moral de nascença, algo que lhe vem por via genética. Está-lhes no sangue, e por herança. Portanto, repetir que as ações de cosmética político-sistemática já não pegam, tornou-se numa espécie de cliché.
E o recado das agências internacionais de mercado que foi dado a Portugal não poderia ter sido mais claro do que foi: a dívida soberana portuguesa é, simples e inequivocamente, LIXO. Ora, se a Europa conhece Portugal melhor que as agências de rating, como se depreende do “discurso” de Durão Barroso, quando diz que nós – e esse nós deve ser o majestático para BCE, FMI e Comissão Europeia… – “conhecemos melhor Portugal do que as agências internacionais”, então não restam dúvidas que o melindre é totalmente injustificado. O mercado não se deixa enganar, nem mesmo quando prefere demonstrar que engoliu a fava na boa e sem qualquer ressaibo. O mercado, e o algodão!
Presentemente tem que se ir mais longe fazendo melhor, porque a época é diferente das que anteriormente vivemos, a conjuntura e as circunstâncias são outras, a Sociedade é diferente – e a função do Estado também. Já lá vai o tempo em que as interrogações de José Luís Aranguren eram, além de pertinentes, uma incompreendida ousadia. Porquanto hoje ninguém desconhece que se a “historiografia do século XIX foi a dos Estados nacionais, e a do século XX a dos internacionalismos, então a historiografia do século XXI é a historiografia do supranacional”. Num país ou num partido político, numa região ou num qualquer organismo público, num órgão de soberania como numa instituição, o direito de existir implica a obrigação de agir e atuar. O direito à diferença obriga a ser diferente, e isso só se nota quando se alteram significativamente as condições e os recursos.
E Portugal tem que sê-lo (diferente), não pela arruaça e fuga para a frente, pela batota da renegociação sem termos nada para oferecer em troca de facilidades, mas pelo sentido de responsabilidade e compromisso, pelo empenho e criatividade, pelo empreendedorismo e capacidade de inventar novas soluções para os novos problemas que em catadupa nos hão de surgir. Andar a difamar os árbitros para contestar os resultados não é uma atitude adulta e muito menos democrática. Adiar a amputação total de alguns órgãos contaminados pelo corporativismo obsoleto e cancerígeno apenas nos vai prolongar a agonia e espalhar mais metástases pelos demais órgãos “ainda úteis e saudáveis”, e não erradicar o défice existente. Portanto, o caminho a seguir é sobejamente claro e óbvio!
Ou seja, as medidas para inglês ver não pegam. Não se pode continuar a fazer mudanças do tipo faz-de-conta para tudo ficar na mesma; mudanças do género “outras” caras, outras chefias, outros nomes para as instituições e organismos públicos, outra maneira de contabilizar os gastos e os custos, a que comummente chamam investimento, ou outras políticas e diretrizes. Não pega, e pronto. É preciso agir, concretizar no terreno as promessas assumidas do memorando da troika, e para isso, não basta transformá-las em Programa de Governo, XIX ao caso, e só no fim é que alguém dirá, talvez desta vez não seja mais um bluff para sacar umas massas aos tutores financeiros. Em matéria de convergência se não tivemos mau, foi porque tivemos quem nos puxou para medíocre. No capítulo do desenvolvimento sustentado, baldamo-nos categoricamente – e ainda baldamos. Na política socioeconómica, aí é que sentimos profundamente as alterações climáticas: metemos água que dava (para) três sismos/tsunamis com epicentro na Trafaria.
Política não é como o futebol onde, quando perdemos ou o resultado não é aquele que esperávamos, a culpa é sempre do árbitro. Das agências de avaliação ou rating. Não foram tomadas as medidas adequadas e depois culpamos as agências internacionais, invectivando-as de defenderem interesses americanos e obscuros. De serem mal-intencionadas e maliciosas. E esquecemos que já Natália Correia classificava tal conduta de criancismo… Quem é queremos enganar? As agências e mercados internacionais ou a nós mesmos?
Provavelmente não temos cura. Só sabemos sacudir a água do capote. De preferência para cima do vizinho do lado. Agora, se os espanhóis fizerem o mesmo, aqui d’El Rei! São murros no estômago prà’qui, pontapés no cu prà’li, rasteiras acolá.
Haja vergonha na cara. Os mercados precisam de ver os números do défice a baixar, não por consequência da alteração das fórmulas de cálculo, mas por observarem no terreno que os parasitas ligados ao SNS, à Educação, ao poder local, à Cultura, ao Turismo, ao Ensino Superior, à Justiça e Segurança, aos Assuntos Sociais, à Administração Central, Regional e Local, enfim, às circunscrições da coisa pública, sobretudo os inúteis e disfuncionais, os sem habilitações e menos consciência cívica, os irresponsáveis e incompetentes, estão a ir para outras bandas, de preferência para emigração que é o destino para onde estão a empurrar os recém-formados sem colocação neste país. Acabou o tempo das coreografias de mudar de caras e continuar com a mesma vergonha (nacional).
Em resumo, se o lobo é maior e a história é outra, então, porque é que o Pedro é o mesmo? Frontalidade, objetividade e coragem política, como a cautela e os caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém e, pelo contrário, podem até fazer o bem.
Desde há milénios que sempre foi a falta de diferença que gerou a indiferença. É essa a particularidade da arte. Incluindo a de governar, como apontou Maquiavel. E o que é preciso, é ambição estética!
Pois.

7.05.2011

É preciso descolonizar o Estado

De quando os exemplos não passem disso mesmo…e até possam vir de cima!



“Abre mão das poesias,
que nenhum préstimo têm,
e cuida em sólidos meios
de ganhar algum vintém.

Se dizes que contra os versos
em verso uma carta ordeno
e que aqui me contradigo,
praticando o que condeno,

A teu forçoso argumento
respondo com Frei Tomás:
faze o que o pregador diz,
não faças o que ele faz. "

Nicolau Tolentino (1740-1811)



Tal como na indústria e comercialização de produtos electrónicos e de comunicações, estar doente em Portugal precisa de um autêntico curso de utente do SNS, de operador burocrático e/ou de descodificação dos diversos manuais de utilizador, livros de instruções que impreterivelmente andam anexos à área afetada, do género faça você mesmo ou como complicar tudo aquilo que é fácil e óbvio, desobviar toda e qualquer clareza processual existente, em nome do rigor, do corporativismo, da racionalização de recursos e da (in)competência modelar, sistemática e doutrinal. Até porque ninguém duvida da razão que aconselha descolonizar o Estado desse corporativismo abjeto que gerou a “situação explosiva” em que nos encontramos e que nos impede de nos libertarmos da grelha que está a apertar-nos cada dia mais, ajudada pelo défice e endividamento do país.
Senão, vejamos. Aprofundar a democracia, o que inclui aumentar o número de democratas por metro quadrado do nosso território, seja essa democracia social ou socialista, bem como contribuir para a definição clara e inequívoca da sociedade do conhecimento e da informação, passa imprescindivelmente pelo reconhecimento humanizado das dificuldades, limites e circunstâncias do outro, na direta contemplação da Constituição da República, do Tratado Europeu e dos Direitos do Homem que lhes está apensada. E a ideia nem é nova, visto que já Francisco Sá Carneiro a enunciava no último Conselho Nacional do PSD em que participou, precisamente em 18 de Outubro de 1980, reiterando que tinha para si que se impunha ao Partido Social Democrata “uma reflexão sobre o que é que deve ser a social-democracia em Portugal, quais os valores fundamentais a prosseguir, como prossegui-los, quais as implicações para os diversos estratos, desde a juventude aos socioprofissionais, às empresas, à orientação económica, à orientação da política social. Tudo isso tem que ser aprofundado entre nós.”
Ora, aconteceu que o imponderável surgiu sob a forma duma fatalidade, e não pôde Sá Carneiro ir além das palavras, concretizando as suas teses em políticas e práticas efetivas, embora o ideal social-democrata não tenha perecido com ele, pelo menos a considerar pelas vezes que foi o partido por ele fundado arauto da governação, como anteriormente esteve com a AD e Aníbal Cavaco Silva, quer como oposição empenhada e responsável, à semelhança do que sucedeu antes destas eleições que lhe trouxeram, sob as orientações e estratégias de Passos Coelho, novamente o ónus – ou, tendo em conta o atual estado da economia e do país, será mais adequado dizer o handicap – da administração do Estado e do governo.
É provável que Mário Soares noutras alturas e por diferentes motivos tenha dito exatamente o mesmo por parecidas palavras, mas a propósito do socialismo democrático, o que não retira valor nenhum ao atrás enunciado nem acrescenta coisa alguma ao que adiante se dirá. Sobretudo porque não interessa de onde venham as boas ideias, desde que venham em formato de ideias e não de ordens ou ultimatos, e se verifique que a sociedade portuguesa estará sempre disponível para rever as ideias já tomadas como para se insuflar e adoptar as novas, segundo salientou Passos Coelho na Assembleia da República, aquando da apresentação do Programa do XIX Governo, registo positivo sem dúvida alguma, e que nos aconselha de como convém relembrar as palavras de Francisco Sá Carneiro no Discurso de Abertura do I Congresso do PPD, em 1974, em que punha acento tónico e imperativo no fato de que “nunca nos definiremos por negação ou ataque às outras correntes políticas, sejam elas quais forem. [Mas] sim pela afirmação clara da única via que, de
acordo com o que mostra a História, permite pôr termo às desigualdades e injustiças existentes nas sociedades europeias sem pôr em risco as liberdades fundamentais e a dignidade da Pessoa Humana”, para que o “cumprimento dos objetivos do programa de ajustamento da economia portuguesa[, que] terá precedência sobre quaisquer outros objetivos” (Passos Coelho), se faça de forma a contribuir para o fim do atual estado de coisas, em que os portugueses com habilitações próprias e escolaridade mais que suficiente deixem de ser obrigados a emigrar para arranjar emprego, enquanto os/as graxistas e lambe-botas amesendados na função pública, inábeis para o serviço, admitidos por cunha ou rotativismo político-eleitoral, lhe estão a ocupar os postos de trabalho, prejudicando seriamente o país, a governação e os utentes/utilizadores dos ditos serviços, nomeadamente na área da saúde, que é onde esse flagelo mais se faz notar.
Eu sei que qualquer governante gostaria de manter os funcionários públicos calados e contentes, por mais imprestáveis que muitos sejam e careçam do saber estar e saber ser que observe o estipulado pelos Direitos Humanos, pela Constituição da República e pelo Tratado da União, todavia é impossível mudar de rumo e alcançar progressos no combate às injustiças e desigualdades em prol da dignidade da Pessoa Humana, se essa expurga dos maus funcionários não se verificar em tempo útil e de forma acelerada, se não quisermos falhar os compromissos constantes do memorando da Troika, aumentando a insustentabilidade económica, social e política, conforme traduziu a inquietação do nosso presidente da República nas últimas declarações aos mass media nacionais, o que não espelha qualquer alarmismo mas antes uma prudência ganha naquele tipo de saber de experiência feito que de acordo com o que mostra a História nos pode – e deve! – gizar as linhas do futuro.
Nem mais, que pensar e agir de outro modo seria poesia (de má índole e piores efeitos, por muita irrealidade e ilusão acender), ou retórica de Frei Tomás cuja qualidade suprema somente residia no que dizia mas nunca no que fazia. E quem não quer ser frade, não lhe usa o hábito!

6.21.2011

E Viva a Cultura!



As Lavadeiras de Caneças


"A esperança é tão necessária ao homem como o próprio pão; comer pão sem esperança equivale a ir morrendo de fome a pouco e pouco.
(...) (...) (...)
(...) Mas se toda a mocidade se achasse satisfeita consigo própria e sem aspirações, então é que sem dúvida deixaria de haver esperanças quanto ao futuro da Humanidade. A esperança da Humanidade assenta na rebelião dos jovens contra o egoísmo individual, o nacionalismo e as desigualdades do presente. É no profundo descontentamento dos jovens de todos os países que deposito a minha fé. Peço-lhes, por isso, que se mostrem descontentes, imploro-lhes que se revoltem contra o que anda errado, não por meio de fracos e negativos queixumes mas por meio de fortes afirmações acerca dos direitos de toda a Humanidade.
O maior prejuízo infligido aos jovens reside na educação que lhes têm ministrado. Com efeito, torna-se extremamente difícil lutar contra aquilo que nos ensinaram. (...)"
In Para As Minhas Filhas Com Amor, de Pearl S. Buck, trad. de Virgínia Mota, Edição «Livros do Brasil» Lisboa – (Título original: To My Daughters With Love – 1946)

Fomos desacostumados de pensar e agora estranhamos a lodosa apatia que nos assoberba. Todos sabemos que estamos nas lonas, que temos de alterar os nossos quotidianos e hábitos, expectativas, conhecimentos e valores, porém não mexemos uma palha nesse sentido. A minha avó dizia que a Preguiça(1) era a única divindade que aqui tinha culto crescente, tão promissora e na moda, que até os fiéis dos outros credos lhe seguiam o catecismo e lhe celebraram eucaristias, sobretudo entre os lusitanos da portugalidade evanescente. Gostava de exagerar, é certo, por muita leitura de Camilo e de Eça, a quem a desgraça e a ironia eram o pão nosso de cada dia, nem sempre sob os mais recreados propósitos no entretenimento bucólico e campesino do Monte da Tapada da Casa, onde a melhor parte do serão era também o do folhetim radiofónico d’O Conde de Monte Cristo ou de O Monte dos Vendavais, conforme a época do ano e a imaculada direção de programas da Emissora Nacional estipulavam para gáudio dos arredados do cosmopolitismo e do Teatro de Revista, do cinema e da TV (a preto e branco).
Não seria incomum aparecerem igualmente pelo mesmo veículo um Love Story ou As Pupilas do Sr. Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Miguel Strogof – penso ser assim que se escreve... – ou O Retrato de Ricardina e o Simplesmente Maria, embora com menos assiduidade e frequência entre os devotos do género não-Corin Tellado. Não diziam naquele tempo que audiência baixava, não senhora, mas que os ouvintes se dispersavam mais para os Discos Pedidos do Rádio Clube Português quando os ditos eram ditos e falados. Seria? Não seria? Fosse como fosse, é que os CTT também tinham larga quota de interesse nessa programação, porquanto os discos ainda eram pedidos por bilhete-postal, coisa substancial nas finanças da mala-posta que ainda alimentava os cavalos a pão-de-ló. Eram critérios!
Como hoje. E os critérios indicam que a Cultura vai ser tutelada pelo chefe do governo numa secretaria com cómodos junto ao seu gabinete. Coisa maneirinha e aconchegante, tipo casa portuguesa com (certeza) fotografias do presidente e do primeiro-ministro a ladear o crucifixo, modelo tirado ao calvário com Cristo entre criminosos, pelo que José Saramago deve estar contentíssimo, lá debaixo da oliveira da Azinhaga e contaminar de cochinilha os bicos da Fundação... A cultura, a língua, a arte, a literatura, a ética e a estética vão finalmente estar próximas do poder central, do poder sobre o poder, a bem dizer, e talvez venham a partilhar das benesses e mordomias da vizinhança. Como mulher-a-dias, por exemplo!
A gramática do Estado, a lógica da organização e a retórica do programa eleito, hão de ditar o bom gosto e o bom senso conforme as questões sociais assim o inspirarem, a Troika o impuser e a Assembleia da República não conseguir evitar. As lavadeiras de Caneças é que não poderão estar presentes que andam a braços com as novas oportunidades e os maiores de 23. A roupa suja terá que ser repartida pelos condóminos, segundo o Método de Hondt, e de acordo com os critérios notoriamente sublinhados pelas forças conservadoras adeptas do faz-de-conta que vivemos depois do 25 de Abril com que nos temos divertido há, pelo menos, trinta anos e trinta moedas, que foi por quanto os judas deste país o venderam à banca internacional e ao BCE.
Portanto, é provável que voltemos ao folhetim se a cultura aguentar esta doce magistratura no recato bucólico da confiança e paciência que costuma ser argumento válido para os novos, para os estúpidos e para o insuficientes mentais. Do tipo Love Storyamar é nunca ter que pedir desculpa, sentença linda e kitsch como um repolho do Bordalo, que um personagem, lembro-me ainda, terá dito a páginas tantas ao outro com quem aparelhava nos varais da narrativa, não sei se ele a ela ou se ela a ele, mas desconfio que pelo prevenir do borrar da pintura seria do macho prà fêmea, que naquele tempo dependia muito da sorte o ser considerada não-coisa, não-propriedade de género – que foi um rasgo de modernidade marcelista, onde ela, pobre, bibliotecária ou ajudante disso, que mais tarde morreria de doença incurável (cancro), e ele, rico e playboy, a vítima sofredora sob as mãos de um amor infinito e de um destino implacável, o direto contemplado pela fatalidade gritante – o coitadinho e incompreendido pelos deuses – e que veio temperar a lamechice pacóvia com as matizes do “mundo avançado” das ideias e dos progressos, alguns deles de natureza científica e tratados como fait-divers domingueiros nas conversas de café antes da missa, entre os matemáticos do sistema com matriz nos totobolas e lotarias por estratégias.
O que era uma vingança, e uma demonstração de democracia. Porque a crueldade da dor, da doença, da perda, do destino, eram democráticas e não queriam saber das mordomias sociais desta ou daquela classe mais favorecida. A morte e a desgraça ceifavam a eito, tanto carecidos e minguados como abastecidos e afortunados, embora que por diferentes motivos e na sequência de causas muito díspares, uns pelos excessos e outros pelas faltas – o que desconheço se estava ou não conforme a obra literária, que nisso das adaptações radiofónicas os criativos pontuavam, ajeitando-as à portugalidade conforme entendiam sem passar cavaco às determinações dos autores. Mas no fim, não obstante a condição social, o resultado ficava sempre no ela por ela: sete palmos de terra e um sermão encomendador.
Nisso as lavadeiras de Caneças estavam de acordo. Enquanto espanejam as roupas dos senhores aproveitavam para lavar também os olhos lacrimejando sobre o ingrato desfecho do folhetim. Viradas prò rio, a roupa suja diluia-se entre nuvens de condoída retórica acerca da juventude que em vez de estudar e ajudar a família, anda na moina e a bandeirar palavras de ordem nas irrequietas arruaças do reivindicar melhores dias. Quando o fez contra o Magalhães tinha carradas de razão. Porém agora, que recusa colaborar nas políticas da corrupção e da insustentabilidade, pode vir a ser apelidada de terrorista ou, pior ainda, conforme se viu na Assembleia da República acerca da deseleição de Fernando Nobre, de independente. E isso, essa classificação, vai ser indubitavelmente um ato de cultura. E que cultura!


(1)Personagem mítica que morreu à sede junto a uma fonte só para não esticar o pescoço para saciar-se

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