La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

12.18.2008

Carreiras Sem Transportes


Estatuto da Carreira Docente
Decisão Negociada ou Discutida?
Maria da Conceição Castro Ramos
256 Páginas

Na evolução da sociedade, que após a Revolução Industrial já fez diversas (trocas) mudanças de camisa, tal como da sociedade de produção se transformou em sociedade de consumo, de sociedade de consumo em sociedade de comunicação, de comunicação em informação, e agora, depois da passagem ao novo milénio e ao século XXI, estamos à beira doutra vernissage, uma vez que se avizinha (sob croquis) a sociedade da cidadania, que irá estabelecer uma nova ordem de valores, além de um novo – e desejável – posicionamento social dos agentes educativos e socializadores. E, claro está, com eles, os “principais” protagonistas da comunidade educativa, o corpo docente.
Sob esta perspectiva, importa repensar e sem eufemismos corporativistas o Estatuto da Carreira Docente, não só com base nas teorias que formatam hoje os modelos decisionais em Administração Pública, mas também ao nível das participações e do mapeamento dos parceiros sociais, das parcerias público-privadas possíveis, assim como na inter-relação daí resultante (como necessária), embora que acompanhada das típicas polémicas cimentadas pela defesa dos interesses particulares e corporativos que lhe subjazem.
Maria da Conceição Ramos Castro, cujo currículo (professora do ensino secundário, formada em filologia Germânica, Mestre em Ciências da Educação e Desenvolvimento, que também foi directora Regional da Administração Escolar dos Açores, subdirectora Geral do Ministério da Educação, directora Geral da Administração Escolar, directora do Departamento de Gestão de Recursos Educativos, membro do Conselho Nacional de Educação e presidente da Comissão Negociadora do Ministério da Educação para a regulamentação do Estatuto da Carreira Docente) é um aval de conhecimento de causa – e provavelmente de efeito! –, nesta obra de formato 16,5 x 23,5 cm, impressão a quatro cores e encadernação em capa dura plasticizada, o estudo da investigação já realizada, permitindo compreender o percurso processual de renegociação, assim como os paradigmas decisionais concernentes utilizados, que facultem o estabelecimento e dobragem de patamares de consenso, assaz controverso numa matéria tão pertinaz, porquanto se encontra eivado do espírito instrumentalista do bucolismo político-partidário que vê na Educação e na Escola Pública uma óptima oportunidade para minar estrategicamente o futuro da sociedade com a sua teoria de vida, precisamente aquela que deve ser ultrapassada e subscreve os valores e interesses financeiros que lhe facultaram, no passado recente, a ascensão social e consequente arregimentação no establishment (obsoleto).
E nos acicata a levantar a tão badalada pergunta de Raymond Carver, a propósito de outros imbróglios: afinal, de que falamos quando falamos de educação? E da Estatuto da Carreira Docente? Ou de ensino público? Que "escola" é essa que vai ser aliviado do amianto por decreto, mas não das barreiras arquitectónicas na acessibilidade como internas? Será uma escola pública ou tão-só virada para um determinado tipo de público? Vai lá vai, até o PRODEP abana!

12.15.2008

Duplo Crime na Rádio e Caçada ao Sr. X, de Rex Stout

Duplo Crime na Rádio e Caçada ao Sr. X
Rex Stout
Trad. L. de Almeida Campos
424 Páginas – Volume duplo

1.
No decurso de uma emissão radiofónica, patrocinada por uma marca de refrigerantes, um dos presentes morre envenenado enquanto se cumpre a "ritual" bebericação da dita. Quem foi que o assassinou e com que motivos? Para todos, inclusive para a polícia, o problema é insolúvel. Acredita-se que nem a vítima saberia, ao certo, quem a matou. Só que Nero Wolfe, o paquiderme das orquídeas, o sedentário e obeso detective, precisa de pagar os impostos e o dinheiro advindo da resolução do caso faz-lhe imenso jeito.
Secundado nas tarefas de exigência física, e movimento, pelo seu braço direito (e esquerdo) Archie Goodwin, porém apoiados ambos nos energéticos bastidores, na retaguarda ou trincheira da cozinha, por Fritz, um nome que lembra as batatinhas estaladiças, intenta bater a polícia na corrida à desmascaração do homicida, embora esta já disponha de considerável avanço de tempo (e dados) nas infrutíferas investigações, com a qual entra num jogo de bluff e esconde-esconde para tomar-lhe a dianteira.
Só que nos casos de Rex Stout um crime é sempre pouco, ou mesmo nada, qual espécie de vender gato por lebre que defrauda a clientela; tem invariavelmente que haver um antes, um durante ou imediatamente após, e outro depois. Ora, também neste a ementa se repete, para finalmente nos apresentar a sobremesa da desvendação, com requintes de última ceia, toda ela retirada à magnitude das palavras, quer pelo saber ouvi-las, como pelo saber dizê-las, que são saberes inseparáveis para quem a verdade e o conhecimento são duas preocupações, enfim, faces da mesma moeda.

2.
Nesta "caçada" há a considerar quatro [surpresas] particularíssimas novidades: a) Nero Wolfe sai de casa; b) em consequência de a) um homem é assassinado; c) o homicida confessa por escrito, mas ninguém acredita; e d) não morre mais ninguém por isso, ou seja, é um policial de vítima única, logo desinteressante do ponto de vista rexstoutiniano.
Se mais não houvesse, seria já quanto bastava para prolongar a curiosa agonia do leitor. Porém, Rex Stout vai ainda mais longe: não disputa a refrega com a polícia, ou sequer colabora com ela – antes toma as rédeas do caso, remetendo-a para a sua insignificância, como que a provar que Nero é também wolf, pelo que quando quer, sabe muito bem desenrascar-se sozinho, e pode resolver qualquer caso e o mais bicudo dos problemas sem recorrer ao auxílio (embora que indirecto) do erário público, do intrincado córtex titubeante da burocracia em nome da lei.
Porque não há moeda sem duas faces. Mas é necessário dá-las, mostrá-las, para se tornarem reais, pois nenhuma face pode ser oculta, muito menos nos problemas policiais, ou detectivescos, porquanto sendo-o, elas deixarão de pertencer ao foro da ficção e da literatura, para passar a fazer parte do "departamento literário do absurdo e do paranormal", a que costuma recorrer o mau terror, logo do doentio surrealista da fabulação psicótica, em cujos delírios alguns são atreitos a confundi-los com expressão artística. Porque há surrealismo não patológico, embora um como outro se sirvam igualmente da mesma análise e do mesmo psiquismo de referência.

3.
A Pechincha


E assim, prolongando apenas alguns elementos da sequência semântica (ou significativa) da história anterior (Duplo Crime na Rádio), estabelece-se neste volume redundantemente duplo, uma unidade razoavelmente explícita, confirmando-nos que não terá sido em vão nem gratuita a decisão da editora, juntando estas duas novelas num só livro, pois desnecessário é afirmar que se completam muito bem. Aliviando um o que é excessivo e exagerado no outro, e vice-versa. Equilibram-se sobre o mesmo fiel raciocínio, o toque-de-Rex se dirá, quando nos referimos ao universo imagético stoutiniano. Aliás, Rex Stout, conforme o que dele se diz em qualquer enciclopédia é, e eu transcrevo aqui o que a Moderna Enciclopédia Universal / Lexicoteca / Circulo de Leitores apregoa, que ele, escritor norte-americano (Noblesville, Indiana 01.12.1866 – Danburg, Connecticut 27.10.1975), "se notabilizou no género policial, com romances protagonizados pelo detective Nero Wolffe, caracterizado por resolver os casos que lhe apresentavam sem se afastar do seu apartamento de Nova Iorque." O que não só corrobora o afirmado como denuncia a singular pechincha desta edição. Exactamente!

12.11.2008

Vinte Mais Dois, de Frank Gruber


Vinte Mais Dois
Frank Gruber
Trad. Catarina Rocha Lima
192 Páginas

Eis mais um típico caso de investigação – leia-se, p.f., narrativa – em Y. E fartam-se de acontecer coisas singulares que agitam a história e nos obrigam a estar-lhe atentos. Mas a superiormente extraordinária reside no intricado da trama, penteado e pontuado ao género travesti – que se transforma noutro género que não aquele em que se anunciam as personagens e primeiras cenas) de policial virado em cor-de-rosa choque, no qual o detective não serve de modelo para nada, nem pela moral, nem pelo físico (que está todo roto por causa da guerra e da má vida que levou nela), e muito menos manifesta na personalidade outras qualidades que não sejam a tenacidade, perseverança, insistência e a teimosia que raia a burrice, além de uma estranhíssima vontade de se atirar aos riscos levando por única bagagem a sorte – se calhar era descendente de portugueses! –, precisamente aquela que assiste popularmente ao
ditado que dita que à criança e ao borracho, mete Deus as mãos por baixo.
No finalzinho que antecede o final romântico, cujo funciona como um anticlímax do policialeco, a justiça cumpre-se pelo modo já bastante usado e característico de Frank Gruber, nas inúmeras obras que fizeram dele um polivalente do cordel (policial, western, espionagem, aventura, guerra, foram apenas os géneros que mais cultivou): os maus são mesmo maus e nunca se esquecem disso, tão maus, tão maus mas tão maus, que até se matam uns aos outros, logo fazendo bem por mal, proporcionando assim aos bons que venham a beneficiar superlativamente com isso, tanto nas fortunas que consequentemente deles herdam, como na felicidade que detonam pelo simples facto de terem deixado de existir. Aliás, um exemplo a seguir pelas hostes do milieu e do establishment político e financeiro actual, pois evitariam sobremaneira mais despesas e desperdícios orçamentais ao "sacrificado e martirizado povo" que os elegeu ou pagou os estudos, pelo que teríamos a certeza que havia sido feita justiça pelo menos uma vez, que são somente duas coisas em vinte, que igualmente não têm abundado neste quadradinho de mar à beira-Europa plantado.

Comédia Eufrósina

Comédia Eufrósina
Jorge Ferreira de Vasconcelos
Teatro – 160 Páginas

Há uma ideia feita – aqui desfeita –, nos bastidores da cultura – talvez inculta... –, de que a poesia é para se declamar, o teatro para representar e os romances para ler (e publicar), assaz disseminada pelas confrarias da intelectualidade conventual e pacóvia do branco é, galinha o põe! Ora, além de feita, a ideia é estupidificante. E para provar que nem só de sentimentos serôdios e retornados vive o universo literário e livresco português, veio a Colibri a terreiro e colocou em cena, nos escaparates, uma colecção de teatro, cujo número foi, nem mais, que uma adaptação de Silvina Pereira e Rosário Laureano Santos, aliás anteriormente representada pela companhia de teatro MAIZUM, ali ao Bairro Alto, no Convento dos Inglesinhos, pela recôndita Lisboa de 1995, com estreia em 27 de Março. E do posto fica que, quem viu, viu; quem não viu... pode ler!
Nesta peça, que denota inegáveis influências literárias renascentistas e medievais, a acção é tipicamente portuguesa e revela-nos aspectos da vida quotidiana e modos de pensar do século XVI, tão materialista quão beato, quer nos seus vários estratos sociais, hábitos e costumes, como nas atitudes e perfis psicológicos dos personagens; e tanto, ou de tal forma, que a própria, dita de Eufrósina, a que se interpreta alegria, nascida na antiga Coimbra, então coroa destes reinos (Portugal e Algarves), à sombra dos verdes censeirais do Mondego se entrega ao curso da vermelha lava dos desejos sem brida nem temor, numa obra com exemplar grafismo em capa mole, de fácil manuseamento, apensada dos respectivos prefácio, introdução, ficha cénica, elenco, fotos (re)tiradas às cenas, manifesto artístico do Maizum e currículos das adaptadoras. O que a complementa seriamente, embora tenhamos que reconhecer, quanto ainda carece igualmente de um glossário onde se enunciasse a par e passo o destrinçar do enleio pelo discurso, facilitando a lógica compreensão de algumas construções e termos já fora de uso, e, portanto, incomuns ao pouco letrado leitor.

Porque, afinal, em matéria de arte, de cultura, de civilização, de modernidade, de publicações, de espectáculos, o que está sempre em causa são os conteúdos, muito para além dos suportes, das formas e das audiências como de resto bastantes desconfiam (ou outros tantos sabem). «Filmes! Filmes! Os melhores, se assemelham aos grandes livros», disse Manoel de Oliveira, no centenário do seu nascimento, reiterando um poema escrito noutras idades. Dele, é claro, que deveras nelas se terá sobejamente indefinido e, consigo, a arte e a vida, se alguma diferença entre ambas encontrou. Que eu, (ainda) não!

12.10.2008

Sem Piedade!, de Miriam Ali

Sem Piedade!
A Luta de uma Mulher Conta a Moderna Escravatura
Miriam Ali (com Jana Wain)
Trad. Mário Dias Correia
280 Páginas

Dentro da Literatura de Impacto Social (LIS, pròs mais chegados e atentos), e na mesma linha de Vendidas!, de Zana Wain, Meu Amo e Senhor, de Themin Durrain, ou Sultana, A Vida duma Princesa Árabe, de Jean P. Sesson, Sem Piedade! é simultaneamente uma crónica de costumes, uma reportagem, um diário, uma biografia, uma obra literária, um testemunho e um documento comprovativo de como a Idade Média conseguiu romper os limites do tempo e avançar incólume até ao presente da humanidade – indissimuladamente, e sem qualquer receio das instâncias judiciais (planetárias) ou da moral e poder do establishment.
Em resultado da sempre (desejável) crescente democratização do mundo, a estética da LIS é a suprema expressão artística da denúncia, cujo desenvolvimento e evolução está na razão inversa aos postulados e axiomas da Declaração Universal dos Direitos do Homem e da Carta Para a Igualdade de Género, uma vez que é não cumprimento delas e deles que a tornam mais rica, profícua e rentável. Digamos que o cimento evolutivo e progresso desta literatura não é um bem em si mesmo, nem um motivo de regozijo e nobelíssima premiação internacional, mas antes um lamento, pois deve a sua principal ascendência e motivação às evidências na infracção às regras que consagram as liberdades e direitos fundamentais numa determinada civilização. Não tem beleza nenhuma, mas sobra-lhe verdade. Não acarreta arrebatamento, mas verte indignação. Não possui floreados estilísticos, mas abunda em factos. Não anseia à disseminação de uma filosofia de vida, mas testemunha a luta de seres humanos pela dignidade. Os seus heróis não são personagens caprichosamente elaboradas, mas sim seres vivos, autênticos, reais, que protagonizam não a felicidade e epopeia, mas antes a sua dor e carência de afectos, a sua revolta e estoicismo (sobre-humano, as mais da vezes). Não tece loas à inteligência dos delfins da cultura, mas desmascara a sua indiferença e laxismo intelectual. Enfim, não é o traçado da harmonia celestial e terrena, mas tão-só o mapa das almas resistentes.
Nele se narra a trágica aventura de Miriam Ali, a quem o marido vendera as filhas adolescentes, para casarem no Iémen, usando o dinheiro dessa transacção numa infinda e extravagante degradação, assim como abusando do seu estatuto de chefe de família para torturar os seus. Recuperar as filhas assume então, para essa mulher de baixíssima estatura, uma hercúlea missão, extraordinariamente burocratizada e recheada de impossíveis, que por vezes a fazem impotente, mas nunca uma desistente. Conseguir reunir a sua família, sob o tecto da liberdade e esclarecido afecto, é a sua única, embora suprema, ambição.
Fala-se deverasmente, hoje em dia, de terrorismos, de terrorismo ideológico como económico, de terrorismo político como de terrorismo religioso, mas o terrorismo sexual, de género, familiar, cala-se ou ilude-se conforme melhor interesse a quem o pratica, ou sociedade que o assimile – ou tolera, que no fundo é a mesmíssima coisa... –, sobretudo naquelas instâncias do poder para quem a opressão fundamental não é reconhecida nem sequer como problema, pois esse não-reconhecimento equivale à tentativa (aliás, legítima, uma vez que dá emprego a uma enorme panóplia de quadros técnicos, serviços públicos juríco-sociais e seus auxiliares) de o eternizar e perenizar, para dele continuar a alimentar-se enquanto puder, principalmente tapando o de dentro com o escândalo do de lá de fora; todavia, na actual conjuntura mundial, o lá de fora é sempre aqui, conforme estipula a essencial globalização, e reconhecer que distante de nós se está bastante pior em termos de Direitos Humanos é o maior e significativo dos passos possíveis para avolumar o problema onde se omite a sua existência. Não é pelo facto de ele não ser meritório de ser notícia internacional que ele não existe ou se não resolve; mas sim que é por tal que se agrava e, noticiosamente falando, se transforma um tabu num elefante branco, que havemos ter que alimentar e bajular até ao esquecimento, esquecendo inclusive quantas e quantos disso foram desafortunadas vítimas. Ou entraram na roleta do azar por quanto lhes aconteceu. Enfim, não tiveram sorte nenhuma com a família que lhes coube por nascimento, baptizado ou matrimónio, que foi o que foi, como dirão os caritativos e piedosos acomodados e acomodadas do sistema, esses mesmos que nunca venderiam os seus filhos e filhas, antes os investem, tal como não estabelecem relações pessoais e sociais, mas investem num relacionamento, e até valorizam os seus rebentos, mandando-os cursar academias e formaturas superiores, porque é mais "sustentável" e nunca se sabe o dia de amanhã. Porque não são muçulmanos nenhuns, mas sim cristão de boa cepa e cálice perfumado pelas pergaminhos da História na genealogia da colonização, como bons europeus na gema da civilização do "filho és, pai serás". E quem diz pai, diz mãe igualmente, só para terminar sob o modelo da pescadinha com o apêndice fecal na boca!

12.09.2008

As Férias de Poirot, por Agatha Christie



As Férias de Poirot
Agatha Christie
Trad. Fernanda Pinto Rodrigues
216 Páginas

Uma coisa é desejar a morte de alguém e outra, muito diferente, é matá-la, com o dito e feito em efectivos da situação.
Todavia, no caso deste desejo coincidir com a circunstância, assaz misteriosa, de um estrangulamento eficaz, então quem teve a intenção mas não cometeu o acto, substitui-o pelo sentimento de culpa correspondente, e passa a acreditar cegamente na força da magia. As influências do mal, a fabulação delirante, a incerteza nos sentidos e a crise de identidade sobrevêm sorrateiramente a exigir o castigo para sua (pseudo ou imaginada) falta, favorecendo ao criminoso (real) a absolvição e fornecendo às autoridades um culpado. Se...
Isto é, se no enredo, na trama, não entrasse também a invulgar perspicácia de Hercule Poirot, esse personagem pequenino com sotaque belga e cabeça de ovo de Páscoa, de bigode caprichoso milimetricamente aparado. Porque então a tramóia vai para o brejo, afunda-se, o motivo se revela e as verdadeiras mãos de tão cruel acto se pronunciam pela experiência e engenho, de um mister adquirido, aguçado pela prática, e mostram a natureza do homem que o premeditou, repetindo-o uma terceira vez. Que é a última, pois dessa não escapa, que é de vez, dado que a mente pouco laxista de uma escritora policial, como Agatha Christie, não pode permitir-se tais veleidades, nem deixar à solta a malvadez, sem melindrar os brios, principalmente se dispõe de um recurso tão apto à investigação como o célebre detective das celulazinhas cinzentas.

12.02.2008

Três Receitas Celestiais

Papos de Anjos

9 gemas e ovo
2 claras
Açúcar q.b.


Batem-se com força as gemas até ficarem num creme grosso mas macio e fofo. Deitam-se-lhe em cima as claras batidas em castelo. Deita-se depois tudo numas forminhas bem untadas com manteiga e põem-se a cozer em forno bem quente. Numa calda de açúcar bem perfumada com calda de laranja molham-se na altura própria os papos de anjos. Convém em seguida pegar neles com muito jeitinho, para que não se deformem, depositá-los num prato fundo e cobri-los com o resto da calda.

Toucinho do Céu

500 gramas de açúcar
115 gramas de doce de chila
115 gramas de amêndoas raladas
20 gemas de ovo
1 colher de chá de canela

Deita-se o açúcar num tacho, a chila e um pouco de água, e leva-se ao lume até ficar em ponto baixo. Junta-se-lhe a amêndoa e volta a pôr-se tudo outra vez a ferver até fazer ponto. Interrompe-se um pouco para acrescentar as gemas fora do lume, mexe-se bem novamente e leva-se de novo ao lume, até tornar a fazer ponto. Tira-se então do lume e junta-se-lhe canela. Deixa-se arrefecer.
Forra-se entretanto uma forma redonda com papel branco polvilhado de farinha e enche-se com o doce; polvilha-se por cima com mais farinha, cobre-se com papel e leva-se ao forno a cozer.

Barrigas de Freira

250 gramas de açúcar
6 gemas
2 claras
125 gramas de miolo de pão migado

Põe-se o açúcar a fazer ponto fraco, juntam-se-lhe as migalhas de pão duro e mexe-se tudo muito bem com a colher de pau até o pão se desfazer totalmente. Depois deixa-se arrefecer. Adiciona-se-lhe as gemas de ovo e as claras batidas em castelo, em ponto alto e firme. Leva-se tudo novamente ao lume o tempo que as gemas precisarem para cozer. Vaza-se seguidamente o doce em tigelinhas pequenas e, ao meio, para fazer de umbigo, põe-se uma pitadinha de canela ou um miolinho de noz.

O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway

O Adeus às Armas
Ernest Hemingway
Tradução e prefácio de Adolfo Casais Monteiro
328 Páginas

Do laureado autor que foi igualmente aquele a quem a Literatura Universal deve o facto de ter deixado de ser apenas mais um coloquial artifício, argumento de ideologias e moralidades, para passar a ser uma conversa a dois, cuja mais-valia se edifica na cumplicidade e empatia através da fluência narrativa, que já no jeito de Carson McCullers, derivava mais do arrolamento factual do que da confidente interpretação subjectiva dos sentidos e dos sentimentos, emoções e valores, mas antes obrigando o leitor, por exemplo, a reconhecer o afecto ou sentido como resultado das condições e circunstâncias explanadas, descritas, enunciadas e vistas, sob a exibida visão do narrador como dos personagens, razão essa por que se disse que essencialmente o Prémio Nobel não lhe terá sido concedido em vão, conforme ainda é reafirmado em alguns sectores da crítica, este livro não carece de divulgação nem precisa de resenha para que alguém o leia, muito menos qualquer promoção condimental, e se dele venho agora falar, é tão-só porque sim, porque me apetece, ou por pagamento de dívida e gratidão pelo prazer que desfrutei quando o li, o que, certo e sabido, é uma razão tão válida como qualquer outra para não calar o que penso acerca do que gosto, do que prefiro ou mesmo do que repudio na arte em que me dito e dizendo-me me abrevio.
Polémicos ao seu tempo, talvez por precisão de marketing, os seus livros, numerosos romances, novelas, contos, de entre os quais podemos referir Na Outra Margem Entre as Árvores, As Neves do Kilimanjaro, O Velho e o Mar, Por Quem os Sinos Dobram, Ter ou Não Ter, Um Gato à Chuva, As Verdes Colinas de África, Capital do Mundo e Outras Histórias, etc., etc., são autênticos hinos ao amor e à paz entre os homens, em função dos quais o universo gravita, e narram a epopeia das naturezas simples e comuns, que se empenham em sobreviver para realizar a sua proeza maior, que normalmente se transformou em farol de suas almas pouco atreitas a espiritualismos profundos. Mas fá-lo em linguagem do dia a dia, de rua, de alcova, de tarimba, de caserna, de trincheira, de luta, enfim, de resistência como de milieu, onde é vulgar as falas cruzarem-se com os sonhos e aspirações mais subterrâneas desses ordinários mamíferos que somos nós, simultaneamente presas e caçadores, tornando o discurso literário num discurso acessível à grande maioria, além do reflexo daquilo que também ela vê em si mesma ou sobre si vai sabendo.
Quase seria legítimo afirmar que a principal "curiosidade" desta edição, reside no facto de ela ter sido a primeira tradução de um romance de Hemingway para português, uma vez que as anteriores foram tão-só vertidas em brasileiro, que acordos e desacordos ortográficos à parte não é de certeza a mesma língua, embora dela derivada e, ainda por cima, executada por um presencista de renome, também ele degredado por exigências regimentais das ditaduras portuguesas, incluindo a da ignorância, que inclusivamente lhe botou prefácio de substância, como foi Adolfo Casais Monteiro, que do Brasil se correspondeu com Régio em missivas exemplares onde alertou o vila-condense para os perigos da suburbanidade lusitana, aliás, ainda tão evidentes quão pacóvias nas capelinhas do provincianismo corporativista da nossa interioridade inquisitória, obsoleta e inquisitorial, característica dos redutos ditos livrescos e culturais.
E nela se conta a venturosa aventura entre um americano tenente do exército italiano (Frederic Henry) e uma enfermeira escocesa do hospital inglês (Catherine Barkley), durante o período final da Primeira Guerra Mundial. Depois de ferido, é ele internado no hospital em que ela trabalha, e dessa incerteza, dessa inconstância, dessa ressequida palha que o menor fogo incendeia, nasce um jogo de paixão entre a morte e a esperança, para a urgente confluência do vivido.
Porém, à semelhança dos condenados à pena capital a quem é concedido o último desejo, após a convalescença, e antes que Henry volte para a frente de batalha, são-lhe concedidas três semanas de licença. Decidem passar esses 21 dias juntos, todavia ela engravida e ele adoece com icterícia, despendendo duas das semanas no respectivo tratamento, e sendo-lhe retirada a que resta, sob a acusação de ter provocado a doença para não ter que voltar às trincheiras. E assim que regressa à frente de combate vê-se a braços com uma retirada caótica, em que perde recursos, homens e ambulâncias. É testemunha de fuzilamentos arbitrários pela Polícia do Exército, aos quais apenas escapa atirando-se ao rio. Após o que se reencontram, partindo ambos para a Suíça.
A guerra havia ficado para trás. Teriam os seus dez réis de felicidade, que é quanto cabe e cumpre a cada ser vivente que acredita na esperança. No entanto, outra batalha, igualmente trágica e derradeira, os esperava, para a qual nunca há a mínima hipótese de fuga – a da vida. Que pode ser igualmente fatal a quem por ela se realiza.
Do título, assaz sugestivo, além de denunciar a tentativa de exorcizar, expurgar, afastar, aliviar, despedir a humanidade das guerras e das armas, do flagelo do desamor entre povos como entre indivíduos, falhou redondamente, não só porque Ernest Hemingway se suicida com uma, como também as guerras continuaram a proliferar, que nem coelhos sem predador em mato rasteiro. Talvez O Adeus à Paz, fosse mais elucidativo das intenções e dos resultados. Pois, quer se queira, quer não, foi exactamente isso que aconteceu, com ponto culminante na II Guerra Mundial, onde o autor terá sido correspondente. As voltas que o mundo dá!

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