La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

4.30.2015

A VIDA NÃO ESTÁ PARA MONOPÓLIOS NEM HEGEMONIAS ESPECÍFICAS




A VIDA NÃO ESTÁ PARA MONOPÓLIOS NEM HEGEMONIAS ESPECÍFICAS


É da transformação dos nossos afetos, convicções e valores que nascerá a possibilidade duma relação ética entre o ser humano e a terra, a terra de cada um e cada uma, ou a nossa Terra, assente no entendimento da ecologia, tanto enquanto casa, como enquanto causa, considerando que lhe é característico proporcionar-nos o funcionamento do planeta. A moção não é de agora, pese embora nunca antes ela se tenha revelado com semelhante premência e pertinácia. Desleixámo-nos, atrasámo-nos, durante décadas, ao preteri-la. Pelo que, adiá-la se configura numa espécie de suicídio coletivo, ou genocídio global. A terra não são apenas os solos das explorações agrícolas, florestais e pecuárias, mas também uma fonte de energia que atravessa prados, vales e montanhas, animais e plantas, e se traduz em sistemas vivos e vivicantes, organicamente estruturados e com meritório perfil de consideração moral e humanitária. Porque é a vida de todos e todas nós que ela cultiva e sustenta, incluindo os que não acreditam nisso, os que se estão nas tintas para o facto, os que poluem e destroem habitats e matam espécies em perigo de extinção, como também o que ainda não nasceram e por tal se entendem como semente do nosso futuro.

Extensão ética que se justifica a si mesma porquanto já não nos podemos limitar à conquista da terra, a ser seus possuidores, donos e senhores, como outrora fomos, porquanto, e ao invés, passámos a ser simples elementos, figurantes, membros duma comunidade biótica alargada, que nos exige respeito igual por todos os constituintes (biodiversidade) como por todos os nossos irmãos e todas as nossas irmãs (ou espécie humana). Caso contrário, arriscamo-nos, não só a infligir danos irreversíveis ao ecossistema, ao nosso habitat, aos mais frágeis de nós com pestes e catástrofes, poluições, assimetrias, miséria e guerras civis, mas também a todos e todas que se radicaram no mundo desenvolvido e abastado, que nem sequer têm contribuído para além do inevitável para o atual estado de sítio universal: a Europa rica da sociedade da informação e das novas tecnologias, e a que concorremos sempre que o nosso crescimento económico aumenta. 

Pensar que podemos sobreviver ao fenecer e sucumbir das demais espécies protagonistas deste nosso enredo ecossistemático, não só é um erro de palmatória como uma demonstração de má índole. Hoje, como durante milénios anteriores, o são evoluir da sociedade depende quase em absoluto desse diálogo em simbiose entre as organizações naturais e as organizações sociais, das quais as microeconomias como as macroeconomias são somente o cocuruto visível desse enorme iceberg.        

Joaquim Castanho 

  

MARIALVISMO E PIJAMA, NEM SEQUER NA MESMA CAMA





MARIALVISMO E PIJAMA, NEM SEQUER MESMA CAMA!


As maiorias e unanimidades têm os seus dias contados. Chão que já deu uvas, e crises, e bancarrotas, e hediondos genocídios, e miséria, e assimetrias criminosas, como intolerâncias inauditas. O discurso oficial dos países desenvolvidos, como das Nações Unidas, além de convidar a uma polissemia interpretativa incontornável, mistura influências ecológicas – das quais a sustentabilidade é tão-só a mais comum... – com influências éticas, num todo discernível onde o político se revela superiormente sociológico, logo científico, matemático, estatístico, confluente e simbiótico. Ao pathos missivista e semiótico e retórico característico das grandes ideologias, sucedeu a pragmática dos particulares, dos detalhes, das identidades e das diferenças. O clique de transição entre o patológico e o pattern, entre o mórbido massificante e unificador, gerador de inaptidões e irresponsabilidades, e o cibernético fez-se através do evidente implantar da sociedade da comunicação e informação, herdeira direta das anteriores sociedade de produção e sociedade de consumo. E, não obstante algumas ilhas de resistência e inaptidão aos tempos atuais, que apenas ilustram arquelogicamente as anteriores, o que é certo, é que ninguém pode deixar de ver que há hoje mais conhecimento e informação a circular no Blogspot e no Facebook do que nas Sorbones de sempre. Aquilo que os sistemas de educação e ensino nunca conseguiram, embora o almejassem ansiosamente, como a popularização dos pintores, cineastas, filósofos, suas correntes e doutrinas; nomeadamente dos poetas clássicos, universais ou nacionais, que são hoje lana caprina pelas cronologias dos menos habilitados, academicamente falando... Shakespeare, Nietzsche, Pessoa, Drummond de Andrade, Dante, Goethe, Kafka, Camões, Florbela, Sophia, Antero, Torga, Neruda, sendo exatamente por isso,  muito mais conhecidos agora do que foram as anedotas escatológicas e brejeiras do Bocage há 80 anos atrás – entre nós... 

Dito de outra forma: pensar que é atualmente possível continuar com a mesma atitude face aos demais e ao ambiente que o establishment administrativo e político cultivou e assumiu durante quase um século, em Portugal, não só é antidemocrático como doentio (patológico, desregrado, inadaptado), uma vez que os populares, ou cidadãos e cidadãs comuns possuem, hoje em dia, em todas as vertentes da cultura, do conhecimento e da civilização, maior bagagem cognitiva, mais (in)formação (geral como específica) e mais atualizada do que o citado establishment, onde grassam a ignorância, o desrespeito pelos Direitos do Homem e pela Constituição da República, pelos Direitos dos Animais, pela Biodiversidade e pela Igualdade, e são apanágio, a par do narcisismo egoísta e marcas topo de gama,  a desigualdade de género, o maneirismo afetado e a ironia de gosto medieval, ou esclavagista. 

E ainda bem, porque tanto indicia que a humanidade está a ficar mais humana de dia para dia.

Joaquim Castanho 

OPTAR VERDE É CONTRIBUIR PARA A SOLUÇÃO DA CRISE



OPTAR VERDE É CONTRIBUIR PARA A SOLUÇÃO DA CRISE


Estima-se em mais de um milhão, o número de postos de trabalho que poderão vir a ser criados, até 2030, pelos EUA, China e UE, a fim de consolidar as suas estratégias de combate às alterações climáticas, promovendo o emprego verde, quer no sector energético, como no ligado à sustentabilidade e crescimento económico, nomeadamente no capítulo das exportações verdes. Tratando-se de medidas que podem ser adotadas por todos os países é, porém, a Dinamarca quem maior empenho demonstra definindo como meta acabar definitivamente com a utilização de combustíveis fósseis no sector energético, onde é secundada pela Alemanha que estipulou obter 80 % da sua eletricidade recorrendo apenas a fontes renováveis, num período de tempo que não vai além de 2050. Contudo, se estes três países/regiões (China, UE e EUA) se propusessem produzir toda a sua energia a partir de fontes renováveis, o número de empregos a criar ultrapassaria a ordem dos três milhões e uma correspondente poupança anual em importações de combustíveis fósseis a rondar pelos 519 mil milhões de euros. O que não é coisa pouca, e cairia que nem ginjas na economia global.

Portanto, desde já se pode acabar com o argumento de que cuidar e prevenir a sustentabilidade da ecosfera agrava a crise, porque, pelo contrário, ela antes contribui para solucioná-la. Os países europeus mais ricos não enriqueceram por acaso, e sim porque tomaram as decisões que mais lhes convinha para fomentar o desenvolvimento e crescimento económico. Lá neles, como cá, o Orçamento do Estado, o PIB, o desemprego e o défice, também são "negócios" a ter em conta na discussão política; e se se decidiram pela economia verde, foi porque ponderaram, calcularam e avaliaram que modelo superiormente lhes defenderia os interesses.

Quando a Ética da Terra sugere que umas coisas estão certas e outras erradas em função da estabilidade dos ecossistemas, não está a abrir caminho à desconsideração do fator humano e individual, mas sim a tentar salvar as comunidades bióticas porque isso equivale a salvar também a humanidade que lhe é inerente. O homem e a mulher fazem parte dessa comunidade, e a sua qualidade de vida e bem-estar dependem da qualidade dela, da qualidade do ar que respira, dos níveis de ruído que nela se constatam, da estabilidade e fertilidade dos seus solos, da quantidade de água potável que armazena, das características (geológicas e edificadas) desse território, bem como das maneiras como é gerido.

Pelo que é legítimo afirmar que o ecocentrismo não é contra o homem e a mulher, mas antes a favor dele e dela, principalmente quando se manifesta a favor do que é certo, ou que tende para preservar a integridade, a estabilidade e a beleza das comunidades bióticas, manifestando-se igualmente contra tudo o que está errado, isto é, tudo quanto destrói o equilíbrio dos ecossistemas, destabiliza as comunidades bióticas, lhes viola e adultera a integridade, assim como a identidade, contribui para a aridez e desertificação dos solos, polui rios, lagos, mares e oceanos, e cultiva a fealdade nos habitats e meio-ambiente. E uma prática e economia que muito se prestam para isso são as que assentam na utilização de combustíveis fósseis para gerar energia. 

E este Ano Internacional da Luz devia ser o vértice da dobragem do Cabo das Tormentas, transformando-o no Cabo da Boa Esperança, no que aos combustíveis diz respeito, alterando a nossa perspetiva e conduta quando a eles recorremos. A escolha é de cada homem e de cada mulher, mas os malefícios ou benefícios serão para a humanidade inteira.


Joaquim Castanho


O LADO NEGRO DA ALQUIMIA






O LADO NEGRO DA ALQUIMIA


"é impossível uma leitura do obscuro, sem a sensação de nos enganarmos"

in ANTÓNIO JACINTO PASCOAL
A Necrópole Mediterrânica
(Público, 26 de abril de 2015)

A vida é um milagre universal que também aconteceu na Terra vai para quatro milhões de anos, e a que nós, humanos, apenas foi possível assistir, partilhar, viver e testemunhar, há somente 200 mil anos, qualquer coisa como uma gota de água na piscina do tempo. Durante aproximadamente 199 940 anos fizemo-lo contemplando e respeitando o equilíbrio da natureza e ecosfera, já que delas dependíamos em absoluto; porém, nos últimos 60 anos deitámo-lo por terra, quebrando-o com a nossa pegada, marca, impacto ambiental, sob a justificação de que o fazíamos para melhorar de vida, em prol do desenvolvimento e progresso, arriscando-nos a devolver o planeta ao seu estado larvar, pelo andar da carruagem, num futuro não muito longínquo, em que ela era tão-só um caos de fogo, formado por consequência do despertar da estrela que ainda hoje nos aquece e ilumina: o sol.

E a História da Humanidade não é mais que o registo do sacrifício do equilíbrio dos múltiplos ecossistemas em que a Terra se compartimenta aos nossos interesses específicos. Fizemo-lo com a economia de subsistência, intensificá-lo na sociedade de produção e extremámo-lo com o modelo liberal consumista, ainda em vigor, pelo que o ponto de degradação alcançado stressou tanto a natureza e os seus elementos, que ela e eles já se não coíbem de, amiúde, pagar-nos na mesma moeda. «Ora toma lá, a ver se gostas», diz-nos ela (e eles), como contrapartida por nos termos deixado de integrar nela, exigindo-lhe que seja a natureza a adaptar-se a nós, às nossas necessidades sociais, aos ditames civilizadíssimos do nosso gregarismo, exemplarmente humanitário, como eticamente gostamos de justificar, argumentando que o fizemos para combater a subnutrição e fome dos povos. Coisa em que eles não acreditam nem veem acontecer, e muito menos ela nota... Porque será?

Há razões tão obscuras que até o obscurantismo as desconhece.

Joaquim Castanho          

 

DA ÉTICA, E SUA PRÁTICA



DA ÉTICA,  E SUA PRÁTICA....


A atribuição dum valor instrumental aos ecossistemas (unidades geradoras de biodiversidade essenciais para o funcionamento global da Terra), conduziu-nos à necessidade de repensar a atitude humana para além do seu natural convívio e relacionamento com os demais seres vivos e elementos da natureza (solo, rochas, água, condições climáticas, ar, processos geológicos e físico-químicos, etc.), a fim de melhor nos habilitarmos para estabelecer, preservar e otimizar a simbiose que com eles somos obrigados a cumprir, enquanto simples membros altamente interessados do pacto universal da vida, que quer ser eterna e que, entre as estratégias que gerou para o conseguir, uma delas, nós, a humanidade, tem tido grande êxito neste planeta.

Portanto, de acordo com esta perspetiva ecocêntrica, que historicamente tem como fundador Aldo Leopoldo (1886-1948), de cujo registo inicial nos ficou A Sandy Country Almanac – Pensar Como Uma Montanha, traduzido e editado em fevereiro de  2008, pelas Edições Sempre-em-Pé –, principalmente o ensaio The Land Etich, a Ética da Terra que, sendo uma conceptualização filosófica tem funcionado como guia normativo para as questões da preservação dos espaços selvagens, de controlo da poluição ou poluições, do consumo da energia e da utilização dos recursos naturais que rompem com o modelo econimicista tradicional, é importante que revejamos a nossa maneira de estar na ecosfera e anseio de desenvolvimento e bem-estar, uma vez que o estamos a cometer contínuos atropelos e subtrações da biodiversidade no ecossistema que integramos, e a que vulgarmente chamamos meio ambiente.    

Disse-nos ele "que só a montanha viveu o tempo suficiente para ouvir com objetividade o uivo do lobo", pois a nossa lucidez e disponibilidade para tal tem estado bloqueada para reconhecer que os sistemas ecológicos são fruto de uma evolução lenta de milhões de anos, onde quanto menos violentas são as suas alterações, maior será, e mais fácil também, o reajustamento a elas da comunidade biótica. É esse bloqueio que se apresenta hoje como causador das principais tragédias e degradação visíveis no nosso habitat. E quem o tem promovido, assegurado e consubstanciado, têm sido as principais instituições que foram criadas EXATAMENTE PARA GARANTIR a simbiose (*) social a que chamamos nação, país, povo, quer o enquadremos num território restrito, como o português, quer o façamos em termos mais alargados, ou europeus e continentais. Ou seja, à democracia não basta ser chamar-se democracia para ser um bom sistema: é também preciso que contemple a gestão democrática das instituições e organismos que a representam, executam e cumprem. Entre elas, sobretudo, as do foro político, da economia, dos órgãos de soberania, da cultura, do ensino e a da ciência.

Será que elas estão dispostas a acatar as suas responsabilidades, neste capítulo, ou seremos nós quem vai fazê-lo – por os eleitos “democraticamente” que as tutelam disso terem abdicado – , através das próximas eleições? É importante que se decidam, pois os homens e mulheres responsáveis, emancipados, democratas, participativos, conscientes e eticamente esclarecidos, não podem continuar sentados no sofá a observar o mundo esmoronar-se e perecer sem avançarem um passo que seja no sentido de evitar ou retardar a anunciada derrocada.  


Joaquim Castanho

(*) SIMBIOSE SOCIAL –  Vida comum, sociedade, comércio; fenómeno pelo qual organismos diferentes se prestam apoio mútuo, a fim de contribuírem para o desenvolvimento dos meios de vida limitados de que dependem, e que, embora com posições e funções diferentes e complementares, se empenha na defesa às ameaças e obstáculos que lhe amputam a sustentabilidade.   


4.16.2015

COMO VAMOS DE CIDADANIA?




COMO VAMOS DE CIDADANIA?

“Todos nos refugiamos em formalismos. É preciso derrubar essa parede onde se esconde a ignorância, a preguiça, a promiscuidade de interesses e a cultura do favor para permitir deixar entrar a luz do sol. A luz do sol cura”, como afirmou Ricardo Sá Fernandes, em entrevista ao jornal i, de 11 deste mês. E ele tem absoluta razão nisso, além de em muita outra coisa, o que, quer queiramos, quer não, dificilmente evitaremos ter de reconhecer. O país enferma de mediocridade e salamaleque, e todos, como todas, fogem da verdade como o diabo da cruz. Embora dessa fuga não resulte a positiva mudança de atitude, pelo que me inclino mais para reconhecer que o que realmente temem não é a verdade em si, mas que ela seja divulgada, conhecida e mostrada. Ou, como diz, o povo, que às vezes não prima lá muito pelos valores da honestidade e galhardia, vergonha mesmo não é roubar, mas ser apanhado a fazê-lo.

As organizações democráticas, sobretudo as que compõem o poder local, desconhecem, na maioria, o que é a democracia, exercem o poder como se este não fosse sujeito a regras nem a ditames constitucionais. Já ouviram falar dos Direitos do Cidadão, dos Direitos do Homem, e até da Constituição da República, mas são muito poucas as pessoas dentro delas que agem em conformidade com estes, desconfiando eu, com larga margem de certeza, que não o fazem por mal, mas porque não sabem ler, e esses documentos normalmente não aparecem em edições áudio. Fazem porque nunca os leram, ou leram tão na diagonal que lhe distorceram o sentido. E agora refugiam-se exatamente nessa ignorância para os não cumprir. Liberdade, igualdade, respeito, dignidade, integridade física e moral, são conceitos estranhos que nada lhe invocam, nem convocam, pelo que os não reconhecem em relação seja a quem for desde que não pertença aos membros do pessoal dessa organização, ou confrades. Ou paroquianos.

Creio mesmo que sentem um excelso prazer em violá-los, porquanto a sua consequente impunidade, lhes outorga majestade e lhes dá a exata medida do seu poder sobre os mais fracos e desprivilegiados, os mendicantes sem ordenado de (santo) ofício, proporcionando-lhes degustar os mais variados frutos da árvore da corrupção, sem que ela estremeça ao colhê-los, incentivando-os a segredarem-se de como podem estar sempre acima da lei e da civilização, ainda que o Estado que os patrocina se diga de direito e civilizado, como diz que é o nosso.

Ora vem a prédica no sentido, quiçá revolucionário!, de haver hoje em dia quem considere que o principal desafio da atualidade reside essencialmente no esforço que temos que fazer para implantar a cultura da transparência e da cidadania, erradicando a sua contrária (do favor e da hipocrisia) neste Portugal, tão pequenino mas tão múltiplo, nas suas regiões e cidades, onde se continua a cultivar o obscurantismo subserviente e corporativista como se fosse um produto de região demarcada com alto valor-acrescentado. E eu estou com esses homens e essas mulheres que não assobiam para o lado quando veem algo certo ou errado. Alguma vez o iremos conseguir? Queremos mesmo consegui-lo? Os proprietários da coisa pública, seus encarregados e capatazes, tudo farão para o impedir. E com o nosso voto. Com o dinheiro dos nossos impostos. Com a nossa ajuda. Com a nossa indiferença. E com a nossa falta de cidadania.

Joaquim Castanho
 

4.08.2015

ANTES COMO DEPOIS, SE MELHORÁMOS SÓ FOI À MODA DO NÃO




ANTES COMO DEPOIS, SE MELHORÁMOS SÓ FOI À MODA DO NÃO


Ensanduichados, sacrificados, crucificados e expostos ao vexame global entre dois energúmenos comprovados, nós, os cidadãos comuns deste povo com oito séculos de História e milénios de memória, engavetado (ou encavalitado) na ponta sudoeste da Europa, que se apresta para ir às urnas, depois das férias do verão, enganado e malnutrido como qualquer rês que escapou à seca e à fome, mas não foi suficientemente expedita para mudar para melhores pastagens e condomínios, pelo que o abate se avizinha mais rentável que mantê-la viva até ao reverdejar dos campos, que eram verdes da cor do limão, mas agora só são amargos e ácidos e dão calhaus em vez de pão, talvez aumentando ainda mais o bambúrrio dos partidos do arco da governação com o laxismo usual e costumeiro com que tem justificado a habitual (e elevada) abstenção. Uns dirão que é a descrença na democracia, outros o capitalismo, aqueloutros o fado, mas todos atiram à sorte a ver se pega, pois mais não fazem do que alvitrar dogmaticamente, já que escondem a verdade para arranjar culpados externos, quando, afinal eles estão todos cá dentro e gordinhos e anafados, uma vez que aqueles que vituperam o FMI, o BCE e CE (enfim, a famigerada TROIKA), que foram os únicos que nos ajudaram nesta crise, ficando por nossos fiadores perante quem nos emprestou e empresta dinheiro para lhes pagar, querem continuar a ser os únicos beneméritos desta dívida, enquanto classe dirigente, autarquias, função pública, bancos, empresários, cadeias de hipermercado, segurança pública, ensino, saúde, segurança social e educação, tal como até aqui tem sucedido. Exatamente os mesmos que encheram as tulhas e agora bebem o vinho novo, dançando a ronda no pinhal do rei e da república, que depois de nos sugarem o corpo palitam os dentes com a alma esbelta, aguçada e esguia que nos sobra.

Ora os meninos e meninas não têm é vergonha na cara, essa é que é essa, pois se os cofres estão cheios, como disse a ministra Albuquerque, foi porque pudemos pedir emprestado ao mercado financeiro, que só nos emprestou mais capital visto haver a garantia que a TROIKA anda por perto, e dá uma mãozinha à coisa se der prò torto; senão, bem podíamos pôr dívida à venda que ninguém lhe havia de pegar, por mais altos que fossem os juros a que o fizéssemos, que na alta finança mundial podem ser egoístas mas não são parvos, nem lá, como aliás também cá, se dá nada a ninguém, ainda que sejam só uns míseros votos de que dispomos para ajustar as contas.

Agora andam na geraldina a vaiar quem lhes alimentou os apetites, lhes saciou as insuficiências e desequilíbrios, mas se não tivessem sido esses senhores de fora a ajudarem à governação, estávamos de pantanas, e ainda mais do que aquilo que não parece que estamos. Mas estamos. E estamos tal e qual como estávamos antes da TROIKA vir…
Havia desemprego? Havia. Agora também há. Havia corrupção? Havia. Agora também há. Havia baixo crescimento económico? Havia. Agora também há. Havia uma educação que deseducava? Havia. Agora também há. Havia falta de cultura, desenvolvimento, participação democrática, igualdade e cidadania? Havia. Agora também há. Havia uma saúde cara e ineficaz para quem não tinha de seu? Havia. Agora também há. Havia um governo sem soluções para os problemas dos portugueses? Havia. Agora também há. Havia uma oposição que era contra tudo incluindo contra ela própria? Havia. Agora também há. Havia um défice insustentável? Havia. Agora também há. Então, em que é que Portugal mudou? Só numa coisa: é que antes se íamos ao mercado financeiro pedir dinheiro emprestado faziam-nos o manguito, agora, olham para o FMI, o BCE e a CE, e se eles e ela lhes dão garantia de cobertura da dívida, eles emprestam, mesmo com juros de pouca substância e lucro…

Ou seja, se estávamos empobrecidos e endividados, pobres e com dívidas continuamos a estar, mas com menos população ativa, menos empresas públicas para privatizar, menos empresas e diminuída capacidade económica. Então para que serviu o último mandato legislativo? Para nada, exceto para ficar provado e comprovado que fazer as mesmas coisas nunca dá outro resultado. E isso já todos e todas sabíamos, ou se não sabíamos de afianço, já desconfiávamos com grande margem de certeza. Pois nenhum, nem nenhuma, de nós se chama São Tomé e não precisamos de ver para crer, sobretudo naquilo que já víamos muito bem no que ia dar – e deu.


Joaquim Castanho  

4.04.2015

PISAR O CALCANHAR AOS AMIGOS




PISAR O CALCANHAR AOS AMIGOS


Na amizade não se acredita; a amizade sente-se. De cá para lá ou de lá para cá, por uma via com dois sentidos. Acredita-se em Deus, no diabo, nos efeitos especiais do ego ou da falta dele, na roda da sorte e do azar, como nos ecos do desespero, entre os quais o mais famoso é a esperança. Mesmo quando é a última a morrer.

Traído por muitos e negado por quase todos e todas, aquele que se intitula amigo não desarma nem desiste, não vira as costas nem teme o que há de vir, ainda que não lhe reconheçam qualquer valor ou serventia. Veio para ficar em nossas vidas, instalou-se de armas e bagagem, mas só ficará até querer, embora suponhamos que esse “até” mais não seja do que um “para sempre” resumido, e ainda que a gente o rife por dez réis de mel coado, que de nutritivo e calórico nada tem além da muita água com que se lavaram as vasilhas. Julga-se insubstituível mas é descartável. E perene mesmo quando o consideramos caduco.

E sacrificamo-lo por tudo e por nada. Vendemo-lo a trinta por uma linha. Negamo-lo por dá cá aquele like. Principalmente em maré de eleições, entalando-o entre o mau ladrão, líder desmascarado e metido no chilindró, e o bom ladrão, chefe do governo em exercício, que apenas gosta de ferrar o calote à segurança social sempre que pode, ou porque é sonso e imperfeito como qualquer açorda mal temperada.

A sua persistência é um desafio para a nossa teimosia, que nunca perdemos a oportunidade de testar até onde aguenta ou como nos vai fintar à última hora, num derradeiro apelo à consciência e ao bom senso. Sabemos que o irá fazer mais dia, menos dia, com maior ou menor impacto sobre o nosso quotidiano, comportamento e atitude, que ganharão indubitavelmente com isso. Pois lucraremos substancial autoconfiança, autodeterminação, autonomia, independência e emancipação por cada coisa que lhe pedirmos e ele não possa (lamentavelmente de momento) satisfazer. É esse o seu calcanhar de Aquiles: a expetativa frustrada. A momentânea impotência. O «Oh, pá!,  porque não disseste mais cedo… Ainda ontem dei o último» com que rematamos invariavelmente qualquer telefonema em que nos pedem um selo de correio cuja série lhe confessámos ter comprado completa mal saiu.

Mas também é essa a sua principal garantia de sustentabilidade: é que quando já não esperarmos nada dele, nem ele precisar seja do que for nosso, então passaremos a entende-lo não como nosso amigo mas antes passemos a ser simplesmente seus amigos… E aí, sim, a amizade poderá, enfim, começar a sério, porque finalmente começamos a ver que ela depende não do que possamos receber dela, mas do quanto lhe possamos dar. Porque então estamos a ser TAMBÉM nossos amigos, e caminhamos em frente, sem tropeçar nos próprios pés, sem pisar os nossos próprios calcanhares. As nossas intenções e expetativas, queria eu dizer…  



Joaquim Castanho

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