La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

2.27.2010

Alterações de Espírito

Estranhamente observável na sessão inaugural, Sinais de Fogo – que fogo? Amigo? Inimigo? De artifício? Ou apenas de fumo? –, pela nomenclatura, formato e coreografia, este boletim talk show dos pequeninos pareceu um recado encomendado pela questão coimbrã, em versão eleitoral semi-presendialista, para não contrariar o regime, com o fim de cortar à faca afiada da retórica e da semiótica social-democrata das primaveras marcelinas, em declarada versão remix das Conversas Em Família com direito a visitas (especiais ou espaciais, não se sabe bem...), condimentada com um apimentado gosto pelas quezílias comezinhas e domésticas, tipo marceladas em sofisticada bancada gastronómica da ML Modesto, na insensatez da guerra (fratricida) entre géneros, com vista a pôr os bons e os maus no mesmo plano (familiar), dando-lhe voz, é indesmentível, mas fazendo a inevitável separação consequente à evidentemente clara diferença que entre eles existe: uns, os bons querem retocar apenas a maquilhagem para continuar com o mesmo figurino (socializante); outros, os maus, querem alterar o modelo, embora não se preocupem com os pormenores e rendilhados do traje nem com as marcações do desfile. Erro grado, como é por demais salientado, numa questão onde as vidas, a qualidade delas, a natureza fundamental da democracia, se representativa ou participativa, se corporativa ou da cidadania, não passam, afinal, de mais uma destrinça burguesóide sobre bom senso e bom gosto, entre os quais vem o MST e... escolhe.
Que é recado ninguém contesta, todavia importa saber não quem o dá, mas quem o encomendou e como conseguiu impô-lo no universo da comunicação social lusófona, depois das arrelias, desmandos, incómodos e apoquentações que a Face Oculta tem detonado um pouco por todo o lado, demonstrando quão diferente é denunciar publicamente qualquer coisa ou pôr a boca no trombone, até na Rádio, que desde sempre foi uma espécie de baldio censório fedorento onde se vai afiando a lazulite quadrilheira conforme os interesses publicitários o permitem – leia-se, exigem –, no corta aqui, elimina acolá, no sonybitiano da refrega, que tempo é dinheiro sob as avalanches das crises, este nem lá entra que é para saberem quem é que manda aqui, diz o feijão entalado entre as escarpas da soberba e autoconvencimento, que é coisa que vai sendo esbanjada à torna baldia sob a cagança porreirista de atirar fora a vaca (armar em abastado) e comer depois só as tripas.
Por conseguinte, acerca das carambolas e jigajogas nas Faces Ocultas católicas – sempre gostava de saber que semelhança/ligação é que pode haver entre as cocas portalegrenses, as instituições judiciárias e as burkas islâmincas... –, convém referir aquilo que a Carta Europeia da Liberdade de Imprensa, reiterada no anopassado pela Comissária Europeia para os Media, Viviane Reding, e promovida pela comunidade – ou será tribo? – dos jornalistas europeus, cujos artigos primeiro e segundo sublinham inequivocamente ser a "Liberdade de Imprensa (ou Expressão) essencial para uma sociedade democrática, [onde] todos os governos devem defender, proteger e respeitar a diversidade dos media em todas as suas formas e políticas sociais, [porquanto] a censura deve ser absolutamente proibida". A Fábula da Raposa e das Uvas é mais velha que a Serra d'Ossa, e não basta dizer que as ditas (uvas) não prestam e estão verdes logo que se reconhece que o que caiu foi uma parra, e não um cacho delas, afirmar nunca ter tentado passar a perna à comunicação social incómoda, a disfarçar por ter sido apanhado, uma vez que é essa precisamente a estratégia mais simples e mais divulgada das mais velhas profissões do mundo: tenta-se, mas se algo correr mal, então descaradamente nega-se, se possível com indignação e acusando quem suspeita da marosca de não serem, nem terem a mínima confiança no amigo (desinteressado).
Pelo que resta concluir, visto nenhuma das partes envolvidas estar preocupada com o respeito, ou o desrespeito manifestado, nomeadamente a Justiça, que mais pretende ser secreta e secretista do que justa, à Carta da Liberdade de Imprensa (2007), é que o governo teve azar e foi apanhado (com a boca na botija) por quem sabe muito bem como as coisas se fazem, uma vez que também conhece a modalidade, precisamente porque já a praticou (no passado recente). Zangam-se as comadres, contam-se as verdades, eis o grafite que em rosa-choque e laranja-luminiscente pintalga os muros apodrecidos da identidade secular do (in)consciente colectivo que nos suportam a pátria, e esclarece porque continua a ser evidente que, façam aquilo que fizerem, tapem ou camuflem aquilo que camuflarem, onde há Fumo, há sempre (Sinais de) Fogo.



2.25.2010

Sinais de Figos

Radical, eu... Pois sim, mas nunca corrompi nem estraguei o presente ou o futuro a ninguém!
A capacidade de reacção e o grau de resiliência sócio-económica da Madeira, após a catástrofe natural que a vitimou, foi um «auguentem-se» de se lhe tirar o chapéu, que irá dar água pela barba aos políticos e demais gestores da coisa pública do «contenente», porquanto em menos de uma semana, depois dos efeitos devastadores das avalanches de terra e água, que soterraram, destruíram, atolaram, afogaram e entupiram centros nevrálgicos da urbanidade e quotidiano dos madeirenses, ei-los recuperados e lavados de fresco, a que nem o impiedosamente lamentável número de mortes, conseguiu abstrair-nos da ideia que a Ilha foi apenas sujeita a mais uma barrela para lhe arear os brios, limpeza assaz necessária se considerarmos o muito encardidas que andavam algumas línguas a dar ao trapo da lobística nacional-beneditina e arquipélagos adjacentes, sobretudo se atendermos a que aqui bem perto, no Litoral Oeste, sucedeu o que sucedeu, já lá vai um tempão, e só ontem a campanha de recuperação das (infra)estruturas agrícolas/hortícolas começou (financeiramente) a ser feita, com a devida pompa e circunstância do foguetório media propagandístico costumeiro em tais caridades ou eventos.
É, portanto, caso para rever a atitude parlamentar perante a aprovação do Orçamento de Estado, renegociando as verbas a atribuir ao arquipélago, duplicando no montante se possível for, mas exigindo como contrapartida a vinda para o continente de um terço da sua população, e em correspondência com todos os sectores de actividade, que seriam distribuídos equitativamente pelas nossas regiões, de norte a sul, para impulsionarem com a sua presença e exemplo, os níveis de participação e cidadania, e contabilizar essa verba, não como um acréscimo da despesa, mas como um investimento de retorno garantido em curto prazo, uma vez que ela nos iria facilitar poupar rios de dinheiro no futuro imediato, esse mesmo que actualmente é esbanjado em engonhices politiqueiras do quero-posso-e-mando do status quo «imperial» da bipolaridade moderada, que é uma espécie de moléstia na partidarite feudal dos barões da marialvice actual.
Para a minha avó, que versada era nestas coisas da usança que se torna provérbio, quando alguém caía no caminho, se se referia depois a essa queda, ou ao local onde ela acontecera, dizia que aí plantara uma figueira, indo ainda além, caso dela resultassem algumas consequências visíveis, por colher os figos da figueira que plantara. Em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que é uma intensa e extensa metáfora do ditado assinalado por minha avó, a Figueira (da Foz) foi a maior queda e a que mais marcou o percurso (caminho) do protagonista, personagem principal então a braços com os designos iniciais da sua formação, quer humana, como académica. E até aqui nada de novo, que a bondade de uma história não está no que ela é, mas (deveras) no modo como pode igualmente ser contada, parafraseando o nomeado autor. Agora, a elipse fundamental, o inaudito acordo de si perante o total apagamento, o desmemoriável reconhecimento de como a essa situação se chegou, é que já me parece um tanto mais rebuscada nas coreografias da nossa ocidentalidade, portuguesmente falando...
Das duas, uma: ou quem assim intitulou o programa nunca leu o livro mas gostou da semiótica (bélica) que encerra, e nesse caso, é apenas mais um entre dez milhões de portugueses que avaliam os conteúdos pelos rótulos, os contenidos pelos continentes, que continua a acreditar que o amor entre os burros começa aos coices e acaba (sempre) em cacos, o que não obstante já não haverem caravanas de oleiros a deslocarem-se para as feiras e mercados, não deixa de ser observável pelos números veiculados sobre violência doméstica, divórcios e discriminação genérica; ou, por outra, quem de tal o intitulou sabia muito bem o que estava a fazer, quiçá tenha lido a obra, ao direito como em ziguezague, quis fazer bonito, porém malhou, plantou figueira de cujos frutos terá que se alimentar futuramente, esquecendo que a particularidade de eles antecederem as suas flores, e de se passarem para assim evitar o indesejável apodrecimento. E nesse caso, se o que pretendia era branquear o decrescente prestígio do actual primeiro ministro português, para efeitos de governabilidade, então a coisinha não resultou minimamente, pois toda a gente viu – e ouviu – como se faz isso de serem duas pessoas a amanteigarem a mesma fatia, ora um, de um lado, ora o outro, do outro, em ameno e paulatino piquenique no parque de merendas das tágides suas, do que logicamente se conclui que nem um ficou mais branco ou preto, conforme timbrou no cinzento da gravata, nem outro menos desbotado no azul do nó com a mesma.
Ou seja, temos que admitir que naquela curva da estrada, foram dois a plantar a mesma árvore. Porém, saber ao certo, qual deles é que vai comer os figos, e qual aquele a quem vai arregoar a boca, isso é que é um mistério e tanto, que somente o futuro escreverá neste romance intempestivo que é a legitimidade democrática em navegações turbulentas nos acidentados oceanos da nossa portugalidade, em que nunca se sabe o que é que uma lei quer dizer, por virtude da fraca competência literária de quem legislou. O que são outras das passinhas, que além das do Algarve, também o restante Portugal passou!



2.12.2010

Vento Sem Tempo

Embora as pinturas rupestres sejam pensamentos, valores, ideias e ideais fossilizados, as vozes não deixam quaisquer fósseis, nem mesmo aquelas que se fizeram acompanhar com melodias (ideologias) várias, que nunca o suporte musical durou mais que o "vento" que transporta a palavra, como aliás já estava muito bem enunciado pelo famoso ditado popular que aventa aos quatro cantos do globo que palavras, leva-as o vento. Todavia, convém salientar que este ano de 2010 não é apenas mais um ano que medeia entre a crise que eclodiu em 2008/9 e a que (previsivelmente) surgirá em 2011/12, uma vez que a comunidade humana internacional, para se prevenir, única e exclusivamente para se prevenir, o elegeu como o Ano Mundial da Biodiversidade e a União Europeia lhe instituiu para preocupação fundamental e prioritária o combate à pobreza e exclusão social, determinando involuntariamente quanto uma temática e outra estão intimamente ligadas, considerando que a biodiversidade terrena sem a sua vertente social e humanitária é apenas mais um Quasimodo nesta ópera quotidiana (tragédia da sobrevivência da espécie), em que a Bela está particularmente adormecida, havendo também quem legitimamente diga que não só está adormecida, como igualmente dopada, narcotizada, anestesiada e iludida.
Ora, se a biodiversidade é transversal à vida terrena, ela exige porém que se garanta a sua sustentabilidade e resulte exactamente nela, já o mesmo não podemos afirmar sobre o combate à pobreza e exclusão social, uma vez que esse “combate” só será possível se houver recursos financeiros e humanos disponíveis, logo uma segurança social tão robusta quão sustentável, o que por si é um monstro difícil de alimentar, perante a ineficácia placebetária dessa invenção do chicoespertismo nacional, que apenas serve para ir ao bolso dos trabalhadores, surripiando-lhe dois ou três meses nas reformas, a que enganosamente se deu o faceiro nome de factor de sustentabilidade, visto que de factor somente ter aquele sinistro e canhestro sintoma de como os políticos e gestores da coisa pública vêem os portugueses, uns trouxas que gostam de ser comidos, e não vem resolver minimamente a insustentabilidade da segurança social, porque ela só se resolve com o constante e progressivo e contínuo aumento de trabalhadores, de inegável sustentabilidade laboral, efectivo desconto sobre o rendimento do trabalho sustentado, ou seja, só é possível fazer face a despesas e compromissos crescentes com receitas crescentes e duradouras, o que unicamente se consegue com mais emprego, pondo necessariamente fim aos despedimentos e erros de gestão, quer pública como privada, que opta invariavelmente por corrigir as diferenças de balanço desembaraçando-se dos recursos que sustentam os seus organismos e empresas, os recursos humanos, que são, enfim, a única garantia de sobrevivência das economias, incluindo as de mercado, como é a nossa, ou a europeia, em que estamos envolvidos, casados para o bem e para o mal, com assento registado pelo Tratado e pela Estratégia de Lisboa.
Em resumo, escusam de criar moda de bem pensantes, elegendo bandeiras temáticas, como o Ano Mundial da Biodiversidade ou prioridade fundamental europeia de combate à pobreza e exclusão social, porque de palavras estamos nós fartos, são coisas que o vento leva, intenções das tais de que o inferno está cheio, pois o que precisamos, a comunidade internacional, os europeus e os portugueses, é de actos e factos que corroborem esse querer, e isso só se consegue se for observada a sustentabilidade laboral efectiva, sobretudo redobrando o esforço no combate ao desemprego, pondo imperativa e determinantemente fim aos despedimentos, despedimentos que desperdiçam e atiram fora a força-trabalho de um povo, como qualquer pré-histórico faria ao computador que achasse, por desconhecer que mais-valias produz, ou como funciona
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2.06.2010

Da Coragem de Enfrentar a Verdade e o Erro



Surpreende-me, acerca das imagens das reacções dos populares no Haiti, como é que seres supostamente humanos, precisamente dois milénios depois de Cristo ter andado a (pregar) deambular pela moral e ética judaico-cristã como quem anda aos cogumelos silvestres, exactamente essa moral que impede qualquer mulher de subir aos púlpitos e altares, ministrar sacramentos e rituais religiosos, por ser menstruável, logo nojenta e indigna do contacto com as divindades, à vista e nas barbas de toda a gente, incluindo os intelectuais do politicamente correcto e do não me comprometas – que amanhã vou precisar de quem corrobore a minha vocação para este ou aquele tacho –, com radicalismos que as eleições estão à porta, nomeadamente das objectivas dos repórteres estrangeiros e das televisões mundiais, alguns, bastantes!, sobreviventes das derrocadas do sismo, e seguintes réplicas, não só saqueavam as casas abaladas e destruídas, como igualmente roubavam aos mais fracos a ajuda de sobrevivência que as organizações de ajuda internacional lhes forneciam. Pensei que isso seria impossível num país civilizado, mesmo entre gente remota edificado, qual quê!, é mas é uma prática comum, institucionalizada, disseminada aqui e ali, contagiando até os vacinados e sofridos, incluindo aqueles que são a elite de um país plantado entre o deixa arder que eu sou bombeiro e o politicamente correcto, os seus deputados e deputadas, governantes e quadros, oficiais, professores e funcionários, havendo mesmo aqueles que se indignam com a verdade que faz uma publicidade negativa do nosso país, e preferem a mentira que edificaram, construíram, publicitaram e elegeram, mesmo que essa mentira esconda os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) europeus no lodeiro da sua consciência individual e colectiva, importando-se, não com a sustentabilidade económica e cidadania, aprofundamento da democracia e combate à pobreza e exclusão social, de Portugal, mas sim com a possibilidade de ainda virmos a descer mais, empenhando-nos mais e contraindo mais dívida e défice, pois que assim, embora a crise se agrave, os seus partidos poderão colher vantagens políticas, não só ganhando mais votos, logo representação parlamentar, mas igualmente mais pobrezinhos a quem possam estender a sua caridadezinha e, por continuidade dialéctica, lhe venham a invejar o êxito nas lides da alma e frutos de abastança, de vida fidalga, na desenvoltura do corpo.
Isto é, estranhei eu que lá longe houvesse quem assaltava as vítimas do mesmo infortúnio que tivera, e não sei porquê, já que entre nós a coisa é igual, havendo quem acuse aqueles que querem mudar para melhor, corrigir os seus erros, tornar Portugal um país sustentável e consolidar o seu desenvolvimento económico e humano, de fazer publicidade negativa, apenas por não bater palminhas ao manancial de baboseiras que vocifera dos púlpitos que frequenta, confundindo conhecimento com fé e vontade política com demagogia político-partidária, biodiversidade com especismo e igualdade de género com sexismo, somente porque isso lhe trará mais proveitos e contas no estrangeiro, fama nos mass media e colagem ao superior interesse da nação, por conseguinte, passe de mágica ilusionista, do que garantia de sobrevivência actual, crescimento sustentado no futuro e maturidade histórica na memória da espécie e enciclopédia do universo. Estranhei, é certo, mas por frescura com certeza, pois cá é bem pior, já que o que fizeram no Haiti foi por fome, insegurança e falta de cultura, contudo aqui é precisamente por egoísmo, ganância e cultura marialva, onde o que importa é atingir o poder, cavalgue-se o que se cavalgar, seja pileca de estrebaria ou lusitano de real coudelaria: o que importa é ganhar muito do orçamento, venha ele de onde vier, e seja ganho com o sacrifício ou à custa seja de quem for, operário, sem-abrigo, cigano, aluno, professor, transmontano, ilhéu, alentejano, seminarista, empresário, estudante ou doutor. Vai lá, vai... Até a pocilga abana!

2.03.2010

Janela de Oportunidade




Cada qual sabe as sombras com que se entretece.
Ouvi, uma vez, dizer a um escritor consagrado pela crítica e pela banca, que escrever “é descrever a um cego o que estamos a ver, até que ele veja o mesmo que nós”. Senti-me defraudado. Então, adiantei: “a um cego que não quer ver, até que ele veja melhor do que nós.”
Talvez seja uma tarefa difícil, e reconheço que nunca o conseguirei. Só que o para “que não digam que nunca tentei” não é lá grande compensação. Pior ainda: é a confirmação duma frustração. O escritor é o único animal que faz da frustração uma profissão de fé: imolar-se, é-lhe decididamente preferível à indiferença. E executar-se consequência inequívoca dessa culpa alheia, ou em redenção de uma culpa colectiva, logo, o último responsável porque é igualmente de todos, o maior e mais nobre galardão que pode alcançar, e a que normalmente chamam fama ou número infinito e incontável de leitores.
Agripina está sentada, nua, no sofá da sala de estar, primeira divisão da casa que habita desde 1976, precisamente o nº 13 da Rua Velha, em Casal Parado, com o pé esquerdo sobre a alcatifa, surradíssima essa, e o direito sobre a nappe vermelha do móvel, erguendo o joelho dobrado à altura do queixo, inclinada para a frente, os braços ladeando a perna, cortando as unhas, com uma tesoura bicuda e curta, na mão direita, enquanto com a esquerda segura o pé e levanta o dedo. Tem o cabelo molhado e brilhante, como só os cabelos totalmente pretos podem brilhar quando se lhes ministra algum gel amaciador. Defronte a ela, a televisão, mal sintonizada, com chuviscos, deixa escapar a imagem numa subida alucinante. Não quer saber!... É o padrasto que paga a luz. Deixá-lo.
Dezassete anos; é quanto lhe rezam as contas, se feitas pelo B.I., mas a mãe já lhe confidenciara que somente fora registada com catorze meses, pois nascera na Roça, sob a providencial ajuda de duas pretas da casa, e a cidade mais próxima era longe, a uns cem quilómetros, com picadas em mau estado e (provavelmente) minadas pelos turras, que nesses tempos ganhavam uma força (moral) superlativa em consequência da opinião pública mundial se ver explanada nos acontecimentos internacionais do género da "derrota" dos americanos no Vietname ou da explosão pacifista do Indira Gandhi. Na noite anterior, quando regressara da escola nocturna, o padrasto estava a montar a mãe à canzana, com a porta do quarto escancarada, e sorriu-lhe, babando-se, no preciso instante em que ela punha os livros na mesinha do telefone, ao corredor, de frente para o quarto. A mãe também a viu, quando num esgar de cio orgástico abriu os olhos, mordendo uma franja da colcha, as mamas a balancear, mas largou uma gargalhada desinibida, desenvergonhada e sem escrúpulos, de sátira confissão, perante a confusa timidez do seu rebento – já bastante florido pela certa. Ao entrar no seu quarto, depois de ter ido à casa de banho, fechou por dentro a porta à chave. Contudo, demorou a adormecer, e quando enfim o conseguiu, sonhou que a mãe a agarrava por detrás, imobilizando-lhe os braços, ao mesmo tempo lhe afastava as pernas e o padrasto a violava. Depois o padrasto metamorfoseou-se e assumiu as feições do patrão, enquanto a chefe de secção tomava o lugar da mãe que, finalmente, se transformava na professora de História, concomitantemente ao patrão sucedia a imagem de D. Afonso Henriques, que sucessivamente se multiplicou numa série de Afonsos e de Sanchos, Dinises e Pedros, até ao Prior do Crato, ao presidente da república e presidente europeu, que foi quando acordou.
«Foi uma orgia! Foi o que foi!...» Exclamou para si mesma, sorrindo, sacudindo simultaneamente uma unha com as costas do midinho e anelar da mão direita, ao mesmo tempo que com a esquerda o polegar do pé. Nunca ligara muito a sonhos e mantinha a certeza de que continuava virgem e casta, impoluta no dizer do povo, inocente perante o que acerca de si própria pensava.
«Até quando?...», pensou. – Sim. Até quando?... – E sentiu uma onda de calor a percorrer-lhe o dorso, que a levou a felinamente recostar-se, distendendo-se suspirando, para trás. «Até quando?...»
Tocaram à campainha. Uma vez. Duas. Três vezes: não era o carteiro.
Ergueu-se. Foi à janela, levantou a esquina do estore, e, enviesada, espreitou o exterior, sem se preocupar em esconder o corpo nu. Eram duas mulheres, dos inta pròs enta, com sacos de couro a tiracolo. Provavelmente Testemunhas de Jeová. Elas desviaram-se da porta, posicionando-se mais defronte para a janela, e viram-na; então, desorbitaram os esbugalhantes olhos, sacudiram as cabeças pesarosas e partiram à desfilada. Agripina notou como elas repararam na sua nudez, mas em vez de se esconder para dentro, ainda ergueu mais o estore, e ficou a vê-las descerem a rampa de acesso, cochichando uma para a outra e virando-se para trás a cada dez passos dados. Com a mão livre aflorou a púbis, subtilmente, até se sentir humedecer e o clitóris fremir expectante, dando ao pormenor a periclitante urgência do todo.
«O que é que aquelas cabecinhas pensarão do bocado da carne?» Perguntou-se, exalando estridente gargalhada, em simultâneo com o desviar-se da janela, para voltar ao sofá e cortar as unhas do outro pé, a fim de findar a missão iniciada.
Ao sábado não trabalhava, nem tinha aulas. Tendo toda a manhã por sua conta, assim como o resto do dia e fim-de-semana, melhor dizendo. O padrasto, mai-la mãe, tinham partido para Estrasburgo, a passar oito dias que ganharam num concurso de anedotas, conjuntamente a outro casal, mas cujo prémio desfrutariam em Bruxelas, num programa televisivo do canal oficial nacional.
«Nunca se sabe!... Nunca se sabe!...» E suspirou.
Acabada a tarefa, pôs os dois pés no sofá, massajando-os com a mão dos seus lados, até que os sentiu lassos e descontraídos. Ligou a televisão, sem escolher qualquer canal e virou-se de lado. Passou a perna direita por cima do encosto, deixando-a bamba e descaída do outro lado, e estendeu a esquerda para fora, apoiando o calcanhar na alcatifa, ou no que dela restava, e deitou-se para trás, ao comprido, o braço direito ao longo do encosto, a cabeça no apoio de braços e o esquerdo pendente a coçar uma comichão imaginária no tecido do chão.
Quando acordou, mantinha a posição, e, na TV, estavam a transmitir o Jornal de Domingo, rodopiando reflexos e sombras para o tecto. Era tarde avançada, e o fim-de-semana escoava-se na penumbra a emergir, terminava com o crepúsculo a adensar-se, a crescer para o escuro na repetição garantida de mais uma semana cinzenta que se avizinhava, também ela com a esperança a rodopiar intermitente no cimo convexo de uma abóbada virtual.

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