La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.07.2017

A QUESTÃO ESCRIBALISTA EM QU'ESTÃO (sentados os escribas)

  


apontamentos pelo desapontamento… - 1

A QUESTÃO ESCRIBALISTA EM QU’ESTÃO (SENTADOS OS ESCRIBAS)

Realçou Roland Barthes que aquele que pratica a escrita transitiva devia ser denominado écrivant, enquanto aqueloutro que praticasse a escrita intransitiva perderia o t, e seria simplesmente écrivan, num preciosismo crítico a raiar o grau zero da insignificância – já que a letrinha final mal se pronuncia –, e uma vez que toda a escrita, como, aliás, toda a fala, é transitiva, se considerarmos que vai do signo pró significado, ou do emissor pró recetor, à velocidade de um “dejà-vu”, que é o único recorde imbatível desde que o tempo é tempo, o espaço é espaço e um percorre o outro no vice-versa que altera a ordem das parcelas para chegar sempre ao mesmo destino: comunicar com o aval das estéticas socialmente previsíveis, logo, observáveis e reconhecidas, que são o apanágio de qualquer escriba, independentemente do idioma, língua, dialeto ou glossário em que se mova e exerça o seu mister. Pelo que, caso nos interroguemos acerca de quem é esse que atravessou eras e impérios montado num quatro por quatro (4X4) pitagórico, posto que para esse filósofo (Pitágoras) o 4 era o número perfeito e mítico da alma humana, sabendo-se agora porquê (1+2+3+4=10, pois que é tão-só o 2 em binário digital), desde a Mesopotâmia até às Portas de Ródão, usando como único combustível o alfabeto que tinha mais à mão, o escriba, se acaso é écrivant ou écrivan, a resposta está de caretas com um T de todo o tamanho, qual cruz templária onde se crucificam os condenados ao santo ofício da escrita, sobretudo se considerarmos as diferentes fases e estados de ânimo que vulgarmente lhe são inerentes e, quiçá, adversos, que ele é sem dúvida um escrevente, ou ente que escreve (e que, no dizer dos mais puríssimos e arreigados ao linguajar lagóia, é padecente da escrita), o que, pese embora o francês tenha sido o berço de muitos existencialismos, falhou este, porquanto se o termo é intraduzível do alentejano para português, com muito maiores e bastas razões o será para outra qualquer língua indo-europeia com ramificações francófonas, germânicas, saxónicas, eslavas ou mesmo românicas, não obstante que com grande proximidade ao celtibero que lhe ofertou o seio para medrar e singrar praticável por todo o mundo, mas principalmente em Casal Parado, que é a querida terra que me adotou, quando eu ainda nem fraldas usava, a fim de me darem a primeira banhoca no caldo cultural da sustentabilidade global que é a água, pura e transparente, incluindo a morna (das alterações climáticas), para não ferir (esfriar/queimar) a couraça incurtida da nascença.   

Portanto, esclareça-se em abono da irreverência que é o ato da escrita hoje em dia, seja ele executado em sebentas como em tabletes sem cacau, tenham sido compradas em suaves prestações mensais ou oferecidas como brinde de adesão a qualquer ação do mercado mais contundente, um escriba faça o que fizer, pense como pensar, esteja onde estiver – estendendo-se este onde a todo e qualquer suporte – é, para mal dos seus escassos bocados, sempre e imperativamente, um ser transitivo à imagem da maior parte dos verbos que conjuga pelas narrativas por que envereda. 

Salvo quando vai de atravesso e cujo estro lhe cai na cova funda da desgraça maior de todas as desgraças, que é de onde nunca se sai (pelo menos vivo!), a não ser que a campa faça falta para outro mais recentemente defunto, mas já com os ossos limpinhos, chupados até do tutano por qualquer minhoca menos vegetariana, logo menos propícia a voltar ao corpo humano (exemplo deveras edificante da teoria da reencarnação) pela via dos hambúrgueres suculentos a que as alfaces, cebolas, tomates e batatinhas fritas emprestam, além de cor, alguma gracinha da dieta mediterrânica. O que, com as devidas aleluias e hossanas, é também uma sementinha de esperança a germinar pela bem-aventurança da espécie gregária que nos sustenta, que sustentamos, e a que devemos não apenas a origem como igualmente o propósito e derradeira intenção, ou razão de ser – sendo. Desde que já se tenha sido… O quê? Tanto faz, que não há falta que não dê em fartura, principalmente no verbo ser, se julgado e transido, pela estrada fora da existência que, comece ela onde comece, há de voltar sempre ao ponto de partida. Nem mais! 

Joaquim Maria Castanho       

11.05.2017

JAIME CRESPO, TEXTURAS DIVERSAS




TEXTURAS DIVERSAS 
Jaime Crespo
Coleção Palavras Soltas
CHIADO EDITORA

"Na serena sabedoria dos avós se encerra a chave do futuro" – página 126

Escorrendo generosidade e e alentejaníssimo sentir, chegou-me recentemente às mãos um livro (Coleção Palavras Soltas, da CHIADO EDITORA, Lisboa, 142 páginas), que, não obstante a frugalidade no tamanho é de recheada compleição semântica, com autoria do meu amigo JAIME CRESPO, intitulado TEXTURAS DIVERSAS. 

Conjunto de palimpsestos em trânsito, uns na direção conveniente, ainda que em contramão, outros no sentido imprevisto, mas na faixa da oportunidade, além dessoutros que trazem colados a si – nas entrelinhas da intertextualidade –, embora que já expeditos, emancipados e desmelindrados, as parras (folhas) impressas das quais rejuvenesceram, porquanto se podem discernir como pinceladas impressionistas de recordação sobre a lona esmaecida da grande tela do tempo; alguns vêm do passado (mais ou menos remoto) fitando o futuro, apenas fazendo escala na atualidade para ganhar balanço, e outros, partem do presente enviesando prò passado, recapitulando-o aqui e ali, quais atalhos de cogitação congeminadora de observatórios naturais, cujo traço intimista, subjetivo, cimentado nas matizes que só a memória reconhece como plausíveis, emprestam ao estilo conciso mas abrangente, a tenacidade de um esquecimento adiado, interrompido, alicerçado no querer que se ancorou na coisa literária diversa e multifacetada dos retalhos avulso unidos por uma visão do mundo – a do autor –, quais iguarias no rescaldo da matança da rês (e da rés) para petiscar acompanhadas com um tintol de estalo, safra caraterística de Portalegre, terra de lagóias, extraído do fruto vindimado nas "abençoadas margens de Baco". 

Quando nos conhecemos, a cidade era não mais que uma charneca pejada de tascas, cafés, pequenos comércios, bancos e esplanadas, arrecadando em algumas montras os livros que iríamos ler, com ruas e largos a espreguiçarem-se ao vaivém das mais lindas cachopas que foi dado à criação conceber, rica em retouças e mistérios. E, quanto aos mistérios…  Bem, esses faço fé de que eram já os mesmos que hoje encerra, pese embora fechados a sete chaves. 

À chave do conhecimento usámo-la com humildade, empenho e honestidade; à da magia, rodámo-la com copioso e encantado arrebatamento; à da amizade, usufruímo-la com partilha, temperança e desportivismo; à da estética empunhámo-la com irreverência crítica, cagança e ousadia; a da moral abrimo-la prà diversidade, tolerância, respeito e dignidade; a da civilidade manobrámo-la com compromisso político, cidadania, arregougos acráticos e pruridos revolucionários; mas a da liberdade gastámo-la de tanto uso com música, fantasia, boémia e poesia. Quanto à sensatez, por já estar fora da pauta, reservámo-la para usufruir na velhice – o que, está óbvio, ainda se avizinha distante, pelo que se alguém está à espera dela para nos chamar a atenção por qualquer desmando, faça-o em fila de espera, mas leve para o efeito uma cadeirinha de bunho, a fim de o fazer sentado/a, caso contrário sujeita-se a contrair moléstia de agravo consentânea com a demora –, e, à do destino, devolvemo-la à procedência, isto é, à natureza, ao oculto e ao acaso, que são quem o tutela e de onde nunca devia ter saído.   

Coleção encadernada, escorreita e de leitura fácil de fragmentos literários que subentendem ser pertença de enredos maiores, dão à tona nestas páginas para nos possibilitar uma viagem circunspeta pela portugalidade perene e viável, essa mesma que a língua portuguesa anteriormente encetara, indo do Minho à China, passando também pelo Japão, Índia e Timor, no porão de uma paráfrase de insofismável laicismo. É uma obra desenxovalhada e que merece a atenção de todos e todas que andem nestas lides de querer saber quem afinal somos exatamente, além dos razoáveis porquês por termos ido ainda além da Taprobana. 

Joaquim Maria Castanho

11.03.2017

WOW! SINAL DE VIDA, de JRS




FINALMENTE LIDO… WOW!

SINAL DE VIDA
José Rodrigues dos Santos
Gradiva

"Tudo está sujeito a evolução, incluindo a própria teoria da evolução" – página 650. 

Se considerado sob um grau de parentesco muito próximo com A Chave de Salomão e A Fórmula de Deus, Sinal de Vida vem lembrar-nos de que "quando as nossas suposições são contrariadas pela realidade, quem tem razão é sempre a realidade", ainda que isso se nos revele no âmbito da ficção, da literatura, da irrealidade, da fantasia. 

Com a Europa arrumada entre os interesses geoestratégicos pautados por reminiscências da pouco saudosa guerra fria ( de USA, Rússia, Vaticano e China, principalmente), como entre o binómio (especulativo inerente ao desenvolvimento) cooperação versus competitividade, a abordagem da temática – contatar viajantes extraterrestres no espaço – exige uma aproximação fundamentada (preliminar) multidisciplinar, heurística e eclética, pelo que a presença de um português nessa empresa, o célebre prof. Noronha, protagonista de tantos outros enredos, parece não só óbvia como imprescindível, uma vez que é descendente daqueloutros que foram os primeiros a rasgar as fronteiras continentais do planeta, por via marítima, claro está, estabelecendo relações consequentes, sadias, produtivas, comerciais, positivas e afetivas do velho com o novo mundo, e que o épico luso definiu por dar "novos mundos ao mundo". A astrofísica, astronomia, astrologia, física, química, matemática, história, antropologia, biologia, geografia, política, filosofia, cibernética, informática, semiótica e comunicação, são apenas algumas das matérias com que deveriam estar apetrechados para contatar essoutros viajantes intergalácticos, não obstante o tempo disponível para o paleio não possa exceder o quarto de hora rudimentar e típico de qualquer consulta com o médico de família, considerando que tudo acerca deles se desconhece, podendo eles ser tão diferentes quão iguais a nós, tão dissemelhantes quão parecidos, quer nas técnicas, cultura, hábitos e valores, interesses e propósitos como na aparência, ainda inequivocamente mais avançados, já que são eles quem nos faz uma tangente no espaço-quando, e não nós a eles. A vida existe no universo mas não se limita a revelar-se conforme a conhecemos terrenamente, posto que sendo diversa aqui, o mais certo é que também o deva ser para além do sistema solar. Portanto, importa estarmos preparados para o contato, primeiro, e contatar depois… Estaremos? Isto é, estará essa equipa intercontinental e multidisciplinar capacitada para o conseguir com sucesso? Os humanos através dos meios de comunicação social disponíveis não perdem uma pitada dessa epopeia e anseiam para que sim. 
E o autor (JRS) reiterou-o em 656 páginas, CVIII capítulos, um epílogo e uma nota final, num romance à volta da nossa base de sustentação, o compromisso entre um homem, uma mulher e O divino, seja Ele quem for e quem o represente, em que se acredite, enunciando a hipótese que assiste à Ficção Científica de que tudo é possível num universo aberto e infinito, exemplificando-o numa situação  a que apenas o historiador português resistiu, demonstrando que o tempo não apaga tudo não obstante o futuro nos seja devolvido pelas ações cometidas num presente que, por sinal, passou em vão, de acordo com os dados, cultura, conhecimento científico e tábua de probabilidades que a atualidade nos propicie, tornando essa constatação inevitável. Neste caso isso é feito com a precisão narrativa adjacente ao seguir dum fio condutor que liga as fatias de um imenso painel através de elipses vocabulares, transições essas que permitem entender o todo sem tropeçar nos separadores de quadros/cenas, ou ligações, estabelecendo assim uma estrutura circular de sequências da qual Pi é espelho numérico, numa estrutura de significação global, propondo como a arte (literatura) também pode ser feita pela soma encadeada das partes, que em si mesmas não passam quase de um depósito de informações, geridas com o objetivo de culminar numa situação de crise (suspense) que nos deixa pendurados do imperativo cósmico que superintende ao "universo que cria a matéria que cria a vida que cria a consciência que cria o universo", irrevogavelmente, pelo menos até nova ordem – ou seja, até que ela, a vida, que quer ser eterna e tudo fará, a tudo recorrerá, para o conseguir, incluindo tomando novas formas, sobretudo essas que por extraterrestres estão ainda fora do nosso entendimento.

O que, se por mais não fosse, já seria suficiente para justificar a sua leitura, que se faz com agrado e sem descambarmos em tergiversões solipsistas.

Joaquim Maria Castanho

10.28.2017

SINAL DE VIDA, de JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS




UMA CONVERSA UNIVERSAL 

SINAL DE VIDA
José Rodrigues dos Santos
Gradiva

"Pela minha noiva, recusarei o que for preciso recusar." - Página 114

Um sinal é um indício. Um indício de (água, de vida, por exemplo). Viver é comunicar. E comunicar é emitir sinais. Mas o que é que isso significa? Que só reconhecemos a vida quando ela é suficiente para emitir o sinal passível de ser descodificável. Que possa ser compreensível para nós, entre nós, entre os demais, e entre nós e os demais. Num romance, se for de ficção emancipada, ou seja, cuja narrativa se alinha e subscreve nos pressupostos cientificamente fundamentados, é possível estender o conceito de comunicação ao de viagem, uma vez que a primeira pode ser um convite à compreensão, e a segunda, é o entendimento do conteúdo (enunciados) propriamente dito, através do qual nos abstraímos de nós mesmos para integrar (ou participar) outra dimensão, outro registo, onde a trama/enredo se verificam. 

Portanto, acerca deste romance podemos afirmar que se a literatura gera conhecimento à ciência o deve, assim como se o conhecimento ganha valor é arte que lho concede, uma vez que depois de traduzido e demonstrado matematicamente, importa reconhecê-lo (útil) no plano ético e humanista, o que seria de todo em todo pouco evidente se a literatura não lhe advogasse a serventia, e lhe emprestasse a validade intrínseca e social com que possa percorrer as veredas da subjetividade humana, sentimental, afetiva, em que se baseia o principal laço que nos une, a família, a língua materna, que consequentemente produzirá a semente do grupo, do clã, da sociedade a que pertencemos, pela sua multiplicação, expansão e partilha, na procura duma universalidade que a justifique. 

Porém, nem todas as viagens (demonstrações) são de ida, porquanto outras há que são (também) de volta. E esta aventura relatada, este romance de ficção científica, como é classificado na generalidade, é-o sem dúvida. É o regresso do significado ao seu signo, do sentido ao seu sinal, do entendimento à sua espécie, do afeto ao seu berço, do compromisso ao seu cumprimento – à inteligência, seja ela cibernética, biológica ou espiritual –, no respeito e pela dignidade entre dois seres, balizados entre dois limites inconfundíveis, o do verosímil e o do plausível, nessa linha equidistante a eles em que desenrola e evolui a ficção científica. Porque ela é o demonstrável. Ela não inventa, mas exemplifica, servindo-nos uma perspetiva viável, observável desse conhecimento, tese ou teoria, sem a qual ela nos seria muito dificilmente entendível. Não só nos conta o que podia ter sucedido, mas também nos elucida de como aconteceu para que o víssemos ao ponto de "nisso" acreditar, pondo-nos a par dos antecedentes que teve como no que veio a resultar. 

Explica-nos porque não estamos sós no universo. Dá notícia de que pode haver e "há filhos de Deus noutros planetas", como doutras galáxias, e que eles entraram em contato connosco, tornando possível manter e pôr em dia essa conversa que a vida é, ao revelar-se continuamente, não em termos unicamente competitivos, mas também cooperativos. Porque embora Darwin tenha dado "o primeiro passo para a compreensão do maquinismo que conduz à evolução das espécies", depois dele foram feitas muitas outras descobertas que completaram e, até, corrigiram a tese original, como a "cooperação. A evolução e a sobrevivência", como se afirma na página 96, "assentam muito na cooperação, uma realidade que tendemos a esquecer, mas que os estudos vão sucessivamente confirmando. Vemos isso não só nos seres humanos e nos mamíferos, mas também nas aves, nos répteis, nos insetos, nos peixes, nas plantas… até nas células e nos genomas! Há cooperação em tudo o que é biologia. Os seres vivos sobrevivem e evoluem graças à cooperação que são capazes de gerar a múltiplos níveis." Incluindo entre diversas formas de expressão inteligível, nomeadamente entre o discurso científico e o discurso literário. 

Foi assim que eu o vi. Que eu o li, e continuo a lê-lo… Experimentem também, e logo me dirão quão longe (ou perto) andarei da verdade… 

Joaquim Maria Castanho

10.17.2017

OS BUDDENBROOK, de Thomas Mann




 "Deus salvara-o. Outra vez, ainda criança, durante os preparativos para um casamento, assistira ao fabrico de cerveja (era costume fazer-se em casa). Para o efeito fora colocado um enorme barril em frente da porta. Ora, sucedeu que esse barril tombou, apanhando a criança. O estrépito e a violência da queda foram tais que a vizinhança acorreu e foram necessários seis homens para voltar a erguer o barril. A cabeça do menino ficou esmagada debaixo da cuba e o sangue corria abundantemente por todo o corpo. Puseram-no numa padiola e, como ainda lhe restasse um sopro de vida, levaram-no ao médico e a um cirurgião. Ao pai consolaram-no, porém, dizendo-lhe que se devia conformar com os desígnios divinos, pois que era impossível que o filho se salvasse… Pois atentai então: Deus Todo-Poderoso abençoou os recursos médicos e restabeleceu-lhe a saúde por completo! Ao recordar-se desse terrível acidente, o cônsul voltou a pegar na pena e escreveu a seguir ao derradeiro «Ámen»: «Meu Deus, a Ti louvarei para todo o sempre!»"

In THOMAS MANN, OS BUDDENBROOK, página 64
Tradução de Gilda Lopes Encarnação
Coleção Essencial - Leya/Livros RTP

9.27.2017

Os cadernos de uma mulher na guerra..



"Fico espantada por ele falar comigo tão abertamente. Da mesma forma direta, pergunta-me se sou realmente saudável. «Compreenda-me... quero dizer, compreende-me.» (Mistura ainda o tu com o você.) Digo-lhe a verdade, que nunca sofrera de qualquer doença desse tipo. No entanto, saliento, ignoro se não terei sido contagiada por algum dos russos que me violaram. O major abana a cabeça e suspira: «Ah, esses hooligans!» (Hooligan, pronunciado khuligan, palavra estrangeira muito utilizada pelos russos para designar patifes, vagabundos, rufias.)
in UMA MULHER EM BERLIM, pág. 125, Edições ASA/LEYA
Tradução de Hans Helmker e Fernanda Helmeker

6.16.2017

REGANHAR A PASSADA




(RE)GANHAR A PASSADA 

Plo óculo do infinito
Na descoberta incolor
Sonhos travam, e o atrito
Se refaz próprio propor 
E propósitos propõem
As singelas alegrias
Que pouco a pouco compõem 
Pegadas pra pegar os dias… 

Então, o verbo floresce
Pelas pétalas completo
No beijo que não esquece 
Carinhos d'avó e neto.

Joaquim Maria Castanho 

6.02.2017

Guerra Junqueiro, dizendo de si e de OS SIMPLES




“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessavam um mundo de misérias e injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas labaredas de oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana. E, depois de uma existência de sacrifício e pureza, de abnegação e bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram. 
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.” 

14 de Maio de 1892

Guerra Junqueiro  - Excerto da NOTA à edição de OS SIMPLES

4.21.2017

OS RAIOS DIGITAIS DE ARINA




RAIOS DIGITAIS 


São os ires e voltares de Arina na areia em raios X quem ilumina
E há no tempo altares de abrires a íris ante os milagres que vires
Relógios biológicos dos noves redondos às novidades da gravidez
Porque a dança dos números na cadeia da existência exige tua tez
Neles há elos que entrelaçam a urgência alfanumérica na sensatez
Se despem dos caprichos sulcando nichos de fluorescência e canto
Verdes ramos de silene nas frinchas do manto em retalhos multicor
Esculpidos nas escarpas do ser ainda investido da perfeição divina
Falésias fustigadas pelas marés do amor que a si mesmo se ensina
Quanto só se ama amando na vereda feita por quem muito caminha
Autoestradas a uma outra Roma sem César nem o incendiário Nero
Novo calendário onde os setembros são noves e o nove apenas zero
Recinto aberto dos deuses que duros não fogem e muros esfarelam
Quando as humanidades às vezes fiéis a seus poderes divinos apelam
Mulheres e homens tão-só sem os absolutos corcéis da exigida voz
Idades médias da refrega em laços redutos de refúgio e pura entrega
Socalcos na arena onde perante o temor o último reduto somos nós
A sós feitos nós da rede as mãos damos nas Íris conforme vamos
Assim a noite ensombre o dia e a sombra do mar na terra maresia
Que todo o ph está apenas no fósforo em Pi rico desta filosophi@
Dita nas Ágoras invisíveis e fóruns de ouro dos sentimentos vivos
Como seguro SOS da liberdade nos W que vítreos vencem os e-crãs
Transparentes almas à solta e triplo salto do sonho em solfejo digital
De esgar em esgar repartido sem instante nem o requerer consumido
Das exigências típicas ao profanar da liberdade e dessas liberdades
Pequenas de cada qual que tornam grande e valorosa a que é essencial
E única e múltipla e fecunda e transparente como o meu olhar em ti 
Às vezes insistente, às vezes inquieto, mas sempre forma de chamar-te
Pra mais perto, pra requerer-te como quem quer teu ser de mulher.

Joaquim Maria castanho

FILHO ÉS, PAI SERÁS; PAI FOSTE, FILHOS TERÁS




[FILHO ÉS, PAI SERÁS; PAI FOSTE, FILHOS TERÁS.]


“De acordo com João dos Santos, e muito anteriormente, Alfred Brauner, in Les Enfants des Confins, as crianças que foram vítimas de maus tratos são hoje pais que maltratam (igualmente) os seus filhos. Os que os não têm, ou sentem pudor em fazê-lo, descarregam a sua agressividade sobre os que lhes são mais fracos e/ou mais pobres. Forma-se assim, na sociedade, um círculo de irracionalidade, perversão e violência, camuflada ou latente, explícita ou operativa, a que é cada dia mais difícil pôr cobro. A não ser que as autoridades, a lei, os sistemas de saúde e educativo, reajam em conformidade, e imponham definitivamente o cumprimento dos Direitos do Homem e da Criança, criem maquinismos de resolução para a imaturidade e estabeleçam programas educativos que “reprogramem” os homens do futuro com a empatia e propriocepção necessárias ao viver em sociedade. Lamentavelmente até hoje, muito pouco tem sido feito nesse sentido. A educação tem estado centrada no ensinar a ensinar e/ou aprender, como no ensinar a fazer. É imprescindível que se progrida no sentido de estabelecer modus operandi educativos, não só que valorizem o indivíduo por aquilo que ele é, mas inclusive que o qualifiquem para o reconhecimento dos outros. A liberdade, sem estas estratégias de manutenção, pode transformar-se num pomo civilizador seco e estéril. O que sem dúvida negará a História da Humanidade, que desde os imemoriais e fantásticos tempos bíblicos, como dos da evolução biológica, assentou nela. A relatou. A consolidou. E a inspirou. 
A lei, a arte, são igualmente duas formas de organizar, de administrar, de executar, de gerir essa liberdade. O amor é a sua mais bela versão prática. Só os seres livres são capazes de nutrir semelhante sentimento uns pelos outros. Quando lutamos pela nossa liberdade, fazemo-lo principalmente para potencializar a nossa capacidade de amar. Quando faço um romance, um poema, um conto, uma crónica, tento apetrechar-me de mais uma prova irrefutável de como os outros são importantes para mim. De como eles integram a minha liberdade, lhe dão uma finalidade e me regozijam com a sua existência. Ao reconhecer que te amo, ao entregar-me de cabeça a esse amor, ao reforçá-lo com o pensamento e razão, estou não só a valorizar-te como pessoa, como também a reinventar-te dentro de mim, a acarinhar-te como se fosses o órgão mais importante do meu ser, ou o único que tem poder não somente para pôr os demais órgãos a funcionar, mas inclusive aquele que lhes atribui um sentido, uma direcção, um objectivo para o fazerem, para se cumprirem enquanto órgãos (vitais e essenciais). E bem, de forma saudável, se possível!”

In JOAQUIM CASTANHO
A Virtude Assassina, página 44

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