La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

12.18.2008

Carreiras Sem Transportes


Estatuto da Carreira Docente
Decisão Negociada ou Discutida?
Maria da Conceição Castro Ramos
256 Páginas

Na evolução da sociedade, que após a Revolução Industrial já fez diversas (trocas) mudanças de camisa, tal como da sociedade de produção se transformou em sociedade de consumo, de sociedade de consumo em sociedade de comunicação, de comunicação em informação, e agora, depois da passagem ao novo milénio e ao século XXI, estamos à beira doutra vernissage, uma vez que se avizinha (sob croquis) a sociedade da cidadania, que irá estabelecer uma nova ordem de valores, além de um novo – e desejável – posicionamento social dos agentes educativos e socializadores. E, claro está, com eles, os “principais” protagonistas da comunidade educativa, o corpo docente.
Sob esta perspectiva, importa repensar e sem eufemismos corporativistas o Estatuto da Carreira Docente, não só com base nas teorias que formatam hoje os modelos decisionais em Administração Pública, mas também ao nível das participações e do mapeamento dos parceiros sociais, das parcerias público-privadas possíveis, assim como na inter-relação daí resultante (como necessária), embora que acompanhada das típicas polémicas cimentadas pela defesa dos interesses particulares e corporativos que lhe subjazem.
Maria da Conceição Ramos Castro, cujo currículo (professora do ensino secundário, formada em filologia Germânica, Mestre em Ciências da Educação e Desenvolvimento, que também foi directora Regional da Administração Escolar dos Açores, subdirectora Geral do Ministério da Educação, directora Geral da Administração Escolar, directora do Departamento de Gestão de Recursos Educativos, membro do Conselho Nacional de Educação e presidente da Comissão Negociadora do Ministério da Educação para a regulamentação do Estatuto da Carreira Docente) é um aval de conhecimento de causa – e provavelmente de efeito! –, nesta obra de formato 16,5 x 23,5 cm, impressão a quatro cores e encadernação em capa dura plasticizada, o estudo da investigação já realizada, permitindo compreender o percurso processual de renegociação, assim como os paradigmas decisionais concernentes utilizados, que facultem o estabelecimento e dobragem de patamares de consenso, assaz controverso numa matéria tão pertinaz, porquanto se encontra eivado do espírito instrumentalista do bucolismo político-partidário que vê na Educação e na Escola Pública uma óptima oportunidade para minar estrategicamente o futuro da sociedade com a sua teoria de vida, precisamente aquela que deve ser ultrapassada e subscreve os valores e interesses financeiros que lhe facultaram, no passado recente, a ascensão social e consequente arregimentação no establishment (obsoleto).
E nos acicata a levantar a tão badalada pergunta de Raymond Carver, a propósito de outros imbróglios: afinal, de que falamos quando falamos de educação? E da Estatuto da Carreira Docente? Ou de ensino público? Que "escola" é essa que vai ser aliviado do amianto por decreto, mas não das barreiras arquitectónicas na acessibilidade como internas? Será uma escola pública ou tão-só virada para um determinado tipo de público? Vai lá vai, até o PRODEP abana!

12.15.2008

Duplo Crime na Rádio e Caçada ao Sr. X, de Rex Stout

Duplo Crime na Rádio e Caçada ao Sr. X
Rex Stout
Trad. L. de Almeida Campos
424 Páginas – Volume duplo

1.
No decurso de uma emissão radiofónica, patrocinada por uma marca de refrigerantes, um dos presentes morre envenenado enquanto se cumpre a "ritual" bebericação da dita. Quem foi que o assassinou e com que motivos? Para todos, inclusive para a polícia, o problema é insolúvel. Acredita-se que nem a vítima saberia, ao certo, quem a matou. Só que Nero Wolfe, o paquiderme das orquídeas, o sedentário e obeso detective, precisa de pagar os impostos e o dinheiro advindo da resolução do caso faz-lhe imenso jeito.
Secundado nas tarefas de exigência física, e movimento, pelo seu braço direito (e esquerdo) Archie Goodwin, porém apoiados ambos nos energéticos bastidores, na retaguarda ou trincheira da cozinha, por Fritz, um nome que lembra as batatinhas estaladiças, intenta bater a polícia na corrida à desmascaração do homicida, embora esta já disponha de considerável avanço de tempo (e dados) nas infrutíferas investigações, com a qual entra num jogo de bluff e esconde-esconde para tomar-lhe a dianteira.
Só que nos casos de Rex Stout um crime é sempre pouco, ou mesmo nada, qual espécie de vender gato por lebre que defrauda a clientela; tem invariavelmente que haver um antes, um durante ou imediatamente após, e outro depois. Ora, também neste a ementa se repete, para finalmente nos apresentar a sobremesa da desvendação, com requintes de última ceia, toda ela retirada à magnitude das palavras, quer pelo saber ouvi-las, como pelo saber dizê-las, que são saberes inseparáveis para quem a verdade e o conhecimento são duas preocupações, enfim, faces da mesma moeda.

2.
Nesta "caçada" há a considerar quatro [surpresas] particularíssimas novidades: a) Nero Wolfe sai de casa; b) em consequência de a) um homem é assassinado; c) o homicida confessa por escrito, mas ninguém acredita; e d) não morre mais ninguém por isso, ou seja, é um policial de vítima única, logo desinteressante do ponto de vista rexstoutiniano.
Se mais não houvesse, seria já quanto bastava para prolongar a curiosa agonia do leitor. Porém, Rex Stout vai ainda mais longe: não disputa a refrega com a polícia, ou sequer colabora com ela – antes toma as rédeas do caso, remetendo-a para a sua insignificância, como que a provar que Nero é também wolf, pelo que quando quer, sabe muito bem desenrascar-se sozinho, e pode resolver qualquer caso e o mais bicudo dos problemas sem recorrer ao auxílio (embora que indirecto) do erário público, do intrincado córtex titubeante da burocracia em nome da lei.
Porque não há moeda sem duas faces. Mas é necessário dá-las, mostrá-las, para se tornarem reais, pois nenhuma face pode ser oculta, muito menos nos problemas policiais, ou detectivescos, porquanto sendo-o, elas deixarão de pertencer ao foro da ficção e da literatura, para passar a fazer parte do "departamento literário do absurdo e do paranormal", a que costuma recorrer o mau terror, logo do doentio surrealista da fabulação psicótica, em cujos delírios alguns são atreitos a confundi-los com expressão artística. Porque há surrealismo não patológico, embora um como outro se sirvam igualmente da mesma análise e do mesmo psiquismo de referência.

3.
A Pechincha


E assim, prolongando apenas alguns elementos da sequência semântica (ou significativa) da história anterior (Duplo Crime na Rádio), estabelece-se neste volume redundantemente duplo, uma unidade razoavelmente explícita, confirmando-nos que não terá sido em vão nem gratuita a decisão da editora, juntando estas duas novelas num só livro, pois desnecessário é afirmar que se completam muito bem. Aliviando um o que é excessivo e exagerado no outro, e vice-versa. Equilibram-se sobre o mesmo fiel raciocínio, o toque-de-Rex se dirá, quando nos referimos ao universo imagético stoutiniano. Aliás, Rex Stout, conforme o que dele se diz em qualquer enciclopédia é, e eu transcrevo aqui o que a Moderna Enciclopédia Universal / Lexicoteca / Circulo de Leitores apregoa, que ele, escritor norte-americano (Noblesville, Indiana 01.12.1866 – Danburg, Connecticut 27.10.1975), "se notabilizou no género policial, com romances protagonizados pelo detective Nero Wolffe, caracterizado por resolver os casos que lhe apresentavam sem se afastar do seu apartamento de Nova Iorque." O que não só corrobora o afirmado como denuncia a singular pechincha desta edição. Exactamente!

12.11.2008

Vinte Mais Dois, de Frank Gruber


Vinte Mais Dois
Frank Gruber
Trad. Catarina Rocha Lima
192 Páginas

Eis mais um típico caso de investigação – leia-se, p.f., narrativa – em Y. E fartam-se de acontecer coisas singulares que agitam a história e nos obrigam a estar-lhe atentos. Mas a superiormente extraordinária reside no intricado da trama, penteado e pontuado ao género travesti – que se transforma noutro género que não aquele em que se anunciam as personagens e primeiras cenas) de policial virado em cor-de-rosa choque, no qual o detective não serve de modelo para nada, nem pela moral, nem pelo físico (que está todo roto por causa da guerra e da má vida que levou nela), e muito menos manifesta na personalidade outras qualidades que não sejam a tenacidade, perseverança, insistência e a teimosia que raia a burrice, além de uma estranhíssima vontade de se atirar aos riscos levando por única bagagem a sorte – se calhar era descendente de portugueses! –, precisamente aquela que assiste popularmente ao
ditado que dita que à criança e ao borracho, mete Deus as mãos por baixo.
No finalzinho que antecede o final romântico, cujo funciona como um anticlímax do policialeco, a justiça cumpre-se pelo modo já bastante usado e característico de Frank Gruber, nas inúmeras obras que fizeram dele um polivalente do cordel (policial, western, espionagem, aventura, guerra, foram apenas os géneros que mais cultivou): os maus são mesmo maus e nunca se esquecem disso, tão maus, tão maus mas tão maus, que até se matam uns aos outros, logo fazendo bem por mal, proporcionando assim aos bons que venham a beneficiar superlativamente com isso, tanto nas fortunas que consequentemente deles herdam, como na felicidade que detonam pelo simples facto de terem deixado de existir. Aliás, um exemplo a seguir pelas hostes do milieu e do establishment político e financeiro actual, pois evitariam sobremaneira mais despesas e desperdícios orçamentais ao "sacrificado e martirizado povo" que os elegeu ou pagou os estudos, pelo que teríamos a certeza que havia sido feita justiça pelo menos uma vez, que são somente duas coisas em vinte, que igualmente não têm abundado neste quadradinho de mar à beira-Europa plantado.

Comédia Eufrósina

Comédia Eufrósina
Jorge Ferreira de Vasconcelos
Teatro – 160 Páginas

Há uma ideia feita – aqui desfeita –, nos bastidores da cultura – talvez inculta... –, de que a poesia é para se declamar, o teatro para representar e os romances para ler (e publicar), assaz disseminada pelas confrarias da intelectualidade conventual e pacóvia do branco é, galinha o põe! Ora, além de feita, a ideia é estupidificante. E para provar que nem só de sentimentos serôdios e retornados vive o universo literário e livresco português, veio a Colibri a terreiro e colocou em cena, nos escaparates, uma colecção de teatro, cujo número foi, nem mais, que uma adaptação de Silvina Pereira e Rosário Laureano Santos, aliás anteriormente representada pela companhia de teatro MAIZUM, ali ao Bairro Alto, no Convento dos Inglesinhos, pela recôndita Lisboa de 1995, com estreia em 27 de Março. E do posto fica que, quem viu, viu; quem não viu... pode ler!
Nesta peça, que denota inegáveis influências literárias renascentistas e medievais, a acção é tipicamente portuguesa e revela-nos aspectos da vida quotidiana e modos de pensar do século XVI, tão materialista quão beato, quer nos seus vários estratos sociais, hábitos e costumes, como nas atitudes e perfis psicológicos dos personagens; e tanto, ou de tal forma, que a própria, dita de Eufrósina, a que se interpreta alegria, nascida na antiga Coimbra, então coroa destes reinos (Portugal e Algarves), à sombra dos verdes censeirais do Mondego se entrega ao curso da vermelha lava dos desejos sem brida nem temor, numa obra com exemplar grafismo em capa mole, de fácil manuseamento, apensada dos respectivos prefácio, introdução, ficha cénica, elenco, fotos (re)tiradas às cenas, manifesto artístico do Maizum e currículos das adaptadoras. O que a complementa seriamente, embora tenhamos que reconhecer, quanto ainda carece igualmente de um glossário onde se enunciasse a par e passo o destrinçar do enleio pelo discurso, facilitando a lógica compreensão de algumas construções e termos já fora de uso, e, portanto, incomuns ao pouco letrado leitor.

Porque, afinal, em matéria de arte, de cultura, de civilização, de modernidade, de publicações, de espectáculos, o que está sempre em causa são os conteúdos, muito para além dos suportes, das formas e das audiências como de resto bastantes desconfiam (ou outros tantos sabem). «Filmes! Filmes! Os melhores, se assemelham aos grandes livros», disse Manoel de Oliveira, no centenário do seu nascimento, reiterando um poema escrito noutras idades. Dele, é claro, que deveras nelas se terá sobejamente indefinido e, consigo, a arte e a vida, se alguma diferença entre ambas encontrou. Que eu, (ainda) não!

12.10.2008

Sem Piedade!, de Miriam Ali

Sem Piedade!
A Luta de uma Mulher Conta a Moderna Escravatura
Miriam Ali (com Jana Wain)
Trad. Mário Dias Correia
280 Páginas

Dentro da Literatura de Impacto Social (LIS, pròs mais chegados e atentos), e na mesma linha de Vendidas!, de Zana Wain, Meu Amo e Senhor, de Themin Durrain, ou Sultana, A Vida duma Princesa Árabe, de Jean P. Sesson, Sem Piedade! é simultaneamente uma crónica de costumes, uma reportagem, um diário, uma biografia, uma obra literária, um testemunho e um documento comprovativo de como a Idade Média conseguiu romper os limites do tempo e avançar incólume até ao presente da humanidade – indissimuladamente, e sem qualquer receio das instâncias judiciais (planetárias) ou da moral e poder do establishment.
Em resultado da sempre (desejável) crescente democratização do mundo, a estética da LIS é a suprema expressão artística da denúncia, cujo desenvolvimento e evolução está na razão inversa aos postulados e axiomas da Declaração Universal dos Direitos do Homem e da Carta Para a Igualdade de Género, uma vez que é não cumprimento delas e deles que a tornam mais rica, profícua e rentável. Digamos que o cimento evolutivo e progresso desta literatura não é um bem em si mesmo, nem um motivo de regozijo e nobelíssima premiação internacional, mas antes um lamento, pois deve a sua principal ascendência e motivação às evidências na infracção às regras que consagram as liberdades e direitos fundamentais numa determinada civilização. Não tem beleza nenhuma, mas sobra-lhe verdade. Não acarreta arrebatamento, mas verte indignação. Não possui floreados estilísticos, mas abunda em factos. Não anseia à disseminação de uma filosofia de vida, mas testemunha a luta de seres humanos pela dignidade. Os seus heróis não são personagens caprichosamente elaboradas, mas sim seres vivos, autênticos, reais, que protagonizam não a felicidade e epopeia, mas antes a sua dor e carência de afectos, a sua revolta e estoicismo (sobre-humano, as mais da vezes). Não tece loas à inteligência dos delfins da cultura, mas desmascara a sua indiferença e laxismo intelectual. Enfim, não é o traçado da harmonia celestial e terrena, mas tão-só o mapa das almas resistentes.
Nele se narra a trágica aventura de Miriam Ali, a quem o marido vendera as filhas adolescentes, para casarem no Iémen, usando o dinheiro dessa transacção numa infinda e extravagante degradação, assim como abusando do seu estatuto de chefe de família para torturar os seus. Recuperar as filhas assume então, para essa mulher de baixíssima estatura, uma hercúlea missão, extraordinariamente burocratizada e recheada de impossíveis, que por vezes a fazem impotente, mas nunca uma desistente. Conseguir reunir a sua família, sob o tecto da liberdade e esclarecido afecto, é a sua única, embora suprema, ambição.
Fala-se deverasmente, hoje em dia, de terrorismos, de terrorismo ideológico como económico, de terrorismo político como de terrorismo religioso, mas o terrorismo sexual, de género, familiar, cala-se ou ilude-se conforme melhor interesse a quem o pratica, ou sociedade que o assimile – ou tolera, que no fundo é a mesmíssima coisa... –, sobretudo naquelas instâncias do poder para quem a opressão fundamental não é reconhecida nem sequer como problema, pois esse não-reconhecimento equivale à tentativa (aliás, legítima, uma vez que dá emprego a uma enorme panóplia de quadros técnicos, serviços públicos juríco-sociais e seus auxiliares) de o eternizar e perenizar, para dele continuar a alimentar-se enquanto puder, principalmente tapando o de dentro com o escândalo do de lá de fora; todavia, na actual conjuntura mundial, o lá de fora é sempre aqui, conforme estipula a essencial globalização, e reconhecer que distante de nós se está bastante pior em termos de Direitos Humanos é o maior e significativo dos passos possíveis para avolumar o problema onde se omite a sua existência. Não é pelo facto de ele não ser meritório de ser notícia internacional que ele não existe ou se não resolve; mas sim que é por tal que se agrava e, noticiosamente falando, se transforma um tabu num elefante branco, que havemos ter que alimentar e bajular até ao esquecimento, esquecendo inclusive quantas e quantos disso foram desafortunadas vítimas. Ou entraram na roleta do azar por quanto lhes aconteceu. Enfim, não tiveram sorte nenhuma com a família que lhes coube por nascimento, baptizado ou matrimónio, que foi o que foi, como dirão os caritativos e piedosos acomodados e acomodadas do sistema, esses mesmos que nunca venderiam os seus filhos e filhas, antes os investem, tal como não estabelecem relações pessoais e sociais, mas investem num relacionamento, e até valorizam os seus rebentos, mandando-os cursar academias e formaturas superiores, porque é mais "sustentável" e nunca se sabe o dia de amanhã. Porque não são muçulmanos nenhuns, mas sim cristão de boa cepa e cálice perfumado pelas pergaminhos da História na genealogia da colonização, como bons europeus na gema da civilização do "filho és, pai serás". E quem diz pai, diz mãe igualmente, só para terminar sob o modelo da pescadinha com o apêndice fecal na boca!

12.09.2008

As Férias de Poirot, por Agatha Christie



As Férias de Poirot
Agatha Christie
Trad. Fernanda Pinto Rodrigues
216 Páginas

Uma coisa é desejar a morte de alguém e outra, muito diferente, é matá-la, com o dito e feito em efectivos da situação.
Todavia, no caso deste desejo coincidir com a circunstância, assaz misteriosa, de um estrangulamento eficaz, então quem teve a intenção mas não cometeu o acto, substitui-o pelo sentimento de culpa correspondente, e passa a acreditar cegamente na força da magia. As influências do mal, a fabulação delirante, a incerteza nos sentidos e a crise de identidade sobrevêm sorrateiramente a exigir o castigo para sua (pseudo ou imaginada) falta, favorecendo ao criminoso (real) a absolvição e fornecendo às autoridades um culpado. Se...
Isto é, se no enredo, na trama, não entrasse também a invulgar perspicácia de Hercule Poirot, esse personagem pequenino com sotaque belga e cabeça de ovo de Páscoa, de bigode caprichoso milimetricamente aparado. Porque então a tramóia vai para o brejo, afunda-se, o motivo se revela e as verdadeiras mãos de tão cruel acto se pronunciam pela experiência e engenho, de um mister adquirido, aguçado pela prática, e mostram a natureza do homem que o premeditou, repetindo-o uma terceira vez. Que é a última, pois dessa não escapa, que é de vez, dado que a mente pouco laxista de uma escritora policial, como Agatha Christie, não pode permitir-se tais veleidades, nem deixar à solta a malvadez, sem melindrar os brios, principalmente se dispõe de um recurso tão apto à investigação como o célebre detective das celulazinhas cinzentas.

12.02.2008

Três Receitas Celestiais

Papos de Anjos

9 gemas e ovo
2 claras
Açúcar q.b.


Batem-se com força as gemas até ficarem num creme grosso mas macio e fofo. Deitam-se-lhe em cima as claras batidas em castelo. Deita-se depois tudo numas forminhas bem untadas com manteiga e põem-se a cozer em forno bem quente. Numa calda de açúcar bem perfumada com calda de laranja molham-se na altura própria os papos de anjos. Convém em seguida pegar neles com muito jeitinho, para que não se deformem, depositá-los num prato fundo e cobri-los com o resto da calda.

Toucinho do Céu

500 gramas de açúcar
115 gramas de doce de chila
115 gramas de amêndoas raladas
20 gemas de ovo
1 colher de chá de canela

Deita-se o açúcar num tacho, a chila e um pouco de água, e leva-se ao lume até ficar em ponto baixo. Junta-se-lhe a amêndoa e volta a pôr-se tudo outra vez a ferver até fazer ponto. Interrompe-se um pouco para acrescentar as gemas fora do lume, mexe-se bem novamente e leva-se de novo ao lume, até tornar a fazer ponto. Tira-se então do lume e junta-se-lhe canela. Deixa-se arrefecer.
Forra-se entretanto uma forma redonda com papel branco polvilhado de farinha e enche-se com o doce; polvilha-se por cima com mais farinha, cobre-se com papel e leva-se ao forno a cozer.

Barrigas de Freira

250 gramas de açúcar
6 gemas
2 claras
125 gramas de miolo de pão migado

Põe-se o açúcar a fazer ponto fraco, juntam-se-lhe as migalhas de pão duro e mexe-se tudo muito bem com a colher de pau até o pão se desfazer totalmente. Depois deixa-se arrefecer. Adiciona-se-lhe as gemas de ovo e as claras batidas em castelo, em ponto alto e firme. Leva-se tudo novamente ao lume o tempo que as gemas precisarem para cozer. Vaza-se seguidamente o doce em tigelinhas pequenas e, ao meio, para fazer de umbigo, põe-se uma pitadinha de canela ou um miolinho de noz.

O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway

O Adeus às Armas
Ernest Hemingway
Tradução e prefácio de Adolfo Casais Monteiro
328 Páginas

Do laureado autor que foi igualmente aquele a quem a Literatura Universal deve o facto de ter deixado de ser apenas mais um coloquial artifício, argumento de ideologias e moralidades, para passar a ser uma conversa a dois, cuja mais-valia se edifica na cumplicidade e empatia através da fluência narrativa, que já no jeito de Carson McCullers, derivava mais do arrolamento factual do que da confidente interpretação subjectiva dos sentidos e dos sentimentos, emoções e valores, mas antes obrigando o leitor, por exemplo, a reconhecer o afecto ou sentido como resultado das condições e circunstâncias explanadas, descritas, enunciadas e vistas, sob a exibida visão do narrador como dos personagens, razão essa por que se disse que essencialmente o Prémio Nobel não lhe terá sido concedido em vão, conforme ainda é reafirmado em alguns sectores da crítica, este livro não carece de divulgação nem precisa de resenha para que alguém o leia, muito menos qualquer promoção condimental, e se dele venho agora falar, é tão-só porque sim, porque me apetece, ou por pagamento de dívida e gratidão pelo prazer que desfrutei quando o li, o que, certo e sabido, é uma razão tão válida como qualquer outra para não calar o que penso acerca do que gosto, do que prefiro ou mesmo do que repudio na arte em que me dito e dizendo-me me abrevio.
Polémicos ao seu tempo, talvez por precisão de marketing, os seus livros, numerosos romances, novelas, contos, de entre os quais podemos referir Na Outra Margem Entre as Árvores, As Neves do Kilimanjaro, O Velho e o Mar, Por Quem os Sinos Dobram, Ter ou Não Ter, Um Gato à Chuva, As Verdes Colinas de África, Capital do Mundo e Outras Histórias, etc., etc., são autênticos hinos ao amor e à paz entre os homens, em função dos quais o universo gravita, e narram a epopeia das naturezas simples e comuns, que se empenham em sobreviver para realizar a sua proeza maior, que normalmente se transformou em farol de suas almas pouco atreitas a espiritualismos profundos. Mas fá-lo em linguagem do dia a dia, de rua, de alcova, de tarimba, de caserna, de trincheira, de luta, enfim, de resistência como de milieu, onde é vulgar as falas cruzarem-se com os sonhos e aspirações mais subterrâneas desses ordinários mamíferos que somos nós, simultaneamente presas e caçadores, tornando o discurso literário num discurso acessível à grande maioria, além do reflexo daquilo que também ela vê em si mesma ou sobre si vai sabendo.
Quase seria legítimo afirmar que a principal "curiosidade" desta edição, reside no facto de ela ter sido a primeira tradução de um romance de Hemingway para português, uma vez que as anteriores foram tão-só vertidas em brasileiro, que acordos e desacordos ortográficos à parte não é de certeza a mesma língua, embora dela derivada e, ainda por cima, executada por um presencista de renome, também ele degredado por exigências regimentais das ditaduras portuguesas, incluindo a da ignorância, que inclusivamente lhe botou prefácio de substância, como foi Adolfo Casais Monteiro, que do Brasil se correspondeu com Régio em missivas exemplares onde alertou o vila-condense para os perigos da suburbanidade lusitana, aliás, ainda tão evidentes quão pacóvias nas capelinhas do provincianismo corporativista da nossa interioridade inquisitória, obsoleta e inquisitorial, característica dos redutos ditos livrescos e culturais.
E nela se conta a venturosa aventura entre um americano tenente do exército italiano (Frederic Henry) e uma enfermeira escocesa do hospital inglês (Catherine Barkley), durante o período final da Primeira Guerra Mundial. Depois de ferido, é ele internado no hospital em que ela trabalha, e dessa incerteza, dessa inconstância, dessa ressequida palha que o menor fogo incendeia, nasce um jogo de paixão entre a morte e a esperança, para a urgente confluência do vivido.
Porém, à semelhança dos condenados à pena capital a quem é concedido o último desejo, após a convalescença, e antes que Henry volte para a frente de batalha, são-lhe concedidas três semanas de licença. Decidem passar esses 21 dias juntos, todavia ela engravida e ele adoece com icterícia, despendendo duas das semanas no respectivo tratamento, e sendo-lhe retirada a que resta, sob a acusação de ter provocado a doença para não ter que voltar às trincheiras. E assim que regressa à frente de combate vê-se a braços com uma retirada caótica, em que perde recursos, homens e ambulâncias. É testemunha de fuzilamentos arbitrários pela Polícia do Exército, aos quais apenas escapa atirando-se ao rio. Após o que se reencontram, partindo ambos para a Suíça.
A guerra havia ficado para trás. Teriam os seus dez réis de felicidade, que é quanto cabe e cumpre a cada ser vivente que acredita na esperança. No entanto, outra batalha, igualmente trágica e derradeira, os esperava, para a qual nunca há a mínima hipótese de fuga – a da vida. Que pode ser igualmente fatal a quem por ela se realiza.
Do título, assaz sugestivo, além de denunciar a tentativa de exorcizar, expurgar, afastar, aliviar, despedir a humanidade das guerras e das armas, do flagelo do desamor entre povos como entre indivíduos, falhou redondamente, não só porque Ernest Hemingway se suicida com uma, como também as guerras continuaram a proliferar, que nem coelhos sem predador em mato rasteiro. Talvez O Adeus à Paz, fosse mais elucidativo das intenções e dos resultados. Pois, quer se queira, quer não, foi exactamente isso que aconteceu, com ponto culminante na II Guerra Mundial, onde o autor terá sido correspondente. As voltas que o mundo dá!

11.28.2008

Superstições Populares Portuguesas


Superstições Populares Portuguesas
Benedita Araújo
152 Páginas

"Aquelle que se põe da banda do fuso
Ou é tolo, ou não tem uso."


Como contribuição para o estudo do nosso inconsciente colectivo, este livro arrola e intenta interpretar a maneira como o povo português foi transformando as suas suspeitas infundadas e crenças em valores bioculturais herdados da ancestralidade, manifestada mais concretamente, quer no plano tradicional, quer ao nível religioso e das instituições, quer no biológico, sanitário e sexual, face a certas atitudes e práticas, rezas, pensamentos rituais, a que é comum atribuir forte carga mística e poder mágico, mas sob uma perspectiva etnográfica, ou dos costumes que se consideram relevantes enquanto vivências culturais presentes, testemunhos continuamente (re)actualizados do nascer e do morrer, do trabalhar e do folgar, do cuidar e do desfrutar, das diferentes formas de encarar a relação do homem com as entidades míticas superiores, de reagir perante as oscilações pendulares dos ritmos de vida, conforme elas foram válidas e apreendidas pela nossa sociedade no decorrer dos itens de evolução desta, nomeadamente da agrícola e de produção, da de consumo e da de comunicação, que antecederam a de conhecimento, na qual ele, o livro, é um indubitável aliviar da carga supersticiosa residual ainda existente nos meios menos atreitos ao cosmopolitismo e globalização. Onde, aliás, parece persistir nos nossos dias, embora em alguns casos apoiada pela tecnologia de ponta e divulgada através da comunicação social ou no marketing territorial com influência directa na receita turística das economias regionais e da interioridade.
Para tanto, parte do indivíduo enquanto unidade biopsico– que raio de palavrão! –sociocultural complexa, qualquer que seja a cultura que o integrou ou a época em que decorreu a sua vida, a sua inteligibilidade, o conhecimento do sujeito em situação, a sua (metafórica) maneira de ser árvore entre as demais árvores da mesma floresta, as nuanças de que se revestem, visto ninguém desconhecer como ainda hoje há milhares de pessoas que vão benzer o carro a Fátima, atletas que não entram em competição sem antes fazerem o sinal da cruz, beijarem o amuleto ou estudantes que entram com o pé direito na sala de exames, enfim, no seu aqui e agora convencional, independentemente da formação e habilitações que tenha. Passa pelas prescrições de âmbito familiar, aflora as preambulares motivações e calendário/agenda do corpo social, roça a rotineira magia do ritual quotidiano na protecção das benesses e afastamento de invejas ou maus olhados, bruxas e bruxedos – Tosca mosca / Mosca tosca, / Ferradura no teu pé / Mordaça na tua boca, / Não Venhas à minha casa / Nem a esta comarca toda –, enuncia alguns dos preceitos essenciais às medicinas ingénuas, das mesinhas caseiras e populares, como das naturais e alternativas, para cerzir um ponto final em algumas das nossas conjecturas sobre o sobrenatural, os deuses, a morte e as almas, que não escapam à sua típica Encomendação...

«As almas dos fiéis defuntos
Me mandaram aqui vir,
Que venham dar uma esmola
Para do fogo sair.
»

Ao traçar este mapa nacional do absurdo, ou de como o sem sentido de alguns sentires, pensares e agires perduram, a autora abre um leque de temáticas bastante extenso, no qual se reflectem as superstições portuguesas respeitantes aos nascimentos, baptismos, adolescência, namoro, iniciação sexual, casamento, virgindade feminina, prenhez, parto, aleitamento, cuidados maternais, vizinhança e consanguinidade, enigma do futuro, domínio das vontades, práticas agro-pecuárias e piscícolas, enfermidades, de perecimentos, funerais, santos e relíquias, culto dos mortos, dores, fiéis e infiéis, Deus e demónio, isto é, da existência e existires em seu todo ou de cabo a rabo, entre usos e preceitos de bem conseguir as realizações dos anseios, por mais secretos e retorcidos que sejam. Desde o cozer do pão (S. Vicente te acrescente, / S. Mamede te levede, / S. João te faça pão, / Pela Graça de Deus e da Virgem Maria / Padre Nosso Ave Maria) até aos aconchegos de apaixonados:

"Amo-te lôc’apáxonado
Ôtr’amor igual é raro;
Oh, me fujas, menina,
N’ã arrecuses est’emparo. "

E elucida-nos de forma singela e sem afectações de como atribuímos uma confiança e importância excessiva, ou quase religiosa, a determinadas coisas, palavras e lugares, que nada justifica terem, enfim os nossos modos de crendice, fortemente eivada e cultivada pelo espírito do “Melhoral”, uma vez que se não nos fizerem declaradamente bem, também nos não farão mal, com que se vão transmitindo e veiculando de geração em geração. De maneira bastante lúcida, objectiva e exemplar, num livro de que aprazivelmente salientaremos dois pontos: a) a ausência de apêndice bibliográfico, contrária ao costume nos opúsculos de natureza academizante, onde se estabeleceu ser “praxe” elaborar um infindável rol de artigos e obras (supostamente) consultadas mas que raramente foram folheadas, ou sequer abertas, além da página referida, comummente consideradas como elevada fonte de sapiência; e b) a frequência e oportunidade das notas de rodapé, que efectuam assim a entrosagem eficaz no enquadramento das “ilustrações de conteúdo” que facilitam a compreensão de quaisquer textos.
(Ilustrações: Fotos de pedro Alcobia da Cruz -Bosque dos Amores Perdidos e Estrelinha Saltitona)

11.26.2008

A Primeira Esposa, de Françoise Chandernagor



A Primeira Esposa
Françoise Chandernagor
Trad. Clarisse Tavares


Este livro é uma extensa carta de amor, escrita no feminino e eterno sofredor de coita, qual diário de bordo de um casamento desfeito, e enquanto deriva da navegação solitária num mar escabroso, pejado de infidelidades e traições múltiplas, cometidas por um D. Juan da actualidade, como indicativo daquilo que outrora terá sido regra dificilmente deixa de participar no presente, qualquer que ele seja e independentemente dos graus de civilidade que o circunscrevam. Sopro remanescente do amor submisso e feudal, a um senhor neofilista, bígamo constante, embora que nem sempre com as mesmas, narra a luta controversa de uma mulher que balança entre a sofrida presença do marido e a dor da sua ausência, entregando-se e forma convexa, convergindo alternadamente quer no amor, quer no ódio, no comodismo como na revolta, na solidão ou no mundanismo, no desespero como na esperança, mas a quem não faltou, contudo, a lucidez, objectividade, disponibilidade e imaginação para registar cada momento desses estádios de ânimo, erigindo assim uma bóia de salvação que a sustentasse à tona desse mar de escolhos, fortalecendo-a tanto interiormente como aos olhos do mundo, permitindo-lhe reconquistar a auto-estima e dignidade perdidas, provando com exemplaridade o que já desconfiávamos e se vê reflectido sobremaneira no ditado chinês que nos aconselha que “quando se cai ao chão devemos levantar-nos com o auxílio dele”.
De salientar todavia, no que diz respeito à esfera das intertextualidades, que não obstante esta seja uma obra marcada pela “essencialidade existencialista”, cujo pano de fundo é o cosmopolitismo francês e contemporâneo, se revela nela, com extraordinária frequência, o espírito e o discurso passional característico daqueles outros romances aristocráticos e militaristas, como o foram tipologicamente identificados pelas Cartas de Soror Mariana Alcoforado, a freira de Beja, que perdidamente se apaixonara por um oficial francês, lá nos da História que, veio a saber-se mais tarde – o que sempre é melhor do que nunca – afinal seria um homem, e militar ainda por cima, com patente oficial, guerreiros e valentes como soem ser, engalanado pelas divisas e dragões típicas dos lugares de tenência, pondo a nu pormenores cabais subscritos pelo coração que, alvíssaras lhe sejam dadas, não comunga das fatalidades do género.
(Françoise Chandernagor estudou no Instituto de Estudos Políticos de Paris, é graduada em Direito Público. Foi a primeira mulher a obter o título de "major", da Escola Nacional de Administração da França. Muitos de seus romances foram traduzidos para outros idiomas e dois deles foram adaptados para a televisão.)

11.24.2008

E vai mais uma!

Lamentavelmente os números apresentados na crónica Proibido Olhar, de quinta-feira passada, logo na madrugada de sexta-feira foram inequivocamente alterados pois, conforme noticiaram diversos diários, às 5:30 h em S. João da Talha (Loures), um homem de 28 anos, conduzindo o seu prendado Mercedes, parou a viatura junto à bomba para bater na namorada, Cátia Sofia, de 22 anos, arremessando-a de seguida para a faixa de rodagem em que, precisamente nessa altura, circulava a carrinha duma pastelaria, talvez de transporte de bolos, que a atropelou, provocando-lhe a morte imediata.
Mas não só: outros casos de maus tratos vieram a lume, de onde se depreende que num período de tempo relativamente curto tenham aumentado para quase 70, e isto não contando com aquelas que "comeram e calaram", porquanto são reféns da sua condição económica e dependem integralmente das gentilezas monetárias dos agressores.
Todavia, as autoridades portuguesas, a justiça portuguesa e a comunicação social vigente, continuam a contabilizar estatisticamente as ocorrências, a apoquentar-se com as acções e palavras da UMAR, a sociedade a socializar com os agressores premiando-os pelas suas boas acções, sentenciando sobre as vítimas que "se tal destino Deus lhe deu, é que por alguma coisa o mereceu" tal com disseram anteriormente acerca dos afectados por incapacidades motoras, na popularidade dos ditos que viraram provérbio como no famoso "se Deus o coxeou, é porque algum mal lhe encontrou", coisa de somenos se comentará, já que o que importa para os políticos nacionais é criar obra, pontuar para a pegada ecológica desta geração que se está absolutamente borrifando para as noções cidadania democrática, como para os direitos, liberdade e garantias (constitucionais por acrescento), desde que elas não digam respeito à sua vida, mas à de outrem, por quaisquer que esses outréns sejam, desde que não sejam eles e elas, que ganham bem, têm estatuto de primeira e papel de exemplares mentores da moralidade patriótica.
Ou seja, apetece perguntar com igual cinismo, que importância terá morrerem aquelas que já não eram ninguém para os seus concidadãos e autoridades? É a isto que Pessoa se referia quando afirmou que faltava cumprir-se Portugal? Bem'era a mim, que devia ser!
Por outro lado, as medidas de reforço ao criancismo político aprestam-se para tratar do problema como o faria qualquer ignorante encarregado de educação quando o seu rebento piora nas notas e sobe o número das faltas, aumentando-lhe a mesada, inventando campanhas que sublinhem a sazonalidade da questão, como se elas fossem eficazes na cultura do pepino, à semelhança do que vai sucedendo para o ambiente ou selecção do lixo, que já lá vão mais de um porradão de anos após a DEDS e a maioria da população ainda não sabe em que lugar do ecoponto há-de enfiar a carica, distribuindo uns dinheirinhos pelas sempiternas "paróquias" do faz-de-conta, para organizarem mais uns seminários com certificado de presença em que estarão unicamente aqueles e aquelas que raramente fazem alguma coisa e aproveitam a oportunidade para fazer ainda menos sem desconto no ordenado, para lançarem spots publicitários e televisivos com efeito directo nas carreiras dos filhos família que se formaram em design, audiovisuais e multimédia mas não conseguem emprego, ou para reforçar a verba nesta e aquela autarquia que se tem esquecido das suas responsabilidades em termos de cidadania e igualdade de género, mas não se incomoda nada em praticar a transferência de recursos para actividades que lhe venham a dar mais votos nas próximas eleições, promovendo actividades para inglês ver. Mas não só, adiante vem também o Governo e Conselho de Ministros que garante a prisão preventiva sem o flagrante delito, como se isso fosse o supra-sumo das medidas impeditivas de violência doméstica, e impedissem de morrer quem é vítima de homicídio, ou de levar porrada quem é agredido... Isto é, mais dinheiro e trancas na porta depois da casa assaltada, continuam a ser as medidas geniais para quem quer parecer mudar alguma coisa para não mudar absolutamente nada, tudo ficar na mesma, que esta coisa do governar só dá governo se puder sustentar a clientela do costume, e a gente política não sabe o dia de amanhã, que a necessidade calha a todos e uma mão lava a outra, mas com as duas se lava a cara. É a democracia e seus democratas!

Leslie Charteris, e O Santo

O Santo em Miami
Leslie Charteris
Trad. Fernanda Pinto Rodrigues


Nos romances de Leslie Charteris, que não são propriamente policiais, ou apenas policiais, mas antes imergem e mergulham no universo da aventura/espionagem/acção, os cenários são invariavelmente idílicos, poéticos, de comédia musical e glamourosos, o discurso quase barroco pelos floreados, e o sentido de humor recambia-nos para a gargalhada solta do enquanto a página se vira ao dedinho molhado. Na série O Santo, estas características acentuam-se. E aqui, fá-lo deambular pela exótica Miami, com garotas bonitas e manhosas à perna, qual Robin dos Bosques em ida a banhos, aldrabando os aldrabões, saqueando os gatunos, metendo os maus na linha e cortando as voltas à polícia – "o nosso destino estaria errado se não travássemos discussão com a autoridade", como ele diz a páginas tantas –, fazendo justiça à sua maneira e sob uma lei que inventou exclusivamente para o seu (templário) jeito de operar.
Porque Simon Templar não é somente uma personagem pícara. É também um herói sobrevivente de A Odisseia, qual Ulisses que navega de ilha em ilha, de hotel em hotel, de cidade em cidade, gorando as misteriosas artimanhas da malandragem organizada, esse Cíclope de um só cifrão que está disseminado por toda a economia, como o da ganância e do poder, abarcando a "globalidade do globo" e seus arredores. É inclusive um sobrevivente da mitologia do Preto & Branco, dos áureos anos do maniqueísmo universal, das grandes ideologias e cortinas de ferro por dá cá aquela palha, mas também das teologias da libertação, das revoluções pela liberdade – uma coisa que devia ser retirada a todo aquele que não a usasse, por medo das consequências e ausência de consciência cívica –, ainda que não se esclareça que tipo de liberdade defende, nem o seu grau ético, comum ao desabrochar das democracias modernas, por sinal bastante mais burocratas do que democratas, em vassalagem aos desígnios corporativistas, como igualmente a Era da instituição dos direitos e valorização do Homem, dos grandes ideais onde todos os meios se justificavam perante a (hipotética) nobreza dos fins objectivados, mesmo quando desses fins se não viam quaisquer fins esclarecidos além das carreiras ou fortunas pessoais, ou essa visão fosse assistida por uma justiça cega por autismo, nunca por imparcialidade e isenção, mas para garantir-se titular e detentora do direito de ter dois pesos e duas medidas sempre à mão (de semear, como de colher).
E desta vez O Santo aposta-se em responder a um SOS tão intrigante que resvala numa curiosa aventura, onde o menos criminoso dos factos em que se envolve é o rapto. Assassínio, jogo clandestino e ilegal, álcool ilícito, contrabando, roubo, especulação financeira e tráfico, serão as demais ondas sobre que balouça o meteoro em que se desloca. No entanto, não fosse a ajuda símia e terrena e etílica do Mr. Hoppy Uniatz, um nome extraordinariamente feio, mas que mesmo assim não retratará fielmente a fealdade do seu possuidor, o caso teria sido ainda muito mais complicado... O que, no fundo, vem confirmar (corroborar) aquilo que já inúmeros de nós suspeitávamos: Que neste reino onde nem toda a beleza brilha, há bastante fealdade que, se bem vista, até parece maravilha!
Não é, Penélopes?

Cuerpo de Mujer..., poema de Pablo Neruda


Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
Te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvage te socava
Y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fuí solo como un túnel. De mi huían los pájaros,
Y en mi la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como una arma,
Como una flecha em mi arco, como una piedra em mi honda.

Pablo Neruda

11.20.2008

Unidos Pela Guerra

Unidos Pela Guerra
Peter Cave
Trad. Pedro Lopes d'Azevedo e Clarisse Tavares
304 Páginas


A narrativa transcreve aquele período de eclosão da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente desde o Outono de 1939 até ao Verão de 1940, em que o dia a dia estava fortemente carregado pelas influências das propagandas e ideologias, e relata o quotidiano de duas famílias inglesas durante esse tempo, socialmente opostas e diferentes, uma burguesa e a outra plebeia, que se vêem obrigadas a conviver, incontingências da sobrevivência, e assim convergindo, não obstante todas as suas divergências no modus vivendi como de valores e filosofia de vida, ao se verem unidas pelo "santo laço do matrimónio" entre dois dos seus descendentes, numa altura de crise e falência das condutas e clivagens tradicionais britânicas, certamente de risco e incerteza pelo amanhã, em que a mínima relação interpessoal dos géneros pode ser o rastilho incendiário para uma afectividade passional.
Nesta reconstituição de época, é de salientar o mapa de sentimentos e esboço relacional de duas famílias conservadoras, resistentes, orgulhosamente conscientes das suas dessemelhanças, todavia capazes de as superarem e acatarem uma abertura estratégica de sobrevivência, mas não definitiva, como também o croquis sociológico, onde se nos pinta e apresenta uma sociedade rigidamente demarcada e estruturada, em que a aproximação e inter-relacionamento dos indivíduos das suas díspares classes só é possível porque imposta pelas circunstâncias conjunturais, na então imperiosidade do amor como da guerra. E, neste caso, terão sido os dois. O que é deveras gratificante e nos leva a pensar em como a arte, para ser útil à comunidade e espiritualmente enriquecedora da pessoa humana, logo humanitária, não precisa de grandes enredos e complicadas tramas, de personagens com atitudes e jogos transcendentais, nem dos preciosismos barrocos tão queridos e clericais quão afidalgados, mas muito bem pode optar pela simplicidade, singeleza e despretensiosismo intelectual, além da concreta subscrição factual no verosímil, em vez do rigor fundamental cinzentão e sorumbático, unicamente apoiada pelo discurso jornalístico, escarnado, preciso mas flexível, objectivo mas polissémico, que assiste às grandes reportagens, numa evidente economia de termos, como é apanágio de Peter Cave e a que, suponho, os tradutores souberam manter a traça original não obstante as peculiaridades das línguas inglesa e portuguesa.
Ao contrário de Expiação, de Ian McEwan, mas igualmente adstrito aos estilos de Jane Asten e irmãs Brontë, em que os protagonistas são separados pelas guerras, a das famílias, a das classes sociais e a outra, a das nações, o retoque de esperança que alivia a ansiedade sentimental nasce (ou sustenta-se e mantém-se) precisamente das dificuldades comuns perante um inimigo exterior, porquanto é invariavelmente esse o leitmotiv que assiste, sublinha ou justifica, além de ser permitido ou tolerado, o princípio de mudança na atitude social das famílias mais conservadoras, tradicionais, ortodoxas, cujos pergaminhos genealógicos remetem até à fundação das nações, sobretudo se essa nação é a pátria de um povo frio, calculista, racial, tão rígido quanto provinciano, adverso a miscegenações ou misturas, quer elas sejam de índole cultural, como de natureza apenas genética.
Aliás, deveras elucidativo de como à civilização britânica não escapou, espelhando-a, pois teve honras cinematográficas e televisivas, nomeadamente numa série homónima e com a chancela da BBC – salvo erro!

Poibido Olhar



Algumas pessoas são contra mim. E depois, qual é a estranheza?... A maior parte delas, até contra elas próprias são!
É característico do step social no deslavado sobe-e-desce das formas, formaturas e formatações arrivistas, para que aquilo que se olhe se não veja, aquilo que se escuta se não ouça, aquilo que se fala se não diga, aquilo que se sonha se não pense e aquilo que se quer seja silenciado, que se esconda no que há de pior das nomenclaturas, sobretudo os oxímoros que encerram, as leis que ultrajam e a transparência que aniquilam, que se entendermos certos termos e denominações por aquilo que são e significam, que invariavelmente nos sentiremos o mais miserável dos desgraçados povos existentes à face da terra, principalmente se começarmos pelo sentido exacto de algumas das suas instituições fundamentais como o são, ou o é, por exemplo, o de Justiça Portuguesa, clamorosamente contraditória uma vez que de justa não tem quase nada, como o atestam os 700 (mil ou milhões, perdoe-se-me a falta de memória e imprecisão do número, já que mesmo que fossem unicamente setenta ou sete, seriam igualmente excedentários, abusivos e inegavelmente pouco éticos além de menos profissionais; e que nunca espelharão o conjunto daqueles que tendo sido condenados mas sendo pobres não puderam recorrer das sentenças, nem foram aconselhados com rigor e exactidão pelos advogados que oficiosamente lhes couberam em sorte, que nunca os representaram, e atribuíram a regalia aos piores estagiários do seu harém legislativo) e abundantes € pagos pelo Estado a particulares como indemnização por erros judiciários, e de ainda muito menos portuguesa, visto que se tutela pela jurisprudência positivista (logo, de Hume e Comte, ou tão vienense como anglo-saxónica) e direito romanos, uma vez que o direito consuetudinário tem mais expressão e força de lei, do que as leis cujo mister e consequência deviam ser o de alterar condutas interpessoais e modificar a opinião dos grupos vigentes nos vectores sociais da Igualdade e da Cidadania.
Ou seja, por exemplo, Espanha e Portugal têm as mesmas leis, aliás derivadas da aplicação/adequação/adaptação nacional de directivas comunitárias, mas o seu uso, reconhecimento e aplicação é bestialmente díspar, porquanto nos podemos aperceber em relação à violência doméstica, que nos ditam como face aos números divulgados o país dos nuestros irmanos é uma real democracia ou democracia com rei, mas o nosso pauta a sua lusitanidade por um baronato marialva e republicano, onde as leis só têm consequência se não houver um costume, uma prática ou uma convenção social que as contradiga, normalmente transmitida por via dos ditados ou dos provérbios populares, que se podem resumir num só: entre marido e mulher, ninguém mete a colher.
Senão vejamos: no último ano, em Portugal, verificaram-se 43 homicídios de mulheres, vítimas de violência doméstica, e mais de sessenta apresentaram queixa por maus tratos, mas as autoridades oficiais, desde as autarquias ao governo e demais órgãos de soberania, passando pelas religiosíssimas ONG, nada fizeram para obstruir a que estes números se repitam no ano vindouro, números que são só números nem apenas dados, mas pessoas, carne e osso, sangue do nosso sangue, e muito menos mexeram uma palha para implementar A Carta da Igualdade de Género, não obstante esta ter sido subscrita e aprovada por todas as Câmaras Municipais por influência da ANM (Associação Nacional de Municípios), chegando nós ao cúmulo de a nossa comunicação social se servir dessas mortes apenas como notícia capaz de aumentar os seus escores de audiência ou tiragem, alimentar-se monetariamente do facto sem disseminar a desumanidade que representa. Ora, aqui em Espanha, não muito longe de nós, ou na Europa aqui ao lado, tão distante ao centro como a praia, verificaram-se 52 assassínios consequência das mesmas "razões", todavia o Estado promoveu acções de formação complementar para jornalistas, com carácter vinculativo e de progressão na carreira, afim de os apetrechar e instruir no sentido de sensibilizar a opinião pública e a população, para o flagelo da violência doméstica, promover o debate, esmiuçar as causas e meios, divulgar as leis e os recursos de evitação, nomeadamente o de consciencializar os espanhóis e espanholas quanto aos efeitos do pensamento sexista.
Para um país, a Espanha, com aproximadamente 40 milhões de habitantes e uma superfície de 504 782 km2, logo quase seis vezes maior que o nosso, e com mais 30 milhões de habitantes, o facto de terem ocorrido 52 mortes, traduziu-se num escândalo nacional que originou a tomada de medidas eficazes como reforçamento negativo, no entanto cá, onde ocorreram 43 para dez milhões de habitantes, na conversa como nas tertúlias literárias, atirar o tema para o ar, é pueril e indesejável, porque não se deve falar de coisas tristes nem de moléstias que nos atacam, havendo até quem ache que elas mereciam o que lhes aconteceu, e que a nossa pátria (de justos, rectos, pedantes e imaculados) se viu assim saneada de outras tantas "pestilências" que nos envergonhavam, desde Fátima a S. Bento.
Nós os bons, os vencedores de Aljubarrota, os dignos herdeiros da gesta lusitana, os defensores dos mais altos valores que se "alevantam", pioneiros na extinção da pena de morte e fim da escravatura, consideramo-nos tão sadios e íntegros, que nem notamos quanto esse número, que é mais que um número, é grande e horrendo, ou nos desonra, mas em vez disso, damos "beijinhos" políticos uns aos outros, fazemos a política do pão com queijo nas autarquias – um emprestimosinho para acabar as obras seguido de mais umas obrinhas para acabar o empréstimo,e assim por diante, até à eternidade – , votamos ao ostracismo, pomos de quarentena cultural que fala nessas barbaridades, além do que os proibimos até de olhar, de ouvir e falar, desde que não sejam as bestialidades de sempre sobre os sempre mesmos futebóis, mesmas bandeirinhas, mesmos trapos de vestir, mesmos santos, santinhos e romarias no catecismo do boca aberta ao «que-bonito!», mesmas arruaças corporativistas, mesmas invejas pelos êxitos de alguém, sobretudo se eles estiverem ligados à cultura e à literatura, que não sejam mais uma versão camuflada de propaganda, e demais avenças à burocracia do politicamente correcto do bem-feita para não andar a piar. Porque para estas pessoas é proibido olhar e ver, pensar e dizer, ouvir e não calar, mas nunca proibido fazer mal ou seviciar os mais fracos, porque elas são fortes, e ricas, e prósperas, e afamadas, e benquistas, e diplomadas, e têm direito a fazê-lo, na razão directa das suas vantagens competitivas que, afinal, são os únicos lucros que usufruem por serem tão afortunados e sexys. E justo. (Vai lá vai, vai... Até a barraca abana!)
(Fotos: Caminho Medieval e Pescoço Feminino, de Pedro Alcobia da Cruz)

11.19.2008

Remédio Fatal, de Catherine Aird



Remédio Fatal
Catherine Aird
Trad. Eduardo Saló
224 Páginas

A acção desenrola-se num ambiente sócio-profissional circunscrito aos cuidados de saúde bem como à investigação científica, e a narrativa gira à volta da problemática dos testes, ou experiências efectuadas pelo corpo clínico de novas "drogas" em pacientes seus, que assim funcionam como cobaias humanas. Extraordinariamente inquietante, a questão desperta um sem-número de reacções dentro do leque convencional, quer do foro ético e deontológico, como ao âmbito filosófico e científico. Então, uma doente supostamente inscrita nesse programa de pesquisa (Protocolo Cardigan) morre. É o princípio casual para uma longa e exaustiva expedição dos policiais (Sloan, Crosby e Leeys) à velada e maneirista atmosfera do crime. Sempre misteriosa, sempre obscura, sempre perigosa, sempre labiríntica, mas também sempre tão explicitamente ligada aos seus interesses e motivos, que basta desvendá-los para que o novelo se desenleie totalmente.
No enquadramento narrativo está subjacente a moldura do labirinto. Todavia, à medida que as autoridades se vão aproximando do núcleo nevrálgico da problemática, os cadáveres proliferam, numa proporção de resultado futebolístico, ensaiando uma espécie de desafio do macabro: Pacientes 3 – Médicos 2.
Assim, imbuída do espírito metodológico, Catherine Aird, aliás pseudónimo de Kim Hamilton McIntosh, faz igualmente a sua experiência colocando um observador privilegiado no camarote das operações, um artista plástico, qual Deus ex machina encavalitado acima dos demais por um andaime, em que pinta mural simbólico no átrio de um dos hospitais do cenário afecto ao enredo. Como árbitro é um fiasco; como filósofo, uma nulidade; como guia-detective iluminado, uma escória. Mas ajuda sobremaneira a decoração e, no final, auxilia os justos a atar as pontas soltas. Enfim, dá à autora a originalidade de ter criado uma personagem placebo, a condizer com a temática e indumentária dos homicidas, para elucidar o tipo de navegação possível entre os escombros, reminescentes do sério naufrágio registado pelo discurso, tão característico, onde os salvados podem bem não passar do acervo de elementos da terminologia médica, farmacêutica, laboratorial e sanitária, em risco de virarem linguagem comum. O que, se poderá indicar, como óptima leitura para quem não se importa de alargar os horizontes do seu vocabulário – pelo menos!

11.17.2008

Em Busca das Bandejas de Oiro, de Jacques Futrelle




Em Busca das Bandejas de Oiro
Jacques Futrelle
Trad. J. Lima da Costa
190 Páginas

Quem de vinte(,) cinco tira, quantos ficam?
Num baile de máscaras um indivíduo disfarçado de ladrão abafa, bifa, gama, as 11 (onze) bandejas de oiro ao anfitrião (e de fugida leva consigo a cowboy de serviço que o supusera seu namorado, e julgara reconhecer não obstante desconhecer o mascarado – porque isso das máscaras funciona mesmo em ficção, embora quase nunca suceda em realidade, onde o jogo de faz-de-conta). Então, um jornalista armado ao pingarelho aventura-se na peugada do engenhoso artífice amigo do alheio, sensivelmente dois passos à frente da polícia, aliás, orquestrada e dirigida pelo Génio Supremo. Todavia este jornalista, não passa de um peão de brega na faena do verdadeiro artista, a Máquina Pensante, cientista por método, diploma e profissão, e aí aquilo que eram somente dois passinhos vira quatro. O que era um ladrão desdobra-se noutro. E entramos graciosamente no jogo dos espelhos...
Porém, uma ressalva. O "cenário" labiríntico está pejado de fantasmagorias no metafórico, de aparências que são, escorado em alegorias que deveras alegam, de palavras que se revelam desdobráveis e se multiplicam para além dos seus simples e usuais significados, encruzilhada de sentidos, armadilhando o jogo e desafiando o leitor a sublinhar de entre as evidências a mais lógica e evidente. No fim, é esta formalidade dedutiva que prevalece, mas órfã e abandonada pelas "obviosidades óbvias", indo ao desconhecido buscar um criminoso antigo que nunca entrara na história. Se nos surpreende?... Convenhamos que sim, contudo pela surrealidade naïf, porquanto nos tira da cartola um coelho quando nem sequer sabíamos da existência dessa cartola, ou tanto quanto nos surpreenderia uma rosa vermelha no puré da sopa. É bonita, fica-lhe bem, pode estar repleta de subentendidos, provoca um bom arranjo cromático, simplesmente não devia lá estar. Desembronca a fotografia, mas desvirtualiza o género, degenera-o, transformando em handicap aquilo que, tão-somente, poderia ser uma particularidade de estilo.
Quaisquer outros, igualmente deterministas, dirão: impossível. Mas Jacques Futrelle, ainda que hipoteticamente o possa ter pensado, não se resumiu a dizê-lo... (Credo quia absurdum) Fê-lo!

As Aranhas Douradas, de Rex Stout

As Aranhas Douradas
(The Golden Spiders)
Rex Stout
Trad. Manuel Cordeiro




Nas novelas de Rex Stout, das quais conhecemos pelo menos dez tradutores (Eduardo Saló, Catarina Rocha Lima, Mascarenhas Barreto, Maria Luísa Santos, Lucinda S.Silva, Maria Emília Ferros Moura, Manuel Cordeiro, etc., etc.) as variações sequenciais, no seguimento ou sucessão dos trechos, para delineamento dos quadros ou dísticos que, depois de encadeados, formam o painel da narrativa, as diferenças entre elas ou eles, são sempre subtilíssimas e deléveis, sem bruscas tiradas, esticões de conteúdo, nem rompantes e repentinos impulsos geniais, mas antes com a pertinaz harmonia de quem ensaia o decalque sobre o esboço, nele insiste por diversos prismas, para melhor vincar os contornos das figuras numa aguarela esbatida pelo tempo. E daí o sentimento de familiaridade, a entrosagem, o reconhecido entrosamento que o leitor experimenta sempre que pega num novo volume, sentindo-se como em casa, não só pela fluência e entretecimento do discurso narrativo, mas também pelo "efeito de estufa" ou debate doméstico no qual (subentendidamente) ecoa. A não ser que algo de invulgar surja no contexto, como sucede no caso deste caso onde nos deparamos com subalternos a tratar por tu o grande e recheado Nero Wolfe, o fauno da estufa das orquídeas, o dificilmente enganável, porquanto é dos raros que sabe que as «vandas» não dão flores em Maio.
Ora isto, este anúncio, é só por si um desafio, cujo resultado pode ser o mesmo (no tratamento formal e consequências) que o do slogan pessoano para a Coca-Cola, em que somente depois de entranhado o sabor se deixa de estranhar o gosto, admitindo variedade apenas se ela lhe acarretar nova tonalidade, mas tão leve e imprecisa, que nunca lhe altere ou adultere o paladar; e isso, se comparado, trará as dificuldades comuns entre o verosímil e a verdade, porque é do apuramento dela que se fala sempre, quando se fala em romance policial. E este exige excelência na denominação!


(Vandas – Orquídeas epífitas com caules de onde nascem frequentemente raízes carnudas e aéreas e folhas verde-claras, geralmente ensiformes, surgindo nas extremidades os pedúnculos que suportam várias flores aromáticas e douradas, sendo das quais algumas espécies cultivadas como ornamentais. Umas são anãs, outras elevadas e ramificadas e trepadoras, com folhas dísticas, flores em cachos axilares, labelo esporado e trilobado, com lóbulos laterais pequenos, polinídias e caudículo comum.)

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