La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

10.29.2008

Lançamento da Revista PLÁTANO

A quem interessar: Demorou a chegar mas veio com largos motivos de atracção, além do tempo ou estação do ano, que muito propícia é ao cair da folha. Porém, se de queda houver alguma, que seja somente depois de lida, que é quando o seu amarelecer se torna quase aurífero.

10.22.2008

Operação Caneta Dourada


"Quem tem roupa na mochila, não fala do que é refece"
Ditado popular português

Portalegre ficou fora do roteiro dos investimentos orçamentais (PIDAC/QREN) e a culpa disso é toda, mas toda e em superlativo grau, do actual executivo camarário, seus "cúmplices colaboradores" nas freguesias e comunicação social, porquanto em vez de agirem em benefício do desenvolvimento efectivo do concelho, têm cometido uma gestão falaciosa, centrada em satisfazer, directa ou indirectamente, mais os interesses pessoais e partidários, de cunho eleitoralista, do que em promover a sustentabilidade económica, ambiental, cultural e territorial, desde o primeiro dia deste mandato, sob a definida determinação cujo objectivo principal é vencer as próximas eleições, na tentativa de esgotar em pleno, numa espécie de jogo narcisista de realização individual, o número de mandatos atribuíveis por lei a um presidente de câmara municipal: três, o antropocêntrico 3 do receituário católico, apostólico, romano, onde o catecismo se pauta pelos primados da vitória a todo o custo, em que os fins são sempre supremos e justificam qualquer meio, em detrimento da lógica e da sensatez, da racionalidade dos meios, bem como do imperativo da sustentabilidade, rigor contabilístico, sentido democrático e transparência de gestão, que obriga a discernir entre o que se pode ou deve fazer, quais são as prioridades entre os recursos, cada vez mais escassos, esclarecidas no "quer sim, quer não, duas coisas são". E na repetição de mais do mesmo, quando o primeiro (mandato) não passou de jogo branco na popularice balofa, tipo passadeiras a desembocar para centros de rua e bancos públicos de exorbitados preços, entre o serrar presunto de um "polis" que prometia e uma execução que defraudou, nos prazos como nos embelezamentos, onde o slogan quanto mais feio e caro melhor se cumpriu exemplarmente; ou o segundo, que tentou acabar o começado no primeiro, vincando o traço e o desperdício como marca de qualidade, no que levou muitas pessoas a sentirem saudades do Jardim do Tarro antigo, da Rua 1º de Maio anterior, de alcatroado desempenho e fluência/largueza expedita no trânsito, do rapar frio no Crisfal para assistir ao jazz de excelência, em vez de caprichos cacofónicos bem instalados e quentinhos no CAEP. Todavia, como se isso não nos bastasse, ainda nos resta ter que ouvir os comentários dos voluntariosos progressistas do speed lento, que acham ser uns incompreendidos, sofridos e esforçados, a que ninguém dá valor pelo tanto que fizeram, tanto que investiram nesse relacionamento, à semelhança das vítimas do negócio do casamento, quando o divórcio é o único desfecho plausível. 'Tadinhos!...
Por outro lado, temos que reconhecer que a culpa pode não ser só deles, uma vez que o jornalismo praticável na região, é o jornalismo característico do de beneficiação do infractor, ou seja, aquele que usa o 5WH para beneficiar o agente em detrimento dos factos, actos, notícias e conteúdos, tornando o Quem no pomo central da redacção, como fim de camuflar a natureza do acontecimento e seus comos ou porquês, em que se espelham inconfundivelmente as consequências e resultados dele, dando dos eventos uma visão motivada na tentativa de influenciar a opinião pública acerca, num truque assaz falacioso que é do ilustrar a notícia com fotografias dos protagonistas, da mesa ou do palco, se a sala teve parca afluência, e da sala se teve alguma, escolhendo meticulosamente da zona o local onde os espectadores estão mais concentrados, satisfazendo assim as necessidades de propaganda dos agentes em notório prejuízo do direito democrático dos leitores à verdade, imparcial e objectiva, visto que quem paga os anúncios são os agentes e não o público, comprando com eles a qualidade de informação veiculada. Criando, dir-se-á, um patamar de entendimento e promiscuidade, apenas comparável ao que, no desporto, detonou a operação Apito Dourado, onde se veio a provar o poderio de alguns clubes sobre circunstâncias da arbitragem, pondo a nu este casamento entre imprensa regional e organismos autárquicos, demonstrando bem quanto em democracia a vida dos cidadãos, as condições ambientais e a qualidade cultural, são algo bem mais merecedor de levar a sério do que as maquinações maquiavélicas entre as empresas de dar chutos.
Isto é, há que discernir porque é que um jornal afirma que um presidente de junta de freguesia é amigo do ambiente quando promove provas de BTT, a que os concorrentes e seus familiares se deslocam numa viagem de 600 km, ida e volta, por exemplo, para pedalar durante 50 km, poluindo-os invariavelmente com garrafas, plásticos, latas e embrulhos vários, numa freguesia onde não há ciclovias que liguem a cidade aos bairros populosos, como os Assentos, e estes à Zona Industrial e Escolas Superiores, para facilitar a deslocação dos fregueses no seu quotidiano, poupando dinheiro e CO2, como fazendo exercício, sem correr o risco de ser abalroados por camiões e tunings despropositados. Há que esclarecer como é que se chegam a títulos tão (in)formativos, tão politicamente empenhados, como tão eficazes na adulteração da realidade, pondo definitivamente a propaganda no lugar da propaganda e o jornalismo sob a ética jornalística, mas desconfio que tal nunca acontecerá, pois isso exigiria uma Operação Caneta Dourada que espanejasse o jornalismo nas águas correntes da democracia, coisa impossível é claro, sobretudo se considerarmos que até a televisão nacional, a RTP1, no capítulo da opinião, pratica a beneficiação do infractor dando programas de autor a dois indentificáveis e inconfundíveis partidários(PSD, Marcelo Rebelo de Sousa; PS, António Vitorino), mas não dando igual oportunidade a outros autores, ou comentaristas, das restantes forças políticas nacionais. Como podia e devia. Ou será que também aqui o povo tem razão e em termos de justiça o ditado quem tem roupa na mochila, não fala do que é refece, e se apetrecha do vale mais prevenir que remediar quando se suspeita de algo que pode vir a virar o bico ao prego? Bem capaz... Mas, aliás, e a propósito: essa tentativa de privilegiar, através da propaganda encapotada ou publicidade personalista os autarcas, dizendo deles, em título de capa de suplemento, mais precisamente de um, que é "desportista e amigo do ambiente", não abona absolutamente nada em seu favor, antes pelo contrário, é que outro cabo houve que também o foi, Hitler de carreira política, todavia essa apaniguada amizade não o impediu de chacinar milhões de judeus, de destruir gratuitamente florestas e cidades, nem de saquear, dos museus das civilizações ocupadas, milhares de obras de arte, muitas das quais, jamais vieram a ser recuperadas. E quanto ao desportivismo, também ninguém esquece os Jogos Olímpicos de Berlim, que no nesse capítulo foram exemplares... Será esse o significado do título?

10.15.2008

Zun-Zuns


Xô, Melga!

Houve um tempo, reconhecidamente p.p., em que a Bíblia dos remediados era O Princípio de Peter, tendo por novos evangelhos O Receituário de Peter, onde se delineava o progresso da incompetência sob os auspícios da burocracia. Lançados apenas com a "intervalar" diferença de três anos – em 1969, o primeiro, e em 1972, o segundo –, destacam-se deles, actualmente, a influência que tiveram as suas 66 receitas e o seu Au Revoir ou Plano de Peter, na superintendência geral das nações reinantes da pós-globalização anunciada, que resumidamente são entendidas por G8, e que souberam bater a vénia ao progresso tecnológico desde a invenção da roda à sofisticada utilização do computador, provando que se desejarmos um mundo melhor ele não só é plausível como possível, uma vez que, tal como indicou R. Quillen, "se desejamos construir um mundo novo, temos o material à mão – o primeiro também foi feito do caos."
Ora, aproveitou, e muito atempadamente, Sua Excelência, o presidente da República, as celebrações do 5 de Outubro, para alertar os portugueses quanto àquilo que chamo o "Síndroma do Efeito Melga" (SEM) que está atacar os políticos e gestores nacionais, cuja identificação resulta precisamente da semelhança com esses insectos inoportunos e rabugentos, quando zumbindo nos atormentam o sono e atacam vampirescamente a fim de nos ferrarem para chupar o sangue, e depois de encherem a pança, ficam suficientemente pesados para retomar o voo, logo sujeitos a uma boa palmada que o esborrache ou um derrapanço, despiste por excesso de carga, que os leva a chocar contra as aguçadas esquinas da actividade escusa e nocturna da política, ética mercantilista e relacionamentos interpessoais.
Em termos populares, se dirá, que depois de encher o bandulho (às nossas custas) lhe fica pesada a pança para manobras, e vai daí que nós zás-pimba lhe ajeitemos o cachaço para entrar, sem bater com o toutiço, na viatura do quotidiano, que custa a todos, é certo, embora para alguns a insegurança nele seja mais insegura do que para outros, posto que se "o custo da vida sobe, e a probalidade de viver desce" (Flip Wilson), também as dificuldades nela aumentam conforme lhe diminuem as condições.
Por conseguinte, quando o nosso presidente, os incentivou ao rigor das contas e razoabilidade dos recursos, não só lhes puxa as orelhas, publicamente, como lhes lê a sentença que cada um, no seu íntimo, está disposto a aplicar-lhes: parem – incluindo os colarinhos brancos da justificação do impróprio e da incompetência com as estatísticas, sondagens, volume de negócios, colecções/recortes de argumentos e votações plenárias, actuações sindicais e dos movimentos corporativistas ou de Ordem – de sarrazinar quem lhes enche os bolsos, caso contrário, vamos todos ao fundo, e será a vós quem isso mais doerá, uma vez que maior queda terão, pois quem anda há tanto tempo cá por baixo já muito pouco pode descer. Que se do país virtual que criaram as consequências são autênticas e os males bem reais e dolorosos, nós não temos culpa absolutamente nenhuma, logo não entendemos por que havemos de ser nós precisamente quem mais sofre por isso, pagando o preço de uma crise cujo volume é exactamente igual ao somatório da vossa riqueza pessoal – obrigado Arquimedes, eu desconfiava que ainda havias de servir para alguma coisa! –, não só identificando assim quem e porquê a forjou, mas também quanto já lhes valeu, quantidade essa quanto os Estados Europeus estão dispostos a pagar para que volte a repetir-se. Porque se é certo não termos pão, sobra-nos sobremaneira a razão, e podemos estar a começar a ficar fartos das vossas ilegalidades, insustentabilidades, maluqueiras egoístas e manias das grandezas, que vos fazem andar a armar aos tordos, exibindo ostensivamente fortunas que não merecem, destruindo gradualmente o planeta, o país, a região, a localidade, hipotecando o futuro e desaprendendo o passado, em vez de andara gerir e governar os nossos recursos, a cada mais escassos quão essenciais, pois isso pode vir a dar muito mau resultado, porquanto uma das características do nosso povo é ser rústico mas nunca burro. Até pode carregar com a albarda da burocracia, desde que tal traga emprego aos seus filhos e filhas, que saíram da terra para estudar e ter uma vida melhor do que a eles mesmos coube em sorte, todavia se a trazem às costas, é por desconfiarem que podem regressar ao tempo em que transportavam as bestas em pelo, sob o efeito directos dos traques e sapiências de pança farta nas hierarquias várias. Mas é bom não esquecer, que até os mais velhos e entradotes começam a ser peritos no usufruto das novas tecnologias da informação e comunicação, que apenas é a sala/hall de entrada para a sociedade do conhecimento, coisa que torna as pessoas bastante mais activas, participativas, democráticas e capazes de sentir e partilhar aquilo que de melhor têm, na procura contínua de um saber ser, saber estar, saber aprender e saber ensinar, não só com vista a melhorarem o presente, como igualmente a salvaguardarem as condições de vida e de futuro de seus filhos, netos, bisnetos, trinetos, e por aí fora, até que a eternidade se canse de ser eterna, o que denotaria claro esquecimento da vida dos seus pressupostos, objectivos e estratégias, sucedância improvável de alguma vez vir a acontecer, ou acontecendo aqui desacontecerá acoli simultaneamente, pelo que será sol de pouca dura e nenhuma consequência.
Portanto, importa não esquecer, reiterando o afirmado por Aníbal Cavaco Silva, que a contenção nas despesas, a formação dos profissionais, a aplicação da ética de rigor contabilístico e orçamental, bem como o responsável e consciente esclarecimento das prioridades, são para praticar pela administração central, local, pública e privada, caso contrário se arriscarão a acabar por esborrachar os ovos de ouro, mas igualmente a matar a galinha que os põe. Sobretudo porque estando nós SEM empregos, SEM perspectivas de futuro, SEM segurança, SEM justiça, SEM educação, SEM segurança social, SEM habitação, SEM ambiente, SEM financiamento, SEM ética administrativa e SEM respeito e consideração da parte dos funcionários públicos centrais e locais, é bem possível que vos mandemos à fava e pregar no deserto quando vierem queixar-se de estar a ser vítima dos SEM que criaram, almejaram e aperfeiçoaram a expensas de nós todos, SEM excepção, como fazem exactamente agora com as circunstâncias de falta de liquidez dos bancos, que são produto da vossa SEM-vergonhice, como o seria qualquer tiro no pé dado por quem, ao apontar ao próximo se esqueceu de tirar as botas de cima da secretária onde exerce a sua gestão SEM escrúpulos e SEM regras, SEM regulação e SEM habilitações suficientes e necessárias para compreender que a cidadania é uma via com dois sentidos. Creio que se sentem defraudados por não poderem ganhar mais, SEM pôr em perigo aquilo que já amealharam. É pena. E notória a vossa desumanidade face àqueles, que pela vossa mão, até se não importam de ganhar menos, pois quem de noves tira nada fica, se quem precisa de provar o nada que tem, mais não lhe vale do que ter nada para ser quem é, sendo ninguém. Nem virtude por não ter, perante o vosso virtuoso lucro, ganho no produto virtual, com que engordou o vosso SEM.

10.13.2008

É Preciso Peneirar sem Peneiras


As Peneiras do Presente só Obstruem o Futuro

"A burocracia defende o status quo muito para
além do tempo em que
quo já perdeu o status."

L. Peter
Há quem pretenda tapar o sol com a peneira e considere isso legítimo, sobretudo porque satisfará os seus interesses pessoais à custa do desenvolvimento e sustentabilidade de uma região, porquanto são, no mínimo, obscuras e falaciosas as razões apontadas pelo executivo camarário para que edilidade contraia mais um empréstimo chorudo (17,2 milhões de euros) a fim de descaracterizar a cidade sob o pretexto inexorável da apetência empresarial, obrigando os próximos executivos a efectuar uma gestão limitada, de corda na garganta quanto à resolução de problemas originados pelo seu tempo, como em contínuas dificuldades para pagar a fornecedores de curto prazo e manutenção dos espaços públicos, uma vez que esses encargos já estão a ser descurados actualmente, sendo por demais conhecidos os cortes na iluminação da via pública e jardins, no Bairro dos Assentos, por exemplo, onde inúmeros candeeiros ficam "apagados" durante a noite, a Biblioteca Municipal só é apetrechada com lixo literário, normalmente proveniente de doações particulares, posto que se algum grupo de cidadãos pretender fomentar aí um Clube de Leitura terá que recorrer às obras (de língua portuguesa) emprestadas pela Biblioteca Pública de Cáceres, a actividade cultural se resume ao conveniente encaixe das "tournés" de promoção dos grupos e agentes criativos nacionais com a pseudo agência de espectáculos CAEP, os transportes públicos são uma miséria em termos de conforto, mobilidade para todos e alternativas de combustíveis, empenhando 127% das receitas orçamentais para um empréstimo que, supõe-se, deve andar à revelia do articulado da Lei das Finanças Locais, destituindo o concelho da capacidade de resposta às necessidades sociais futuras, às rupturas urbanísticas e desqualificações ambientais, com que certamente se irá deparar nos próximos mandatos, e isto, porque o actual executivo camarário sabe que não irá ser reeleito nas eleições imediatas, logo não irá arcar com as consequências desse empréstimo, num óbvio e determinativo rigor contabilístico e orçamental do aprés nous le déluge, que os anos 70 traduziram, sem maneirismos nem afectações, por o último a sair que puxe o autoclismo.
Além do mais, a falácia é agravada pelos projectos tipo CUF de fazer na Quinta da Cerca, para exclusivo usufruto dos funcionários municipais e seus familiares de um Lar e um Infantário, manifesta acção corporativista de quem está a usar os impostos de todos para beneficiar apenas os agremiados de uma corporação, neste caso a edilidade, mascarando essa iniciativa com a benquista e bem-vista Unidade de Cuidados Continuados e apoio ao ensino especial, sabendo-se como se sabe, no caso da CerciPortalegre ser um bluff porquanto as instruções da PEPT e do Ensino Integrado lhe terem decretado o término, mais ou menos prestes, numa tentativa de engodar um terço dos eleitores portalegrenses, uma vez que, sendo a autarquia a maior entidade empregadora do concelho, lhe estão ligadas, directa e indirectamente, por afinidade familiar, seis mil eleitores deste concelho.
Ou seja, escusa o executivo camarário de tapar a sua abdicação na responsabilidade dos destinos da nossa terra, em demonstração de uma inconsciência política que raia as teias do criancismo, com o pintar das intenções deste empréstimo com a capa das preocupações sociais, que não ilude ninguém a não ser ao seu partido e partidários, igualmente adeptos do tapar o sol com a peneira, e que preferem hipotecar o futuro do que resolver os problemas do presente, que são muitos e antes foram provocados por uma gestão autárquica deficitária do que pelas crises conjunturais, importadas directamente dos USA ou secas imprevistas, preço do capital e juros. Aliás, quando a gestão falaciosa obriga a transferência de recursos e provoca danos insustentáveis (e irreversíveis) numa edilidade, que nome devemos dar-lhe?

10.06.2008

Um Pequeno Inconveniente, de Mark Haddon

Mark Haddon
Trad. Ana Corrêa da Silva

Se consideramos a espécie humana como apenas mais uma estratégia, entre milhentas outras, que a vida inventou para se eternizar, a família, tal como a conhecemos e/ou concebemos, é tão-só aquele projecto onde essa tentativa de eternidade melhor se executa, na medida em que propícia uma reprodução responsável e consciente, facultando os cuidados primários, o crescimento, a educação, a socialização, o estabelecimento de laços afectivos e desabrochar emotivo, transmissão de valores (exemplares), práticas e instituições, além de garantir níveis razoáveis de assistência e solidariedade na doença como na morte, nas dificuldades económicas como na integração e sustentabilidade social, na caracterização geográfica como planetária, na identidade cultural como na veiculização religiosa, então esta família, a de George Hall, é igualmente uma família, porque consegue aquilo que as famílias ortodoxas almejam e conseguem, embora o faça por portas-travessas. De forma complicada naquilo que é simples, e simplesmente simples quanto ao que em muitas é deveras complicado. Precisamente porque ela não assenta na gestão da comunicação, mas ao contrário, sobrevive da tentativa de gerir a incomunicabilidade que gera. Enfim, é uma família vulgar!...
Ou seja, se quem leu O Estranho Caso do Cão Morto, a outra obra entre nós publicada do mesmo Mark Haddon, para quem o adultério é sempre praticado no feminino, e a infidelidade é o motor motivacional da tragédia (explanada) familiar, encontrou já algumas dificuldades em encaixar o seu conceito de família no quadro e cânones de moralidade e socialização tradicionais, querendo-lhe parecer que ela navegava por uma via sinuosa, esburacada, ao solavancos, apertada, onde era difícil executarem-se manobras e circulação nos dois sentidos comuns no ir e voltar da realidade genérica, então este Pequeno Inconveniente parecer-lhe-á, sem dúvida, o sair dessa estrada secundária, acidentada e sem condições mas com pouco trânsito, para emergir e entrar de rompante numa auto-estrada sobrecarregada e intransitável, porque em contínua hora de ponto, onde a circulação se processa de forma anárquica e caótica, esquizofrénica e stressante, por estarem mais preocupados os condutores com aquilo que os demais, na sua visão, deles e de si próprios, "imaginam" pensar de si mesmos, do que com as regras de trânsito e perícia de condução, demonstrando uma dificuldade constante em desembaraçarem-se das suas manietações pessoais e interiores, o que lhe iria permitir reconhecer os demais elementos familiares envolvidos na plenitude dos seus defeitos e qualidades. Igualmente acidentada, onde o acaso escreve direito por linhas tortas, e a fuga esclarece a qualidade dos compromissos, típico comportamento da evitação do mal maior, que são as águas onde se espanejam os investimentos afectivos, ou familiares, subordinados à sorte, à urgência da cumplicidade num crime em vez da partilha e cooperação num projecto, que lhe minam os fundamentos, corroem os alicerces e contaminam a sustentabilidade, pondo a nu a fragilidade e natureza das suas relações internas, estabelecidas entre membros (supostamente) iguais no seio dela, mas cuja igualdade se assemelha muito com a noção espelhada dela por George Orwell, em O Triunfo dos Porcos, onde todos os animais eram iguais mas havia uns mais iguais que outros.
Portanto, e em resumo, digamos que se O Estranho Caso do Cão Morto, de certo modo, abalou algumas consciências como estilhaçou, desestruturou, rompeu a rigidez caracterial típica de alguns meandros conservadores, logo menos aptos à mudança de paradigma, que se escoram nas determinações do passado para se adaptarem às circunstâncias (originais e inéditas) do futuro, o que imediatamente nos ocorre com a leitura de Um Pequeno Inconveniente é que esse abalo é ínfimo e insignificante se comparado ao terramoto, à derrocada que o conceito de família tem no segundo, onde os planos arquitectados e congeminados apenas pelas partes, pelos indivíduos que a compõem, na tentativa de lhe cortar, amputar as chagas, ou "cancros", ao invés de lhe resolverem os problemas antes os agravam, avolumam e detonam crises, umas mais profundas que outras, é certo, mas das quais é sempre impossível sair sem trauma. Todavia, se acrescentarmos que essa visão ortodoxa de família, que se institui como imagem de marca registada nos pergaminhos ancestrais do establishment, seja condimentado pelo benquisto ascendente da moral ou das capacidades e talentos anexos ao pedigree genérico, como no bem-visto estatuto com trespasse garantido de geração em geração, que lhe facultará manter um padrão de vida assente nas qualidades intrínsecas da família, aliás evidentes como espelhadas no seu patrono, que se lhe colam como luva de pelica, e demonstra quão irrefutável é o argumento da consanguinidade. E vem corroborar a ideia de que se quando a sociedade muda a família acompanha-a mudando-se com ela, não é menos verdade o vice-versa, posto que quando a família se altera a sociedade também sofrerá uma mudança consequente, num arrasto mútuo, e onde os primeiros efeitos dessa mudança se notam mais é nas relações que se estabelecem dentro das famílias, sobretudo aquelas em que a sua natureza institucional (baptizado, casamento, divórcio, graus de parentalidade) está vincada, em traços grossos, porque é nisso que a família se assemelha e identifica com as demais famílias. Se cimenta socialmente.
Ora, perdendo ela a sua noção de coutada reprodutiva, de célula da abdicação individual em favor do grupo consanguíneo, onde a reserva de condutas e pensares alimentava o secretismo das cumplicidades, os seus membros sentem-se desamparados, inseguros, desobrigados das suas responsabilidades e expectativas, empurrando-a para o cataclismo que já reconhecem na sua consciência, quer assumindo comportamentos e valores que lhe eram alheios, quer desimportando-se com a instabilidade que provocam com isso, mas considerando sempre que não a merecem e antes são suas vítimas que causadoras. O que, afinal, é o caldo cultural propício à sua queda estrutural, ao seu desmoronamento, uma vez que estava alicerçada na defesa dos males que vinham de fora, mas que deixaram de o ser (males) porque passaram a estar-lhe dentro (cancro, infidelidade, droga, homossexualidade, divórcio, intolerância), tudo coisas que pensavam ser condenáveis e infectas lá fora, mas que à medida que lhe entraram em casa passaram a pormenores de identidade que subscreve a diferença entre iguais. E isso é obra, mesmo para quem pense que este livro mais não é do que outra obra, do mesmo autor!

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