La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

9.30.2008

Sim, eu mudo de canal. E você?

Eu reconheço que o teu partido, ou corporação de interesses, seja deveras muito maior que o meu, quer em financiamento, quer em número de votos, todavia lembro que essa treta das quantidades, das estatísticas e das audiências, é tal e qual como o levar no cu: é que não é lá por haver muita a gente que se lhe tenha habituado, e até goste, que isso o torna numa coisa boa!
Porém, das marceladas à sol-expresso há tanto para dizer, que o melhor mesmo é ficar calado... Tão autistas quão obsoletas, típicas da boutade dos calçõezinhos da mocidade-legião portuguesas, numa expressão pseudo-académica do saudosismo enraizadamente camiliano, de quem fala muito mas pouco acerta, invariavelmente nascidas e eivadas da corrente retórica cimentada ou assente na lógica do medo, da adivinhação magnífica das consequências de factos, leis e políticas para esconder, para iludir, quanto se desconhece aquilo que a "coisa em causa" realmente é, caldo cultural característico da infecção cognitiva, onde se geram habitualmente conclusões que não concluem absolutamente nada, porquanto são sempre as mesmas e já eram sabidas antes do processo dedutivo se iniciar, e que, aliás, exactamente por isso enferma das exemplares lucidez e objectividade comum aos preconceitos, à percepção motivada e ao rigor das teorias falhadas, nascidas da fé criancista de que se for repetido exaustiva e intensamente algo errado como certo, ele passará então a sê-lo, atitude vulgar aos prodígios predestinados à reinação por não destrinça entre interesse pessoal e interesse nacional, sentimento patriótico em tudo semelhante ao do indivíduo que surripia o banco do jardim, ou passeio público, para o colocar no seu quintal, visto que se este era um bem de todos, logo também era seu, e aquilo que é seu deve ser estimado e cuidado, além de posto a recato, ou acautelado de susceptíveis vandalismos e desleixes de manutenção, justificando o apropriar-se de um bem colectivo para melhor preservá-lo e conservá-lo, ficando assim disponível para o usufruto pessoal conformes o seu bel-prazer e utilidade, na tentativa de demonstrar que confiscar é tão legítimo, e desejável em sociedade, como fiscalizar, senão muito mais, uma vez que evita gastos e despesas nessa fiscalização que seriam bastante superiores ao preço de custo do bem. Genial, diremos, apenas comparáveis, em calibre, à classe de petas usuais na jurisprudência do a torto e a direito do xicoespertismo, onde qualquer fim vale mais que todos os meios, e a melhor conclusão é também a melhor espelha a confusão de processos e de causas, suportada pela indiferença generalizada com que todos mudamos de canal ou aproveitamos a altura para ir ao WC, deitar os putos, fazer um cafezinho, levantar a mesa do jantar, lavar os dentes, dar de comer ao gato, tudo coisinhas atraentes que nos entretêm e deveras nos desobrigam de escrever, ou enviar um e-mail, ao Provedor, lembrando-o de que a estação televisiva em causa é uma estação pública que sobrevive a expensas do erário e dos impostos de todos, e que é muito feio andar a desbaratar o dinheiro dos contribuintes, o tempo de antena e a paciência dos telespectadores financiando barragens no rio dos chorrilhos e da asneira, embora que vociferados na morna pacatez duma enxertia eclética entre o azulinho engomado das fatiotas de ver a deus, e os cortes self made woman de quem anda a par das notícias. O que, no mínimo, não só denota haver falta de assunto para matar o buraquinho de tempo livre na programação, como uma tentativa de premiar os melhores exemplos do uso da nacionalidade como estratégia para a apropriação do alheio.
Em resumo, sim, eu mudo de canal, e desconfio que se ainda sinto algum orgulho em ser português, ele resulta precisamente dessa oportunidade que os Ombudsman nunca conseguirão impedir-nos, comprovando assim que o superior interesse nacional que defendem e facultam, não reside naquilo que dizem e esclarecem, mas sim no quanto ainda são incapazes de fazer para nos obrigarem a manter-nos no canal que mais nos massacra (e ofende). E por tudo isso, o meu sincero obrigado!
(Mas atenção: isto não significa que as marceladas do Vitorino sejam preferíveis às do original, porquanto as deste apenas evidenciam que o seu autor lê extraordinariamente menos, nada ou quase nada, a bem dizer, embora o faça com menor retouça e superior concentração...)

9.27.2008

Ò tempo quísso foi!



A coisa deu-se e nunca direi o resultado... Mesmo sob ameaça!

9.26.2008

O Magalhães é bom companheiro

"Ouvido tinha aos Fados que viria
Uma gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da Índia tudo quanto Dóris banha,
E com novas vitórias venceria
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória
De que Nisa celebra inda a memória."

Luís de Camões, in Os Lusíadas, Canto I, 31

"– O maior sonho da minha vida é um dia tornar-me escritora e, para esse sonho se realizar, só preciso de um computador portátil, dedicação e muita inspiração – justifiquei."
Margarida Oliveira, in Olho Neles

Depois do italiano Américo Vespúcio ter, primeiro às ordens de Castela, em 1499/1500, sob o comando de Alonso de Ojeda, feito o reconhecimento de toda a costa setentrional da América do Sul, e seguidamente, ao serviço da coroa portuguesa, em 1501/1502, feito a descida pelas costas do Brasil e Patagónia, confirmando que essa terra fazia parte de um novo continente, e não da Índia, como muitos queriam fazer supor, incluindo os discípulos navegadores de Cristóvão Colombo, demandas essas que resultaram na correcção da cartografia universal, em que Martin Waldseemüller, geógrafo e cartógrafo alemão, ao publicar a sua Cosmografiae Introductio, identifica-se o Novo Mundo como nome de América, ou Terra de Américo (Americi Terram), denominação pela qual ainda hoje é conhecido esse continente, derivou facilitar a Fernão Magalhães, navegador português ao serviço de Castela, contornar a América para chegar às Molucas por mares não reservados aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas, iniciando assim, em 1519, a primeira viagem de circum-navegação, aliás muito conturbada e interrompida, e apenas terminada por Sebastião del Cano, em 1522, que viria a confirmar empiricamente aquilo que em teoria já há muito se suspeitava: a redondez do globo terrestre. Era o pontapé de arrancada para a globalização.
Todavia, o mundo apenas se veio a confirmar plenamente redondo quando cada ser humano o pôde sustentar em suas mãos como qualquer bola de algodão... E o fecho desse círculo, coube a outro Magalhães, um computador de fabrico português, resistente, leve e pequenote, de inspiração norte-americana e acabamento lusitano, que não só está ser exportado para o Novo Mundo como a trazer todo o mundo para perto das crianças portuguesas que iniciam a sua formação escolar, sem os dissabores dos esclavagismos económicos e diferenças de classe, porquanto é acessível a todos os alunos, mas com a capacidade de reforçar os elos nas famílias, colocando-as a essas, mesmo àquelas onde a formação e posses afastaram das novas tecnologias, em volta de uma caixinha mágica, a colaborar, a partilhar, a aprender e a manusear o conhecimento viável e transmissível. Ou seja, independentemente do que se diga acerca do mandato deste governo, com etiqueta socialista, embora às vezes se dê a entender que trocaram a pulseirinha ao menino, por nele haverem bastas recaídas de génese, no DNA e motivações totalitárias ou salazaristas com que se conduz, a maior revolução a que este país assistiu, desde o 25 de Abril, em prol do ambiente, da igualdade, da qualificação, de desenvolvimento humano, cultural e económico, de implantação da portugalidade e língua portuguesa nas sendas da modernidade, foi na realidade, muito mais que todas as pontes, estádios, aeroportos e TGV's que foram ou venham a ser "edificados", essa pequena caixa de ideias portátil a que dá gosto identificar com o conturbado navegador (portuense) Magalhães. Porque ele vai facilitar o sonho aos que ainda estão a tempo de sonhar, a viagem a quem quer aprender sempre mais, a poupar árvores no planeta, a libertar os desfavorecidos da malha opressora do caciquismo local, a diminuir as barreiras e assimetrias da interioridade, a apetrechar o indivíduo com um cata-vento orientador da sustentabilidade, a não ser burro de carga dos Sísifos pedregulhos dos manuais, a ampliar os olhos e braços de cada qual que deseje realizar-se criando. Mas eu preferia chamar-lhe borboleta... é que desta, ou com ele, é que irá deveras notar-se o efeito que tem abrir as suas "asas" no outro lado da Globo.
Pelo que importa não esquecer que esta circum-navegação só poderá alcançar o término, quando for dado outro passo tipo Sebastião del Cano, que a finde, e ponha à disposição os manuais electrónicos que hão-de cartografar o conhecimento e facilitar a aprendizagem, com a qual se dirá que veio Uma gente fortíssima de Espanha / Pelo mar alto, a qual sujeitaria / Da Índia tudo quanto Dóris banha devolvendo novos mundo ao mundo, incluindo aqueles conquistados por Alexandre Magno, cujos gregos escalaram o Meru, onde fica a morada dos deuses, depois de, convivendo com os vencidos, em celebração da vitória, na cidade dos jardins, fundada por Dionísio, trouxeram de Nisa a memória que festeja com inebriante ambrosia a glória. Também simplesmente dita regozijo ou alegria, alcançadas na fama de um empreendimento conseguido: recolocar a portugalidade na ordem global do dia. Enfim, escrever um livro, enviar um mail, criar um blogue, fazer uma pesquisa, anular uma carência, fazer companhia àquele companheiro argonauta que se desloca entre os planetas da nossa galáxia. Um tão pouco que é tanto, que sobre a realidade, mais não será que outro singelo e diáfano manto!

9.24.2008

Que Novos Crimes Lava o Colarinho Branco?


Até há bem pouco tempo os crimes do colarinho branco eram os crimes vulgares que toda a gente cometia (roubo, desvio, assalto, abuso de poder, especulação, violação, sabotagem, incumprimentos de contrato, falta de pagamento de dívidas, fraude fiscal, tráfico de influências, etc.), delitos condicionados pela ocasião que, como é do conhecimento geral, é propícia ao embusteiro como ao ladrão, todavia este tipo de prevaricar contra a lei e sensatez, especificou-se, apurou-se, sofisticou-se, apetrechou-se de novos saberes e hoje, serve-se deles conforme lhe apraz e melhor funciona aos propósitos da elite do funesto, nomeadamente as estatísticas, contabilidade e psicologia, forjando o status quo a tecer-se como caldo onde essa cultura do crime se possa desenvolver e torná-lo apetecível, rentável, senão estratégico. Por exemplo, há empresas e organismos de Estado, desde autarquias a ministérios, que se servem das estatísticas para regularizar os seus financiamentos, que depois desbaratam fenomenalmente, para demonstrar serviço e utilidade social, pondo a recolha e selecção dos lixos em escores de tonelagem per capita, o que origina percentagens que não espelham a realidade: segundo os dados oficiais a reciclagem e tratamento dos lixos ocupa um lugar de vulto, no entanto, isso é autêntico bluff, pois no concurso Jogo Duplo, da RTP 1, onde estão incluídos, por pré-selecção, um grupo bem informado da malha social, depois de todo o dinheiro gasto na divulgação dos ecopontos, quando depararam com a pergunta de qual é a cor do recipiente prò papel, dos cinco concorrentes, só dois responderam acertadamente, logo 40%, e se atendermos às constatações de facto, de entre os organismos públicos que conheço só as escolas seleccionam o lixo e por cada dez pessoas que vão despejar o lixo, nas chamadas ilhas ecológicas, junto às quais está invariavelmente também um ecoponto, só uma o traz separado, principalmente as garrafas, despejando a eito os demais restos no depósito do lixo geral.
Ora, quando os quadros de um país, incluindo os seus políticos, torcem e distorcem a realidade para colmatar a sua incompetência num sector, displicência e mandriice, eles estão a cometer um crime contra todos, porque com o mal dos seus semelhantes e do futuros deles, vão beneficiar em termos financeiros, de marketing e de carreira profissional. O que é deveras um colarinho sujo, mas que ninguém ousa sanar, porquanto a sua lavagem em detergentes e lixívias de propaganda, o gasto cultural é muito menor ao ganho que daí advirá.
Por conseguinte, é caso de fundamento prático, afirmar que a quantidade se calculada a preceito, dá galhardias de uso ao defeito, e lavagem ao colarinho democrático!

9.05.2008

Legislação Prática


"Alá apanhou uma rosa, um lírio, uma pomba, um pouco de mel, uma maçã do Mar Morto e um punhado de terra. Quando olhou para a mistura, era uma mulher."
Ditado persa

Erros

O homem sentado no sofá falava,
Ouvia sua voz, corrigia o tom. A mulher
Arranjava os cabelos diante do espelho.
Os cabelos da mulher estavam tingidos,
A voz do homem estava tingida. Sabiam-no?
Apagaram a luz. Ajoelharam-se em frente um do outro e choraram.
Depois fizeram amor no chão. E lá fora a velha
Batia o batente da porta de ferro.
Yannis Ritsos

Limites

Hay una línea de Verlaine que no volverá a recordar,
Hay una calle próxima que está vedada a uns pasos,
Hay un espejo que me ha visto por última vez,
Hay una puerta que he cerrada hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
Hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cinquenta años;
La muerte me desgasta, incessante.

Jorge Luis Borges

Regra de Ouro

"Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei dos profetas."

(Mateus 7, 12 e Lucas 6, 31)

"Tal como a abelha pousa na flor, lhe suga o néctar e a abandona sem lhe causar qualquer mal, assim os sábios passeiam pela aldeia"

Ditado chinês

"Uma coisa é certa quando tende para preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. E é errada quando tende no sentido oposto."
Aldo Leopoldo

"Quando a lebre e o companheiro correm aos rés da terra, quem consegue dizer qual deles é o macho e qual é a fémea?"

Provérbio chinês

9.03.2008

Às 21:13


Às 21,13
Felix Cucurull
Trad. António de Macedo


(Porque dele disse quase tudo o autor em jeito de "prelúdio", aqui fica como princípio "daquilo" onde tudo o mais começou)

"Estava muito escuro. Teve de acender um fósforo para poder ver as horas. Lançou um olhar em volta: o local que escolhera era totalmente deserto. Só tinha que se deitar; deitar-se e esperar. Sabia o horário. Às 21,13 passaria um comboio. Avançou uns metros... Deitar-se-ia ali, logo a seguir ao sítio onde a linha faz uma curva, o pescoço sobre os carris. De olhos bem fechados, já não precisava de se esforçar mais. O encarregado da execução seria o maquinista. Deu mais uns passos. Debaixo dos seus pés a travessas começavam a trepidar. Sentiu um arrepio. Talvez... Ainda estava a tempo de voltar para trás. Mas continuar a viver ainda lhe produzia mais pavor. Dobrou as pernas e estendeu as mãos... Enquanto se arrastava, as pedras e os desperdícios de antracite maceravam-lhe os joelhos. Rasgou as palmas das mãos. Completamente estendido, sentiu no pescoço e na barba o frio do aço. Um ruído atroador ensurdece-o e fê-lo crispar os dedos sobre a cabeça; ficou, porém, compensado com um eterno silêncio."

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A pessoa entre as sombras de ser