La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

12.28.2007

Maria Anna Accioaioli Tamagnini

Eis dois poemas daquela que considero uma das mulheres de excepção do século passado, com escrita límpida, de uma imagética ímpar, umas vezes a voar nos pressupostos do universo de Camilo Pessanha, outras, a navegar entre a expressão continental de Cesário Verde e o "crioulo" sentir de Venceslau de Moraes. Aqui ficam, portanto, como aperitivo para melhores e futuras abordagens... Não espelham o meu pensar nem, provavelmente o da autora, mas são bem o exemplo daquilo que um estilo cristalino pode fazer às palavras, tornando-as estrelinhas cintilantes num mar de magia ou céu de sons que nos entretecem.

FOLHAS DE LÓTUS


Sobre folhas de lótus escrevi
As letras do teu nome, meu amor,
Naquelas folhas que a sorrir colhi
Ao debruçar-me sobre o lago em flor.

Sobre as folhas de lótus desenhei
O mais risonho trecho da cidade;
E esse leve desenho que tracei
Dir-se-ia uma paisagem feita em jade.

O teu nome mais belo se fizera
No relvo das letras bem gravadas.
A paisagem lembrava a Primavera
Sobre o verde das folhas espalmadas.

Apertei-as de encontro ao coração.
Senti meu peito como flor a abrir...
E todo o Oriente feérico e pagão,
Sobre folhas de lótus vi surgir.

Ah! Se eu pudesse, como outrora, ao luar,
Por esses lagos nos jardins dispersos,
Ir as folhas de lótus apanhar
Para sobre elas escrever meus versos,

Essas folhas de estranha singeleza
Dariam à poesia outro valor,
E eu realizava um sonho de beleza:
Um livro cheio de perfume e cor.


CASAS DE ÓPIO


Nos kakimonos, de papel pintado,
Os dragões saltam, riem as carrancas,
E entre as nuvens do fundo acobreado
Os deuses montam em cegonhas brancas.

Sobre as lacas polidas, luzidias,
Há figuras, marfim de alto-relevo,
Finas silhuetas de mulheres esguias,
Sorrindo aos deuses num profundo enlevo.

Na sua luz mortiça, vão ardendo
As lamparinas clássicas, chinesas.
Nos cachimbos o ópio vai fervendo
Ao contacto das lâmpadas acesas.

Nas esteiras, em lânguido abandono,
Adormeceram já os fumadores.
Vencidos pelo poder fatal do sono
Esqueceram da vida os dissabores.

Corpos que pelo ópio emagrecidos
Se perdem nas cabaias de cetim.
Contornos vagos, rostos abatidos
Da cor da cera virgem, do marfim.

Vede-os dormir! Que imensa placidez
Nas suas faces quietas e paradas!
Mas, sonham. Através da palidez
Das pálpebras sombrias, maceradas,

O sonho adeja em louca fantasia:
Miragens de além-mar, países raros,
Glória, poder, riqueza, soberania,
Mulheres de olhos negros, de olhos claros...

Em taça de cristal vinho de rosas.
Brancas magnólias, lírios perfumados.
Sobre as águas, em noites misteriosas,
Juncos, de prata e oiro carregados.

Inertes vão sonhando os orientais...
O ópio, que os domina e que os subjuga,
Sobe nos ares, em ténues espirais,
Dos cachimbos de jade e tartaruga...

E pelas altas paredes, que o exotismo
Vestiu de seda, cobriu de oiro velho,
Bailam sombras, visões do paganismo,
À luz quebrada de um lampião vermelho!


Maria Anna Acciaioli Tamagnini
in LIN TCHI FÁ: Flor de Lótus
Kakimonos – Pinturas em papel ou seda, caindo ao longo das paredes.

12.07.2007

Crónicas do Luís Não Vás

(Morte aos Críticos, de Gustave Coubert - 1819-1877)
1.
Desconheço que fará, ou que dirá Durão Barroso, para explicar politicamente a esparrela em que caiu e da qual tem andada a auferir proventos por esse mundo fora, ao serviço da Europa (inclusive). Que viu os documentos comprovativos da existência daquilo que nunca existiu: armas nucleares e de destruição em massa no Iraque. Que comprovam afinal aquilo que todos nós há muito pressentíamos, o ser também ele apenas mais uma Maria-vai-com-as-outras entre outras Marias, incluindo a espanhola, inglesa e seguintes, e que não está arrependido do que fez, pois nós, os europeus, até tivemos um papel moderado na questão. Com Ámen para os portugueses a quem os brandos costumes não foram além dos usuais brados da fidalguia, abrindo historicamente as pernas às potências estrangeiras tal e qual como no tempo das monarquias, que o fizeram a todas quanto lhes aprouve passar por cá, a desenferrujar o nacionalismo como sucedeu aos espanhóis, aos franceses e aos ingleses, com quem instauramos tratados e negócios vários a ver se acabavam as cachaçadas. Não acabaram. E até com os Açores as comemos.
Por junto ao equívoco, no cabaz de compras das mentirinhas mundiais que dão jeito, o pirarmo-nos à pressa para outros Brasis, e sacudido o capote, eis que ficaram mais setenta milhares de mortos (directos e maioritariamente civis) no chão – mas que se lixe, a gente nem conhecia nenhum!... –, dois milhões de refugiados e a destruição generalizada de um país, o incendiar de uma região e as contraproducentes relações inter-religiosas que daí advieram, e que já andavam bastante tremidas anteriormente. E embora os quatro principais participantes, como sublinhou a deputada Heloísa Apolónia na sua intervenção de 28 de Novembro, da famigerada cimeira das Lages tenham vindo, um a um, a reconhecer publicamente que foram enganados quanto aos argumentos que fizeram eclodir a guerra do Iraque em 2003, uma guerra que violava todas as regras internacionais, o que é certo é que têm vindo a encostar-se uns aos outros para não desvendarem quem efectivamente enganou quem, visto tal não lhes interessar politicamente, uma vez que a razão do dito engano ter sido simples e eficaz: os quatro se enganaram mutuamente para assim melhor enganar o mundo, cooperando entre si na construção de uma vergonhosa mentira, que há muito sabiam ser mentira, mas que apenas agora lhes interessa reconhecer publicamente, deixando Bush arcar com todas as culpas, considerando que é o que tem menos a perder, pois já está vencido eleitoralmente, com todas as consequências negativas do imbróglio.
Ou seja, se só acredita numa mentira quem lhe interessa que esta seja verdade, também é incontornável que apenas diz a verdade quem lhe interessa que ela tenha trato e valor de mentira, de coisa que se diz simplesmente para desabafar a alma, e não porque esteja realmente arrependido de ter ajudado a matar milhares de pessoas, transfigurado uma região e molestado milhões de civis, muitos dos quais virão a sofrer indirectamente, mas segundo, e em consequência, que indubitavelmente lhe está implicada, quer física como moralmente, danos que se estenderão ao longo e durante todas as suas vidas. Não. Porque sempre foram e são moderados, não radicalizaram minimamente a questão, e mesmo quando mataram inocentes fizeram-no por moderação, em jeito de alívio a males maiores que lhe poderiam vir a acontecer, e que portanto esses milhares de mortos ainda lhe devem agradecer por terem morrido, pois evitaram vir a saber que morreram porque alguém enganou outrem que estava deserto de ser enganado, mas só o admitirá se outros tantos morrerem e não tiver demais remédios com que ungir a culpa.
Aliás, porque é que não admitem, definitivamente, que se alguém morreu foi por sua exclusiva responsabilidade e culpa, bem merecido lhe fora, já que era quem era e nascera onde nascera, estando por isso a pedi-las, e quem tem o que merece deve deixar-se de lamúrias. Como os nazistas fizeram aos judeus, os turcos aos arménios e curdos, os israelitas aos palestinianos e os católicos europeus aos albigenses. Enrolava menos, escusavam de se apontar na infantilidade do "foste-tu, foste-tu, nhanhanhã, foste-tu" e podiam ir jantar fora para celebrar, em qualquer paraíso, fora dos olhares dos pobres e defuntos, na Madeira por exemplo, com um jardim a enfeitá-los. E dava-nos menos pena, coitadinhos, que desde o Gil Vicente nos comovemos muito com a sorte de quem pensa que a esposa é só sua!...

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