La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.19.2010

Entre Bocas e Bocanas, assim passam as semanas


Entre Semanas, Bocas e Bocanas

"Estava-se nessas desconformidades quando surgiu em nossa frente um cabrito malhado. O bicho destoava das solenidades. O administrador arreganhou em surdina:
– Quem é esse cabrito?
– De quem é... – o secretário corrigiu, discreto.
– Sim, de quem é essa merda?
– Esse cabrito não será dos seus, Excelência?"
In O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

bocanas e bocanas. E se cada um é como cada qual, sendo no todo ou em parte diferente do outro, seu semelhante, posto que ímpar e sem igual, no feitio como nas atitudes, o que é certo, é que são todos uma cambada de sacanas. Incapazes de sentir empatia, abespinham os demais, desde que em algo eles sobressaiam daquilo com que os rotularam, ou a ideia que deles fizeram, cultivaram, difundiram e admiraram. Insistiram e determinaram. Atribuíram como única possível, concebível e lógica.
Por exemplo, quando desgostam de uma pessoa, mas gostam/simpatizam com outra, que é sua familiar ou irmã, e se esta, a quem atribuem sempre tudo o que é mal feito ou indesejável no seio de uma família, faz algo de apreciável mérito e notório, então, para lhe retirarem o talento e os louros do feito, justificam a feitura às qualidades do outro, que nunca lhe pertencerão a não ser por cópia ou imitação, afirmando que o fulano, nessa etiqueta ou quadrante, «sai ao irmão», como se isso fosse possível, uma vez que a herança dos genes jamais será transversal e fraterna, mas de linha directa por descendência, como sucede de avós para pais e destes para os filhos. Se um cabrito nasce no seio de uma família branca tudo quanto faz de mal é herança do sangue negro que há nele, e se, pelo contrário, algo de louvável pratica, então foi a sua quota-parte de brancura que veio ao de cima. Ao invés, desde que nascido numa família predominantemente negra, tudo quanto é indesejável no seu comportamento será consequência directa do sangue branco que lhe ainda corre nas veias, e de bom, se algum houver, resquícios emergentes da sua negritude. Quando para uns casos é pessoa (cabrito de cor), para outros é animal(cabrito, filhote de cabra).
Em Tizangara, ambiente social e lugar onde se desenrola a ação, no livro acima citado, de Mia Couto, a situação, aliás comum às famílias e meios provincianos do interior português, essa clareza tem nome para as entidades oficiais, chamando-lhes merda, para evitar subsequentes equívocos. A crueldade criancista de nomear as coisas pelo nome, assim o exige, exorcizando a tendência civilizada para os eufemismos, contudo, não podemos negar que as nomeações nada acrescentam nem retiram aos seres e pareceres sociais, já que não é por este ou aquele indivíduo desafetar a carga pejorativa a alguns rótulos que o veneno das discriminações deixa de produzir os seus efeitos, e muito menos, se considerarmos que até podemos dizer que um fulano é um "querido" quando pretendemos chamar-lhe "filho da puta", ou que é engraçado se nos apetecer denominá-lo de bobo e bocana. A fluência das significações é muito superior à estirpe lexical que as sustenta, considerando que cada língua, cada vocabulário, particulariza apenas parte daquilo que a expressão generaliza, o sentimento humano, a emoção, a racionalidade, a sublimação, e a espiritualidade universalizam. Ter raiva a, ou sentir inveja de alguém, existe no seio de diversas culturas em diferentes modos, com significados normalmente aspergidos numa panóplia semântica que apelidamos facilmente de polissemia, pondo na esfera polissémica de um termo, numa língua, termos e significados que pertencem à esfera de outro ou outros, independentemente da linearidade, e correspondência literal, das traduções. "Um pai galinha" em português é um pai extremoso, atencioso, dedicado aos filhos, porém se o interpretarmos de acordo com o universo de significação brasileiro, é um indivíduo mulherengo, um D. Juan, e que se preocupa mais com o fornicar muitas mulheres do que ajudar-lhes a criar, proteger e educar os filhos, por exemplo.
Mas a minha televisão já tomou providências e começou a tratar do assunto, pondo nova ordem no aferir significativo das cores, confirmando quanto importa aos multimédia tomar decisões que visem concertar, dissolver e harmonizar os conflitos que a sociedade gerou para evoluir, mas que impreterivelmente tem que ultrapassar se quiser continuar essa evolução: alterou automaticamente, e sem qualquer possibilidade de retorno ou reparação, a paleta de cores, dando a ver verde, naquilo que era – e é – vermelho, azul no que antes foi verde, lilás no amarelo, rosa-choque no que antes fora azul, o castanho virou creme, e assim por diante, com tal magnificência e pertinácia, que eu passei também a ver a realidade conforme esta matriz de tons, uma vez que passo mais tempo a ver televisão do que a andar na rua, e a achar que a realidade, as paisagens e quadros vivos do quotidiano, andam mal pintados ou debaixo uma luz deveras sinestésica - e suspeita. A princípio tive dúvidas de que a máquina tivesse uma propositada intenção na baralhação das cores, julgando tratar-se de avaria, comentando de mim para mim «esta, está a dar o badagaio!...», não obstante, depois do contato com o técnico local de TVs, testes com aparelhómetros vários, o diagnóstico foi o sem espinhas «não tem qualquer problema, e está em melhor forma do que muitas das novas que ali tenho para venda ao público», vi-me na incontingência de aceitar o fato como capricho consumado de um ente que reivindicava participar na formação – e formatação – do mundo que espelhava, reproduzia e muito ajudara a criar. Ver os telhados das casas verdes quando cobertas do canelado mourisco, inicialmente, foi confuso e digno de tenaz resistência, repetindo a mim mesmo, oral e mentalmente, que eles, os telhados, eram sim, mas vermelhos, desde que não fossem de vidro ou de placas de “lusalite” com amianta memória. Depois, porque isto não é tempo de andar a mudar constantemente de electrodomésticos, engoli a mudança nos cambiantes por ela impostos, como quem assobia prò lado perante uma contrariedade corriqueira, e deixei de inculcar a memória cromática mal me apercebia de que a bandeira portuguesa tinha ganho outras cores e humores, flanando com verde, azul e lilás com o igual empertigamento de antanho onde o vermelho e o amarelo tinham notória presença. E idem para o estandarte da UE, a quem o rosinha com estrelas lilases dava um requinte feminino, porquanto primeiro foi estranho depois se entranhou, e afinal, mais consentâneo e conforme à felicidade do lar num casamento a vinte e sete... E agora, que fazer?
Nada. Conformei-me. Já não admito que a realidade queira pintar o real realmente de outras cores que não aquelas que aprendi a ver como reais. As árvores são azuis. Os telhados verdes. Os pretos são brancos, e vice-versa. Os mulatos são cremes. E os cabritos, se alguns vejo, cor de tijolo quando cai, que os muros e paredes se foram criados levaram caiação moderna com mestiçagem às avessas, deixaram de ser biombos de resguardo das espécies e raças, e passaram a ser elos de ligação e unidade entre gentes separadas, que cultivavam a simetria como perfeição.
Portanto, quando ouço dizer que fulano ou sicrano são uns merdas, ninguém me tira da ideia que são preciosos e ricos, de genial talento como os que em vez de saírem a seus pais saem aos seus irmãos, pois sei que, de certeza, quem assim os classifica por húmus fértil, tem a televisão avariada. Até porque não há filhos do pai quando estão com a mãe, nem filhos da mãe quando estão com o pai. Há seres humanos, na totalidade dos seus direitos e responsabilidades, e isso ninguém lhes pode negar, ainda que os bastonetes e cones lhes soneguem as cores originais, na mensagem que distorcendo veiculam ao cérebro de quem os toma por objectivos. Pintar o mundo sem ouvir as bocas de alguns bocanas, é uma tarefa para máquinas inteligentes que não se envergonham do que querem e são. Digam o que disserem, as cores são um privilégio de quem vê, não de quem crê ver.
Então, onde está o problema de se verem outras bandeiras em nações que se tornaram mais justas e soberanas, civilizadas e cultas, modernas e atuais, solidárias e conscientes, responsáveis e livres?

11.15.2010

Cultura e Civilização, o que são?

A Generosa Perfeição da Dúvida


"Ó deusa Sol de Arina, rainha de todos os países!
No país hitita, tens o nome da deusa Sol de Arina,
Mas no país que tu fizeste país dos cedros,
Tens o nome de Hegat!"

da Tabuinha de Puduhepa

Se até quanto à denominação dos mesmos deuses nos sucede às vezes adorar um sob o nome de outro, ou outro com igual nome daquele que invocamos, então, a mínima dúvida há de ser sempre preferível à maior, absoluta e mais preciosa e pura das certezas, no X de um voto sobre o quadrado da existência.
Desconheço quais sejam, efetivamente, os motivos e argumentos que levam alguns pensadores da atualidade a separar o conceito de cultura do seu congénere, o conceito de civilização, posto ser impercetível a fronteira entre ambas, cujas funções e estrutura se igualam e identificam, como igualmente se aplicam ao quotidiano, na sua crítica à natureza, principalmente à natureza humana, se no universo da ética navegamos, afastando cada vez mais o indivíduo das suas origens, ou o homem do animal que deriva e o suporta fundamentalmente.
Entre muitos que assim fazem, conheço eu um, que não nomeio, pois como os demais desta fornada, é dos que gostam de interpretar cada crítica às suas afirmações como um ataque pessoal, uma ofensa, uma injúria, não obstante número de diplomas e certificados académicos que tem em carteira, que o faz, fazendo-o como muitos antes e provavelmente outros tantos depois dele o farão, garantindo que «um indivíduo culto é o que possui abundantes bens de espírito; [e] um indivíduo civilizado é o que faz uso desses bens no decorrer do seu viver diário», tal como nós costumamos separar os portugueses (provincianos) pela sua opção religiosa, dizendo que todos são católicos, embora apenas alguns sejam praticantes, querendo com a especificação sublinhar que do total dos batizados como tal, só uma pequena porção cumpre os preceitos da hóstia, assistindo aos cultos e participando nos rituais.
E fá-lo sem o mínimo pejo ou qualquer receio de estar menos correto, quiçá, errado mesmo, uma vez que ao fazê-lo também o afirma, oralmente e por escrito, sem temer o risco que corre quem se habituou há muito a ter razão, ser incontestado, que quando a não tendo, supondo essa remota como remotíssima hipótese, então sabe que lhe advirá o consequente apoio de Deus e da Fé, que a tornam elástica e extensível a tudo e todos quantos sob o Sol se erguem desde há, pelo menos, dois mil anos, que é a idade do antropocentrismo cristão à face da Terra. Trigo limpo, farinha Amparo.
Todavia, o busílis não residiria em haver alguém superiormente formado dizer "tamanha verdade", senão em haver uma longa prol de bem formados e melhor pensantes que o subscrevem, citam, repetem, ou até defendem e propalam, seus discípulos, por considerarem que assim estão a fazer (e dar) o seu melhor na formação dos futuros quadros da portugalidade, reivindicando não só estarem a ajudar a edificar o espírito e clarificar as vontades daquelas gerações sobre as quais, sem a menor dúvida, recairá o ónus da responsabilidade dos desígnios nacionais, da gestão da riqueza e do bem da nação, da sustentabilidade cultural de um povo com oito séculos de história – e civilização –, como também a contribuir para a qualidade mental e psicológica da lusofonia, cujo período de validade expirou nos meados do século passado, em virtude da hegemonia global do inglês e pensamento anglossaxónico, com fortes indícios já espelhados na queda da Bastilha e o ressurgir do humanismo existencialista, nem sempre atreito à transmissão/disseminação de valores seculares de incontestável primazia como a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade, tão queridos aos patrícios do quarto império (romano) quão prezados pelos conquistados e vencidos do terceiro império, em Atenas sediado, e na retórica da ironia/mauêutica celebrados, pela verve socrática e platónica difundidos, refinados, apurados, e multiplicados na sua heurística (pro)criadora.
Portanto, a gravidade, nesta problemática, como noutras similares, não está no facto de alguém pensar assim, ser aplaudido, publicado e publicitado por isso, etc., etc., mas exactamente na constatação circunstancial de ninguém ousar vir a terreiro "denunciá-lo" como inconcebível e prejudicial, socialmente negativo e antidemocrático, lamentar a sua lucubração na noite provinciana do subdesenvolvimento nacional, e alertar para as consequências nefastas da proliferação deste tipo de clichés na edificação basilar de uma sociedade, por medo de retaliação censória e inquisitorial, ou sujeitos à acusação de heresia, escondendo, ou desconhecendo, que as ideias – e sentenças –, por mais toscas e tacanhas, desde que se não discutam e não suscitarem o dialéctico confronto, tendem a perder a sua principal razão de ser, motivo de génese, que é a faculdade de espevitar a luz, gerar conhecimento que nunca poderá ser passivo nem de cómoda aceitação, porquanto os conceitos de civilização – "conjunto complexo de fenómenos sociais, de natureza transmissível, apresentando um carácter religioso, moral, estético, técnico ou científico e comuns a todas as partes de uma vasta sociedade ou a várias sociedades relacionadas entre si", conforme avisa o Dictionnaire de Philosophie, de Lalande –, e cultura – "a totalidade dos comportamentos e artefactos de uma sociedade, na medida em que esses comportamentos e produtos podem ser apreendidos e partilhados", segundo a opinião de Ralph Linton, por exemplo –, acarretam em si uma responsabilidade formativa bastante superior a qualquer outro conceito que esteja associado às normas e atitudes de socialização sustentável, contínua, positiva e eficaz, uma vez que lhe é inerente a qualificação da arte, da tecnologia, da ciência e do pensamento que estruturam o desenvolvimento de um povo ou de uma região. A guilhotina ou as SS nazistas de Hitler, são elementos de uma civilização, é claro e inegável, porém a cultura que os gerou e valorizou é a da morte e da opressão, que de todas as conhecidas é a menos desejável em termos sociais, nacionais, europeus ou globais.
Um indivíduo civilizado e culto não é somente aquele que tem bastos conhecimentos e os utiliza no dia-a-dia, mas sim aqueloutro que tendo-os igualmente escolhe entre eles os que sendo-lhe úteis a si, não prejudicam, e antes beneficiam os demais, o ecossistema, o habitat, o seu nicho como a totalidade da humanidade e ecosfera.
Confundir, propositadamente (!), cultura com propriedade, e civilização com a exploração dela, não se me avizinha serem as melhores formas de demonstrar o grau, ou nível, de maturidade e consciência ética com que se está em ambas, outrossim expressam quanto elas têm sido confundidas com o amanho das terras atreito ao mediavelismo bucólico e selecionista deserticador das mentes e tutanos lusófonos, que nos atiraram para a mediocridade vigente, posto que se há produtos culturais e conteúdos como produto de cultura, pelo menos todos aqueles que sendo matéria o não sejam exclusivamente, sendo também espirituais, alguns de elevado teor civilizacional, o que é certo, embora sempre entendidos como plataforma de intercâmbio, de transbordo, de navegação, de interface, entre o mundo físico e o mundo ideal, eles jamais serão propriedade alguma, seja de quem for, a não ser do entendimento, da compreensão, e nunca uma propriedade palpável, rotulável, atestável, com cadastro e diploma, passível de ser arroteada e explorada, como filão aurífero ou poço de crude, e sim veículo de aproximação entre o conhecimento do sujeito e o objecto cognoscível, sem outra deriva civilizacional além da curiosidade metódica e cientificamente condicionada, que assistem a quem esclarecidamente está disponível para contribuir para o bem-estar e felicidade geral, porquanto deles dependem impreterivelmente os seus. E isso é tão velho como a Lei dos Profetas, já pré-bíblica e anterior ao (Grande) Dilúvio!

11.10.2010

Mudam-se os tempos mas a crise é sempre a mesma

Os Amigos da Dívida


"Tu estás tão acorrentado
À sombra que tens ao lado
Não consegues apagar
As marcas desse passado
(...)
Mas se isso acontecer
És mais um a flipar
Mas se tu queres acabar
Ó que tu queres é drunfar

Toma um comprimido
Toma um comprimido
Toma um comprimido que isso passa"

António Variações, in Toma o Comprimido

A China produz, os chineses vendem. E compram. E negoceiam. E até endossam ou emprestam, se nisso perspectivarem benefícios chorudos.
Ainda sou do tempo, apetece dizer, para melhor o registar, como memória futura (???), em que se acreditava que os japoneses, a potência da sua economia, os seus elevados desenvolvimento, crescimento e situação financeira, seriam os "chineses" que nos salvariam das profundas agruras de uma crise (exaustivamen¬te) anunciada. Confirmada. Útil. E continuamente sujeita a novos ajustes e actualizações, agravamentos ou dificuldades, que afinal são o idílico sonho de qualquer político, para camuflar (ou disfarçar) a sua incompetência e inaptidão para as estratégias do desenvolvimento e da sustentabilidade, sobretudo desde que essas exijam ação e discernimento, que aliás muito diferentes são, em resultados, eficácia e elucubração, dos da retórica do bom, do mau e do assim-assim inerentes às marceladas das marias e dos manéis oportunamente televisionadas e sucintamente difundidas.
Fui dos que acompanharam as comitivas de altas individualidades governamentais e financeiras nipónicas por esse Portugal adiante, comendo e bebendo do bom e do melhor, tudo a expensas do erário português complementado pelas verbas do FSE e do FEDER. Em ação. Nomeadamente a dos núcleos empresariais e associações comerciais. Lembro, inclusive, que também estiveram aqui, em Portalegre, no Governo Civil, na Estalagem da Serra e na Fábrica da Rolha, quer dizer, na Robinson, que lhes foi mostrada de alto a baixo, de fio a pavio, da rolha ao granulado, com salamaleques e Porto de Honra, negócio garantido com compra afiançada e injecção de capital para marketing e modernização. Eram a salvação dela, e de uns quantos postos de trabalho, im-pres-ciiiiin-díííí-veis. Tudo parra, que uva nem vê-la. Águas de bacalhau e algumas verbas que voaram, como as pombinhas da Catarina, de mão em mão. Anéis de pouca dura, como se veio a confirmar.
Porém, de vez em quando, ei-los – os salvadores, dando à costa para gáudio da vilanagem política e eleitoral. Tudo favas contadas. As eleições consumam-se e nunca mais ninguém ouve falar dos beneméritos das pátrias amigas... da onça, se nos deixarmos enrolar na fumaça da ocasião. Sejam chineses ou venezuelanos, os meridianos podem ser diferentes que a conversa é igual. «A gente ajuda a diminuir o buraco», prometem, ao que os políticos presentes, esfregando as mãos de contentes, adiantam (mentalmente): «Boa, que nós fazemos outro, ainda maior... Vamos a ver quem ganha!» – «É a política!», esclarecem os analistas e opinion makers, «estamos todos do mesmo lado, de Portugal. O barco há de virar», para cumprir o acordo ortográfico pondo o hífen de molho, molhando a sopa. Acondutada com a certeza e confiança partidária, nos seus quadros e líderes, que garantirá o engenho e arte de inventar uma crise, o buraco, não irreversível, uma vez que isto do nem o pai morre nem a gente almoça também cansar, e ou bem que é, ou bem que não é, já chega de crises em picotado, a esgarrar-nos os tutanos e fé na nacionalidade, a esfarelar-nos a resiliência, façam essa crise durar, porra, o tempo suficiente para nos habituarmos, que isto do vai acima e vai abaixo das flexões pode inspirar músculo sim senhora, mas também exige muito feijão com couve! E osso da suã.
Todavia o mais surpreendente, é que só agora quando atravessamos o medo e a fraqueza, a informação se vai tornando franca, real e informativa, ao contrário da costumeira declaradamente deformativa, e passa ainda além da retórica conjugável no cagativo do diz-que-disse, pondo o enfoque – termo de que sinceramente desconheço a significação portuguesa, visto ser mais um estrangeirismo aportado ao oceano do nosso léxico pela via do politiquês jornalístico –, ou ênfase, nos tabus de gestão da rés que é coisa, como dívida, leilões de dívida pública, défice público, défice externo, mercado e mercados (primário, secundário, ... e superior!?), despesa intermédia, despesa corrente, investimento de risco, sustentabilidade enganosa, efeitos incontornáveis da ignorância e diminuída formação cívica, conduta democrática das autoridades e órgãos colegiais, desígnio nacional, interesse e solidariedade social vigente, corrupção e egoísmo corporativista, sentido de oportunidade e abuso de poder, prémios e luvas indevidas, etc., etc., como se eles pudessem ser simplesmente destabulizados e a partir daí, perdessem como por artes mágicas de um exorcismo excomungável, irradiados das nossas preocupações da grande família lusófona que tem por lar este erm(íni)o torrão viriatejo. É ousado, isso, convém salientar, mas se não for para manter, acaba num exercício de estilo vulgar, demonstrativo de quanto conseguimos ser verdadeiros e imunes ao espírito mercenário dos que fazem mal por bem, batem para educar, proíbem para extinguir, aumentam a mesada para não dar chatices na escola, quer dizer, no Parlamento Europeu, nos centros de decisão internacional, no melhor pano que a nódoa invariavelmente cobiça. Porque adultera, desacredita, cria a impressão geral de andar tudo e andarem todos a brincar ao faz de conta.
Ora, é de supor que tal não apareça por acaso, o que já de si é bastante grave e pejorativo, mas seja o resultado, a consequência, o efeito directo da entrada no mercado de trabalho dos "profissionais" oriundos das novas oportunidades, quiçá em período de estágio (não remunerado), que ainda não aprenderam a respeitar "a cartilha do há coisas que não se dizem" que as administrações e/ou gabinetes de publicidade costumam fazer circular nas redações do Natal ao dia S. Cristóvão, de cada ano, sob o formato e bitola da simplicidade conciliadora dos leads de encher chouriços numa paginação avisada... Ou, então, o rescrever dos livros de estilo, por exigência da entrada em vigor do Acordo Ortográfico, sabendo nós, que o ler, falar e escrever são um resultado do pensar, e que nisso do pensamento só quem é livre o faz condignamente, e em contiguidade, o que leva desde logo a pensar que alguém anda a usar a crise para melhorar de dívida, leiloando-a ao desbarato até que os "japoneses" de agora lhe peguem, a transformem, e no-la vendam como produto de sua genuína autoria e fabricação.
Dando, enfim, a entender que a dívida que eles nos compram, há de ser a pílula indicada para a nossa retoma económica. Se fosse! Mas não é, que do juro à mais-valia, os únicos bolsos em alta vão ser as bolsas com reflexos em Pequim. E basta de comprimidos para amenizar mercados, pois o que deveras precisamos é de uma operação radical que extraia os maus políticos e gestores deste nação doente, que de crise em crise, vem atravessando a História aos solavancos do exterior, desde o berço ao catratumba, pumba, pim, paz, catrapaz da palhaçada que se avizinha, para dito e feito do Acordo. Pois. E exactamente. Sem espinhas, nem pontinhas queimadas no sussurro dos ministérios. Tomando comprimidos, para deixar passar o passado, como dizia o António.

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