La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

7.31.2011

Fábulas Fantásticas, de Ambrose Bierce


O DESTINO DO POETA

Jornadeava um Objeto pela estrada real, repleto de meditações e munido de mais coisa nenhuma, quando de súbito se viu ante as portas de uma grande cidade. Tendo pedido autorização para entrar foi preso sob a suspeita de acreditar em ritos e levado à presença do Rei.
– Quem é o senhor e que profissão é a sua? – Perguntou-lhe o Soberano.
– Sou Carlos, o Larápio, gatuno de esticão – respondeu o Objeto com grande rapidez de inventiva.
O Rei ia-o mandar soltar quando o Primeiro-Ministro sugeriu o exame aos dedos do detido. Verificou-se que eram muito achatados e calosos.
– Ah! – exclamou o Monarca – eu bem vos tinha dito! O nosso homem dedica-se a contar sílabas. É poeta. Entreguem-no ao Grande Dissuasor do Hábito de ter uma Cabeça.
– Se Vossa Majestade mo permitisse – saiu-se, então, o Inventor Ordinário dos Castigos Engenhosos – eu proporia uma pena mais pesada.
– Diga, diga – assentiu o Rei.
– Que ele conserve a cabeça!
E assim foi ordenado.

In Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas, tradução de João da Fonseca Amaral

Soneto de Filinto Elísio (1734-1819)

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o com o pesar de um desgraçado,
A quem nem feições lembram da ventura.

Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Na negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água.

Consolar-me só podem já pesares;
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa!


(Nota: Caraterístico das almas românticas, o sentimento do noturno, aparece em Filinto Elísio e adquire neste soneto uma das suas mais belas expressões. Se salientarmos o tom veemente e exagerado predominante na composição, que culmina na redundância final ao encher de mágoa universal a mágoa particular do autor, notamos sobremaneira como os efeitos puramente românticos ainda continuam a funcionar no arrebatamento inicial das leituras atuais.)

7.24.2011

Conto de Terka Lux


PAULO
Conto de Terka Lux **

Perto das nove horas da noite, Paulo bateu à porta da casa do seu tio médico. Paulo era um rapaz de vinte e sete anos. O tio tinha cinquenta e cinco. Era um solteirão rabugento, meticuloso avaro de palavras.
Os dois parentes raras vezes se viam, e o médico ficou muito surpreendido com aquela aparição inesperada, feita de noite.
– Estás doente? – Perguntou, olhando para o sobrinho, de pé, diante dele, com o rosto transtornado e o olhar triste.
– É muito provável – respondeu Paulo –, e queria consultá-lo.
– Senta-te e vejamos o que tens.
Paulo sentou-se. Em frente, na secretária, estava uma caveira. Com um gesto nervoso, tapou-a com um jornal e depois, num tom a princípio baço e monótono e em seguida veemente, em frases cortantes, disse:
– Há dois anos que cortejo uma excelente e honesta rapariga. Trabalhava numa casa de costura. Eu, como sabe, estou há quatro anos num armazém de sedas. Ela é órfã, tem a minha idade, é digníssima na conduta, hábil e corajosa perante a vida, mas tão pobre como eu. É-me muito dedicada. Tenho por ela grande simpatia e, de boa vontade, a tornaria minha mulher, se a rapariga dispusesse pelo menos de cinco mil pengos. Não... contentava-me com menos... Bastava que tivesse três mil. Nem tanto. Dois mil chegavam-me. Dois mil, para poder tomar qualquer iniciativa. Mas ela não tem dinheiro e todos os dias suplica que casemos. Passa horas inteiras a chorar, enquanto discorremos sobre a vida. Digo-lhe:
"– Sossega, Julieta, peço-te encarecidamente.
– Mas eu estou sossegada – diz ela.
– Então não chores.
– É uma vontade que não te posso fazer. Isso apertar-me-ia o coração. Bem sei que nunca casarás comigo.
– Neste momento é-me impossível.
– E noutra ocasião qualquer também não poderás.
– Esperemos, Julieta.
– Esperemos, o quê? – soluça ela. – Temos vinte e sete anos. Os vinte já lá vão, e a vida que passa não recomeça. Não seremos amanhã mais ricos do que hoje e Deus não gosta das pessoas que hesitam. Não se deve levar anos a pensar no casamento. Gosto de ti, tu gostas de mim, que mais é preciso? O amor, a estima e o trabalho é que são indispensáveis. O dinheiro? Se o temos tanto melhor, mas, se o não há, é isso razão para que os pobres não se casem?"
– É assim que ela fala. É esta a sua filosofia. E isto continua assim todos os dias. Não posso mais.
– Tenho um colega – continuou Paulo –, um rapaz que vive com desafogo. Acaba de abrir um armazém numa rua de grande movimento. Dava-me sociedade se eu casasse com a irmã dele, que tem cinco mil pengos de dote. Insiste muito comigo. Quanto a Julieta, casava com ela apenas por dois mil. Sou pobre e, no casamento, os pobres não procuram o amor, mas a base da existência. Apesar disso, preferia casar com a pobre Julieta. Ela contentava-se com um quarto e cozinha, ao passo que para a outra seriam necessários dois com todo o conforto moderno, uma criada para todo o serviço, sem falar do casaco de peles, do teatro, da vida de sociedade e de toda a espécie de frivolidades. Para Julieta não é preciso nada, e do seu amor por mim tenho provas. A outra, não a conheço, e é possível que seja uma pessoa tão complicada, que me tornarei calvo depois de a conhecer a fundo. A comodidade também entra em linha de conta. Todas as raparigas, aquelas com quem casamos ou aquelas com quem não se casa, gostam de ser conquistadas primeiro. Temos de andar bem barbeados, bem vestidos, oferecer-lhes flores e mostrarmo-nos apaixonados. É aborrecido e estúpido. Faz-se isso uma ou duas vezes. Julieta é a terceira. Mas, à Quarta, ataca-nos o tédio. E receio também que digam nas minhas costas: "Este canalha seduz mulheres. Encheu de desgosto a pobre Julieta, que ficou com o coração estilhaçado como um vidro apedrejado por um garoto." E, contudo, não posso. Sou pobre...
O médico encarou-o com dureza.
– Então, que queres? Com certeza queres alguma coisa.
– Sim, quero alguma coisa – gaguejou Paulo.
– Queres casar com a rapariga rica?
– Queria.
– E a Julieta?
– Há de consolar-se.
– Suicida-se.
– Então casa com ela.
– Não posso.
– Que queres que te faça?
– Procurei-te justamente para to perguntar, por seres um homem sensato e instruído. Dá-me um conselho.
O médico encolheu os ombros.
– Não te posso dar conselho nenhum. Querias ser bom, e não podes. Querias ser mau, e também não és capaz... Nem sequer és uma dessas ovelhas que vão para onde o pastor as leva. Não podes ser nada: nem pequeno, nem grande; nem sensato, nem louco; nem ébrio, nem sóbrio. Não passas de um pateta e da pior espécie. Volta para casa e mete-te na tua cama.
O médico ergueu-se, e Paulo viu o desdém nos seus olhos frios e inteligentes. Levantou-se, por seu turno. Sentiu que praticara, ao procurá-lo, um disparate sem nome. Pegou no chapéu e saiu muito embaraçado.
O médico olhou, demoradamente, para a porta por onde Paulo saíra. Recordações antigas entravam por ela.
A sua irmã mais velha, mãe de Paulo, morrera há tempos. Era de pequena estatura, testa deprimida, olhos oblíquos e a pele amarela. Parecia chinesa. As outras duas irmãs eram bonitas e casaram cedo. E, já em nova, Madalena dava a impressão de que nunca seria feliz. Era costureira e trabalhava numa casa de modas, sob a direção de um costureiro que talhava os fatos pelos figurinos ingleses. Era marreco. Usava, como os artistas, os cabelos compridos. A cara era simpática e pálida, apesar de ter duas manchas vermelhas. Como passara três anos em Paris, falava corretamente o francês. Madalena apaixonara-se por ele ao ouvi-lo, pela primeira vez, falar francês com a dona da casa. E decidiu que casaria com o marreco. Tinha uma tão grande força de vontade, ao contrário do costureiro, alma débil, doentia e indiferente, que conseguiu o que queria. Ele morreu pouco tempo depois. Tal eram o pai e mãe de Paulo.
Sentado, no escritório, o médico acendeu um cigarro e, através do fumo, uma cena antiga se reconstituiu:
Madalena era já há muito tempo viúva. Trabalhava sozinha na sua pequena habitação, numa rua estreita. Era uma noite de Verão. A porta da cozinha encontrava-se aberta e, como Madalena adoecera, fora visitá-la. No quarto, não o ouviram entrar. Ela cosia perto da lâmpada, e Paulo, que contava então doze anos, estava sentado com os livros na frente. A mãe repreendia-o e o médico ouviu tudo o que ela lhe dizia.
– És tão estúpido, que me envergonhas. De todas as crianças dos nossos vizinhos e das pessoas das nossas relações não conheço nenhuma tão pateta. Os outros são todos rapazes inteligentes, desembaraçados... E tu?... Atrapalhas-te com tudo. Quebras a cabeça com coisas que nunca te darão o menor proveito. Os outros rapazes são simples, naturais, razoáveis; são como toda a gente. E tu?... Tu não és como os outros. Que posso fazer de ti? Ninguém te estima. Nem eu própria morro de amores por ti. Fazes sempre perguntas a que ninguém pode responder. Para quê? Não tens amigos. Como te arranjarás para viver? Estás sempre a dizer: «isto não é justo». Que coisa estúpida será, em tua opinião, a justiça? Que necessidade tens dela? Queres que toda a gente se afaste de ti? Os teus próprios professores não podem contigo. Trata mas é de estudar e de arranjar uma boa colocação. Os teus professores dizem que tu não tens nada de burro. Não acredito. Um homem inteligente não se preocupa com o que é bom para os outros, mas sim com o que a ele lhe pode interessar. Seja o que for que te digam, respondes sempre: «Examinemos isso com cuidado...» Onde já se ouviu dizer semelhante coisa? Para que queres examinar cuidadosamente coisas que ninguém examinou? Todos os garotos, incluindo o petiz do vizinho, que tem oito anos, gostam de dinheiro e de fazer negócios. Tu nunca terás para os negócios o menor jeito. Morrerás de fome. Neste mundo, hoje, todos querem arranjar dinheiro. De que raça és tu? O que tens pertence-te, mas um homem inteligente consegue também o que não está ao seu alcance. Tu... Quando chegar a vez de teres que ganhar a vida, morrerás de fome! Idiota!...
As lágrimas de Paulo rolavam-lhe pelos livros. O médico retirou-se, sem ninguém dar por ele, e foi-se embora... Tal era Paulo noutro tempo... E agora era um Paulo totalmente diferente, que saíra por aquela porta...
Nesse momento, o médico lamentava ter-lhe falado com tanta rudeza. Resolveu mandá-los chamar no dia seguinte, a ele e à rapariga. Queria ver essa Julieta. E, para que Paulo tivesse um lar, estava disposto a dar-lhe dois mil pengos. E mais mil para a sua casinha. Três mil, ao todo. E foi-se deitar.
Paulo passeou toda a noite nas margens do Danúbio. Estava uma noite escura, sem estrelas. Ele tinha medo daquela água profunda. Ao dealbar, o Danúbio tinha um aspeto muito agradável. O sol surgiu, por entre um nevoeiro cor-de-rosa, as ruas animavam-se, e Paulo deitou ao mundo um último olhar, um olhar de despedida.

** Modernista Húngaro dos princípios do século passado.

7.20.2011

Ela Partiu, conto de Tchekov

ELA PARTIU
(Conto de Tchekov – 1883)

Tinham acabado de almoçar. Da parte dos estômagos havia um bem-estar delicioso. As bocas abriam-se em bocejos e os olhos começavam a fechar-se sob uma sonolência beatífica. O marido acendeu charuto, espreguiçou-se e deixou-se cair no sofá. A esposa sentou-se a seu lado e principiou a ronronar... Eram ambos muito felizes.
– Conta-me qualquer coisa – disse ele, bocejando.
– Que hei de contar-te? Hum... Ah, sim; já sabes? Sofia casou-se ontem com o... Como se chama?... Von Tramb. É um escândalo!
– Um escândalo, porquê?
– Porque esse Von Tramb é um crápula. Um patife, um homem sem escrúpulos, sem o menor princípio! Um monstro de imoralidade. Foi administrador do conde e encheu as algibeiras, agora é empregado nos caminhos-de-ferro e desfalca. Despojou a irmã. Numa palavra, é um biltre e um ladrão. E casar-se com semelhante indivíduo! Viver com ele! Tanto mais que se trata de uma rapariga decente. Por nada deste mundo eu casaria com tal homem. Ainda que fosse milionário e mais bonito do que ninguém, eu mandava-o... passear! Nem posso conceber a ideia de um marido tão desonesto.
Levantou-se num pulo e, vermelha de indignação, começou a andar de cá para lá na sala. A cólera brilhava-lhe nos olhos. Era evidente a sua sinceridade.
– Que tipo aquele Von Tramb! E mil vezes tolas, mil vezes cobardes, as mulheres que se ligam a semelhantes cavalheiros!
– Hum... Não serias tu, com certeza, que casarias... mas se soubesses agora que também sou um patife... Que farias?
– Eu?! Deixava-te! Não ficava contigo nem mais um segundo. Só posso amar um homem honesto. Se soubesse que fazias a centésima parte do que fez Von Tramb dizia-te Adeus sem perda de um instante.
– Ah, sim? Que mulher eu tenho aqui! E eu que nem suspeitava... Ah, ah, ah! As mulheres mentem sem sequer corar!
– Eu nunca minto. Experimenta cometer um ato indigno e verás!
– Para quê experimentar? Tu própria o sabes... Sou muito mais velhaco que esse Von Tramb. Comparado comigo ele é um insignificante. Arregalas os olhos? É extraordinário. – Pausa. – Quanto ganho?
– Três mil rublos por ano.
– E o colar que te comprei a semana passada, quanto custou? Dois mil, não foi? E o vestido, ontem? Quinhentos... A casa de campo? Dois mil... Ah, ah, ah! Ontem o teu papá apanhou-me mais mil rublos...
– Mas, Piotr, os teus rendimentos suplementares?
– Os cavalos... O médico da família... As contas das modistas... Há três dias perdeste cem rublos às cartas.
O marido endireitou-se e, cruzando as mãos sob o queixo, relatou, até ao fim, a lista das suas proezas. Em seguida foi ao escritório e mostrou à mulher algumas provas materiais.
– Como vês, querida, o teu Von Tramb não é mais que uma brincadeira, um ladrãozinho, ao pé de mim. Adeus! Vai-te embora e, de futuro, abstém-te de julgar.
Terminei. Talvez o leitor me pergunte:
– E ela partiu?
Sim, partiu... para a sala contígua.

7.19.2011

Um conto de Marie Berde

O JARDIM AINDA O IGNORA
Conto de Marie Berde*


O jardim era tratado com o carinho que uma mulher apaixonada costuma dispensar ao seu ninho de amor. Assemelhava-se a um templo de ritos secretos, a um leito nupcial com recolhimento: era misterioso, faustoso e puro. As janelas do prédio que deitavam para as traseiras estavam ocultas pela abóbada da folhagem das tuias [árvores coníferas]. Em frente do terraço, viam-se platibandas [bordaduras dos canteiros de um jardim], as áleas de areia dourada e grossa, tapetes de verdura reluzentes como esmeraldas, cujo brilho instável anunciava a Primavera, com a brancura terna das flores de fogo desaparecidas sob a geada.
Mas, apesar disso, havia no jardim mais verdura do que flores. No meio das platibandas e nos recantos viam-se pequenas palmeiras e piteiras que ostentavam a sua rígida beleza de plantas do Sul, e, em volta de vasos de mármore com veios cor-de-rosa, as rosas dos rochedos concentravam-se em montículos escarlates.
Para além das platibandas, os silvados formavam, confundindo-se, áleas compridas, onde imperava uma luz verde. Ali, os pássaros, estavam como em sua casa, quer os canoros como os silenciosos, de que apenas se ouvia o suave murmúrio e o ruflar das asas ao rés da folhagem...
Tal era o jardim em cujo terraço se sentaram pela primeira vez, depois de terem trocado beijos de amor sob as estrelas, para que elas, que nunca desaparecerão, fossem as testemunhas do seu encontro. Ali, até ao terra, à direita, havia a sombra dos caramanchões, onde eles liam os livros em que se encontravam a si próprios. Era lá que ela cerrava os olhos sobre os sofrimentos inverosimilmente belos do jovem Werther, e que, lendo Baudelaire, escondia o rosto na massa sedosa de que o fresco perfume evocava os bálsamos opulentos da casca do abeto fendido.
À esquerda, por entre os pinheiros, havia uma rede. Quantas vezes ele ali a encontrara! Sentava-se ao lado dela, e talvez nunca tivesse passado horas tão belas como aquelas em esperava o seu despertar...
Ou provavelmente a mais bela de todas teria sido uma em que lhe viu brilhar a primeira lágrima. Não foi do seu amor que ela brotou, mas da doença de uma criança, um dos seus parentes, a quem nunca vira e por quem reaprendera as orações da sua infância, só para ver um sorriso nos lábios da amada.
A vida era encantadora, rica e imutável, ao pé dela.
Os anos passaram sem causar dano à sua beleza, à sua bondade e ao seu encanto. O seu amor por ela tornou-se um verdadeiro culto insubstituível.
Naquele dia apareceram de novo no terraço, e nunca, nem o jardim, nem a mulher, tinham sido tão belos, em sua pompa colorida. As orlas dos canteiros cintilavam como se fossem iluminadas de baixo para cima. As flores pareciam hesitar entre o branco e o azul primaveris, e as orgias de amarelo e de vermelho outonais.
Da tonalidade mais suave do ponto extremo do céu, que avistava, ao azul vertiginoso do zénite, ao cor-de-rosa resplandecente dos botões rústicos, passando pela rosa lilás, as campânulas prodigalizavam a sua beleza, e as dedaleiras acendiam, em volta delas, chamas vermelhas e amarelas.
Agora o homem compreendia porque lhe barrara ela, durante tanto tempo, a porta do jardim.
Reservava-lhe, como surpresa, a floração estival. Dir-se-ia que toda aquela pompa se repetia nela: sobre a brancura imaculada da testa, a linha azulada das têmporas, a cara rosa pela emoção, os lábios avermelhados pelos beijos. O seu vestido também parecia copiar, num verde mais delicado, as ervas mais claras, e o veludo dos seus olhos dir-se-ia querer lutar com as pétalas dos pensamentos. Para os seus cabelos não encontra matizes semelhantes, nem nas manchas de ocre vermelho das énulas [Plantas vivazes da família das Compostas. Têm raízes grossas, caules robustos até dois metros de altura, folhas caulinares sésseis, amplexicaules e flores amarelas dispostas em grandes capítulos. Cultivadas como ornamentais em Portugal, são conhecidas na Europa desde a Antiguidade pelas propriedades medicinais das suas raízes], nem no pólen das rosas desfolhadas. Durante o longo e mudo êxtase que se seguiu, a mulher tornou-se lentamente sombria.
– O jardim ainda o ignora... – disse ela, e a voz estrangulou-se-lhe.
– Ignora, o quê?
Como resposta, ela pegou-lhe na mão, e fê-lo caminhar a seu lado. Não encontrou resistência; além disso, quando ele sentia a sua mão, nunca lhe perguntava para onde o conduzia. Do outro lado dos canteiros, em que se abria o primeiro corredor de verdura, a hera pendia em compridas abóbadas. As folhas eram espessas, duras, de um verde-escuro, e dir-se-ia que nas suas nervuras brancas corriam um sangue puro e fresco.
Estendeu a mão para a hera, puxou-a para si e designou uma folha dum amarelo d cera:
– A primeira... – disse ela suavemente.
Largou a hera, que lhe roçou os cabelos, desmanchando-lhos. Quis alisá-los suavemente. E, então, algo atraiu o seu olhar. Um cabelo curto, que ficara solto, da cor de um fio de prata, na massa de um castanho metálico.
– O jardim ignora ainda – repetiu a mulher –, que o Outono abriu nele uma clareira.
E prosseguiu:
– Uma clareira, não; uma pequena fenda, um postigo por onde observa o jogo de cores, antes de as varrer.
Enquanto falava, continuava a caminhar, de cabeça baixa, seguida pelo homem.
Sentaram-se num banco. O homem estava pálido como a folha da hera amarelecida.
– Sinto-me cansado – disse ele.
Deitou-se no banco, reclinou a cabeça sobre os joelhos da mulher, e fechou os olhos, para não ser obrigado a falar...
Uma imagem começava a atormentá-lo... Via-a, em frente do espelho, quando ela notasse o primeiro cabelo branco.
Ela nunca lhe pedira – pelo menos nunca em tal lhe falara – que abandonasse a paz do seu lar, a sua mulher e os seus filhos, e lhe desse o que sobrevive a um amor passageiro: um filho.
Fora do seu amor, ela nada tinha. Diante do seu primeiro cabelo branco, estremeceria de medo, do medo inconfessado de perder o seu único bem, pelo qual tudo sacrificara.
Via debater-se esta esbelta e magnífica criatura, que ele conhecia como uma harmonia perfeita. Debater-se e talvez, algum dia, inexplicavelmente, dizer-lhe Adeus, depois de um combate travado na sua alma. De cabelos brancos pode ser-se esposa e mãe, digna de amor, respeito, veneração, mas à amante, à amante magnífica, só dizer-se-lhe Adeus sem um queixume.
Apertava-se-lhe o coração e só uma ideia o consolava.
Um sentimento difuso, a custo definido: que não era por ele próprio, mas por ela, que o coração se lhe oprimia; por ela, que ele via na sua frente, com um vestido sombrio como o das religiosas, quando só lhe restasse o rito funerário do passado.
Entretanto, ele não tardaria a depor um beijo na testa da filha, no dia em que ela casasse, e a apertar a mão ao filho, no começo da sua carreira. E o andar ágil dos netos daria a medida das suas alegrias domésticas, enquanto, para ela, a neve cairia no seu jardim e alastraria... alastraria num amplo lençol, porque não havia ninguém para a pisar. Só as patinhas minúsculas dos pássaros lhe imprimiriam pequenas estrelas...
A tristeza da mulher passou como a sombra da nuvem, sobre a qual a profundidade das cores ressaltava ainda mais vigorosamente. A languidez delicada, quase agradável, da sua melancolia só se transmudou em emoção, quando ouviu o homem suspirar. E foi então, ao inclinar-se para ele, que viu no canto dos seus olhos lágrimas que não podiam correr.
– Diz-me, em nome do céu: causei-te tristeza por causa desta primeira folha amarela?
Baixou, quase imperceptivelmente, os olhos e fez-lhe um sinal afirmativo. E sentiu naquele olhar a moleza de um lenço: suavemente, num tom maternal, como a um doente, ao qual se quer ocultar pormenores entristecedores.
– Escondamos as tuas lágrimas. Não quero que o jardim saiba que choraste. Que ele continue a florir por mais algum tempo, tranquilamente, sem desconfiar que a sua beleza já foi atingida...
No pequenino lenço de cambraia, recolheu as suas lágrimas e, como se tivesse brotado pelo que havia para ela de mais precioso no mundo, ocultou-as no seu peito, que escaldava.


* Nasceu em 1889, na Transilvânia (Kacho). Foi nos seus primeiros tempos, antes de ingressar numa carreira literária, professora de escola profissional, tendo sido conhecida principalmente como romancista e dramaturga. Nas suas obras refletem-se o caos trágico da vida moderna e a introspeção dos seres solitários e simples. Entre os seus mais populares romances destacam-se O Filme Eterno, Dança Macabra e Vergonha Sagrada.

7.12.2011

Piafé e marcar passo são andamentos de não ir a lado algum

Não Mais o Stop and Go


"O exercício do poder consiste tanto em lutar democraticamente pela sua conquista, como em saber sair do poder por mais que se invoque o interesse nacional como único motivo para dele não sair."
In Francisco Pinto Balsemão, Exercício do Poder e "Jogo de Vulgaridades", Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 4, Volume II, Setembro/Dezembro de 1984.

Tal como Roma, Mora e Pavia não se fizeram num só dia, também Portugal não sairá da cepa torta de um momento para o outro, por mais que os governos se esforcem a implementar as medidas enunciadas no plano (ou memorando) da Troika, adoptadas como programa de governo, sobretudo se para tanto não for acompanhado por uma onda de empenho e solidariedade dos demais cidadãos portugueses, sem responsabilidades administrativas e de gestão, é óbvio, mas que se subscrevem na linha de uma participação ativa, emancipada, consciente e amadurecida no exemplar reconhecimento das dificuldades com que nos iremos deparar no futuro próximo, tão próximo, que em nada não se distingue do presente. É urgente que esta tomada de consciência se faça com prontidão e não se atenha somente às forças políticas do arco governativo, antes pelo contrário assuma a dimensão de um desígnio nacional abrangente, rigoroso e sem ressentimentos. Desafetos políticos, objetivos eleitoralistas ou regionalismos divisórios. Eu próprio, que fui candidato à Assembleia da República por uma força da esquerda progressista não me coíbo de apoiar este governo em tudo o que for a favor da sustentabilidade, do equilíbrio das contas públicas, da resolução dos problemas estruturais e do emprego, de combate ao défice e investimento para o crescimento, do desenvolvimento humano, da segurança, da imagem externa e do recuperar da confiança dos mercados, do relacionamento entre Portugal e demais membros da CPLP, da biodiversidade, património, do racional ordenamento do território e da cidadania. E não me caem os parêntesis na lama por isso!
Entre o Bogio e a Boca do Inferno não há meio-termo, precisamente porque enquanto se discute e procuram bodes expiatórios as dificuldades aumentam, cavalgam, endurecem nas caraterísticas e especializam-se na eficácia. Não podemos continuar a fingir que tudo está bem e se recomenda, só para ganhar vantagens competitivas de lana-caprina e lugar de abençoado nas simpatias dos encarregados de secção, nem jogar de arrepio e tabela seca, dando garantias de uma coisa ser boa, ou óptima, só porque é nacional ou quem a vende morar na nossa rua, quando lhe vemos defeito e consequências nefastas, embora estas não nos prejudiquem diretamente mas a terceiros, pois não é pelo fato de estarmos todos mal que alguns têm que ficar ainda pior para beneficiar quem sempre se esteve nas tintas para quem estava mal quando nós andávamos a apanhar bonés. Uma crise não é uma esponja para apagar passados, nem muito menos um salvo-conduto para quem se conduziu no desmérito. Se há algo que antes era abominável, continua a sê-lo, e agora com muitos mais razões para o rejeitarmos. Porém, devemos abdicar de preconceitos e fatalismos, uma vez que temos que romper com aquilo que reforça sobremaneira a inércia portuguesa à inovação, reforma e mudança, sobretudo devido a estas se encontrarem ainda bloqueadas em três níveis distintos:
Bloqueadas culturalmente pela típica e tradicional da tenebrosa aversão ao risco, alicerçada nas rotinas e modos “estereotipados” e obsoletos de operar, escorados pela memória e reputação (narcísica), enciclopédicos, que impedem e obstaculizam à criatividade, originalidade e modernização;
Bloqueados administrativamente em consequência do inúmero e respectiva multiplicação de organismos públicos/fundações/secretarias/direções/agências e similares com competências mal definidas (e duplicadas), insustentáveis num Estado ainda simultaneamente centralizado que coexiste com feto raquítico dos corpos regionais, misturando competências e serviços numa amálgama sem lógica nem localização racional;
E bloqueadas politicamente porque o sistema eleitoral, a começar pela Lei nº 14/79, de 16 de Março, atiram o país para o ritmo de reformas do stop and go que é uma forma de parecer que muda ficando tudo na mesma, e às vezes até pior, a marcar passo num piafé de fraca escola e rafeiro estilo.
Enfim, a sociedade portuguesa que se apresta neste entrementes para se consolidar nos quadros interno, europeu e mundial, como uma sociedade amadurecida e emancipada à custa do esforço consciente dos cidadãos responsáveis, quer dizer, sofrido e adulto, dos próximos anos, será indiscutivelmente diferente daquela a que sobrevivemos caracterizada pelo laxismo, chico-espertismo e bairrismo corporativista serôdio, das últimas décadas, e ainda bem; sobretudo porque não nos podemos dar mais ao luxo do desenvolvimento por solavancos e arremetidas de alternância do vira-o-disco-e-toca-o-mesmo em que o stop and go nos solfeja as políticas, nem cair em propensas desforras à custa da qualidade de vida, bem-estar e progresso deste povo que não pediu para ser português mas não se importa, como até se orgulha disso.
Portanto, temos um governo e um enorme problema entre as mãos. Não é que não possamos falhar, nem tenhamos qualquer obrigação de fazer aquilo que outros ostensivamente destruíram. Mas temos cara, e queremos andar por todo o mundo sem vergonha da mostrar destapada, aberta e resplandecente. É essa a nossa vitória: consegui-lo. Entre outras menores e momentâneas, que as mais das vezes caem no ridículo… E, se for preciso, mudar outra vez, fazemo-lo, sem desprimor para ninguém. A nossa soberania não se trespassa em mercado ideológico nenhum desde que o tempo se começou a medir por badaladas lusitanas!

7.11.2011

Bernstein e a Social-Democracia

Mudar com a mudança do mudar


“(…)

Sentirás quanto amarga; quanto anseia
O sal de estranho pão; que é dura estrada
Subir, descer degraus da escada alheia.

Tua angústia há de ser mais agravada.
Te acompanhará no vale do exílio, vendo
Ignóbil gente, estólida, malvada.”

In XVII Canto do Paraíso, de Dante Alighieri (1265-1321)

Entendamos a mudança como a inequívoca transição entre dois Estados estáveis e distintos. Embora esta se tenha feito de forma lenta, tardia e com o serôdio de uma crise que começou a cumprir-se quando a maioria a entendia apenas como uma ameaça, o que é certo, é que o Estado, cujo governo saiu da batuta do PSD e de Passos Coelho, não é o mesmo que o PS e José Sócrates orquestraram (de tão requiem tom). E a sociedade também. Se quando ela muda exige novo governo, a verdade é que quando tem novo governo este a motiva para nova mudança. Bernstein, ao aperceber-se da dinâmica constante inerente a esta mudança, sentiu a necessidade de esclarecer-se conforme a evolução socioeconómica e abandonou os dogmatismos simplificadores das teorias marxistas e nacionalistas, fundamentais, aprofundando-a, dando uma nova expressão ao socialismo, excluindo o caráter finalista deste, e quiçá escatológica, de uma sociedade perfeita para justificar o deitar mão de todos e quaisquer expedientes ou meios que a consolidem, e colocou o acento tónico na via da execução das reformas graduais e adaptadas permanentemente à realidade, promovendo assim a mudança que a si mesma se vai mudando dentro da estabilidade gradualmente conseguida, dando a este modelo evolutivo o nome de social-democracia.
É preciso encontrar as soluções que melhor se adeqúem ao momento histórico que agora atravessamos, e não basta o Mayor dos municípios, Ruas de nome mas de rotundas pronúncias, retóricas e efeitos, vir à praça pública puxar as brasas prà sua sardinha, propalando que a parcela da dívida da generalidade das autarquias não se deve aos custos com pessoal, porque deve!, e não como circunstância direta da transferência de competências de alguns ministérios – educação, quase todos! – para as autarquias, ou que a percentagem dessa dívida comparada com a do poder central ser diminuta – 20% –, porque também não é, considerando o elevado número de câmaras municipais (380) que há em Portugal, pretendendo defender a sua corporação atacando as outras, além do posto que nela tem e desempenha, para que se possa acreditar minimamente que a responsabilidade no défice não lhes cabe com elevada relevância, uma vez que as autarquias, conforme é observável a olhos vistos – conforme a proximidade revela! –, têm vindo a satisfazer clientelismos políticos que, na prática e no terreno, faz disso uma descarada inverdade, pela numerosa quantidade de pessoas sem préstimos, funções, nem habilitações que albergam, e nada fazem, além de alguns "mandados" pràs chefias deste ou daquele sector, que apaparicam com mimos e presentes vários, sempre que a coisa está mais tremida, que desde que entram até que saem apenas se dedicam à quadrilhice pura e desabrida, fazendo comentários gratuitos acerca de quem chega e de quem parte, difamando este e aquele, apontando defeitos pessoais, handicaps ou companhias, e que continuamente vão "deambulando" nas bibliotecas municipais, nos centros de arte e espetáculos, nos museus e serviços municipalizados, como se às dificuldades que ao país acometem fossem superiores, alheios e, sobretudo, delas únicos beneficiários.
E soluções inovadoras. Posto que, politicamente, a inovação significa reforma, reforma das pessoas como reforma do sistema social, consequente adaptação e modernização das estruturas do poder, solidariedade entre as franjas sociais, grupos e comunidades, bem como o inequívoco assumir dos novos valores, nomeadamente o da sustentabilidade e da biodiversidade, isto é, um intercâmbio de identificação plena entre a inovação em si mesma e as noções teóricas e práticas, efetivas e profundas da social-democracia, que é o único caminho e modelo de desenvolvimento socioeconómico que conjuga a criatividade individual, o respeito pela pessoa humana, os mecanismos de decisão e as necessidades sociais e individuais com acuidade soberana no exercício efetivo da democracia da participação e da cidadania, com inigualável êxito, até hoje conhecido, reconhecido e valorizado no nosso país, eleitoralmente pelo menos, se atendermos não só às últimas legislativas mas também a quantas desde a implantação da República nele aconteceram.
Ou seja, é preciso reformar inovando, mas inovar às vezes significa apenas fazer justiça para criar uma sociedade mais harmonizada, ter da política uma visão estética (Francisco Sá Carneiro), o que passa irremediavelmente por convidar essas pessoas a sair, a reformarem-se, pondo assim definitivamente fim à injustiça social praticada e evidente com a sua admissão, e não vale a pena argumentar que a sua reforma será onerosa porquanto todos sabemos, segundo as últimas notícias, a maior parte dos rendimentos mínimos, subsídios disto e daquilo que o Ministério dos Assuntos Sociais e demais organismos de assistência social emitiram nos últimos anos foram ilegalidades com custos elevados, e que dificilmente serão recuperáveis. Ou disto também são as agências de rating, na sua manifesta má vontade americana, as responsáveis?
Cá me queria parecer! Quanto mais depressa acabarem com a mentira a que chamam política mais depressa também se ganhará a confiança dos mass media, dos mercados, dos investidores, da banca, das agências internacionais de notação, dos eleitores, dos portugueses e europeus, dos críticos e intelectuais, dos trabalhadores e seus representantes, se honestos forem; enfim, mais depressa chegaremos ao espírito reformista de uma social-democracia em mudança dentro da estabilidade imprescindível e harmoniosa. Uma sociedade mais bonita e feliz!

7.07.2011

A Indiferença só prolifera onde falta a Diferença


Pedro e o Lobo

“ – A minha ambição não é pessoal – dizia-me [Francisco Sá Carneiro] em Berlim e foi-mo repetindo nos anos que se seguiram. – A minha ambição é estética. Quero chegar, democraticamente, ao poder para que as coisas funcionem com harmonia, para que acabem as aberrações e as originalidades à portuguesa. Acredito numa sociedade portuguesa moderna, livre, europeia, capaz de se transformar a si própria, através de reformas sucessivas que não se limitem aos aspetos políticos, mas abranjam também o plano económico e social.”
In Francisco Pinto Balsemão, A Conversa de Berlim e o Estudo que Está por Fazer, Editorial da Revista Progresso Social e Democracia, nº 3, Vol. II, Junho de 1984.

A história é bastante antiga. Tão velha, mas tanto, que a maior parte das pessoas já lhe conhece a moral de nascença, algo que lhe vem por via genética. Está-lhes no sangue, e por herança. Portanto, repetir que as ações de cosmética político-sistemática já não pegam, tornou-se numa espécie de cliché.
E o recado das agências internacionais de mercado que foi dado a Portugal não poderia ter sido mais claro do que foi: a dívida soberana portuguesa é, simples e inequivocamente, LIXO. Ora, se a Europa conhece Portugal melhor que as agências de rating, como se depreende do “discurso” de Durão Barroso, quando diz que nós – e esse nós deve ser o majestático para BCE, FMI e Comissão Europeia… – “conhecemos melhor Portugal do que as agências internacionais”, então não restam dúvidas que o melindre é totalmente injustificado. O mercado não se deixa enganar, nem mesmo quando prefere demonstrar que engoliu a fava na boa e sem qualquer ressaibo. O mercado, e o algodão!
Presentemente tem que se ir mais longe fazendo melhor, porque a época é diferente das que anteriormente vivemos, a conjuntura e as circunstâncias são outras, a Sociedade é diferente – e a função do Estado também. Já lá vai o tempo em que as interrogações de José Luís Aranguren eram, além de pertinentes, uma incompreendida ousadia. Porquanto hoje ninguém desconhece que se a “historiografia do século XIX foi a dos Estados nacionais, e a do século XX a dos internacionalismos, então a historiografia do século XXI é a historiografia do supranacional”. Num país ou num partido político, numa região ou num qualquer organismo público, num órgão de soberania como numa instituição, o direito de existir implica a obrigação de agir e atuar. O direito à diferença obriga a ser diferente, e isso só se nota quando se alteram significativamente as condições e os recursos.
E Portugal tem que sê-lo (diferente), não pela arruaça e fuga para a frente, pela batota da renegociação sem termos nada para oferecer em troca de facilidades, mas pelo sentido de responsabilidade e compromisso, pelo empenho e criatividade, pelo empreendedorismo e capacidade de inventar novas soluções para os novos problemas que em catadupa nos hão de surgir. Andar a difamar os árbitros para contestar os resultados não é uma atitude adulta e muito menos democrática. Adiar a amputação total de alguns órgãos contaminados pelo corporativismo obsoleto e cancerígeno apenas nos vai prolongar a agonia e espalhar mais metástases pelos demais órgãos “ainda úteis e saudáveis”, e não erradicar o défice existente. Portanto, o caminho a seguir é sobejamente claro e óbvio!
Ou seja, as medidas para inglês ver não pegam. Não se pode continuar a fazer mudanças do tipo faz-de-conta para tudo ficar na mesma; mudanças do género “outras” caras, outras chefias, outros nomes para as instituições e organismos públicos, outra maneira de contabilizar os gastos e os custos, a que comummente chamam investimento, ou outras políticas e diretrizes. Não pega, e pronto. É preciso agir, concretizar no terreno as promessas assumidas do memorando da troika, e para isso, não basta transformá-las em Programa de Governo, XIX ao caso, e só no fim é que alguém dirá, talvez desta vez não seja mais um bluff para sacar umas massas aos tutores financeiros. Em matéria de convergência se não tivemos mau, foi porque tivemos quem nos puxou para medíocre. No capítulo do desenvolvimento sustentado, baldamo-nos categoricamente – e ainda baldamos. Na política socioeconómica, aí é que sentimos profundamente as alterações climáticas: metemos água que dava (para) três sismos/tsunamis com epicentro na Trafaria.
Política não é como o futebol onde, quando perdemos ou o resultado não é aquele que esperávamos, a culpa é sempre do árbitro. Das agências de avaliação ou rating. Não foram tomadas as medidas adequadas e depois culpamos as agências internacionais, invectivando-as de defenderem interesses americanos e obscuros. De serem mal-intencionadas e maliciosas. E esquecemos que já Natália Correia classificava tal conduta de criancismo… Quem é queremos enganar? As agências e mercados internacionais ou a nós mesmos?
Provavelmente não temos cura. Só sabemos sacudir a água do capote. De preferência para cima do vizinho do lado. Agora, se os espanhóis fizerem o mesmo, aqui d’El Rei! São murros no estômago prà’qui, pontapés no cu prà’li, rasteiras acolá.
Haja vergonha na cara. Os mercados precisam de ver os números do défice a baixar, não por consequência da alteração das fórmulas de cálculo, mas por observarem no terreno que os parasitas ligados ao SNS, à Educação, ao poder local, à Cultura, ao Turismo, ao Ensino Superior, à Justiça e Segurança, aos Assuntos Sociais, à Administração Central, Regional e Local, enfim, às circunscrições da coisa pública, sobretudo os inúteis e disfuncionais, os sem habilitações e menos consciência cívica, os irresponsáveis e incompetentes, estão a ir para outras bandas, de preferência para emigração que é o destino para onde estão a empurrar os recém-formados sem colocação neste país. Acabou o tempo das coreografias de mudar de caras e continuar com a mesma vergonha (nacional).
Em resumo, se o lobo é maior e a história é outra, então, porque é que o Pedro é o mesmo? Frontalidade, objetividade e coragem política, como a cautela e os caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém e, pelo contrário, podem até fazer o bem.
Desde há milénios que sempre foi a falta de diferença que gerou a indiferença. É essa a particularidade da arte. Incluindo a de governar, como apontou Maquiavel. E o que é preciso, é ambição estética!
Pois.

7.05.2011

É preciso descolonizar o Estado

De quando os exemplos não passem disso mesmo…e até possam vir de cima!



“Abre mão das poesias,
que nenhum préstimo têm,
e cuida em sólidos meios
de ganhar algum vintém.

Se dizes que contra os versos
em verso uma carta ordeno
e que aqui me contradigo,
praticando o que condeno,

A teu forçoso argumento
respondo com Frei Tomás:
faze o que o pregador diz,
não faças o que ele faz. "

Nicolau Tolentino (1740-1811)



Tal como na indústria e comercialização de produtos electrónicos e de comunicações, estar doente em Portugal precisa de um autêntico curso de utente do SNS, de operador burocrático e/ou de descodificação dos diversos manuais de utilizador, livros de instruções que impreterivelmente andam anexos à área afetada, do género faça você mesmo ou como complicar tudo aquilo que é fácil e óbvio, desobviar toda e qualquer clareza processual existente, em nome do rigor, do corporativismo, da racionalização de recursos e da (in)competência modelar, sistemática e doutrinal. Até porque ninguém duvida da razão que aconselha descolonizar o Estado desse corporativismo abjeto que gerou a “situação explosiva” em que nos encontramos e que nos impede de nos libertarmos da grelha que está a apertar-nos cada dia mais, ajudada pelo défice e endividamento do país.
Senão, vejamos. Aprofundar a democracia, o que inclui aumentar o número de democratas por metro quadrado do nosso território, seja essa democracia social ou socialista, bem como contribuir para a definição clara e inequívoca da sociedade do conhecimento e da informação, passa imprescindivelmente pelo reconhecimento humanizado das dificuldades, limites e circunstâncias do outro, na direta contemplação da Constituição da República, do Tratado Europeu e dos Direitos do Homem que lhes está apensada. E a ideia nem é nova, visto que já Francisco Sá Carneiro a enunciava no último Conselho Nacional do PSD em que participou, precisamente em 18 de Outubro de 1980, reiterando que tinha para si que se impunha ao Partido Social Democrata “uma reflexão sobre o que é que deve ser a social-democracia em Portugal, quais os valores fundamentais a prosseguir, como prossegui-los, quais as implicações para os diversos estratos, desde a juventude aos socioprofissionais, às empresas, à orientação económica, à orientação da política social. Tudo isso tem que ser aprofundado entre nós.”
Ora, aconteceu que o imponderável surgiu sob a forma duma fatalidade, e não pôde Sá Carneiro ir além das palavras, concretizando as suas teses em políticas e práticas efetivas, embora o ideal social-democrata não tenha perecido com ele, pelo menos a considerar pelas vezes que foi o partido por ele fundado arauto da governação, como anteriormente esteve com a AD e Aníbal Cavaco Silva, quer como oposição empenhada e responsável, à semelhança do que sucedeu antes destas eleições que lhe trouxeram, sob as orientações e estratégias de Passos Coelho, novamente o ónus – ou, tendo em conta o atual estado da economia e do país, será mais adequado dizer o handicap – da administração do Estado e do governo.
É provável que Mário Soares noutras alturas e por diferentes motivos tenha dito exatamente o mesmo por parecidas palavras, mas a propósito do socialismo democrático, o que não retira valor nenhum ao atrás enunciado nem acrescenta coisa alguma ao que adiante se dirá. Sobretudo porque não interessa de onde venham as boas ideias, desde que venham em formato de ideias e não de ordens ou ultimatos, e se verifique que a sociedade portuguesa estará sempre disponível para rever as ideias já tomadas como para se insuflar e adoptar as novas, segundo salientou Passos Coelho na Assembleia da República, aquando da apresentação do Programa do XIX Governo, registo positivo sem dúvida alguma, e que nos aconselha de como convém relembrar as palavras de Francisco Sá Carneiro no Discurso de Abertura do I Congresso do PPD, em 1974, em que punha acento tónico e imperativo no fato de que “nunca nos definiremos por negação ou ataque às outras correntes políticas, sejam elas quais forem. [Mas] sim pela afirmação clara da única via que, de
acordo com o que mostra a História, permite pôr termo às desigualdades e injustiças existentes nas sociedades europeias sem pôr em risco as liberdades fundamentais e a dignidade da Pessoa Humana”, para que o “cumprimento dos objetivos do programa de ajustamento da economia portuguesa[, que] terá precedência sobre quaisquer outros objetivos” (Passos Coelho), se faça de forma a contribuir para o fim do atual estado de coisas, em que os portugueses com habilitações próprias e escolaridade mais que suficiente deixem de ser obrigados a emigrar para arranjar emprego, enquanto os/as graxistas e lambe-botas amesendados na função pública, inábeis para o serviço, admitidos por cunha ou rotativismo político-eleitoral, lhe estão a ocupar os postos de trabalho, prejudicando seriamente o país, a governação e os utentes/utilizadores dos ditos serviços, nomeadamente na área da saúde, que é onde esse flagelo mais se faz notar.
Eu sei que qualquer governante gostaria de manter os funcionários públicos calados e contentes, por mais imprestáveis que muitos sejam e careçam do saber estar e saber ser que observe o estipulado pelos Direitos Humanos, pela Constituição da República e pelo Tratado da União, todavia é impossível mudar de rumo e alcançar progressos no combate às injustiças e desigualdades em prol da dignidade da Pessoa Humana, se essa expurga dos maus funcionários não se verificar em tempo útil e de forma acelerada, se não quisermos falhar os compromissos constantes do memorando da Troika, aumentando a insustentabilidade económica, social e política, conforme traduziu a inquietação do nosso presidente da República nas últimas declarações aos mass media nacionais, o que não espelha qualquer alarmismo mas antes uma prudência ganha naquele tipo de saber de experiência feito que de acordo com o que mostra a História nos pode – e deve! – gizar as linhas do futuro.
Nem mais, que pensar e agir de outro modo seria poesia (de má índole e piores efeitos, por muita irrealidade e ilusão acender), ou retórica de Frei Tomás cuja qualidade suprema somente residia no que dizia mas nunca no que fazia. E quem não quer ser frade, não lhe usa o hábito!

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