La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

6.10.2014



À BOCA DA BICA

Depois de terem entregado a exploração dos recursos hídricos às empresas públicas (com gestão privada) a água, tal como aparentemente sucede e a maioria constata, deixou de ser um bem de consumo essencial e livre, passando a ser uma mercadoria, mais uma!, transacionável, negociável e sujeita às especulações do costume, conforme é praxe nos meios de  apropriação da coisa pública por concessão. E aquela que corre nas fontes, o que nunca é afirmado clara e diretamente, mas simplesmente enunciado pelo dístico que lhe está afixado em letra garrafal, ainda’ssim o bebente não seja míope, indicando que a dita «água naõ foi sujeita a exame bacteriológico», que o mesmo é dizer a quem passa, que se está a morrer de sede pode arriscar, mas se aguentar mais um pouco, alguns quilómetros mais adiante encontrará uma tasca providencialmente aberta àquela hora, onde poderá dessedentar-se com um quartilho dela ao módico preço de um “penalty” do tinto corrente, haja ou não haja pipa à vista. O que, é caso para sublinhamento, põe qualquer santo a balançar…

Ora, acerca desta e doutras observâncias que tais, para nosso regozijo e galhardia, é sempre reconfortante saber que nunca falta nessas casas quem esteja pronto a esclarecer-nos as dúvidas, afiançando-nos que «isto é por causa do progresso, e não passa de mais um sinal da mudança dos tempos», garantindo que a coisa está bem encaminhada, embora não satisfaça a todos, pois tal é impossível, e se fôssemos nós a mandar, então que seria o descalabro total, a modos que assim como o tempo, que quando uns querem seco outros molhado, e vice-versa.

Mas a sorte, é que também, nunca nos falta quem, mais chegado e em surdina, nos faça arrebitar a orelha, sentenciando sabiamente o tal «isso sim… Qual mudança, qual carapuça! É, é a mesma coisa de sempre: uns amanham-se, outros aguentam-se». Ou, como costumava dizer a minha avó, que só mentia quando não tinha outro remédio: “uns comem os figos, e a outros arreganha-lhes a boca”.



Joaquim Castanho 

5.29.2014

COMEÇAR DO ZERO (OUTRA VEZ!)



Felizmente, o resultado eleitoral do partido cuja lista integrei para o Parlamento Europeu, foi muito pior do que aquele que eu estava à espera. Esse fato libertou-me de todo e qualquer compromisso que me ligasse ao dito partido – o POUS, Partido Operário de Unidade Socialista –, bem como com o eleitorado portalegrense, uma vez que preferiram INEQUIVOCAMENTE votar contra alguém ou alguma força apresentada a escrutínio, do que a favor da causa regional, de si mesmos, ou de alguém que com eles vive no dia-a-dia, comunga das dificuldades e anseios. Seria um mistério insolúvel se eu lhes desconhecesse as causas e preconceitos, ou as vísceras que os governam e parecem imperar sobre os tutanos... Mas não é o caso!

Portanto, apraz-me declarar que não repetirei a proeza de candidatar-me pelo POUS, nem de colaborar com qualquer publicação, em suporte-papel, que tenha a sua origem nesta terra por Baco plantada entre as serras e a planície, que da charneca em flor tão afastada atualmente se encontra. À primeira qualquer cai, à Segunda só quem quer, e à terceira apenas quem é asno. E eu nunca me perdoarei a asneira que cometi, que foi a de exercer os meus direitos de cidadão dentro da legalidade constitucional e democrática vigente, em observância aos conceitos da participação e cidadania, e no respeito pelos valores fundamentais que assistem à formação de uma Europa inclusiva, igualitária, emancipada, solidária, coesa, civilizada e desenvolvida. (Ou, supostamente, tudo isso!)

E não o faço por despeito, ajuste de contas ou simplesmente para racionalizar os péssimos resultados conseguidos. Faço-o porque sou JOAQUIM CASTANHO, nome que não herdei nem me foi dado, mas sim conquistei letrinha a letrinha dia a dia, mês a mês, ano após ano, com esforço e galhardia, de cara limpa, e sem jamais ter prejudicado ou molestado quem quer que fosse, de rosto erguido, frontal e em todo o lado, em transparência absoluta, e sem lhe omitir o mínimo noema ou fonema.


Joaquim Castanho  

5.23.2014



    Um, dois, três

      4, na casa 6.





    Um, dois, três

      4, na casa 6. 




5.12.2014

OPÇÃO    P.   O.   U.   S.



Porque é cada vez MAIS importante, que sejamos também cada vez MAIS europeus (DESENVOLVIDOS) em Portugal, e cada vez MAIS portugueses (INDEPENDENTES) na Europa, o P. O. U. S.Partido Operário de Unidade Socialista, enquanto plataforma de diálogo, entendimento e consenso de todas as forças vivas da sociedade moderna, e globalizada, quer na esfera do relacionamento positivo, entre os trabalhadores e o tecido empresarial, e institucional, na legalidade democrática vigente, quer entre os cidadãos e os seus órgãos de representação e soberania, não se evitará a esforços para REFORÇAR, onde quer que esteja, a democracia, a sustentabilidade económica, social e natural, a consciência cívica, a melhoria da qualidade de vida, o bem-estar humano e animal, a biodiversidade, o equilíbrio do ecossistema e ecosfera, os ideais humanistas e humanitários da liberdade, igualdade e fraternidade, entre todos os homens e todas as mulheres do nosso povo, e dos demais povos das NAÇÕES SOBERANAS, que se pretendem, também cada vez MAIS LIVRES, e MAIS UNIDAS, e MAIS SOLIDÁRIAS, na nossa comum atualidade.  

Sobretudo porque o P. O. U. S.Partido Operário de Unidade Socialista, é um partido ativo, e em constante atualização, na peugada dessa UNIÃO LIVRE DAS NAÇÕES SOBERANAS da EUROPA, que seja a EXPRESSÃO DIRETA, da vontade soberana e emancipada, responsável, e democrática, das suas instituições e povos, e uma autêntica ALTERNATIVA à UE das elites e jogos de poder, com que atualmente nos deparamos;  

Porque o P. O. U. S. é um partido plural, e polifónico, na senda de uma sociedade para todos os homens, e para todas as mulheres, onde o reconhecimento cultural, a dignidade, e a integridade da pessoa humana, e do seu ambiente, sejam invariavelmente observados;

Porque o P. O. U. S. está atento e promove o DESENVOLVIMENTO REGIONAL, como o DESENVOLVIMENTO NACIONAL, o DESENVOLVIMENTO EUROPEU, como o DESENVOLVIMENTO GLOBAL, veiculados pela gestão democrática da coisa pública e empresarial, e no respeito incontornável dos direitos, liberdades e garantias, que o movimento operário internacional tão esforçadamente conquistou;

E porque o P. O. U. S. é um partido aberto, motivado para a solução dos problemas da atualidade, renovado, e renascido das preocupações e anseios da gente, que connosco atravessa todos os dias, a mesma ponte do presente para o amanhã, criando e partilhando, pondo na prática quotidiana, tudo quanto muitos outros apenas contemplaram em teoria.

MAS PRINCIPALMENTE, porque o P. O. U. S. é a OPÇÃO, e não a alternativa. 

5.04.2014

Por questões a que sou TOTALMENTE alheio, o conto que escrevi para a revista Plátano, não figurará nela no próximo número. Porém, e porque já tinha dito a algumas pessoas que ele aí seria editado, criando assim expetativas infundadas e a que não posso corresponder, aqui o deixo como ato de contrição perante a minha falta. Portanto, que a leitura dele lhes proporcione o prazer que igualmente ele proporcionou, primeiro ao ouvi-lo, e depois ao escrevê-lo. Bem (h)ajam!



AS TRÊS LIBRAS EM OURO

Por Joaquim Castanho





«Naquele tempo, Portalegre, era bastante diferente do que hoje é, e à sua volta, mais não havia do que matas, silvados e charnecas, onde vulgarmente se acoitavam também foragidos, salteadores e demais indesejáveis ou marginais. Os soutos e carrascais competiam livremente entre si, sendo utilizados pelos habitantes para caçarem, recolherem lenha para uso doméstico e fornos de carvão, madeira para a construção de cómodos e habitações, frutos silvestres e alguma vegetação mais tenra para alimentarem animais. Eram igualmente visíveis algumas manchas florestais de sobreiros, azinheiras, castanheiros e carvalhos, embora estas tivessem já a marca da orientação explícita de recursos económicos dos senhores de terras, que as exploravam sem grande exigência de pormenor para montarias, montados, combustível e fabrico de carvão vegetal. Porém, aos aldeões e populares essa valia de muito pouco ou nada servia. Os tempos eram outros e os costumes também. Incluindo as relações sociais ou de convivência entre proprietários e despossuídos de território.
As raparigas e rapazes dos arredores, logo que atingiam tamanho e força para serem de algum préstimo – o trabalho da criança é pouco, mas quem não o aproveita é louco, conforme rezava o rifão –, começavam a ganhar o seu sustento servindo "a de comer" nas propriedades onde nasceram ou a que seus pais estavam adstritos, jornadeando desde que o sol nascia até que o sol se punha. Os mais expeditos e as mais expeditas ficavam sob o comando direto dos senhores, enquanto os lerdos e inadaptados de seus capatazes e encarregados, onde os tratos de polé se não faziam rogados. A barriga era mal pensada e o de sol-a-sol se iniciava de madrugada para findar noite feita. Se morriam novos ninguém os lamentava, antes pelo contrário, se dizia um alívio por menos uma boca a sustentar. Fizessem o que fizessem, nunca valiam o pão que comiam, como costumavam dizer os populares.



O pensamento mágico era, pois, mais professado do que é hoje o pensamento lógico, não obstante as bastas licenciaturas e prolíferos doutoramentos que grassam por aí. Ninguém se formava em nada e se, por ventura, alguém fugia à mediania, tinha à perna tanto senhores como iguais. O obscurantismo e preconceito estavam tão fortemente alicerçados, que as suas raízes ainda hoje vão reverdecendo aqui e ali, onde o "chão mental" lhe facilita a cultura e cultivo. Pouca gente vai além do saber fazer com respetivo e consequente saber aprender ou saber ensinar, e saber ser como saber estar são coisas dispensáveis, senão mesmo consideradas afetações de inadaptados e quejandos. Ter por ter que seja um carro topo de gama, nunca princípios, saberes e valores que frutificam e proliferam de estaca, o que não convém absolutamente a qualquer governo, sobretudo dos que pensam que as leis democráticas se esgotam na Constituição, e mesmo essas são para serem bonitinhas e inglês ver, e jamais para cumprir.»


         Eu mal respirava, temendo que se o fizesse, Maria da Penha, senhora expedita e lúcida, cuja vivacidade melhor retratava uma jovem de 18 anos do que alguém com os 88 que deveras tinha – e tem –, se calasse ou invertesse o tom à narrativa. Qual ornitologista em observação de espécie exótica e rara, atento e em suspensão, preocupava-me em não perder o mínimo som, o menor gesto, qualquer pestanejar ou sustenido que emitisse. Todas as coisas ditas foram preditas também. A expressão acompanhou-as como um sublinhado detetável mas invisível. Dizem que muito pouco há da realidade que não tenha sido realidade já, e eu acredito. Que não há auroras sem alicerces nos outroras... Umas no passado próximo, como é óbvio, porém outras nos outroras mais remotos e profundos da humanidade, a que a poeira do esquecimento, camada sobre camada, foi alterando as formas exteriores, os contornos visíveis por notáveis ou não, pelo seu inverso.    
E continuou: «Os homens e mulheres de um país, de um território qualquer, seja ele de agora como da profundidade remota dos tempos, descavam a sua sepultura à medida que avançam, edificam, constróem, se disseminam noutros tempos e noutras gentes – como afirmou o poeta, "se vão da lei da morte libertando" –, com ou sem o exercício propósito de o fazerem, é verdade!, ramificando-se por palavras e adventos, criando e recriando continuamente os seus modos de ser e de pensar, sem um lamento, e as mais da vezes, reconhecendo, mal comparado seja, como se não tivessem nascido para outra coisa. E infiéis, ou bárbaros, são apenas os que acreditam (no contrário). Sobretudo as raparigas... As filhas dos rendeiros e súbditos vassalos desse alguém cujo algo os abarcava e incluía. Sim, que a essas estava vedado serem bonitas e namoradeiras, ou apenas apresentáveis e desenxovalhadas, uma vez que sendo-o, sem dúvida despertariam a líbido de seus "donos" ou os filhos destes, se novos por que insaciáveis, se velhos por que o verde ramo lhes renova o viço, pelo que, indubitavelmente, todas as que ansiavam preservar-se donzelas e puras para o seu conversado, perspetivando a prometida união, só muito encobertas e andrajosas poderiam aparecer em público, e mesmo assim correndo o risco de acicatar invejas, fantasias e cobiças, a que não correspondiam, claro está, mas que quem as considerava suas por nascimento e direito proprietário, quais crias de seus rebanhos ou manadas, instava em usufruir.»
O seu tom, era calmo, embora desembaraçado, mantendo o deslizar fluvial da corrente espraiada dum rio que não tem pressa de alcançar a foz, desenrolando-se como uma velha ladainha esmaecida pela inúmeras repetições que tivera, invocando aqui e ali preitos antigos, mas sem a acérrima envolvência duma engajada, antes como quem apenas sopra nas cinzas para avivar as memórias que o tempo nunca apagou definitivamente, dar vida às palavras que já teriam sido mais que isso, talvez motivação e ferramentas, objetos sonoros de arremesso ao oceano de consciências amorfas com que o tempo vai engrossando as águas do esquecimento.



«Desde a extinção do sistema matriarcal, que aqui imperou durante milénios, que quem não tinha de seu, nada era. E quem tinha, de algum lado lhe viera, à semelhança do que ainda hoje afirma o povo ao referir que "quem cabritos vende, e cabras não tem, de algum lado lhe vêm", pois do trabalho ninguém enrica, sobretudo não sendo remunerado como então não seria, mas antes um cumprir sina que um amealhar, e, salvo raras exceções que, por recompensa de dedicações ou cobrança de favores prestados, conseguiram ter coisa terrena de pertença, uma vez que, todos e todas, não sendo escravos e escravas também não eram livres, ou sendo livres mais não seriam do que escravos e escravas com licença para circular e obedecer, tal e qual como Ana e Joaquim, exatamente esses dois de que passo a falar-te de seguida com maior e particular atenção.
Joaquim era pastor como seu pai, e seu avô já o fora, e até mesmo sua mãe e a mãe de sua mãe já o teriam sido, nas terras de seu senhor, lá para as bandas dos Mártires, como posteriormente vieram a chamar-se esses sítios; e Ana, criada ao serviço da senhora de seu senhor igualmente, mas sob sua inequívoca proteção, porque pertença sua, claro está, cujos pastos iam daqui a Alegrete, mas ele, todavia, mais dado e atreito aos benefícios do convívio e à cidadania, dos confortos cortesãos e paleio palaciano, preferia ter a sede no castro que mais tarde veio dar origem à nossa cidade. Ela era moça que não teria mais de 15/16 anos de idade, embora já desde os 12/13 tivesse o tino e corpo de uma mulher feita, como quase todas as raparigas daqueles tempos, sobretudo aquelas que tendo escapado às agruras dos maus-tratos, fome, doença ou trabalhos pesados demais prà estatura, a essa idade aportavam; ele andaria pelos 17/18, mais coisa menos coisa, curtidos desde a alcofa atrás do gado, por isso mesmo sortido e sustentado dele, quer no leite e queijos, como nalguma carne se a ocasião o propiciava, como também do muito que de comestível há por esses campos fora, frutos silvestres ou cogumelos, espargos e raízes, ervas e rebentos, que bastos são com o dito préstimo, não obstante muitos tenham sido irradiados da nossa dieta provinciana.»
Àquela hora, de onde nos encontrávamos, estiraçado eu ao comprido sobre os ladrilhos do poial, ela sentada numa cadeira de bunho, baixa e atarracada, mas de espaldares pintados com rameados e floridos de vivíssimas e garridas cores, o sol diluía-se pelo horizonte em farripas de rosa e púrpura, azulinas brilhantes e cinzentas alaranjadas, que o verde dos pinheiros bravos rasgava num dentado disforme mas visível, enraivecido mas pacificador de quem se apresta para morder a escuridão noturna como quimera inconformada. Sempre fora este o local de minha eleição para aguardar e observar o fim do dia, desde pequeno, chegado da escola como da retouça, ora de papo para o ar, prestando atenção ao ativo trânsito dos pombos e andorinhas, ou de barriga para baixo sentido a mornidão dos ladrilhos vermelhuscos, lendo, apoiado nos cotovelos. Porém, sem a companhia dela, nem o seu destilar narrativo, nesse vaivém de agulhas que entretecem as lembranças e enredos das almas, pois que a vida lhe exigia ações maiores que o puro devaneio, no cuidar dos netos e alimentá-los, vesti-los e calçá-los, e restantes afazeres de grande valia para levar a família com asseio e bem pensada ao porto onde o amanhã mais não é que destino (de chegada). E partida. Para outros amanhãs que hão de repetir-se e escoar-se na ampulheta das eternidades, que deve ser plural e não ordinária, simples, porquanto apenas uma eternidade nunca bastaria para reunir toda a vida e o seu contrário, que outra parte dela mesma é.
«A tarde, aliás, todo o dia!, sob esse sol de maio aspergido pelos inúmeros odores e aromas silvestres do auge da primavera que a brisa disseminara, e dissolvera também pelas ruelas estreitas e tortuosas da aldeola que Portalegre então seria, fora excecionalmente prazenteira e amena, o que sem dúvida muito contribuíra para Joaquim, curiosamente sinónimo de “[pilar] guardião”, se demorasse mais do que o habitual e se descuidasse nas horas, que o terão surpreendido quando ainda conversava com Ana, num pôr-do-sol que lesto se confirmou sol-posto. Tanto ele como ela teriam, quiçá, sentido a fuga do tempo como um roubo à felicidade, pois se este em vez de passar, corre, então quem o vive fica sem ele para fazer quanto dele ainda não fez o que nele fazer queria, motivando assim que prologassem as despedidas nesse para lá do lá que nos inscreve com os eitos da alma plena, e arrebata, e faz crer que toda a eternidade, até ela!, é por demais curta, breve e pequena. Pelo que, assim alheios, ele e ela, ela e ele, aos temores e fantasmagorias que a noite podia trazer, tentaram impedir, primeiramente, e estender depois, ao máximo dos máximos o derradeiro instante da separação, porém este, cruel como todos os tem-que-ser inevitáveis da vida, surgiu imperioso do interior da casa senhorial pela voz da mãe de Ana, igualmente serviçal nela, o que é já de si uma inequívoca redundância, pois que Ana significa exatamente “Mãe”, nesse tom que denuncia maior determinação que autoridade, como soe ser o ordenar materno, é evidente!, no entanto de incontornável cumprimento, no perentório e caraterístico e pleonástico “Entra pra dentro Ana, que fazes aqui falta”, obrigando-os a abreviar as despedidas, fechando definitivamente a cortina ao idílico enleio do momento.
E Joaquim pôs-se de pronto ao caminho, rumando a casa, pela carreteira irregular e pedreguenta, que agora conhecemos por Azinhaga das Caronas, até cá a baixo, à ribeira, e dela por aí acima, numa vereda ainda mais pedregosa, estreita e de mau-piso, que subia a Serra até ao cume, ladeando a penedia da crista, e que depois dele desce para as bandas dos Fortios, como chamamos hoje ao povoado que se vê lá do alto, e que era precisamente onde ele morava. Teria bastante em que pensar, talvez naquela que deixara havia pouco e da vida que lhe proporcionaria se casassem, é certo!, que bem modesta haveria de ser, como também fora a de seus progenitores, ou os dela, gente humilde e trabalhadora, pobre mas de nobre sentir, e grande e mútuo afeto, embora desconhecendo sempre a maneira de o referir e demonstrar, como era e é comum entre a maioria de nós, que nisso pouco ou nada evoluímos desde então, pelo que não deu acordo do atardado da hora e acentuado lusco-fusco a não ser quando, já a meio da subida, sentiu um arrepio na espinha e todos os seus pelos e cabelos se eriçaram, mas prosseguiu sem novidade, que pastor que é pastor acostumado está de sobra aos mistérios do negrume, quer ele seja matinal, quando de madrugada ainda leva o gado para os pastos, quer vespertino, quando volta com ele, seja verão ou inverno.»





E calou-se de repente, durante dois ou três minutos sequer, no regaço, as agulhas quietas também, o olhar fitando o vazio longínquo, absorta num espetáculo que só a ela era dado assistir, mas que nem me atrevi a interromper, por recato e respeito, sem dúvida, que se alguém se perde dessa maneira no além a que o Tejo faz linda, devemos esperar que volte por seu pé e iniciativa, ainda assim o sobressalto não transtorne o viandante…
«E não tinha ele mais que oito passos dado, quando reparou numa jovem sentada num tamborete de pele de camelo, mesmo à sua frente, à esquerda da vereda, diante dessa espécie de gruta a que hoje denominamos Cova da Moura, acenando-lhe em chamamento com a destra, e sustentando na canhota uma salva de prata com figos secos dourados pelo melaço, de volumosos, ondulados e compridos cabelos jungidos na testa por diadema de ouro cintilante de predarias a luziluzir, vestida com a exuberância das sedas, tules e brocados, que só as princesas e fadas ousam trajar no quotidiano, colares de pérolas brancas e negras, braçadeiras e braceletes de prata com diamantes incrustados, de silhueta esbelta e escorreita, linda de morrer e capaz de enfeitiçar qualquer mortal. Despertar da letargia do namoro e deparar-se a pessoa, por muito afoita e corajosa que seja, com tal aparição, deixá-la-ia certamente à beira dum colapso, prestes a entrar em pânico… E Joaquim não foi exceção nenhuma nesse capítulo: tremeu que nem varas verdes, sentiu a náusea provocada pelo chão a fugir-lhe debaixo dos pés, e no peito a opressão ansiosa e acelerada dum coração que tomou o freio e partiu à desfilada, e a toda a brida. E não fora a meiguice singela da dama, o seu semblante gracioso e sereno, seu sorriso de confiança pacificadora, cuja tranquilidade contagiava quem a visse, ele tinha desatado a correr no ó-pernas-pra-que-vos-quero Serra abaixo. Porém, levou a mão ao gorro de pelica de borrego que lhe cobria a cabeça, e saudou-a com tímida e acanhada desenvoltura num “Bô-a nô-te, Se-nhô-ra…” aquela que tão inesperadamente lhe surgira no sítio mais ermo do caminho de regresso a casa, ao fim do dia, e depois de toda a grande felicidade e alegria com que vivera essa tarde de domingo.»
As pálpebras pesavam-me toneladas nessa altura, pelo que as cerrei num suspiro fundo e prolongado, esvaziando por completo todo o ar que o corpo podia ter refreado até aí. E nada sabia do universo e da vida, senão esse recorte de tempo e lugar que as palavras de Maria da Penha me erigiam na visão interior, sentindo-me em perfeita comunhão com o não-sei-quê do qual, apenas, e exclusivamente, a alma tem a paleta exata para pintar em nós as emoções suficientes para ir ao lado de lá do lá e voltar no mesmo imediato.
«Então ela, correspondendo à saudação do jovem Joaquim, na voz doce e timbrada, como que acompanhada por divinas liras e flautas, que só em sonhos os mortais se lembram de alguma vez ter ouvido, igualmente lhe desejou “Boa noite, meu amigo”, aproveitando, contudo!, também para repartir com ele as passas de figo que parecia saborear, convidando-o a que tomasse quantas quisesse: “Boa noite, e feliz regresso a casa bom homem… Olha: és servido? Não queres cear comigo?” E indicou-lhe os frutos, que lhe fizeram água na boca, por apetitosos e desenxovalhados.
Porém, como ele ripostasse num “obrigado, senhora, mas já estou atrasado e devem estar em cuidado, os meus pais”, que o receio e a discrição aconselham nestes casos, ela lhe sugeriu, oferecendo a salva de prata, “então leva os que quiseres, para comer pelo caminho, ou dar a quem te aprouver.” Posto o que, de repente e acabrunhado, tirou uma pequena mancheia de frutos secos, que meteu no bolso dos calções de estamenha, e se pôs em marcha, despedindo-se, primeiro refreando o passo para ocultar o desejo de fugir a sete-pés, como também por medo que ela reparasse no seu medo, depois, mal lhe ficou fora do alcance e da vista, correndo a bom correr, descendo a encosta do outro lado da Serra, rumo aos Fortios, quase voando, por assim dizer, até que, num eis senão quando dos que a vida tem reservados só para estes momentos, com o lar já a dois passos, voltou a meter a mão no bolso para aventar as passas de figo, mas abrindo-a para o fazer, reparou que não eram frutos secos o que nela tinha, mas sim três libras(*) em ouro, reluzentes e magníficas, que eram na altura uma fortuna ímpar, como ainda hoje  em dia serão. Com elas comprou, depois, uma hortinha de fértil terra e fácil amanho, provida de moradia e cómodos pra gado e alfaias, ali nas margens do Rio Sor, no sopé comum à cidade e à serra, onde este ainda não passa de uma ribeirota de ténue caudal e fraca corrente, principalmente no estio, que é quando a água mais falta faz às novidades, e a basta distância do seu desaguar no grande Tejo, lar de todas as Tágides e sonhos, conjuntamente com o Raia, que o encorpa no afluente dele conhecido pelo Sorraia, exatamente esse que fecunda as planícies e lezírias onde as éguas e cavalos de sua raça e estirpe, a sorraia, pastam, cabriolam e galopam à desfilada, que tomou como lar e querência dos filhos logo que desposou Ana, a sopeirinha que fora destino e propósito das suas caminhadas domingueiras pela charneca brava, interruptas durante quatro anos, a fim de com ela conversar, tanto e tão aprazivelmente, que mesmo temendo o anoitecido escuro, não raro este lhe surpreendeu os passos no retorno a casa. E ao primeiro desses filhos, que por sinal foi uma filha, formosa como às flores, como soía dizer-se, deram, ele e ela, na alvorada dos seus chamegos e paixão o nome de Maria, que como todas e todos sabem significa "jovem", da Penha, que mais não é que outra maneira de dizer "serra", ou Jovem da Serra em justa gratidão a essoutra donzela que o interpelara num ermo ao lusco-fusco, e que foi a primeira a usar tal nome, a primeira a ser Maria da Penha, e avó da avó de minha avó, que também mo deu a mim...» calando-se de seguida, compenetrada na tarefa de rematar as malhas num casaquinho de lã que estava a fazer para a bisneta mais nova, com duas agulhas de cobre e grosso novelo, de quem queria ser madrinha em maio deste ano, que é de todas as alturas do ano a que mais estima e encanta, não só pela cor dos campos como pelo cristalino das águas nas fontes e regatos.
Aliás, reconheço agora, se bem me recordo, que nem notei o silêncio em que ambos ficáramos, nesse entardecer de luz niquelada pela paleta do ocidente, uma vez que ela não voltara a conversar comigo a não ser para as circunstanciais despedidas e encomendação de beijos e cumprimentos à demais família, por quem ela nutre natural e desafetada afeição, de tal forma eu me quedara cismando e absorto pelo ouvido antes, e que, a pouco e pouco, ia vendo sob nova luz.
«Terá sido, mesmo assim, que tudo sucedera», congeminei para comigo, sublinhando-o com aquele (in)caraterístico «hun?!?...» que vinca a união entre as céticas sobrancelhas mais ou menos esclarecidas. 
Todavia, encolhi os ombros no típico e afortunado «Quem sabe!», de quantos e quantas para quem a dúvida e a inquietação em muito pouca conta se têm. 


(*)LIBRA – arrátel, ou unidade de peso e massa com aproximadamente 454 gramas, tendo sido também, num período da História Nacional, uma moeda portuguesa antiga.           


LUZIA   NO   REINO   ENCANTADO
DO RECONHECIMENTO LITERÁRIO


"Sim, eu amo os livros. Mais do que tudo na terra? Talvez... Eles têm sido os meus grandes, os meus fiéis, amigos. E realmente há-os espalhados por todo o quarto, sobre as mesas, sobre o fogão, sobre as cadeiras, brochados, encadernados, abertos numa página mais querida, de folhas cerradas, guardando algum mistério, alma, perfume que ainda não se revelou."
In LUZIA, Almas e Terras Onde eu Passei, Edições Europa, p. 52. Lisboa, 1936



O REINO ENCANTADO DE LUZIA
A crónica da vivência e a eterna busca do “Eu”
CLÁUDIA SOFIA SILVA NEVES
Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos e Culturas
UNIVERSIDADE DA MADEIRA
Novembro de 2012



     Não obstante as múltiplas contrariedades e as investidas dos setores mais preconceituosos e fundamentalistas da sociedade portuguesa, em geral, e portalegrense, em particular, nomeadamente a fina flor dos intelectuais que capricham em fazer vista grossa à condição feminina, o que é certo, é que Luzia, pseudónimo de Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino, natural de Portalegre, continua espalhando luz e disseminando a sua obra, rompendo o bloqueio obscurantista de que foi alvo, e foi, desta vez, objeto de estudo e motivo de dissertação de mestrado na Universidade da Madeira, na qual e a propósito, importa referir, consta como referência o artigo publicado nesta revista, no nº 5, de maio do ano passado, intitulado Do Verbo Andarilho das Fadas de Portus Alacer.
A dissertação em causa, de Dra. Cláudia Sofia Silva Neves, merece na verdade uma referência de excelência, não só por nela ter sido abordada toda a problemática inerente ao tempo, obra e vida da escritora portalegrense, sob a perspetiva académica em Estudos Linguísticos e Culturais de O Reino Encantado de Luzia: A Crónica da Vivência e a Eterna Busca do "Eu, que foi defendida com êxito e galhardia exatamente no dia 15 de fevereiro de 2013, data de celebração do nascimento da Luísa Grande, a que foi atribuída a nota final de 18 valores, mas também – sem qualquer hesitação ou risco de incorrer em equívoco – por ser o mais sério, completo, honesto e escorreito estudo até hoje feito sobre esta "polémica" personalidade das letras nacionais. Além de aflorar convenientemente a bibliografia da autora, ter em consideração os mais reportados textos sobre ela, analisar o seu discurso e quadro mental que o sustenta, ou condicionou, cruza e fundamenta sem afetações toda a gama de conjeturas e saberes que assistem à criação literária com expressão feminina num mundo que sempre lhe foi, até aí, hostil, adverso, bem como "quase" vedado, no que desde então e até agora, assim continua em muitas sociedades, embora os anos 60 tenham arroteado o campo para uma libertação possível que abalou sobremaneira as raízes fundamentais e alicerces da desigualdade de género.



Escrever sobre a vida de uma autora, da sua obra, das caraterísticas do seu discurso, das circunstâncias sociais, históricas e ambientais que o balizaram, das relações que estabeleceu com os demais autores de então, do pensamento individual e da época, de uma forma simples e aprazível, sem resvalar no jargão da técnica e da crítica soeiras, é uma tarefa assaz difícil, senão impossível, nos meandros academistas; contudo, a recém-formada Cláudia Sofia Silva Neves, fê-lo com êxito. E fê-lo com desenvoltura, com empenho, com a sagacidade desafetada de quem sabe com que linhas se cosem e entretecem as almas avulsas, humanas e sofridas, ainda que essa alma a que particularmente se refere esteja retalhada pelas brechas existenciais, pelas diatribes da vida, e tivessem estas sido suturadas, cerzidas, pelo indesmentível apego ao livro e à coisa literária, cimentadas nos produtos da cultura, do conhecimento, da civilização e do pensamento do seu tempo, e anterior a ele, com que reforçou positivamente a vontade e qualidade de vida dessa portalegrense do mundo que viveu também na Madeira, mais propriamente no Funchal, terra onde veio a falecer nos meados do século passado. Atitude e registo para os quais muito terão contribuído, saliente-se, o seu percurso formativo, em psicologia, que aliou à vocação inicial das letras, línguas e literaturas, conduzindo-se paulatinamente e investigando na área da biblioterapia, que, tal como o termo indica, se debruça e utiliza o livro para dissolver e deslaçar as facetas da rigidez caraterial que se tornaram patológicas, [posto que esta é, tal como existe desde a Antiguidade, "um método que utiliza a leitura, bem como outras atividades lúdicas a ela adjacentes, para o tratamento de pessoas acometidas por alguma doença física ou mental, e composta por quatro fases distintas: assimilação do personagem, projeção/transferência, catarse e insight", conforme afirma Geyse Maria Almeida, do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal de Amazonas.]      
   
Com uma estrutura lúcida mas aberta, objetiva mas abrangente, determinada mas flexível, esta Tese de Mestrado abarca diretamente a obra de Luzia, e indiretamente a vida de Luísa Grande, atendendo sobremaneira às particularidades existenciais da motivação e simbiose com o meio sociocultural, traduzindo não só o que sensatamente todos podemos observar e pensar sobre a obra e escritora em causa, mas igualmente tudo quanto as potencialidades e recursos que versam as questões culturais e linguísticas indicam, tornam evidente, esclarecem e dão argumento válido à necessidade de recuperar para a ordem do dia, uma personalidade ímpar das nossas letras, que forças ocultas se têm empenhado em manter no olvido e negação, emprestando-lhe aquela sensibilidade feminina que outorga a empatia para evoluir e se justificar na mesma circunstância psicobiológica, numa perspectiva particularmente salutar e de convívio imaginário, literário, ficcional, cujos reflexos se evidenciam, incondicionalmente, em trabalhos desta natureza.

Estrutura que, gizada sob a orientação de Luísa Maria Soeiro Marinho Antunes Paolinelli, docente da Universidade da Madeira, não só pretende responder à questão de «quem foi Luzia?», como lhe traça os percursos biográfico e literário, o impacto social desta e de sua criação na sociedade da época, envereda pelos e acompanha os seus vagabundeares, se hospeda e habita a sua solidão, dá a conhecer o jogo ilusório de ser/parecer que caraterizava a sociedade portuguesa de então, e reporta as paisagens físicas/territoriais e mágicas que essa fada, mulher, escritora e filantropa atravessou com a verticalidade de uma excelente e autêntica Senhora, mas a quem a morte infligiu também o consentâneo apagamento e irradicação da sua presença dos cânones e compêndios literários patrióticos. Bem como propõe Luísa/Luzia enquanto exemplo de mulher e escritora que, não obstante desde os primeiros anos de vida se tenha apercebido na pele e da pior maneira de como esta é efémera, contatando a doença e a orfandade, se escorou e apoiou na leitura e na escrita para se alicerçar à realidade, e fixar as nuances da existência, denunciando, rindo, chorando, errando pela alma das gentes e dos lugares, reabilitando-se e reabilitando-as, fazendo da fraqueza força, pondo a nu e em carne viva aquilo que a crosta da hipocrisia social (e individual) insistia – e bastantes vezes, conseguia – tapar das consciências resistentes, adultas, emancipadas, ou seja dos leitores e leitoras cuja resiliência se não esgota, nem deixa intimidar pelas vontades e desígnios obscurantistas de ontem, como de hoje, tanto continentais como insulares.



Cláudia Sofia Neves nasceu em Vila Nova de Gaia, 07.05.1984, terra onde viveu e estudou até aos 27 anos, e só tomou conhecimento desta escritora quando chegou à Madeira, mais propriamente nas aulas do mestrado em que ingressara em 2010, o que faz dela uma pessoa insuspeita de interesses no âmbito do marketing territorial, turístico e cultural, económico ou familiar, ideológico ou político, e apenas motivada pela paixão antiga, de adolescente, pelas andanças da leitura e da escrita, que cultivara a par duma outra não menos nobre, que era/é a dos animais, causa de que Luísa Grande foi igualmente defensora, tendo sido uma das primeiras sócias da Protetora dos Animais, em Portugal (“Pertenço a todas as associações desde a S. Vicente de Paulo, para acudir à pobreza envergonhada, até à Protetora dos Animais, que tem por presidente Miss G.”  – In LUZIA, Cartas do Campo e da Cidade, Portugália Editora, pág. 173. Lisboa, 1923).

Essa afinidade, porém, é de pouca monta, considerando que o seu estudo vai muito para além da valorização dos textos, da interpretação subjetiva e identificação ética ou estética. Porque também os analisa, incorpora nos movimentos vizinhos e qualifica nos possíveis enquadramentos teórico e histórico literários. Não se deixa ficar pela visão da parte, mas antes a vê em relação ao todo. Não confunde a primeira com este, nem permite que a visão do todo obstrua a visibilidade da parte. Não desenraíza Luzia do seu tempo, mas também não a obriga a estagnar nele. Dá-lhe espaço, abre-lhe portas de interpretação, oferece-lhe caminhos novos para o seu vagabundear, contudo não lhe impinge a bússola do feminismo antropocêntrico, ou seja, aquele feminismo que faz com que algumas mulheres se libertem da sua condição imitando os homens – coisa a que ela foi sempre contra. Desconstrói, mas não julga. Desmonta sem jogar preconceito nem entabular coscuvilhice. E demonstra que para criticar, estudar, interpretar, analisar, valorizar, ler e servir-se de um escritor, ou da sua obra, não é imprescindível violá-lo no seu pensamento e dignidade de criador, ou sujeitá-lo a espartilhos e modelos escolásticos formatados para o fast-food da literatura de transportes públicos e balcões de centro comercial. Respeita-a, operando-lhe as vísceras do discurso sem ferir nem fazer sangue, ainda que metafórico. E prova que este interessa também à gente nova, não unicamente aos saudosistas e dinossauros da arqueologia da literatura portuguesa.



Essa “eterna busca do eu” que fez de Luzia uma andarilha do mundo, continua a movimentá-la entre nós, entre a sua gente, incluindo quantos e quantas que propositadamente a desconhecem e votam/condenam ao ostracismo, entre os portugueses, sejam madeirenses ou portalegrenses, e a empurrá-la pela sua constante insatisfação, consequente ao enorme sentimento de injustiça a que o destino a votou, e nos enredou, como a melancolia do fado e a angústia existencial comum, comprovando uma vez mais quanto qualquer viagem é igualmente todas as viagens, e o viajante todos os viajantes, na peugada da identidade própria, que, exatamente por isso, ou apesar disso, nunca é um fim em si mesma, mas o princípio poderoso, eficaz, suficiente, transmutável, com propriedades heurísticas e histriónicas, motivadores e capazes para gerar uma obra, isto é, uma vida, ou uma biografia irrefutável. À imagem, enfim, dessa criadora que aos dez anos já estava de luto carregado e era herdeira de uma fortuna considerável, que cruzou os mares e os tempos com essoutra inseparável companheira que foi o seu pseudónimo, com ela, quiçá, iludindo a imensa solidão dos que despertam entre sonâmbulos e incompreendidos e anónimos que naufragam na multidão dos acasos, mas nunca baixou os braços, nunca atirou a toalha ao chão de forma definitiva, nem mesmo quando a falta de vista a impediu de ler e escrever, procurando e arranjando alguém que a ajudasse na tarefa de registar a sua passagem pela terra sob os auspícios da estética, da arte, da língua portuguesa, da portugalidade e de um elevado sentido humanitário. Porquanto a principal evidência dos efeitos e consequências de sua tenacidade e determinação é, pois, este volume de 140 páginas, a que não faltam um glossário de estrangeirismos e um levantamento de autores e/ou obras do seu universo intertextual, como mapa de outras viagens que a autora igualmente empreendeu, visitou, através dessa outra forma de viajar que é a leitura (de incontornável compreensão).

Enfim, é uma tese que constata, e não condena. Persegue a obra, mas liberta a mulher. Subscreve o feminino, e acolhe o maravilhoso, o encantamento, com uma única poção mágica: a da empatia, do entendimento, da cumplicidade. Todavia, sempre com conhecimento de causa, socorrendo-se do testemunho de quantos e quantas anteriormente percorreram o mesmo reino, como Fernanda de Castro (Ao Fim da Memória), Hernâni Cidade, José Martins dos Santos Conde (Luzia, o Eça de Queirós de Saias), Visconde do Porto da Cruz (Notas & Comentários para a História Literária da Madeira), Anne Martina Emonts, Susana Hoe, Ricardo do Nascimento Jardim, Ana Maria Costa Lopes (Imagens da Mulher na Imprensa Feminina de Oitocentos), Luísa F. Lopes da Silva (Roteiro e Subsídios para a História da Cidade de Portalegre), Feliciano Soares (Luzia – Espetadora das Comédias do Mundo – inédito), Luís Forjaz Trigueiros, Fausto Correia Leite (Lados da Vida, peça radiofónica da Emissora Nacional/Antena 1), Teresa Leitão de Barros, etc., etc., que figuram entre os muitos que a Luzia se referiram, e os que melhor, de alguma forma, a caraterizaram, ou ajudaram a caraterizar, alinhando as referências bibliográficas pela bitola da credibilidade garantida, o que alarga consideravelmente o lastro de suporte documental que assiste, ou deve assistir, a todo e qualquer trabalho deste quilate e nobreza.      
              

Joaquim Castanho 

4.28.2014


A ESPERANÇA REMANESCE SEMPRE QUE MAIO ACONTECE

 

 

Que fizeram de realmente notável os nossos políticos do establishment parlamentar português nos últimos 30 –  trinta!, curiosamente tantos quantos foram os dinheiros por que Judas vendeu o Mestre... –  de intensa e propalada atividade em prol da sociedade portuguesa aberta e para todos os homens e todas as mulheres? Esturraram as receitas dos impostos, o dinheiro que a União Europeia nos enviou para a convergência e AINDA contraíram substancial e nutrida dívida. Ou seja, fartaram-se de trabalhar, já que são precisos muito suor, sangue e lágrimas, para prejudicar tantos portugueses e portuguesas e tão pouco tempo.

Em consequência, pelo superlativo lusitano deste valoroso feito, devemos agradecer-lhe neste maio tão promissor como os demais maios que todos os anos se repetem, embora que dando-lhe um significado muito especial porque acarreta consigo o exercício da legalidade democrática que abril nos legou: exatamente, as eleições livres e por sufrágio universal para o Parlamento Europeu. E precisamente esse parlamento onde se poderão juntar os representantes eleitos pelos diversos povos europeus que não abdicam do seu direito de construir uma União Livre das Nações Soberanas da Europa, mobilizando-se em torno das conclusões da CONFERÊNCIA OPERÁRIA EUROPEIA de Paris, realizada em 1 e 2 de março p.p.

Sobretudo porque a esperança dos trabalhadores e trabalhadoras de todos os nossos países europeus (incluindo os que se veem a braços com a atual crise, como Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, França, ... ) se fundamenta na sua própria capacidade de se aliar com as suas organizações, cuja independência é inalienável, de forma a abrir caminho na consolidação dessa Europa Livre e Soberana, que se quer cada vez mais justa, mais inclusiva, mais responsável, mais consciente, mais coesa, mais progressista, mais determinada, mais democrática, mais participativa, mais evoluída, mais humana, mais internacional, mais socialista, e menos elitista, menos tecnocrata, menos economicista, menos partidocrata, menos fundamentalista, menos exploradora e menos colonial, bem como menos dependente do grande capital, que apenas a vê como um bom e rentável negócio, onde o nível e qualidade de vida dos seus cidadãos não passa dum ato de compra e venda do qual pode recolher proveitosos resultados. E essa é uma decisão objetiva e incontornável que estamos dispostos a levar por diante, recorrendo a todos os meios legalmente estipulados, a fim de o conseguir.

 

   Joaquim Maria Nicau Castanho, candidato ao Parlamento Europeu, residente e natural de Portalegre, na lista do POUS – Partido Operário de Unidade Socialista.

4.27.2014


NOTA DE GRATIDÃO

 


Podia-se enumerar aqui, tudo quanto os partidos políticos portugueses com assento na Assembleia da República fizeram em benefício da nossa gente, da nossa terra, da nossa cultura, porém acontece que aquilo que “eles” não fizeram nos prejudicou muito mais do que aquilo que “acham” ter feito, para nos ajudar todos e todas nós, nos últimos 32 anos de democracia que os 40 após abril propiciaram a Portugal, para superar com êxito as dificuldades anexas ao desenvolvimento, modernidade e globalização que obrigatoriamente temos que atravessar.

Deviam ter prescindido dos “comportamentos político-económicos de elevado risco para a sustentabilidade e estabilidade nacional – e não o fizeram.

Deviam ter aprofundado e reforçado a cidadania e a participação democrática, em vez de perseguir e tentar calar/omitir quantos e quantos alertassem para a gravidade das condutas partidárias e governamentais, que acrescentavam continuamente novas fragilidades às fragilidades de que já enfermávamos, e às dificuldades de convergência observáveis (até) à vista desarmada, sobejamente noticiadas e debatidas pelos mass media desde a década de 90, do século passado – e não o fizeram.

Deviam ter implantado uma reforma do Estado e o equilíbrio das contas públicas recorrendo ao know how disponibilizado pelos nossos ensinos superior e médio-superior, em vez do exportar como carne para canhão para as economias emergentes, ou assegurar a estabilidade e emprego “amparado” a clientela política com que rechearam o poder central e o poder local, quase invariavelmente sem as mínimas habilitações para o desempenho dos “cargos” atribuídos (por cunha e compadrio), como foi seu apanágio durante décadas e a ninguém deixou de ser claro – e não o fizeram. 

Deviam ter sido democratas e foram partidocratas. Deviam ter gerido a nossa pouca riqueza para criar mais riqueza, bem-estar e desenvolvimento, e menos assimetrias, mas em vez disso aumentaram as diferenças sociais e a miséria, destroçando a classe média, pondo-a ao nível dos que só podem contar com os rendimentos mínimos para sobreviver.

A democracia responsabiliza-nos. A democracia promove a nossa emancipação. A democracia torna-nos mais conscientes de nós mesmos acerca de nós, acerca dos outros, acerca do ambiente, acerca da natureza, acerca da história familiar e coletiva. A democracia antecipa-nos e projeta-nos na peugada de um futuro consistente e sustentável, plural e fraterno. Todavia, o que é que esses partidos que usufruíram das vantagens e patrocínios que abril lhes outorgou fizeram com os milhões a que tiveram direito para as suas campanhas eleitorais? Diminuíram-nos as hipóteses de justiça, dificultaram o acesso à saúde, à educação, à habitação e ao emprego; tornaram as nossas possibilidades de financiamento externo e interno mais estreitas e onerosas; fragilizaram a nossa economia e entorpeceram o dinamismo empresarial com subsídios para as não-produções. Embotaram-nos os sentidos e discernimento com retóricas perversas, cultivaram o dogma e a exclusividade, a cunha e o favorecimento de “eleitos e elegíveis”, corromperam os necessitados e adulteraram os princípios constitucionais de acordo com os interesses momentâneos e circunstanciais. Esbanjaram o dinheiro que veio da União Europeia mais o que recolheram dos nossos impostos. Venderam as empresas públicas que criavam mais-valias sociais. Instruíram os pequenos comércios e pequenas empresas na falência proveitosa. Forjaram ilusões. Argumentaram com corporativismos às lutas trabalhistas. Arregimentaram os intolerantes para a indiferença.

E aumentaram-nos o receio pelo amanhã, a insegurança no presente, descrédito pelo passado e a incerteza como meio de vida e sustento. E isso já os homens e mulheres pré-históricos tinham em  abundância e de sobejo.

 

Joaquim Maria Nicau Castanho, candidato ao Parlamento Europeu, residente e natural de Portalegre, na lista do POUS – Partido Operário de Unidade Socialista.

4.26.2014

QUE MOTIVAÇÃO NOS SUBSCREVE?



Foi o 25 de Abril (de 1974) que nos devolveu a capacidade de escolher entre sofrer a realidade ou desfrutá-la, que nos tinha sido amputada durante a longa noite da ditadura corporativista, instaurada em Portugal, por Oliveira Salazar. Não vamos desperdiçar essa oportunidade em quezílias de somenos, nem em diatribes estratégicas daqueles, e de suas políticas, que nos levaram à crise atual, cujo fito é indesmentivelmente o de nos dividir para melhor nos manipular. Com o nosso declarado apoio, que se expressará nas urnas, nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, estaremos em consonância com as aspirações e anseios dos demais povos da União Europeia, nomeadamente com o povo francês, espanhol, italiano, grego e irlandês, que foram os que com maiores dificuldades se debateram para equilibrar as suas contas públicas e economia, e onde o desemprego, a precariedade, a incerteza no futuro e a austeridade maior miséria têm criado.
Não estaremos sós neste desígnio. O POUS (Partido Operário de Unidade Socialista, enquanto secção nacional da IV Internacional Socialista) e o MRMT (Movimento para a Retirada do Memorando da Troika), também manifestarão no dia 25 de Maio deste ano, a sua firme e determinada cooperação solidária com nossos povos, na construção das bases de uma União Livre de Nações Soberanas da Europa, que pautará a sua ação em Bruxelas pela defesa das liberdades, cidadania, igualdade e fraternidade de todos e todas sem exceção, quer sejamos crianças ou adultos, estudantes ou trabalhadores, artistas ou reformados.
Porque é essa a nossa maneira de agradecer com responsabilidade e consciência cívica, emancipação política e participação democrática, a soberania e liberdade que Abril nos devolveu, reforçou e ensinou.




Joaquim Maria Nicau Castanho, candidato ao Parlamento Europeu, natural e residente em Portalegre, na lista do POUS – Partido Operário de Unidade Socialista. 

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