La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

8.19.2011

Fato literário


O Fato Literário

“Costuma andar seguro hum desarmado
Entre gente esforçada & generosa,
Que não ofende o forte ao descuidado.”

In Francisco Rodrigues Lobo, Égloga VI: Carta ao Leitor, com a Égloga seguinte contra a murmuração

Não importa que algo seja uma declarada mentira, ou que nos afiancem ser uma autêntica peta, daquelas coisas em que o impossível e o desfasado da realidade mais se revelem, em que nem o Diabo acredita, adiantamos, mas se estiver tão bem contada que, para nós, até mereça ser verdade, então a literatura acontece. Os escritores odeiam a realidade e declaram guerra aos desimaginados da vida. E os leitores, é precisamente por isso que os apreciam, ficam em suspenso das suas obras, as tornam na parcela de atualidade onde melhor se acomodam e repousam. Mesmo quando elas os inquietam, agitam e denunciam perante a mundanidade vigente.
Portanto, pretender que a literatura tem fins definidos e está ao serviço de causas maiores, até de ideologias que seja, é desconhecer em absoluto o que é um fato literário, isto é, desconhece que este é tão-só um transporte (veículo) de ideia, sentimento, emoção, artefacto, produto cultural, sensação, deleite ou provação, entre um mundo e o outro, entre o universo dos espíritos e das essências e o universo da matéria e das formas. Escrever é fazer aparecer ou desaparecer coisas que antes não existiam, ou existindo, ninguém as via dessa maneira. É milagre; é – mas não desses que transcendem o ser e migram para as esferas do divino e do paranormal. É milagre; é – mas somente porque embriaga sem álcool ter. E todavia, mesmo quando nada muda e nada altera, tudo muda em nós como fora, incluindo quanto do assim que fora sempre e imutável parecera, mas de um momento para o outro se transfigurou e assumiu qualidades jamais observadas.
Isto é, porque um fato pode ser um fato mas também é literário, o que faz toda a diferença. Ter uma fotografia de uma terra ou uma descrição das vivências tidas nessa terra, embora a mão que registou ambas seja exatamente a mesma, torna-as caprichosamente díspares, podendo nelas haver igualmente aquela intenção estética que transforma uma fotografia numa obra de arte, ou uma reportagem numa peça literária. Quanto escuto um fato literário, sem que ninguém haja pronunciado qualquer som ou palavra, faço uma coisa muito diferente de ler um enunciado escrito numa das línguas que consigo decifrar. Escuto-o com imagens que não me estão acessíveis pela visão. Compreendo-o, deixo que ele altere todo o meu sistema consciente e inconsciente, os meus órgãos, vísceras, sentidos, ânimo, atividade cerebral e motivação, reagem-lhe, às vezes até de forma aversiva, mas eu não posso fazer nada para o evitar. Quanto muito, reconhecerei que gosto ou não gosto, que pode haver ou não coerência entre as suas partes, admitir que lhe correspondem um princípio, meio e fim, bem como uma indivisibilidade insofismável, porém, sem a mínima possibilidade de interferência nesse processo.
Posso até colaborar ou implicar com o autor, reconhecendo-lhe valia ou não; todavia, se a sua literalidade já foi definida, tal como ao seu criador, estou totalmente impotente quanto a inverter ou reiterar essa classificação. É literário, logo ninguém mais terá mão nele. Mete fora do conceito de realidade toda e qualquer noção que dele se possa fazer. Posso mesmo criticá-lo, interpretá-lo, analisá-lo, valorizá-lo, que tudo lhe será indiferente. Os outros podem ainda subescrever a minha crítica, ou serem-lhe opositores, que jamais o beliscaremos.
Ou seja, conforme lembrou Francisco Rodrigues Lobo lá no longínquo da sua Corte de Aldeia, onde o século XVI se espraiava com a espuma dos dias, e o tempo se media pela curvatura do Sol, não carece ao fato literário andar armado em sabichão e pretensioso erudito, nem escorar-se na filosofia das verdades incontestáveis ou (estatísticas) da realidade inegável, para andar seguro e reconhecido, desde que frequente ambientes de gente esforçada e generosa, a quem o mundo nunca acaba na ponta do nariz, para se ver entendido e admirado. Porque ele é o grão de que se há de fazer o pão que saciará os esfaimados de sonho e de esperança, que são os quantos nunca esquecem que das maiores invenções que a humanidade teve conhecimento foi ela mesma. E a literatura o espelho onde pode ver-se, refletir-se, admirar-se, abonecar-se, maquilhar-se, sublinhar-se, repetir-se, distorcer-se, cristalizar-se e sublimar-se. Enfim, o seu argumento essencial…

8.07.2011

Um Conto de Georges Lorinczy

O CADETEZINHO DE FRIBURGO
Georges Lorinczy*
Tradução de Cristiano Lima


Que um herói de romance não seja de condição a encarar, como um modelo exato e preciso, o bom senso na vida é o que, no fim de contas, ninguém melhor do que nós o sabe. O herói do romance está em pé de guerra com tudo o que, na vida representa o bom senso. Mais: ele está tão em pé de guerra com o bom senso como com a vida. O primeiro dever de um herói de romance é ser interessante, senão nem um gato lerá o romance de que ele é herói. E, nesse caso, pergunto-lhes para que serve ser herói de romance e se vale a pena afadigarmo-nos a escrever a sua história, visto que só temos uma preocupação: interessar o leitor. Numa palavra: é necessário que o herói de romance seja um herói dos pés à cabeça. Seja que herói seja, ele só deve ser herói.
O cadetezinho de Friburgo era um herói verdadeiro, um autêntico herói. Ou antes, ele vai tornar-se um herói: herói da vida ou herói de romance, pouco importa. O que é certo é que vale a pena ocuparmo-nos dele. Também, se assim não fosse, não diríamos uma palavra.
O que o cadetezinho de Friburgo nos diz respeito é uma coisa de que não nos sentimos obrigados a dar contas. Todos sabem que, de fato, tudo o que existe sobre o mundo nos interessa. E o cadete de Friburgo com soja razão, pois foi ele que nos ensinou a língua francesa.
Conformando-nos com o velho princípio in medias res, vamos precipitar-nos de um salto para o meio do romance.
A falar a verdade, não foi a meio do romance mas na grande estrada de Tarnocz que o cadetezinho de Friburgo encontrou Simon Simonyi, Simon «o Forte», que não era célebre apenas pela sua força física mas também pela força do seu espírito, à qual deveu ser eleito subprefeito do condado de Bars. É conveniente saber-se que, neste tempo, isto é, em 1861, o único caminho-de-ferro que existia na Hungria era o que ligava as cidades de Peste, Erseknjvar, Pretesburgo, Marchegg e Viena. Os nossos bons primos, os austríacos, que nessa época exerciam ainda, na Hungria, um poder discricionário, tinham mandado construir esta linha única, a qual era para eles tão urgente e necessária como o é uma mosca para uma aranha. Ao enriquecermos, deste modo, o nossos conhecimentos de história natural, resolvemos um velho problema, porque, sabendo como morrem as moscas, ficam igualmente a saber como engordam as aranhas. A estação de caminho-de-ferro mais importante da Hungria do Norte era a de Tarnocz. Ali é que os habitantes da Alta Hungria tomavam o combóio, quer o destino da sua viagem fosse Peste ou Viena. E também ali se apeavam, quer chegassem de Peste como de Viena.
No caso que nos ocupa, Simon Simonyi, Simon «o Forte», chegara de Viena a Tarnocz, onde o cocheiro, de libré de gala, o esperava no seu break igualmente de gala. Simon o subprefeito, Simon «o Forte», saltou rapidamente para o carro, e logo em seguida saltou não menos rapidamente para o chão. Uma charrette tombada barrava o caminho.
Simon Sdimonyi, como homem experimentado, examinou a situação num golpe de vista. Ao lado da charrette voltada, a roda estava no chão. Um homem esforçava-se por a meter no seu lugar. Mas não o conseguia. Simon Simonyi não disse nem uma nem duas: dirigiu-se à charrete e, em trinta segundos, ficou ela assente nas suas quatro rodas. O condutor da charrete trepou para o seu lugar. Simonyi acenou-lhe e disse em tom jovial:
– A estrada está livre.
Do fundo da charrette alguém agradeceu em francês:
– Obrigado, meu caro senhor.
Só então Simon o acrobata olhou para o viajante. E teve um gesto de surpresa:
– Olha quem ele é: o Sr. Pugin!
Reconheceram-se. Coube, então, ao Sr. Pugin a vez de se regozijar.
– Que feliz acaso! Sou eu, de fato, Sr. Chimoni.
Pugin, o francês, era também uma celebridade: um homem elegante que há dez anos ensinava francês, de castelo em castelo, aos húngaros da Alta Hungria. Vinha precisamente de Neczpal, no condado de Turova, onde fora durante dois anos hóspede e professor de francês dos Justh, no seu famoso castelo duplo. Aqui, neste castelo alegre e hospitaleiro, Simon Simonyi e Leon Pugin tinham-se divertido juntos, diversas vezes.
– Eu vou a Peste, Sr. Chimoni – acrescentou ele. – E o senhor?
– Eu vou festejar o aniversário de um amigo. Faria bem em me acompanhar
– E quando regressaríamos?
– Quando tivéssemos cozido a nossa embriaguez. Além disso, o senhor encontra Peste sempre que queira, ao passo que só há no ano um dia de S. Guilherme.
Pugin refletiu. Mas nem a oferta sedutora nem a reflexão foram perdidas, tanto a oferta era vaga quanto sedutora e prometedora de distrações. Nesta época, a juventude não ia ao castelo para dormir, mas para se recrear. Não se ouvia apenas ressoar o pandeiro dos guizos de zíngaro mas também as esporas. E nem um nem as outras convidavam a dormir, mas a folgar. Pugin acabou por saltar para o break de Simonyi. Nem perguntou onde o levava nem onde se festejava S. Guilherme. O que era bom para Simonyi não podia ser mau para Pugin. Uma hora depois, apeavam-se em Ivanka, em casa de Guilherme Toth.
A festa em Ivanka durou muito tempo para o cadete de Friburgo. Pugin passou perto de dez anos em Ivanka. Ensinou francês a Guilherme Toth, a sua mulher e aos seus três lindos filhos e, mais tarde, aos três netos, os três lindos rapazes de Turocz.
Nesse tempo as velhas terras nobiliárias húngaras estavam ainda integralmente nas mãos dos húngaros, como todas as virtudes e todo o encanto ancestral dos castelos. Graças à sua hospitalidade serena e amável, o estrangeiro tinha logo nos primeiros momentos a impressão de que estava em sua casa. Guilherme Toth, que foi mais tarde ministro do Interior, depois presidente do Tribunal de Contas e, enfim, membro da câmara dos Magnates; que foi o braço direito e o íntimo de Francisco Deak, era, então, apenas o jovem deputado pelo círculo de Nyitra, na Dieta húngara, mas, na opinião pública, o herdeiro e a esperança de uma carreira fulgurante. Sua mulher, uma Kossovich, era o encanto e o espírito personificado.
O nosso amigo francês, o honrado Pugin, o cadete de Friburgo, era uma individualidade ainda mais complicada, quanto mais não fosse, pelo seu passado movimentado. Batizámo-lo de «cadetezinho de Friburgo», porque o romance tumultuoso da sua existência principiara nesta qualidade e neste sentido, pois ele começara a vida na escola de cadetes, em Friburgo. Nascido na Suíça francesa, aos doze anos era já cadete da escola de Friburgo. Era já, nessa época, um aluno atleta: a sua bela cabeça de leão coroava um corpo vigoroso. A cidade de Friburgo estava então envolvida na guerra civil. A população revoltada cercara a fortaleza onde tinham instalado a escola, e nesta encontrava-se o cadetezinho de Friburgo, Leon Pugin. Foi ele que, uma noite, descobrindo que os insurretos preparavam um assalto, deu o alarme. Avisou a guarda, e toda a escola militar, com seu pessoal e a tropa, repeliu vitoriosamente a investida dos assaltantes. É claro que o nosso cadetezinho de Friburgo tomou parte neste combate noturno, e portou-se heroicamente.
Após a batalha, o comandante da praça ofereceu-lhe uma espingarda de honra, a título de distinção, de recompensa e de recordação de um irmão de armas.
O cadetezinho de Friburgo tomara parte no combate apenas para satisfazer a sua ânsia de aventuras. Fugiu depois da escola de cadetes. Foi parar à Polónia russa e viu-se envolvido numa aventura espantosa, na corte de não sei que espécie de grã-duquesa russa, na sua qualidade de professor de francês. O grão-duque era um autêntico grão-duque de opereta: ciumento e brutal. Mandava guardar por cossacos a sua mulher, uma polaca nova e linda.
A bela infortunada detestava naturalmente seu amo e senhor. O nosso cadetezinho, de coração muito inflamável, tornara-se um lindo rapaz, e o elegante mestre de francês, mestre não só na linguagem como na sedução. Não havia ninguém como ele para saber contar uma anedota. Acompanhava, com os gestos e uma fogosa mímica, as suas narrações variadas, e exercia um encanto mágico sobre a sua bela auditora, educada no ambiente das formas glaciais do cerimonial aristocrático.
O romance complica-se. O grão-duque não está em casa. É meia-noite. Tudo dorme. Os dois cossacos, guardas da fé conjugal na antecâmara da grã-duquesa, dormem também. No corredor tenebroso, alguém desliza a passo de lobo para o quarto da bela prisioneira. Com precaução, passa por cima do corpo dos cossacos adormecidos. E depois… Traição!... Como numa opereta… Os traidores caem sobre os amorosos, no momento em que eles menos esperavam. Em recordação deste perigo mortal, a mulher meteu um anel no dedo do cavalheiresco francês. E o cavalheiresco francês atirou-se cavalheirescamente de uma janela. Foi direito a casa do pope da aldeia. Era o único homem que tinha um cavalo. Deu-lho para ele fugir. O outro dirigiu-se para a floresta. Através de montes e vales, saltou fossos e toda a espécie de obstáculos, sem mesmo saber o que fazia. No seu encalço, cercando-o de perto, os cossacos lançaram-se em sua perseguição… Esfomeado, transtornado, esgotado, com o fato em farrapos, depois de dias sem repouso e de noites sem dormir, chegou a território húngaro. E foi só em Neczpal, no condado de Turocz, que ele pode finalmente descansar e recomeçar uma vida digna de um homem.
Nos dias de tranquilidade que depois teve, gostava de contar as suas atribulações e aventuras, muitas vezes num tom de satisfação e de alegria, ao mesmo tempo subtil e sonhador. Mas às vezes entusiasmava-se com a narrativa. Soltava profundos suspiros e sacudia a sua bela cabeça de leão, principalmente se lhe sucedia falar com a grã-duquesa.
– E o que é feito desse famoso anel? – Perguntei-lhe um dia.
O olhar de Pugin encheu-se de melancolia. Pareceu-me que, sobre a testa, lhe passavam nuvens.
– Ah, o anel? Ela tirou-mo…
– A grã-duquesa?
– Não. A primeira ribeira da Polónia que atravessei a vau… Deixei-o cair no Dunajec…

* Nasceu em 1860. Enquanto membro da Academia Petofi, foi um escritor de tendência acentuadfamente naturalista. Entre os seus melhores romances figuram Os Potentados da Aldeia, Sobre a Minha Terra e O Monte de Vidro.

8.04.2011

Troikas à portuguesa


Toma, que é prò tabaco!

“O Estado terá de ser mais flexível e versátil, para acomodar os pequenos impérios de diferenças que nos vão sendo revelados e a atitude cultural em que se consubstanciam.”
In Francisco Pinto Balsemão, Progresso Social e Democracia, nº 3/4

Acabou o tempo do fazer política brincando ao fingir que está tudo bem, derramando ilusão por todos os meios, estatais e públicos, como privados ou corporativos, alimentando o regabofe e ramboia de uns à custa dos demais, incluindo daqueles que nasceram há pouco ou ainda nem sequer foram congeminados. Segundo o ministro da economia, o seu ministério, só em carrões e respetivos choferes, além de outras ostentações inequivocamente ofensivas para os cidadãos comuns que entraram obrigatoriamente nas ações de austeridade nacional, o glamour e finess do palacete e seus palacianos, é de bradar aos céus. Neste, caso, à Troika bendita, por cujo memorando nos vamos alinhar nesta legislatura; porque quem deve, tem que pagar, e quem se compromete tem obrigatoriamente de cumprir, coisa que o Estado com o establishment português apenas entendia como à moda das scuts de sentido único: se for pessoa, contribuinte, cidadão lá vem penhora e juros de mora, mas se for instituição pública, autarquia, fundação e ministério, é tão-só modalidade normal, tradicional e modus operandi estabelecido e “legal” – atrasos e contas, só os nossos e no pagar.
É claro, que os senhores da logística e do capital lhe franziu o nariz. Não gosta de coisas simples, efetivas, eficazes, baratas, sustentáveis, honestas, francas, diretas e sem percentagem à vista por derivados e afins. Isto está mau, mas também não é para tanto. Erros qualquer um comete, que é para isso que somos humanos, defendemos o humanismo e reivindicamos o antropocentrismo, e não entremos agora a alardear com exigências de responsabilidade, rigor e resolução do défice e do endividamento, senão ficamos sem nada pra fazer nem onde ganhar a vida – pensam eles, não o dizendo, claro está, mas deixando que a expressão e o semblante fale por eles.
Outros, aqueles que votaram no Salazar para personalidade do século passado, desabafam entre si que murumurando um «porra: isto do Salazar, era a brincar, só pra chatear os comunas…», mais ou menos convicto, tentando inverter a marcha, alguns mesmo afiançando estarem deveras arrependidos com a expulsão do Sócrates para outras cicutas e Sorbones. Se razão lhes assiste, é no não terem pensado antes, porém, considerando que nunca fizeram de outro jeito, não se vislumbra maneira de alterar o provérbio popular que enuncia que burro velho não aprende línguas, porquanto todos sabemos não haverem outros veículos mais eficazes para materializar, realizar, demonstrar o pensamento – as ditas e cujas com que se fala. Nem melhor reforma do que aquela que é ministrada pelos reformadores que, como todos sabemos desde que E. Hubbard o disse, “são aqueles que educam o povo a apreciar aquilo de que precisam”.
Provavelmente, aqueles que leram as minhas crónicas no Fonte Nova devem estar lembrados do lá se dizia. Foi até por elas que alguns me chamaram de iluminado, pondo ênfase precisamente no termo, daquela forma brilhante que o português lhes propicia afirmar o contrário de uma coisa nomeando-a. Alberto João Jardim deu-lhes a resposta agora, através da SIC como suplemento vitamínico madeirense prò continente e seus continentais adjacentes. Não perderam pela demora!
Ou seja, os portugueses espertaram, e já não se deixam comer por trouxas por todos aqueles que dizem defender as suas ideologias, que ter partido ou abanar a bandeirinha não é mais livre-trânsito para a função, nem o tripudiar dos utentes/utilizadores um abono de garantia no posto de trabalho, quer se esteja anexo às autarquias como ao poder central – ou paralelo. A flexibilidade deve reger-se pela competência, e os incompetentes têm que deixar de ser um ativo na administração nacional. Se não, ficamos todos troikados!

8.01.2011

Presságio

PRESSÁGIO


Ao contrário daquilo que pretendo fazer-vos crer
Nem tudo em mim é pura e singela transparência
Também tenho segredos alguns inconfessáveis
Difíceis de dizer, de calar, de escrever, de expelir
De deixar esquecidos numa qualquer rua, esquina
De grafitar nas paredes de alguma casa em ruínas
De abandonar em banco de jardim ou gare ferroviária
De acondicionar entre os livros da biblioteca pública
De encaixotar no sótão com demais trastes e bibelôs
De meter na gaveta das trivialidades preciosas
Junto aos cromos da bola, aos porta-chaves, fotografias
Calendários pornográficos, bilhetes de teatro ou concertos
Recortes de fait-divers, catálogos de exposição, clipes
Botões invulgares, relógios avariados e colchetes ímpares,
Embora me tenha esforçado capciosa e exaustivamente
Rasteirando-me amiúde ou tentando desmascarar-me
Pra nada permitir oculto de mim e de meus semelhantes.


Mas ontem à noite, ao deitar-me, tinha uma aranha
Pequena e quase negra sobre a colcha branca da cama
Por cuja pose serena, pacificadora, sem o mínimo temor
Sem qualquer expressão de surpresa parecia aguardar-me
Que não tive coragem de afugentar e muito menos de matar
E a quem fiz com que me subisse prà concha da mão direita
A fim de pô-la num lugar da casa raramente frequentado
Num dos quartos vagos e sem serventia que me sobram.


Foi um momento solene, de sublime suspensão religiosa
E sustida respiração com receio que ao expirar a incomodasse
O ar exalado viesse inquietá-la ou lhe inspirasse a fuga
O susto, o pânico, algo lhe subtraísse a letargia apaziguadora.
Contornei móveis, transpus portas, percorri salas e corredores
Todavia, como se adivinhado tivesse a solidão dos quartos
A prisão de silêncio para que estava disposto a atirá-la
Ei-la num ápice saltando sem que pudesse evitar-lhe o sumiço
Deixando-me estático para que a não pisasse sem ver
A molestasse involuntariamente ou, enfim, a matasse
No precipitado comum dos gestos irreversíveis e fatais.


Adormeci com a porta do quarto entreaberta... Mas demorei
Custou-me adormecer e passei a noite em sobressalto
Sonhando acidentes vários, tempestades, desertos gelados
Catástrofes mais que perfeitas me obrigaram a acordar
E, durante todo o dia de hoje, andei na casa em bicos de pés
À coca, com cuidado e atentando bem ao dar os passos
Compungido e ansioso por reencontrá-la e trazê-la de volta
Depo-la novamente no meu quarto, rogando-lhe perdão...


Sei que vos pode parecer esquisito este clima de segredo
Este suspeitoso ar de mistério e culpa por um ser ínfimo
Insignificante de quatro pares de patas e baba de seda
Não obstante gregos e egípcios em sua teia revejam o destino
E os cristãos lhe concedam as tramas e ciladas de satanás
Ou o sustentáculo do conjunto da vida como querem os celtas,
Casa e tabernáculo da Grande Mãe devoradora de fomes e homens
Insaciável poço de vertigem, sofreguidão e imperiosas urgências.

* * *
Sete dias se passaram convém não esquecer, sei-o muito bem
Porém também não desconheço que a culpa não foi minha
Mas da alma que me arregoou em todos os sentidos possíveis
De júbilo, de alívio, de euforia, de arrebatamento, enfim de tudo
Pois voei de mim desde que a voltei a encontrar, inconfundível
Precisamente ao canto esquerdo do espelho rectangular, de manhã
Na casa de banho quando fui barbear-me, lavar inclusive o rosto,
E ali ficou a olhar-me, vendo-me a ver-me na limpeza diária das faces
Ou a iluminar-me de outra luz para além daquela jorrada da lâmpada
Semeando-me enxadas digitais para softwares de enredo e mistério
Tecendo-me a realidade com diferentes pontos e linhas num morse
De seda cinza onde adivinhar e domesticar frágeis sinas ou futuros
Rumos pendulares, parabólicas intercepções oscilantes entre céus
Reinos da alma fugida, exilada do corpo durante os sonos da noite
Contudo recuperada pela aurora no canto esquerdo do plano reflexo,
Espelho esse que mais tarde abandonou para subir ao tecto
Instalar-se como estrela de oito pontas no vértice superior direito
Exactamente no ângulo feito entre as paredes e o estuque cimeiro.

* *
Agora deixei, é certo, de andar na casa com receio de pisá-la
E a desenvoltura nas lides ganhou aquela lesta espontaneidade
De quem não necessita de se resguardar da terra que habita
Do chão que pisa, da pele que o envolve, do querer que o anima.
No entanto, sempre que saio de casa tenho de confirmar onde fica,
Mal regresso é a primeira coisa que faço, a ver se ainda lá está,
E nunca me deito ou adormeço sem antes lhe ir desejar boas noites.

Pensei que fosse superstição, ritual de incorporar alguém querido
De quem sinto a ausência e me prendeu nessa teia de palavras
Onde germinam e proliferam as essências secretas dos predicados
A alquimia dos verbos que transitam entre os planos semânticos
E faz fluir a eternidade tornando-a una e transversal às gerações.

Supus ser a tecedeira da rede de afectos que me pescou a alma
A cerziu em passagens serenas e assimétricas de emalhar sentidos
Cruzar pontos, atar hífens, justapor ritmos e rimas da paleta sonora
Ou preencher o vazio do cosmos com as linhas que o sustenham
Réplicas do DNA universal comum a todos os elos da espiral da vida,
As ligações que irmanam os seres e espécies da casa na geografia
Interior a que axónios íntimos jamais negaram a sinapse das falas.

Acreditei que fosse o espírito ancestral congeminando as sortes
Os anseios de olhar o céu que nos tornam únicos porque adoramos
Infringimos a lei dos deuses roubando-lhe o fogo de forjar a matéria
E a vontade, moldando sobre a bigorna do tempo os próprios símbolos
Véu de ilusão, ovo de Maya, expressão da prodigiosa criação da beleza
Lídia dotada, efémera Aracne tecelã dos amores dos deuses pelos mortais
Ferida por Atena e sua lançadeira no castigo da ambição demiúrgica,
Qual Anansé que amassou e moldou a farinha dos primeiros homens
Que criou o sol e as estrelas, força realizadora da meditação intuitiva
Primórdio inicial de todos os seres e interioridade preciosa do cosmos.

Porém, nenhuma justificação me satisfez... Nem o seu consentimento
Me foi dado observar, até que subi ao bordo da banheira e observei
De muito perto, tão perto que os seus cinco olhos me fitaram de viés
Me saudaram num ínfimo pestanejar de assentimento pacificador,
Ditaram que no pentágono dos sentidos o núcleo governa o todo
E esse é tido e ordenado pelo soslaio que emite aos quatro cantos
Aos quatro elementos naturais, terra, ar, fogo e água, carne, respiração,
Calor e sangue, cérebro, pensamento, sexo e amor, língua, cultura,
Arte e poema, aliás simples e trôpega cópia do teu olhar na segunda fila
No balcão dos conteúdos escondidos em cifra humana e literária
Metáforas vivas da arca de acácia onde a humanidade guarda o sonho
Que nos sonha, inventando-nos à sua imagem e dela testemunhas.


Indubitavelmente o teu soslaio, magma que te esculpe o sorriso
No rosa cintilante das faces sob os arcos lunares dos cabelos castanhos
Tensos mas tombados como um manto, duplo véu de Vénus
Moldura de enigma e mistério, seda de abrigo para Moura Encantada.

*

Nem tudo em mim é simples e pura transparência como supõem...
E quero fazer crer. Por exemplo, acabei agora de dizer o teu nome
Como presságio de reencontro, e somente tu o saberás ouvir, ler
Reconhecer entre todas as palavras que vagueiam e se espraiam
Na enseada da voz, no delta da fala, à sombra dos oásis do poema.

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